sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

'A república de Gilmar', por Erich Mafra e Edilson Salgueiro

 



O projeto de criação do município de Nova Aliança do Norte ganha o apelido irônico de "Gilmarlândia" | Foto: Montagem/Revista Oeste/Shutterstock 


N o coração do agronegócio mato-grossense, entre lavouras mecanizadas de soja e longas estradas de terra batida, nasceu uma ideia que mistura ambição territorial, prestígio político e cálculo estratégico. O nome oficial da invenção é Nova Aliança do Norte, mas já circula nas ruas com outro nome: “Gilmarlândia”. Trata-se de uma cidade planejada na divisa entre Diamantino, terra natal do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e São José do Rio Claro, localizada às margens da MT-010. No último sábado, 21, durante o lançamento da pedra fundamental da Gilmarlândia, reuniram-se prefeitos da região, deputados estaduais e o próprio magistrado. Foi uma cerimônia típica da liturgia política do interior do Brasil, com autoridades perfiladas sob o sol forte, discursos sobre desenvolvimento, elogios cruzados e promessas de futuro próspero. 

O projeto, idealizado pelo empresário Eraí Maggi, sócio do conglomerado Grupo Bom Futuro e primo do ex-ministro da Agricultura Blairo Maggi, tem o objetivo de resolver problemas logísticos da região. Hoje, famílias de trabalhadores rurais vivem a dezenas de quilômetros de hospitais, crianças saem antes do amanhecer para estudar e o acesso à saúde depende de longos deslocamentos por estradas intransitáveis. O que chama atenção, contudo, é a solução oferecida tanto por Eraí quanto por Gilmar, que doaram aproximadamente 100 hectares cada para viabilizar a infraestrutura local. 

Criar um município significa instituir uma estrutura burocrática complexa, com prefeito, vice-prefeito, câmara de vereadores, secretarias, procuradoria, controladoria, concursos públicos, cargos comissionados e folha de pagamento. É uma máquina pública inteira funcionando todos os meses. Municípios com o porte mínimo exigido para emancipação no Centro-Oeste, por exemplo, funcionam com orçamentos anuais entre R$ 40 milhões e R$ 60 milhões. Em muitos casos, mais de 70% dessa receita é consumida pela própria folha salarial. E quem paga? Os moradores da região, via Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana (IPTU) e Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISS); o Estado, via repartição de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS); e a União, via Fundo de Participação dos Municípios (FPM), que responde por mais de 50% da receita total de cidades desse porte. 

Nos anos 1990, o Brasil viveu uma febre emancipatória. Centenas de municípios surgiram. A maioria nunca alcançou autonomia econômica real. Tornaram-se dependentes crônicos de Brasília. As prefeituras viraram, em diversos casos, as maiores empregadoras das cidades. A reação começou em 1996, quando a Emenda Constitucional nº 15 endureceu as regras e determinou que a criação de novos municípios só poderia ocorrer mediante critérios mais rigorosos, como estudo de viabilidade econômica, plebiscito com a população envolvida e, principalmente, a edição de uma lei complementar federal fixando parâmetros claros para as emancipações. 

No entanto, sa lei complementar demorou mais de duas décadas para ser aprovada pelo Senado e pela Câmara. Sem a norma exigida pela Constituição Federal, diversos processos de criação de municípios ficaram suspensos ou passaram a ser contestados judicialmente. Só em 2023 os parlamentares aprovaram uma lei complementar para tratar do tema, mas o ambiente jurídico permaneceu sujeito ao crivo do STF. 

Em Mato Grosso, por exemplo, apenas um município conseguiu se emancipar nesta década: Boa Esperança do Norte. O Supremo validou a criação do novo município com voto favorável de Gilmar. Atualmente, o projeto da Gilmarlândia está em fase inicial. Não há confirmação de que a cidade será criada nem detalhes técnicos sobre o estudo. A aprovação depende do avanço de todos os trâmites burocráticos.

aí Maggi tornou-se, nos últimos anos, uma das principais pontes entre setores do agronegócio mato-grossense e o governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Essa articulação nos bastidores lhe rendeu elogios públicos do presidente. “Imagina se o pessoal do agronegócio que não gosta de nós tivesse ouvindo o Eraí”, disse o petista, em dezembro do ano passado, em reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável (CNDES). E não para aí. O atual ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, é de Mato Grosso e teve a indicação ao cargo articulada por lideranças do Estado, incluindo os líderes do grupo político ligado aos Maggi. Esse arranjo político deu resultado. Em 2023, o Ministério da Agricultura empenhou quase R$ 50 milhões para obras nos municípios de Canarana e Campo Verde, em Mato Grosso — regiões onde o Grupo Bom Futuro mantém extensa área produtiva. Os recursos, provenientes de emendas parlamentares executadas via ministério, foram destinados principalmente à infraestrutura viária rural, como recuperação e pavimentação de estradas usadas no escoamento da produção agrícola.


Os amigos do ministro

Itaí Maggi tornou-se, nos últimos anos, uma das principais pontes entre setores do agronegócio mato-grossense e o governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Essa articulação nos bastidores lhe rendeu elogios públicos do presidente. “Imagina se o pessoal do agronegócio que não gosta de nós tivesse ouvindo o Eraí”, disse o petista, em dezembro do ano passado, em reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável (CNDES). E não para aí. O atual ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, é de Mato Grosso e teve a indicação ao cargo articulada por lideranças do Estado, incluindo os líderes do grupo político ligado aos Maggi. Esse arranjo político deu resultado. Em 2023, o Ministério da Agricultura empenhou quase R$ 50 milhões para obras nos municípios de Canarana e Campo Verde, em Mato Grosso — regiões onde o Grupo Bom Futuro mantém extensa área produtiva. Os recursos, provenientes de emendas parlamentares executadas via ministério, foram destinados principalmente à infraestrutura viária rural, como recuperação e pavimentação de estradas usadas no escoamento da produção agrícola.


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aproveitou os elogios públicos feitos pelo mega produtor rural Eraí Maggi em reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável (CNDES) para cutucar os agricultores que o criticam. “Imagina vocês se o pessoal do agronegócio que não gosta de nós tivesse ouvindo o Eraí falar. Ele que possivelmente é maior do que todos que falem mal de nós, porque tá dizendo apenas a verdade”, declarou o petista. 📲 Leia a notícia completa acessando o link na bio e nos stories


A influência política que gravita em torno de Gilmar Mendes extrapola o âmbito regional. Na década de 2000, sobretudo durante o julgamento do Mensalão, o ministro era visto como crítico do PT. Mais recentemente, no entanto, tornou-se um dos principais expoentes da ala simpática ao partido no STF. Virou opositor da Operação Lava Jato, questionou métodos de investigação legítimos e passou a relativizar a importância de prisões preventivas e delações premiadas. Em 2019, integrou a maioria que reviu o entendimento da Corte sobre a execução da pena depois da condenação em segunda instância — decisão que alterou jurisprudência firmada três anos antes e teve impacto direto sobre processos envolvendo Lula. Embora não esteja tão em evidência quanto Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, Gilmar é considerado hoje o mais poderoso dos ministros. 


Gilmarlândia virou marca 

Diamantino é território político de Gilmar. O prefeito atual do município é Francisco Ferreira Mendes Júnior, o Chico Mendes (União), irmão caçula do ministro, já no terceiro mandato. Antes dele, o pai, Francisco Ferreira Mendes, também comandou a cidade por duas gestões. O avô, também chamado Francisco, ocupou o mesmo cargo. 

Além do domínio político na prefeitura, a família mantém extensas propriedades rurais na região, com atuação no agronegócio local. Em 2018, o Ministério Público de Mato Grosso ajuizou ações envolvendo Gilmar e os irmãos por alegações de uso indiscriminado de defensivos agrícolas, fertilizantes e plantio de organismos geneticamente modificados em fazendas situadas na Área de Proteção Ambiental (APA) Nascentes do Rio Paraguai. Na época, Gilmar acionou o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) contra a promotora de Justiça Ana Luiza Peterlini, responsável pelas ações ambientais relacionadas a propriedades na região de Diamantino.

Em resumo, o CNMP é o órgão encarregado de fiscalizar a atuação administrativa e disciplinar de integrantes do Ministério Público em todo o país. Ao levar o caso a essa instância, o ministro deslocou o conflito da esfera exclusivamente judicial para o plano administrativo, o que ampliou a controvérsia em torno das investigações. Na ocasião, a promotora revelou ter recebido uma ligação telefônica do então vice-governador Carlos Fávaro, que questionou as investigações. “Ele perguntou o que estava acontecendo”, disse a promotora, em depoimento ao CNMP. “Questionou se não tinha como parar a fiscalização, que o pessoal estava muito alvoroçado.” O caso segue aberto.


O ministro levou o caso ao conselho do Ministério Público para questionar a promotora responsável pelas investigações de suas fazendas | Foto: Mateus Bonomi/Agif/Estadão Conteúdo 


A prática de batizar cidades com nomes de autoridades não é novidade no Brasil. Ela remonta ao Império. Petrópolis, fundada em 1843, homenageia dom Pedro II; Teresópolis leva o nome da imperatriz Teresa Cristina. A tradição de eternizar personagens públicos na cartografia nacional atravessou regimes e séculos. Ainda no período imperial, a princesa Isabel do Brasil inspirou o projeto de criação de “Isabelópolis”, idealizado por Francisco Peixoto de Lacerda.

Werneck, o Barão de Paty do Alferes. A cidade seria erguida na região que hoje corresponde à Reserva Biológica do Tinguá, em Nova Iguaçu (RJ), mas um surto de cólera interrompeu o empreendimento, restando apenas vestígios históricos da iniciativa. Na República, a prática continuou. Municípios como Getúlio Vargas (RS) e Presidente Kennedy (ES) homenageiam chefes de Estado brasileiros e estrangeiros. Durante o regime militar, distritos emancipados receberam nomes ligados aos generais presidentes, como Medicilândia (PA), referência direta a Emílio Garrastazu Médici. 

O fato é que, desde o Império, o Brasil cultiva o hábito de transformar autoridade em topônimo. Hoje, a legislação brasileira proíbe dar nome de pessoa viva a bens públicos federais. Por essa razão, oficialmente, o nome do futuro município mato-grossense deve ser Nova Aliança do Norte. Mas o apelido “Gilmarlândia” pegou antes da lei.

Só no Brasil… 


Erich Mafra e Edilson Salgueiro - Revista Oeste