sábado, 8 de julho de 2017

"Na França, urnas aposentaram uma elite política e fabricaram outra", por Demétrio Magnoli

Eric Feferberg/Reuters
French President Emmanuel Macron delivers a speech during a special congress gathering both houses of parliament (National Assembly and Senate) at the Versailles Palace, near Paris, France, July 3, 2017. REUTERS/Eric Feferberg/Pool ORG XMIT: PAR131
O presidente francês Emmanuel Macron


Folha de São Paulo

"Manupiter em Versalhes" –a manchete de capa do jornal Libération, acompanhada pela figura do presidente Emmanuel Macron nas vestes de Júpiter, segurando relâmpagos bifurcados, traduz tanto uma crítica quanto uma constatação.

Crítica: a reunião de uma sessão conjunta do Senado e da Assembleia Nacional no grande palácio erguido por Luís 14 desvendaria inclinações autocráticas, um retorno ao estilo da presidência monárquica do general De Gaulle. Constatação: Macron emerge como o "deus dos deuses" na cena devastada do sistema político-partidário francês.

A aventura começou numa noite fria de abril, em Amiens. Perante duas centenas de pessoas, o ministro da Economia do desprezado governo socialista de Hollande, um jovem de 38 anos, anunciou a criação de um novo movimento político, o En Marche!.

Um ano depois, Macron venceu o primeiro turno das presidenciais e, no turno decisivo, impôs uma derrota humilhante a Le Pen, a candidata da direita ultranacionalista. Finalmente, seu partido improvisado conquistou maioria avassaladora na Assembleia Nacional, assegurando-lhe um mandato legítimo para mudar a economia e a política francesas.

Uma "revolução pelo voto", nem mais nem menos, numa democracia moderna com partidos consolidados. Na Assembleia Nacional francesa eleita, quase dois terços dos deputados nunca tiveram mandato parlamentar e jamais ocuparam cargos governamentais.

Da noite para o dia, as urnas aposentaram uma elite política e fabricaram outra. Nem tudo, obviamente, são flores. O turno final das legislativas registrou abstenção recorde, de 57%. Macron não é Júpiter –e, obviamente, corre o risco de fracassar. Mas seu movimento já demonstrou que, contrariando uma lenda popular, a democracia representativa é um sistema aberto à mudança.

A crise da globalização –a mesma que impulsionou as reações nacionalistas expressas no Brexit e no triunfo de Trump– produziu o fenômeno oposto na França. Macron apostou, incessantemente, na clareza. Disse que o sistema político tradicional perecera e, desafiando dogmas sacrossantos, comprometeu-se a modernizar o código de trabalho e reformar a legislação previdenciária.

Enfrentando narrativas populistas simétricas, à direita e à esquerda, defendeu a União Europeia e os mercados abertos. A vitória, sobre os escombros do Partido Socialista, em meio à dilaceração da centro-direita gaullista, provou a vitalidade de uma agenda perdida: a Terceira Via.

Na manhã seguinte ao turno inicial das presidenciais, a extrema-esquerda saiu às ruas de Paris para protestar contra o "neoliberal" Macron, em manifestação concluída por centenas de black blocs que atiravam bombas e pedras. Entre as presidenciais e as legislativas, perplexos líderes gaullistas qualificaram o presidente eleito como um "socialista disfarçado", sugerindo que representaria uma reencarnação do arruinado partido de Hollande.

A Terceira Via, cujas fontes encontram-se no americano Bill Clinton, no britânico Tony Blair e na renovada social-democracia alemã, confunde igualmente conservadores e socialistas. No lugar da polaridade esquerda/direita, opera na gramática da clivagem internacionalismo/ nacionalismo ou aberto/fechado.

A fórmula de Macron conecta a economia de mercado aos direitos sociais.

Nas duas pontas, rejeita os privilégios corporativos de empresários e sindicatos. De um lado, aposta na concorrência e na inovação. De outro, na qualificação dos serviços públicos universais, especialmente a educação.

A França que votou em Macron está farta de uma elite política burocrática, inclinada à corrupção, e aprendeu que o discurso populista do nacionalismo econômico é um pátio ideológico compartilhado pela extrema direita e pela extrema esquerda.

Paris não é aqui –mas descortina-se uma larga avenida para o surgimento de um En Marche! brasileiro.

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