Com alto comparecimento, democratas e republicanos iniciam primárias em Iowa
DES MOINES, EUA/WASHINGTON - Com resultados imprevisíveis frente às pesquisas, o estado de Iowa deu a largada na noite desta segunda-feira à escolha dos candidatos para a corrida presidencial dos EUA. Como ocorre a cada quatro anos, eleitores do estado são os primeiros a participar das prévias. Enquanto a democrata Hillary Clinton defende sua posição de favorita, no grupo republicano o magnata Donald Trump tenta provar que não é apenas um fenômeno midiático.
Os caucus (reuniões de eleitores em formato de assembleias) dos dois partidos começaram às 19h locais (23h de Brasília) e têm resultados apurados durante as horas seguintes. Antes das assembleias, as filas eram mais longas do que de costume, segundo repórteres no local.
Na próxima semana, as primárias continuarão em New Hampshire, e sucessivamente nos outros estados até junho. As eleições presidenciais serão realizadas em novembro.
Fenômeno Sanders preocupa

Do lado democrata, nas primeiras pesquisas de opinião com os eleitores que entravam nos locais de assembleia, Hillary mantinha 50% dos votos, contra 44% de Sanders e 3% de Martin O'Malley. De acordo com o site "Politico" e a CNN, a ida das mulheres teria sido um fator preponderante. Ela aparecia com 45% dos votos contra 42% de Bernie Sanders na última pesquisa divulgada no sábado pelo jornal “Des Moines Register”.
O senador de 74 anos, que se autodenomina “socialista democrático”, não assusta os jovens democratas, que o aplaudem quando promete uma revolução política. Ainda que termine em segundo lugar, Sanders pode reivindicar uma vitória relativa: quando se lançou à campanha, em abril, registrava menos de 10% dos votos em Iowa. Em New Hampshire, Sanders domina as pesquisas, mas no resto do país fica atrás.
O último discurso pré-caucus de Sanders foi acompanhado por vários artistas, que fizeram campanha para arrecadar fundos para sua campanha. Entre as atrações, tocaram num show a banda Vampire Weekend. Nas horas que precediam o caucus, era possível ver muitos jovens exibindo faixas e camisas personalizadas com o slogan do candidato. Ele também foi o presidenciável com nome mais mencionado por usuários das ferramentas do Google.
Pouco antes do início da votação, Hillary fez um apelo aos 2.600 eleitores em seu último comício: que confiem em sua experiência como ex-secretária de Estado e ex-primeira-dama.
— Já sei como fazer isto e estou pronta. Há muito entusiasmo e muita energia. Peço a todos que votem e façam parte deste processo tipicamente americano. Peço que saiam e votem em mim — disse à CNN.

Trump na luta pela hegemonia

Nas primeiras pesquisas de opinião na noite do caucus, Trump alcançava estimativas de 27%, contra 22% do senador do Texas Ted Cruz. Um ponto abaixo de Cruz, figurava o senador da Flórida Marco Rubio.
A rejeição às elites políticas marcou os últimos sete meses de campanha, o que permitiu que o milionário Donald Trump ganhasse espaço entre os republicanos. Trump, que tem cerca de 28% nas pesquisas, ataca o establishment e a incompetência dos dirigentes, enquanto promete que com ele “os Estados Unidos ganharão tanto que se cansarão de ganhar”. Seu discurso nacionalista e anti-imigrantes fez sucesso entre parte dos eleitores desiludidos.
Segundo colocado nos levantamentos prévios, Cruz obteve 23% das intenções de votos entre os eleitores republicanos. Filho de um pregador religioso exilado de Cuba, e nascido em Calgary, no Canadá, Cruz se apresenta como o único candidato genuinamente conservador em meio a um grupo de nomes com princípios frágeis.
Apesar da vantagem de Trump, os levantamentos mostram uma batalha acirrada com Cruz, cujo desfecho pode depender do comparecimento e de uma grande parcela de eleitores indecisos.
Entenda
Entre os republicanos, o voto é secreto, enquanto os democratas formam grupos por candidatos para conceder a eles delegados.
Desde os anos 1970, Iowa defende manter o privilégio de ser o primeiro estado a votar nas prévias, o que lhe permite ter um peso desmesurado em relação aos seus três milhões de habitantes. Foi neste estado que em 2008 a sorte de Hillary Clinton, de 68 anos, começou a mudar em favor de Barack Obama.
A escolha dos candidatos é feita de duas formas nos EUA. No sistema de caucus, os eleitores se reúnem e debatem sobre os candidatos e normalmente não há votação. O escolhido é definido por consensos e aclamação. Já as primárias constituem umas eleições simples, onde cada participante tem direito a um voto em um pré-candidato.
De olho em New Hampshere e nos doadores
O censo de Iowa precede as primárias de New Hampshire, dia 9, onde o governador de Ohio, John Kasich, e o ex-governador da Flórida Jeb Bush já fizeram campanha em plena noite de caucus — de olho na melhora de seu desempenho na disputa.
As prévias do segundo estado serão fundamentais também para atrair os doadores. Como, pela primeira vez na História, a campanha presidencial de cada partido custará mais de US$ 1 bilhão (R$ 4,022 bilhões, ou seja, o valor dos dois partidos equivale ao total da construção da Linha 4 do Metrô do Rio), a importância dos recursos cresce. E a influência dos doadores é parte central da campanha para a escolha do sucessor de Barack Obama em novembro.
Nos EUA, onde toda a campanha é paga com doações, não há sequer horário eleitoral gratuito. A Comissão Eleitoral Federal (FEC, na sigla em inglês) limita a doação de pessoas físicas a US$ 2.700 para cada candidato e uma somatória de US$ 100,2 mil a todos os candidatos, comitês e partidos. Mas o que tem desequilibrado, de fato, são os grupos organizados e comitês de ação política (chamados de PACs e Super PACs), que reúnem diretamente segmentos da sociedade civil e que desde 2010, após uma decisão da Suprema Corte, não contam com limites para doações, o que gera distorções.
Até o momento, as doações diretas aos candidatos chegam a US$ 164,3 milhões, enquanto os PACs e SuperPACs da eleição presidencial já somam US$ 353,3 milhões, segundo o site OpenSecrets.org, mantido pela organização não governamental The Center for Responsive Politics. Segundo o grupo, 81% das propagandas eleitorais de TV até o momento foram pagas pelos PACs, que podem se organizar contra candidatos. Esses valores devem crescer.