terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Voos em áreas com transmissão de zika levaram 9,9 milhões ao exterior

CLÁUDIA COLLUCCI
MARCELO NINIO

Folha de São Paulo


Uma equipe de pesquisadores internacionais fez uma projeção de como o vírus da zika deve se espalhar para as Américas, a Europa e a Ásia a partir do Brasil. O mapa foi publicado na revista "The Lancet".

Nessa segunda-feira (1º), a OMS (Organização Mundial da Saúde) declarou emergência em saúde pública por causa de um surto microcefalia, má-formação do cérebro cuja ligação com o vírus zika é fortemente suspeita.

Eles identificaram o destino final de 9,9 milhões de viajantes de voos internacionais que saíram de aeroportos no Brasil entre setembro de 2014 e agosto de 2015. Foram considerados terminais localizados num raio de até 50 km de áreas com transmissão de zika.

A maioria desses viajantes (65%) seguiu para as Américas, 27% para a Europa e 5% para a Ásia. Em volume de passageiros, os Estados Unidos lideram (2,7 milhões), seguidos da Argentina (1,3 milhão). Na Europa, a Itália é o principal destino, com 420 mil passageiros, seguida por Portugal (411 mil).

Na Ásia e na África, China (84 mil) e Angola (82 mil) receberam, respectivamente, o maior volume de passageiros saídos de aeroportos brasileiros.

Editoria de Arte/Folhapress


A equipe mapeou também a "geografia" dos mosquitos Aedes aegypti e Aedes albopictus, capazes de transmitir o zika, e construiu um modelo das condições climáticas necessárias para ele se espalhar.

Eles estimam que mais de 60% da população de EUA, Argentina e Itália vive em áreas propícias à transmissão sazonal (só no verão, por exemplo) do vírus zika. Já México, Colômbia e parte dos EUA teriam áreas propícias para a transmissão o ano todo.

Para Isaac Bogoch, especialista em doenças tropicais infecciosas da Universidade de Toronto e que participou do estudo sobre as chances de disseminação do zika, as pessoas não devem deixar de ir ao Brasil. "Viaje ao Brasil, aproveite a Olimpíada e se divirta. Quem viaja ao Brasil deve tomar precauções para não ser picado."

Ele diz que o grupo não fez um cálculo do risco de disseminação na competição. "Dependerá de qual será o nível de infecção no Brasil durante os jogos e se haverá uma redução significativa das viagens ao país por causa do surto."

Para Bogoch, é preciso concentrar esforços para evitar uma pandemia. 

"Precisamos melhorar a coordenação e a comunicação entre governos e entre as agências de saúde pública. Isso envolve monitoramento, relatórios, esforço de controle de mosquitos, disponibilidade de testes de diagnósticos para grávidas e mais estudos sobre o vírus e sua dinâmica de transmissão."

Na sua opinião, é difícil saber qual o atual estágio do surto no Brasil, pois a maioria das pessoas infectadas não tem sintomas.

Em um esforço para evitar a proliferação do vírus, o governo da Papua Nova Guiné anunciou que irá monitorar viajantes que chegam de áreas onde há circulação do zika.