segundo o qual o Brexit foi
aprovado porque ingleses
velhos e xenófobos, de regiões
periféricas do Reino Unido,
temiam a imigração em massa
e o desemprego
Até o momento, nem a pandemia do coronavírus foi capaz de provocar o adiamento da saída do Reino Unido da União Europeia. Por parte do governo inglês, a data de saída está mantida: 31 de dezembro. Mesmo internado por ter sido infectado, o primeiro-ministro Boris Johnson não mudou de posição. Michel Barnier, o principal negociador do bloco europeu, também está com o coronavírus, assim como o ministro da Saúde inglês, Matt Hancock, e o braço direito de Johnson, Dominic Cummings.
A única mudança até agora foi o cancelamento da segunda rodada de negociação entre as partes, que seria realizada em março. Os desafios mais urgentes do primeiro-ministro inglês são, entretanto, recuperar-se e, ao mesmo tempo, comandar o país com a saúde debilitada a partir do quarto do hospital público St. Thomas, no centro de Londres.
A respeito do Brexit, muito foi dito e escrito. A respeito do Brexit, muitas tolices foram ditas e escritas. Políticos, jornalistas, especialistas, economistas de várias partes do mundo, todos contrários à saída, criaram um falso consenso segundo o qual o Brexit foi aprovado em 2016 porque ingleses velhos e xenófobos, de regiões periféricas do Reino Unido, temiam a imigração em massa e o desemprego. E que, de forma irresponsável, colocaram em causa o futuro dos jovens, especialmente daqueles que vivem na grande Londres e eram favoráveis à permanência na União Europeia.
Foi essa a explicação que ganhou o mundo. Muitos, em vários países, foram ludibriados por profissionais que deveriam compreender o Brexit para explicá-lo, mas que preferiram enquadrar a realidade a seus devaneios e preferências ideológicas.
Muitos deles nunca saíram da capital, nem sequer conhecem a periferia de Londres, não têm contato com o britânico ordinário. Se tivessem conversado com o povão nos pubs da periferia, como eu fiz, como Dominic Cummings fez para realizar a vitoriosa campanha do Brexit, teriam outra visão acerca do que estava (e está) acontecendo.
Para descolá-los ainda mais da realidade, esses profissionais vivem fechados em suas bolhas frequentadas por seus pares para quem temas como soberania, patriotismo, identidade nacional, cultura, valores, princípios, não passam de excentricidades, de elementos que põem em risco a ideia que têm de democracia. Não é difícil entender, portanto, por que eles consideram que tais elementos são defendidos apenas por gente da extrema direita populista. Essa gente, segundo acreditam, é representada politicamente, em seus respectivos países, por Boris Johnson, Donald Trump, Jair Bolsonaro, Viktor Orbán, Recep Tayyip Erdogan, Vladimir Putin.
Além do equívoco de enquadrarem esses políticos numa mesma categoria conceitual, como se representassem um único e mesmo fenômeno, os ataques contra o Brexit não podem ser qualificados como meros erros fundamentados em profunda ignorância teórica e a respeito das culturas políticas daqueles países. Em muitos textos, a ignorância só rivalizava com a soberba ressentida.
Scruton faleceu em janeiro. Numa palestra proferida em 2015 para o Nexus Institut, um ano antes do referendo, Scruton elencou três razões principais que justificam o ceticismo dos britânicos em relação à União Europeia:
1) Soberania: a resistência contra os nazistas e a defesa bem-sucedida do território, que não foi invadido nem ocupado durante a Segunda Guerra. A geração que lutou terminou a guerra com o sentimento de que protegeu a liberdade, a independência e a soberania de uma grande ameaça diante da qual outros países sucumbiram. Se protegeram sua soberania contra o nazismo, por que a cederiam à União Europeia?
2) Lei: ao contrário de vários países da Europa continental nos quais a lei é imposta de cima para baixo por decisão dos legisladores, no Reino Unido a lei é criada de baixo para cima a partir da resolução dos conflitos levados pelas pessoas aos magistrados. Caso um conflito seja submetido ao Parlamento, poderá ou não ser convertido em lei. Essa profunda diferença provoca reação dos britânicos quando são obrigados a se submeter às decisões tomadas em Bruxelas. Sentem que estão sendo governados desde de fora do país por políticos/burocratas que não os entendem e que sabem apenas regular em vez de solucionar conflitos.
3) Idioma e território: a política de livre circulação de pessoas dentro da União Europeia é um grande problema para um país que fala um idioma internacional, que é política e economicamente atrativo, mas que tem um território pequeno e densamente povoado. Os britânicos acham que perderam o controle de suas fronteiras pelas quais tanto lutaram para proteger. Não entendem por que são obrigados a receber estrangeiros com hábitos e valores muito distintos que com eles competem por trabalho e moradia. Para piorar, não podem impedir a entrada de quem não querem nem favorecer a entrada daqueles em que têm interesse.
Para nós, brasileiros, inoculados há décadas pelo vírus do desprezo por nosso país, por nossa história, por nossa cultura, por nossos valores, concepções como as de pátria, soberania, independência, liberdade, não são reconhecíveis; são pura metafísica ou questão de fé religiosa. Por essa razão, as mentiras e os argumentos econômicos contrários ao Brexit tiveram terreno fértil no Brasil.
Scruton observou que a discussão não deveria ser exclusivamente econômica porque dizia respeito à identidade dos britânicos e de tudo aquilo que é seu corolário. Se é verdade que as vantagens econômicas são inegáveis, a União Europeia, segundo o filósofo, confiscou a soberania do Reino Unido sem oferecer nada grandioso em troca.
É de uma soberba monumental achar que um povo que venceu o nazi-fascismo, que lutou pelo país e pela Europa, se renderia a uma instituição cuja natureza é a expressão da política de fé, termo que, como expliquei na coluna da semana passada, foi criado pelo filósofo Michael Oakeshott para definir o projeto político que considera que para todo e qualquer problema haverá uma única solução racional e que esta será a melhor de todas. Não há espaço, portanto, para uma solução mais adequada de acordo com as circunstâncias. A arrogância do projeto explica a arrogância dos representantes da União Europeia.
Por que os britânicos escolheram o Brexit? Porque a União Europeia não representa a Europa que eles conhecem, amam e pela qual deram a vida. O Brexit é uma declaração de amor à Europa.
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Bruno Garschagen é cientista político, pesquisador do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa e autor dos best-sellers Pare de Acreditar no Governo e Direitos Máximos, Deveres Mínimos (Editora Record).
Revista Oeste
Bruno Garschagen é cientista político, pesquisador do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa e autor dos best-sellers Pare de Acreditar no Governo e Direitos Máximos, Deveres Mínimos (Editora Record).