domingo, 10 de maio de 2026

Lula em Washington e a teoria agrícola do narcotráfico, por Flávio Gordon

 Presidente acredita que avanço do crime organizado está ligado à falta de alternativas econômicas


A Lula fez a declaração durante evento da Feira Brasil na Mesa em Planaltina (DF) - Foto: Ricardo Stuckert/PR

Aliviado por ter conseguido escapar de ser pressionado por Trump diante das câmeras, o Descondenado-em-chefe julgou ter resolvido definitivamente o problema do narcotráfico mundial. Do lado de fora da Casa Branca, ele estava pimpão o bastante para partilhar com os repórteres o fruto de sua reflexão: “Como que você vai fazer um país deixar de produzir coca se você não oferece uma alternativa de algum produto para que alguém possa plantar e ganhar dinheiro?” E acrescentou, para que não restasse dúvida sobre a profundidade da análise: “Temos que incentivar o plantio de outras coisas e sermos os compradores para que as pessoas possam sobreviver.” 

Em benefício do mandatário brasileiro, há que se reconhecer que, apesar de estúpida, a ideia não é propriamente nova. Ela tem aproximadamente 50 anos, é denominada “desenvolvimento alternativo” em documentos da ONU, e chegou a ser mais ou menos testada na Bolívia, no Peru, na Colômbia e no Afeganistão com resultados que vão do modesto ao catastrófico. Nos meios frequentados pelos salvadores profissionais da humanidade, em fóruns especializados e encontros transnacionais, a ideia é debatida com alguma atenção desde, ao menos, a Convenção de Viena de 1988. Mas é claro que o marido da Janja a apresentou como um insight luminosos todo seu, com aquela desenvoltura particular de quem confunde a própria ignorância com ineditismo. 

O problema, todavia, não é apenas a falta de originalidade. É a arquitetura moral do argumento. Pois, traduzido do eufemismo para o português claro, o que se está dizendo com isso é o seguinte: o narcotraficante é, no fundo, uma vítima das circunstâncias econômicas, e a solução para o narcotráfico é oferecer-lhe uma alternativa de renda. O PCC, o Comando Vermelho e o Cartel de Sinaloa são, nessa cosmologia, cooperativas agrícolas que tomaram o caminho errado por falta de crédito rural. Basta um bom programa de substituição de cultivos — e, quem sabe, um fundo internacional gerido por um “grupo de trabalho” proposto pelo próprio Lula — para que os sicários depositem as armas e passem a cultivar quinoa. Trata-se da velha e surrada teoria esquerdista da causa social da criminalidade. 


O que diz Lula 

O argumento tem uma elegância peculiar: é simultaneamente falso, irresponsável e conveniente. Falso, porque o narcotráfico não é um problema de oferta agrícola, mas de demanda química e de poder criminoso armado — poder que, no Brasil, o governo lulopetista recusa-se a classificar como terrorismo. 

Irresponsável, porque legitima, com a autoridade de um chefe de Estado, a narrativa vitimista que os próprios cartéis usam para recrutar. E conveniente, 

0 porque desloca o foco da repressão – que exigiria do governo brasileiro decisões politicamente custosas — para o desenvolvimento, que exige apenas retórica e, eventualmente, dinheiro alheio. 

O Descondenado-em-chefe saiu de Washington dizendo ter dado “um passo importante”. O governo norte-americano, por seu lado, não comentou a teoria agrícola do narcotráfico. Quem sabe não está planejando um vultoso investimento em sementes de tomate, mamão e grão-de-bico nas selvas de Colômbia, Bolívia e Peru?

Flávio Gordon - Revista Oester

Conta dos cartões de Daniel Vorcaro usados por cúmplices chega a R$104 milhões

 

Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. (Foto: Divulgação/Banco Master).


A investigação do Banco Master terá o desafio de identificar parceiros ou “amigos de vida” que usavam cartões de crédito ilimitados em nome de Daniel Vorcaro e expedidos pelo seu próprio banco. A suspeita é que entre 2019 e 2025 foram “distribuídos” mais de R$104 milhões a agentes públicos por meio de 80 a 90 cartões de crédito de Vorcaro que recebiam para gastar à vontade. Rastrear compras de investigados, como carrões. pode ser um começo, observa o deputado Evair de Melo (PP-ES).

Cartões ‘na faixa’

Eles usavam cartões e senhas do banqueiro e podiam gastar como quisessem, como no aluguel de jatinhos, jantares e viagens de luxo.

CPMI quis investigar

Os gastos de Vorcaro em cartões chamaram a atenção da CPMI do INSS, lembra Evair, mas a maioria governista barrou a investigação.

Mensagens trocadas

Suspeitos negam que Vorcaro tenha pagado seus cartões. Verdade: ele pagou boletos em seu nome, mas os gastos foram feitos pelos “amigos”.

Vazou, entregou

Conversa vazada de Vorcaro com Léo Serrano, seu operador financeiro, trata do pagamento de cartões com Ciro Nogueira (PP-PI), por exemplo.

Diário do Poder

O espelho do tempo: do cosmos de Aristóteles à alma de Agostinho, por Marcos H. Giansante

 

“O tempo não é um rio que corre fora de nós, mas o espelho em que a alma contempla o seu próprio movimento.” Santo Agostinho, Confissões, LivroXI (paráfrase)

Santo Agostinho nasceu em 354 d.C., em Tagaste, na Numídia romana, atual Argélia. Mais tarde tornar-se-ia bispo de Hipona Regius, cidade que lhe daria o nome pelo qual atravessaria os séculos. Durante o período romano, Hipona era uma importante colônia e porto comercial, conhecida pela exportação de azeite, cereais e mármore. Tornou-se sede episcopal no século IV, e foi ali que Agostinho exerceu seu episcopado por mais de trinta anos, até morrer durante o cerco dos vândalos.

Quando Agostinho nasceu, o Império Romano declinava e o cristianismo se afirmava. O mundo antigo começava a despedir-se de si mesmo. O espírito grego, orientado pela ordem e pela razão, encontrava-se com o espírito cristão, voltado para a interioridade e para a graça. É nessa encruzilhada que o tempo muda de morada. Em Agostinho, o tempo grego encontra a eternidade divina, e Aurelius Augustinus Hipponensis torna-se a ponte viva entre o pensamento clássico e a nova visão cristã do mundo.

Aristóteles observava o tempo de fora, como quem contempla o fluxo das coisas e mede o ritmo dos astros. Em Agostinho, o tempo desce do céu ao coração. Deixa de ser apenas a medida do movimento e passa a ser o movimento da alma. O homem já não contempla o tempo como objeto, ele o experimenta como condição. O instante, que em Aristóteles era o limite entre o antes e o depois, torna-se agora o ponto onde a eternidade toca a consciência.

O olhar filosófico desloca-se do cosmos para o interior do homem, do universo ordenado ao mistério da memória, da razão à fé. O tempo deixa de medir o mundo e passa a medir o próprio homem. Em Agostinho, o tempo já não é algo que o homem observa. É algo que o homem é.

Nas Confissões, Agostinho interroga o próprio ser do tempo. “Se ninguém me pergunta, eu sei; se quero explicá-lo, já não sei.” A frase, que parece hesitação, revela uma descoberta decisiva. O tempo não se explica porque não está fora de nós. Ele é vivido antes de ser compreendido.

Essa interiorização do tempo constitui a grande revolução agostiniana. Aquilo que para os antigos era ordem cósmica torna-se experiência da consciência. O tempo não é mais o ritmo dos astros, mas a distensão da alma.

Por isso Agostinho pode afirmar: “Fizeste-nos para Ti, Senhor, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti.” Aqui o tempo não aparece como cronologia, mas como ferida. Ao tomar consciência do tempo, a alma reconhece a própria incompletude. Essa falta não é defeito, é sinal de origem. O tempo é o eco da eternidade ausente.

Em Aristóteles, o tempo aponta para a perfeição do ato. Em Agostinho, aponta para a perfeição perdida. Um vê no movimento a realização da forma; o outro, a lembrança da forma que já não possuímos. O tempo torna-se, assim, espelho da queda e instrumento da redenção. Ele é o intervalo entre a ausência e o reencontro.

Agostinho compreende o tempo como a tensão entre duas nostalgias, a do passado, que dói, e a do futuro, que chama. O homem, suspenso entre ambas, só existe plenamente quando reconhece sua condição de peregrino. O tempo é o caminho desse retorno, a travessia que conduz da dispersão à unidade. O instante presente, pequeno e fugaz, é o ponto onde o finito toca o infinito, onde a criatura fala com o Criador.

Essa é a verdadeira dimensão espiritual do tempo, não aquela que se mede, mas a que se vive. O tempo é o espaço da conversão, o lugar onde o homem reencontra a eternidade que perdeu. A eternidade, por sua vez, não é o prolongamento indefinido do tempo, mas o seu cumprimento. O tempo é a forma que a eternidade assume para tornar-se habitável ao amor humano.

Assim, Aristóteles e Agostinho se encontram no mesmo mistério, ainda que por vias distintas. O primeiro contempla a ordem do cosmos; o segundo, a inquietude da alma. Um vê o tempo como necessidade inscrita na natureza; o outro, como liberdade inscrita na consciência. Um o mede; o outro o sente. Ambos reconhecem que o tempo é o modo pelo qual o ser se manifesta, seja na harmonia dos astros, seja no silêncio interior.

Entre o cosmos e a alma, o tempo é ponte e travessia. É o campo onde a razão busca compreender e onde o amor busca permanecer. Quando o homem, após medir o movimento das coisas e sondar o movimento do próprio espírito, reconhece o tempo como dom, começa a emergir a síntese que Tomás de Aquino levará à maturidade, o tempo criado pela razão divina e vivido pela liberdade humana.

O tempo não é inimigo do eterno. É o seu reflexo em movimento. Compreender o tempo talvez seja compreender o próprio homem, essa criatura que vive entre o que passa e o que permanece, entre a memória e a esperança, entre o cosmos que o envolve e a alma que o sustenta.



Marcos H. Giansante - Mises Brasil

Conta dos cartões de Vorcaro usados por cúmplices chega a R$104 milhões

 

Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. (Foto: Divulgação/Banco Master).


A investigação do Banco Master terá o desafio de identificar parceiros ou “amigos de vida” que usavam cartões de crédito ilimitados em nome de Daniel Vorcaro e expedidos pelo seu próprio banco. A suspeita é que entre 2019 e 2025 foram “distribuídos” mais de R$104 milhões a agentes públicos por meio de 80 a 90 cartões de crédito de Vorcaro que recebiam para gastar à vontade. Rastrear compras de investigados, como carrões. pode ser um começo, observa o deputado Evair de Melo (PP-ES).

Cartões ‘na faixa’

Eles usavam cartões e senhas do banqueiro e podiam gastar como quisessem, como no aluguel de jatinhos, jantares e viagens de luxo.

CPMI quis investigar

Os gastos de Vorcaro em cartões chamaram a atenção da CPMI do INSS, lembra Evair, mas a maioria governista barrou a investigação.

Mensagens trocadas

Suspeitos negam que Vorcaro tenha pagado seus cartões. Verdade: ele pagou boletos em seu nome, mas os gastos foram feitos pelos “amigos”.

Vazou, entregou

Conversa vazada de Vorcaro com Léo Serrano, seu operador financeiro, trata do pagamento de cartões com Ciro Nogueira (PP-PI), por exemplo.

Diário do Poder

Karl Marx e seu caminho escatológico para o comunismo, por Murray N. Rothbard

 

Karl Marx, como o mundo sabe, nasceu em 1818 em Tréveris, uma venerável cidade na região da Renânia, quando o local ainda pertencia à Prússia.  Marx era filho de um ilustre jurista e neto de um rabino.  Efetivamente, o pai e a mãe de Marx eram descendentes de rabinos. O pai de Marx, Heinrich, era um racionalista liberal que não teve problema algum com sua conversão forçada ao luteranismo, a religião oficial, em 1816.  O que é pouco conhecido é que, ainda criança, Karl Marx, já batizado, era um dedicado cristão. 

Em seus ensaios escritos 1835, época de sua formatura no Gymnasium, o jovem Marx já apresentava indícios de como seria seu desenvolvimento futuro.  Seu ensaio acerca do tópico “Sobre a União dos Fieis a Cristo” apresentava um conteúdo evangélico ortodoxo, mas também continha alusões ao fundamental tema da “alienação” que mais tarde ele encontraria em Hegel.  A discussão de Marx sobre a “necessidade da união” a Cristo enfatizava que esta união colocaria um fim à tragédia da suposta rejeição de Deus aos homens não predestinados, como pregam os protestantes. Em outro ensaio, “Reflexões de um Jovem Sobre a Escolha de uma Profissão”, Marx expressava preocupação quanto ao seu próprio “demônio da ambição”, a grande tentação que ele sentia em “atacar Deus com veemência e amaldiçoar a humanidade”.

Tendo primeiro frequentado a Universidade de Bonn e depois a prestigiosa nova Universidade de Berlim para estudar Direito, Marx rapidamente se converteu ao ateísmo militante, mudou de curso para filosofia e se juntou a um Doktorklub formado por jovens hegelianos (de esquerda), dos quais ele rapidamente se tornou líder e secretário geral.

A guinada ao ateísmo rapidamente deu ao “demônio da ambição” de Marx o total controle sobre sua mente. Particularmente reveladores sobre o caráter tanto do Marx jovem quanto do Marx adulto são os vários poemas que ele escreveu, a maioria deles perdidos até serem recuperados em anos recentes.[1]  Quando os historiadores discutem estes poemas, eles tendem a desprezá-los como sendo rudimentares anseios românticos; mas o problema é que estes poemas são coerentes demais com as doutrinas sociais
e revolucionárias de Marx para serem negligentemente descartados.  Seguramente temos aqui uma situação em que um Marx unificado (o jovem e o velho) é revelado de maneira vívida e incisiva.  Assim, em seu poema “Sentimentos“, dedicado à sua namorada de infância e futura esposa Jenny von Westphalen, Marx expressava sua megalomania e sua enorme sede de destruição:

O paraíso eu abrangeria,

Traria o mundo para mim;

Vivendo, odiando, planejaria

Que minha estrela brilhasse forte até o fim.

E

… Mundos para sempre eu destruiria,

Já que não posso criar nenhum outro mundo;

Já que meu clamor ninguém perceberia.

Esta é uma clássica expressão do suposto motivo do ódio e da rebeldia de Satanás contra Deus.

Em outro poema, Marx escreve sobre seu triunfo após ele ter destruído o mundo criado por Deus:

Com desdém lançarei meu desafio

Bem na face do mundo,

E verei o colapso desse pigmeu gigante

Cuja queda não extinguirá meu ardor.

Então vagarei semelhante a um deus,

Vitorioso, pelas ruínas do mundo

E, dando às minhas palavras uma força dinâmica,

Sentir-me-ei igual ao Criador

E em seu poema “Invocação de Alguém em Desespero“, Marx escreve:

Estabelecerei
o meu trono muito acima de todos

Frio e monstruoso será o seu topo

O pavor supersticioso será a sua base

E a negra agonia será o seu condutor.[2]

O tema satânico é explicitamente apresentado em seu poema “O Violinista“, dedicado a seu pai:

Os vapores infernais elevam-se

E preenchem o meu cérebro

Até eu enlouquecer e meu coração

Se transformar dramaticamente.

Vê esta espada?

O príncipe das trevas

Vendeu-a para mim.

E

Com Satanás fiz meu acordo,

Ele escreve as partituras e marca o compasso;

Eu toco e canto a marcha da morte

Com rapidez e desembaraço.

Particularmente instrutivo é o inacabado e longo drama poético escrito por Marx em sua juventude, chamado Eulanem, uma Tragédia.  No decorrer deste drama, o herói, Eulanem, realiza um notável monólogo, verbalizando prolongadas invectivas e exsudando ódio pelo mundo e pela humanidade, um ódio à criação e uma apologia à total destruição do mundo.

Eis como o protagonista Eulanem verbaliza sua fúria:

Arruinado, arruinado. Meu tempo esgotou-se.

O relógio parou, a casa do pigmeu desmoronou.

Breve apertarei a eternidade ao peito,

E breve bradarei gigantescas maldições sobre a humanidade.

Ah! Eternidade! Ela é a nossa eterna mágoa ?

Nós próprios automatizados, cegamente mecânicos,

Feitos para sermos o calendário louco do Tempo e do Espaço,

Não tendo propósito, a não ser o de acontecer, o de sermos
arruinados,

Para que haja algo para ser arruinado ?

Se existe algo que nos devora,

Entregar-me-ei para ser engolido por ele, embora deixando o
mundo em ruínas —

Este mundo que se avoluma entre mim e o Abismo,

Eu o reduzirei a pedaços com as minhas contínuas maldições.

Lançarei meus braços ao redor da sua rude realidade:

Abraçando-me, o mundo morrerá silenciosamente.

E então mergulhará no nada absoluto,

Extinto, sem qualquer vida — isso sim seria realmente
viver!

E

… o mundo plúmbeo nos aprisiona,

E nós estamos acorrentados, despedaçados, vazios,
apavorados,

Eternamente acorrentados a este bloco de mármore do Ser …

e nós —

Nós somos os macacos de um Deus frio.[3]

Tudo isso revela aquele espírito que frequentemente parece animar o ateísmo militante.  Ao contrário do ateísmo não-militante, o qual expressa uma simples descrença na existência de Deus, o ateísmo militante parece crer implicitamente na existência de Deus, tendo como objetivo supremo odiá-Lo e iniciar uma guerra para destruí-Lo.  Tal espírito foi claramente revelado na resposta do ateu militante Bakunin ao famoso comentário teísta do deísta Voltaire: “Se Deus não existisse, seria necessário criá-Lo.”  Ao qual o lunático Bakunin respondeu: “Se Deus existisse, seria necessário destruí-Lo”. Foi este ódio a Deus como sendo criador maior do que ele próprio o que aparentemente inspirou Karl Marx.

Outra característica desenvolvida por Marx logo cedo em sua juventude e por ele jamais abandonada — e que apresentava indícios do que ele viria a se tornar — era sua desavergonhada parasitagem sobre amigos e parentes.  Já em 1837, Heinrich Marx, repreendendo o estilo desmesuradamente gastador do jovem Karl, escreveu-lhe dizendo que “a partir de um certo momento … você espertamente descobriu ser conveniente manter um silêncio aristocrático; estou me referindo à torpe questão do dinheiro.”  Com efeito, Marx pegava dinheiro de qualquer fonte disponível: seu pai, sua mãe e, durante toda a sua vida adulta, de seu resignado amigo e abjeto discípulo Friedrich Engels.  Todos eles aditivavam a capacidade de Marx de gastar dinheiro como água.[4]

Um insaciável gastador do dinheiro alheio, Marx seguidamente reclamava de sua escassez de meios financeiros.  Ao mesmo tempo em que parasitava Engels, Marx continuamente se queixava com seus amigos de que a generosidade de Engels nunca era o suficiente.  Assim, em 1868, Marx reclamou que não
conseguiria sobreviver com uma renda anual menor do que £400-£500, uma soma fenomenal quando se considera que os 10% mais ricos da população da Inglaterra naquele período ganhavam uma renda média de apenas £72 por ano.  Com efeito, Marx era tão esbanjador que, em 1864, ele rapidamente exauriu uma herança de £824 legada por um discípulo alemão, bem como uma contribuição de £350 dada por Engels naquele mesmo ano.

Ou seja, Marx conseguiu dilapidar a magnânima quantia de quase £1.200 em dois anos, e, dois anos depois, aceitou outra doação de £210 de Engels para pagar suas recém-acumuladas dívidas.  Finalmente, em 1868, Engels vendeu todas as suas ações da fábrica de algodão da família e combinou com Marx uma “pensão” anual de £350 a partir dali.  Ainda assim, as seguidas queixas de Marx sobre sua “falta de dinheiro” não diminuíram.[5]

Assim como ocorreu com vários outros parasitas e pedintes ao longo da história, Karl Marx afetava ódio e desprezo pelo exato recurso material que ele estava tão ávido para mendigar e usar tão impulsivamente. 
A diferença é que Marx criou toda uma filosofia acerca de sua atitude depravada em relação ao dinheiro.  O homem, bradava Marx, estava dominado pelo “fetichismo” do dinheiro.  O problema era a existência dessa coisa maléfica, e não as atitudes voluntariamente adotadas por algumas pessoas em relação a ela.  O dinheiro era vilipendiando por Marx como sendo “a proxeneta entre … a vida humana e os meios de sustentação”, “a prostituta universal”.  A utopia do comunismo era uma sociedade em que este flagelo, o dinheiro, seria abolido.

Karl Marx, o autoproclamado inimigo da exploração do homem por outro homem, explorou seu devoto amigo Friedrich Engels não apenas financeiramente, como também psicologicamente.  Apenas três meses
depois da esposa de Marx, Jenny von Westphalen, ter dado à luz sua filha Franziska em março de 1851, sua empregada Helene (“Lenchen”) Demuth, que morava com eles e a qual Marx havia “herdado” da família aristocrática de Jenny, também deu à luz o filho ilegítimo de Marx, Henry Frederick. Desesperadamente preocupado em manter o alto nível das aparências burguesas e em salvar seu casamento, Marx jamais reconheceu seu filho.  Em vez disso, ele persuadiu Engels, um notório mulherengo, a assumir a paternidade do menino. 

Tanto Marx quanto Engels tratavam o infeliz Henry com total desprezo, sendo que o ressentimento de Engels por estar sendo utilizado desta maneira torpe presumivelmente fornecia a ele uma boa desculpa para o mau trato.  Marx frequentemente colocava o menino Henry para fora de casa, e jamais permitiu que ele visitasse sua mãe.  Como declarou Fritz Raddatz, biógrafo de Marx, “se Henry Frederick Demuth era filho da Karl Marx, o exortador da nova humanidade viveu uma mentira que durou quase uma vida, além de ter desprezado, humilhado e repudiado seu único filho.”[6]

Engels, é claro, ficou com a tarefa de arcar com as despesas da educação de Henry.  Mas o menino, no entanto, foi treinado para assumir seu lugar na classe operária, longe do estilo de vida de seu pai verdadeiro, o quase-aristocrático líder do oprimido proletariado mundial.[7]

O gosto pessoal de Marx pela aristocracia durou toda a sua vida.  Quando jovem, ele se afeiçoou ao seu vizinho, o Barão Ludwig von Westphalen, pai de Jenny, e dedicou sua tese de doutorado ao barão.  Naturalmente, o esnobe proletário comunista sempre insistiu que Jenny estampasse “nascida von Westphalen” em seu cartão de visita.

Quanto a Engels, este se recusou a se casar com sua amante, Mary, porque ela era de origens “humildes”.  Após a morte de Mary, sua irmã Lizzie se tornou a amante de Engels.  Engels generosamente se casou com Lizzie no leito de morte dela “para conceder a ela seu ‘último prazer’.”

 

Este artigo foi extraído de trechos do livro Economic Thought Before Adam Smith — An Austrian Perspective on the History of Economic Thought.

 


[1] Os poemas foram majoritariamente escritos em 1836 e 1837, em seus primeiros meses em Berlim.  Dois destes poemas constituíam a primeira obra publicada de Marx, o Berlin Atheneum, de 1841.
Quase todos os outros foram perdidos.

[2] Richard Wurmbrand, Era Karl Marx um Satanista? (Westchester, 111: Crossway Books, 1986), pp. 12-13.

[3] Para a tradução completa do texto de Eulanem, ver Robert Payne, The Unknown Karl Marx (New York: New York University Press, 1971), pp. 81-3.  Também excelente na análise tanto dos poemas quanto do fato de Marx ser fundamentalmente um messiânico é Bruce Mazlish, The Meaning of Karl Marx (New York: Oxford University Press, 1984).

O pastor Wurmbrand (ver nota 2) chama atenção para o fato de que Eulanem é um anagrama de Emanuel, o nome bíblico de Jesus, e que tais inversões de nomes santos são práticas comuns em cultos satânicos.  No entanto, não há nenhuma evidência de que Marx tenha sido membro de cultos desse tipo. 
Wurmbrand, op. cit., note 45, pp. 13-14 e passim.

[4] Friedrich Engels (1820–95) era filho de um proeminente industrial fabricante de algodão, que também era um convicto pietista, da área de Barmen, na Renânia.  Barmen era um dos principais centros do pietismo na Alemanha, e Engels teve uma criação estritamente pietista.  Ateu e hegeliano já em 1839, Engels foi parar na Universidade de Berlim e na Juventude Hegeliana em 1841, em seguida passando a frequentar os mesmos círculos de Marx, de quem ele rapidamente se tornou amigo em 1844.

[5] Ver os esclarecedores cálculos em Gary North, Marx’s Religion of Revolution: The Doctrine of Creative Destruction (Nutley, NJ: Craig Press, 1968), pp. 26-8. Ver também ibid. (2nd ed., Tyler, Texas: Institute for Christian Economics, 1989), pp. 232?56.

[6] Fritz J. Raddatz, Karl Marx: A Political Biography (Boston: Little Brown & Co., 1978), p. 134.

[7] O zelo de Marx em esconder sua imprudência foi comparável apenas ao zelo dos historiadores do establishment marxista em suprimir a verdade sobre Henry Frederick Demuth até bem recentemente.
Embora a verdade já fosse conhecida por marxistas proeminentes, como Bernstein e Bebel, a notícia sobre a paternidade ilegítima de Marx só foi divulgada em 1962 no livro Marx, de Werner Blumenberg.  Ver em particular W.O. Henderson, The Life of Friedrich Engels (London:Frank Cass, 1976), II, pp. 833-4.
Alguns marxistas leais ainda se recusam a aceitar os fatos inquietantes.  Veja o amoroso e dedicado trabalho do falecido líder da ala “draperita” do movimento trotskista, Hal Draper Marx-Engels
Cyclopedia
(3 vols, New York: Schocken Books, 1985).


Murray N. Rothbard  - Mises Brasil