sexta-feira, 31 de março de 2023

‘O agronegócio brasileiro é um exemplo a ser seguido’, afirma Celso Moretti, presidente da Embrapa

 

Celso Moretti, presidente da Embrapa | Foto: Divulgação/Embrapa


Celso Moretti é presidente da Embrapa, estatal brasileira que é referência mundial e que tem como missão resolver os problemas da agricultura do país


Avasta formação acadêmica é apenas uma das muitas qualidades de Celso Moretti, 56 anos, presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Sua gestão, que teve início em julho de 2019, é bastante elogiada pelos principais atores do agronegócio brasileiro — o mais proeminente setor da economia do país.

Nascido em Santo André, no ABC paulista, Moretti completou o curso de engenharia agronômica pela Universidade Federal de Viçosa em 1990, e ingressou na estatal por meio de concurso quatro anos depois. O início da carreira foi como pesquisador na Embrapa Hortaliças.

Dos primeiros dias no emprego até o topo da hierarquia, ele cursou especializações em renomadas universidades internacionais, como Harvard, e assumiu desafios internos que o impulsionaram dentro do sistema meritocrático da instituição.

Há pouco menos de um mês da comemoração dos 50 anos de criação da Embrapa, e prestes a passar o bastão — sua gestão acaba em julho deste ano —, Moretti concedeu esta entrevista a Oeste. Falou da experiência dentro da estatal, dos resultados alcançados pela empresa ao longo de meio século e do que espera para as próximas décadas.

Confira os principais trechos da entrevista: 

Moretti está no comando da instituição desde julho de 2019. Sua gestão recebe elogios no agronegócio brasileiro | Foto: Divulgação/Embrapa

Qual é o segredo para o sucesso da Embrapa?

Temos uma clareza muito grande do que precisa ser feito, da nossa missão. Quando uma criança pergunta o que faço, falo o seguinte: “Trabalho numa empresa que tem como missão resolver os problemas da agricultura brasileira”. Fazemos inovação com propósito. Conseguimos identificar os reais problemas dos produtores rurais e prover soluções que funcionem. Essa é a grande chave para o sucesso da nossa empresa.

Como funciona a dinâmica entre a Embrapa e o agricultor?

Participamos de reuniões, eventos e palestras. Mantemos relações muito fortes com as cooperativas, as associações de produtores e os órgãos de assistência técnica rural espalhados pelo Brasil. Além disso, temos uma clareza muito grande dos atores do setor agrícola. Desse modo, conseguimos identificar quais são as principais demandas. Há mais de dez anos, a Embrapa tem um sistema de inteligência estratégica chamado Agropensa. Ele é formado por mais de 20 observatórios espalhados por todo o território nacional. Existe o observatório da carne, do leite, da soja, dos suínos etc. Eles conseguem identificar quais são os problemas e as tendências vividos pelos produtores. Essas informações viram projetos que geram soluções, ativos tecnológicos para serem usados nas cadeias produtivas. Muitas vezes, elas geram, inclusive, políticas públicas para o setor.

“Cada vez mais, veremos o uso de sensores, inteligência artificial, drones e aplicação de pulverização e adubação de precisão, feitas apenas nos pontos onde elas são realmente necessárias, em vez de em toda a plantação”

O senhor poderia citar alguns exemplos de políticas públicas que surgiram a partir das pesquisas da Embrapa?

Um deles é o Renovabio, uma política pública para o incentivo aos combustíveis renováveis que a Embrapa ajudou a fazer. Os planos de agricultura de baixo carbono, para apoiar técnicas sustentáveis no campo, estão totalmente baseados em tecnologias da empresa. A Embrapa também contribuiu para o surgimento das políticas públicas de Zoneamento Climático, que ajudam o produtor a escolher o que plantar, conforme a época e a região, além de facilitar e diminuir o custo da tomada de crédito para o plantio.

Como são escolhidos os temas das pesquisas desenvolvidas pela instituição?

A Embrapa sempre foi muito obstinada por criar métricas para avaliar seu próprio desempenho. Há cinco anos, estabelecemos um novo método para verificar quanto as tecnologias que desenvolvemos partem de análises e percepções dos pesquisadores, o que chamamos de indução tecnológica, e em que medida elas surgem das demandas do mercado. Nosso objetivo é fechar 2023 com 40% dos projetos demandados pelo mercado e 60% por meio de indução tecnológica.

Não seria melhor ter todas as tecnologias criadas a partir da demanda dos produtores?

Não. Geralmente, os produtores querem soluções para problemas imediatos, desafios que eles enfrentam hoje. Precisamos pensar também nas demandas que vão surgir no futuro, daqui a cinco, dez ou 15 anos. Podem existir coisas que o setor produtivo ainda não enxergou e temos de nos antecipar a elas.

O senhor poderia dar um exemplo de algo que surgiu pela percepção dos pesquisadores?

Há mais de 15 anos, a Embrapa começou a estudar microrganismos que tivessem a capacidade de aumentar a disponibilidade de fósforo nos solos. Na época, os agricultores não demandavam isso para resolver um problema específico. Ainda assim, começamos a pesquisa por uma percepção interna. Hoje, essas soluções estão em uso no mercado. Elas nasceram de um trabalho nosso de explorar a biodiversidade que temos no nosso banco genético. Temos 2,1 mil pesquisadores doutores trabalhando em nossas 43 unidades espalhadas pelo país. Eles estão atuando em várias áreas. Costumo brincar que fazemos pesquisas de A a Z, do açaí ao gado zebu. Temos gente olhando para todas as cadeias de produção de modo permanente, visitando o produtor, verificando o mercado e enxergando as demandas.

A pesquisa sobre o trigo, que hoje bate recordes de produção no Brasil, surgiu por demanda do mercado ou visão de futuro?

Surgiu por visão de futuro. Estamos vendo os resultados agora, mas a pesquisa teve início 40 anos atrás, quando foi estabelecido o programa de melhoramento genético do trigo. Há cerca de 12 anos, começamos a trazer o trigo para o cerrado. A ideia veio com sementes trazidas do México. Os pesquisadores da unidade de Passo Fundo perceberam que elas geravam plantas resistentes ao calor. Como já tínhamos conseguido adaptar a soja ao calor das regiões de cerrado, resolvermos começar o mesmo trabalho com o trigo. Atualmente, quase 10% do plantio dessa cultura no Brasil ocorre nessas áreas. A Embrapa tem um estudo mostrando que existem 4 milhões de hectares de áreas consolidadas que podem produzir trigo no cerrado. Ou seja: sem a necessidade de desmatar nenhum centímetro de vegetação nativa. Esses locais são dedicados a atividades como o plantio de milho e a pastagem. Se os preços continuarem como estão, o Brasil se tornará autossuficiente na produção de trigo em até cinco anos. Já estamos próximos, na verdade. Neste ano, o país produziu 10,5 milhões de toneladas de trigo, para um consumo interno de 13 milhões de toneladas. Estamos chegando perto.

A Embrapa é reconhecida internacionalmente?

A Embrapa é respeitada em todo o planeta. Percebo isso nas missões internacionais. Em todos os lugares que estive, a Embrapa era conhecida e reconhecida pelo papel que teve no desenvolvimento da agricultura tropical. Há duas semanas, fui a Doha, no Catar, para participar de um painel sobre segurança alimentar. Estavam presentes vários líderes de países da faixa tropical da África. Essas nações olham o que foi feito no Brasil como um modelo a ser seguido, para que eles consigam prover segurança alimentar à sua população.

“A Embrapa é respeitada em todo o planeta, em todos os lugares que estive, é reconhecida pelo papel que tem no desenvolvimento da agricultura tropical” | Foto: Divulgação/Embrapa

Quais oportunidades podem vir com esse prestígio?

Podemos servir como apoio à diplomacia brasileira, para abrir mais portas para o Brasil, oferecendo ajuda humanitária. Além disso, existe a oportunidade para a parceria entre a Embrapa e o setor privado, de modo a promover as empresas do Brasil no exterior. Na década de 1950, a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) fez isso com as empresas norte-americanas. Os japoneses fizeram o mesmo com a Agência de Cooperação Internacional do Japão. A gente pode fazer da mesma forma. Acredito que o atual governo possa ter na Embrapa uma excelente aliada no cenário internacional. Na minha visão, podemos ajudar com relação à segurança alimentar e, junto com isso, gerar oportunidades para o setor privado.

Em que patamar está o orçamento privado na empresa?

Quando assumi a presidência, somente 6% da nossa carteira de projetos estava vinculada ao setor privado. No fim de março, essa proporção atingiu 30%. A meta é encerrar 2023 em 40%. Procuramos fazer uma aproximação muito grande com produtores rurais de todos os tamanhos. Também houve um esforço grande em comunicação. Saímos de 60 mil para 100 mil citações anuais na mídia. Isso faz a nossa imagem ficar mais forte e reduz a dependência da estatal dos ciclos fiscais e políticos do Brasil. O nosso “sonho de consumo” é que a operação da empresa se torne independente do Tesouro Nacional em até cinco anos, por meio do desenvolvimento do núcleo de inovação tecnológica. Com ele, vamos agregar, gerar e capturar muito valor.

Como fica essa dinâmica no governo atual?

Existe uma preocupação com a questão social, com a agricultura familiar e o pequeno produtor no atual governo, o que é natural. A Embrapa trabalha para todos os agricultores, inclusive os menores. Podemos continuar gerando soluções com a captura de recursos privados e, com esses recursos, investir também no cumprimento do papel social da empresa. Uma coisa não exclui a outra.

Nesses 50 anos, quais conquistas da Embrapa para a agropecuária o senhor destacaria?

Na primeira década, foi a conquista do cerrado. Na segunda, a fixação biológica de nutrientes, como o nitrogênio, na planta. Isso permitiu substituir insumos à base de petróleo por microrganismos, transformando a produção de soja no Brasil, o que gera a economia de dezenas de bilhões de dólares todos os anos. A terceira década foi marcada pelo Zoneamento Agrícola de Risco Climático. Por meio dele, o produtor sabe o que, quando e onde plantar. Isso virou política pública, ajudou no fomento ao crédito, permitiu aos bancos mensurarem juros menores com base em riscos menores. Na quarta década, o destaque ficou para a produção pelo Sistema Integrado de Lavoura, Pecuária e Floresta. Essa técnica ocupa hoje 18 milhões de hectares e está permitindo que o Brasil avance na agenda de descarbonização do setor agrícola, e que a gente possa cada vez mais falar em carne, leite, soja e café de baixo carbono. E isso com aumento da produtividade. Por fim, para os últimos dez anos, destacaria o desenvolvimento dos bioinsumos. Esse setor cresce a dois dígitos por ano. De acordo com uma pesquisa da consultoria McKinsey, 55% dos produtores brasileiros já usam esse tipo de insumo, contra 23% na União Europeia, 6% na China, 6% nos Estados Unidos, 4% na Argentina e 3% na Índia.

Qual é a missão da Embrapa para as próximas décadas?

Não tenho dúvida de que é a sustentabilidade, em todas as suas dimensões. Ela vai permear a produção de alimentos, fibras e bioenergia. Isso envolve governança ambiental, social, e a produção respeitando o meio ambiente. A agricultura regenerativa, que você produz e recompõe o solo, é uma tendência muito clara. O mesmo ocorre com a implantação de tecnologias que mitiguem as mudanças climáticas. Por exemplo, a Embrapa já trabalha em quatro frentes pensando em adaptação e mitigação dos gases do efeito estufa na pecuária. A digitalização agrícola vai crescer muito. Cada vez mais, veremos o uso de sensores, inteligência artificial, drones e aplicação de pulverização e adubação de precisão, feitas apenas nos pontos onde elas são realmente necessárias, em vez de em toda a plantação. Haverá a expansão do cultivo nos trópicos e a necessidade de adaptação das plantas para essas áreas. Existe o desafio da biorrevolução, que é o domínio de técnicas de edição de genoma para adaptar as plantas e os animais às condições ambientais e torná-los mais produtivos. Outra oportunidade é o desenvolvimento de produtos que preservem a nossa biodiversidade, como os corantes feitos com caju, pitaia, jamelão e outras frutas.

Revista Oeste