terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Reforma na Previdência deve cortar privilégios de todo mundo, diz Ratinho Junior

Eleito após prometer cortar privilégios, o governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD), afirmou em entrevista à Folha ser favorável à reforma da Previdência proposta pelo governo de Jair Bolsonaro (PSL), mas disse que é preciso cortar “de todo mundo”, inclusive militares.
“A Previdência não é um problema do governo; é um problema do país”, afirmou.
O governador Ratinho Junior em seu gabinete no Palácio Iguaçu, em Curitiba
O governador Ratinho Junior em seu gabinete no Palácio Iguaçu, em Curitiba - Theo Marques/Folhapress
Aos 37 anos, o político, filho do apresentador Ratinho, defende o que chama de “Estado necessário”, com redução de estrutura e secretarias(ele cortou 13 das 28 pastas), mas que preserve o viés social.
Ao mesmo tempo, afirmou não querer “perder tempo” com debates ideológicos como o Escola sem Partido, e diz que seu interesse é oferecer bons serviços à população.

Em sua posse, o sr. prometeu trabalhar pelo “Estado necessário”. O que há de desnecessário no Estado brasileiro atualmente? O volume de repartições. A máquina pública brasileira ainda tem um modus operandi da década de 1970, 1980, quando a tecnologia não estava tão presente nas decisões administrativas. Hoje, não há necessidade disso. O que temos que fazer é diminuir a máquina pública, na questão física. É um custo para o contribuinte. No Paraná, nós reduzimos de 28 para 15 secretarias. Enxugamos, e não mudou nada. O Estado continua prestando serviço. O que mudou foi o custo fixo, que diminuiu.
 
Mas e em termos de conceito? O sr. acha que o modelo econômico social-democrata acabou? Não. Eu acho que o poder público tem que ter um viés social forte, mas sem interferir no dia a dia do cidadão. O Estado tem que ser um indutor para que as pessoas melhorem de vida, em especial nas regiões mais humildes.
 
O sr. prometeu combater privilégios: também pretende fazê-lo no Judiciário e no Legislativo estaduais? Eu vou fazer o que estiver na minha alçada. Até para dar um exemplo para outras áreas. Estamos reduzindo as secretarias, remanejando delegacias para prédios públicos, em vez de alugados. Congelei os salários de secretários e do governador. Não se justifica um aumento de 16%, num momento de crise. Mas eu não posso interferir nos demais Poderes. É uma questão interna deles.
 
Mas o sr. pretende rever ou reduzir os repasses a esses Poderes? Eu não quero tomar uma medida unilateral. Isso tem que ser construído. A melhor estratégia é ter um bom convívio e criar uma agenda positiva em favor do Paraná. Os presidentes [dos outros poderes] têm demonstrado isso. Nós estamos conversando desde a transição. O Paraná está entre os estados que mais repassam recursos para os poderes. Mas eu também não quero deixá-los numa situação em que não consigam honrar os compromissos. Havendo uma agenda em defesa do estado, é uma construção, uma negociação.
 
Como avalia as medidas do governo Bolsonaro até aqui? Eu acho que ele conseguiu montar uma boa equipe. Agora, é ver se essa pauta começa a render para o país. O grande desafio dele é conseguir construir uma boa articulação política.
 
O que achou da proposta da reforma da Previdência? Os governadores têm que estar nessa pauta e apoiar. A Previdência não é um problema do governo; é um problema do país. Se não se resolver, nós vamos ficar rastejando. Se não fizer agora, vai ter que fazer daqui a dois, três anos; estamos perdendo tempo. Agora, a previdência começa acabando com privilégios. Até para que o cidadão fale: “não, realmente, todo mundo está dando um pouquinho de si”. Se você não acaba com os privilégios, a reforma passa a não ter legitimidade.
 
Tem que incluir todo mundo, inclusive militares? Todo mundo. Acho que tudo tem que ser discutido. Acho que pode haver, pontualmente, dependendo da profissão, situações com algum tipo de exceção. Mas tudo tem que ser discutido profundamente.
 
De que forma o sr. pretende construir sua relação com o presidente Bolsonaro? Eu tenho um apreço por ele, um respeito. Torço muito para que dê certo; o país precisa achar um caminho. E acho que vamos encontrar. Estou muito esperançoso, motivado com o novo governo.
Eu quero fazer do Paraná um hub logístico da América Latina. Antes mesmo da posse, conversei com o Bolsonaro sobre o projeto de uma ferrovia bioceânica, que vai ligar o porto de Paranaguá ao porto de Antofagasta, no Chile. É um ganho para a América Latina. Nós queremos que a Itaipu banque o projeto executivo, e depois se faça uma concessão de 40, 50 anos. Também falei com o ministro Paulo Guedes sobre concessões nos aeroportos de Foz do Iguaçu, Londrina e Maringá. São aeroportos que precisam de investimento, aumento de pista. Isso depende de uma decisão administrativa do governo federal: eu quero que eles nos deleguem a responsabilidade de licitar as concessões. Passando para nós, eu nomeio uma equipe só para cuidar disso.
Ratinho Junior, filho do apresentador Ratinho e eleito no Paraná
Ratinho Junior, filho do apresentador Ratinho e eleito no Paraná - Theo Marques/Folhapress
O sr. já esteve em alianças políticas à esquerda, com o ex-presidente Lula e a atual presidente do PT, Gleisi Hoffmann. O que o sr. achou das declarações de Bolsonaro e seus aliados, de que vão combater o socialismo e despetizar o governo? Eu penso que é necessário retomar uma outra agenda política para o país. Nós tivemos um período de redemocratização no final dos anos 1980; depois, uma organizada na gestão pública com o FHC, que arredondou administrativamente o país; e aí veio o governo Lula, com foco muito grande no social. Tirando a parte da corrupção, que não tem nem o que discutir e foi uma lástima, houve um avanço.
Agora, eu nem imaginava que o projeto deles era, realmente, de [implantar] um modelo político dominante, partindo até para uma ditadura, como está acontecendo na Venezuela. Fazer do país um patrimônio político de um partido, de um pensamento. Isso é muito ruim. Foi o que matou eles, tudo isso conectado à corrupção. Era um modelo político dominante, absoluto, não sei nem se pela ditadura. Há como fazer isso pela cultura, pelo sistema educacional, por exemplo.
 
Havia um risco a ser combatido, então? Não tenho dúvida. Eu não quero dizer que ele [Bolsonaro] está certo em falar que vai livrar o Brasil de uma ditadura da esquerda. Mas ele tem que apresentar um modelo para o país, dar uma opção para as pessoas. Elas só vão acreditar no modelo dele, mais à direita, se der certo.
 
Além de governador, o sr. é comunicador e dono de uma rede de emissoras de rádio e TV. Como avalia a declaração de Bolsonaro de que irá democratizar as verbas oficiais de publicidade? Eu acho que ele está seguindo a lei. Você tem que fazer investimento conforme o share de mercado e o público-alvo.
 
Acha que isso pode privilegiar veículos simpáticos ao governo federal? Se ele seguir a regra de share de mercado, não. Vai atender conforme o volume de cada um. Não tem que priorizar A ou B.
 
Qual é seu entendimento sobre o Escola sem Partido? O que pretende aplicar no Paraná? Nós vamos focar no aluno e na parte pedagógica. Nós queremos que nosso aluno tenha um bom aprendizado em português, matemática.  Eu acho que estamos perdendo muito tempo com essas discussões de religião, de opção de gênero... Não é isso que a criança quer! Eu quero que meu filho aprenda inglês, saiba de história, geografia, e se prepare para ser um cidadão de bem. Lá na frente, ele que vai decidir sobre sua vida, não eu.
 
Não é um tema que o sr. queira priorizar, então. De forma alguma. Eu quero formar bons profissionais. Bons engenheiros, bons médicos, cientistas, gestores públicos. Esse é o legado que temos que deixar. O resto é bobagem.
 
E sobre a posse de armas pela população? Eu não acho que armar todo mundo vá resolver o problema da segurança. É uma opinião pessoal. Mas eu também não acho que o Estado tem o direito de não deixar as pessoas terem uma arma em casa. Isso pode ser uma decisão do cidadão. Agora, permitir que ele ande com um revólver aí na cintura, eu tenho um pouco de medo. Segundo os dados que eu tenho, 60% das pessoas que cometem homicídio não têm antecedentes criminais. Cometem homicídio por brigas banais. A mulher tem três vezes mais chance de ser morta por um marido, namorado ou amante armado do que por um bandido. O que eu defendo é que o governo tem que combater as armas ilegais: gente que não tem registro, ou que não tem autorização.

Estelita Hass Carazzai, Folha de São Paulo