sábado, 11 de abril de 2020

"Os verdadeiros soldados", por Ana Paula Henkel

Guerras trazem o que há de pior
e melhor no ser humano. Em
tempos de polarização política,
o inimigo não escolhe posição
ideológica para atacar. Saúdo 
quem busca a trégua


No épico Tora! Tora! Tora!, filme de guerra de 1970 que dramatiza o ataque japonês a Pearl Harbor na Segunda Guerra Mundial, o almirante Isoroku Yamamoto, que comandava a Marinha Imperial Japonesa, diz logo depois do ataque à base americana: “Temo que tudo o que fizemos foi acordar um gigante adormecido e enchê-lo com uma terrível determinação”. Para alguns historiadores, Yamamoto não teria dito exatamente essa frase, mas escrito algo parecido, como “Posso correr solto por seis meses… depois disso, não tenho nenhuma expectativa de sucesso”. Ele estaria resumindo um sentimento geral entre os almirantes japoneses de que não demoraria muito para que o orgulho ferido do então gigante adormecido, aliado à enorme capacidade industrial dos Estados Unidos, garantisse a destruição do Império Japonês.
E eles estavam certos. Depois de anos de estagnação durante a Grande Depressão, a América havia despertado novamente para o esplendor industrial, e a recuperação bélica não era apenas uma questão de poder e posicionamento geopolítico, mas também de orgulho. Em 1940, havia menos de 500 mil militares em serviço nos EUA. Na época do histórico ataque a Pearl Harbor, esse número havia aumentado para quase 2,2 milhões. Em 1945, mais de 12 milhões de americanos estavam nas Forças Armadas. Foi uma mobilização surpreendente para uma nação com menos de 140 milhões de pessoas na época.
Aproximadamente 350 mil mulheres americanas trabalharam como enfermeiras, dirigiram caminhões, consertaram aviões, realizaram trabalhos de escritório e também ingressaram no campo da química e da engenharia para desenvolver armamentos. Enquanto os homens iam para o fronte da batalha, a Segunda Guerra Mundial levou muitas mulheres a aceitar emprego em fábricas de defesa em todo o país, especialmente na indústria aeronáutica — área até então predominantemente masculina. Até o final de 1944, o produto interno bruto americano excedeu a produção econômica de todos os principais envolvidos na Segunda Guerra Mundial juntos: União Soviética, Reino Unido, Japão, Itália e Alemanha.
A América se uniu de uma maneira até então nunca vista. Para muitos americanos, a escala da crise do coronavírus faz lembrar o sentimento de luta e sobrevivência em guerras, ou como foi mais recentemente no 11 de Setembro ou na crise financeira de 2008. Esses eventos remodelaram a sociedade de maneira duradoura, desde a vida cotidiana de levar as crianças à escola até o nível de segurança e vigilância ao qual nos habituamos. Não estamos em guerra, pelo menos não em uma guerra bélica. Mas lutamos contra um inimigo global que nos mantém em casa acuados e que já começa a redefinir nossas relações e perspectivas com governos, com o mundo exterior e até uns com os outros.
Ainda durante o combate, fala-se na reestruturação da economia dos Estados Unidos e de mais uma ressurreição do espírito de seus habitantes, abatido pelos milhares de vidas já ceifadas pelo vírus e também pelos quase 17 milhões de desempregados em apenas três semanas, número que só foi atingido depois de dez meses na crise de 2008.
Não podemos atirar em um vírus e aqueles na linha de frente contra a covid-19 não são soldados comuns. Eles são médicos, enfermeiros, prestadores de cuidados especiais a idosos, policiais. E há aqueles que, expostos ao mal invisível em campos minados, são diariamente confrontados com tarefas insondáveis. Tarefas agravadas pelo risco de contaminação e morte — missões para as quais esses soldados nunca se alistaram. 
Talvez, quando tudo isso for superado e o medo tenha se dissipado, reconheçamos com mais afinco o sacrifício desses bravos soldados que, sem hesitar, nos brindam silenciosamente com o verdadeiro patriotismo e amor, pondo a própria vida em risco para salvar os feridos. Talvez, quando acordarmos desse pesadelo e voltarmos à vida normal, mesmo com as marcas das feridas dessa guerra, começaremos a saudar nossos médicos e enfermeiros dizendo: “Obrigado por seu serviço”, como fazemos com veteranos militares por sua bravura e patriotismo.
Torço para que, quando essa guerra silenciosa acabar, estátuas sejam erguidas em homenagem a esses soldados, essa nova classe de heróis que sacrificam sua saúde e sua vida pelas nossas. Talvez também comecemos a finalmente valorizar o verdadeiro sentido do patriotismo, palavra tão demonizada em tempos de polarização política, como ele é, no verdadeiro sentido de doação e altruísmo sem categorizar as pessoas. Talvez, depois desse pesadelo, com as diretrizes do nosso cotidiano redefinidas, possamos perceber que cultivar a vida, o amor e o progresso primeiramente dentro de seu país, de sua cidade e de sua comunidade, valorizando as raízes, as tradições e a família, pode ser uma boa ideia. Guerras trazem reflexões profundas e talvez, apenas talvez, a percepção de que não é preciso muito para ter o essencial seja um dos benefícios dessa bagunça para arrumar uma sociedade que se acostumou a enaltecer os excessos, adorar os supérfluos e a discutir o número de gêneros na raça humana.
Em 1984, na celebração de 40 anos do desembarque das tropas americanas nas praias da Normandia na Segunda Guerra Mundial, o presidente americano Ronald Reagan fez um discurso na presença de alguns dos Rangers americanos que sobreviveram àquela batalha. Reagan disse: “Vocês eram jovens naquele dia em que tomaram esses penhascos; alguns de vocês eram apenas garotos com os maiores prazeres da vida diante de vocês e mesmo assim arriscaram tudo aqui. Por quê? Por que fizeram isso? (…) Nós olhamos para vocês e de algum jeito sabemos a resposta. Fé e crença. Lealdade e amor.”
Agora imagine por um momento que estamos em guerra real com um inimigo consciente, inteligente, cuja única razão de viver é machucar ou matar o maior número possível de nós. Esse é o coronavírus. Guerras trazem o que há de pior e melhor no ser humano. Em tempos de polarização política e muitas discussões vazias e acaloradas no curso de uma pandemia, em que o inimigo não escolhe a posição ideológica para atacar, saúdo quem busca o refúgio da trégua na atual tempestade das diferenças políticas. A todos os profissionais da saúde que se encontram no fronte dessa verdadeira guerra, protegendo-nos do ataque vil e invisível do inimigo, nosso muito obrigado. Sua fé e sua crença, sua lealdade e seu amor jamais serão esquecidos.

Revista Oeste