Alexandre de Moraes deveria ouvir a voz do povo e dar o fora
N ão passaram de 200 os brasileiros que, nos anos 1970, aderiram a grupos decididos a derrubar a bala o regime militar. Mas milhares de combatentes que ignoravam a diferença entre um trabuco e um fuzil conseguiram vagas no programa Bolsa Ditadura, que continua garantindo a sobrevivência até de filhos e netos de gente que jamais apertou um gatilho. Quando esses guerrilheiros de botequim começaram a embolsar gordas indenizações e mesadas distribuídas pelas comissões de anistia, Millôr Fernandes demoliu a farsa com meia dúzia de palavras: “Pensei que fosse ideologia. Era investimento”.
A constatação feita pelo maior intelectual brasileiro pode ser estendida a Alexandre de Moraes. Há seis anos, em parceria com o companheiro Dias Toffoli, o impetuoso ex-promotor de Justiça transformou seu gabinete no Supremo Tribunal Federal em sede da mais movimentada vara criminal do país. De lá para cá, fez do estilo tiro, porrada e bomba uma declaração de amor à democracia ameaçada por extremistas de direita. “Chefio uma vara criminal com mais de dois mil casos”, gabou-se o ministro há dois anos. “Mas tem muita gente pra prendê, muita multa pra aplicá”, avisou o carrasco dos erres de verbos no infinitivo. Menos de cinco meses depois do embarque no noticiário político-policial a bordo do caso Master, está claro que Moraes nunca perdeu o sono com ameaças ao Estado de Direito. Foi investimento.
Uma imensidão de vítimas foi castigada com prisões preventivas sem prazo para terminar, extensas temporadas numa cela, uso diuturno de tornozeleiras, abolição de cuidados médicos requeridos por encarcerados enfermos, julgamentos por rebanho, bloqueio de contas bancárias, proibição de acesso a redes sociais, cancelamento do devido processo legal e do direito de ampla defesa, fora o resto. Nunca um ministro do Supremo foi tão perverso. Nunca um premiado com a toga do Supremo amedrontou tanta gente. Nunca houve outro tão poderoso. E nenhum integrante do Pretório Excelso foi transferido do Olimpo para o purgatório com tamanha velocidade.
O comportamento de Moraes confirma que o cúmplice de Daniel Vorcaro não havia providenciado um só guarda-chuva, nem mesmo uma sombrinha, quando, em novembro passado, a tempestade começou. Não foi por falta de aviso. Em vídeos que circulam pela internet desde 2022, o ex-deputado federal Roberto Jefferson estranha a expansão da clientela da advogada Viviane Barci de Moraes, que cuida do escritório em Brasília com a ajuda de dois filhos. (Jefferson sempre foi bem informado. Foi ele, por exemplo, quem revelou em 2005 o esquema de compra de voto no Congresso que levaria à devassa do escândalo do Mensalão.
O deputado acabou cassado, mas por muito pouco não provocou o impeachment do presidente Lula.
Chamou a atenção de Jefferson o campo preferencial de atuação da mulher e dos filhos de Moraes. Nenhum era advogado criminalista, ou craque em causas trabalhistas, ou especialista em questões comerciais. Todos eram doutores em “tribunais superiores”. O STF, como sempre se soube, é o mais importante. É também o mais lucrativo, reafirmou nesta semana a divulgação da declaração de rendimentos do Banco Master, obtida pela CPI do Crime Organizado. Entre janeiro de 2024 e o fim de 2025, quando o Master foi fulminado pelo Banco Central com a liquidação extrajudicial, Daniel Vorcaro pagou à mulher de Moraes R$ 80 milhões.
Como se tivesse acertado quatro vezes, sozinha, todos os números da Mega Sena. Repetindo o que tem feito desde o início do desfile de maracutaias, o ministro acusou o documento. Declarações de renda obtidas ilegalmente é que devem ser presas, indignou-se o marido da advogada mais bem paga do planeta. E quem comete esse crime hediondo merece tornozeleiras perpétuas.
O ministro vive mandando bala no mensageiro. Cada vez mais ansioso, agora quer impedir a existência de mensagens a entregar. A ideia nasceu do susto com o avanço das negociações do acordo que incluiria uma delação premiada de Vorcaro. Moraes quer mudar a legislação antes que o ex-banqueiro abra o bico. Se depender do ministro, delator será proibido de pronunciar o nome de qualquer titular do Timão da Toga. Eis aí uma guinada radical. Para condenar o ex-presidente Jair Bolsonaro e seu alto comando, Moraes impôs ao tenente-coronel Mauro Cid medonhas torturas psicológicas, algumas transmitidas ao vivo pela TV.
Numa das sessões, alertou o interrogado: se não dissesse o que o inquisidor queria, mandaria para a cadeia a família inteira do torturado. Além de 50 vizinhos pra cá e 50 pra lá.
Com ou sem delações premiadas, Moraes logo descobrirá que a ditadura do Judiciário acabou. Romeu Zema, ex-governador de Minas Gerais, afirmou publicamente que o ministro precisa ser imediatamente afastado do STF. Pressentindo o naufrágio, Lula recomendou “ao companheiro Moraes” que não estrague a notável biografia por causa de um banco quebrado: melhor declarar-se impedido de participar de decisões que envolvam o Master.
O decano Gilmar Mendes não voltou a recitar, entre um gole de água e uma lágrima imaginária, que as gerações futuras saberão ser gratas ao Protetor da Democracia. Moraes, enfim, perdeu o apoio incondicional e militante da bancada majoritária.
Não há como antecipar o desfecho da encrenca. É difícil imaginar o homem que nunca recua engolindo a capitulação. Tão difícil quanto imaginá-lo votando nas sessões do STF, mesmo soterrado por incontáveis provas de enriquecimento criminoso. Esta segunda hipótese só retardará a despedida prematura, decretada por um Senado recomposto pelas eleições deste ano.
Se conferir as pesquisas de opinião, Moraes talvez ouça a maioria dos brasileiros e caia fora. Melhor partir voluntariamente do que ser despejado.
Augusto Nunes - Revista Oeste