Toffoli e Moraes embarcam juntos na mesma encrenca aérea
A dupla medonha, Moraes-Tofole
A mparada em minuciosa investigação, a Folha informou nesta semana que, entre maio e outubro de 2025, o ministro Alexandre de Moraes viajou oito vezes em jatos executivos pertencentes a empresas controladas por Daniel Vorcaro, dono do finado Banco Master. Todos os voos começaram no aeroporto de Brasília e terminaram em diferentes pistas do Estado de São Paulo. Em quatro deles, o Primeiro Carcereiro do Supremo Tribunal Federal teve a companhia da mulher, Viviane Barci de Moraes. Ela se tornou a advogada mais bem paga da história do Brasil, patrocinada pelo pivô do maior escândalo financeiro ocorrido no País do Carnaval. O contrato assinado pela dupla estabeleceu que Viviane embolsaria R$ 129 milhões para defender Vorcaro por três anos “onde fosse necessário”.
Por exemplo, no tribunal onde há quase sete anos o marido age acima da Constituição, longe da sensatez e fora da lei. Moraes exerce simultaneamente as funções de investigador, delegado, promotor e juiz. Prende, arrebenta, julga, condena, finge que solta perseguidos para imobilizá-los com tornozeleiras eletrônicas, inventa inquéritos sem prazo para acabar, impede o acesso aos autos do advogado da vítima, impõe multas de assustar dono de banco ou condena inocentes à morte por falta de atendimento médico, fora o resto. Os únicos seres que Moraes faz questão de manter em liberdade são Vorcaro e seus asseclas, todos soterrados pelas provas dos muitíssimos crimes, reunidas pelos policiais federais engajados na Operação Compliance. Pescado num dos celulares do chefe da quadrilha, o documento que oficializou o acerto entre Vorcaro e Viviane escancarou a motivação da estranha mudança.
Moraes fez o que ninguém pode fazer impunemente, movido pela certeza de que conseguiria cumprir a cláusula não escrita que justifica as impressionantes cifras do contrato: Viviane foi contratada para que o marido todo poderoso salvasse o Master da morte e livrasse da gaiola o seu dono. Moraes não foi surpreendido por algum surto de misericórdia. Fez o que fez pensando em dinheiro. Além desses 129 milhões de motivos, excitaram a imaginação do ministro requintes e refinamentos que adoçam a vida dos ricos. Como atesta o noticiário da semana, entre eles figura um dos prazeres prediletos do ministro: viajar de jatinho sem pagar um único e escasso tostão.
No Brasil desfigurado pelas patifarias da Era Lula, gente que se julga condenada à impunidade perpétua não perde tempo com álibis. Faz sentido. Neste primeiro quarto de século, o restante do mundo assombrou-se com o Mensalão e o Petrolão. Entre um e outro escândalo de bom tamanho, a invenção do faroeste à brasileira — deformação do original americano em que o bandido persegue o mocinho e prende o xerife — apressou inovações que garantem a boa colocação do país no ranking mundial da corrupção de elite. Foi aqui, por exemplo, que a ladroagem liderada por figurões da República ultrapassou a barreira do bilhão e a propina passou a ser medida em milhões. Aqui foi morta por excesso de eficiência a Operação Lava Jato. Aqui nasceu e continua existindo o primeiro bando do gênero que já anexou ao elenco de protagonistas dois ministros do Supremo Tribunal Federal.
Em contrapartida, não existe um só corrupto na multidão de delinquentes espalhados pelo sistema carcerário. É compreensível que os envolvidos nas bandalheiras do caso Master continuem caprichando na pose de protetores da democracia ameaçada por golpistas incuráveis. Nenhum deles parece ter perdido o sono com o derretimento do respeito pelo Supremo reiterado por pesquisas de opinião. É difícil acreditar na punição dos superdoutores, choramingam jornalistas que convivem com integrantes do STF. Também é difícil acreditar que o Brasil decente siga engolindo sem engasgos o silêncio arrogante ou a desconversa esfarrapada dos atropeladores da lei.
Moraes encarregou alguém do seu gabinete de rebater as denúncias da Folha com uma nota que deixaria ruborizado o mais cínico fabricante de fake news. “As ilações da fantasiosa matéria são absolutamente falsas”, começa o desfile de mentiras. “O ministro Alexandre de Moraes jamais viajou em nenhum avião de Daniel Vorcaro ou em sua companhia.” A versão foi demolida pela própria mulher do ministro. Divulgada pelo escritório de Viviane Barci de Moraes, a nota primeiro confirma que foi cliente da Prime Aviation, empresa do grupo Master. Em seguida, garante que as incursões pelos céus do país estavam previstas no contrato recordista.
A revelação foi suavizada por uma ressalva inverossímil em mau português: “Todos os valores eram pagos, compensando os honorários advocatícios nos termos contratuais”. Tradução em língua de gente: segundo Viviane, o preço da viagem no jato executivo era descontado da bolada que recebia mensalmente. Se alguém quiser acreditar, paciência. Mas é difícil imaginar Vorcaro, um perdulário patológico, ordenando à secretária que não esquecesse de lembrar ao diretor financeiro que, naquele mês, a bolada depositada na conta da doutora Viviane seria duas viagens de jato menor.
Como ocorre há mais de seis anos, Moraes consolou-se na quinta-feira com a entrada do parceiro Dias Toffoli na mesma encrenca aérea em que se meteu. O Brasil agora sabe que, na manhã de 4 de julho de 2025, o ministro embarcou em Brasília no mesmo jato executivo da Mastertour que transportou Moraes mais de uma vez. Duas horas depois, o viajante chegou a Marília, cidade em que nasceu. No mesmo dia, a pedido do Supremo, seguranças do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região foram deslocados para Ribeirão Claro, na divisa entre São Paulo e o Paraná. Ali fica o agora famoso resort Tayayá, pivô de nebulosas negociações que transferiram também Dias Toffoli para o mundo dos milionários.
Eles estão juntos desde a criação do interminável Inquérito das Fake News, vulgo Inquérito do Fim do Mundo. Fim de mundo é um Supremo dominado por gente assim. E assim será até que os eleitores aprendam que é o povo quem determina o destino de um país. Não custa nada usar corretamente o instrumento do voto. Basta eleger um Congresso suficientemente altivo para impedir o domínio do STF pela bancada que junta os incapazes e os capazes de tudo.
Augusto Nunes - Revista Oeste