segunda-feira, 16 de março de 2026

Brasileira Izabela Patriota é a 1ª brasileira a integrar lista de líderes globais dos EUA

 Advogada potiguar recebe reconhecimento da organização norte-americana America’s Future





A organização norte-americana America’s Future selecionou a potiguar Izabela Patriota, de 34 anos, para integrar a 1995 Society. O reconhecimento contempla jovens líderes com menos de 40 anos que se destacam na promoção da liberdade, do empreendedorismo e da sociedade civil. Patriota é a primeira brasileira a receber a honraria.

A seleção reúne nomes da nova geração de lideranças que impulsionam projetos de livre mercado e liberdade individual. Os membros indicam os homenageados, e a organização escolhe os nomes com base na atuação pública e na capacidade de liderança. O grupo foca no fortalecimento de iniciativas de desenvolvimento institucional. 

Izabela Patriota é natural de Natal (RN) e possui doutorado em Direito pela Universidade de São Paulo (USP). Ela também é mestre pela Universidade de Brasília (UnB) e graduada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.


Izabela Patriota lidera organização libertária 

Atualmente, Patriota ocupa cargo na liderança global da Ladies of Liberty Alliance (Lola). No site oficial, a organização sem fins lucrativos se descreve como “uma rede de mulheres líderes independentes e liberais e libertárias que, por meio de suas carreiras e/ou empreendimentos pessoais, se dedicam a difundir as ideias de liberdade individual e livre mercado.” 

Patriota liderou a captação de US$ 1 milhão para a instituição em quatro anos. Além disso, ela defendeu a ativista venezuelana Maria Oropeza na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH). 

A cerimônia de premiação ocorrerá em maio de 2026, no Watergate Hotel, em Washington, DC, nos Estados Unidos. O evento Annual Gala & Awards Showcase reunirá empresários, acadêmicos e representantes da sociedade civil. 



domingo, 15 de março de 2026

A importância do livro revolucionário do professor Hülsmann sobre abundância, generosidade e o estado - Por Jeffery L. Degner

 

Nota da edição:

O artigo a seguir é uma resenha publicada originalmente na revista The Misesian do Mises Institute e republicada no site. No texto, Jeffery Degner comenta sobre a relevância do novo livro do professor Guido Hülsmann, Abundance Generosity, and the State [Abundância, generosidade e o estado, em tradução livre].


O livro Abundance, Generosity, and the State, de Guido Hülsmann, oferece aos leitores uma explicação sobre a natureza e as causas dos bens dados gratuitamente. Hülsmann demonstra como o livre mercado é permeado tanto por uma retribuição intencional quanto não intencional, e como as intervenções repressivas e permissivas do estado moderno conduzem à sua destruição.

Esta obra é urgentemente necessária e representa uma conquista notável de um dos principais expoentes contemporâneos da Escola Austríaca. Trata-se do primeiro tratado bem-sucedido e sistemático sobre essa categoria pouco valorizada da ação humana. Portanto, não é exagero dizer que ela se encontra ao lado dos grandes avanços da ciência econômica, e posso afirmar, sem hesitação, que estará ao lado de obras como Socialismo: Uma Análise Econômica e Sociológica, de Ludwig von Mises, e Governo e mercado: a economia da intervenção estatal, de Murray N. Rothbard. O conhecimento e a compreensão que ela proporciona, tanto a economistas quanto a não economistas, são, de fato, um presente.

Hülsmann abre novos caminhos na economia política dos bens gratuitos, um tema que se encaixa diretamente no campo da Praxeologia — a teoria de toda ação humana. Essa subcategoria da praxeologia tem sido amplamente negligenciada, inclusive por aqueles que pertencem à tradição austríaca. Enquanto isso, a verdadeira natureza, as causas e as consequências dos presentes e da generosidade têm sido gravemente mal interpretadas por cientistas sociais fora do campo da economia. Além disso, as melhores e mais recentes tentativas de tratar do tema fracassaram em avaliar adequadamente o impacto do intervencionismo sobre a economia dos presentes. Hülsmann aponta os trabalhos de Kenneth Boulding, Catherine Gbedolo e John Mueller como contribuições recentes e úteis. Mas, apesar dos melhores esforços desses estudiosos, Hülsmann reconhece que “generosidade, presentes e abundância não merecida ainda permanecem à margem da economia”. Felizmente, Abundance, Generosity, and the State lança uma nova e penetrante luz sobre o assunto e apresenta, de forma convincente, uma visão misesiana-rothbardiana da natureza da generosidade e das depredações do estado sobre ela em uma obra robusta da economia política.

Como é próprio de um grande mestre, Guido Hülsmann fornece ao leitor definições claras e concisas de seus termos. Mais importante ainda, ele esclarece a natureza essencial dos presentes e das doações genuínas, que são definidos por quatro condições fundamentais; a saber: “o doador pretende beneficiar alguma causa ou pessoa que não seja ele próprio, não busca qualquer compensação, consente livremente com a transferência e sua doação é proveniente de sua poupança pessoal”. Violações de cada uma dessas condições produzem um tipo diferente de não-presente. Doadores dão concessões, e não presentes, quando buscam seu próprio benefício privado, e suas transferências possuem preços ocultos quando esperam reciprocidade. Os doadores são explorados quando não consentem de fato com a doação, e estão meramente distribuindo bens saqueados quando não possuem legitimamente aquilo que estão transferindo.

Essas definições são aplicadas de maneira sistemática ao longo de todo o livro, proporcionando grande clareza ao leitor. Feitas essas distinções, os leitores desta resenha talvez já consigam perceber o que tem de errado no mundo atual — o intervencionismo — que é responsável por levar um grande número de indivíduos a deslocar suas ações da generosidade genuína para esses duvidosos “pseudo-presentes”. Este é o propósito explícito de uma obra de economia política: demonstrar como a ação humana se manifesta sob condições de proteção da propriedade privada, em contraste com as condições de vida quando esse princípio é violado pelo estado. Esta última situação é corretamente descrita por Hülsmann como um quadro sombrio de um mundo desprovido de presentes genuínos e marcado pela proliferação da verdadeira avareza e pela atomização da sociedade.

O que se segue é um resumo das principais conclusões de Hülsmann, juntamente com diversas tentativas de esclarecer sua importância para o avanço da ciência econômica, bem como algumas de suas implicações.

O autor identifica desde cedo sua motivação como uma tentativa de responder à encíclica Caritas in Veritate (2009), do Papa Bento XVI, que exortava pessoas de boa vontade a “demonstrar, no pensamento e no comportamento, (…) que nas relações comerciais o princípio da generosidade e a lógica do presente, como expressão de fraternidade, podem e devem encontrar seu lugar dentro da atividade econômica normal”. O que Guido Hülsmann demonstra é que, em uma economia verdadeiramente livre, toda troca de mercado é involuntariamente permeada por bens fornecidos de forma gratuita.

Além disso, a relação entre economias em crescimento e generosidade não é apenas uma correlação positiva comum entre riqueza e a prática da caridade. Em vez disso, explica ele, “bens gratuitos e mercados não são meramente complementares, mas simbióticos. Eles se alimentam mutuamente. Para compreender os mercados, é necessário entender por que e como certos bens econômicos são transferidos sem pagamento”.

Para aprofundar essa constatação, Hülsmann amplia as observações de Friedrich A. Hayek sobre a natureza da concorrência de mercado. Hülsmann nos lembra que a concorrência é melhor compreendida como “um processo de melhorias graduais (…) que aprimora os termos sob os quais os consumidores são atendidos”. O que emerge desse processo é uma gratuidade não intencional, ou espontânea. De fato, o processo competitivo em um mercado sem entraves é o mecanismo por meio do qual a sociedade recebe livremente bens de maior qualidade a preços mais baixos. O autor observa ainda que “o comportamento competitivo no sentido hayekiano implica benefícios adicionais para outros participantes do mercado. Esses benefícios são gratuitos porque, nos casos concebidos por Hayek, não há obrigação para que indivíduos ou empresas melhorem absolutamente nada, e seus consumidores não possuem qualquer direito de reivindicar tais benefícios. Além disso, esses benefícios são fornecidos espontaneamente”.

Essas observações iniciais oferecem ao leitor moderno munição intelectual contra o antigo postulado da equivalência. Essa ideia aristotélica ainda ocupa a mente de muitos que veem a troca econômica como um jogo de soma zero. Além disso, o leitor é lembrado do fato de que “assim que se envolvem em uma troca, eles não podem evitar a dupla generosidade que ela inexoravelmente gera”. Em outras palavras, a troca voluntária só ocorre porque ela produz uma melhoria na situação de ambos os participantes. A implicação é que, em um mercado sem entraves, existe uma relação que é reforçada mutuamente na qual a generosidade leva a um maior número de trocas, e um maior número de trocas incentivam uma maior generosidade.

Outra importante conclusão do tratado de Guido Hülsmann é sua distinção sistemática e clara entre presentes genuínos e “pseudo-presentes”. Ele observa corretamente que, mesmo em uma sociedade livre, haverá aqueles cujos corações têm intenções duplas e que oferecerão o que parecem ser presentes ou doações genuínas enquanto — como afirmam os provérbios bíblicos — estão fazendo cálculos no seu interior. Tais indivíduos contam secretamente com reciprocidade enquanto aparentam oferecer presentes genuínos que não exigem sequer a menor forma de retribuição. Hülsmann evita emitir um julgamento severo sobre a prática da reciprocidade — chegando inclusive a reconhecer sua importância em diversos casos. De fato, ele observa com propriedade que “a reciprocidade não contradiz a natureza sacrificial das doações. Muito pelo contrário, o tipo particular de reciprocidade encontrado na amizade e nas relações amorosas entre membros da família só pode ser compreendido tendo como pano de fundo o sacrifício genuíno”.

Em outro momento, Hülsmann ilustra os perigos de criar generalizações excessivas sobre o motivo da reciprocidade ao chamar a atenção para os exageros presentes nas obras do antropólogo francês Marcel Mauss e de seus seguidores, que em grande medida sustentaram que presentes genuínos são, na verdade, impossíveis. Os trabalhos de Mauss do início da década de 1920 sobre sociedades primitivas apresentaram a visão de que “estritamente falando, não existe algo como um presente puro. (…) No mundo real, argumentava [Mauss], todas as relações sociais são baseadas na reciprocidade, mas as respectivas obrigações não podem ser definitivas e nem conclusivas”. Não causa grande surpresa, portanto, que Mauss e seus discípulos buscassem “desenvolver uma teoria da ação humana em oposição deliberada à economia”, motivados por sua relutância em aceitar as “implicações políticas (pró-livre mercado) da economia”. Além disso, os maussianos “desconsideraram displicentemente os benefícios decorrentes do direito de propriedade e dos contratos”. Em sua resposta, Hülsmann faz a observação fundamental de que “é somente quando as obrigações de cada pessoa são claramente definidas, como tendem a ser em uma economia baseada no princípio da propriedade privada, que se torna possível fazer algo além e acima de suas obrigações. Somente então os presentes genuínos se tornam concebíveis. Somente então a verdadeira generosidade se torna uma realidade”.

Naturalmente, enquanto os seres humanos permanecerem — e sempre permanecerão — com razões menos do que divinas em para fazer todas as coisas, o problema dos mencionados “pseudo-presentes” também existirá. Isso não está sendo discutido. No entanto, a tarefa do economista político é demonstrar o contraste entre a economia das doações sob a propriedade privada e sob o intervencionismo.

Hülsmann faz exatamente isso ao desenvolver algumas de suas obras anteriores para explicar os impactos do intervencionismo repressivo e do intervencionismo permissivo sobre a generosidade. O primeiro inclui tributação, proibição e regulação, que “limitam o exercício, pelos cidadãos, de seus direitos de propriedade no dia a dia” e têm o efeito de arruinar a iniciativa individual. O segundo cria classes especiais de pessoas que são protegidas e, de fato, incentivadas a se envolver em “comportamentos irresponsáveis e abertamente frívolos”.

Como é um hábito característico de Hülsmann, ele aponta o intervencionismo monetário como uma forma devastadora de intervencionismo permissivo. Ao manipular moeda e crédito, o estado cria as condições para uma cultura inflacionária. Nela, armadilhas de racionalidade e espirais de intervenção devem ser esperadas, embora possam emergir lentamente. Hülsmann observa corretamente que, à medida que essa cultura começa a se estabelecer, “a disposição para fazer doações de tempo e de bens materiais é comprometida. Menos tempo é dedicado a atividades desinteressadas, seja leitura, música, esportes, educação dos filhos, culto religioso ou simplesmente passar tempo com outras pessoas”.

Os efeitos antissociais do intervencionismo monetário não podem ser ignorados, especialmente quando as pessoas se tornam cada vez mais relutantes em compartilhar seu tempo com seus filhos, com sua comunidade de fé ou com organizações cívicas — todas coisas que deveriam ser desfrutadas por si mesmas. E essas não são as únicas coisas que Hülsmann nos lembra que perdemos sob essa invenção estatista. De fato, a confiança, a coesão social e a própria amizade, presentes normais da vida, foram corroídos.

Em forte contraste com os efeitos perniciosos do intervencionismo monetário sobre a economia dos presentes está a realidade do mercado de dinheiro sem entraves. O professor Hülsmann lembra a seus leitores que, em um mercado desimpedido, o entesouramento de dinheiro possui efeitos gratuitos. De fato, quando isso ocorre, o nível de preços cai e observadores que esperavam pagar mais por bens encontram-se em um ambiente de preços em queda. É fácil perceber que esse estado de coisas beneficia aqueles que não entesouram seu dinheiro, e os benefícios não param por aí! Com esse poder de compra recém-ampliado, as pessoas tornam-se mais propensas a oferecer presentes genuínos. Temos demonstrações mais belas de riqueza compartilhada por causa dos efeitos gratuitos do entesouramento de dinheiro. Hülsmann também nos lembra que, em um mercado livre, livre de intervencionismo monetário, haverá uma tendência maior à poupança e ao investimento, levando a retornos menores sobre o capital investido, e os membros mais ricos da sociedade terão maior probabilidade de fazer sacrifícios verdadeiros. Essa forma de sacrifício é “uma abundância escolhida de bens econômicos que muito bem poderiam ser usados para gratificação pessoal. O doador deliberadamente limita o uso pessoal de seus recursos”. Apesar de todo o discurso de que o capitalismo e os mercados livres conduzem ao consumismo, à frivolidade, ao desperdício, à avareza e a uma ganância insaciável, Hülsmann nos fornece um argumento lúcido e coerente sobre por que exatamente o oposto é verdadeiro. De fato, é o mercado sem entraves — fortalecido por pessoas virtuosas que rejeitam a promessa de poder que acompanha o intervencionismo — que permite que as pessoas vivam livres e de forma generosa.

Infelizmente, as formas permissivas de intervencionismo não são as únicas que se escondem nas sombras do estatismo. As formas repressivas de intervencionismo não são menos destrutivas para a generosidade e para a economia dos presentes. Hülsmann ilustra de maneira poderosa como a repressão da tributação — apenas uma forma de intervenção repressiva — cria conflitos de interesse entre “pagadores e recebedores líquidos de impostos; o governo e os cidadãos; empregadores e empregados; homens e mulheres; negros e brancos; aposentados idosos e jovens profissionais”. Essa observação destaca a importância de reconhecer que é a própria autoridade tributária que deve ser abolida para pôr fim ao que verdadeiramente se tornou uma guerra de todos contra todos. Essa guerra não é resultado do estado natural e livre dos homens, mas sim uma imposição que destrói a amizade, o companheirismo e os laços de parentesco. Quando os efeitos plenos da tributação se estabelecem, observa o autor, indivíduos atomizados e desintegrados precisam “organizar-se para obter poder suficiente para saquear outros ou para defender-se de outros saqueadores (…) a amizade característica do intervencionismo repressivo é a gangue de ladrões”. A descida inexorável de muitas cidades ocidentais em um caos tribal politicamente gerado oferece um vislumbre inquietante do intervencionismo repressivo em ação.

O autor faz ainda outra contribuição para a economia da generosidade ao recorrer às obras de Hans-Hermann Hoppe e Gordon Tullock. Em diversos momentos, Guido Hülsmann também nos lembra que o intervencionismo — especialmente sob sistemas democráticos — contribui para a criação de toda uma classe política que é sustentada pelos “preços ocultos” impostos ao público. Alguns dos exemplos mais claros dessa realidade podem ser observados no aparato do estado de bem-estar social e da guerra permanente, que fornece o pseudo-presente dos subsídios em troca de lealdade política. Naturalmente, o estado moderno continua a utilizar sua máquina de propaganda para explorar o público, incentivando-o a abrir mão de sua riqueza privada como forma de pagar sua “parte justa” ou de demonstrar verdadeiro patriotismo. Enquanto isso, a classe política enriquece a si mesma e distribui o que foi saqueado entre os poucos favorecidos. De fato, essas atividades são claramente prejudiciais ao público e, como tais, são corretamente consideradas um mal gratuito. Hülsmann, em seu tom de escrita notavelmente moderado, nunca afirma que danos excessivos ou irracionais sejam impossíveis no livre mercado. No entanto, ele lembra ao leitor que “o mal gratuito é, via de regra, intencional e só pode ser um efeito colateral regular e permanente da ação humana em circunstâncias excepcionais (sob uma ordem jurídica e política corruptas)”. O mal gratuito ocorre com maior frequência sob o intervencionismo permissivo, e Hülsmann nos lembra que isso “não é um acidente, mas a tendência natural dos sistemas democráticos modernos. Pela própria lógica da política eleitoral moderna, o estado de bem-estar social não tende a ajudar os pobres. É provável que os empobreça ainda mais”.

As conclusões de Abundance, Generosity, and the State, derrubaram completamente a noção de externalidades positivas como uma falha de mercado e descartaram integralmente a própria teoria das externalidades. Aquilo que economistas do mainstream têm chamado de “efeitos de transbordamento” (spillover effects), de “externalidades positivas” e de “efeitos de rede”, e considerado como supostas falhas de mercado, na verdade não são falhas de modo algum. De fato, o autor demonstra claramente — como já mencionado — que os bens gratuitos possuem uma relação simbiótica com todas as trocas de mercado. Além disso, males gratuitos são minimizados e males gratuitos mais graves são eliminados quando as intervenções permissivas e repressivas são abolidas. Deve ser perfeitamente evidente para observadores atentos do estado intervencionista que a teoria das externalidades é uma das mais importantes falácias que o estado utiliza para convencer o público a aceitar o seu poder. Ao derrubar essa falsidade e defender a bondade que emerge da troca genuinamente livre, Hülsmann talvez tenha tornado mais possível um futuro mais generoso e benevolente.

Eu seria negligente se deixasse de mencionar que a excelência deste tratado é superada pela excelência do próprio homem. Guido Hülsmann tem incorporado uma generosidade intencional para com seus estudantes e para com todos aqueles que servem, estudam e falam com o objetivo de que a liberdade, a beleza, a virtude e a verdade prevaleçam em nosso tempo. É verdade que a ciência econômica foi avançada por meio desta obra. De fato, algumas das doutrinas econômicas mais nocivas e duradouras que sustentam o estado intervencionista — o postulado da equivalência, a falácia do jogo de soma zero e a teoria das externalidades — foram reduzidas à sua verdadeira dimensão pela poderosa escrita de Hülsmann. Além disso, a importância deste tratado é facilmente reconhecível: ela reside principalmente em sua demonstração clara de que o estado intervencionista está na raiz da cultura cada vez mais repugnante, autodestrutiva e mesquinha da sociedade ocidental. O autor nos concedeu o presente de um novo conhecimento econômico, e aqueles que têm a sorte de conhecê-lo possuem um presente ainda maior: conhecer e experimentar sua bondade e amizade gratuitas. Bravo, professor!


Mises Brasil

Protetor oficial de criminosos, STF autoriza mais um suspeito a ignorar convocação para depor na CPMI do INSS

 

Deputado Carlos Veras (PT-PE) e o irmão Aristides, presidente da Contag: R$3,6 bilhões tirados dos aposentados - Foto: reprodução


Mais um suspeito e investigado no caso do roubo bilionário a aposentados e pensionistas foi dispensado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) de obedecer a intimação para prestar depoimento à CPMI do INSS, que aprovou sua convocação para a sessão desta segunda-feira (16). O beneficiado da vez foi o petista Aristides Veras dos Santos, presidente da Contag, a Confederação dos Trabalhadores Rurais, Agricultores e Agricultoras Familiares.

Entidade ligada a Lula e controlada pelo PT há décadas, a Contag foi das entidades sindicais mais beneficiadas com o desconto não autorizado de mensalidades associativas. A estimativa na CPMI é que a Contag embolsou ao menos R$3,8 bilhões dos trabalhadores inativos. O convocado, Aristides é irmão do deputado federal Carlos Veras (PT-PE).

A decisão foi adotada neste domingo (15) pelo ministro André Mendonça, mesmo depois de o relator do caso no STF haver recebido a cúpula da CPMI, que chegou a sair da reunião muito otimista. No entanto, a decisão segue a lógica adotada por ministros do STF em decisões que desqualificam o parlamento com instância de investigação. Caso o suspeito decida comparecer, ele ainda está autorizado a não responder a qualwuer pergunta, sem o risco de ser preso, como prevêem a lei e o regimento do Congresso.


Com informações do Diário do Poder

Desconstruindo as notas da mulher de Alexandre de Moraes, por Mário Sabino

'Gente que acha que não deve satisfações a ninguém é muito ruim quando se vê obrigada a fazê-lo'


O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, e sua mulher, a advogada Viviane Barci, que assinou contrato com o Banco Master - Foto: Beto Barata/PR


Depois que a casa caiu com a descoberta da conversa estarrecedora entre Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes, no dia da primeira prisão do estelionatário, a doutora Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro do STF, decidiu dar satisfações sobre o seu contrato com o Banco Master. As satisfações não satisfazem. 

Vamos à primeira por ordem de relevância: 

Em nota de esclarecimento à imprensa que a doutora Viviane divulgou na segunda-feira 9, ela afirma que o seu escritório fez 94 reuniões de trabalho com o Master e confeccionou 36 pareceres para o banco. O comunicado diz que a sua equipe atuou na área de compliance do Master, ajudando a estruturá-la. A piada já veio pronta, nada a acrescentar.

A nota também afirma que, para além dos trabalhos para a área administrativa do banco, os causídicos auxiliaram na “análise consultiva e estratégica de inquéritos policiais”, sem nunca ter representado o banco perante o STF. Não há explicação sobre a quais análises e estratégias o escritório se ateve. 

Quem redigiu a nota fez um esforço tremendo para esticar o texto ao máximo, como se cada linha a mais pudesse justificar cada milhão embolsado pelo escritório. Veja-se o seguinte parágrafo, um clássico master de encheção de linguiça:


“Elaboração e apresentação de processos para certificação de ética e governança, com mapeamento das atividades, levantamento de documentação-base, análise das oportunidades, elaboração e revisão e  treinamentos do público-alvo sobre as novas políticas, a partir da revisão do Código de Ética e Conduta, políticas de integridade, estruturação do departamento de compliance e apoio à alta administração.” 


De advocacia mesmo, tem-se “atuação contenciosa específica em ação penal, cujo ajuizamento ocorreu em 17/10/2024, e inquérito policial federal específico, cuja habilitação se deu em 8/4/2024”. 

As tarefas da mulher de Moraes 

Vamos fazer uma continha de padeiro pelo lado das quantidades ressaltadas pela nota: 94 reuniões, 36 pareceres e duas atuações, uma em ação penal e outra em inquérito policial, em 22 meses de trabalho, de fevereiro de 2024 a novembro de 2025, período que consta na nota de esclarecimento. 

Portanto, ao todo, entre reuniões, pareceres e atuações elencados na nota de esclarecimento,132 tarefas foram executadas.

Muito bem, o valor total do contrato de três anos era de espetaculares R$ 129 milhões (não há menção a dinheiro na nota); mas, como o Master foi liquidado, calcula-se que o escritório da doutora Viviane tenha recebido R$ 79,2 milhões, visto que a quantia mensal prevista no acordo era de R$ 3,6 milhões.

Deixando de lado as especificidades e os diferentes graus de complexidade das tarefas, visto que são as quantidades que interessam aqui, isso significa que cada uma saiu pelo preço médio de R$ 600 mil, valor de apartamentos de médio padrão em São Paulo. 

É um preço que só existe no mundo que parecia maravilhoso de Daniel Vorcaro, um especialista em fazer amigos caros em Brasília.  

Se a conta fosse feita de modo ortodoxo, com base no alegado número de horas trabalhadas (advogados faturam por hora) e no que normalmente é cobrado na indústria de pareceres, a diferença entre a bolada efetivamente ganha pelo escritório da mulher de Moraes e os valores normalmente embolsados por grandes bancas seria igualmente escandalosa: algo como R$ 70 milhões a mais. 

Supõe-se que a evolução patrimonial da doutora Viviane, de R$ 24 milhões, no final de 2023, para R$ 79,7 milhões, no final de 2024, conforme publicou Lauro Jardim, o jornalista de quem Vorcaro queria “quebrar os dentes”, deva-se principalmente aos dividendos obtidos por meio do Master. Ou seja, o contrato assinado com o banco proporcionou à mulher de Moraes um lucro estratosférico, até mesmo estelar. 

Curiosamente, o valor atípico não acendeu o alerta da área de compliance do banco, estruturada com a ajuda do escritório da doutora Viviane.


Vamos à segunda satisfação: 

Como as emoções não param no Jardim Europa, a mulher de Moraes havia divulgado outra nota no sábado 7 para dizer que não foi ela quem recebeu as mensagens de Vorcaro no dia da primeira prisão do banqueiro. 

É uma afirmação que só serviu para complicar a vida do ministro: se a advogada contratada a peso de ouro não foi consultada em momento tão crucial para o dono do Master, isso reforça a impressão de que o contratado por Vorcaro foi, na verdade, Moraes, não a advogada casada com ele. 

O ministro era o destinatário das mensagens, não resta dúvida, a doutora Viviane poderia ter poupado esforço. Ele até tentou negar na sexta-feira 6, mas o fez de maneira tão canhestra, que ficou ainda mais fácil para o jornal O Globo desmentir o desmentido de Moraes.

É que gente que acha que não deve satisfações a ninguém é muito ruim quando se vê obrigada a fazê-lo. E, pelo visto, contratou a assessoria de imprensa errada. 

PS: doeu na alma que os cenários do noivado tão faustoso quanto fajuto de Vorcaro com a influencer tenham sido Villa Adriana e o Palazzo Colonna. O estelionatário conseguiu sujar até mesmo a história da minha Roma.


Mário Sabino - Revista Oeste

sábado, 14 de março de 2026

Governo corrupto do descondenado Lula torrou R$126,4 milhões em viagens

Foram R$69,6 milhões em diárias e outros R$56,1 milhões em passagens para funcionários do governo do PT


"Aerolula" (VC-2) (Foto: Reprodução/FAB)



Dispararam para mais de R$126,4 milhões as despesas do governo Lula (PT) com viagens. Até o dia 9 de março, data da última atualização desses dados no Portal da Transparência, foram destinados R$69,6 milhões ao pagamento de diárias de funcionários do governo petista e outros R$56,1 milhões bancaram as passagens aéreas. A informação é destaque da Coluna Cláudio Humberto deste sábado (14).

O total não inclui as despesas do presidente, primeira-dama e outras autoridades que se aproveitam do luxo dos jatinhos da Força Aérea Brasileira (FAB).

Apenas entre 9 de fevereiro e 9 de março, o governo Lula admite ter torrado R$93 milhões com deslocamentos.

O Portal da Transparência aponta ainda R$753,4 mil em “outros gastos” com viagens do governo Lula. São taxas de agenciamento, seguros etc.

Em 2025, o governo petista bateu recorde histórico de gastos com viagens – pelo terceiro ano seguido – com R$2,44 bilhões.

Diário do Poder

Imagem da Semana: pelas lentes de Sinatra

The Voice trabalhou como fotógrafo freelancer para a revista Life na "Luta do Século" entre Muhammad Ali e Joe Frazie



 O astro maior da música Frank Sinatra fotografando a “Luta do Século” para a revista Life. Nova York, 1971 - Foto: John Shearer/Life


N a noite de 8 de março de 1971, admiradores do boxe pararam para assistir ao confronto que ficaria conhecido como “A Luta do Século” — o duelo entre Muhammad Ali e Joe Frazier no lendário Madison Square Garden, em Nova York, nos Estados Unidos. Era a primeira vez que dois campeões pesos-pesados invictos se enfrentavam pelo título mundial. 

A expectativa era enorme. 

Celebridades, políticos, atletas e jornalistas do mundo inteiro lotaram o ginásio para presenciar o combate. Entre as celebridades presentes, no meio da multidão, estava o cantor e ator Frank Sinatra. Sem conseguir ingresso próximo ao ringue (ringside), Sinatra garantiu um lugar privilegiado na área destinada à imprensa, credenciado como fotógrafo da revista Life. 

Vestido em um impecável terno e com uma câmera profissional em mãos, o artista se misturou aos fotógrafos esportivos à beira do ringue para registrar momentos da luta. 

A imagem que abre esta matéria mostra justamente esse inesperado instante em que Sinatra, concentrado, é retratado por seus colegas fotógrafos no reduto da imprensa. O episódio tornou-se um dos momentos mais curiosos da história do esporte e da cultura pop. 



O artigo intitulado “As estrelas mais brilhantes brilham na ‘Luta do Século'”, de Ger Siggins, foi publicado em 8 de março de 2026 como uma retrospectiva em comemoração ao 55º aniversário do lendário combate - Foto: Reprodução Daily Mail


Frank Sinatra na luta Ali-Frazier em março de 1971 | Foto: MPTV Images/Shutterstock

Durante quinze rounds intensos, Ali usou sua velocidade e técnica, enquanto Frazier aplicou pressão constante e seus famosos ganchos de esquerda. No 15º round, Frazier derrubou Ali com um poderoso golpe, consolidando sua vitória por decisão unânime e marcando a primeira derrota profissional de Muhammad Ali. A luta não apenas definiu o melhor peso-pesado daquele momento, mas também se tornou um marco cultural. A rivalidade entre Ali e Frazier continuaria em mais duas lutas memoráveis — incluindo o célebre confronto conhecido como Thrilla in Manila, em outubro de 1975. 

As fotografias registradas naquela noite, incluindo as feitas por Sinatra, integraram a cobertura especial da Life (publicadas na edição de 19 de março de 1971) e reforçaram o caráter singular do evento: o encontro de três grandes forças da cultura do século 20 — música, esporte e mídia — reunidas em um único momento histórico.


O gancho de Frazier derrubou Muhammad Ali na luta de 8 de março de 1971 - Foto: Reprodução


Daniela Giorno é diretora de arte de Oeste e, a cada edição, seleciona uma imagem relevante na semana. São fotografias esteticamente interessantes, clássicas ou que simplesmente merecem ser vistas, revistas ou conhecidas.

Narcoterrorismo nas Américas, por Ana Paula Henkel

 O crime organizado latino-americano já deixou de ser um problema doméstico


Presidente dos EUA, Donald Trump | Foto: Reuters/Samuel Corum/Sipa USA

E m diferentes momentos da história, ameaças que pareciam locais acabam revelando algo maior: sintomas de um desarranjo regional. O que começa como violência doméstica, tráfico ou corrupção passa, pouco a pouco, a assumir dimensões geopolíticas. 

Sob a administração de Donald Trump na Casa Branca, esse diagnóstico começou a ganhar forma mais clara nos últimos meses nas discussões de segurança no continente. Para o presidente americano, o crime organizado latino-americano já deixou de ser um problema doméstico e se tornou uma ameaça regional. 

Foi nesse contexto que surgiu a iniciativa do Escudo das Américas (Shield of the Americas), uma reunião voltada à cooperação hemisférica para enfrentar o crime organizado transnacional. O encontro reuniu autoridades de segurança, ministros, chefes de inteligência e representantes de diversos países do continente para discutir um problema que deixou de ser tratado como questão doméstica e passou a ser encarado como um desafio estratégico regional. 

A proposta do Escudo das Américas é criar um mecanismo de coordenação entre governos para enfrentar ameaças que operam em múltiplos territórios ao mesmo tempo — narcotráfico, cartéis, redes de lavagem de dinheiro e organizações criminosas transnacionais. 


Escudo das Américas (Shield of the Americas), uma reunião voltada à cooperação hemisférica para enfrentar o crime organizado transnacional - Foto: Reuters/Kevin Lamarque

A iniciativa ganhou impulso dentro da estratégia de segurança hemisférica defendida por Trump, que insiste na necessidade de tratar o narcotráfico e as grandes organizações criminosas como ameaças diretas à estabilidade do continente. A lógica por trás da reunião é simples: nenhum país consegue enfrentar sozinho estruturas que movimentam bilhões de dólares, controlam rotas internacionais e operam simultaneamente em diversas jurisdições. 

Por isso, o encontro reuniu autoridades de diferentes governos das Américas, responsáveis pelas áreas de segurança, defesa e inteligência, para discutir mecanismos de cooperação mais robustos, como compartilhamento de informações, coordenação policial internacional e estratégias conjuntas para interromper cadeias logísticas do narcotráfico que atravessam o continente. Lula não apareceu e não enviou nenhum representante do Brasil para o importante evento. 

O objetivo do Escudo das Américas é construir uma espécie de rede de proteção regional diante de ameaças que já não respeitam fronteiras. No diagnóstico apresentado durante o encontro, o narcotráfico e o crime organizado deixaram de ser apenas um problema policial. 

Tornaram-se um fator de instabilidade capaz de pressionar instituições, financiar violência em larga escala e comprometer a soberania dos Estados. 

Nesse contexto, duas siglas brasileiras passaram a aparecer com frequência crescente nos relatórios de inteligência e nas análises estratégicas: Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV). 

Por décadas, esses grupos foram vistos essencialmente como facções criminosas domésticas, ligadas ao tráfico de drogas dentro do Brasil. Essa percepção, no entanto, tornou-se rapidamente obsoleta. Hoje, tanto o PCC quanto o CV operam redes logísticas que atravessam fronteiras, controlam rotas internacionais de narcotráfico, mantêm conexões com organizações estrangeiras e exercem influência em diversos países da América do Sul. 

O que antes era tratado como crime organizado local começa a ser discutido, cada vez mais, como uma ameaça à segurança hemisférica. A mudança de linguagem não é apenas retórica política. Ela revela uma mudança de diagnóstico. 


Hoje, tanto o PCC quanto o CV operam redes logísticas que atravessam fronteiras - Foto: Reprodução/Redes Sociais 

Quando o crime se torna poder O crime organizado moderno raramente se limita à criminalidade tradicional. Em muitos casos, evolui para algo mais complexo: estruturas paralelas de poder. Essas organizações controlam territórios, impõem regras próprias, corrompem instituições, movimentam bilhões de dólares e mantêm cadeias logísticas que lembram as de empresas multinacionais. 

No caso latino-americano, esse fenômeno assume uma característica adicional: a convergência entre crime organizado, narcotráfico e estruturas paramilitares. 

É por isso que, em círculos estratégicos, o termo narcoterrorismo voltou a aparecer com frequência. A expressão surgiu nos anos 1980 para descrever a atuação dos cartéis colombianos e suas relações com grupos insurgentes. Hoje reaparece para descrever uma realidade semelhante: organizações que utilizam o narcotráfico não apenas para lucro, mas também para ampliar influência territorial e institucional.

Esse é o ponto que tem despertado crescente preocupação sob a ótica do governo Trump. Quando redes criminosas passam a controlar corredores logísticos internacionais — portos, rotas marítimas e fronteiras terrestres — a questão deixa de ser apenas policial e passa a ser estratégica. E a América Latina vive hoje um momento delicado nesse campo. 


O crime organizado moderno raramente se limita à criminalidade tradicional | Foto: Shutterstock 

Diversos países enfrentam a expansão acelerada do crime organizado. O Equador viu cidades inteiras mergulharem em crises de segurança. O Chile registrou um aumento abrupto de organizações transnacionais. O Peru enfrenta pressões nas rotas amazônicas. Na Colômbia, grupos armados continuam disputando territórios ligados ao narcotráfico. 

Nesse cenário, o Brasil ocupa uma posição central. Não apenas pelo tamanho de sua economia ou de seu território, mas porque boa parte das rotas que ligam a produção de cocaína andina aos mercados globais passa pelo país. Portos brasileiros tornaram-se pontos estratégicos para exportação da droga rumo à Europa e à África. 

Rotas fluviais na Amazônia conectam áreas produtoras a redes de distribuição. Fronteiras extensas e de difícil controle ampliam as oportunidades logísticas para as facções. 

Nesse ambiente, organizações como PCC e CV expandiram sua presença para países vizinhos, criando alianças com grupos locais e consolidando rotas internacionais. O resultado é um fenômeno que especialistas descrevem como transnacionalização do crime brasileiro.

O objetivo da ação da Casa Branca com o encontro é claro: reconhecer que as ameaças contemporâneas nas Américas já não se limitam a conflitos militares tradicionais. Elas incluem redes criminosas globais, narcotráfico, terrorismo, lavagem de dinheiro e estruturas híbridas que combinam elementos desses fenômenos — por isso, a necessidade de maior cooperação entre governos para enfrentá-las. 

A discussão incluiu inteligência compartilhada, coordenação policial internacional e novas estratégias de combate a redes logísticas que operam em múltiplos países. 

A classificação de determinadas organizações como grupos terroristas e ameaças significativas à segurança regional surge nesse contexto, como gesto político, mas, principalmente, como parte de uma mudança de percepção: o reconhecimento de que certas estruturas criminosas já ultrapassaram o estágio da criminalidade convencional. 


Uma ideia antiga que volta ao debate

Curiosamente, essa discussão também reacende uma referência histórica na política hemisférica: a Doutrina Monroe. Formulada em 1823, a doutrina partia de um princípio simples: as Américas deveriam permanecer livres de interferência externa e preservar sua estabilidade política. 

Durante o século 21 e grande parte do século 20, essa ideia foi frequentemente associada à rivalidade entre potências e à presença de atores externos no continente. No mundo contemporâneo, no entanto, a ameaça pode assumir outras formas. Ela pode surgir não de impérios europeus ou de rivalidades ideológicas, mas de estruturas criminosas capazes de corroer Estados por dentro. 

Nesse sentido, alguns analistas argumentam que o desafio atual nas Américas não é apenas geopolítico no sentido clássico. É também institucional, uma vez que redes criminosas que capturam territórios, corrompem autoridades e dominam economias locais produzem efeitos semelhantes aos de conflitos armados: enfraquecem o Estado e desestabilizam sociedades.


Proclamada em 1823 pelo presidente James Monroe, a Doutrina Monroe estabeleceu um princípio simples e duradouro: o hemisfério ocidental não estaria mais aberto à colonização ou interferência de potências europeias | Foto: Wikimedia Commons

Talvez o aspecto mais perigoso desse fenômeno seja a sua normalização. Em muitos países, a presença do crime organizado tornou-se parte do cotidiano político e social. Governos tratam o problema como questão policial rotineira. Instituições convivem com níveis crescentes de infiltração. A sociedade aprende, pouco a pouco, a viver com a violência. 

Mas há um ponto em que essa normalização deixa de ser sustentável. Quando organizações criminosas acumulam poder suficiente para influenciar eleições locais, controlar economias regionais ou desafiar diretamente a autoridade do Estado, o problema muda de escala e deixa de ser criminal. E passa a ser civilizacional. 

A existência de Estados capazes de aplicar leis e garantir segurança não é um detalhe administrativo da vida moderna, mas um dos pilares da ordem política. E sem esse pilar, outras instituições — democracia, economia de mercado, liberdades individuais — começam a perder sustentação. 

É por isso que o debate sobre narcotráfico e crime organizado nas Américas ganhou, nos últimos anos, uma dimensão mais ampla. A questão já não trata apenas de drogas ou violência urbana. Trata de soberania. 

Estados que perdem controle territorial, que não conseguem conter a expansão de organizações criminosas ou que veem suas instituições capturadas por redes ilícitas acabam enfrentando uma forma silenciosa de erosão política. 

Não se manifesta necessariamente em guerras ou golpes, mas em algo mais gradual: a substituição da autoridade legítima por estruturas paralelas de poder. Esse é o risco que muitos analistas enxergam no avanço das facções transnacionais. 

A classificação de organizações como o PCC e o Comando Vermelho como ameaças relevantes no cenário hemisférico não resolve automaticamente o problema. Mas representa um sinal importante: parte da comunidade internacional começa a reconhecer que o crime organizado latino-americano deixou de ser um fenômeno doméstico. Tornou-se um desafio continental — um desafio que envolve segurança, governança, economia e estabilidade institucional e que exige respostas à altura dessa complexidade.


Classificação de organizações como o PCC e o Comando Vermelho como ameaças relevantes no cenário hemisférico não resolve automaticamente o problema - Foto: Agência Brasil  


Entre as preocupações discutidas por autoridades americanas está também a possibilidade de conexões entre redes criminosas da América Latina e grupos classificados como organizações terroristas, especialmente o Hezbollah, movimento apoiado e financiado pelo Irã. 

Ao longo dos últimos anos, investigações de segurança e relatórios de inteligência apontaram para a presença de estruturas ligadas ao grupo em áreas como a região da Tríplice Fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina, tradicionalmente utilizada para atividades de contrabando e lavagem de dinheiro. Para analistas de segurança, a eventual convergência entre narcotráfico, crime organizado e redes de financiamento do terrorismo representaria um salto qualitativo no nível da ameaça. 

No fim das contas, a questão central não é apenas a força das organizações criminosas, mas a capacidade das democracias de reagir. A história mostra que instituições podem ser corroídas lentamente quando ameaças persistentes deixam de ser enfrentadas com clareza. 

Mostra também que sociedades capazes de reconhecer riscos e agir de forma coordenada conseguem preservar sua ordem política. O avanço do narcotráfico e do crime organizado nas Américas talvez seja um desses testes históricos — um teste sobre a capacidade do continente de defender suas instituições, sua soberania e a própria ideia de Estado de Direito.

Se a história ensina algo às democracias, é isto: ameaças raramente desaparecem sozinhas. Elas precisam ser reconhecidas — e, de fato, enfrentadas. 

Ana Paula Henkel - Revista Oeste