'A escritora não abdicou da capacidade de pensar por si e de renegar a massificação política
Quem vem do mundo dos livros, seja como um profissional,
entusiasta, influencer ou mero curioso, em algum momento dos
últimos anos escutou algo sobre J.K. Rowling ser transfóbica. A
controvérsia envolvendo a autora de Harry Potter teve início entre
2019 e 2020, quando a escritora manifestou-se publicamente sobre a
“identidade de gênero” em suas redes sociais e em um ensaio mais
detalhado denominado: “Terf Wars: Why I Stand Up for Women’s SexBased Rights” (“Guerras Terf: por que eu defendo os direitos das
mulheres baseados no sexo”).
Mas tudo começou mesmo quando Rowling ironizou um artigo que
usava a expressão “pessoas que menstruam”.
Ela tuitou: “Tenho certeza de que costumava haver uma palavra para essas pessoas. Alguém me ajude? Wumben? Wimpund? Woomud?” (referindo-se a women/mulheres). Desde então, ela vem se posicionando contra os banheiros neutros, a ditadura da opinião única e a subjugação do caráter biológico dos sexos nos esportes.
Os críticos consideraram suas opiniões como “excludentes”, desencadeando forte reação de ativistas, leitores e parte do elenco associado à franquia Harry Potter. Daí em diante, o debate se consolidou como um dos casos mais emblemáticos do enfrentamento entre ativismo identitário e os defensores da liberdade de expressão no Reino Unido. Rowling vem mantendo heroicamente suas posições e passou a ser apoiada por setores que defendem uma resistência clara ou, no mínimo, uma postura cautelosa nas mudanças legais e conceituais sobre identidades de gênero.
Enquanto isso, seus opositores seguem denunciando suas falas como prejudiciais às pessoas trans, articulando cancelamentos e queimas de reputação pública da autora.
Terminada a contextualização, vamos à análise: Rowling assumiu publicamente uma vertente à esquerda da crítica ao “progressismo” identitarista europeu; sendo ela mesma ligada à esquerda britânica, doadora do Partido Trabalhista e opositora cultural da direita na Europa, não obstante, não engoliu o identitarismo e seus autoritarismos retóricos. Sua coragem em opor-se de dentro da esquerda à ideologia de gênero machucou, principalmente, aquelas pessoas ligadas à literatura e à produção cinematográfica europeia e norte-americana.
Afinal, sua obra mais famosa, a já mencionada saga infantojuvenil de Harry Potter, sempre foi sistematicamente usada como metáfora de crítica social ao status quo conservador. Fato é que ninguém esperava que viesse dela uma oposição às novas pautas da esquerda europeia, isto é, ninguém previu nela um dissenso “herético” ao então unívoco “ativismo trans” do século 21.
Rowling e o não-conformismo ideológico
Ao que parece, Rowling nasceu com o germe do não-conformismo ideológico, e ainda que uma confessa partidária de pautas históricas da esquerda, ela parece se ajustar a uma classe da esquerda que, apesar de abraçar o Estado de bem-estar social, o feminismo clássico e o igualitarismo econômico, não abdicou da capacidade de pensar por si e de renegar a massificação política. Se é uma socialista confessa — como parece ser —, ela o é por liberdade de consciência e escolha livre, não por empuxo militante. 18/0
É bem verdade que, tal oposição de dentro, não é mais tão rara quanto parece na esquerda europeia; teóricos como Mark Fisher, Adolph Reed Jr., Asad Haider e — como sempre menciono — o brasileiro Antonio Risério, não se dobraram ao neoesquerdismo de identidade e gastaram boa parte de suas críticas ao autoritarismo dessa vertente. No meio literário, por sua via, Rowling junta-se a outros autores contemporâneos que criticaram o identitarismo publicamente, tal como Lionel Shriver, Martim Amis, Salman Rushdie, Michel Houellebecq e até mesmo Margaret Atwood — não sendo todos assumidamente de esquerda, é verdade, mas todos reticentes com o identitarismo.
Quando passeamos pelo TikTok — de longe a rede social que mais reúne leitores hoje —, não é nada difícil encontrarmos influencers literários que pedem, sem nenhum pudor, que cancelem e expulsem Rowling e suas obras das estantes privadas, de livrarias e bibliotecas; um desses baluartes da defesa dos trans pedia para que os antigos fãs de Harry Potter “se livrassem dos livros” como forma de asco à autora. Em pleno século 21, voltamos a fazer piras de livros.
Como disse outro simpatizante do marxismo estético, mas também outro sincero pensador, George Steiner, em Os Dissidentes do livro: “Os déspotas não amam e, a fortiori, não lançam desafios e nem aceitam contestações. Tampouco os livros”.
Imaturidade no debate
Tal postura, para além de mostrar uma imaturidade patente no debate de ideias, resume oposição de ideias a um crime, confunde a expressão literária com expressão pessoal de autores, mas o pior de tudo é que normalizam a postura tirânica da censura e do apagamento de quem discorde de uma agenda. Se você é um entusiasta da história do século 20, sabe muito bem que tal ação é o próprio reflexo da mentalidade totalitária que permeou o século passado.
Qual a melhor forma de vencer uma opinião contrária? Ter argumentos melhores? Sim, diria Sócrates e alguns bons pensadores que o Ocidente já produziu. Não obstante, afirmam os identitaristas neosoviéticos: a melhor forma de se opor a uma ideia é destruir o opositor socialmente, relegá-lo ao lixão da história, impossibilitar seu trabalho, achincalhá-lo nas ruas, queimar suas obras, massacrálo no gulag das redes sociais.
“Eu respeito, profundamente, quem não se inclina ao autoritarismo, seja essa pessoa de esquerda, seja de direita”
Nunca me interessei pelas obras de J.K. Rowling, nunca li Harry Potter nem suas outras obras, mas como tributo à sua coragem e liberdade de pensamento, este ano a lerei e, se gostar, a promoverei. Não elogio obras literárias por opiniões políticas de seus autores; o mundo dos livros está cheio de bons e maus escritores que, em suas vidas privadas, seguem à direita ou à esquerda política. Esse não é meu termômetro. Mas se há algo de que me seduz, algo do qual sou admirador contumaz, é da coragem de não se dobrar ante turbas de militantes. Steiner, no mesmo ensaio citado acima, disse também: “Com raras exceções, a chantagem do ‘politicamente correto’ suscitou pouca resistência, pouca dignitas entre os universitários.
Não foi somente com os universitários, mas também com os cineastas, jornalistas, professores e escritores. J.K. Rowling parece manter essa coragem de não se envergar, de resistir, de manter uma mente independente e não abdicar de seu dever de se opor àquilo que fere sua consciência. E isso eu reverencio de forma sincera, tal como vi em George Orwell, Albert Camus, Alexander Soljenítsin, Vasily Grossman e Czesław Miłosz, e agora também em Rowling. Eu respeito, profundamente, quem não se inclina ao autoritarismo, seja essa pessoa de esquerda, seja de direita.
Revista Oeste - Reprodução