domingo, 5 de abril de 2026

'Uma sábia decisão de Flávio Bolsonaro', por Flávio Gordon

Seu não comparecimento ao evento do grupo Lide, criatura social do inadmissível João Dória, foi um raro ato de higiene mora


O senador pelo Rio de Janeiro e pré-candidato à Presidência da República pelo Partido Liberal, Flávio Bolsonaro, recusou convite para participar de evento do Grupo Lide nos Estados Unidos - Foto: Ton Molina/FotoArena/Estadão Conteúdo


Há convites que honram o convidado. E há aqueles que lhe metem numa arapuca. Há alguns dias, Flávio Bolsonaro recebeu um convite do segundo tipo, mas, felizmente, teve a sabedoria de recusar. Seu não comparecimento ao evento do Grupo Lide, criatura social do inadmissível João Doria, foi um raro ato de higiene moral num ambiente saturado de pestilência. 

Segundo noticiado, o presidenciável simplesmente declinou de participar do encontro em Nova York, apesar de já figurar como palestrante na programação. A decisão, em si, diz mais do que qualquer discurso. Porque, no Brasil de hoje, não comparecer a certos eventos é, muitas vezes, a única forma de não legitimar aquilo que neles se celebra.

E o que se celebra no Lide? Não é o empreendedorismo, como sugere a embalagem publicitária, mas uma espécie de convescote permanente entre empresários dóceis e autoridades que transformaram o aparato estatal em instrumento de poder discricionário. Ali, a nata daquilo que se poderia chamar de juriscleptocracia nacional brinda a si mesma — entre taças de vinho e discursos vazios sobre “democracia”, a ficção retórica preferida no Brasil.

Não é de hoje que o clubinho doriano reúne figuras como Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski — protagonistas de um arranjo institucional que dissolveu as fronteiras entre julgar e governar. Em encontros desse tipo, não se debate o país: administrase, nos bastidores, o regime.


De Jair a Flávio Bolsonaro 

É inevitável lembrar de Jair Bolsonaro neste contexto. Foi ele o principal alvo desse sistema, e é precisamente por isso que seu filho não tinha o que fazer naquele ambiente. Comparecer seria, no mínimo, um gesto de condescendência; no limite, uma forma de cumplicidade. 

Afinal, o Lide tem sido a casa dos praticantes de adelismo judicial — os responsáveis pela prisão ilegal e pela tortura continuada do ex-presidente. A recusa de Flávio, portanto, não é um capricho, mas um recado. Num país em que tantos se apressam a frequentar qualquer salão que lhes ofereça prestígio instantâneo, dizer “não” tornou-se um ato político. E, mais do que isso, um ato de lucidez.  

Porque há lugares em que a presença não engrandece — apenas infecta.