Criação da aliança internacional teve o propósito claro de proteger um modo de vida
E sta semana nos traz uma data que merece ser lembrada com respeito e clareza: o nascimento da Organização do Tratado do Atlântico Norte, a Otan, assinada em 4 de abril de 1949. No rastro das cinzas da Segunda Guerra Mundial, doze nações do Ocidente se uniram não por idealismo ingênuo, mas por uma necessidade dura e real: conter a expansão de um império totalitário que ameaçava engolir a liberdade da Europa e, com ela, os pilares da civilização ocidental.
Aqueles líderes compreendiam algo que, com o passar do tempo, parecia ter sido parcialmente esquecido. A paz não se sustenta por declarações bem-intencionadas nem por desejos abstratos de harmonia universal. Ela exige força moral, vontade coletiva e, sobretudo, disposição concreta de defender fronteiras e valores.
A Otan nasceu como um pacto de defesa mútua, ancorado no princípio simples e poderoso do Artigo 5º: um ataque contra um membro seria considerado um ataque contra todos. Mais do que um arranjo militar, tratava-se da expressão prática de uma herança civilizacional. Havia ali a convicção de que sociedades livres, enraizadas na tradição judaico-cristã, na razão e na responsabilidade individual, mereciam ser protegidas contra ideologias que dissolvessem a ordem, a soberania e a dignidade humana.
Página de autenticação de uma cópia oficial do tratado da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), assinada e selada pelo Secretário de Estado Dean Acheson (4/4/1949) | Foto: Wikimedia Commons
Setenta e sete anos depois, essa lição permanece não apenas relevante, mas urgente.
O mundo não se tornou mais estável com o tempo; tornou-se mais complexo. Novas ameaças surgiram, outras se transformaram, mas a essência do desafio permanece a mesma: regimes que operam pela coerção, pela intimidação e pela projeção de poder continuam testando os limites das democracias ocidentais.
Nesta semana, esse cenário se manifestou com nitidez. O presidente Donald Trump, em discurso à nação e declarações à imprensa, adotou um tom que há muito não se ouvia com tamanha clareza: o de que a força não é um recurso acessório, mas um instrumento necessário quando a dissuasão deixa de ser suficiente. Ao descrever as operações contra o Irã, falou em vitórias rápidas, decisivas e avassaladoras, deixando evidente que sua estratégia vai além de uma resposta pontual a eventos imediatos.
O objetivo declarado é desmontar, de forma sistemática, a capacidade de um regime de ameaçar os Estados Unidos e seus aliados, impedindo que o risco se torne estrutural e, portanto, mais difícil de conter no futuro. Trata-se de uma lógica que privilegia a antecipação em vez da reação, com todos os custos e implicações que essa escolha carrega em uma lógica simples: o maior financiador do terrorismo no mundo não pode ter armas nucleares.
Ao mesmo tempo, o secretário de Estado Marco Rubio tem desempenhado um papel central na articulação desse posicionamento. Suas declarações ao longo da semana reforçam a ideia de que, para Washington, o regime iraniano não constitui uma ameaça circunstancial, mas estrutural — um ator que, ao longo de décadas, construiu sua política externa sobre a confrontação direta com os interesses americanos e com a estabilidade de regiões inteiras. Ninguém entoa “Morte à América” durante 47 anos sem que deseje a morte de americanos e o aniquilamento do que a América representa.
Ao abordar o Estreito de Ormuz, ponto-chave do conflito e por onde passa 20% da produção de petróleo comercializado no mundo, Rubio tocou em um ponto particularmente sensível da ordem global contemporânea. Qualquer tentativa de interferência naquele corredor marítimo, responsável por uma parcela significativa do fluxo energético mundial, não pode ser interpretada como um episódio regional isolado. Trata-se de uma ação com potencial de impacto sistêmico, capaz de afetar cadeias econômicas, preços globais e, em última instância, a segurança de países muito além do Oriente Médio.
É nesse ponto que a discussão ultrapassa o eixo bilateral entre Estados Unidos e Irã e passa a alcançar a própria natureza das alianças ocidentais.
Ao longo dos últimos dias, tanto Trump quanto Rubio fizeram críticas diretas à Otan. Não se trata, necessariamente, de uma rejeição à aliança, mas de um questionamento sobre sua funcionalidade real no contexto atual. A crítica central é simples, ainda que desconfortável: uma aliança só se sustenta quando seus membros compartilham não apenas os benefícios da segurança coletiva, mas também os seus custos.
Durante décadas, os Estados Unidos assumiram a maior parte desse encargo. Financiaram, protegeram e garantiram estabilidade para que a Europa pudesse se reconstruir e prosperar após a devastação da guerra. Esse arranjo fez sentido em um determinado momento histórico, mas se torna cada vez mais difícil de justificar quando ameaças concretas ressurgem e a resposta de parte dos aliados se revela hesitante.
Quando líderes europeus afirmam que determinados conflitos “não são sua guerra”, levantam uma questão inevitável sobre o próprio significado de uma aliança. Se a segurança coletiva se torna seletiva, condicionada à conveniência política de cada momento, ela deixa de ser um princípio estruturante e passa a ser apenas uma opção circunstancial
Trump foi particularmente incisivo ao afirmar que, sem compromisso real por parte de seus membros, a Otan corre o risco de se transformar em um peso, e não em uma força. Rubio, por sua vez, acrescentou uma camada importante a esse diagnóstico ao lembrar que a aliança nunca foi apenas um instrumento de defesa europeia, mas também um elemento central da arquitetura de segurança americana, incluindo o acesso a bases, rotas e infraestrutura estratégica.
Se esses instrumentos deixam de estar disponíveis quando necessários, a relação perde seu caráter de parceria e passa a se aproximar de uma dinâmica assimétrica, na qual poucos sustentam muitos. Essa tensão não deve ser interpretada, necessariamente, como sinal de fragilidade da Otan.
Ao contrário, pode ser entendida como um teste de maturidade. Alianças verdadeiras não sobrevivem ao comodismo, à dependência crônica ou à ilusão de que a responsabilidade sempre recairá sobre o mesmo ator.
Os fundadores da Otan compreendiam isso com clareza porque haviam experimentado as consequências do oposto. Conheciam o preço do apaziguamento, o custo da hesitação e os riscos de subestimar regimes que operam com lógica expansionista. Eles sabiam que a ausência de firmeza não elimina o conflito, apenas o adia — e, frequentemente, o torna mais devastador.
A realidade de 2026 traz essa lição de volta ao centro do debate.
Enquanto os Estados Unidos enfrentam diretamente o regime iraniano, parte do mundo ocidental parece dividida entre o reconhecimento da ameaça de um regime teocrático e violento e a relutância em agir de forma proporcional.
Ao mesmo tempo, outras fissuras tornam-se visíveis em diferentes esferas. Instituições internacionais que deveriam funcionar como referência moral muitas vezes revelam seletividade em suas reações.
Denúncias 0 graves coexistem com silêncios difíceis de justificar, enquanto decisões políticas são tomadas sob justificativas que nem sempre resistem a uma análise mais rigorosa. Esse descompasso contribui para um fenômeno mais profundo: a erosão da confiança.
No fim, alianças não são sustentadas apenas por tratados formais, mas por percepções compartilhadas de legitimidade, coerência e propósito comum. Quando esses elementos se enfraquecem, a estrutura permanece, mas perde a força que a tornava efetiva.
Uma projeção ortográfica da Organização do Tratado do Atlântico Norte, com os países membros em verde | Foto: Wikimedia Commons/Domínio Público
A Otan não foi concebida como uma organização voltada à gestão abstrata de conflitos ou como um fórum permanente de boas intenções em coletivas de imprensa. Sua criação teve um propósito claro: proteger um modo de vida. Um modo de vida que, apesar de suas imperfeições, foi responsável por construir instituições estáveis, promover a liberdade individual, estabelecer limites ao poder estatal e gerar níveis de prosperidade sem precedentes na história humana.
Um modo de vida que defende, antes de tudo, a dignidade humana. Defender esse legado não é um exercício retórico, mas uma responsabilidade concreta, que exige clareza moral.
Clareza para reconhecer que nem todas as visões de mundo são compatíveis com uma ordem livre, clareza para entender que a paz frequentemente depende da disposição de impor limites e clareza para admitir que a força, quando orientada por princípios, não é o oposto da civilização, mas uma de suas condições de existência.
Os líderes de 1949 não tinham o conforto da abstração. Seus olhos haviam testemunhado cidades destruídas, um número de mortes que parecia não ter fim, populações deslocadas e regimes que transformaram ideologia em instrumento de dominação total.
Eles sabiam que a liberdade, quando não é defendida, não se sustenta por inércia.
Hoje, essa mesma compreensão volta a ser exigida, ainda que em um contexto diferente.
A questão central não é apenas se a Otan continuará existindo como estrutura institucional, mas se continuará sendo fiel àquilo que motivou sua criação. Uma aliança de nações dispostas a agir, e não apenas a declarar intenções.
No fim, o desafio não é técnico, não é político, muito menos burocrático — mas moral. Trata-se de saber se ainda existe, no Ocidente, a disposição de sustentar os princípios que afirma representar — não apenas em discursos, mas em decisões concretas, não apenas em declarações formais, mas em ações que envolvem custos reais.
A história demonstra, de forma consistente, o que ocorre quando essa disposição falha.
Talvez seja exatamente por isso que datas como a criação da Otan merecem ser revisitadas. Não como um exercício de nostalgia, mas como um convite à responsabilidade.
Alianças podem ser assinadas em papel. Mas só sobrevivem quando são sustentadas, ao longo do tempo, pela coragem de quem decide honrá-las.
Ana Paula Henkel -Revista Oeste