domingo, 5 de abril de 2026

É que ninguém mais aguenta Lula, escreve Adalberto Piotto

 Com a aprovação derretendo, vendo Flávio Bolsonaro crescer e perdido na própria incompetência, o governo se pergunta o que deu errado. A resposta está no espelho



Presidente Luiz Inácio Lula | Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock


A ntes de ir adiante, pense aí com seus botões: que declaração o atual presidente da República deu nos últimos três anos, três meses e alguns poucos dias que seja plausível, lógica e carregue o mínimo de preocupação com o real interesse público do país? Refiro-me apenas ao período deste seu terceiro mandato, aquele conquistado na tal eleição de 2022, o que exclui as bravatas eleitorais onde coube de tudo, de mentira a acusações irresponsáveis, sem contar a censura que acometeu um lado só. 

O que teria dito Lula, já no governo, que nos faça acreditar que ele esteve de janeiro de 2023 até agora, início de abril de 2026, realmente dedicado a administrar o Brasil e não apenas afeito e afoito em seu projeto pessoal de poder? O país está menos endividado? As pessoas estão vivendo melhor? Ambas as questões podem ser respondidas com dois dados: o governo Lula chega ao quarto ano de seu terceiro mandato com três anos seguidos de rombos fiscais e com o endividamento das famílias em quase 50%, o maior nível desde o fim da pandemia, em julho de 2022. 

É um retrocesso quando qualquer dado do atual governo se aproxima ou é ainda pior do que os da época da pandemia, como a relação Dívida/PIB. Em fevereiro deste ano, chegou a 79,2%. A projeção é que, até o final do ano, atinja a marca dos 83%. Não são números difíceis de compreender. 

No auge da pandemia, com gastos necessários para combater um vírus que pouco se conhecia e que paralisou parte da economia mundial, os gastos públicos chegaram a 87,7% em relação ao Produto Interno Bruto brasileiro. 

À época, era consenso internacional de que era preciso ajudar pessoas que perderam o emprego e empresas que tiveram de fechar portas. Apesar do pico de gasto em 2020, o percentual foi reduzido a saudáveis 71,7% em 2022, no último ano de Bolsonaro, refletindo que o pior já passara e a política econômica do governo era de responsabilidade fiscal, redução do gasto público e eficiência da máquina estatal. 

Descontado o pior ano da pandemia, Lula, que pensa exatamente o contrário e não demonstra nenhum respeito ao pagador de impostos que acorda cedo para sustentar o Estado, vai entregar o país com recorde de endividamento. Em fevereiro deste ano, a Dívida Bruta, que inclui Estados e Municípios, bateu a marca histórica negativa de R$ 10,2 trilhões. Só a dívida federal chegou a US$ 8,6 trilhões. Os números mostram com clareza o maior culpado. 


Os três anos consecutivos de rombos nos cofres públicos punem o pagador de impostos e empurram o endividamento das famílias para o pior nível desde 2022  Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil 

E por que todos esses números e a comparação importam? Porque impactam em exatamente tudo na vida do país. Já se perguntou por que o governo atual não consegue dar respostas rápidas à atual crise dos combustíveis? Porque falta a Lula hoje o dinheiro que Lula gastou demais ontem. Todos aqueles sorrisos do presidente, as viagens de Janja, o populismo fiscal de distribuição de bolsas assistencialistas que viciam o cidadão e comprometem o mercado de trabalho, a começar pelo próprio beneficiado, que fica limitado à ajuda estatal e não se recicla, tudo isso custa muito caro. 

Mesmo com o crescimento da receita — o Brasil tem batido recordes de arrecadação —, seja porque herdou uma economia saudável do governo anterior ou porque aumentou impostos de forma asfixiante, o governo Lula está no negativo. Quem consegue ganhar mais e gastar mais ainda? Só o irresponsável ou o incompetente. Ou ambos. 

Daí, diante do aumento do preço do petróleo no mercado internacional que gerou uma crise dos combustíveis, sobretudo na oferta de diesel com risco de desabastecimento, o governo não consegue conter a alta porque não consegue emergencialmente subsidiar os setores afetados. Vai tirar de onde? Não dá mais para aumentar a carga tributária porque já abusou da medida. 

E a demora em criar soluções rápidas para enfrentar a disparada do preço do petróleo revela o deserto de ideias e de gente capaz no governo. Em 2022, diante da Guerra na Ucrânia, a equipe de Paulo Guedes, então ministro da Economia no governo Bolsonaro, zerou impostos federais e negociou com o Congresso a redução do ICMS. A combinação de ambiente favorável aos negócios com menos burocracia, preço menor dos combustíveis e segurança jurídica fez o país ser o destino de quase US$ 75 bilhões de investimento externo, 41% de todo o valor investido na América Latina. 

Ainda melhor, o Brasil foi considerado exemplo no mundo em recuperação pós-pandemia, apesar do conflito na Europa que provocava inflação global justamente pela crise do petróleo. A economia cresceu quase 3% e, mesmo com o corte de impostos, a arrecadação federal e a dos Estados subiu acima da inflação. 

O desafio era grande, mas o ambiente saudável da economia que se criou antes permitiu que as medidas dessem certo. Sob Lula, o ambiente é intoxicado com insegurança jurídica crescente, crise política e institucional diante de escândalos — o que mina a confiança no governo — e dados econômicos supostamente positivos sob suspeição, gerados por denúncias dos próprios pesquisadores demissionários do IBGE. 

Ninguém investe no escuro porque sair da escuridão já é difícil. Tanto que mal resolveu o problema do diesel com os caminhoneiros — ainda não conseguiu explicar a contento como será a compensação aos Estados que vão bancar metade da conta — e as empresas aéreas já reclamam da alta de 55% do querosene de aviação, anunciado pela Petrobras, válido desde 1º de abril. 

No dia oficial da mentira, a verdade é que somado ao aumento de 9,4% de março, o combustível passou a representar 45% dos custos operacionais das companhias aéreas. Governar não é para qualquer um. Governar sob crises reais, menos ainda. É o que estamos vendo. A esquerda naufraga quando acaba o dinheiro que governos responsáveis deixaram no caixa.

Por isso que, quando chega a notícia de que até 21 ministros da sua imensa e incapaz equipe devem deixar o cargo para concorrer nas eleições de outubro, não se sabe se é ruim ou ainda pior. A começar por Fernando Haddad, que, de tanto aumentar ou criar novos impostos — foram 27 vezes —, ganhou o jocoso apelido de “Taxad”. 

O agora ex-ministro da Fazenda quer ser governador de São Paulo. Deixa um país com dívida crescente, com baixa produtividade, sem capacidade de atuar rapidamente em crises e quer governar o Estado mais desenvolvido do país? Com que currículo? 

Talvez seja mais um afilhado político que o presidente empurra para perder eleições, como tantos de seus candidatos nas eleições municipais de 2024, quando o PT teve desempenho pífio. O único objetivo de Lula é ele próprio. Não por acaso, o alarme do desespero disparou no Palácio do Planalto e continua incomodando os atuais inquilinos. 

Faz semanas que assuntos barulhentos, como a perda de popularidade do presidente, o aumento da rejeição, o crescimento de Flávio Bolsonaro nas pesquisas e o medo aterrorizador de perder a eleição de outubro, atormentam o círculo palaciano. Esperavam o quê?


A saída de Fernando Haddad da Fazenda para disputar o governo paulista deixa como herança um rastro de impostos criados e o descontrole da dívida pública - Foto: Wilton Júnior/Estadão Conteúdo

O desastre fiscal está à vista de todos. Lembra do Arcabouço Fiscal, que substituiu o bem-sucedido Teto de Gastos de Michel Temer, que tirou o Brasil do buraco em que Dilma o enfiou? Então, o próprio governo o furou várias vezes. Como levar a sério essa gente? O assistencialismo social já se esgotou como máquina de votos. Custa caro, não melhora a vida de ninguém, mas o filho do beneficiado quer ter a oportunidade de ascender na vida e, talvez, comprar um iPhone 17. 

Só o trabalho permite isso. Exatamente o mesmo para o qual ele não foi educado ou treinado desde que Lula tirou a obrigação de os pais manterem os filhos na escola para ganhar o Bolsa Família. Jovem tem uma vida imensa pela frente. Precisa de perspectiva. Que futuro se tem com uma Bolsa governamental de R$ 600, R$ 700 ou R$ 800 e sem preparo educacional para um mundo ditado pela revolução da tecnologia e da inteligência artificial? Pesquisa recente do instituto AtlasIntel mostra que a rejeição de Lula e seu governo é de praticamente 73% entre jovens de 16 a 24 anos, a conectada geração Z. A alta de impostos e o assistencialismo têm algo em comum. 

Até criam sensação de alívio, mas não resolvem o problema. Na literatura econômica e na prática diária, os exemplos são fartos. Quando um governo aumenta muito a carga tributária, ele asfixia a economia e acaba gerando um efeito rebote de queda da arrecadação por quebras de empresas ou evasão fiscal. O agronegócio brasileiro registrou o maior número de recuperações judiciais de sua história, com quase 2 mil empresas tentando sobrevida com ajuda da Justiça. 

E o Paraguai bate recordes em atração de empresas brasileiras que fogem da alta carga tributária daqui e passam a gerar receita fora do país. Com os programas sociais sem porta de saída, como o assistencialismo eleitoreiro de Lula, e a economia que não cresce de forma sustentável, o surto da percepção de melhora de vida é efêmero. Gasto público elevado e juros altos para conter a inflação gerada pelo próprio governo causam mal-estar que as pessoas sentem no bolso e a cada ida ao supermercado. 

Com o poder de compra corroído, inclusive do benefício social, os mais pobres e a classe média recorrem a empréstimos apenas para manter o consumo e algum padrão de vida. Como está mesmo o endividamento das famílias em pleno ano de 2026?

Às vésperas da eleição, o Palácio do Planalto bate cabeça para encontrar soluções para problemas reais que o próprio governo criou ou não se preparou para enfrentar. Mas, de novo, a emergência não é o país, é Lula. As medidas precisam estancar a sangria de imagem do presidente que não governa, sem planos e propostas conhecidas desde a última campanha. É preciso lembrar que Lula não apresentou um programa de governo na eleição de 2022, aquela em que só foi candidato porque foi resgatado da prisão de Curitiba pelo STF, que inventou a estapafúrdia tese do CEP e o fez candidato. 

Não assusta que tenha assumido que não conseguiria governar sem o Supremo, seu parceiro de consórcio. Porque plano não tinha. Dado o desespero de agora, ainda não tem. Fato é que não há nada no governo lulopetista que se sustente como uma administração minimamente competente ou preocupada com o país. Tudo se resume a um projeto pessoal de poder de um narcisista que, neste caso, contrariando a música de Caetano, seu defensor nos palcos da esquerda artística regada a incentivos fiscais, detesta um espelho. 

Afinal, espelhos não inventam, não criam narrativas, só refletem a realidade que o Brasil quer superar, deixar para trás e seguir em frente.


O abandono das emergências reais do Brasil comprova que o atual governo se resume a um projeto de poder de um narcisista incapaz de encarar o reflexo dos próprios fracassos - Foto: Reprodução/X

Adalberto Piotto  - Revista Oeste