sexta-feira, 3 de abril de 2026

Capitalismo e regulação no futebol: uma comparação entre Inglaterra e Brasil, por Douglas Schossler

 

“Sem dúvida, as pessoas chutam frutas e cabaças há mais tempo, pedras e seixos de vez em quando, crânios talvez e qualquer tipo de objeto aproximadamente esférico que o mundo apresenta. Claro que sim, é um ato irresistível: espiar o objeto, imaginar sua trajetória futura, moldar e equilibrar o próprio corpo e então dar um golpe poderoso. Melhor ainda, vem o delicioso momento do impacto e a sempre extraordinária sensação de energia e movimento passando da perna para o objeto inanimado”.

Assim começa o livro “The Ball is Round: a Global History of Football”, de David Goldblatt. Este fenômeno, que transcende a mera prática esportiva, consolidou-se como um gigante social e econômico de alcance global. No entanto, em meio a essa grandiosidade, surge uma questão intrigante: como pode uma organização que movimenta quantias exorbitantes sobreviver com dívidas bilionárias? Para desvendar essa complexidade, é fundamental analisar os modelos jurídicos e econômicos que moldaram o futebol, especialmente no Reino Unido e no Brasil, sob a ótica da Escola Austríaca de Economia.

A Escola Austríaca oferece um arcabouço teórico robusto para analisar a intervenção estatal e seus efeitos. Ludwig von Mises, em sua obra Ação Humana, destaca que a ação humana é sempre proposital, visando a melhoria da condição do indivíduo, e que a propriedade privada é o fundamento para que essa ação se desenvolva livremente, permitindo a alocação eficiente de recursos e a formação de preços. A ausência de propriedade privada clara, ou sua constante ameaça por intervenção estatal, desincentiva o investimento e a inovação. Friedrich Hayek, por sua vez, enfatiza a importância da ordem espontânea e a dispersão do conhecimento, argumentando que a intervenção estatal centralizada é incapaz de processar a complexidade das informações de mercado, levando a distorções e ineficiências.

Complementarmente, Murray Rothbard e Hans-Hermann Hoppe aprofundam a crítica ao estado. Hoppe, em Democracia: O Deus Que Falhou, argumenta que a democracia, ao substituir a propriedade privada do governante (monarquia) pela propriedade pública (democracia), incentiva a exploração de curto prazo em detrimento da sustentabilidade no longo prazo, dada a característica transitória dos governantes. Essa lógica pode ser aplicada à gestão de clubes de futebol, onde a ausência de um proprietário claro e responsável pode levar a decisões financeiras insustentáveis. Mesmo considerando o futebol como uma indústria cultural global, com características únicas como a paixão dos torcedores e a imprevisibilidade dos resultados, como descreve Goldblatt, os princípios econômicos da Escola Austríaca permanecem relevantes, especialmente no que tange à eficiência da gestão e à sustentabilidade financeira.

Assim, na análise dos modelos jurídicos e econômicos do futebol britânico e brasileiro, revelam-se contrastes marcantes que podem ser explicados pela maior ou menor aderência aos princípios da Escola Austríaca de Economia. O futebol britânico, berço do esporte moderno, profissionalizou-se em 1885 e, desde então, seguiu um caminho de menor intervenção estatal e maior liberdade de mercado. Os clubes britânicos, em sua maioria, adotaram a forma de sociedades anônimas (public limited companies – PLCs) desde o início do século XX. Essa estrutura permitiu a captação de investimentos privados, a profissionalização da gestão e a busca por lucratividade. A criação da Premier League em 1992, como uma liga independente da Football Association (FA), foi um marco nesse processo, consolidando um modelo de negócio altamente capitalista e globalizado. A Premier League é um exemplo de ordem espontânea, onde a competição entre clubes e a busca por eficiência geraram um produto de alta qualidade e rentabilidade. A clareza na propriedade e a responsabilidade financeira dos acionistas incentivaram a boa gestão e o investimento de longo prazo.

Em contraste, o futebol brasileiro foi historicamente marcado por intensa intervenção estatal e um modelo associativo. Os clubes, em sua maioria, operam como associações civis sem fins lucrativos, o que dificulta a captação de investimentos e a profissionalização da gestão. A legislação brasileira, desde a Lei Zico (1993) até a Lei Pelé (1998), tentou, por vezes, forçar a transição para clubes-empresa, mas sem sucesso generalizado devido à resistência e à falta de incentivos claros. A intervenção estatal se manifestou em diversas frentes: desde a regulamentação de contratos de atletas até o socorro financeiro a clubes endividados, criando um ciclo vicioso de irresponsabilidade fiscal. A ausência de propriedade privada clara e a gestão por conselhos deliberativos, muitas vezes politizados, levaram a decisões de curto prazo, endividamento crônico e falta de planejamento estratégico, corroborando a crítica de Hoppe sobre a gestão de bens públicos.

Tabela 1. Comparação entre modelo associativo e de propriedade privada

 Modelo AssociativoModelo de Propriedade Privada
Estrutura JurídicaAssociações civis sem fins lucrativosSociedades Anônimas PLCs
PropriedadeColetiva/difusaPrivada/acionistas
GovernançaConselhos deliberativos, eleições políticasProfissional, foco em resultados
IncentivosCurto prazo, populismoLongo prazo, skin in the game
Resultados FinanceirosDívidas crônicasSustentabilidade e crescimento

Fonte: Elaborado pelo autor.

As diferenças nos modelos jurídicos e econômicos resultaram em consequências financeiras e esportivas distintas. O futebol britânico, com sua estrutura capitalista, alcançou um patamar de receita e lucratividade invejável, atraindo os melhores talentos e investidores globais. A Premier League é a liga mais rica do mundo, com clubes que operam como empresas eficientes. No Brasil, a maioria dos clubes enfrenta graves problemas financeiros, com dívidas crescentes e dependência de receitas pontuais, como a venda de jogadores. O gráfico abaixo ilustra a disparidade entre a Premier League e a Série A do Campeonato Brasileiro em termos de relação dívida/receita.

Gráfico 1. Relação Dívida Líquida/Receita Líquida (Premier League vs. Série A)

Fonte: Elaborado pelo autor.

A Escola Austríaca oferece uma lente clara para entender as disparidades. A liberdade de mercado e a propriedade privada no Reino Unido permitiram a formação de preços reais, a alocação eficiente de capital e a inovação, resultando em um ecossistema futebolístico robusto. A competição entre clubes, sem a interferência estatal, impulsionou a busca por excelência e a satisfação do consumidor (torcedor).

No Brasil, a intervenção estatal e a ausência de propriedade privada clara nos clubes geraram incentivos perversos. A falta de responsabilidade fiscal, a dependência de subsídios e a dificuldade em atrair investimentos de longo prazo são consequências diretas da desconsideração dos princípios de Mises e Hayek. A Lei da SAF (Lei nº 14.193/2021) representa uma tentativa de alinhar o futebol brasileiro com os princípios capitalistas, permitindo que os clubes se tornem empresas e atraiam capital privado. Se bem implementada, pode atrair investimentos, profissionalizar a gestão e promover a sustentabilidade financeira dos clubes, alinhando-os com as práticas de sucesso observadas globalmente.

E, para onde podemos ir? Observam-se três vertentes principais: (1) clubes tradicionais (associativos, com aproximadamente 100 anos de existência, presentes nas principais séries do Campeonato Brasileiro, que enfrentam maior resistência interna e externa, e que, a depender do nível de endividamento, poderão fazer a mudança); (2) clubes de menor expressão (com uma mudança mais rápida, menor pressão e custos de oportunidade); e (3) novos clubes (SAF nativos, focados na revelação de talentos). O Brasil, um celeiro de jogadores, verá os clubes tradicionais terceirizarem o desenvolvimento para esses novos modelos, gerando uma nova dinâmica de mercado e, assim, escalar a produção de talentos qualificados técnica e socialmente.

Em conclusão, a comparação entre os modelos jurídicos e econômicos do futebol britânico e brasileiro, sob a ótica da Escola Austríaca de Economia, revela que a menor intervenção estatal e a predominância da propriedade privada no Reino Unido foram cruciais para o desenvolvimento de um ecossistema futebolístico eficiente e sustentável. Em contrapartida, o futebol brasileiro, com sua histórica dependência da regulação e intervenção estatal, e a predominância de clubes como associações civis, acumulou dívidas e ineficiências. A ausência de incentivos claros para a boa gestão e a falta de responsabilidade fiscal são reflexos diretos da desconsideração dos princípios de propriedade privada e ordem espontânea. O quadro abaixo sintetiza a evolução dos tipos jurídicos no futebol britânico e brasileiro, destacando a diferença de trajetória.

Tabela 2. Evolução dos Tipos Jurídicos no Futebol

 BrasilReino Unido
Início (século XIX)Clubes amadores, associaçõesClubes amadores, associações
Profissionalização (início do século XX)Associações civis sem fins lucrativosSociedades Anônimas (PLCs)
Final séc. XX – Início séc. XXIManutenção do modelo associativo, tentativas de “clube-empresa” (Lei Zico, Lei Pelé) com pouco sucessoConsolidação das PLCs, criação da Premier League, globalização
AtualmentePredominância de associações, surgimento da SAF (Lei nº 14.193/2021)PLCs dominantes, clubes como grandes corporações globais

Fonte: Elaborado pelo autor.

A lição da Escola Austríaca é clara: a liberdade econômica e a proteção da propriedade privada são os motores do progresso. Para que o futebol brasileiro alcance seu pleno potencial, é imperativo afastar-se da mentalidade intervencionista e abraçar os princípios de mercado que tanto sucesso trouxeram ao futebol britânico e a outras indústrias prósperas.



 - Douglas Schossler Mises Brasil