sexta-feira, 10 de abril de 2026

'A moça do batom', por Cristhyan Costa

Em sua primeira entrevista, Débora Rodrigues relata a vida na cadeia, as ameaças de outras detentas, a separação dos filhos e a rotina em prisão domiciliar depois da condenação pelo 8 de janeiro


Débora Rodrigues conversa com a Revista Oeste pela primeira vez depois da condenação do 8 de janeiro - Foto: Rodrigo Prata/Revista Oes


O gramado do amplo jardim termina onde começa a calçada de cimento. É ali que se ergue a fronteira invisível que delimita os passos de Débora Rodrigues, 40 anos. Embora esteja autorizada a ir até a rua, ela evita ultrapassar esse limite — teme que a tornozeleira eletrônica dispare. Na casa com ares de chácara, em Paulínia, no interior de São Paulo, não há grades além dos muros. Ainda assim, a sensação é de que barras imaginárias cercam a cabeleireira que ficou conhecida por escrever, com um batom, na Estátua da Justiça do Supremo Tribunal Federal (STF), a frase “perdeu, mané”. A expressão havia sido dita meses antes, em Nova York, pelo então ministro do STF Luís Roberto Barroso. 

“Desculpem a falta de jeito, faz tempo que não recebo gente aqui”, disse Débora, com timidez, enquanto conduzia a reportagem da Revista Oeste para a sala de TV a poucos metros dali. O espaço simples é decorado com vários retratos da família. Quem entra pela porta de madeira e atravessa o longo tapete com estampa de triângulos logo se depara com um mosaico de fotografias pendurado na parede. As imagens registram o casamento de Débora com o pintor Newton dos Santos e os aniversários de Caio e Rafael, os dois filhos do casal.


Débora Rodrigues, o marido Newton dos Santos e os filhos Caio e Rafael - Foto: Rodrigo Prata/Revista Oeste

Agonia no cárcere 

Ao se sentar em um sofá cinza escuro, localizado diante da janela que ilumina o ambiente, Débora cruza as pernas e aproveita para coçar a região onde fica a tornozeleira eletrônica. “Incomoda bastante”, explica, ao referir-se ao equipamento que usa desde que saiu do sistema prisional, em março de 2025, depois de o ministro Alexandre de Moraes autorizar a volta para casa. O objeto a faz lembrar da manhã de 17 de março de 2023, dia em que foi levada pelos agentes da Polícia Federal (PF). Débora dormia com o marido e as crianças na mesma cama quando escutou batidas fortes no portão. Enquanto Newton, que já suspeitava de quem seria, atendia os agentes, 

Débora correu assustada e se trancou no banheiro. De lá, tentou telefonar para uma advogada, mas não conseguiu contato. Ainda de pijama, hesitou em sair quando os policiais entraram na residência e só deixou o local devido à advertência de que a porta seria arrombada. Com um mandado judicial, a PF começou a revirar todos os cômodos do imóvel. Na sala, Débora tentava tranquilizar as crianças. Disse que sairia apenas para prestar esclarecimentos e voltaria em seguida. Pouco depois, deixou a casa algemada. 


Débora Rodrigues com a tornozeleira eletrônica - Foto: Rodrigo Prata/Revista Oeste

Os dois anos e 11 dias seguintes seriam um “inferno pessoal”, como ela mesma descreve. Entre idas e vindas de Rio Claro a Tremembé, no interior paulista, Débora foi transferida diversas vezes de unidade prisional. Sem saber quanto tempo permaneceria presa, passou a conviver com um ambiente que descreve como “hostil”. O cheiro da cela foi uma das primeiras impressões que a marcaram. “É algo que eu nunca vou esquecer”, contou. “Um cheiro forte de fezes, urina e cigarro.” No início, ficou sozinha em uma cela apertada, quase sem luz. Chegou a pegar piolhos — o que gerou crises de coceira. Quando havia água, era fria. E, não raro, vinha com vestígios de penas dos urubus que sobrevoavam o complexo. 

Com a luz que entrava pelas frestas, Débora conseguia ler a Bíblia que ganhara da família. Quando passou a dividir a cela com outras detentas, veio o receio: como seria recebida? Isso porque a maioria das internas é de esquerda. Num primeiro momento, evitou revelar o motivo da prisão. Disse que era traficante. A versão durou pouco. As perguntas se multiplicaram — e ela não conseguiu sustentar a história. A reação foi imediata. Passou a ser tratada com hostilidade pelas outras mulheres. 




Durante esse período, permaneceu vários dias sem contato com a família. As visitas ainda não haviam sido autorizadas e ela não tinha informações sobre quando poderia rever os filhos. A incerteza aumentava a sensação de isolamento dentro da unidade. Quando finalmente reencontrou os parentes, percebeu sinais do impacto emocional provocado pela separação. Caio, o primogênito, já não sorria como antes. “Escolhi esse nome, por significar ‘alegria’”, disse. “Mas ele deixou de sorrir.”

Em uma das transferências (não comunicada à defesa) para a unidade de Tremembé, enfrentou o momento que considera o mais difícil. Débora chegou a ser ameaçada de morte por outra detenta, além de ter ficado vários dias sem conseguir dormir em razão do frio. Permaneceu no local por 45 dias antes de retornar à unidade onde estava anteriormente. Nesse período, trabalhou para reduzir a pena e “manter a cabeça ocupada”, enquanto aguardava atualizações do STF. “Três dias trabalhados correspondem a uma remição”, exemplificou. 

 Ela enviava ao marido o dinheiro recebido pelas atividades desempenhadas na cadeia para ajudar no pagamento dos advogados. A defesa sempre tentou regime domiciliar para a mulher, sobretudo por causa dos filhos, hoje com 11 e 8 anos. Moraes, contudo, negava todos os pedidos. O mesmo benefício fora concedido anos antes a Adriana Ancelmo, ex-mulher do governador Sérgio Cabral, presa pela Lava Jato. O descaso de Moraes era o mesmo da Procuradoria-Geral da República (PGR), que levou mais de um ano para formalizar a denúncia, algo que por si só levaria à anulação da prisão preventiva. A mesma PGR sempre emitiu pareceres em favor da manutenção da cabeleireira em regime fechado. A Procuradoria mudou de ideia apenas quando o processo, denunciado à exaustão pela Revista Oeste desde o primeiro dia, passou também a ser noticiado por veículos da velha imprensa.

Em um despacho, Moraes justificou a manutenção da prisão pela “periculosidade social” apresentada por Débora. “Não merece prosperar o pleito pela substituição da prisão preventiva pela prisão domiciliar”, determinou o ministro. “Na presente hipótese, permanece possível a restrição excepcional da liberdade de ir e vir, ante a periculosidade social e a gravidade das condutas atribuídas à ré, conforme denúncia oferecida pela PGR.” 

O entendimento se manteve na condenação, somado a outros argumentos: “Débora [Rodrigues] dos Santos destruiu e concorreu para a destruição, inutilização e deterioração de patrimônio da União, ao avançar contra as sedes do Congresso Nacional e do STF, fazendo-o com violência à pessoa e grave ameaça, emprego de substância inflamável e gerando prejuízo considerável para a União”. 


Débora Rodrigues dos Santos ficou conhecida por escrever com um batom na Estátua da Justiça, em frente ao Supremo Tribunal Federal (STF), a frase “perdeu, mané”, em 8 de janeiro de 2023 - Foto: Reprodução 

8 de janeiro 

Entre janeiro e março de 2023, antes de ser presa pela primeira vez, Débora viveu sob tensão constante. A imagem em que aparece escrevendo na estátua do STF já circulava amplamente e viralizava nas redes. Veículos de imprensa passaram a tentar identificar os envolvidos nos atos. Débora recebeu várias ligações da autora da foto — uma jornalista da Folha de S.Paulo —, mas não atendeu às chamadas. 

O silêncio era, segundo Débora, uma forma de tentar entender a dimensão que o caso havia alcançado. Em meio ao clima de mobilização que se espalhou pelo país depois das eleições de 2022, Débora decidiu viajar a Brasília na véspera dos atos — acreditava que seria uma manifestação pacífica. Dizia querer cobrar respostas sobre o processo conduzido pelo Tribunal Superior Eleitoral e manifestar críticas ao governo recém-empossado. 


Na entrada da casa de Débora Rodrigues tem um mosaico de fotografias pendurado na parede. As imagens registram o casamento de Débora com o pintor Newton dos Santos e os aniversários de Caio e Rafael, os dois filhos do casal - Foto: Rodrigo Prata/Revista Oeste


Na manhã de 8 de janeiro, Débora seguiu com o grupo até a Esplanada dos Ministérios. Foi nesse contexto que escreveu, com um batom, a frase “perdeu, mané”, a pedido de um homem que participava do protesto. De acordo com Débora, ela não imaginava que o gesto ganharia a repercussão que teve. “Eu me arrependo muito do que fiz naquele dia”, admitiu. 


Vida suspensa 

Hoje, a rotina de Débora limita-se aos cômodos da casa em Paulínia. Desde que passou ao regime domiciliar, permanece sendo monitorada pela tornozeleira e depende de autorização judicial para sair da residência. Atividades simples, como retomar o trabalho como cabeleireira ou frequentar cultos presenciais, são proibidas. Grande parte do tempo é dedicada às tarefas domésticas e ao acompanhamento dos filhos, cuja rotina também foi afetada pelo período em que ela permaneceu presa.

Até hoje, as crianças demonstram sinais do impacto emocional provocado pela separação. Sempre que escutam sirenes na rua, temem que a mãe seja levada novamente. A fé passou a ocupar um espaço central na vida da família. Evangélica e integrante da Igreja Adventista do Sétimo Dia, Débora afirma que a leitura da Bíblia foi o que a ajudou a atravessar o período mais difícil no cárcere — e segue sendo um de seus principais apoios. Agora, tenta retomar a vida aos poucos. Apesar das restrições, diz esperar que sua situação jurídica seja revista: “Só quero voltar a viver normalmente com toda a minha família”.


Cristhyan Costa - Revista Oeste