terça-feira, 23 de dezembro de 2014

A inovação da supergerente: na escolha dos ministros, o que vale é o prontuário

Com Blog Augusto Nunes - Veja


Em países politicamente adultos, ministros são escolhidos pelo currículo. No Brasil algemado pelo primitivismo, Dilma Rousseff resolveu basear-se no prontuário dos pretendentes para remontar o primeiro escalão. Como informou nesta terça-feira o site de VEJA, anotações antigas não contam ─ todas foram revogadas por serviços prestados ao governo lulopetista. O exame eliminatório se limita à avaliação dos barulhos e estragos provocados pela incorporação à ficha policial de novas anotações, principalmente se vinculadas às bandidagens bilionárias na Petrobras.
O deputado federal Henrique Alves, por exemplo, era um nome certo na lista dos novos ministros. Deixou de sê-lo pela certeza de que vai aparecer boiando no pântano do Petrolão. Dilma insiste em manter nos cargos pecadores que já estavam a seu lado quando o escândalo explodiu ─ teimosia que explica a sobrevivência de Graça Foster e de Edison Lobão. Mas não quer ampliar a procissão de problemas a resolver com a nomeação de auxiliares que antes do discurso de posse estarão depondo no noticiário político-policial.
A instituição do critério do prontuário assombrou o país que já não se espanta com nada. Não seria uma invencionice da oposição essa história de que a presidente pedira a ajuda do procurador-geral da República para não ampliar ainda mais a taxa de criminalidade do Poder Executivo? Não seria outra molecagem da elite golpista a notícia de que Rodrigo Janot rechaçara o pleito que agride normas judiciais elementares? Como acreditar que o emissário designado pelo Planalto ousou replicar que se contentaria com uma relação dos indiciados, dispensando a especificação dos delitos atribuídos a cada um?
Era tudo verdade, confessou numa entrevista coletiva o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. “Fiz ao Janot a ponderação de que gostaríamos de informações sobre nomes que comporiam a nossa equipe independentemente de qualquer detalhamento”, declamou ao som da lira do delírio. “Mas ele ponderou que não poderia fornecer qualquer tipo de informação a respeito da Operação Lava Jato uma vez que essa questão está sob segredo de Justiça”. Quer dizer: o titular do Ministério ao qual está subordinada a Polícia Federal anda à caça de informações que reduzam o número de colegas criminosos.
O monumento ao surrealismo confirma que, como ou sem o reforço dos enredados no Petrolão, a maior concentração de patifes por metro quadrado está na Esplanada de Ministérios. Se estivesse efetivamente decidida a combater a roubalheira, bastaria a Dilma promover uma reunião do primeiro escalão, estender a convocação aos diretores das estatais e, em vez de maltratar o idioma com discursos, dar voz de prisão aos presentes. No segundo seguinte, meio mundo estaria com os dois braços erguidos na vertical..