Para a mentalidade dos produtores globais, a traficante empoderada é, talvez, o ápice da ocupação de espaço por parte das mulheres'
A imaginação “progressista” brasileira acaba de atingir mais um de seus pequenos cumes de delírio. Depois de convencer gerações de jovens mulheres a aceitar o mito feminista — a tese filomarxista segundo a qual a história de todas as sociedades é a história da luta de sexos, estando as mulheres na posição de oprimido e os homens, na de opressor —, a TV Globo resolveu complementar a lavagem cerebral com uma sugestão fascinante: a invenção da traficante feminista.
Sim, é real. Por meio da personagem Lucélia, da novela do horário nobre, a teledramaturgia da Globo decidiu dar mais esse passo lógico revolucionário, veiculando para milhões de meninas e jovens mulheres a mensagem de que comandar uma boca de fumo pode ser, quem diria, um gesto de emancipação.
A tese de fundo é conhecida e já suficientemente gasta, sendo uma adaptação doméstica do velho esquema marxista, agora aplicada ao sexo em vez da classe. Onde antes havia proletários e burgueses, temos agora mulheres estruturalmente subjugadas e homens estruturalmente opressores. Pouco importa a realidade concreta, a diversidade de experiências ou os fatos elementares da vida social: o que vale é o esquema. E como todo esquema ideológico, ele exige ilustrações dramáticas — mesmo que fabricadas à revelia do mundo real.
Para a mentalidade dos produtores globais, a traficante empoderada é, talvez, o ápice da ocupação de espaço por parte das mulheres — uma nova onda de sufragismo. É que, ao lado do feminismo, a Globo exalta também a narcocultura — a estética e a simbólica do tráfico como expressão gráfica de “resistência” dos pobres e negros contra as elites ricas e brancas.
A narcocultura na Globo
Entre closes lacrimosos e trilhas cuidadosamente melancólicas, a Globo cumpre seu apostolado sentimental, envolvendo a estética do narcotráfico numa aura quase redentora. O fuzil vira adereço cênico, a granada é um detalhe inconveniente, e o drone lança-bombas jamais aparece. Em compensação, a “juventude interrompida” ganha minutos generosos de tela, enquanto a palavra “chacina” — sempre aplicada aos criminosos abatidos (que a Globo trata por “o povo pobre e negro”) — é distribuída com a mesma prodigalidade com que se omite o contexto.
O resultado é uma operação de maquiagem moral: o criminoso armado até os dentes torna-se personagem trágico; a organização que domina territórios pela força é reembalada como espaço de pertencimento; e a mulher que ingressa nesse universo é promovida à condição de heroína de si mesma. Trata-se de um caso quase didático de hibristofilia — o fascínio patológico (e frequentemente erotizado) por figuras violentas e criminosas, reinterpretadas como heroicas contra o poder opressor. Os idealizadores da Globo são quase todos filhos de Hélio Oiticica e de seu lema “Seja marginal, seja herói” — concebido em apoio ao bandido “Cara de Cavalo”, um assaltante, extorsor e matador de policiais nos anos 1960.
O problema é que, como sempre, a realidade insiste em não colaborar com o roteiro global. Nos morros efetivamente dominados pelo narcotráfico, mulheres associadas ao crime raramente encontram empoderamento. O que elas encontram, isso sim, é humilhação, coerção e, não raro, a morte. A romantização desse universo, portanto, não é apenas intelectualmente desonesta — é moralmente perversa, sobretudo quando apresentada como modelo implícito a meninas e jovens mulheres.
Mas a ignomínia, por óbvio, não está na ficção em si mesma, mas na persistência dessa pedagogia sentimental que insiste em confundir barbárie com libertação. Ao transformar a boca de fumo em alegoria de emancipação feminina, a Globo não apenas distorce a realidade: ela contribui para anestesiar a consciência moral de um público já suficientemente exposto às taras ideológicas de uma intelligentsia alienada e irresponsável. Como tem acontecido há pelo menos duas décadas, as novelas globais deixaram de ser entretenimento para se converterem em instrumento de pedagogia política a serviço de um projeto niilista de engenharia social, cujas consequências danosas não param de se fazer sentir.
Flávio Gordon - Revista Oeste