Trump, Washington e o retorno ao eixo da ordem
O presidente dos EUA, Donald J. Trump, discursa pela primeira vez sobre o Estado da União em seu segundo mandato perante uma sessão conjunta do Congresso, na Câmara dos Representantes do Capitólio dos Estados Unidos, em Washington, D.C. (24/2/2026). Sentados atrás dele estão o vice-presidente JD Vance e o presidente da Câmara dos Representantes, Mike Johnson (republicano da Louisiana) - Foto: Kenn Holston/Pool via Reuters
O aniversário de George Washington sempre convida os Estados Unidos a uma reflexão silenciosa sobre fundação, limites e responsabilidade. Neste ano, a data coincidiu com o discurso do Estado da União apresentado por Donald Trump — e a sobreposição não poderia ser mais simbólica.
Washington inaugurou a República sob o princípio de que liberdade e autoridade precisam conviver em tensão disciplinada. Recusou o poder vitalício, alertou contra facções internas e advertiu sobre alianças externas permanentes que comprometessem a autonomia americana. Seu legado não é apenas histórico; é estrutural. Ele moldou a arquitetura institucional e moral do país.
Mais de dois séculos depois, o discurso desta semana foi, além de uma prestação de contas administrativa, apresentado como uma correção de rota. Não apenas na política doméstica, mas na própria compreensão do papel dos Estados Unidos no mundo.
Pilares que, nas últimas décadas, passaram a ser tratados como suspeitos ou ultrapassados, foram exaltados e colocados no coração da nação. Donald Trump não tratou apenas de fronteiras, guerra ou economia. Tratou de ordem. De limites. De soberania. E, acima de tudo, de identidade nacional. E ali estava o centro do discurso: a redefinição do que é considerado básico.
O que se ouviu no Capitólio na última terça-feira foi menos um relatório e mais uma afirmação de eixo.
Ordem, limites e soberania
Desde as primeiras linhas, Trump deixou claro que seu foco não seria a conciliação retórica. Ao afirmar que a obrigação fundamental do governo é proteger seus próprios cidadãos, trouxe para o centro do plenário uma frase simples, quase elementar. No entanto, a reação dividida revelou algo mais profundo: aquilo que já foi consenso fundacional tornou-se objeto de disputa ideológica.
No momento em que Trump perguntou se a principal função do governo americano é proteger e cuidar de seus próprios cidadãos — e não priorizar imigrantes ilegais — a reação dos democratas acabou se tornando parte central de todo o discurso.
Ao permanecerem sentados, muitos parlamentares morderam a isca lançada pelo presidente. A pergunta foi formulada de modo a produzir contraste visual, e o contraste veio. A recusa em se levantar, possivelmente pensada como resistência simbólica, acabou reforçando a narrativa que Trump desejava consolidar: a de que há uma divergência explícita obre o que constitui a obrigação primária do Estado. Em política, gestos cristalizam percepções e, naquele instante, a divisão deixou de ser apenas retórica para se tornar imagem. A reação dividida à frase simples revelou algo maior: aquilo que antes era consenso fundacional transformou-se em linha de fratura ideológica.
Ao longo do discurso, o presidente apresentou sua agenda como reconstrução de fundamentos. Fronteiras, segurança interna, combate à imigração ilegal e fortalecimento das forças de aplicação da lei foram tratados não como temas setoriais, mas como expressão prática de soberania.
A mensagem implícita foi clara: uma nação que não controla seus limites territoriais fragiliza sua própria definição política. A fronteira, nesse enquadramento, deixa de ser apenas linha geográfica e passa a ser símbolo institucional.
Essa ênfase marca uma ruptura com a linguagem predominante das últimas décadas, que frequentemente privilegiou integração irrestrita e mobilidade global como valores em si mesmos. O discurso desta semana recolocou a soberania como condição anterior a qualquer projeto internacional.
Paz pela força e o reposicionamento global
Ao recuperar a expressão “peace through strength” — paz pela força —, Trump evocou uma tradição estratégica que atravessa momentos decisivos da história americana. A fórmula foi popularizada durante a Guerra Fria por Ronald Reagan, que defendia que clareza de poder e firmeza estratégica eram instrumentos de dissuasão, não de provocação.
A ideia de que a força visível reduz a probabilidade de um conflito maior foi apresentada como nostalgia ideológica, mas, principalmente, como resposta adequada a um mundo em transformação.
A guerra na Ucrânia, a instabilidade no Oriente Médio e o fortalecimento de potências revisionistas compõem um cenário no qual ambiguidade estratégica pode ser interpretada como fraqueza. Ao reafirmar a força como instrumento legítimo de estabilidade, o presidente enviou sinais que ultrapassam o público doméstico.
liderança sob critérios mais explícitos de reciprocidade. Alianças permanecem, mas com revisão de responsabilidades. Compromissos internacionais continuam, mas condicionados ao interesse nacional claro.
O discurso indicou que os Estados Unidos pretendem exercer liderança sob critérios mais explícitos de reciprocidade. Alianças permanecem, mas com revisão de responsabilidades. Compromissos internacionais continuam, mas condicionados ao interesse nacional claro.
Essa mudança representa deslocamento estrutural. Durante décadas, a política externa americana operou sob o paradigma da expansão liberal multilateral, com ênfase na integração econômica ampla e no fortalecimento de instituições supranacionais. O que se viu nesta semana foi a consolidação de outra lógica: soberania competitiva.
Quando Washington altera seu eixo estratégico, o sistema internacional recalcula. Parceiros ajustam expectativas. Rivais revisam riscos. O impacto não se mede apenas em comunicados diplomáticos, mas na reorganização gradual das percepções globais. Economia, energia e autonomia No campo econômico, o discurso reforçou políticas de reindustrialização, fortalecimento da produção doméstica e independência energética.
Energia foi tratada como instrumento estratégico, não apenas como variável de mercado. A ênfase na autonomia produtiva não foi apresentada como isolamento, mas como equilíbrio. Segundo o presidente, cadeias de suprimento excessivamente dependentes fragilizam a segurança nacional. A produção interna, por sua vez, amplia a margem de manobra diplomática.
Essa abordagem questiona premissas da globalização irrestrita que dominaram o debate por décadas. Trump não prega a rejeição do comércio internacional, mas a revisão de termos. Reciprocidade passa a ser palavra-chave.
O deslocamento não é apenas econômico. É político. Ele redefine a relação entre prosperidade e soberania.
Heróis vivos e a memória da República
Mas seria um erro reduzir o Estado da União a geopolítica e confronto. Um dos momentos mais significativos ocorreu quando a política cedeu espaço à memória e à honra. A presença do centenário Royce Williams, representante de uma geração que enfrentou guerras existenciais, trouxe à tribuna a dimensão histórica da liberdade americana.
Segunda Guerra Mundial, Coreia, Vietnã. Ele simboliza a bravura militar americana, mas também a continuidade. A ideia de que a República foi defendida por homens e mulheres que compreendiam o custo da liberdade.
Um dos pontos altos da cerimônia foi a homenagem ao piloto Eric Slover, condecorado por coragem sob fogo intenso. Durante a operação que resultou na captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro, em 3 de janeiro, Slover liderava sua aeronave em espaço hostil quando foi atingido por disparos inimigos. Gravemente ferido, com perda significativa de sangue e sob intenso ataque, ele se recusou a abandonar o comando.
Mesmo debilitado, manteve o controle do helicóptero, estabilizou a aeronave e garantiu que sua equipe concluísse a missão com segurança.
Sua decisão, tomada em segundos e sob risco iminente de morte, evitou uma possível tragédia maior. Pela liderança demonstrada em combate e pela coragem extraordinária diante do fogo inimigo, recebeu a Medalha de Honra — a mais alta condecoração militar dos Estados Unidos, reservada a atos de bravura que ultrapassam o dever.
O heroísmo não pertence apenas ao passado distante. Ele continua presente, em missões arriscadas, em decisões tomadas sob pressão extrema, em homens e mulheres que assumem riscos que a maioria sequer imagina. É o mesmo heroísmo que permeia o imaginário americano, que atravessa gerações, que inspira as telas de cinema, os livros de história e as narrativas que moldaram a identidade nacional.
Nas últimas décadas, conceitos como patriotismo, fronteira, força militar e identidade nacional foram frequentemente apresentados como obstáculos ao cosmopolitismo e à integração global.
da União de Donald Trump reverte essa narrativa ao apresentá-los como condições de estabilidade. A disputa que se desenha é filosófica antes de ser eleitoral. Trata-se de definir se a nação é apenas engrenagem administrativa de uma ordem supranacional ou se permanece como um corpo histórico com direito — e dever — de preservar seus contornos. Identidade nacional e disputa cultural O discurso também abordou o embate cultural que atravessa o país. Questões relacionadas à educação, identidade e valores sociais foram apresentadas como parte de uma disputa mais ampla sobre o significado da América. Para seus apoiadores, trata-se de restaurar fundamentos. Para críticos, de aprofundar polarizações. Mas, independentemente da posição ideológica, o fato é que a identidade nacional deixou de ser pressuposto silencioso e tornou-se tema central.
Identidade nacional e disputa cultural
O discurso também abordou o embate cultural que atravessa o país. Questões relacionadas à educação, identidade e valores sociais foram apresentadas como parte de uma disputa mais ampla sobre o significado da América. Para seus apoiadores, trata-se de restaurar fundamentos. Para críticos, de aprofundar polarizações. Mas, independentemente da posição ideológica, o fato é que a identidade nacional deixou de ser pressuposto silencioso e tornou-se tema central.
Ana Cláudia Henkel - Revista Oeste