Ilustração: Jorm Sangsorn/Shutterstock
Há 11 anos, meu telefone tocava às 5h23 da manhã. Era minha irmã, chorando do outro lado, quase sem conseguir falar… “O papai morreu… Ana, minha irmã, o papai morreu…”
Meu coração parou.
Fiquei sem ar e entrei em um estado catatônico, como se eu estivesse dentro de uma nuvem, em um sonho estranho e sem poder respirar. Levantei da cama, caminhei dois passos e perdi toda a força em minhas pernas… Tudo ficou escuro na eternidade daqueles cinco ou seis segundos no chão. Aquilo não poderia estar acontecendo. Não poderia ser verdade. “Calma, Ana. Você vai acordar. Você vai acordar…”, eu pensava. Os eternos minutos que se seguiram impunham a realidade diante de um aperto no peito que jamais imaginei sentir.
Meu pai, meu melhor amigo, meu parceiro, meu mestre, havia, de fato, nos deixado. Não era apenas o meu corpo sem forças que estava no chão. Meu mundo havia desabado diante de um abismo e eu me sentia em um pesadelo.

Para quem acompanha o meu trabalho há mais tempo, também em outras plataformas, artigos e entrevistas, não é difícil perceber quanto minha vida era estabelecida na relação com o meu pai, quão ele era profundamente importante para mim. Além de um provedor e um exemplo, meu pai era um verdadeiro cristão que seguia o que está escrito em Mateus 6:3 — “Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita”. Ajudou dezenas e dezenas de pessoas sem contar nada para ninguém, histórias que só ficamos sabendo depois de sua morte.
Curiosamente, em mais uma demonstração de cuidado com um filho precioso, Deus decidiu levar o meu pai em um 19 de março, Dia de São José — protetor da família e dos pais. O mais incrível é que, mesmo depois de sua partida, ele continua tocando muitas vidas de várias maneiras. Seus exemplos e palavras continuam ecoando e auxiliando decisões na vida de muitas pessoas. Quem sabe um dia eu escreva um livro sobre o meu pai, seu legado e como, na magnitude de seus defeitos, ele viveu para servir. E serviu em silêncio. Serviu indivíduos e famílias que nem conhecíamos. A vontade é de começar a escrever esse livro hoje, tamanha saudade que não cabe no peito.

Foi com o meu pai que ouvi sobre política pela primeira vez. Foi através do meu pai que me interessei por questões econômicas e com ele me apaixonei por história. Foi com o meu pai que ouvi nomes como Reagan, João Paulo II e Margaret Thatcher. Foi com o meu pai que aprendi o que era comunismo e por que uma guerra tinha o nome de “Guerra Fria”. Foi ao lado do meu pai que vi na TV a queda do Muro de Berlim. Foi com o meu pai que ouvi quem era Tancredo Neves. Com o meu pai acompanhei os cruzeiros, cruzados, os cortes de zeros e, ao vivo em sua companhia, as incontáveis remarcações de preços nos supermercados. Por causa do meu pai, tirei meu título de eleitor aos 16 anos, para poder fazer parte da vida política do Brasil de alguma maneira.
Meu pai, professor, sempre me guiou pelo caminho da curiosidade e das páginas dos livros de história. Mas foi também com meu pai que aprendi o nome de dezenas de passarinhos e seus cantos, apenas para apreciá-los na totalidade de sua simplicidade e beleza. Não sei em quantos nasceres do sol ele me acordou para vermos as nuvens mudarem de cor e forma: “As nuvens estão rosas hoje, filha! Acorda!”. E foi com o meu pai que nasceu minha paixão por café e fogão à lenha, queijo canastra e por conversa fiada com o dono do boteco da esquina, não importando a cidade em que eu morava: “Ali mora muita sabedoria, filha”, dizia o meu pai. Foi com o meu pai que vi pela primeira vez o nascimento de um bezerrinho, e foi com o meu que aprendi a amar os animais. De assuntos complexos à simplicidade da vida, ele sempre foi meu parceiro e mestre.
Foi da boca do meu pai que ouvi a frase que mudou minha história. O ano era 2000. O mundo se preparava para a virada do milênio e eu me preparava para minha terceira Olimpíada. Aos 28 anos, com o patrocinador dos sonhos, tudo o que eu precisava fazer era o que eu mais amava — treinar, treinar e treinar. Treinar feliz, treinar com dores, treinar no sol, treinar na chuva, treinar, treinar e competir. E foi com o meu pai que aprendi que Deus às vezes diz: “Tenho outros planos pra você”. Interrompi uma agenda de viagens no meio de uma corrida classificatória para os Jogos Olímpicos para ir até a casa dos meus pais para, sem rodeios, disparar a notícia: “Estou grávida”. Eu estava em uma relação de muitas idas e vindas com o pai do meu filho, então percebi pelo semblante da minha mãe que a preocupação tomou conta da conversa. Minha mãe começou a chorar e repetir: “Mas e seu relacionamento? Vocês estão juntos? E o patrocínio? Você trabalhou décadas para isso… e a Olimpíada? O que a imprensa vai falar? Como será a vida?”.

Para a minha surpresa, meu pai olhou para a minha mãe e disse: “Você sabe quantas pessoas no mundo estão chorando nesse exato momento, como você, porque alguém que eles amam está morrendo e os deixando? E você chora porque a vida está batendo na porta da minha casa?”. Imóvel e sem sequer piscar, meu pai continuou: “Não me interessa a condição. A vida está batendo na porta da minha casa, e eu vou abrir, e eu vou celebrar”.
Um amor tão grande e tão divino tomou conta de mim, comecei a tremer. Meu pai repetiu: “A vida está batendo na porta da minha casa, e eu vou abrir, e eu vou celebrar”.
Igualmente curioso é o fato de que nos últimos três anos, na semana de aniversário da morte do meu pai, quando o coração quase não cabe no peito de tanta saudade e os dias são recheados de memórias, é quando comemoramos o aniversário do nascimento da Revista Oeste. Algumas conexões do passado com o presente são inevitáveis, e a lembrança de uma morte doída é preenchida com a alegria do nascimento de um projeto que não apenas me colocou em outro caminho profissional, mas que colocou em minha vida homens da estirpe e da índole do meu pai. Como profissionais e como seres humanos.
“Escreveremos sobre tudo o que falamos hoje e que sempre estamos trazendo à luz do dia: a liberdade em várias esferas. Seremos a boa imprensa que praticamente não existe mais”
Foi também graças ao meu pai que aprendi quem eram José Roberto Guzzo e Augusto Nunes. As revistas semanais para as quais estes dois ícones do jornalismo escreviam chegavam religiosamente toda sexta-feira em casa. Antes de qualquer notícia, meu pai sentava-se à mesa da cozinha, folheava rapidamente para os artigos de Guzzo e Augusto. Do quarto, era possível ouvi-lo de vez em quando falando com ele mesmo, ou quem sabe com os colunistas, com seu delicioso sotaque mineiro: “Mas o que é isso minha gente…”. O costume era chamar minha mãe e dizer: “Senta aqui, Maria. Você precisa ler o Guzzo hoje!”.

Como professor e diretor de escola por muitos anos, havia momentos em que era preciso tocar em assuntos controversos e importantes, que precisavam ser debatidos com professores durante a semana. A tática era infalível e sem o menor confronto: os artigos de Augusto Nunes e Guzzo eram estrategicamente deixados abertos na mesa do cafezinho na sala dos professores. Em pouco tempo, o assunto girava sobre o conteúdo dos textos, com importantes pontos para a visão liberal que meu pai sempre teve, mas que encontrava resistência em alguns professores em muitas ocasiões.
Os anos se passaram e meu pai, lá de cima, mexeu pauzinhos. Tenho certeza. Parece que foi ontem quando Augusto e Guzzo me convidaram para um jantar em São Paulo. Como já éramos amigos e já havíamos nos encontrado em outras ocasiões, fiquei feliz em vê-los novamente em uma breve visita ao Brasil. Para a minha surpresa, a conversa dessa vez era sobre um projeto que estava prestes a nascer — a Revista Oeste — e o interesse para que eu fizesse parte dele.
A conversa se estendeu por horas. Falamos de governos, liberdades, Thomas Sowell, Churchill, Thatcher, Reagan… e do meu pai. Quatro horas se passaram e o projeto ao qual eles se referiam não apenas parecia um sonho, mas toda aquela noite parecia um rolo de um filme bom em câmera lenta. Algumas vezes imaginei meu pai ali, sentado com a gente conversando sobre assuntos que ninguém imaginava que ele sabia, um homem simples do interior apaixonando pelo campo, que falava sobre Reagan e Guerra Fria.

Quando os garçons começaram a colocar as cadeiras em cima da mesa e a conta chegou, mestre Guzzo então voltou-se para mim e disse: “Querida Ana, então pense com carinho na proposta, veja se você quer fazer parte desse projeto. Escreveremos sobre tudo o que falamos hoje e que sempre estamos trazendo à luz do dia: a liberdade em várias esferas. Seremos a boa imprensa que praticamente não existe mais”. Augusto e Guzzo já conheciam a relação que meu pai tinha com seus textos e artigos, então, com dificuldade em encontrar palavras para descrever aquele jantar, respondi imediatamente: “Mestre Guzzo, não preciso de tempo para pensar. Meu pai me trouxe até aqui, até vocês, eu tenho certeza. Será uma grande honra, uma das maiores honras da minha vida fazer parte desse time”.
E foi então, que mesmo depois de encerrar a carreira no esporte, a sensação de uma classificação para mais uma Olimpíada voltou como um chamado. E com os melhores técnicos e mestres que alguém poderia sonhar em ter. O mesmo frio na barriga, o mesmo peso bom da responsabilidade de representar um ideal, a mesma seriedade na dedicação da rotina diária, as noites sem dormir. Tudo de novo, e tudo muito bom. A vida é irônica às vezes… Ciclos que se entrelaçam e esboçam que a próxima tela terá as mesmas tintas, mas que será um quadro totalmente diferente.
Há um paralelo invisível, mas profundamente similar, com o passado de atleta olímpica e o que vivemos aqui em Oeste há três anos. E esse paralelo não é apenas de minha parte. Aqui, há muito mais similaridades com o esporte olímpico do que as pessoas imaginam. Quando me perguntam algum “segredo”, algo que possa ter feito a diferença, para que eu conseguisse competir em quatro Olimpíadas, volto nas lições do meu pai, que sempre me aconselhou a procurar estar perto de pessoas melhores do que eu: “Cerque-se de indivíduos que te empurrarão para o seu melhor, filha. Pessoas que possam te tirar da zona de conforto e te fazer crescer, que possam te apresentar o medo para que você encontre a sua coragem, muitas vezes desconhecida até por você, de seguir com eles”.

Quando iniciamos o projeto de Oeste, foi solicitado que enviássemos um vídeo curto com algumas palavras sobre o que pensamos sobre a civilização ocidental, o Novo Mundo, o Oeste. Aqui, repito o que eu disse em meu vídeo há três anos: que a proposta da revista é enaltecer, proteger e reafirmar o valor da liberdade, elemento que sustenta pilares sólidos de nações prósperas. Sem ela, não há imprensa, não há boas ideias, não há crescimento econômico, não há justiça.
Por essa razão, a defesa moral do que é certo, personagens como Reagan, Churchill, Thatcher, João Paulo II inspiraram e ainda inspiram milhões. Foi também por essa razão que Oeste nasceu, por que homens de fibra e coragem como o meu pai, Augusto Nunes, J.R Guzzo e Jairo Leal, fomentador e o maior investidor nas boas ideias que alguém poderia ter ao lado, ainda existem. Os tempos, bastante estranhos, pedem uma vigília bem mais atenta; do zelo com a vida humana ao cuidado com a frágil economia, até a necessária e incansável defesa de nossos direitos constitucionais, usurpados constantemente.

E Oeste é isso. A coragem para remar contra o aplauso fácil. A coragem para dizer o que é significativo e verdade — e não o que é confortável e conveniente. A coragem contra o imediatismo fútil, contra a dicotomia cega. A coragem para defender políticas, e não políticos. À toda a equipe deste time incrível — o meu “dream team” —, obrigada pela imensa honra de poder estar com todos vocês todos os dias.
Johann Goethe (1749-1832), filósofo, cientista e escritor alemão, resume em seu célebre pensamento nosso projeto aqui em Oeste, que nesta semana completa três frutíferos anos — graças a vocês, que estão aqui conosco toda semana: “No momento em que nos comprometemos, a providência divina também se põe em movimento. Todo um fluir de acontecimentos surge ao nosso favor. Como resultado da atitude, seguem todas as formas imprevistas de coincidências, encontros e ajuda que nenhum ser humano jamais poderia ter sonhado encontrar. Qualquer coisa que você possa fazer ou sonhar, você pode começar. A coragem contém em si mesma o poder, o gênio e a magia”.
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Revista Oeste