sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

'Conservadores, acordem', por Pedro Henrique Alves

 

Políticos e filósofos conservadores | Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock/Reprodução


Os conservadores brasileiros precisam se fortalecer, se unir e nadar contra a correnteza


Quando, em 1790, Burke escreveu Reflexões Sobre a Revolução na França, livro que, para muitos, marca o início da tradição conservadora moderna, ele estava imerso em uma mentalidade muito rara naqueles dias de empolgações iluministas. Qual mentalidade(?): “É indispensável avançar, mas também é vital preservar”. Essa sensação, podemos assim resumir, sinaliza perfeitamente bem o impulso paradoxal de o que é ser politicamente um “conservador”: isto é, a certeza inquietante de que a história precisa avançar e evoluir no que for possível e necessário, com a sublime percepção de que só podemos avançar e evoluir se partirmos de um lugar seguro, de algo que está estabelecido. Nas palavras de Burke em seu supracitado livro: “Deixa livre a aquisição, mas assegura o adquirido” (Burke, 2014, p. 55); Chesterton chamaria de “Paradoxo da existência” — mais tarde, ele incluiria essa percepção em sua apologética cristã —; Russell Kirk aplicaria tal realidade ao seu conceito de “política da prudência”; Michael Oakeshott chamaria de “caminho do meio”. Independentemente de como chamamos tal princípio conservador, a realidade conservadora conclama o avanço aliado a um resguardo das boas e necessárias tradições.

Burke, assim, foi o primeiro a teorizar o que o senso comum popular — o que Chesterton defenderia como conservadorismo genuíno — apresentou como princípio político praticável. O conservador busca em seus julgamentos, críticas, análises contemplações e vida privada unir o mundo da cadência e da constância, da prática e da contemplação, da ciência e do senso comum, da tradição moral e do pragmatismo político. A cadência, podemos resumir, é um avanço ordenado e racional das necessidades sociais; a constância é a essência ética e espiritual que assegura a civilização e os indivíduos naquelas certezas que sustentam o mínimo de coesão social e transcendental possível.

Reflexões Sobre a Revolução na França, de Edmund Burke | Foto: Reprodução

O momento certo para os conservadores

Em tempos de política duvidosa, avanços irracionais e tropeços ideológicos quase inacreditáveis, o conservadorismo pode assim surgir sobre essa montanha de patetices, fanatismos e incertezas como uma opção intelectual e política necessária à reorganização social e moral da nação brasileira.

Se pudéssemos resumir o que é o atual governo petista em uma só ligeira definição, poderíamos dizer que é a materialização paralisante de um anseio político que se baseia num esquizofrênico casamento de dois mundos contraditórios do socialismo: o reacionário sindicalismo marxista e o identitarismo progressista — filho torto do dito “socialismo esclarecido” frankfurtiano. A consequência dessa pitoresca união será, sem dúvida, o retrocesso com face benigna de avanço; isto é, o descalabro político com ótima propaganda midiática. Tal casamento não tem apreço pelo chão que pisa, pelas heranças acumuladas de nosso povo, são antes políticos profissionais, técnicos em manejar retóricas e ideologias, e não em resguardar princípios, nascem e morrem articulados em beneficiar suas castas e em granjear crescimento econômico para seus cofres.

Na história moderna, foram os conservadores, de Churchill a Thatcher, de D. Pedro II a Reagan, que entenderam que a política é uma extensão de nossos lares, que as relações políticas podem ser entendidas a partir dos princípios — os mesmos, sem tirar e nem pôr — que prezamos em nossas vidas privadas. Não que dispensassem o conhecimento e os instrumentos políticos necessários para governar, mas buscavam sustentá-las em valores comuns. É o conservadorismo que preza pelo avanço ordenado, pela atualização que não tenha como princípio a exclusão da tradição. Nas palavras de Burke, a política real, efetiva e capaz é antes aquela que une os mortos, os vivos e os que ainda nascerão:

“Nessa escolha de herança, demos à nossa moldura política a imagem de uma relação de sangue; unindo a Constituição de nosso país aos nossos mais caros laços domésticos; adotando nossas leis fundamentais no seio de nossas afeições familiares; mantendo inseparáveis e cultivando com o calor de todos os seus benefícios combinados e recíprocos nosso Estado, nossos corações, nossos sepulcros e nossos altares” (Burke, 2014, p. 56).

É por isso que a política para um conservador é constituída também de uma realidade que a transcende historicamente, é também preenchida de uma herança geracional, e não somente de mandatos. O marxismo materialista e ateu não é capaz de enxergar a ordem que pode existir para além da força da história e dos ditames econômicos; historicamente foram os conservadores que enxergaram na tradição política uma árvore genealógica, e por isso encontram nela uma motivação ética para preservar e avançar, e não somente para se promoverem ou promoverem uma ideologia ou partido.

Retrato de Karl Marx (1875), filósofo e político alemão | Foto: Wikimedia Commons

Conservadorismo para o Brasil

Entre as opções possíveis de visões políticas, somente o conservadorismo enxerga a nação e sua história como parte de uma herança e, para além do romantismo e da fofura retórica que há nisso, existe aqui também uma realidade cortante. O país, mais do que um conglomerado político e econômico, instituições e entidades, é em si mesmo um ethos social a ser preservado em sua tradição, costumes, língua e anseios. O conservador, partidário dessa tradição racional, do avanço cadenciado, da evolução ponderada, consegue pensar a política para além das necessidades ideológicas, ajustes bicamerais e das já conhecidas paredes de fumaça midiáticas. A percepção ética do conservadorismo naturalmente extrapola as verdade de quaisquer ciências duvidosas, imposições ideológicas, a fim de observar também as ponderações de uma estética moralizante da urbe, uma ética jurídica constitucional e as necessidades humanísticas da população.

Em tempos de política duvidosa, avanços irracionais e tropeços ideológicos quase que inacreditáveis, o conservadorismo pode assim surgir sobre essa montanha de patetices, fanatismos e incertezas como uma opção intelectual e política necessária à reorganização social e moral da nação brasileira

Filhos intelectuais de Lord Acton e Adam Smith, conseguimos administrar a indispensabilidade da liberdade — de mercado à de expressão — num conjunto de regras sociais condizentes à herança recebida do Ocidente; apoiados em Burke, admitimos a necessidade de tolerância social e reafirmação da moral social popular como norte indispensável da nação; edificados em Visconde de Cairu e Joaquim Nabuco, entendemos a importância das atualizações históricas e econômicas unida, indispensavelmente, à igualmente necessária reverência às nossas raízes tradicionais.

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Joaquim Nabuco foi um escritor brasileiro, estadista e uma das principais vozes do movimento abolicionista no Brasil | Foto: Reprodução

A necessidade política brasileira, depois de quatro anos do bem-intencionado Bolsonaro e da militância confusa que o seguiu — mas, ainda sim, herdeira de um sentimento de resgate tradicional de uma ética esquecida pelo progressismo tecnocrata que adotamos como bíblia social —, podemos encontrar em um conservadorismo mais maduro a síntese necessária para edificar no Brasil uma posição real de pensamento conservador que, em seu tempo, ecoará na política e nas facetas da sociedade como um todo.

Foi no caos e na pura incerteza do pós-Segunda Guerra Mundial e em meio à Guerra Fria que surgiram os modelos de líderes conservadores ainda hoje admirados e aplaudidos em todo o mundo ocidental sensato

Começamos de uma posição relativamente privilegiada, e não se trata de um falso otimismo, pensemos em termos históricos: o liberalismo conservador de Margaret Thatcher floresceu em um terreno hostil às ideias de livre mercado e de conservadorismo social europeu. O socialismo moderno do Partido Trabalhista inglês — apesar do revés da década de 1970 — e o conservadorismo quase que trabalhista que imperava no Partido Conservador britânico eram quase unânimes tanto nas preferências do mainstream quanto na percepção social geral. Mas nada disso impediu que Thatcher assumisse o posto de primeira primeira-ministra e mudasse a história do Reino Unido e do Ocidente naquele instante — unido especialmente a Reagan e a João Paulo II, dois outros conservadores.

Presidente Reagan, com a então primeira-ministra da Inglaterra, Margaret Thatcher, durante um almoço de trabalho em Camp David, em 1984 | Foto: Wikimedia Commons

Foi em meio à histeria contagiante do iluminismo francês que dominou quase toda a Europa nos séculos 17 e 18 que Burke nos deu um dos textos mais brilhantes daqueles dias, o texto que marca a posição do conservadorismo moderno, o supracitado Reflexões Sobre a Revolução na França. Foi no caos e na pura incerteza do pós-Segunda Guerra Mundial e em meio à Guerra Fria que surgiram os modelos de líderes conservadores ainda hoje admirados e aplaudidos em todo o mundo ocidental sensato.

Meu pessimismo político para os próximos quatro anos se contrasta assim com um otimismo real ante o que surgirá desses tempos políticos sombrios que começamos a trilhar. Peguemos, pois, os restos e os destroços do que sobrou e comecemos um movimento intelectual conservador a partir do impulso e do senso popular do bolsonarismo. Abandonemos nossas pantufas eruditas e nossa militância fideísta — as duas faces do conservadorismo brasileiro hoje —, e inteligentemente unamos os dois mundos dessa realidade. Que surja nos próximos anos um conservadorismo maduro, cujos princípios básicos de cadência e constância sejam afixados na mentalidade popular como um valor político indispensável a ser observado, pois, se marcarmos os valores certos na psiquê popular e transformarmos tais princípios em éticas políticas, o conservadorismo sairá dos subúrbios do fanatismo e dos castelos dos eruditos para finalmente dar as cartas desse jogo.

Roger Scruton, em um texto denominado “A minha vida inaceitável”, publicado em Contra a Corrente, organizado pelo seu agente e editor Mark Dooley, mostra como o conservadorismo na década de 1970 e 1980 era marginalizado na própria Inglaterra, e como, mesmo assim, em meio a perseguições políticas e acadêmicas, as ideias conservadoras, por meio da revista por ele editada, Review, ganhou o mundo e se tornou até mesmo matéria de perseguição estatal na Checoslováquia. Ao final de seu tempo como editor-chefe, comenta Roger Scruton, o conservadorismo não só era mais aceito na Europa, mas contagiava jovens que queriam emplacar tais ideias na sociedade. A perseguição aos conservadores será cada vez mais normal, a tirania esquerdista, por sua vez, não é novidade, como bem sinalizou Mises em Governo Onipotente, o autoritarismo para o socialismo é uma vocação irresistível, pode tardar a se manifestar, mas nunca perenemente evitável. Resta-nos, agora, organizar nossos estandartes e preparar nossos bunkers.

Sir Roger Vernon Scruton, filósofo e escritor inglês especializado em estética e filosofia política, particularmente na promoção de visões conservadoras | Foto: Pete Helme/Wikimedia Commons

Chesterton dizia que a história geralmente era salva por aqueles poucos que insistiam em não ser atuais. Ele estava certo; resta-nos saber se seremos galhos empurrados pela correnteza ou nadadores bravos que, de tanto insistir, cansarão a correnteza sem se cansar.

Por fim, não falarei “conservadores de todo o mundo, uni-vos”, revoluções nunca foram o nosso forte e, cabe sempre lembrar, conservadorismo não é ideologia, mas um modo de existência que recai necessariamente na política. No entanto, creio poder conclamar o seguinte: conservadores brasileiros, acordem, estudem e floresçam; temos um país a resgatar, uma herança a ser honrada. Aguentem firmes e se alinhem, nadem até a correnteza se cansar.

Revista Oeste