quinta-feira, 27 de julho de 2017

"Buenos Aires é costurada de memórias", por Zeca Camargo


Folha de São Paulo


"Mira, mira, los diablitos vuelvieron!". Essa era a recepção que eu e meus irmãos recebíamos cada vez que chegávamos com meus pais ao Plaza, um hotel das antigas em Buenos Aires. Quando escrevo "das antigas" não é exagero. Argentina foi o primeiro país estrangeiro que visitei -e lá se vão, hum, 44 anos...

Não só Buenos Aires foi meu primeiro destino internacional, como o mais recorrente até eu conseguir a tão sonhada viagem para a Disney (um assunto para uma outra coluna). A explicação para ir muito lá nos anos 1970 era inusitada: meu pai, médico, tinha um paciente argentino que precisava de cuidados intensos e nos colocava sempre no Plaza. Íamos com minha mãe e meus dois irmãos, parceiros no trio infame dos "diablitos".

Não ia muito longe do hotel, que hoje é parte da poderosa cadeia Marriott: a calle Florida era nosso universo portenho, com suas dezenas de galerias, calçadões, bancas de revistas (algo que chamava a atenção mesmo naquela época) e esquinas com "parrillas" indistinguíveis, mas todas deliciosas.

Não havia ainda a sofisticação gastronômica de hoje. Lugares como o Proper, Restô, El Baqueano, iLatina e outros que fazem a delícia da cena de restaurantes da capital eram impensáveis então.

No máximo me lembro de um jantar de comemoração com a família (aniversário da minha mãe?) num lugar melancólico que eu acho que se chamava Caballito Blanco, onde a comida só não era mais triste do que os velhos violinistas que iam tocando de mesa em mesa.

Na mesma Florida, descobriria décadas depois um sopro de gastronomia moderna -um segundo andar de uma loja que tinha o curioso nome de 3/4 e uma sobremesa inesquecível chamada "manzana, manzana y flan". Vou deixar sua imaginação trabalhar com isso.

Mas a descoberta seria só na alvorada do século 21. Naquela Buenos Aires de quatro décadas atrás, diversão mesmo era brincar pelos corredores do Plaza (afinal, não ganhamos aquele apelido à toa) e, no máximo, passar um dia na Ciudad de Los Niños: um parque para crianças na província de La Plata, hoje rebatizado de República de Los Niños.

Lembro-me que adorava ir lá pra "brincar de adulto", uma vez que a Ciudad reproduzia várias obrigações e instituições, entre elas um palácio do governo, um banco, uma estação de bombeiros e até uma estação de trem na escala de crianças que têm entre 8 e 12 anos.

Tal passeio, no entanto era a exceção. Uma visita a um Caminito decadente também está na minha lembrança, mas em geral passávamos os fins de semana prolongados em Buenos Aires em expedições de compras com minha mãe. 

Durante anos foi esse o registro que ficou da cidade em mim. Até que...

Em 2001 voltei para lá a trabalho e, já um turista com mais experiência, decidi explorar a nova Buenos Aires. A crise econômica era severa e, mesmo assim, encontrei uma capital vibrante. De lá para cá, já voltei umas 20 vezes, sempre descobrindo coisas novas e me apaixonando mais e mais -não pelo todo, que já havia me conquistou há anos, mas pelos detalhes, como já escrevi em outra coluna neste mesmo espaço.

Se revisito Buenos Aires agora é porque estou preparando um guia de lá. Assim como minha primeira experiência nesse universo (o livro digital "Eu Ando pelo Mundo: Paris", editora e-galáxia, R$ 14,90), estou tendo o prazer de compartilhar histórias que valem mais do que simples dicas de endereço: são memórias escolhidas, de comemorações com amigos a passeios de solidão reflexiva, numa colcha de retalhos que é mais que uma coleção de "lugares imperdíveis".

Logo vou oferecer o que prefiro chamar de um guia intuitivo da cidade, com itinerários que são menos roteiros carimbados do que recortes de experiências que, espero, possam te inspirar a criar uma história com Buenos Aires. Mesmo que ela comece com alguém te chamando de "diablito".

Nenhum comentário:

Postar um comentário