sexta-feira, 4 de setembro de 2026

'A solidão do homem que diz não', escreve Ana Paula Henkel

O poder parece absoluto enquanto todos obedecem. É quando alguém decide enfrentá-lo que descobrimos até onde ele estava disposto a avançar


Ministro André Mendonça - Foto: Gustavo Moreno/STF


N o início do século 17, um dos juristas mais importantes da Inglaterra descobriu algo que homens de diferentes épocas voltariam a descobrir muitas vezes: o poder aceita com relativa tranquilidade a existência da lei enquanto acredita que continuará sendo ele próprio a dizer onde a lei começa e onde termina. Sir Edward Coke havia chegado ao topo do sistema jurídico inglês. Foi procurador-geral da Coroa, ocupou algumas das posições judiciais mais importantes do país e tornou-se Chief Justice, construindo uma trajetória que faria dele uma das figuras fundamentais da tradição do common law. Coke conhecia como poucos as estruturas que sustentavam a autoridade inglesa e estava muito longe de ser um revolucionário. 

Não pretendia destruir a monarquia, substituir o rei ou abolir as instituições às quais havia dedicado a própria vida. Era justamente seu compromisso com essas instituições que acabaria colocando-o em confronto com James I. 

O rei acreditava que sua autoridade e sua própria capacidade de raciocínio lhe permitiam interferir diretamente em questões que chegavam aos tribunais. Coke sustentava um princípio muito mais incômodo: o direito possuía regras, procedimentos e uma forma própria de conhecimento que não poderia simplesmente ser substituída pela vontade do soberano. Em um dos confrontos que marcariam sua trajetória, diante de um rei enfurecido, Coke recorreu a uma antiga máxima segundo a qual o soberano não estava submetido a nenhum homem, mas estava submetido a Deus e à lei. 

A afirmação carregava uma ideia extraordinariamente poderosa para uma época em que a autoridade real ainda possuía dimensões difíceis de imaginar hoje. James I continuava sendo rei, sua autoridade permanecia imensa e Coke jamais pretendeu negar sua legitimidade. O que o jurista afirmava era a existência de uma fronteira que permanecia válida inclusive diante daquele que ocupava o ponto mais alto do poder político. Quatro séculos depois, em uma república do outro lado do Atlântico, esse problema fundamental continua surpreendentemente familiar



James I (1566-1625), pintura de John de Critz (1604) - Foto: Domínio Público


André Mendonça decidiu fazer algo que, em circunstâncias normais, deveria parecer absolutamente banal para um ministro do Supremo Tribunal Federal. Diante dos novos elementos produzidos nas investigações relacionadas ao Banco Master e das menções a integrantes das mais altas estruturas de poder da República, entre eles Alexandre de Moraes, Mendonça retirou o sigilo de parte do material e defendeu que as questões fossem examinadas pelo plenário do STF de maneira pública, transparente e presencial. 

A reação veio rapidamente. Dois dias depois, Alexandre de Moraes encaminhou ao presidente do Supremo, Edson Fachin, documentos e acusações contra o próprio Mendonça, apontando supostos indícios de abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade na condução de investigações. Fachin abriu um procedimento para esclarecer os fatos e determinou que os envolvidos apresentassem informações. 

Há um detalhe que importa. Mendonça não convocou uma praça. Não vazou seletivamente. Não montou um espetáculo. Fez o que um juiz deve fazer quando o fato atravessa o gabinete ao lado: documentar, publicizar e devolver a decisão ao órgão que a Constituição prevê. O plenário. A sessão presencial. O voto visível. A responsabilidade compartilhada. Quem teme o plenário teme o próprio tribunal. O que torna o episódio extraordinário está em outra dimensão. Mendonça está fazendo dentro da instituição aquilo que cabe ao cidadão fazer fora dela: deixar de ter medo. O poder raramente revela sua verdadeira dimensão quando todos obedecem. É quando alguém diz não que descobrimos até onde ele acredita poder chegar.


André Mendonça e Alexandre de Moraes em sessão plenária do STF (03/09/2026) - Foto: Luiz Silveira/STF 

Durante anos, o Brasil assistiu à expansão de um modelo de atuação judicial que concentrou poderes extraordinários nas mãos de poucos ministros e, particularmente, nas mãos de Alexandre de Moraes. Inquéritos longevos, decisões monocráticas, censura de perfis, ordens dirigidas a plataformas digitais, prisões ilegais, bloqueios e investigações produziram um ambiente no qual a excepcionalidade foi sendo incorporada à rotina institucional brasileira. As críticas vieram de juristas, jornalistas, parlamentares, cidadãos e até de fora do país. 

Dentro do próprio Supremo, porém, foram raros os momentos em que essa concentração de poder encontrou resistência proporcional à sua gravidade. É justamente aí que o gesto de Mendonça adquire uma dimensão que ultrapassa o caso desta semana e devolve ao debate uma pergunta elementar: o que significa ser leal a uma instituição? A lealdade ao Supremo Tribunal Federal não pode ser confundida com lealdade pessoal aos 11 homens que temporariamente ocupam suas cadeiras. 

O STF existia antes deles e continuará existindo depois deles. Sua autoridade nasce da Constituição e das funções que ela lhe atribui, e não da personalidade, das convicções ou do poder político de qualquer ministro.

Defender as instituições exige, portanto, protegê-las contra sua personalização. Quem protege homens do escrutínio não necessariamente protege a instituição; pode estar ajudando a destruí-la. André Mendonça pode estar defendendo o Supremo justamente ao contrariar parte do Supremo, ao lembrar que nenhuma instituição republicana pode depender da presunção de infalibilidade daqueles que a ocupam. 

Sir Edward Coke compreendeu esse paradoxo 400 anos atrás. Sua resistência ao rei não significava desprezo pela ordem jurídica inglesa; nascia precisamente de seu compromisso com ela. Se a vontade de um homem pudesse se confundir com a própria lei, a lei deixaria de cumprir sua função mais elementar, que é estabelecer limites também para aqueles que exercem o poder. Existe um ponto além do qual o poder não pode ultrapassar a lei.


Consciência, lei e verdade formam, assim, uma espécie de arquitetura moral sem a qual nenhuma sociedade livre consegue sobreviver por muito tempo. A civilização ocidental foi construída, em grande medida, sobre o reconhecimento desses limites. Reis, presidentes, juízes, parlamentos e governos recebem autoridade para exercer determinadas funções, mas essa autoridade jamais significou soberania absoluta sobre a consciência, a verdade ou a lei. Uma das grandes conquistas institucionais do Ocidente foi compreender que o poder legítimo continua sendo poder limitado e que a existência desses limites fortalece as instituições em vez de enfraquecê-las. 

É sob essa perspectiva que o Brasil chega a mais um 7 de Setembro. A crise que atravessamos vai muito além de Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro. O que está em discussão é a capacidade das instituições brasileiras de reconhecer limites, investigar os próprios integrantes e aceitar que autoridade sem escrutínio termina inevitavelmente corroendo a confiança que deveria sustentá-la.

Brasileiros voltarão às ruas neste 7 de Setembro, muitos deles indignados com Alexandre de Moraes, outros dispostos a demonstrar apoio a André Mendonça e tantos outros movidos pela convicção de que nenhum homem pode se tornar maior do que a instituição que representa.

Exigir transparência, cobrar limites, questionar autoridades e pedir que os mesmos princípios aplicados ao cidadão comum sejam respeitados nos pontos mais altos da República são atitudes perfeitamente compatíveis com a defesa da ordem constitucional. Em determinados momentos, tornam-se indispensáveis à sua sobrevivência.



Manifestação no Dia da Independência do Brasil, na Avenida Paulista, em São Paulo, em 7 de setembro de 2025 | Foto: Reuters/Amanda Perobelli


Existe ainda outra razão pela qual o gesto de Mendonça importa. Poderes excessivamente concentrados se alimentam da sensação de inevitabilidade que conseguem produzir. A impressão de que ninguém será capaz de enfrentá-los, de que instituições permanecerão silenciosas, de que autoridades encontrarão justificativas convenientes para não agir e de que cidadãos acabarão concluindo que sua voz já não produz consequência alguma pode ser tão eficiente quanto o próprio exercício formal do poder. 

É nesse ponto que a coragem se torna contagiosa. Basta que alguém permaneça de pé para que a aparência de unanimidade comece a desaparecer. O primeiro gesto pode parecer pequeno, institucional, técnico e até insuficiente diante da dimensão do problema.

André Mendonça não precisa destruir o Supremo para enfrentá-lo. Sua maior demonstração de lealdade ao STF pode estar justamente em lembrar aos próprios colegas que nenhum deles é o Supremo. A Corte é maior do que seus ministros e suas vontades, assim como a Constituição é maior do que aqueles encarregados temporariamente de interpretá-la. 

Quando essa distinção desaparece, a defesa das instituições começa perigosamente a se confundir com a defesa dos homens que detêm poder dentro delas. Existe algo especialmente simbólico no fato de essa discussão alcançar o país às vésperas do Dia da Independência. A liberdade política depende também de uma independência interior: a capacidade de cidadãos, juízes e homens públicos reconhecerem que existem fronteiras que o poder não pode atravessar e de aceitarem o preço de afirmá-las quando tantos outros preferem o conforto do silêncio.



Edward Coke enfrentou um rei e sustentou que até o soberano estava submetido à lei. André Mendonça se levanta praticamente sozinho diante do abismo institucional aberto no país pela concentração de poder nas mãos de Alexandre de Moraes. Homens separados por séculos, circunstâncias e desafios incomparáveis entre si, unidos apenas por uma característica essencial: em algum momento, cada um descobriu que permanecer de pé exigiria dizer não. 

O poder raramente revela sua verdadeira dimensão enquanto todos obedecem sem questionamentos. É somente diante da resistência que descobrimos até onde ele está disposto a avançar. Nenhum desses homens poderia saber, no momento em que decidiu permanecer de pé, a dimensão das consequências que seu gesto produziria. 

A coragem é contagiosa. O medo também. Durante anos, o silêncio virou doutrina. A doutrina virou normalidade. Até que alguém, de dentro, decidiu não se curvar.



O Brasil de Alexandre de Moraes e Lula, por Adalberto Piotto

 As eleições de outubro são a chance de o país se livrar dos abusos do STF e de um governo capenga pendurado na Corte


O Brasil de Alexandre de Moraes e Lula


A lexandre de Moraes é Lula. E Lula é Alexandre de Moraes. Nos bastidores barulhentos de Brasília, há quem compare a relação indicando que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) é o líder da bancada do governo na Corte. A anedota política não é um exagero, embora constitucionalmente trágica. No escândalo atual que expõe o ex-todo-poderoso “Xandão” como o advogado de fato do banqueiro Daniel Vorcaro, preso acusado de corrupção, Lula, o PT e o ministro estão todos juntos e misturados. 

O terceiro mandato de Lula só existe e resiste pelo ativismo político desmesurado do Supremo Tribunal Federal, cuja parte mais barulhenta escolheu fazer política em vez de obedecer à Constituição. E tudo começa quando a Corte anula as condenações da Justiça Federal de Curitiba, com a malfadada e estapafúrdia “tese do CEP”, a tempo de reabilitar o ex-presidente politicamente e fazer dele o seu candidato. Até a paredes da Corte gritam que Lula se reelegeu e só governa por causa disso. Moraes, que já conduzia o Inquérito 4.781, o “do Fim do Mundo”, desde 2019, e o transformou na mais violenta ferramenta de perseguição da direita, dobrou a aposta. 

Tornou-se o maior prócere aliado de Lula na Corte. Desde então, não fez questão de disfarçar que seu gabinete tinha lado.

Os acenos entre Lula e Alexandre são muitos. Alguns que deveriam causar constrangimentos se os pudores ainda estivessem na moda na era sobre população de rua, mas ao ser anunciado para discursar, o ministro ouviu a plateia do lulopetismo tratá-lo como um dos seus. Aos gritos de “Xandão” e “Sem Anistia”, ganhou o afago “de mano” da primeira-dama e sorrisos de Lula. Era indisfarçável o deslumbre de todos que se imaginavam intocáveis em seus abusos. Parecia até uma comemoração. É que no mês anterior, Alexandre havia sido agraciado por Lula com a medalha da Ordem de Rio Branco, a mais alta distinção da diplomacia brasileira.

A relação era séria, de absoluta cumplicidade. Em novembro de 2025, mais um aceno, um mimo, outro agrado. Lula concedeu a Moraes a condecoração da Ordem Nacional do Mérito Educativo, também em sua mais alta distinção. Isso deveria causar espanto, revolta e sabe-se lá mais qual sentimento nos brasileiros que prezam pela democracia de verdade. Tamanho o absurdo, também nos que se beneficiam da atual ditadura.

É que entre as homenagens de novembro de 2023 e o final de 2025, o país vivia o pesadelo de uma ditadura. Cleriston da Cunha, o Clezão, preso injustamente nos atos do dia 8 de janeiro, havia morrido na cadeia, apesar de um parecer da Procuradoria-Geral da República concordar com sua prisão domiciliar por problemas de saúde. O documento ficou parado na gaveta do ministro Alexandre de Moraes, sem despacho, por 80 dias. Neste mesmo período, Filipe Martins foi perseguido de forma implacável, e prisões arbitrárias contra qualquer um que fosse de Direita foram determinadas sem o devido processo legal, com todos os abusos típicos de um estado de exceção. 

Atos ilegais vertiam do gabinete de Moraes, como se tudo fosse permitido ao ministro. Sem limites, sem observância da Constituição, só com condecorações de Lula. Era Alexandre liderando o governo no STF, tal como suas decisões inviabilizaram o governo Bolsonaro e interferiram na eleição de 2022 a favor da reeleição de Lula.


Flávio Dino, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes - Foto: Antonio Augusto/STF

O Alexandre das conversas com Vorcaro, do contrato de R$ 131 milhões do escritório da esposa com o Banco Master, que ele próprio, o ministro, teria editado e sobre o qual fora consultado, segundo nota oficial do próprio escritório, é o mesmo que interferiu na economia a favor de Lula. Quem não se lembra do caso do IOF, uma interferência grotesca em que Moraes derrubou uma decisão do Congresso e moldou sua sentença a favor — e a pedido — do governo? Naquele momento, Palácio do Planalto e o Legislativo discordavam sobre a aplicação do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Transformado por Lula em arrecadatório via decreto presidencial, Câmara e Senado derrubaram a medida, alegando o óbvio: não se pode aumentar impostos por decreto sem redução dos gastos. Eleito por influência do STF, o governo Lula nunca teve maioria de votos nas duas casas. 

A eleição do presidente não combinava com a do Congresso. Alexandre de Moraes deu de ombros e anulou o decreto legislativo que derrubava o decreto presidencial. Democracia pra quê, não é? Como soberano, tomou uma decisão muito mais favorável ao governo federal. Os presidentes da Câmara e do Senado, pendurados em processos na Corte, não reagiram. A independência dos Poderes prevista na Constituição foi transformada em letra morta. No final, o Brasil pagou mais imposto por decisão monocrática de um ministro. 

Pressionado pelas pesquisas eleitorais que já mostram Flávio Bolsonaro empatado ou até à frente dele, Lula tenta agora desesperadamente se dissociar de Alexandre, tratado como radioativo pelos marqueteiros. Lula só pensa nele, não tem problemas em abandonar velhos aliados em momentos que possam comprometer seus objetivos de poder. Mas, desta vez, não bastasse ter o filho Lulinha, o irmão e o ex-assessor enrolados com outro escândalo, o do roubo de aposentados do INSS, afastar-se de Alexandre e do STF não será tão fácil. Não é que não cola, apenas. 

Não dá. Lula deve ao STF e, ainda mais, a Alexandre, seu companheiro de terceiro mandato. Tanto que fez questão de se regozijar no lançamento do SBT News, no ano passado, que foi à Casa Branca e interveio em favor do ministro na revogação da sanção Magnitsky aplicada a Moraes, veja só, por violação dos direitos humanos. Era para pagar dívida ou gerar ainda mais crédito dentro da relação que ofende a República. No mês passado, sem se incomodar com as câmeras, mais um gesto de intimidade foi flagrado: o convite a Moraes para um cafezinho nos bastidores. Era mais um pedido de Lula ao ministro. 

Dias depois, Alexandre de Moraes seria o anfitrião do jantar de reconciliação entre o presidente e Davi Alcolumbre. Dono do passado dos dois — no estilo “eu sei o que vocês fizeram no verão passado” —, o ministro do STF selou o acordo que fez o presidente do Senado dar andamento a pautas eleitoreiras do governo no Congresso.

Lula, Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro são a cara da República do PT que tomou de assalto o Brasil. O banqueiro foi recebido por Lula, no gabinete presidencial e fora da agenda, em 4 de dezembro de 2024, quando ouviu conselhos do presidente para não vender o seu banco ao BTG de André Esteves. Verborrágico e se achando dono do país, apontou como trunfo para Gabriel Galípolo, seu indicado ao Banco Central, que acabara de ser aprovado pelo Senado e assumiria a instituição em janeiro.

O acesso privilegiado de Vorcaro não era de graça. Além do mega contrato com a esposa de Moraes, custou milhões em consultorias com os ex-ministros Guido Mantega e Ricardo Lewandowski, além de favores ao senador Jaques Wagner — que teve um apartamento pago por Guga Lima, ex-sócio de Vorcaro, a título de adiantamento. Todos petistas e íntimos do presidente. 

Termino como comecei, porque as coisas são como estão. Lula é Alexandre. E Alexandre de Moraes é Luiz Inácio Lula da Silva. O desespero da campanha petista em tentar se afastar do escândalo que, segundo as investigações da Polícia Federal, expôs o ministro aliado do STF como o advogado de fato do banqueiro corruptor Daniel Vorcaro, não vai colar. Não dá. Cansados de tanta sujeira deste governo e de tantos abusos do STF, o Brasil ganhou a tempestade perfeita para lavar o país da imundície de corrupção e atraso que nos assola como nação.


O presidente Lula e o ministro Alexandre de Moraes em solenidade em Brasília | Foto: Wilton Junior/Estadão


Adalberto Piotto - Revista Oeste

Alexandre de Moraes provocou danos mais graves ao STF que os ataques do 8 de janeiro, diz O Estado de São Paulo

Jornal descreve a relação entre o ministro e o ex-banqueiro como “promíscua” e “potencialmente criminosa”


Ministro Alexandre de Moraes, do STF. (Foto: Fellipe Sampaio/STF).



O jornal O Estado de S. Paulo publicou editorial, na tarde desta sexta-feira (4), em tom duro sobre a crise aberta no Supremo Tribunal Federal após Alexandre de Moraes reagir às revelações sobre sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. No texto, intitulado “Alexandre de Moraes vandaliza o Supremo”, o jornal considera o dano institucional causado pelo ministro ao STF foi mais grave que os atos de vandalismo sofrido pela Corte em 8 de janeiro de 2023.

A peça surge no calor da ofensiva de Moraes contra o colega André Mendonça, relator no STF das investigações sobre o Master. Segundo o Estadão, o estopim foi a publicação de novos detalhes extraídos de celulares de Vorcaro pela Polícia Federal, que reforçariam o grau de proximidade entre o banqueiro e o ministro — no contexto do contrato de R$131 milhões firmado com o escritório da mulher de Moraes, Viviane Barci de Moraes. O jornal descreve essa relação como “promíscua” e “potencialmente criminosa” e afirma que o único caminho republicano seria o afastamento voluntário de Moraes.

Em vez disso, o editorial acusa o ministro de ter acionado o inquérito das fake news — investigação que o próprio Estadão vem criticando há anos como instrumento pessoal — para “declarar guerra” a Mendonça, depois que este levantou o sigilo do relatório da PF. O jornal também desqualifica o chamado “relatório de inteligência” usado por Moraes para imputar a Mendonça improbidade, abuso de autoridade e violação da Loman: segundo o texto, o documento não tem cabeçalho oficial, não é assinado por delegado e o próprio corpo do papel admite “baixa a moderada confiabilidade” e ausência de valor probatório. Fachin, presidente da Corte, recusou incluir Mendonça no rol de investigados.

O Estadão vai além do episódio pontual. Afirma, “sem rodeios”, que Moraes e os ministros que o protegem — “a começar pelo decano” Gilmar Mendes — se tornaram “a maior fonte de instabilidade democrática no País”. Acusa essa ala de ter transformado o STF, criado em 1891, numa “aberração corporativista”. Também denuncia o que chama de instrumentalização da Polícia Federal, ora acionada para produzir peças a gosto de um ministro, ora orientada a ignorar decisões de outro.

O texto fecha com um recado direto a Edson Fachin: cabe ao presidente da Corte “liderar essa histórica missão de resgate” da instituição. Se o fizer, diz o jornal, terá o apoio do Estadão.A publicação se insere numa sequência de editoriais do próprio jornal — entre eles “Moraes tem de sair do Supremo” — e coincide com cobertura semelhante em outros veículos, que nesta sexta-feira (4) também descreveram o ataque a Mendonça como um desvio da questão de fundo: as suspeitas sobre o contrato milionário e as mensagens atribuídas a Vorcaro. A crise no STF segue aberta, com Fachin cobrando informações dos ministros envolvidos, da PGR e da direção da PF.

Diário do Poder

É nulo pedido de Gonet contra relatório da PF que o liga a Vorcaro, diz Eliana Calmon

 Relatório da PF detalha os vínculos Gonet-Vorcaro


A jurista Eliana Calmon foi a primeira mulher a ocupar o cargo de Superior Tribunal de Justiça (STJ) - Foto: Glaucio Dettmar/CNJ.



A jurista Eliana Calmon, primeira mulher a ocupar o cargo de ministra do Superior Tribunal de Justiça, afirmou que é nulo o parecer da Procuradoria-Geral da República pedindo a anulação do relatório da Polícia Federal. 

Segundo ela, a manifestação do procurador-geral Paulo Gonet “não tem nenhum valor jurídico, porque ele está envolvido nos fatos relatados pela Polícia Federal” e, por isso, “jamais poderia agir como PGR”. 

Calmon sustentou que Gonet deveria ter encaminhado o tema ao substituto legal, por estar “absolutamente impedido” e ser “suspeito”. A declaração da jurista foi noticiada no site direitoglobal.com.br.

O pedido de nulidade foi formulado pelo próprio Gonet depois que o ministro André Mendonça, relator no STF da Operação Compliance Zero, retirou o sigilo de um relatório de 218 páginas da PF, elaborado a partir de dados extraídos de um celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, preso em novembro de 2025. 

O documento não registra contato salvo como “Paulo Gonet” no aparelho do banqueiro. 

As menções ao PGR aparecem sobretudo em conversas com o advogado Ciro Soares, apontado pela PF como interlocutor entre os dois. Soares foi um dos defensores que impetraram habeas corpus no STJ contra a prisão preventiva de Vorcaro.

Abaixo, item a item, o que o relatório da PF descreve sobre essas relações.

1. Intermediação permanente de Ciro Soares
A PF localizou, em chats de WhatsApp, menções a pessoa que “pode se tratar de Paulo Gonet”, especialmente nas conversas de Vorcaro com o terminal salvo como “Ciro Soares”. O advogado encaminha recados, fotos e áudios e, em vários trechos, atribui as mensagens ao PGR.

2. Interferência atribuída a Gonet em eleição do CNPG (abril de 2024)
Em 14 de abril de 2024, Soares escreveu a Vorcaro: “Amizade é tudo viu irmão” e “Gonet é firme”. Pediu que o banqueiro lesse uma mensagem encaminhada e reforçou: “Fique só com vc”. Em áudio, o advogado relatou: “Cara, eu pedi o Gonet ontem, ele me ligou falar um assunto, aí eu falei, Gonet, pede o cara para tirar a candidatura, pede o cara que o cara vai tomar uma porrada arretada. Aí o Gonet me ligou ontem à noite e falou: Ciro, acabei de ligar para ele, ele vai desistir.” Vorcaro perguntou se “o cara largou?”; Soares confirmou; o banqueiro respondeu “Top demais”. O contexto, segundo a PF e reportagens que reproduziram o material, era a disputa pela presidência do Conselho Nacional dos Procuradores-Gerais (CNPG), em favor de Jarbas Soares Júnior, então procurador-geral de Justiça de Minas Gerais e irmão de Ciro. Jarbas assumiu o colegiado em 15 de maio de 2024. Uma mensagem de Jarbas, encaminhada a Vorcaro, agradece a “presença mais próxima do PGR Dr. Gonet”.

3. Foto ao lado de Gonet e ligações em cadeia (15 de março de 2025)
Ciro Soares enviou a Vorcaro uma selfie ao lado de Paulo Gonet e escreveu: “Liga aqui” e “Ele quer falar com você”. A perícia registrou chamadas consecutivas entre o banqueiro e o advogado na sequência, o que a PF interpretou como indício de que Vorcaro teria falado com Gonet pelo aparelho de Soares.

4. Mensagens de “saudade”, “torcida” e convite a Londres (28 e 29 de março de 2025)
Soares encaminhou a Vorcaro textos que atribuiu ao PGR: “Que bom! Estou na torcida por vocês!” e “Já estou com saudades de você! Estou embarcando para Roma”, além da instrução “Manda essa mensagem para ele”. O advogado acrescentou que Gonet “lhe adora” e “vai para Londres com a gente”. Encaminhou ainda o comentário “Oba!!! Tomara que tenha charuto e macalan!”. Vorcaro respondeu pedindo para agradecer o carinho e falando em marcar um encontro. No dia seguinte, Soares disse que “Gonet perguntou se o filho dele pode ir com a gente para Londres”. Vorcaro respondeu: “Obvio ne”. Soares também encaminhou a frase “Você é uma máquina”, atribuída a Gonet. O fórum jurídico em Londres, patrocinado pelo Master, acabou cancelado.

5. Custeio da viagem de Pedro Gonet
Em 11 de abril de 2025, a funcionária identificada como “Ana Matos Mkt” perguntou a Vorcaro se nomes da lista estavam aprovados “para irem pra Londres com despesas pagas por nós”. O banqueiro rejeitou a lista ampla (“Piraram”, “Não da para bancar outros”), mas autorizou: “Pedro e ciro ok” — referência, segundo a PF, a Pedro Gonet, filho do PGR, e a Ciro Soares. Em junho de 2025, Soares voltou ao tema: “PG confirmou a ida para Londres” e perguntou se o “Pedrinho, filho do PG, pode ir com a gente?”.

6. Ida à PGR após reportagem sobre o Master
Em abril de 2025, depois de reportagem sobre operações entre o Banco Master e o BRB, Soares disse a Vorcaro que precisava falar com urgência e que estava “indo no PG agora”.

7. Pedido para “reforçar com Andrei e Paulo” às vésperas da prisão
Em notas do celular de Vorcaro e em mensagens enviadas a interlocutor que a PF associa a Alexandre de Moraes, o banqueiro pediu, em novembro de 2025, que se reforçasse a situação com “Andrei e Paulo”, para que “ninguém de baixo” fizesse “uma sacanagem”, senão iria “tudo pro saco”. A PF registra que “Andrei” pode indicar o então diretor-geral da PF, Andrei Passos Rodrigues, e “Paulo”, o procurador-geral Paulo Gonet. Vorcaro foi preso em 17 de novembro de 2025, na Operação Compliance Zero.
Gonet pediu a anulação do relatório sob o argumento de que Mendonça teria excedido a competência do relator ao determinar exame do material com foco em autoridades específicas, sem pedido do Ministério Público. No parecer, o PGR não tratou publicamente das mensagens em que o próprio nome aparece. Calmon inverte o raciocínio: justamente porque Gonet figura nos fatos narrados pela PF, ele estaria impedido de opinar sobre a validade do documento.
As atribuições ao PGR, é preciso registrar, passam pelo filtro de Ciro Soares. A PF trabalha com inferência a partir de encaminhamentos, fotos, áudios e contexto — não com um chat direto salvo em nome de Gonet no telefone de Vorcaro. Isso não apaga o conteúdo das peças tornadas públicas; apenas delimita o que o relatório prova de forma direta e o que reconstrói por cadeia de interlocução. É sobre esse conjunto que Eliana Calmon afirma que o chefe da PGR não poderia atuar.


Diário do Poder

'Tudo por Dinheiro' - Augusto Nunes e Cristyan Costa

Atarantado com as revelações sobre as patifarias de Moraes, o STF tem duas opções: o caminho da razão ou a trilha do penhasco 



Depois da ligação promíscua entre Alexandre de Moraes a Daniel Vorcaro, ministros são flagrados dando risada na saída do plenário, no dia 2 de setembro de 2026 - Foto: Brenno Carvalho/Agência O Globo


H á seis anos, Alexandre de Moraes tem feito o diabo para tornarse a figura mais temida do Supremo Tribunal Federal (STF). Amparado no Inquérito das Fake News, com o apoio militante da bancada majoritária liderada por Gilmar Mendes, o ministro institucionalizou o estilo prende-e-arrebenta na cruzada para consolidar uma abjeção: a democracia à brasileira, codinome da ditadura do Judiciário. Até este começo de setembro, imaginava-se que Moraes agia assim por motivos políticos: faltava pouco para tornar-se oficialmente gerente-geral do país. Nesta semana, descobriu-se que era investimento.

Moraes fez o que fez por dinheiro, informou a catarata de provas, evidências e indícios exposta ao país pelo ministro André Mendonça. Um dos dois integrantes da Corte indicados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, é ele o relator do inquérito que apura bandalheiras que, entre outras relações promíscuas, vinculam o ex-banqueiro Daniel Vorcaro ao ministro que, a pretexto de preservar o Estado de Direito, mandou às favas a Constituição, os códigos legais, as fronteiras que separam os Três Poderes, a sensatez, o equilíbrio e a imparcialidade. Parecia um caso clínico. Era cobiça.

No começo da manhã desta terça-feira, 1º de setembro, estavam reunidos na sede do STF juristas brasileiros, italianos e espanhóis do Brasil, da Itália e da Espanha, convidados para discutir durante três dias os impactos da inteligência artificial, a independência dos tribunais e supostas “ameaças à democracia” no mundo inteiro. A serenidade das tertúlias foi repentinamente quebrada por notícias, transmitidas por WhatsApp, dando conta do vazamento de um relatório sigiloso da Polícia Federal (PF). As safadezas armazenadas num dos celulares usados pelo dono do falecido Banco Master resultaram num documento com mais de 200 páginas, preenchidas com mensagens, contratos multimilionários e pedidos de ajuda. Somadas, imediatamente ampliaram as dimensões da maior crise da história do STF.


Lula, Viviane Barci e Alexandre de Moraes - Foto: Flickr/STF

Crimes e pecados Decretada por André Mendonça, a quebra do sigilo permitiria que, em poucas horas, milhões de brasileiros se assombrassem com a versão togada da Ópera do Malandro — e entendessem que chegou a hora do basta. O país inteiro agora sabe que Moraes editou, pessoalmente, o contrato de R$ 131 milhões (pensava-se que eram R$ 129 milhões) entre o Master e o escritório de Viviane Barci, mulher do ministro. Sabe também que o ministro negociou com o parceiro perdulário outros R$ 50 milhões, pagos em dinheiro, bens e serviços. 

Parte do valor seria descontada do uso de um jatinho particular pela família Moraes. Numa mensagem, Viviane disse a Vorcaro que estava “gostando muito” da aeronave, assim como do tratamento dispensado por todos os funcionários da empresa que transportava os ilustres passageiros. Outros recados atestam o estreitamento da amizade cada vez mais lucrativa — para a família do ministro. Num deles, Vorcaro diz a Moraes que mudara a data de uma viagem a Abu Dhabi para não perder um encontro da dupla. Em outro, avisa que conseguira colocar R$ 800 milhões no Master e receberia outros R$ 400 milhões na semana seguinte.

O problema, ressalvou Vorcaro, era a insistência do Ministério Público e da Polícia Federal em tentar convencer o Banco Central a conter os movimentos do banqueiro. “É importante reforçar com Andrei e Paulo pra não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem que aí vai tudo pro saco”, explicou. Andrei Rodrigues é o diretor-geral da PF. Paulo Gonet chefia a Procuradoria-Geral da República. O uso do prenome comprova a intimidade reinante entre comparsas. Paulo e Andrei, reiterou o queixoso, precisavam livrá-lo do que chamou de “algum ato tresloucado”.


Diálogo entre Vorcaro e Moraes = Foto: Reprodução/Estadão



Mensagens enviadas pelo ministro Alexandre de Moraes ao banqueiro Daniel Vorcaro - Foto: Reprodução/Metrópole

Vorcaro é um pedinte compulsivo, mas sabe retribuir — com palavras ou em espécie. Disse a Moraes que contraíra “uma dívida de vida” com o parceiro poderoso, a quem agradeceu por “tudo”. Mensagens mais aflitas foram remetidas às vésperas da primeira prisão. Em 14 de novembro de 2025, Vorcaro encontrou Moraes na casa do seu protetor. Na noite seguinte, solicitou outra conversa e quis saber: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. Fora do Brasil, naturalmente. No domingo, 16, informou em pleno voo que pousaria às duas da tarde e seguiria para o encontro. Na segunda-feira, quando se preparava para embarcar num avião particular com destino a Malta, foi preso por agentes da PF. 

A PF desvendou o modus operandi dessas conversas. O contato “Alexandre de Moraes BRASILIA” havia configurado o diálogo para apagar as novas mensagens depois de 24 horas. Vorcaro também recorria a imagens de visualização única. O aparelho, contudo, preservou o conteúdo. O empresário escrevia os textos no aplicativo Notas, fazia uma captura da tela e, segundos depois, abria o WhatsApp. O sistema do iPhone criava simultaneamente um arquivo temporário com o mesmo conteúdo. Os registros internos guardavam o horário de cada movimento. 

A repetição desse roteiro permitiu à PF relacionar 52 notas ao número atribuído a Moraes — cinco preservadas na própria conversa e outras 47 recuperadas por meio de rastros digitais. A linha direta entre Vorcaro e Moraes havia sido aberta em dezembro de 2023. Quem fez a ponte foi Fábio Faria, ex-deputado federal, ex-ministro das Comunicações do governo Jair Bolsonaro, genro de Sílvio Santos e criador da SBT News.

Na tarde desta terça-feira, tangido pelas revelações, Gilmar Mendes dirigiu-se ao Palácio do Planalto para uma reunião com Lula — fora da agenda oficial. O decano do STF advertiu o petista que seria perigoso para o presidente “largar a mão do STF”, principalmente a um mês da eleição. O ministro fez questão de lembrar que o chefe do Executivo deve seu retorno ao poder ao Supremo. Também registrou que, sem a ajuda do tribunal, Lula talvez não conseguisse governar durante o terceiro mandato.



Diálogo envolvendo Daniel Vorcaro sobre emissão de cartões a filhos de Alexandre de Moraes | Foto: Reprodução/Estadã


Bombas e consultas

Gilmar também acusou o governo federal de permitir que o conflito entre Mendonça e a cúpula da PF fosse longe demais. Há alguns meses, Rodrigues vem reclamando da atuação do relator do caso do Master. E cansou-se de cobrar da Advocacia-Geral da União (AGU) alguma providência contra as decisões de Mendonça. No Brasil destes tempos estranhos, ser honesto é delinquência. Cumprir a lei é coisa de otário. E ministro que investiga os afilhados do decano merece castigo. 

O diretor-geral, por exemplo, vive se queixando das restrições impostas à cúpula da PF na investigação das bandalheiras no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) que alcançaram Lulinha. Rodrigues tampouco apreciou a entrega de dados brutos ao gabinete de Mendonça e a exigência de que eventuais trocas nas equipes policiais fossem comunicadas previamente ao relator. Para Mendes, Lula deveria ter amparado o diretor-geral antes que a disputa desembocasse em vazamentos aos jornalistas. 

Enquanto Gilmar repreendia Lula, o presidente do STF procurava saber o que os ministros achavam da bomba que caíra em suas cabeças. À noite, informou que se pronunciaria sobre o episódio e antecipou o tom que pretendia adotar. Foi aprovado. Paralelamente, Gilmar estrelava em sua mansão no Lago Sul a recepção aos juristas estrangeiros, concebida para garantir aos visitantes que nada havia de anormal. Na manhã de quartafeira, Fachin comunicou aos presididos que leria a nota em nome do tribunal e pediu-lhes que evitassem comentários sobre o escândalo. Foi atendido.

Moraes e Mendonça ficaram lado a lado em silêncio. Os demais fingiram que não acontecera nada de mais. Longe de testemunhas, os superdoutores admitiam o tamanho da crise. Uma ala sussurrava que Moraes devia explicações, outra queixava-se da falta de corporativismo exibida por Mendonça. No fim da sessão, Moraes, Mendes, Cristiano Zanin, Fachin, Flávio Dino e Luiz Fux formavam uma roda quando, por algum motivo, desandaram em risos soltos e gargalhadas. O fotógrafo Brenno Carvalho, de O Globo, registrou a cena — que viralizou na internet como demonstração coletiva de desprezo pelos honestos e honrados.


Cegueira voluntária 

Fora da roda risonha, Mendonça não esperou pelo motorista que costuma buscá-lo no Salão Branco e seguiu a pé rumo ao estacionamento. Ele já se habituou ao isolamento num tribunal controlado há seis anos pelo grupo fora da lei. Certamente sabe que é o único que será aplaudido se for visto caminhando em qualquer rua de qualquer cidade do país. Os súditos de Gilmar e cúmplices de Alexandre só parecem à vontade no que lhes serve de local de trabalho e esconderijo. Flávio Dino, por exemplo, aconselhou um empresário da área da saúde a afastar-se do corajoso relator. '

O ministro maranhense requisita carrões blindados para circular em sossego por São Luís do Maranhão. Gilmar recomendou a um empresário do ramo da comunicação que se mantivesse distante de Mendonça e suspendesse os encontros que vinha promovendo entre o relator e representantes de diversos setores produtivos. As revelações desta semana devem endurecer o cerco.

O surto de cegueira voluntária se espalha. Gonet solicitou a nulidade do relatório sem dar um pio sobre as mensagens que o incluem entre as autoridades cuja proteção Vorcaro costumava buscar. Na quarta-feira, os discípulos de Gilmar miraram o depoimento de Vorcaro, por videoconferência, a um juiz auxiliar do gabinete do relator, sem a presença da PF. O decano também andou murmurando que Mendonça enriquecera com um instituto que fundou, o Iter. Gilmar falando em enriquecer com institutos é piada pronta.

Os ministros do STF, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o procurador-geral da República, Paulo Gonet, em solenidade comemorativa ao Dia do Soldado (Brasília, 2024) - Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil


Acervo sideral 

Nesta quinta-feira, ele propôs a Fachin a retirada dos delegados da PF que trabalham nos gabinetes do STF. Dos cinco policiais cedidos ao tribunal, dois auxiliam Mendonça nos casos Master e INSS. Um atua com Moraes. Outro, com Fux (o quinto trabalha na segurança). No mesmo dia, Moraes expandiu o acervo sideral do Inquérito das Fake News com acusações a Mendonça. Sem compreender que as coisas mudaram dramaticamente, o ex-carcereiro-geral da nação contou que já ordenara ao diretor-geral da PF o envio imediato dos relatórios de inteligência que mencionem integrantes do Supremo. 

Não confessou como é a vida mansa de multimilionário. Também evitou discorrer sobre a arte de quintuplicar patrimônios imobiliários.

Moraes enxerga “fortes indícios” de que Mendonça, na condução dos casos Master e INSS, praticou três delitos: improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade. Há outros, que ainda examina. Um deles: direcionar apurações contra ele próprio e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, por motivos pessoais e políticos. Moraes retirou o sigilo da decisão, comunicou o que resolvera ao amigo que chefia a PGR e enviou o material a Fachin. 

Mendonça pretende liberar o pedido de investigação contra Moraes na próxima semana. Depois disso, caberá a Fachin decidir quando levará o caso a julgamento. Quando o pedido chegar ao plenário, Moraes e Dias Toffoli ficarão fora da discussão e da votação. Sobrarão oito ministros. Mendonça conta com o próprio voto e o apoio de Fux. Gilmar, Dino e Zanin formam o bloco contrário à condução do relator. Cármen Lúcia, Nunes Marques e Fachin são incógnitas. A ala de Gilmar, em tese, larga em vantagem: 3 a 2. A trinca sem posição definida decidirá se o STF vai investigar os trambiques gravíssimos desvendados pela PF ou enterrar o relatório que os tornou públicos. 

Vera Chemim, mestre em Direito Público pela FGV, afirma que o que já se sabe é suficiente para justificar a abertura de um processo de impeachment. Para ela, as mensagens não podem ser omitidas nem escondidas “debaixo de um tapete meramente processual”. Vera sustenta que Mendonça agiu corretamente: a PF encontrou os diálogos durante a investigação do Master e só então o relator pediu que o plenário deliberasse sobre o desempenho de Moraes.

Vera defende a abertura imediata de uma investigação e o afastamento temporário de Moraes. A jurista também prevê que uma ala do STF tentará transformar Mendonça em suspeito e obter a nulidade dos atos praticados por ele. Se isso ocorrer, afirma, a discussão processual servirá para garantir a impunidade do ministro citado nas mensagens. 

Velho roteiro Desde a abertura do Inquérito das Fake News, o Brasil é submetido a um estado de exceção comandado pelo Supremo. Em nome da defesa da democracia, a Corte acumulou as posições de vítima, investigadora e julgadora, transformou medidas extraordinárias em rotina e alargou os limites da própria competência. 

A Vaza Toga escancarou tal sistema e consolidou um método de reação: diante de revelações incômodas, discute-se primeiro quem vazou, quem tinha competência, qual procedimento foi adotado e se as provas podem ser anuladas. O conteúdo, por mais grave que seja, fica para depois. Desta vez, porém, as mensagens vieram de um relatório oficial da PF, produzido a partir do celular apreendido com Vorcaro. Mendonça apenas determinou que a polícia identificasse quem estava do outro lado da conversa. 

Ainda assim, o tribunal está dividido antes mesmo de decidir o que será julgado: a conduta de Moraes, a atuação do relator ou ambas. Se o foco for transferido para Mendonça, o STF terá transformado em suspeito o ministro que mandou esclarecer os fatos e deixará em segundo plano aquele cujo nome apareceu em contratos, encontros promíscuos e pedidos de gordos adjutórios. 

Ou o Supremo aceita o fim do estado de exceção concebido há seis anos ou tenta usá-lo para, mais uma vez, proteger um de seus figurões. Perplexo com a chegada ao cume do Judiciário da ladroagem endêmica, o Brasil que pensa e presta exibe a espécie de perplexidade que precede a indignação. 

Neste 7 de Setembro, os brasileiros poderão demonstrar nas ruas que Moraes e seus cúmplices merecem a reedição das duas famosas manchetes de uma palavra só publicadas pelo Correio da Manhã em 30 e 31 de março de 1964, ambas endereçadas aos figurões do governo de João Goulart. Primeira: BASTA. Segunda: FORA. A terceira nem foi necessária. O alvo sumira.


Capa da Revista Oeste, Edição 327. Ministro André Mendonça em sessão plenária no STF - Foto: Victor Piemonte/STF

 Augusto Nunes e Cristyan Costa - Revista Oeste


Flávio Gordon - 'Não, Roberto, o bandido não era você'

 Coluna dedicada à honra da família Mantovani, vítima da cleptocracia luloalexandrina




Roberto Mantovani e Alexandre de Moraes - Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock/Reprodução/Antonio Augusto/STF


“B andido” — disse Alexandre de Moraes a Roberto Mantovani no incidente do aeroporto de Roma, na única cena até hoje registrada em vídeo. Entre a incredulidade e a resignação, por saber com que figura poderosa estava lidando, o patriarca da família Mantovani só conseguiu responder com uma pergunta: “Eu, né?” Como quem diz: sou mesmo o bandido nessa história? 

Ali, naquele 14 de julho de 2023, Roberto não tinha como dimensionar toda a extensão da ironia contida naquela troca de palavras. Não poderia imaginar que, três anos mais tarde, o país teria diante de si mensagens, contratos, jatinhos, cartões de crédito, encontros e declarações de gratidão capazes de lançar sobre a família Moraes suspeitas incomparavelmente mais graves do que qualquer impropério pronunciado à porta de uma sala VIP de aeroporto. Assim que, hoje já é possível responder à pergunta de Roberto com toda a certeza: não, Roberto, você não era o bandido da história.

Talvez nunca tenha havido, na vida pública brasileira recente, demonstração tão perfeita daquilo que os antigos chamavam de hybris: a desmesura do homem (e, por extensão, de sua família) que, habituado à obediência dos outros, já não reconhece acima de si nenhuma lei, jurídica, moral ou simplesmente humana. Alexandre de Moraes não se comportou naquele aeroporto como um cidadão qualquer envolvido numa discussão desagradável. 

Comportou-se como a própria encarnação ambulante do Estado. Não era a primeira vez que o falso juiz usava a toga como cassetete. Antes mesmo do episódio de Roma, havia cometido uma sucessão de abusos de autoridade que àquela altura já deveriam ter provocado uma reação contundente da sociedade: mandou prender o então deputado federal Daniel Silveira, em fevereiro de 2021, por críticas ao STF, passando por cima da imunidade parlamentar prevista na Constituição; prendeu o jornalista Oswaldo Eustáquio, também em 2021; autorizou, em outubro de 2022, a prisão de Roberto Jefferson, cumprida em meio a um tiroteio entre os capangas alexandrinos e o deputado, ocorrido na porta de sua casa; perseguiu o blogueiro Allan dos Santos até empurrá-lo para o exílio nos Estados Unidos, depois de bloquear suas contas e decretar sua Itatiaia prisão; e, no mesmo período, autorizou buscas e apreensões contra empresários cujo único crime era financiar manifestações contrárias ao seu grupo político.


O deputado Daniel Silveira, durante uma sessão na Câmara - Foto: Zeca Ribeiro/Câmara dos Deputado

Moraes quase não foi criticado, muito menos denunciado, processado ou condenado por nenhum desses episódios — não porque fosse inocente, mas porque contava, como ainda conta, com uma rede de proteção nas altas esferas do poder da República, blindagem que o próprio caso Vorcaro viria a escancarar. Era esse o homem, e essa a impunidade que o cercava, que a família Mantovani encontrou, sem saber, num corredor de aeroporto. Bastou o entrevero para que toda a engrenagem institucional brasileira — incluindo a Procuradoria-Geral da República (PGR) do enlameado Paulo Gonet — fosse mobilizada na perseguição dos Mantovani. 

O que se seguiu foi busca e apreensão contra a família, celulares e computadores tomados, sigilos quebrados, um inquérito conduzido pela banda podre da Polícia Federal (aquela de Andrei Rodrigues, o tomador de uísque do Vorcaro), acompanhado pelo Partido-Corte e impulsionado pela espúria PGR. Tudo isso por causa de uma discussão de aeroporto, ocorrida em território estrangeiro, sem áudio que permitisse saber quem dissera o quê e sem prova de agressão grave. 

Uma discussão que a maior parte da imprensa dita “profissional” — essa mesma que hoje se espanta ao descobrir viver numa ditadura judicial — tratou como um ataque às instituições democráticas por parte de “bolsonaristas”, comprando acriticamente a versão de Moraes e sua família. E também a versão do Descondenado-em-chefe, que, além de qualificar os integrantes da família Mantovani de “animais selvagens” que deveriam ser “extirpados”, chegou ao cúmulo de pedir que o chanceler da Alemanha fizesse ingerências na empresa alemã na qual Roberto trabalhava, tendo por objetivo a sua demissão.

 Ao contrário da imprensa sicofanta, eu aceitei desde sempre, como continuo aceitando como mais provável, a versão da parte mais fraca do embate — a família Mantovani. Até por saber que Alexandre de Moraes é um mentiroso contumaz. Aliás, num trabalho investigativo próprio, à época apresentado num fio no X, o jornalista Ivanildo Terceiro demonstrou por A mais B que a versão dos Mantovani era, de fato, a mais verossímil, e correspondia mais fielmente também à versão da polícia italiana.


A família Mantovani, que teria supostamente agredido o filho do ministro Alexandre de Moraes - Foto: Reprodução/Redes socias

O depoimento prestado à Polícia Federal pela esposa de Roberto Mantovani, Andreia Munarão, é minucioso, e vale a pena contá-lo com todos os seus detalhes, porque foi justamente o detalhe que a imprensa filo-alexandrina sempre lhe recusou. Segundo o relato, a filha e o genro do casal chegaram antes e ouviram dos funcionários que a sala VIP estava lotada. Foi então que Andreia viu Alexandre de Moraes entrar sem qualquer obstáculo. Entendendo — decerto corretamente — que o Careca do Master furava a fila por privilégio de cargo, reclamou com as atendentes: político entra, mas família com criança de colo, não? Andreia afirma, categoricamente, que não se dirigiu a Moraes.

Foi nesse instante que um rapaz de blazer e óculos (depois identificado como Alexandre Barci de Moraes, o Xandinho, filho do ministro) e uma moça se voltaram contra ela. A moça — a Xandinha, uma das filhas de Moraes — teria exibido o dedo médio. O rapaz mandou beijos e passou a dirigir-lhe frases de teor sexual que a decência, normalmente, me faria poupar o leitor de conhecer, mas que o dever jornalístico me obriga a reproduzir, pois é do acúmulo de tais baixezas que se mede a índole e a educação da famiglia Moraes.

“Cincão pela sua bundinha”, “putinha”, “vou comer o seu cuzinho”, “vou beijar seus peitinhos” — disse o Xandinho a Andreia. Roberto perguntou por que o rapaz fazia aquilo, pediu que parasse e, segundo o relato da esposa, tentou afastá-lo com o braço. Ela diz que não chegou a ver o alegado tapa; soube depois, pelo próprio marido, que ele tentara apenas afastar Barci e que, no gesto, os óculos do rapaz caíram — nada além disso, por mais que a acusação tenha preferido, depois, a versão mais dramática do “tapa no rosto”, narrado com a precisão literária de quem acrescenta intenção moral a uma sequência muda de fotogramas — e reforçada pela imprensa sabuja que, no caso do jornal O Globo, chegou a dar-lhe forma de história em quadrinhos, retratando um filho de Alexandre de Moraes, com a aparência bem mais juvenil do que a realidade, sendo esbofeteado violentamente por Roberto Mantovani.


Matéria publicada no jornal O Globo em 18/07/2023 | Foto: Reprodução O Globo

Sem vaga em nenhuma outra sala, a família teve de voltar pelo único corredor disponível — o mesmo por onde acabara de passar. Barci teria saído atrás deles e repetido as ofensas, chegando a perguntar, em plena via pública do aeroporto, “cadê a putinha”. Alex e Giovanni, filho e genro de Roberto, tentaram acalmar os ânimos. Foi então que o próprio Alexandre de Moraes saiu da sala, fotografou a família, e alguém ao seu lado disse que os Mantovani “responderiam no Brasil” — frase que, vinda de quem vinha, nunca foi um mero desabafo, mas uma ameaça real de abuso de autoridade. 

Alex filmou a cena e perguntou se aquilo era mesmo uma ameaça. E foi nesse momento — o único, repito, registrado em vídeo — que Moraes proferiu o xingamento “bandido”, pôs a mão no ombro do próprio filho e voltou para dentro da sala. Andreia nega, até hoje, ter xingado o ministro ou qualquer membro de sua família. É essa versão — detalhada, coerente internamente, e nunca desmontada por prova em contrário — que foi tratada pela máquina do Estado e pela imprensa bovina como fantasia de gente mal-educada, enquanto a palavra do ministro valeu como sentença.

Mas a atitude atribuída ao filho de Moraes seria apenas uma grosseria privada se não exprimisse algo maior: a convicção — reforçada pela falsa narrativa da “defesa da democracia” contra o “golpismo bolsonarista” — de que certas famílias pertencem a uma casta superior e de que os demais brasileiros existem para reverenciá-las e servi-las. É exatamente esse pano de fundo que o levantamento do sigilo do relatório da PF, que aponta os laços entre Vorcaro e Moraes — finalmente reportados por uma imprensa que, subitamente, parece ter reaprendido a fazer jornalismo — veio iluminar.


Alexandre Barci de Moraes - Foto: Reprodução/Barci de Moraes

Em julho de 2023, quando ocorreu o episódio de Roma, a relação íntima entre a família Barci-Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro, então à frente do Banco Master, estava prestes a começar, por intermediação de Fábio Faria. Foi justamente nesse momento — dezembro de 2023 — que  seguranças, instruindo a equipe a proporcionar uma “experiência completa” e vetando que funcionários tirassem fotos com o ministro. Não foi um favor isolado: foi, ao que tudo indica, o início de uma rotina que se estenderia pelos anos seguintes.

As mensagens hoje conhecidas mostram um padrão consolidado. Em janeiro de 2024, foi assinado contrato de R$ 131 milhões (R$ 3,6 milhões mensais por três anos) entre o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, e Vorcaro. Os metadados do documento, recuperados do celular do banqueiro, indicam que um perfil identificado como “Ministro Alexandre de Moraes” editou a minuta final às 23h04 de 15 de janeiro de 2024, cerca de uma hora e quarenta minutos depois de Vorcaro devolver o arquivo com revisões. O escritório confirma que, “na condição de marido” (contenham o riso, leitores), o ministro acessou e editou o texto, alegando consulta sobre eventual impedimento. Que bela confissão! 

Em maio de 2025, Vorcaro transferiu a Viviane cotas de um jato Legacy 650 e de um helicóptero Airbus EC155, negócio avaliado em R$ 50 milhões e supostamente contabilizado como pagamento por “serviços jurídicos”. A Primeira-Dama do Master escreveu a um funcionário que estava “gostando muito” do jatinho. Em outubro do mesmo ano, o escritório de Dona Vivi solicitou a Vorcaro dois cartões de crédito com limite de R$ 300 mil cada, destinados aos filhinhos do casal Barci-Moraes (aqueles mesmos pimpolhos tão bem-educados, como se viu no incidente do aeroporto de Roma). O pedido foi prontamente aprovado pelo banqueiro.



Alexandre de Moraes e Viviane Barci de Moraes na posse de Lula como 39º presidente do Brasil (01/01/2023) - Foto: Ricardo Stuckert/PR


Mensagens da Polícia Federal indicam ainda que o próprio Moraes ajudou a organizar, em Londres, eventos jurídicos “superexclusivos” patrocinados por Vorcaro em 2024 e 2025 — aprovando convidados, vetando nomes e recebendo elogios efusivos do banqueiro, que chegou a dizer que excluir determinado participante da programação “mataria” o ministro, ao que tudo indica por puro capricho.

Há também, é claro, as mensagens da própria véspera da queda. Três dias antes de ser preso, em 14 de novembro de 2025, Vorcaro escreveu a Moraes: “gratidão da minha vida a você”, afirmando que ele, sua família e seus funcionários tinham com o Careca do Master “uma dívida de vida”. No dia seguinte, perguntou se já deveria deixar o país: “Acha que segunda já tenho que estar fora?” Na véspera da prisão, questionou se havia risco de a operação ocorrer “amanhã de manhã” — poucas horas antes de a prisão preventiva ser de fato decretada. Os investigadores da PF apontam que os dois usavam mensagens de visualização única, o que dificulta reconstituir as respostas do ministro. Recorde-se a propósito que, no voto em que condenou a patriota Débora do Batom, Moraes afirmou que apagar mensagens configurava obstrução de justiça. 

Some-se a tudo isso a mensagem atribuída a Vorcaro sobre a necessidade de “proteção de Andrei e de Paulo”, identificados pela PF como o diretorgeral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o procurador-geral da República, Paulo Gonet, ambos frequentadores, junto com o próprio Moraes, da Conspiração do Uísque, em Londres. E some-se, também, a série de mensagens atribuídas ao próprio Gonet, enviadas a Vorcaro por meio de um advogado intermediário, com frases como “estou na torcida por vocês” e “já com saudade de você”, entremeadas de referências a viagens, charutos e uísque Macallan — o mesmo Gonet que, à frente da PGR, foi quem insistiu no prosseguimento do inquérito contra os Mantovani depois que a própria Polícia Federal o havia encerrado sem indiciamento. 


Andrei Rodriges e Paulo Gonet - Foto: Montagem Revista Oeste/Edilson Rodrigues/Agência Senado/Gustavo Moreno/ST

Recorde-se: Hiroshi Sakaki, o primeiro delegado daquele caso, ao examinar as imagens do aeroporto de Roma, concluiu não ser possível estabelecer com segurança a autoria das ofensas e encerrou a investigação sem indiciar ninguém. Em qualquer sistema minimamente saudável, o episódio teria terminado ali. Mas o camarada Gonet pediu novas diligências, o processo foi reaberto e o caso passou a outro delegado, Thiago Severo de Rezende, um superior de Sakaki, que reverteu a conclusão anterior e indiciou Roberto, Andreia e o genro do casal. Duas semanas antes dessa reviravolta, esse mesmo delegado havia sido indicado para um posto de oficial de ligação da PF na Europa, com mudança de sede e todas as vantagens que a função carrega. Era a aplicação usual da governança alexandrina — os puxa-sacos são premiados, os dissidentes e denunciantes (como Eduardo Tagliaferro, por exemplo), perseguidos implacavelmente.

Ao fim, o PGR, que amava uísque, charutos e caronas em jatinhos, denunciou os Mantovani, desprezando parecer técnico da própria Secretaria de Perícia da Procuradoria, que recomendava a obtenção de cópia integral das imagens antes de formular a acusação. 

Gonet preferiu a versão da família poderosa e transformou uma altercação sem provas definitivas, ocorrida no exterior, em caso criminal perante o Supremo. Tratava-se, conforme a Grande Narrativa criada pelo luloalexandrismo com apoio da Rede Globo, de mais um “ataque bolsonarista” contra a democracia.

Eis o mecanismo clássico do lawfare: não importa apenas obter uma condenação. Importa transformar o processo em castigo, expor os acusados, invadir sua intimidade, cobri-los de vergonha pública e ensinar a todos os demais a jamais confrontar a casta dominante. É terrorismo de Estado, a prática na qual o Careca do Master e seus capangas se especializaram. Os Mantovani foram apresentados ao país como agressores. Sua versão foi ridicularizada antes de examinada. E a única injúria claramente registrada em vídeo — o “bandido” pronunciado pelo próprio Alexandre de Moraes — não produziu consequência alguma para o agressor.




Mas o tempo passa e, hoje, depois do histórico 1º de setembro, corajosamente promovido por André Mendonça, aquela ofensa retorna como uma gosma pegajosa sobre o seu autor. Com ela, surge uma pergunta que o próprio país é convidado a fazer. O homem que chamou um cidadão comum de bandido enquanto sua família era conduzida em jatinhos de banqueiro, agraciada com cartões de limites extravagantes, beneficiada por contrato de nove dígitos que ele próprio ajudou a redigir, ainda tem autoridade moral para permanecer na pose virtuosa — que lhe foi investida pela imprensa (lembrando desse e desse outro exemplo) — de vigia dos muros das instituições democráticas contra as invasões bárbaras do bolsonarismo? 

Os processos que conduziu, as sentenças que proferiu, os danos que causou devem permanecer intactos e impunes? Roberto Mantovani questionou: “O bandido sou eu?” Durante três anos, o Estado brasileiro e a imprensa corrupta responderam que sim. As mensagens do caso Master acabam de reabrir esse julgamento. Desta vez, os brasileiros podem ver, com nomes, datas e valores em reais, quem viajava na primeira classe, quem recebia os favores, quem editava os contratos, quem organizava os encontros, quem prometia proteção e quem, afinal, mobilizava contra um pai de família — e contra muitos outros cidadãos inocentes — a máquina inteira do Estado por pura autoblindagem.

Não, Roberto. Você nunca foi o bandido da história. Ao que tudo indica, você foi apenas o homem comum que, por alguns segundos, recusou-se a baixar a cabeça diante do figurão da República, que já se acostumara a ser chamado, no bom português do banqueiro ladrão (seu amigo de fé e irmão camarada), de “ultra VIP”. Se o que temos no Brasil é justiça, que se ache outra palavra para o resto — porque a que sobrar não vai servir para batizar o que fizeram com um pai de família num corredor de aeroporto, por conta de uma sala lotada e de um herdeiro mal-educado e mimado, que ninguém teve a decência de disciplinar, e cujo pai continua, até o presente momento, convicto de pairar acima das leis e do próprio Deus. 


Flávio Gordon - Revista Oeste




Fachin derruba pedido de Moraes para investigar Mendonça no Inquérito das Fake News

 Presidente do STF transfere o pedido de investigação para o processo sobre as suspeitas do Banco Master


Presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin | Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados


O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, retirou do Inquérito das Fake News o pedido de Alexandre de Moraes para investigar o ministro André Mendonça nesta sexta-feira, 4. O chefe da Corte transferiu a ação contra Mendonça do inquérito controlado por Moraes para o processo geral criado para investigar o escândalo do Banco Master. Fachin fixou o prazo de cinco dias úteis para o  procurador-geral Paulo Gonet e, sucessivamente, para Mendonça responderem sobre a investida.

O parecer da Procuradoria-Geral da República vai analisar a validade da medida e o mérito das acusações contra o relator. Moraes atribui a Mendonça crimes de responsabilidade, abuso de autoridade e improbidade administrativa na condução dos inquéritos do Banco Master e do INSS. O ministro André Mendonça apresentará a sua defesa sobre a investida e sobre as acusações logo em seguida.

Fachin tirou os documentos do controle exclusivo de Moraes para submeter o caso ao conjunto dos ministros no plenário. A unificação dos papéis no processo principal da crise busca checar se as acusações do magistrado possuem respaldo legal.


Prazos e apuração sobre abusos policiais


O despacho desta sexta-feira amplia as cobranças feitas na quinta-feira, 3. Fachin abriu o prazo comum de cinco dias úteis para Moraes, Mendonça, Paulo Gonet e o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, prestarem esclarecimentos por escrito.

O presidente da Corte cobrou explicações sobre o respeito às leis da magistratura nas ações da PF. O magistrado exigiu dados sobre o acesso indevido a documentos particulares e sobre o vazamento de informações sigilosas. A apuração avalia os procedimentos policiais usados na crise entre os integrantes do tribunal. 


Erich Mafra e Cristyan Costa - Revista Oeste