sábado, 29 de julho de 2017

PT associa-se a uma fracassada 'gangstercracia', segundo Clóvis Rossi

Evaristo Sá - 11.jul.2017/AFP
Brazilian opposition Senator Gleisi Hoffmann delivers a speech during the vote of the labor reform at the National Congress in Brasilia, on July 11, 2017. Oliveira suspended the session and the lights of the plenary were turned off to put an end to a protest, seven hours later the session resumed and the law was passed with 50 votes in favour and 26 against. / AFP PHOTO / EVARISTO SA ORG XMIT: ESA512
A presidente do PT, Gleisi Hoffmann


Folha de São Paulo

O PT tornou-se oficialmente sócio de um monumental fracasso, ao endossar declaração de apoio ao governo de Nicolás Maduro emitida pelo Foro de São Paulo, o conglomerado de partidos esquerdistas latino-americanos.

Pode ser que haja gente no PT que não concorde, como mostrou na quinta-feira (27) reportagem nesta Folha da sempre excelente Catia Seabra. Mas como o endosso foi dado pela presidente do partido, a senadora Gleisi Hoffmann, sou obrigado a tomá-lo como decisão partidária, até porque não vi nenhum voz discrepar em público.

Associar-se ao fracasso já é suficientemente grave para qualquer partido que queira ser governo, mas torna-se uma perfeita idiotia quando se conhece o caráter do governo que se está apoiando. Não é só uma ditadura, o que já seria brutal.

A "Economist" que está nas bancas acrescenta um segundo horror: rotula o governo Maduro como "thugocracy" ("gangstercracia" ou governo de gângsteres).

Gleisi e o PT não acreditam na revista britânica? Então, anote a informação de um esquerdista convicto, o ex-ministro do Planejamento do chavismo, Jorge Giordani. Segundo ele, do US$ 1 trilhão (R$ 3,13 trilhões) que o governo venezuelano recebeu durante o "boom" do petróleo na década passada, mais de US$ 300 bilhões (R$ 941 bilhões) foram roubados ou desviados.

É dinheiro capaz de transformar os roubos revelados pela Lava Jato em troco miúdo. O PT, já suficientemente enrolado na Lava Jato, podia poupar-se do vexame de atravessar a fronteira para chafurdar na lama do vizinho.

Há outro aspecto relevante nessa associação com o crime e o fracasso. É a incoerência apontada, por exemplo, pelo jornalista argentino Ernesto Tenembaum, que está no sítio Infobae, mas já foi do jornal esquerdista "Página 12":

"Que direito, por exemplo, tem Lula de criticar uma sentença judicial quando tolera que um aliado prenda milhares e assassine dezenas"? (Na verdade, já são centenas).

Se Gleisi não acredita em jornalistas, a não ser naqueles que só sabem bajular seu partido, que leia então um ícone da esquerda, o linguista Noam Chomsky, que sempre defendeu não só o governo Lula mas também os demais governos supostamente de esquerda que se instalaram na América Latina.

Eis o que disse Chomsky em recente entrevista à rádio "Democracy Now", que reproduzo na íntegra no trecho referente à Venezuela, inclusive com as falhas normais na linguagem oral:

"A Venezuela é realmente uma situação desastrosa. A economia depende do petróleo em grande –provavelmente em dimensão maior do que jamais no passado, certamente muito alta. E a corrupção, a roubalheira etc, tem sido extrema, sob –especialmente depois da morte de Chávez".

É a tal "gangstercracia" apontada pela "Economist".

Tem mais: "Se você olha para, digamos, o Índice de Desenvolvimento Humano da ONU, a Venezuela ainda está acima do Brasil". Consola-se Chomsky: "Então (por causa do IDH), há esperanças e possibilidades para a reconstrução e desenvolvimento. Mas a promessa dos anos iniciais foi significativamente perdida".

Combina com Chomsky a avaliação do jornalista Tenembaum: "Na Venezuela, ocorreu o que costuma acontecer cada vez que alguém sustenta que é necessário vulnerar as liberdades públicas para produzir uma transformação social: o único que se consegue é terminar com a liberdade e acentuar os problemas sociais".

Bingo. Alguns dados para Gleisi e o PT se informarem sobre os problemas econômicos e sociais:

1 — Cerca de 11,4% das crianças venezuelanas são subnutridas;

2 — A economia vai retroceder em 2017 pelo terceiro ano consecutivo, com o PIB caminhando para desabar 20,7% em relação a seu nível de 2014, fracasso que nem o desastre Dilma/Temer conseguiu produzir.

3 — A inflação deve atingir 1.700%.

4 — Pesquisa de três universidades sobre as condições de vida mostra que 82% dos lares venezuelanos vivem na pobreza, o que transforma o país no mais pobre da América Latina.

"Pela primeira vez na história, chegamos a 82% dos lares na pobreza", diz Ángel Oropeza, um dos membros do grupo que fez o estudo.

Antes de adular o regime venezuelano, Gleisi poderia ao menos ter se dado ao trabalho de ler recente manifesto de mais de 250 intelectuais e acadêmicos de esquerda no qual se lê, por exemplo:

"Não acreditamos, como certos setores da esquerda latino-americana, que devemos defender acriticamente o que é apresentado como um 'governo anti-imperialista e popular'. O apoio incondicional oferecido por certos ativistas e intelectuais não apenas revela cegueira ideológica mas é prejudicial pois, lamentavelmente, contribui para a consolidação de um regime autoritário".

Assina, entre outros tantos, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, outro clássico na defesa e na propaganda da esquerda latino-americana.

Pois é, Gleisi, sua cegueira ideológica levou-a a reafirmar a sociedade com um fracasso autoritário. Você e o PT.


Nenhum comentário:

Postar um comentário