sábado, 29 de julho de 2017

Com Dunkirk, Christopher Nolan muda o gênero de guerra

Nina Finco - Epoca

O cineasta inglês reescreve as narrativas dos filmes de guerra e faz sua obra-prima



Soldados se amontoam para fugir no filme  Dunkirk (Foto: Divulgação)


Não é fácil contar uma boa história. Mais complicado ainda é fazer isso de forma original. Em Hollywood, os cineastas se extenuam para criar uma assinatura que se destaque, um estilo que seja reconhecível logo nas primeiras cenas de um filme. Clint Eastwoodconseguiu essa façanha, mesmo com obras de narrativas sequenciais, que seguem uma direção retilínea no tempo e espaço, sem grandes ousadias. Ele faz filmes tradicionais, aos quais dá um toque de austeridade, que se tornou sua marca pessoal. No extremo oposto, David Lynch fez fama com narrativas nada convencionais. As tramas de seus filmes são compostas de histórias aleatórias que guardam uma desconcertante falta de relação entre elas. Não entendeu absolutamente nada de um filme? Deve ser obra de Lynch.
O diretor inglês Christopher Nolan, de 46 anos, criou sua marca em Hollywood com um estilo que está no meio do caminho entre Eastwood e Lynch. Seus filmes não costumam seguir a estrutura narrativa clássica, mas tampouco descambam para o surrealismo. Sua cinematografia é marcada pelo uso não linear do tempo e pela intensidade com que aborda seus temas, sejam eles aventuras de super-heróis, fantasias mirabolantes ou dramas da vida real. Na última quinta-feira, dia 27, Nolan estreou seu mais novo filme Dunkirk – o melhor de sua carreira até agora. O longa-metragem narra a Operação Dínamo, que, durante a Segunda Guerra Mundial, retirou mais de 300 mil soldados britânicos da França ocupada pelos nazistas pela pequena Praia de Dunquerque. A operação é cercada de mistério até hoje. Nunca se esclareceu por que os soldados comandados por Hitler não dizimaram os britânicos, apesar de terem tido oportunidade para tal.
Com uma hora e 45 minutos, esse é o filme mais breve de Nolan. É uma das maiores virtudes da obra, já que o diretor havia pesado a mão na duração de títulos anteriores como A origem (2010) e Interestelar (2014). A concisão, porém, é só uma das qualidades de Dunkirk. O filme faz o espectador se empertigar na ponta da cadeira e roer as unhas dos dedos de nervoso ao contar uma só história a partir de três pontos de vista com intervalos temporais diferentes. Na praia, onde estão os soldados, a trama se desenrola por uma semana. No ar, os aviões se digladiam à distância por uma hora. No mar, onde três civis se voluntariam para ajudar, a jornada dura um dia. Aos poucos, os acontecimentos se sobrepõem e, eventualmente, convergem.
“O tempo é um personagem nos filmes de Nolan”, afirma Tom Brislin,  professor da Faculdade de Artes e Humanidades da Universidade do Havaí e autor de um estudo sobre a obra do cineasta. “Todos os filmes manipulam o tempo de alguma forma: comprimem, adiantam, voltam. Mas Nolan faz isso de uma forma ainda mais radical. Ele mexe tanto na estrutura narrativa quanto na definição dos personagens. Isso é muito desafiador para o público, que se envolve ainda mais com o filme.” Em Amnésia (2000), Nolan conta uma história de trás para a frente, da mesma forma que o personagem principal, que sofre de perda de memória recente, compreende o mundo. Ninguém, dentro ou fora da tela, sabe o que aconteceu antes nem tem noção do contexto. Segundo Stuart Joy, professor da Faculdade de Mídia, Artes e Tecnologia da Southampton Solent University e coautor do livro The cinema of Christopher Nolan, a abordagem não linear do diretor dialoga com um público que convive no dia a dia com mídias cada vez mais fragmentadas. “O próprio Nolan cita o desenvolvimento do VHS e do DVD como um incentivo para esse tipo de experiência, que se tornou ainda mais evidente com a internet.” O sucesso de bilheteria dos filmes de Nolan comprova esse argumento.
Filmado em formato IMAX (câmeras especiais de altíssima qualidade que permitem que os filmes sejam exibidos em telas de cinema gigantescas), Dunkirk arrasta o público para dentro de cenas angustiantes de naufrágio, longas esperas e fugas desesperadas. A trilha é pontuada por efeitos sonoros que imitam uma espécie de tique-taque constante: um lembrete de que o tempo está passando para os personagens e que um segundo pode ser a diferença entre a vida e a morte.
Nolan reescreve as regras dos filmes de guerra. Os soldados não estão em combate, e sim fugindo. Não há um protagonista viril ou honrado que salva a todos. Desesperados para voltar para casa, os militares de Dunkirk são constantemente humilhados e experimentam situações apavorantes. De heróis, eles se igualam a civis desamparados. A guerra se mostra um esforço sem sentido, em vez de um empreendimento épico a unir uma nação.
Em Dunkirk, os soldados não são heróis. Na luta pela sobrevivência, eles se igualam a civis desamparados
Esse mesmo olhar dolorosamente real foi o que mudou a visão do público em relação ao super-herói dos quadrinhos Batman. Em 2005, Nolan assumiu a direção de Batman begins – primeiro longa-metragem de uma trilogia estrelada por Christian Bale. Depois de anos de filmes que beiravam a comédia, com personagens caricatos e tramas leves, chegou às telonas uma história sombria, no mesmo tom das cores negras da capa do homem-morcego. “Nolan transformou o super-herói em anti-herói e tornou o super-humano profundamente humano, com todas as falhas, tristezas e ansiedades que todos nós temos”, afirma Brislin. “Enquanto o antigo super-herói dos quadrinhos é um ser completo e satisfeito, o super-herói contemporâneo sofre com um vazio e busca a realização.” O maior êxito de Nolan foi ligar a saga de Batman à morte de seus pais. “Grande parte do primeiro filme é sobre a jornada de Bruce Wayne para entender seus traumas, deixando claro que o filme é o estudo de um personagem, antes de ser um filme de ação”, diz Joy.
Apesar de já ter deixado sua marca na história do cinema, Nolan não está a salvo de críticas. Ele é figurinha repetida em diversas listas dos filmes mais confusos do século XXI. Por causa da complexidade das narrativas que cria, Nolan, muitas vezes, concentra suas histórias em um único personagem que leva o enredo  adiante – ou para trás ou até em círculos. É fácil para o público se perder no labirinto de suas ideias mirabolantes. Um dos filmes que mais dividiram opiniões foi Interestelar, que brinca com teorias científicas complexas e parece soltar a mão do público na última parte: entenda se puder.
Mesmo em obras menos bem-sucedidas, Nolan consegue prender a atenção do público graças à empatia despertada por seus personagens. Amnésia é movido por vingança. Batman: o Cavaleiro das Trevas (2008) e A origem focam em culpa. Em Dunkirk, não há um único protagonista, mas a audiência se apega à luta pela sobrevivência dos personagens.
Talvez por isso esse seja o filme que finalmente levará Nolan ao palco para receber a estatueta de Melhor Filme na próxima cerimônia do Oscar. A despeito das críticas, o diretor insistiu em seu estilo impetuoso e intrincado. Saiu vitorioso, ostentando uma obra-prima.
Revira volta  (Foto: Época)

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