domingo, 2 de julho de 2017

Livro conta história de livraria frequentada por Hemingway e Joyce

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Dona da livraria La Maison des Amis des Livre, Adrienne Monnier, cujo livro de memórias, 'Rua ndo Odéon', está sendo lançado no Brasil  Foto: Editora Autêntica

Gilles Lapouge - O Estado de S. Paulo



Memórias da dona do estabelecimento que funcionou 

entre 1915 e 1955  são lançadas no Brasil


A Maison des Amis des Livres, uma livraria butique mínima, no lindo bairro de l’Odéon em Paris, foi a mais célebre da França e, possivelmente, da Europa. Por que tipo de alquimia a loja e sua proprietária, Adrienne Monnier, se instalaram no coração da vida intelectual da primeira metade do século 20?
“Adrienne Monnier era uma jardineira”, disse Jacques Prévert e alguém mais precisou: “Ela sabia cozinhar as trufas embaixo das cinzas e assar os frangos”. Eles queriam dizer que esta mulher, que se dedicara de corpo e alma à literatura, praticava sua arte como a pessoa gulosa, rústica e refinada que era. Um pouco primitiva. Uma “desfrutadora” e a poesia a fazia desfrutar. Em suas memórias, Rua do Odéon, Adrienne Monnier completa: “Era uma butique mágica”, e Paul Claudel reitera, “Um paraíso de livros”.
No início, nada está ganho quando se é filha de um funcionário dos correios, quando se tem 23 anos e se ignora tudo de comércio! Para culminar, estava-se em 1915, em plena guerra, “tempo ruim para os livros”. E como Adrienne não tinha dinheiro, ela comprou uma velha loja de cartuchos de armas, minúscula, com o assoalho meio arruinado, uma cadeira de palha como a do quarto de Van Gogh, e um grande aquecedor a carvão. Nas paredes, ela afixou uma porção de retratos de escritores. Flores daqui e dali, e vamos em frente!
Gostaria de dar um relato pessoal. Quando cheguei a Paris, ao fim da outra guerra, em 1946, fui correndo à rue de l’Odéon em vez correr para os cursos da Sciences Po (Instituto de Estudos Políticos de Paris). A mágica butique havia mudado muito pouco. Adrienne estava lá. Eu nunca a vira, mas a conhecia de coração. Era uma dama poderosa, com um rosto primaveril e a tez mais bonita do mundo, o azul dos olhos, um vestido de lã cinzento e, assim me lembro, uma gargantilha branca.
Fiquei paralisado. Falar, nem pensar. Fingi que estava folheando livros, mas via passar sombras leves, Rainer Maria Rilke, Scott Fitzgerald, André Gide, alguns surrealistas, Jean-Paul Sartre, Ezra Pound e havia a sombra de um colosso, uma voz enorme, a de Ernest Hemingway, e centenas de outros cujos traços registravam em silêncio, nos sóis do recinto, como as abelhas rodopiam em torno das flores da primavera e produzem, com todas suas cores misturadas, mel e ouro.
Teria ela um segredo quando abriu a livraria em 1915? Nenhum. Ela amava os escritores e os leitores! Com seu dinheiro curto, não poderia rivalizar com as grandes livrarias. Então ela disse para si: “Não há nenhuma razão para vender um livro a alguém que ignore esse livro”. Assim, ela começou a emprestar o livro e o comprador o devolvia se não gostasse, ou o adquiria se achasse belo. Livros comuns, não livros caros. Textos. Ela os encapava com papel celofane. E a coisa funcionava; lia-se o livro e depois se o comprava. Nem sempre. Com frequência.
Outra regra: ela não podia rivalizar com as grandes, as que seriam hoje a Fnac ou a Amazon. Além disso, em vez de oferecer livros de grande tiragem, os best-sellers etc., ela vendia os livros que amava – poesia, textos raros e livres, sutis, pequenas tiragens, Os primeiros livros de André Gide vendiam 100 ou 200 exemplares, Adrienne os amava. E assim, comprava-se Gide. Nem sempre funcionava. Em 1926, ela vendeu sua própria biblioteca para salvar a pequena butique. Ficou com o coração em frangalhos.
Entretanto, para subir ao firmamento das livrarias, encapar os livros com papel celofane não foi suficiente. Foi preciso juntar a isso amizade, a amizade com os livros, os autores, os leitores. Nesse jogo, Adrienne foi uma campeã. Um dia, Rainer Maria Rilke lhe ofereceu um poema em sua butique. Le Grand Pardon, que dedicou a ela. Adrienne caiu de joelhos e chorou. De noite, ia-se assistir a Josephine Baker e dançar no “baile negro”. E foi nesta “butique mágica” que Paul Robeson cantou Old Man River pela primeira vez.
Para a sociabilidade, havia um superdotado, Ernest Hemingway, daquela “lost generation” formada pelos americanos de Montparnasse, fugindo da ordem moral e sexual dos Estados Unidos; Adrienne gostava muito do escritor francês Jean Prévost (excelente especialista em Stendhal), que praticava boxe. Ela organizou uma luta de boxe com Hemingway. Jean Prévost venceu. Ele quebrou o polegar de Hemingway.Em 1944, Hemingway estava com as tropas americanas que libertaram Paris. Júbilo, alegria, danças; Sylvia, amiga de Adrienne, conta: “Escutei uma voz forte: Sylvia... Sylvia...”. Todas as pessoas na rua repetiram o grito: “Sylvia! Sylvia!”
“É Hemingway”, disse Adrienne. E Sylvia continuou: “Ele me levantou e me fez rodopiar me abraçando enquanto todas as pessoas na rua aplaudiam das janelas.”
Sylvia Beach acabou de entrar furtivamente neste artigo. É bem típico dela. Esta americana, filha de um pastor, era a discrição em pessoa. Foi a amiga de Adrienne com a qual ela viveu 30 anos. As duas mulheres não se escondiam. Sylvia um dia cortou seus cabelos e Adrienne cortou os seus. Elas se amavam, e ponto! Nada de estardalhaço. Sem feminismo agressivo. Uma evidência. Elas compartilhavam a paixão pelos livros.
Sylvia usava tailleurs e gravatas borboletas, óculos com aros de ferro e tinha pernas compridas. Ela viria a criar, à frente da loja de Adrienne, no 12 rue de l’Odéon, uma livraria americana, Shakespeare and Company, que seria, também, um dos faróis entre as duas guerras mundiais. E se engajaria com Adrienne numa das maiores aventuras da vida editorial francesa.
Em Paris, havia um tipo, um irlandês que Sylvia conhecia, que se chamava James Joyce e havia escrito um livro, Ulysses, do qual os que o conheciam diziam que era uma ruptura na literatura mundial. Publicá-lo na América puritana seria uma loucura, mas Sylvia Beach cismou de editá-lo em sua versão original em 1922. Uma longa cena de masturbação repugnou a América. Fim de Ulysses?
As duas mulheres iriam salvá-lo. Na butique de Adrienne, Joyce era admirado. Estava claro que a salvação de Ulysses passaria por uma tradução francesa. Adrienne e Sylvia se ocupariam disso. Elas tinham em mãos tudo que era necessário em matéria de tradutores e escritores. Começou então uma longa odisseia na busca do melhor tradutor, ou melhor, dos melhores tradutores porque um monstro daqueles exigia muitos operários. Em 1929, saía a tradução francesa de Ulysses.
James Joyce mereceria tanta abnegação? Seu livro, com certeza, mas sobre o homem, pairam dúvidas. Quando Joyce, enfim reconhecido, assinou um contrato enorme com a Random House, ele não se lembrou de Sylvia Beach.
A energia e a coragem das duas mulheres venceram. Não demorou muito para Sylvia dar outras provas de sua coragem. Em 1942, um oficial nazista entrou na Shakespeare and Company e pediu Finnegans Wake, de Joyce. Sylvia se recusou a vendê-lo. Um pouco mais tarde, Sylvia foi apanhada numa batida nazista junto com 300 outras mulheres americanas. Elas estavam reunidas no Jardim Zoológico de Paris. Sylvia foi colocada na “Casa dos Macacos”. “Meus amigos vinham me ver, disse ela; eles me saudavam através das grades, como se faz com macacos.”
A coragem de Adrienne era diferente. Certas passagens de Joyce a incomodavam pela sua crueza, sua obscenidade, mas é um grande livro. Por isso ela o publicaria, Em matéria de gostos literários, ela, que mostrava tanto discernimento e que muitas vezes publicara obras desprezadas por seu tempo e que cinquenta anos mais tarde, o mundo inteiro reverenciaria (Michaux, Gide, Lacan, Michel Leiris etc.), não compreendia grande coisa da obra genial de Proust. Mas isso não importava, ela via que era um gênio e o defendia.
Ela não tinha o menor gosto pelos jogos refinados, artificiais e fatigantes do surrealismo, mas respeitava o “grupo do Breton” e o próprio André Breton frequentava sua butique: peremptório, majestoso e grandioso, de uma polidez igualmente refinada – e ela ajudaria Breton e os surrealistas. Paul Claudel não a encantava, mas o escritor a fascinava. Ela o recebia.
Após a guerra, em 1946, quando fui lhe fazer uma saudação muda e petrificada, ela havia retomado seu trabalho na livraria minúscula que continuou sendo uma das grandes livrarias do mundo. Depois, ela adoeceu e conheceu oito meses de martírio. Em junho de 1955, ela se suicidou. “Vou para a morte sem temor, sabendo que encontrei uma mãe ao nascer e que eu encontrarei uma igualmente na outra vida.” /Tradução de Celso Paciornik



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