quarta-feira, 5 de julho de 2017

Entregas de dinheiro para Odebrecht aumentavam em ano eleitoral, diz delator

Ricardo Brandt, Julia Affonso e Fausto Macedo - O Estado de São Paulo


Álvaro Novis, o principal fornecedor de dinheiro vivo para o setor

 de propinas da empresa, diz que relação começou em 2006, com 

entrega de R$ 800 mil em moeda; alvo fez delação na Operação 

Ponto Final




Principal fornecedor de dinheiro vivo no Brasil do “departamento da propinad” da Odebrecht, o doleiro Álvaro José Galliez Novis – mais novo delator da Operação Lava Jato, no Rio de Janeiro – afirmou ao Ministério Público Federal que as entregas de valores aumentavam em anos de eleição.
“Que o depoente no início achava que o dinheiro era apenas de caixa 2. Com o tempo e com a intensificação de movimentação de valores em época das eleições, o depoente começou a desconfiar de outras atividades ilícitas”, registra o Anexo 1, da delação de Novis, cujo tema pe “Histórico profissional”.
“A função do depoente era receber reais e entragar reais, tanto no Estado de São Paulo quanto no Estado do Rio de Janeiro.”
Novis fez delação no âmbito da Operação Ponto Final, que levou para cadeia os barões do setor de transportes do Rio, por suposto pagamento de R$ 122 milhões em propinas para o ex-governador Sérgio Cabral (PMDB).
Novis foi preso pela primeira vez em março de 2016, pela força-tarefa da Lava Jato, em Curitiba, na 26ª fase – batizada de Operação Xepa. O doleiro foi detido temporariamente como um dos responsáveis por entregas de dinheiro para o marqueteiro do PT João Santana, pela Odebrecht, e solto dias depois.
Dono da Hoya Corretora de Valores, ele era um dos fornecedores de reais no Brasil do Setor de Operações Estruturadas, o departamento da propina – criado em 2006, por ordem de Marcelo Odebrecht.
Identificado como Paulistinha e Carioquinha nas planilhas cifradas do departamento de propinas, Novis é considerado o maior fornecedor de dinheiro vivo da rede de “prestadores de serviços”, como eram chamados os doleiros associados responsáveis por entregar as propinas, montada pela empresa.
Nas planilhas da propina, há registros de operadores financeiras de Novis com dois outros alvos da Lava Jato, o doleiro e lobista Adir Assad, identificado como “Operação Kibe”, e o doleiro Wo-Yu Sheng, identificado como “Operação Dragão”.
Início. Novis contou que sua relação com a Odebrecht começou em 2006, quando lhe foi solicitado o fornecimento de R$ 800 mil, em espécie.
“Passou a ter a Odebrecht como cliente em torno de 2006-2007”, afirma Novis. “Houve um pedido da Odebrecht em determinada ocasião de R$ 800 mil em espécie.”
O delator afirmou que levantou o dinheiro no mesmo dia, utilizando a conta que ele administrava da Fetranspor. “Que a partir daí surgiu o respeito e confiança junto a Odebrecht.”
Novis afirmou que foi contratado pelo presidente do Conselho de Administração da Fetranspor e da Viação Flores, José Carlos Lavoura, “para recolher regularmente dinheiro de algumas empresas de ônibus integrantes dessa Federação, administrar a sua guarda e distribuir a diversos políticos, controlando os aportes e despesas por meio de contabilidade paralela”.
“O dinheiro era recolhido nas garagens de algumas empresas de ônibus vinculadas à Fetranspor pela Transegur (hoje Prosegur); que o dinheiro era custodiado na sede da Transegur; que o dinheiro custodiado era utilizado para fazer pagamentos a políticos”, afirmou na delação.
Em janeiro desse ano, Novis foi novamente preso, dessa vez alvo da Operação Eficiência, desdobramento da Lava Jato, no Rio, que teve como alvo o esquema de corrupção de Cabral.
Em 17 de abril, ele foi ouvido pelo Ministério Público Federal como delator. A maior parte do conteúdo de seu acordo ainda permanece em sigilo.

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