quarta-feira, 12 de julho de 2017

Sem entraves sob governo de Macri, Grupo Clarín se expande na Argentina

Sylvia Colombo - Folha de São Paulo


Vão ficando distantes na memória os avanços do governo argentino sobre o Grupo Clarín. Durante o mandato de Cristina Kirchner (2007-2015), houve pressões a anunciantes para que deixassem de veicular publicidade nas páginas do jornal "Clarín" e tentativas de estatizar a Papel Prensa, fábrica de papel que o grupo possui com o concorrente ("La Nación").

Houve, ainda, uma campanha verbal (em que se celebrizou a máxima "o Clarín mente") e até uma legislação, a Lei de Mídia, cujas principais cláusulas buscavam fazer com que o maior conglomerado de mídia argentino encolhesse.

Martín Zabala - 26.out.2015/Xinhua
Morador de Buenos Aires lê exemplar do jornal "Clarín" em 2015; conglomerado de mídia cresce na Argentina
Morador de Buenos Aires lê exemplar do jornal "Clarín" em 2015; conglomerado de mídia cresce na Argentina

eleição de Mauricio Macri, em dezembro de 2015, porém, mudou a corrente a favor da empresa. A Lei de Mídia não foi derrogada, mas os itens que obrigavam o grupo a desinvestir e a se livrar de algumas das empresas caíram por decreto. O presidente também aprovou legislação que permitia a expansão e fusão das telefônicas com empresas de TV por assinatura.

"Macri desinflou a lei. Ela está lá, mas tudo o que poderia desfavorecer o Clarín sumiu", diz à Folha Martín Becerra, especialista em ciências da comunicação da Universidade de Buenos Aires.

Além de receber de volta a lucrativa transmissão dos jogos de futebol que Cristina havia estatizado e levado à televisão pública, o Clarín ficou também livre para buscar novos parceiros, fazer aquisições e fusões.

Foi o que ocorreu na semana passada, quando o grupo anunciou a fusão da Cablevisión, sua operadora de TV a cabo, com a empresa de telefonia Telecom, transformando a nova companhia na primeira da Argentina a oferecer telefonias fixa, móvel, TV a cabo e internet.

A operação ainda precisa da aprovação da Enacom (Ente Nacional de Comunicações) e da Comissão Nacional de Defesa da Competição. Ambos os órgãos, porém, estão ligados ao Executivo.

"É improvável que haja algum obstáculo. Ele só surgirá se uma empresa concorrente que se veja prejudicada ou um grupo organizado da sociedade queiram levar o caso à Justiça", diz Becerra.

O valor da nova empresa está avaliado em US$ 11,5 bilhões, e ela será responsável por controlar 42% da telefonia fixa, 34% da móvel, 60% da provisão de internet e 40% da TV paga do país.

"Esses números são da média. Em algumas regiões, onde a Telecom praticamente não tinha concorrência, pode-se dizer que ficarão com tudo, como em Córdoba, a segunda principal cidade do país. No sul, haverá algo mais de competição, pois há uma maior presença da Telefónica", afirma Becerra.

No total, a nova empresa já nasce com 25 milhões de clientes (a Argentina tem 43 milhões de habitantes).

Além disso, o Grupo Clarín também é o maior editor de jornais da Argentina, tendo o "Clarín" como principal publicação. Detém, ainda, as rádios com maior audiência na AM (Mitre) e na FM (100), o principal canal de TV aberta (El Trece) e o maior provedor de internet (Fibertel).

O Grupo Clarín nega favorecimento do governo: "O que os decretos fizeram foi fazer voltar à normalidade coisas que eram anormais. Quando o mundo aponta para a convergência, a Lei de Mídia do kirchnerismo queria impedir que ela ocorresse."

Segundo o ministro das Comunicações, Oscar Aguad, a fusão vai "acirrar a competição pela qualidade do serviço digital no país", afirmando que isso obrigará as outras empresas, a América Móvil e a espanhola Telefónica, a oferecerem melhores serviços.

Do lado da oposição a Macri, houve críticas. O ex-chefe de gabinete do kirchnerismo Alberto Fernández disse que a fusão "é um absurdo". "Vemos com preocupação o crescimento do Clarín na gestão de Macri."

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