Não para determinar o resultado da eleição, mas justamente para que essa decisão possa caber soberanamente ao povo brasileiro
N o seio da direita brasileira, a seguinte fórmula verbal tem sido repetida exaustivamente — por vezes de maneira meramente protocolar e estratégica (se boa ou má estratégia, é outra discussão); por outras, expressando uma tacanhice sincera: “Não queremos interferência americana na política brasileira. Nós devemos cuidar dos nossos próprios problemas”.
Essa retórica manifestou-se inclusive em episódios recentes, quando o governo americano denunciou a perseguição à direita nacional e adotou medidas concretas contra o regime luloalexandrino, como a aplicação da Lei Magnitsky a Alexandre de Moraes e a suspensão de vistos para integrantes da nomenklatura tupiniquim. Naquele contexto, vale recordar, uma bandeira dos EUA foi erguida na Avenida Paulista, em pleno 7 de setembro — gesto que simbolizava tanto a gratidão popular pela iniciativa americana quanto o desejo de aproximação entre os dois países, em contraste com a política externa abertamente antiamericana e pró-totalitária conduzida pelo Itamaraty lulopetista. Ainda assim, a orgulhosa direita tupiniquim torceu o nariz.
O pastor Silas Malafaia, por exemplo, foi um dos mais vocais no repúdio à presença da bandeira americana, chegando a decretar — como um verdadeiro coronel de manifestação — a sua proibição em atos futuros. Tal qual o Cavaleiro Negro do Monty Python — o hilário personagem que, reduzido pela espada do adversário a um cotoco humano, ainda proclamava sua vitória iminente —, o soberbo pastor insistiu que resolver os problemas do país, ainda que estes assumam a forma de uma ditadura judicial, caberia única e exclusivamente aos brasileiros.
A postura de Silas Malafaia ao proibir a bandeira americana em manifestações revela uma soberba que ignora o peso de enfrentar uma ditadura judicial de forma isolada - Foto: Felipe Rau/Estadão ConteúdoCom a aproximação do período eleitoral, e influenciados por marqueteiros com escassa imaginação geopolítica, os candidatos da direita tendem a repetir esse mesmo discurso de soberania, curiosamente convergente com o da esquerda: “Não queremos interferência externa. Cuidemos nós mesmos dos nossos problemas”. Mas eu, que não sou político nem candidato, posso afirmar sem constrangimento: eu quero, sim, algum grau de interferência estrangeira — americana, em particular. E explico por quê.
Antes de tudo, convém lembrar que a ideia de “interferência externa” comporta múltiplos sentidos. O mais clássico refere-se à pressão diplomática e política internacional, que admite diferentes graus e modalidades. É evidente que defender esse tipo de interferência não implica advogar por ações militares — embora, no caso recente da Venezuela, seja difícil imaginar que vítimas do regime chavista tenham visto com maus olhos a derrubada de Nicolás Maduro sob o argumento formal de “respeito à soberania”.
Afinal, não há soberania popular sob regimes de força, e uma população submetida a uma tirania institucionalizada dificilmente dispõe dos meios para resolver, sozinha, os seus próprios problemas. É precisamente por entender que o Brasil vive hoje sob um regime de força — e, depois das ameaças que os magistrados suspeitos de acobertar o crime organizado fizeram ontem aos parlamentares da CPI do Crime Organizado, acho que só um insensato ainda não o percebeu —, que considero desejável uma interferência diplomática americana em nosso processo eleitoral. Desejável para que não se repita desta vez o que ocorreu em 2022 — quando Jair Bolsonaro foi apeado do poder mediante um golpe de Estado judicial, numa eleição conduzida de maneira ilegítima por juízes parciais.
Como já demonstrei em colunas passadas (como essa e essa outra), o golpe judicial contra Jair Bolsonaro recebeu apoio direto do governo americano de Joe Biden, uma interferência estrangeira não repudiada, mas, bem ao contrário, celebrada desavergonhadamente pelo establishment político-cultural de esquerda. Então, o mínimo que os golpeados no Brasil poderiam querer — para não serem novamente chamados de “manés” pelos malandros que lhes usurparam o direito de decidir — é que o novo governo americano se esforce para, pelo menos, desfazer as sujeiras perpetradas pelo deep state americano em prol da “eleição” do “Descondenado-em-chefe”, com isso restaurando condições mínimas de equilíbrio.
Sob essa perspectiva, uma eventual interferência diplomática americana não seria apenas conveniente, mas legítima, na medida em que os agentes institucionais responsáveis pelo golpe judicial de 2022 permanecem em suas posições de poder — nas mesmíssimas cadeiras que ocupavam há quatro anos. Os inquéritos ilegais que abriram para perseguir e censurar a direita continuam em curso. Sua conduta e objetivos — “derrotar o bolsonarismo”, “combater a extrema direita”, “editar a sociedade” etc. — seguem idênticos. E o fato de estarem acuados por suspeitas de envolvimento com o escândalo do Banco Master torna os extremistas políticos de toga ainda mais desesperados para manter no poder um chefe do Executivo que os blinda e os trata como “companheiros”.
Eis por que Alexandre de Moraes (hoje popularmente apelidado de “Careca do Master”) já começa a ensaiar um golpe contra a elegibilidade de Flávio Bolsonaro, o candidato que, tal como fizeram com o pai, os juristocratas pretendem aniquilar. No momento em que os principais institutos de pesquisa (inclusive o mais antibolsonarista dentre eles) já indicam uma vitória de Flávio contra o comedor de pacas no 2º turno, Moraes resolve abrir um inquérito contra o candidato do PL, sob o pretexto de que ele teria difamado o candidato petista. E qual seria a difamação? A mesma que foi censurada em 2022, numa clara manipulação do debate político e violação aos direitos do eleitor de ser informado: a afirmação verdadeira de que Lula é um aliado histórico de Nicolás Maduro e de que o ditador chavista é um narcotraficante. A resposta de Flávio foi certeira:
A resposta de Flávio foi certeira:
“O procedimento evoca práticas de censura e bloqueios de contas vistos no pleito de 2022, quando o Tribunal Superior Eleitoral, sob a mesma condução, impôs um flagrante desequilíbrio ao proibir termos como ‘descondenado’ para se referir ao petista, enquanto permitia ofensas sistemáticas contra o então presidente Jair Bolsonaro.”
Eis por que Alexandre de Moraes (hoje popularmente apelidado de “Careca do Master”) já começa a ensaiar um golpe contra a elegibilidade de Flávio Bolsonaro, o candidato que, tal como fizeram com o pai, os juristocratas pretendem aniquilar.
No momento em que os principais institutos de pesquisa (inclusive o mais antibolsonarista dentre eles) já indicam uma vitória de Flávio contra
Entende o leitor por que precisamos de interferência diplomática americana no nosso processo eleitoral? Precisamos dessa interferência não para determinar o resultado da eleição, mas justamente para que essa decisão possa caber soberanamente ao povo brasileiro, antes que mais uma vez “editada” por tiranetes de toga, em cujas bocas a palavra “democracia” sai na mesma frequência com que entram os goles de uísque pagos pelo amigo Vorcaro.
Flávio Gordon - Revista Oeste