sexta-feira, 21 de julho de 2017

Henrique Meirelles, o fiador da estabilidade

Crédito: Divulgação
INTOCÁVEL Com experiência em cargos públicos e no setor privado, Henrique Meirelles virou unanimidade entre empresários e investidores (Crédito: Divulgação)

Obstinado em disciplinar as contas públicas e recuperar a economia, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, paira acima das incertezas políticas. Qualquer que seja o desfecho da crise, todos apostam que ele conduzirá a equipe econômica até as eleições de 2018. E os resultados estão aí para mostrar que é prudente mantê-lo


Bárbara Libório - IstoE


A crise política instalada em Brasília lançou o País num mar de incertezas. O segundo semestre se avizinha revolto para o Palácio do Planalto e nem mesmo os auxiliares do presidente Michel Temer são capazes de fazer vaticínios para além do estado atual da maré.
No quinto andar do Ministério da Fazenda, no entanto, um personagem move-se acima do imponderável das ondas e das correntezas políticas: o ministro Henrique Meirelles. Qualquer que seja o desenlace da crise, Meirelles dificilmente arredará o pé do gabinete responsável por conduzir a economia do País ao menos até as eleições de 2018. Hoje, representa a âncora da estabilidade.
Diante do cenário de caos e do desalento do brasileiro com a política, o ministro, presidente do Banco Central durante os dois mandatos de Lula e dono de sólida carreira no mercado financeiro, é visto como o fiador da credibilidade brasileira. Aquele que, independente de quem esteja no comando do governo, garantirá o crescimento do País de maneira sustentável.
Ou seja, se é quase unânime na capital federal o sentimento de que “ninguém está a salvo”, Meirelles e sua equipe econômica são hoje o que há de mais estável na conjuntura política e econômica do País. Em qualquer time, o ministro é titular. Em qualquer barco, é o timoneiro da economia.
Quando assumiu o ministério, em maio de 2016, o Brasil ainda vivia uma severa crise econômica. O País havia fechado quase 72.615 mil vagas de trabalho, a inflação estava longe do teto da meta e a confiança de consumidores e empresários abaladíssima. Foi necessário pouco mais de um ano para que o ministro arrumasse a casa. No primeiro semestre deste ano, o Brasil assistiu ao primeiro resultado positivo do PIB em dois anos e ao terceiro mês consecutivo de abertura de postos de trabalho.
E enquanto a inflação, que registrou 2,1% no acumulado de 12 meses e 1,5% em 2017, deve encerrar o ano próxima dos 3%, quer dizer, muito abaixo da meta de 4,5%, a taxa básica de juros, a Selic, que estava em 14,25%, deve chegar a 8% até dezembro.
Os índices são resultados de um trabalho que começou imediatamente após a posse de Temer. O primeiro passo, e também o primeiro triunfo de Meirelles, foi a aprovação de um teto para gastos públicos junto a desvinculação de despesas com saúde e educação. A PEC do teto de gastos, como ficou conhecida, é essencial para o ajuste fiscal, bandeira defendida por Meirelles desde o início do governo para reverter a trajetória da dívida pública e devolver a confiança aos investidores quanto à capacidade de pagá-la.
O ajuste, no entanto, só é possível mediante a contenção de gastos com a Previdência. Foi por isso que o governo, guiado pela equipe do Ministério da Fazenda, propôs a reforma do sistema previdenciário. Foi também para estimular o crescimento da economia, a criação de empregos e dar mais tranquilidade aos empresários, que o governo conseguiu a aprovação da reforma trabalhista, modernizando as leis que regulam o trabalho e que remontavam à década de 40.
Ministro perene
Os resultados da agenda econômica do governo foram mais do que suficientes para tornar Meirelles o nome de confiança de investidores, empresários e economistas. A ISTOÉ ouviu uma dezena deles. O sentimento é o mesmo: a troca do ministro da Fazenda e sua equipe podem ser tão ou mais traumáticas que uma mudança no comando da Presidência.
Segundo Marco Maciel, economista para o Brasil e América Latina da Bloomberg Intelligence, o mercado não enxergaria com bons olhos a entrada de um novo ministro com perfil e ideias dissociadas das de Meirelles. “O câmbio bateria rapidamente os US$ 3,40 e acionaríamos novamente o circuit breaker (a parada de operações da bolsa de valores)”, diz.
O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, possível sucessor de Temer em um governo interino, está alinhado com o ministro e tem defendido as reformas encabeçadas por ele. Na última quarta-feira 19, os dois se reuniram para discutir a medida provisória que cria uma nova versão do Refis, o programa de refinanciamento de dívidas de pessoas jurídicas e físicas. “É tão claro o consenso da competência de Meirelles e sua equipe, que não consigo enxergar, independente de qualquer turbulência política, alguém que fosse se atrever a tocar na equipe econômica e nas suas conquistas”, afirma Flávio Rocha, presidente da Riachuelo.
Meirelles é, desde a década de 1990, cortejado por políticos conhecedores de sua competência na área econômica. Ele fez carreira no BankBoston, onde trabalhou por 28 anos e chegou a assumir o cargo de presidente mundial da instituição financeira. Nos Estados Unidos, Meirelles esteve entre os mais populares membros da corte do ex-presidente americano Bill Clinton.
Ao voltar ao Brasil, em 2002, foi cooptado pelos tucanos e concorreu pelo PSDB ao cargo de deputado federal por Goiás – na ocasião, foi eleito com o maior número de votos no estado. Em 2003, quando procurava um nome que lhe desse respaldo junto ao empresariado, Lula o escolheu para o comando do Banco Central. Para acalmar o mercado, a indicação chegou ao Senado ainda no governo do tucano Fernando Henrique Cardoso.
Sua gestão foi turbulenta, mas alcançou resultados sólidos: depois de herdar uma inflação de 12,53% em 2012, estabeleceu uma dura política monetária e levou o índice para 3,14% em 2006 – e essa seria a única vez em que a inflação fecharia o ano abaixo da meta. “O Meirelles é muito respeitado internacionalmente”, afirma o cientista político e professor da Universidade de Brasília (UnB) David Fleischer. “Sua nomeação ajudou Lula a vender a imagem de um governo sério”.
A relação com a sucessora de Lula, no entanto, nunca foi boa – a ex-presidente Dilma Rousseff rejeitou-o como vice em sua chapa e também rechaçou a ideia de mantê-lo na presidência do BC ou ainda de colocá-lo no Ministério da Fazenda, como Lula queria. Por isso, em 2012, Meirelles partiu para o setor privado e presidiu o Conselho Consultivo da J&F, a empresa dos irmãos Joesley e Wesley Batista.
SINTONIA FINA A harmonia entre ministro da Fazenda e presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn (foto), é fundamental para a retomada econômica (Crédito:ADRIANO MACHADO)
Homem das reformas
Além de reconhecido pela melhora nos índices econômicos, Meirelles tornou-se o avalista das reformas. Grande defensor das mudanças no sistema previdenciário e nas leis trabalhistas, sua permanência no poder é a esperança de que elas sejam aprovadas independentemente da crise política.
A reforma trabalhista já recebeu a sanção presidencial. Resta agora a aprovação da reforma previdenciária. Sem ela, o teto para gastos públicos se tornará incompatível com a realidade orçamentária do País a partir de 2020. Perseverante na missão de conter os gastos públicos e cumprir o déficit fiscal de R$ 139 bilhões este ano, o ministro anunciou na última quinta-feira 19 o aumento de tributos que incidem sobre os combustíveis, o PIS e o Cofins.
A arrecadação adicional com o aumento dos impostos e outras receitas extraordinárias deve superar a casa dos R$10 bilhões. É uma demonstração clara de que, obstinado em cumprir os compromissos macroeconômicos, Meirelles empenha-se para colocar a economia nos trilhos, custe a quem custar. Sua gestão, baseada na firmeza de propósitos, estabeleceu princípios e a ferro e fogo trabalha para cumpri-los.
Demonstra aos agentes econômicos que assumiu o ministério mais importante do País para apresentar um jogo sério – mesmo impondo um ajuste amargo, mas fundamental para a disciplina das contas públicas. O aumento de impostos, por exemplo, integra um pacote de medidas duro de digerir pela população. É compreensível.
O peso dos tributos incide diretamente na renda do brasileiro. É uma conta inversamente proporcional. O imposto aumenta, a renda cai. Ocorre que a elevação da carga tributária nunca esteve no horizonte da equipe econômica. É uma espécie de mal necessário cujos benefícios serão sentidos mais adiante – além de uma resposta ao um Congresso que ameaça não cumprir o seu papel.
A determinação de Meirelles no ajuste das contas públicas é também o que o faz ser bem avaliado pelos investidores internacionais. “Há duas personalidades que impressionam lá fora: o Meirelles e o Ilan Goldfajn, atual presidente do Banco Central”, diz Carlos Langoni, ex-presidente do BC. “A leitura é de que, pela primeira vez, você tem uma atuação muito homogênea entre o presidente do Banco Central e o ministro da Fazenda. Os dois se complementam”.
Para o suíço Matthias Scupp, CEO da Neodent e vice-presidente do Grupo Straumann para a América Latina, no atual cenário brasileiro, “importa mais a competência da equipe econômica do que o nome do presidente da República”. “Meirelles e toda sua equipe têm mão firme e visão”, diz Scupp.
Não por acaso, o nome de Meirelles não deixa de ser uma opção até mesmo para a sucessão presidencial caso ocorram eleições indiretas. “O que nós gostaríamos de ver é o surgimento de um Emmanuel Macron (presidente da França) brasileiro”, diz Langoni. “Coincidência ou não, Macron é economista, foi ministro da Fazenda e mostrou uma liderança política que surpreendeu a França, implodindo os partidos tradicionais”.
Há espaço também para 2018. Para Fleischer, uma eventual não candidatura de Lula abre oportunidades para novos nomes, entre eles Meirelles. “Ele pode ser considerado um ‘outsider’ e é querido pelo setor privado e financeiro, além de ser bem articulado na política”, afirma. Escaldado, Meirelles tem fugido de perguntas sobre o assunto. Em suas últimas aparições, avaliou que Temer fica no governo e sinalizou que continua no comando da equipe econômica mesmo que o presidente deixe o cargo. É o que pedem investidores, e é o que pede o País: estabilidade, enfim.
GARANTIA Rodrigo Maia, presidente da Câmara, já garantiu que manterá Meirelles, caso assuma o País (Crédito:Jorge William)
O QUE VEM PELA FRENTE
– Caso STF aceite processo contra o presidente, Temer é afastado e Maia assume interinamente
– No dia 2 de agosto o plenário da Câmara vai decidir se o STF deve prosseguir com a ação contra Temer
– Temer precisa que 172 deputados federais votem contra a denúncia ou se abstenham. Nesse caso, o processo contra o presidente é encerrado.
– Se 342 deputados votarem pela validade da denúncia, ela seguirá para o Supremo.
– No STF, os ministros decidiriam se aceitam ou não o processo contra o presidente. Caso seja aceita, ele se torna réu é afastado por 180 dias, período em que Rodrigo Maia assumiria interinamente.
– No caso de condenação de Temer com trânsito em julgado, caberia a Maia convocar eleições indiretas para a escolha de um novo presidente

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