sexta-feira, 17 de abril de 2026

'O primeiro delator', por Eugênio Esber

Quem é e o que tem a dizer Maurício Camisotti, que inaugura a esperada série de delações dos acusados de um desfalque bilionário nas aposentadorias e pensões


Maurício Camisotti e o edifício sede do INSS, Instituto Nacional do Seguro Social, em Brasília, DF - Foto: Montagem Revista Oeste/Reprodução/Shutterstock 


Tão estonteante é a sequência de escândalos no Brasil que alguns deles conseguem trafegar por baixo dos radares da atenção pública. É o caso da Farra do INSS, que surrupiou mais de R$ 6,3 bilhões de aposentados, pensionistas, idosos com necessidades especiais, pessoas com deficiência e outros brasileiros vulneráveis. Na semana passada, enquanto o Brasil saboreava detalhes picantes do broche, também chamado de “ValeSuicinha”, que Daniel Vorcaro ofereceu a alguns poderosos que foram prestigiar sua festa londrina em homenagem a Alexandre de Moraes, uma informação fundamental veio a público sem maior impacto no noticiário. 

Preso desde o dia 12 de setembro pela Polícia Federal, no curso da Operação Sem Desconto, o empresário Maurício Camisotti assinou com a Polícia Federal um acordo em que reconhece sua participação nos crimes de que é acusado e se compromete a apontar os demais implicados no esquema que, como revelou Oeste, enriqueceu dirigentes de sindicatos, lobistas e espertalhões que estão no poder ou orbitam em torno daqueles que têm acesso aos cofres da Previdência. No mesmo dia em que o ministro André Mendonça, relator do processo no Supremo Tribunal Federal (STF), ordenou a prisão de Camisotti, em setembro, também foi preso o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS. Ambos estão, portanto, há sete meses na cadeia — Camisotti na superintendência da Polícia Federal em São Paulo, Careca na Papuda, em Brasília. 

Maurício Camisotti optou pela delação na expectativa de passar para o regime de prisão preventiva domiciliar, e sua decisão pode desarmar a resistência que até o momento Careca vem apresentando a contar o que sabe. Se esperar mais, terá menos poder de barganha com a Justiça. Afinal, pode ficar sem muito a acrescentar ao que a Polícia já tiver apurado com Camisotti e com as cerca de 30 pessoas sob investigação a partir do acordo de delação já firmado, e que neste momento passa pela homologação de André Mendonça e pela análise da Procuradoria-Geral da República, hoje sob a sonolenta chefia de Paulo Gonet. 


Paulo Gonet em sessão plenária do STF (09/04/2026) - Foto: Antonio Augusto/STF

Ambos são figuras centrais na sórdida teia de transações que desviou trocadinhos de aposentados e pensionistas, mês a mês, por anos a fio — com um súbito e brutal crescimento da roubalheira a partir de 2023, quando começa o terceiro mandato de Lula e se abre uma janela de oportunidade para sindicalistas com pouco escrúpulo e muita volúpia, após o desmame do imposto sindical abolido em 2017, na gestão Temer. 

De Antônio Carlos “Careca” Camilo Antunes, esperam-se confissões próprias de um lobista — o agente capaz de encontrar os caminhos, conectar as pessoas em diferentes instâncias e azeitar o fluxo de pagamentos e propinas. Seu trânsito nos corredores do INSS, do palácio, da esplanada dos ministérios, e suas reuniões em gabinetes de parlamentares e em entidades sindicais e associativas acenderão um rastilho de pólvora para o mundo político, caso decida abrir a boca. 


Empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como o Careca do INSS - Foto: Lula Marques/Agência Brasil

As viagens ao exterior que patrocinou a Lulinha, e que fez na companhia do filho do presidente, são petardos no colo de Lula no fragor de uma campanha para reeleição. O detonador está nas mensagens de celular trocadas entre Antunes e Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha e da esposa. Nos diálogos, a Polícia encontrou indícios de mesadas de R$ 300 mil pagas pelo Careca ao “filho do rapaz”, suposto codinome de Lulinha. 

Bem mais discreto que Careca, e sobretudo sem o reluzente atributo físico que coroou Antunes como o mais popular personagem da Farra do INSS, Maurício Camisotti é um empresário que teve sucesso em seu setor, antes da eclosão do escândalo. Dentista, no início da década de 2010, ele fundou a Prodent, de serviços odontológicos. Em 2018, a Prodent já era a oitava maior operadora de planos de assistência odontológica do Brasil, com 400 mil clientes. Despertou o interesse da SulAmérica Seguros, que pagou a Camisotti R$ 145 milhões para adquirir 100% do capital. 

Com o caixa abastecido, Camisotti passou a buscar outras oportunidades e foi montando um colar de empresas, a maioria delas no mesmo setor — Prevident, Rede Mais Saúde, Brasil Dental Serviços Compartilhados, além de uma corretora de seguros, a Benfix. O conglomerado ao qual deu o nome de Total Health Group (THG) acabou tomando a forma de um polvo, com mais de 20 empresas — e esta configuração intrincada acabaria se prestando, segundo investigações da Polícia Federal, a transformar Maurício Camisotti no líder do núcleo financeiro e administrativo do esquema de desvio e lavagem de recursos oriundos do INSS. Trata-se, nas palavras do relator da CPMI do INSS, deputado Alfredo Gaspar, de uma “vasta e sofisticada estrutura criminosa” construída para praticar, através de descontos associativos não autorizados, uma fraude sistêmica contra aposentados e pensionistas.


Maurício Camisotti | Foto: Reprodução redes sociais

A parte que cabe a Camisotti nesse latifúndio pantanoso revelado pela Polícia Federal é a de ser um sócio oculto — por meio de seu grupo empresarial — de entidades associativas que sugavam mensalmente os trocados de beneficiários da Previdência a pretexto de prestarem serviços inexistentes, sem aprovação ou nem mesmo conhecimento de aposentados e pensionistas. Os recursos drenados por estas associações acabavam irrigando diferentes empresas do grupo THG, várias delas tendo como CEO o filho de Camisotti, Paulo, ou integradas por pessoas ligadas à família.

Entre essas entidades de nomes curiosos, incluem-se a Associação dos Mutualistas para Benefícios Coletivos (Ambec), a União Nacional dos Aposentados e Pensionistas (Unsbras) e o Centro de Estudos dos Benefícios dos Aposentados e Pensionistas (Cebap), todas com sede em São Paulo, assim como as empresas de Camisotti. A CPMI do INSS convocou pai e filho para esclarecimentos. 

Maurício, preso, não compareceu. Paulo Camisotti foi, mas se manteve calado na maior parte do tempo, amparado pelo direito a silêncio concedido pelo STF. No fim das contas, o relator da CPMI do INSS, deputado Alfredo Gaspar, não conseguiu extrair as explicações que buscava para a alta soma de repasses a empresas da família Camisotti, uma fortuna próxima de R$ 1 bilhão. Mas inclui a dupla entre os 215 indiciamentos que solicitou em seu relatório com mais de 4 mil páginas. Entre os crimes a eles imputados, figuram organização criminosa e lavagem de dinheiro. 


O empresário Paulo Otávio Camisotti, filho de Maurício Camisotti, na CPMI do INSS - Foto: Carlos Moura/Agência Senado

Nesta quarta-feira, 15, Gaspar foi ao STF acompanhar o presidente da comissão, senador Carlos Viana, na cerimônia de entrega do relatório da CPMI aos ministros André Mendonça e Luiz Fux. A repórter Sarah Peres, de Oeste, perguntou a Gaspar sua expectativa com a assinatura do acordo de delação premiada de Camisotti, uma vez que, na CPMI, o empresário foi apontado como responsável por movimentar somas mais de três vezes superiores às do Careca do INSS. “Não tenho dúvida nenhuma de que o Camisotti é um dos personagens principais e é capaz de esclarecer essa sujeira do INSS e sua relação com as entranhas do mundo jurídico e político”, respondeu o relator. 

Na delação, além de devolver somas que ascendem a centenas de milhões de reais, Maurício Camisotti assumirá o compromisso de apontar outras peças-chave do caso em apuração. Há notícias de que já são mais de 30 pessoas colocadas no radar da Polícia Federal a partir de seu acordo de colaboração. Uma delas é a lobista Roberta Luchsinger, de quem a Polícia Federal espera detalhes sobre repasses que o Careca fez para Lulinha, utilizando-a como intermediária. O valor chegaria a R$ 1,5 milhão. 

O ex-ministro da Previdência Social de Lula, Carlos Lupi, exonerado dez dias depois que a Polícia Federal deflagrou a Operação Sem Desconto, é outro alvo da delação de Camisotti a perturbar Lula e sua base de apoio. Do INSS, há dois ex-dirigentes presos desde novembro — o diretor André Fidelis e o procurador Virgílio Oliveira Filho, e as atenções no Palácio do Planalto recaem sobre o que podem dizer, caso assinem acordo de delação, ou o que Camisotti pode ter dito sobre a omissão e conivência do INSS com as fraudes consumadas.


Carlos Lupi, hoje ex-ministro da Previdência Social, em reunião da Comissão de Previdência, Assistência Social, Infância, Adolescência e Família da Câmara, em Brasília, DF (29/4/2025) - Foto: Lula Marques/Agência Brasil 


Camisotti é só o primeiro delator. Se sua colaboração for homologada pelo ministro André Mendonça, abrirá caminho para muitas outras — e os aposentados e pensionistas do Brasil terão as respostas que a CPMI esteve perto de conseguir até esbarrar na muralha do regime PTSTF. 


Eugênio Esber - Revista Oeste