domingo, 5 de abril de 2026

'No altar da ideologia', por Flávio Gordon

 Uma resenha de Sacrificial Lambs, de Anita Bartholomew


Foto: Shutterstock

“Como uma criança pequena passa a conceber a ideia de que pode mudar de sexo, isto é, de gênero — ou de que pode não ter gênero algum? Por que alunos do primeiro ao quinto ano estão adotando identidades ‘queerizadas’, não binárias e trans? Sabemos que algo sem precedentes começou a acontecer na segunda década do século 21. O aumento no número de pessoas tentando se identificar fora do próprio sexo, especialmente entre adolescentes do sexo feminino e mulheres jovens, tem sido vertiginoso.” (Anita Bartholomew, Sacrificial Lambs)


O Brasil sempre foi internacionalmente reconhecido por sua excelência em umas poucas atividades sociais, como o futebol, ou pelo exotismo de alguns de seus frutos naturais, como a jabuticaba. Mas, de uns tempos para cá, como mostrei na minha coluna de 21 de fevereiro, o país vem se destacando de maneira inusitada num outro setor: o Brasil é, hoje, o país que criminaliza de forma mais radical as críticas ao transgenerismo — ideologia segundo a qual a identidade de gênero de uma pessoa (entendida como autopercepção íntima e subjetiva de ser homem, mulher, ambos ou nenhum) pode divergir de seu sexo biológico e deve prevalecer sobre ele como critério primário de identidade pessoal, reconhecimento social e, em muitos casos, organização jurídica. 


Brasil é, hoje, o país que criminaliza de forma mais radical as críticas ao transgenerismo | Foto: Shutterstock

Pode-se avaliar o reconhecimento internacional do fenômeno a partir de duas matérias recentes publicadas por veículos de mídia estrangeiros. No mês passado, The Wall Street Journal (WSJ) publicou matéria intitulada “Brazil Criminalizes Transgender Dissent” (“O Brasil criminaliza a dissidência em relação ao transgenerismo”), na qual se relata o caso de Isadora Borges, estudante de veterinária que passou a responder judicialmente por ter afirmado algo que, até ontem, era uma mera obviedade: a existência do sexo biológico. 


The Wall Streey Journal - From @WSJopinion: Brazil criminalizes transgender dissent. A feminist could go to prison for asserting that a male can’t become a female, writes @MaryAnastasiaOG.


Levada aos tribunais pela acusação de “transfobia”, Isadora pode receber uma pena de até dez anos de prisão, além de multa elevada e pagamento das custas processuais. O enredo tem ares de ficção distópica, recordando a cena clássica de 1984, em que Winston Smith, após ser esmagado pela máquina do Partido, acaba confessando que dois mais dois são cinco. Foi essa similaridade inquietante da realidade brasileira com a distopia orwelliana que chamou a atenção de Mary Anastasia O’Grady, autora da reportagem do WSJ.

O episódio também repercutiu na revista digital britânica Spiked, que não economizou palavras ao descrever o distópico cenário brasileiro. Em texto assinado por Raquel del Rosario Sanchez, e intitulado “Trans tyranny reigns in Brazil” (“A tirania trans impera no Brasil”), a revista lembra que a denúncia contra Isadora partiu de Erika Hilton, apresentada como “mulher trans”, a mesma parlamentar que, em 2022, já havia instigado investigação contra a feminista Isabela Cêpa por se referir a Hilton como “homem” nas redes sociais. Sob ameaça de uma condenação que poderia alcançar 25 anos, Isabela buscou refúgio na Europa, onde recebeu reconhecimento formal como perseguida política.


Trans tyranny now reigns in Brazil. Isadora Borges is facing 10 years in prison for stating that transgender women were obviously born men. Across Latin America, women are being persecuted by mad, misogynistic crossdressers, says Raquel del Rosario Sánchez buff.ly/27gTWqk 6:00 AM · 18 de fev de 2026


Segundo a análise da Spiked, esses episódios não são isolados, mas sintoma de uma tendência mais ampla na América Latina: a instrumentalização de leis de identidade de gênero para sufocar dissenso e restringir o debate científico sobre sexo e gênero. O texto sustenta ainda que muitas dessas normas seguem modelos importados, frequentemente incentivados por governos e organismos internacionais que condicionam acordos e financiamentos à adoção dessas agendas pelos países do chamado Sul Global. 

Nas palavras da autora da matéria: “Este é o estado de coisas draconiano em que muitas mulheres latinoamericanas agora se veem vivendo. Políticas de ‘identidade de gênero’ estão sendo impostas a elas, sob ameaça de perseguição política e longas penas de prisão. Elas estão sendo coagidas a afirmar que homens vestidos com roupas femininas são, de fato, mulheres. Aquelas que, como Borges, ousam se manifestar precisam do nosso apoio mais do que nunca.”


Portanto, tendo o Brasil se tornado o epicentro disso que alguns jornalistas estrangeiros descrevem como “criminalização da dissidência em relação ao transgenerismo” e “tirania trans”, ao leitor brasileiro certamente interessa conhecer melhor as origens e os desenvolvimentos do fenômeno do transativismo radical.

 E um bom caminho para isso é a leitura do recém-lançado Sacrificial Lambs: a liberal reporter exposes how the progressive left harms children in the name of gender ideology, da jornalista e escritora americana Anita Bartholomew, obra que combina reportagem investigativa com crítica cultural sistemática. 

O título do livro — “cordeiros sacrificiais”, em português — é bem explicado logo nas primeiras páginas: “Quando iniciei minha investigação, minha maior preocupação eram as inúmeras crianças induzidas a imaginar que poderiam estar presas no corpo errado. A princípio, eu acreditava que os adultos estavam em outra categoria. 

Para ser arrancada desse pressuposto, precisei entrar em contato com muitos jovens adultos que haviam acreditado na falsa alegação de que poderiam mudar de sexo — alguns que depois passaram pelo processo de ‘destransição’ e outros que ainda se identificam como trans. Vários destransicionistas estavam totalmente comprometidos com a vida transgênero até o momento epifânico em que reconheceram que tudo não passava de uma mentira. 

Isso frequentemente os devastou emocionalmente — uma devastação quase tão profunda quanto aquela que haviam consentido impor aos próprios corpos. Esses são os verdadeiros ‘membros mais vulneráveis da nossa sociedade’: as crianças e jovens adultos que acreditaram nas mentiras. São os cordeiros sacrificiais no altar de um movimento que não tem base em fatos nem no bom senso. Você conhecerá alguns deles em breve.”

Daí que Bartholomew não tenha pudores em, desde a primeira página, apresentar o livro como uma denúncia contra a ideologia de gênero, seus sacerdotes acadêmicos, missionários midiáticos e executores burocráticos. É que, enquanto denúncia, o livro se pretende também um libelo em defesa das vítimas — as crianças e jovens adultos que, seduzidos por promessas de libertação, acabaram no altar do experimento social radical em que consiste o transgenerismo. Em suas palavras:

“Sacrificial Lambs baseia-se em evidências sólidas e amplamente documentadas, mostrando que todo argumento que você possa ter ouvido em favor da adoção da ideologia de gênero é falso. Mesmo que você ainda seja um adepto agora, ao chegar à última página, depois de perceber a amplitude e a profundidade dos danos que a ideologia de gênero causa — não apenas aos nossos jovens, mas a toda a sociedade, inclusive a você —, estará pronto para se desintoxicar. Este livro foi escrito para ajudá-lo a fazer exatamente isso. Não podemos proteger as crianças enquanto nós, adultos, não nos curarmos da ilusão de que isto é apenas mais uma moda passageira, um movimento marginal que afeta pouquíssimos e que desaparecerá por conta própria. A ideologia de gênero conta com um exército comprometido, bem financiado e composto por múltiplas facções, que a promove e a defende. Será preciso algo equivalente, do outro lado, para enfrentá-la.” 

Mas, ao contrário do que esse propósito declarado possa fazer parecer, a autora não escreve como panfletária, como alguém que prega para ouvidos predispostos. Sacrifical Lambs é obra de uma investigadora sistemática e obstinada por dados, alguém que, por já ter estado “do lado de lá”, conhece bem as ilusões e os escudos contra a realidade interpostos pela ideologia. Identificando-se como esquerdista (ou, alternativamente, progressista), ela sabe que seu público natural tende a rejeitar qualquer crítica à agenda trans como histeria conservadora. Por isso, escolhe a via mais difícil: a desmontagem paciente. 

Em suas palavras: “Se você se considera progressista ou moderado, provavelmente não tem ideia de que tudo isso está acontecendo. As pessoas que vêm denunciando os excessos da ideologia de gênero são, em sua maioria, politicamente muito à direita. Em nossa sociedade polarizada, recusamo-nos a ouvir aqueles que nossa tribo política considera completamente errados em praticamente tudo (…) A maioria dos liberais ignora qualquer coisa que venha da direita. Mas ninguém pode, com credibilidade, me chamar de direitista. Na maioria dos temas, estou politicamente um pouco à esquerda do senador por Vermont, Bernie Sanders. É por isso que senti com tanta força que a capa deste livro deveria me identificar como esquerdista. A ideologia de gênero não deveria ser uma questão de esquerda ou direita. Mas, como a esquerda progressista a abraçou, talvez uma voz dissidente soando o alarme a partir da esquerda seja a única que a maioria dos liberais consiga ouvir.”

Bartholomew começa pelo dogma fundador: a tese de que alguém pode nascer “no corpo errado”. Ela disseca a genealogia teórica dessa ideia — de suas origens médicas restritas (relativas a quadros graves e severos de disforia de gênero) até a sua elevação à condição de verdade antropológica universal. No primeiro capítulo, 

“O Mito da Criança Mágica”, Bartholomew questiona a noção de que crianças possuem um autoconhecimento infalível acerca de sua identidade de gênero, uma ficção envelopada num slogan recorrentemente repetido, disfarçado de conclusão científica definitiva: “Crianças sabem quem elas são”. 

A autora argumenta que crianças são altamente sugestionáveis, que a identidade é um processo de maturação, e que a confusão corporal na infância é comum e frequentemente transitória. Apresenta estudos indicando que, historicamente, a maioria das crianças com desconforto de gênero superava essa condição na puberdade sem intervenção médica. 

O “mito” consistiria em tratar a autodeclaração infantil como verdade ontológica definitiva, transformando em destino a inconstância típica da idade. Bartholomew apresenta dados estatísticos sobre o aumento vertiginoso de diagnósticos de disforia de gênero entre adolescentes, sobretudo meninas.

A inversão do perfil histórico — antes predominantemente masculino e infantil, agora feminino e adolescente — não é tratada como mera curiosidade estatística, mas como indício de contágio cultural (uma abordagem que reforça argumentos anteriores na mesma linha, como o de Abigail Shrier).






Sacrificial Lambs: a liberal reporter exposes how the progressive left harms children in the name of gender ideology, da jornalista e escritora americana Anita Bartholomew - Foto: Reprodução/Amazon 

O segundo capítulo, “Consinta com este ‘tratamento’… ou sofra as consequências”, mergulha no chamado modelo de “afirmação”. Segundo esse modelo, a função do profissional de saúde é confirmar a autopercepção do paciente, jamais questioná-la. Bartholomew argumenta que isso representa uma ruptura radical com a tradição clínica, que sempre considerou o questionamento e o diagnóstico diferencial como parte essencial do cuidado. A autora cita casos em que avaliações psicológicas foram abreviadas ou suprimidas, e decisões médicas irreversíveis tomadas com base em meras autodeclarações.

O ponto nevrálgico aqui é o consentimento. Pode um menor consentir validamente em bloqueadores de puberdade, hormônios cruzados e cirurgias com potenciais efeitos irreversíveis sobre fertilidade e desenvolvimento corporal? Bartholomew descreve um ambiente clínico em que a afirmação rápida da identidade declarada é apresentada como protocolo mais seguro, muitas vezes acompanhada da narrativa de que questionar a transição aumenta o risco de suicídio. 

A autora problematiza a forma como estatísticas são mobilizadas nesse contexto e sugere que o consentimento ocorre sob intensa pressão emocional e moral. “Você prefere uma filha viva ou um filho morto?” — é a pergunta-chantagem muitas vezes dirigida aos pais, para que aceitem sem questionar o processo de “transição”. No terceiro capítulo, “A Mídia e a Mensagem”, o foco desloca-se para o papel da imprensa e da cultura popular. 

A autora argumenta que a mídia frequentemente privilegia histórias individuais comoventes e tende a apresentar a transição como trajetória de libertação quase inevitável, ao mesmo tempo em que minimiza controvérsias científicas e relatos de arrependimento. A seleção editorial busca construir uma narrativa que influencia percepções públicas e cria um ambiente de consenso aparente. A repetição de determinados enquadramentos transforma uma hipótese controversa em norma cultural, e esta, por sua vez, em política pública. 

Aprende-se essa norma cultural desde cedo, na escola, tema do quarto capítulo, “Lição de hoje: rejeite o seu sexo”. Aqui, Bartholomew examina materiais didáticos, treinamentos de professores e políticas escolares que tratam o sexo biológico como uma categoria maleável ou secundária. A distinção entre informar sobre diversidade e incentivar a rejeição da própria corporeidade torna-se, segundo a autora, cada vez mais tênue. 

A escola, que deveria transmitir conhecimentos básicos sobre biologia, passa a apresentar a identidade como campo aberto à autocriação contínua. A criança deixa de ser apenas educanda, tornando-se agente de redefinição ontológica, antes ainda de dominar as quatro operações. Escreve Bartholomew: “Quem planta essa primeira semente? O que terá predisposto tantos jovens que ainda nem sabem o que é sexo a se tornarem suscetíveis à ideia de alterar suas identidades e seus corpos? 

Por que uma criança comum imaginaria sequer que mudar de sexo é possível? Essa ideologia está ganhando força como uma bola de neve e está alcançando crianças cada vez mais novas (…) Antes de ganharem seus primeiros smartphones, antes de descobrirem essa coisa chamada TikTok, antes mesmo de terem permissão para usar o computador de casa sem supervisão, há uma influência externa que afeta quase todas as crianças. 

A escola.” O quinto capítulo, “Cuidado, crianças: seus pais não são ‘seguros’”, introduz a questão da autoridade parental. Bartholomew analisa casos em que pais hesitantes diante da transição são retratados como prejudiciais ou abusivos. Protocolos escolares que mantêm em sigilo mudanças de nome e pronomes, recomendações clínicas que sugerem afastamento de responsáveis considerados “não afirmativos” e disputas judiciais por guarda compõem o cenário. 

A questão, que começa médica e pedagógica, vira conflito familiar. E a autoridade natural dos pais sofre erosão diante de critérios ideológicos institucionalizados, frequentemente respaldados por aparato jurídico.

No sexto capítulo, “Cuidado, pais: nada nem ninguém está seguro em parte alguma”, o assalto à autoridade parental adquire contornos sistêmicos. A autora descreve como múltiplas esferas — escolas, hospitais, conselhos profissionais, legislação local — podem operar segundo diretrizes afirmativas, criando a sensação de que a família perdeu controle sobre decisões fundamentais. Não é um único ponto de vulnerabilidade, mas uma rede institucional que dificulta a resistência isolada.

 O sétimo capítulo, “Transgênero é realmente uma coisa (e é apenas uma coisa)?”, introduz uma inflexão conceitual. Bartholomew questiona a homogeneidade do termo “transgênero”, sugerindo que ele abriga realidades distintas: casos raros de disforia persistente desde a infância, fenômenos de início rápido em adolescentes — especialmente meninas — e situações em adultos com motivações diversas. Ao fundir experiências heterogêneas sob um único rótulo, o debate público perde precisão clínica e científica. A categoria torna-se política antes de ser diagnóstica, e moral antes de ser empírica.


Segundo Bartholomew: 

“Já deveria estar claro, a esta altura, que há muito pouco que conecte os membros dos diferentes grupos que reivindicam o status de trans, além do fato de todos serem celebrados pelos adeptos da ideologia. Uma criança prépúbere confusa quanto ao próprio sexo tem quase nada em comum — seja em termos de sintomas, seja em termos de trajetória do transtorno — com um homem adulto que, às escondidas, veste as roupas íntimas da esposa enquanto se masturba.

Tampouco os adolescentes e pré-adolescentes seduzidos pela fantasia de que é possível mudar de sexo têm muito em comum com qualquer um dos outros dois grupos. Os ativistas dirão que as pessoas que se autodenominam trans “nasceram assim”. 

Mas assim como, exatamente? Como o transgenerismo pode ser uma coisa, quando na verdade são tantas coisas díspares? E como pessoas “trans” podem ter “nascido assim” quando a maioria daqueles que se identificam com o sexo oposto só passou a imaginar para si alter egos do sexo oposto muito tempo depois de terem nascido? Mesmo entre aqueles jovens que teriam idade suficiente para, em tese, sustentar a tese do ‘nasceram assim’, quase todos acabarão por abraçar seu sexo biológico, desde que não sejam ‘submetidos à transição’ antes disso. 

O transgenerismo é internamente e externamente incoerente, inconsistente e ilógico. Mas, enquanto aqueles que fazem as regras da sociedade tratarem o faz de conta como se fosse real, ele continuará a produzir consequências reais.”

Na sequência, no capítulo oitavo, intitulado “Homens nos esportes femininos — como isso é justo?”, algumas dessas consequências são apresentadas. A autora examina dados fisiológicos e casos práticos para sustentar que diferenças biológicas decorrentes da puberdade masculina não são completamente eliminadas por terapia hormonal. 

O argumento é que políticas baseadas exclusivamente na autodeclaração podem comprometer a equidade esportiva feminina. O debate deixa o campo da identidade subjetiva e entra na arena mensurável do desempenho físico, onde a biologia reaparece com incômoda objetividade.


“Homens nos esportes femininos — como isso é justo?” | Foto: Shutterstock 

O nono capítulo, “Por que estamos deixando que homens invadam espaços exclusivamente femininos”, amplia essa preocupação para prisões, abrigos e espaços segregados por sexo. Bartholomew relata controvérsias e incidentes que emergiram com a adoção de critérios baseados na identidade declarada. A tensão aqui é entre a proteção de uma minoria e a segurança de outra. A autora sustenta que a ausência de debate franco decorre menos de consenso genuíno e mais de medo de rotulação, um mecanismo disciplinador típico das ortodoxias ideológicas.

Como ela havia apontado na introdução, a propaganda transativista deixa de lado, por exemplo, o caso dos homens adultos, frequentemente de meia-idade ou mais, que passam a ser transgêneros por uma questão de fetiche sexual. Nas palavras da autora: 

“Ninguém que promove a ideologia menciona os fetichistas. A maioria dos ativistas se recusa a admitir que eles existem. Mas a maioria dos homens que hoje se identifica como pertencente ao sexo oposto não corresponde ao que a pessoa comum imagina. Especialistas em saúde mental que estudam o fenômeno estimam que cerca de três quartos dos homens que afirmam identificar-se como mulheres estão expressando uma forma extrema de desvio sexual associada a uma parafilia ou fetiche. Embora o transgenerismo tenha sido apresentado ao público como o ‘novo gay’, a maioria desses homens — especialmente os que adotam sua nova identidade na meia-idade ou mais tarde — é heterossexual, não homossexual. São homens heterossexuais que se sentem atraídos por mulheres e que obtêm excitação sexual ao imaginar-se mulheres (…) Hoje, esse fetichismo foi retirado dos cantos escuros. Ele não é apenas normalizado. É atendido, tratado com a máxima deferência. Celebrado. É aqui que estamos agora (…) Se uma criança pode nascer no corpo errado, um homem adulto pode alegar que um dia foi essa criança. E quando ele ‘se assume’ como mulher, e a sociedade o aceita apenas com base em sua palavra, o que acontece em seguida? Ele é uma mulher. Passa a ter acesso a tudo o que é reservado a mulheres e meninas. Está no boxe ao lado da sua filha adolescente na academia. É a ‘vendedora’ no provador da loja de departamentos, ajudando mulheres a encontrar um sutiã confortável. Ele está vivendo seu fetiche, em alto e bom som, com orgulho — e ninguém ousa dizer que ele não pode, a menos que queira correr o risco de ser ostracizado, processado ou coisa pior”.

Essa análise culmina no décimo capítulo, “Por que todos enlouquecemos?”, um diagnóstico cultural do atual estado de coisas. Bartholomew pergunta como instituições inteiras — médicas, educacionais, midiáticas e judiciais — adotaram posições controversas com tão pouca resistência interna. Entre as respostas sugeridas estão o medo de sanções profissionais, a pressão ativista coordenada, o tribalismo político e o conformismo institucional. Por óbvio, o referido “enlouquecimento” seria o resultado de incentivos estruturados, não de uma súbita psicopatologia coletiva. 

Diz a autora: “Em outros países — Islândia, Reino Unido, Espanha, México, Canadá, Alemanha e outros — onde não há proteção equivalente à Primeira Emenda, pessoas estão sendo presas, ou ameaçadas de prisão, por se recusarem a cumprir as exigências linguísticas dos ideólogos de gênero. Quando uma cultura inteira concorda em negar a biologia e se afastar da realidade, tornase impossível prever ou controlar as consequências.” No capítulo final, “Está na hora de recuperar a sanidade e a realidade”, a autora abandona o diagnóstico e parte para a convocação. 

O que está em jogo, ali, não é mero ajuste de políticas públicas, mas a restauração de critérios elementares que uma cultura saudável não deveria precisar redescobrir: sexo como dado biológico, prudência médica como regra, autoridade parental como princípio, liberdade de expressão como condição de qualquer deliberação racional. 

“Recuperar a sanidade” tem um sentido bastante preciso: recolocar o dado natural que é o corpo no centro da identidade humana e restabelecer distinções que a retórica ideológica dissolveu — entre fato e desejo, compaixão e temeridade, cuidado médico e experimentação social. Os apêndices funcionam como desdobramento prático dessa tomada de posição. 

No primeiro, Bartholomew examina as ordens executivas de Donald Trump relativas ao tema, medindo-lhes o alcance jurídico real e apontando que o Poder Executivo, por mais bem-intencionado, não substitui o trabalho legislativo de longo prazo, nem resolve disputas antropológicas por decreto. No segundo, desce ao nível doméstico e oferece orientação direta a pais — sinal de que o debate não é abstrato, mas interfere diretamente na vida cotidiana de famílias comuns.

Vista em conjunto, a obra obedece a um movimento deliberado: começa na criança, percorre a clínica, a imprensa e a escola, examina o enfraquecimento da família, enfrenta as disputas no esporte e nos espaços segregados, diagnostica o conformismo institucional e culmina num chamado à recuperação do real. Não se trata apenas de contestar esta ou aquela norma administrativa, mas de questionar o paradigma antropológico que deslocou a realidade corpórea do eixo da identidade e a substituiu pela soberania da autodeclaração.  

A pergunta que percorre tacitamente cada capítulo é simples: em quanto tempo uma sociedade consegue reorganizar suas leis, suas escolas e seus hospitais com base na primazia absoluta da subjetividade sem pagar o preço da fragmentação? É essa interrogação — mais do que qualquer estatística isolada — que dá unidade ao livro e o projeta para além das circunstâncias imediatas que o motivaram. 

Para além do seu tema específico, o que Sacrifical Lambs realmente desvela é uma mutação antropológica de largo alcance — a substituição da concepção clássica da unidade corpo-alma por uma versão tardomoderna do mais antigo dos dualismos: o gnóstico. De fato, como há tempos sugeri numa coluna, há algo de estranhamente familiar na fórmula “nasci no corpo errado”. 

Para muitos, a fórmula soa contemporânea, progressista e até libertadora. No entanto, sua estrutura é arcaica. Pressupõe uma cisão radical entre um “eu” essencial — mental, psicológico, afetivo — e um corpo material espúrio que o aprisiona. O verdadeiro eu estaria na mente; o corpo seria um invólucro extrínseco, um veículo contingente, quando não uma prisão. “Sou isto, mas estou preso num corpo daquilo.” Eis um tópos tipicamente gnóstico, agora reciclado no vocabulário da biopolítica.

O novo ativismo identitário reproduz, com notável fidelidade, essa antropologia dualista. O gênero “verdadeiro” não estaria inscrito na realidade corpórea, mas alojado numa interioridade soberana, cuja autodeclaração deve prevalecer sobre qualquer dado biológico. O corpo torna-se, assim, mero continente impessoal, quase maquinal — uma “máquina desejante”, como diriam os pós-modernos Deleuze e Guattari. Ele estaria à disposição da vontade que o habita. Segundo essa visão, nós, seres humanos, seríamos pessoas não-corpóreas residindo em corpos não-pessoais.


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Resta que, se o corpo é apenas um objeto extrínseco — ou, pior, uma prisão —, por que respeitá-lo como parte constitutiva da pessoa? Se os órgãos são peças intercambiáveis de um invólucro contingente, por que não os remodelar cirurgicamente até que correspondam à autoimagem subjetiva? Eis, precisamente, a ideia de fundo que explica a dimensão e a radicalidade do fenômeno descrito por Bartholomew. 

O problema — e a razão pela qual as políticas de “afirmação”, como demonstra a autora, em geral não minimizam o sofrimento psíquico da pessoa transgênero — é que a realidade resiste. A tradição aristotélico-tomista, que moldou o Ocidente por séculos, sempre compreendeu o homem como um composto dinâmico de corpo e alma — não duas substâncias justapostas, mas uma única substância cuja forma é a alma e cuja matéria é o corpo. 

Antes que “fantasma na máquina”, a alma é a forma substancial do corpo. Nós não habitamos nosso corpo como inquilinos de apartamento. Somos nosso corpo, na mesma medida em que somos a nossa alma. O corpo é pessoal porque a pessoa é corpórea.

Essa visão não é mero detalhe teológico. Ela estrutura toda uma ética. Se o corpo é parte integrante da identidade, então a intervenção sobre ele exige prudência extrema, sobretudo quando se trata de menores em formação. 

A infância e a adolescência, com suas angústias e descompassos, não podem ser tratadas como uma prova ontológica do erro da Criação. É perfeitamente possível admitir que o sentimento de estar num corpo “errado” seja uma experiência subjetivamente intensa, sem com isso afirmar que esse sentimento altera a estrutura do ser. Bartholomew documenta o crescimento vertiginoso de diagnósticos de disforia entre jovens — especialmente meninas — e a rapidez com que o modelo afirmativo conduz a intervenções médicas profundas. O que outrora seria abordado com cautela terapêutica é hoje frequentemente recebido como uma verdade autoevidente. 

A prudência clássica cede lugar à urgência moral típica das ideologias revolucionárias, nas quais questionar é um ato suspeito. Se o gnóstico antigo se via como vítima de uma catástrofe cósmica, o transativista contemporâneo vê-se como vítima de uma natureza injusta e de uma sociedade que não lhe reconhece o direito de alterála. Em ambos os casos, a salvação exige a recriação de si. “Sereis como deuses”, prometia a Serpente. 

E o homem pós-moderno, armado de bisturi e hormônios, parece disposto a aceitar o convite. Criar a si próprio, inclusive o próprio corpo, torna-se projeto de emancipação, convertendo-se a técnica médica em meio de salvação. Mas a promessa da Serpente é falsa. Sua perversa teogonia produz vítimas concretas. 

Os “destransicionistas” a quem Bartholomew dá voz são testemunhas da pungente queda na realidade. Muitos relatam decisões tomadas em contexto de fragilidade emocional, sob validação imediata de adultos e instituições. Descobrem, tardiamente, que o corpo não era simples embalagem descartável nem massinha de modelar. As cicatrizes físicas e psicológicas desmentem a fantasia de reversibilidade ilimitada, lembrando que a carne não se submete tão facilmente ao bisturi da retórica. 

A perspectiva da qual parte Bartholomew poderia ser caracterizada como um realismo antropológico. Ele parte da convicção de que a compaixão não pode divorciar-se da verdade sobre o homem. Ajudar alguém que sofre não pode equivaler a afirmar a sua autopercepção. Trata-se, em vez disso, de orientá-la à luz de uma ordem que nos precede. 

Essa perspectiva faz toda a diferença e ilumina a convocação final feita pela autora. Se o corpo é parte integral da pessoa, então respeitá-lo é respeitar a pessoa. Intervir nele não é mero ajuste cosmético, mas ato que incide sobre a própria identidade. 

A liberdade, nesse horizonte, não é poder ilimitado de autocriação, mas capacidade de harmonizar-se com a verdade do próprio ser. O que Sacrificial Lambs sugere, em última instância, é que estamos diante de uma disputa civilizacional. 

De um lado, a tradição realista que reconhece na natureza humana uma estrutura inteligível e normativa. De outro, o voluntarismo nominalista que dissolve essências em palavras e faz da autodeclaração critério último de verdade. 

O campo de batalha não é apenas médico, educacional ou mesmo jurídico. Ele é também filosófico. Quando o Estado passa a impor pronomes, quando políticas públicas se fundam na autodeclaração irrestrita, quando o debate científico é constrangido por ortodoxias ideológicas, o que está em jogo não tem nada a ver com inclusão, mas sim com a relação entre linguagem e realidade. 

Se as palavras criam o ser, então o poder político torna-se demiúrgico. Bartholomew não escreve como filósofa, e muito menos teóloga, mas o seu argumento ressoa como uma advertência metafísica. Ao sacrificar o corpo no altar do voluntarismo ideológico, arriscamos sacrificar também a própria ideia de pessoa. E os cordeiros — jovens e frágeis demais — acabam sendo conduzidos à imolação por uma cultura que perdeu o senso da Criação.A perspectiva da qual parte Bartholomew poderia ser caracterizada como um realismo antropológico. 

Ele parte da convicção de que a compaixão não pode divorciar-se da verdade sobre o homem. Ajudar alguém que sofre não pode equivaler a afirmar a sua autopercepção. Trata-se, em vez disso, de orientá-la à luz de uma ordem que nos precede. Essa perspectiva faz toda a diferença e ilumina a convocação final feita pela autora. Se o corpo é parte integral da pessoa, então respeitá-lo é respeitar a pessoa. Intervir nele não é mero ajuste cosmético, mas ato que incide sobre a própria identidade. A liberdade, nesse horizonte, não é poder ilimitado de autocriação, mas capacidade de harmonizar-se com a verdade do próprio ser. 

O que Sacrificial Lambs sugere, em última instância, é que estamos diante de uma disputa civilizacional. De um lado, a tradição realista que reconhece na natureza humana uma estrutura inteligível e normativa. De outro, o voluntarismo nominalista que dissolve essências em palavras e faz da autodeclaração critério último de verdade. 

O campo de batalha não é apenas médico, educacional ou mesmo jurídico. Ele é também filosófico. Quando o Estado passa a impor pronomes, quando políticas públicas se fundam na autodeclaração irrestrita, quando o debate científico é constrangido por ortodoxias ideológicas, o que está em jogo não tem nada a ver com inclusão, mas sim com a relação entre linguagem e realidade. Se as palavras criam o ser, então o poder político torna-se demiúrgico. 

Bartholomew não escreve como filósofa, e muito menos teóloga, mas o seu argumento ressoa como uma advertência metafísica. Ao sacrificar o corpo no altar do voluntarismo ideológico, arriscamos sacrificar também a própria ideia de pessoa. E os cordeiros — jovens e frágeis demais — acabam sendo conduzidos à imolação por uma cultura que perdeu o senso da Criação

Recuperar esse senso significa um retorno à sanidade. Significa reconhecer que não somos deuses criando a nós mesmos a partir do nada. Somos criaturas, compostas de corpo e alma, chamadas não a repudiar nossa natureza, mas a elevá-la. Num tempo em que a fantasia reivindica estatuto de virtude, talvez o gesto mais subversivo seja simplesmente afirmar que o real existe — e que nossa liberdade depende de acolhê-lo, não de negá-lo. É essa, no fim, a lição mais profunda que Sacrificial Lambs nos obriga a reconsiderar


 Flávio Gordon  - Revista Oeste