segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

"Bombas farmacêuticas", por Ruy Castro

Folha de São Paulo


As agências noticiaram a morte do médico que cuidou de Elvis Presley entre 1967 e 1977 e foi acusado de contribuir para sua morte. Chamava-se George Nichopoulos –Dr. Nick, para seus clientes, e Dr. Feelgood, para a imprensa, a polícia e os conselhos empenhados em coibir sua medicina: a que prescreve estimulantes e depressivos no limite que cada cliente pode aguentar, e mais um pouco.

Naqueles dez anos, que foram os seus últimos, Elvis sofreu todos os efeitos da hiperintoxicação crônica: problemas cardíacos, respiratórios, de temperatura, de pressão sanguínea. Os intestinais, por exemplo, foram responsáveis por ele ter engordado a ponto de parecer um dos Três Porquinhos. Tinha também alucinações visuais, sonoras e táteis –achava que insetos corriam sobre o seu corpo. Tudo isso lhe aconteceu por ter um médico disposto a lhe aviar as receitas. Ao morrer, foram encontradas 14 substâncias em seu organismo.

Com tudo isso, Dr. Nick só perdeu sua licença em 1995. Outro de seus clientes foi Michael Jackson, morto em 2009, o que indica que, apesar de proscrito, Dr. Nick não deixou de operar. Mas o Feelgood oficial de Jackson era o Dr. Conrad Murray, que lhe provia os sedativos e ansiolíticos e o anestesiava para que ele conseguisse dormir.

O Feelgood mais famoso foi o Dr. Max Jacobsen, de Nova York, que, em 1960, tinha entre seus clientes compositores, dramaturgos, cantores, atores, diretores de ópera e, principalmente, John Kennedy, então presidente dos EUA, e seu irmão Robert. E um dos pioneiros da especialidade foi o Dr. Webster Marxer, de Hollywood, médico de Carmen Miranda e fornecedor das bombas farmacêuticas que a mataram.

Michael Jackson morreu com 50 anos; Carmen, com 46; Elvis, com 42. O Dr. Nick, que não usava os produtos que receitava, com 88.

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