sexta-feira, 17 de abril de 2026

Augusto Nunes e 'A suprema cegueira'

 A tropa do STF ainda enxerga na toga um manto de imperador


Os ministros do STF Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes - Foto: Gustavo Moreno/STF 


E ntre os primeiros da fila de clássicos da internet está o vídeo em que uma pane na garganta interrompe a discurseira de Dilma Rousseff. Ressuscitada a voz, a explicação em dilmês avisou que certas avarias na cabeça não têm conserto. “Desculpe, gente”, recomeçou com cara de quem não sabia direito onde havia parado. “Engasguei comigo mesma.” No meio de um dos palavrórios desta semana, Gilmar Mendes foi calado por uma sequência de engasgos de bom tamanho depois de um gole de água. A trinca de soluços pode ter sido um truque da bocarra para descansar alguns segundos da missão que lhe cabe quando o decano do Supremo está com a palavra: despejar outra enxurrada de bravatas, bazófias e besteiras. 

Caso tivesse ocorrido no outono de 2022, quando a insolência beligerante do STF alcançou altitudes assustadoras, a ofensiva desta semana apenas confirmaria que o país do Carnaval fora o primeiro do mundo a engolir sem engasgos a ditadura do Judiciário. Passados quatro anos, o atrevido ataque ao Senado, à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, às leis e à verdade só serviu para provar que o Brasil decente está farto de gente que enxerga na toga um manto de imperador. Segundo todos os institutos de pesquisa, mais de 60% dos brasileiros não confiam no Supremo Tribunal Federal. Boa parte da nação nem sabe que essa corte existe. Outros tantos ainda ignoram o que seus integrantes fazem desde o início da década. 

Afundados até o pescoço nas bandalheiras do caso Master, os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli fazem de conta que nem notaram os severos rasgos nas togas. Também fingindo ignorar os panos pretos em frangalhos, Gilmar reapareceu no palco do Egrégio Plenário para resgatar a dupla do pântano e mostrar quem manda no Brasil. Avisou que ordenara a Paulo Gonet, procurador-geral da República, graças ao decano amigo, que investigasse o senador Alessandro Vieira por “possível abuso de autoridade”. Relator a CPI do Crime Organizado, Vieira propôs o indiciamento de três ministros — Gilmar, Toffoli e Moraes — e do próprio Gonet. “É abuso de poder”, decidiu o decano. Imediatamente, o procurador saiu à caça de algum pretexto para tornar inelegível o senador candidato à reeleição. 


O relator da CPI do Crime Organizado, senador Alessandro Vieira (MDB-SE) concede entrevista, ao término da leitura do relatório final da CPI do Crime Organizado (14/04/2026) - Foto: Carlos Moura/Agência Senado

A execução da segunda ideia de jerico consumada nesta semana mobilizou a turma toda. A chefia da Polícia Federal, municiada pelo procurador Gonet com um parecer favorável, pediu licença ao ministro Moraes para apurar a suspeita de que, em janeiro, o senador Flávio Bolsonaro cometeu um crime de calúnia contra o presidente Lula. Segundo a PF, o instrumento do crime foi a conta de Flávio na rede social X. O texto, ilustrado por imagens que documentam a amizade que sempre uniu Lula e o ex-ditador venezuelano Nicolás Maduro, inspirou-se na iminente delação de Maduro, hoje preso nos EUA. Dizia o seguinte:

“Lula será delatado. É o fim do Foro de São Paulo, tráfico internacional de drogas e armas, lavagem de dinheiro, suporte a terroristas e ditaduras, eleições fraudadas…” 

Moraes tinha a decisão na ponta da língua: “Trata-se de publicação realizada em ambiente virtual, acessível a milhares de pessoas, por meio da qual se imputa fatos criminosos ao Presidente da República”. Em seguida, o Primeiro Carcereiro determinou “o envio dos autos à PF, para que sejam adotadas as providências cabíveis num prazo de 60 dias”. O tempo concedido sugere que entrou em férias o Moraes que media o prazo em horas até para a leitura de um processo de 20 mil linhas. “Essa medida é juridicamente frágil”, afirmou o candidato à Presidência. “A abertura deste inquérito configura uma clara tentativa de cercear a liberdade de expressão e o livre exercício do mandato parlamentar.”


O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), em pronunciamento, à bancada, no Plenário do Senado Federal (15/04/2026) | Foto: Carlos Moura/Agência Senado 


A réplica de Flávio reitera que está no fim a epidemia de medo disseminada nos últimos sete anos pelo recordista mundial em agressões à segurança jurídica. A erradicação do vírus foi acelerada pela descoberta de que a mulher de Moraes recebeu R$ 80 milhões de Daniel Vorcaro para estreitar os laços de amizade entre o marido poderoso e o dono do Master. A velocidade aumentou com a devassa do resort Tayayá, esconderijo de Dias Toffoli, abrigo de um cassino clandestino e pivô de maracutaias que garantiram ao ministro uma vida de ricaço. E será definitivamente erradicada quando o Brasil for confrontado com todos os assombros colhidos por investigações da Polícia Federal conduzidas pelo ministro André Mendonça.

Gilmar Mendes tem feito o possível para retardar, impedir ou anular o que virá com o avanço da varredura nas catacumbas. Com interpretações de chicaneiro, vem tentando mudar as normas que regulam delações premiadas, comissões parlamentares de inquérito e qualquer outra coisa que possa prejudicar a vida mansa dos togados. Num falatório especialmente bizarro, declarou-se pronto para sair no braço com qualquer um. “Eu, como sabem, adoro ser desafiado”, avisou. “No meu Mato Grosso, as pessoas dizem: ‘não me convide para dançar, porque eu posso aceitar’. Adoro ser desafiado. Me divirto com isso. É esse o quadro. Não gostaria de ficar lembrando coisas assim. Mas me chamaram pra dançar.” 

Até agora, Gilmar só brigou por microfone. Os ex-ministros Luís Roberto Barroso e Joaquim Barbosa o alvejaram com pesadas acusações. O agora decano não se ergueu para dançar. Já ouviu incontáveis desafios berrados por brasileiros que o reconhecem nas ruas de Lisboa. Não topou nenhum. Coragem física não se aprende. É algo que se tem (ou não) assim que terminam os trabalhos de parto. Sim, ofender a inteligência de milhões de brasileiros, como o ministro vive fazendo, parece coisa corajosa. Mas essa é a espécie de valentia que ajuda a identificar um covarde vocacional.



Gilmar Mendes em sessão da Segunda Turma do STF (14/04/2026) - Foto: Luiz Silveira/STF 


Augusto Nunes - Revista Oeste