As novas tarifas aplicadas pelos EUA e as compras mais caras nos
supermercados mostram que o presidente não está nem aí para o
país. Só governa para ele
Presidente Lula fala com repórteres após reunião na Casa Branca com o presidente dos EUA, Donald Trump, na Embaixada do Brasil em
Washington, DC, EUA (07/05/2026) - Foto: Reuters/Elizabeth Frantz
Na quinta-feira, 16 de julho, o Brasil acordou com a realidade de
uma nova tarifa do governo norte-americano sobre as
exportações nacionais. Em que pese o fato de haver várias
exceções como suco de laranja, carne bovina, café, peças de
aviões, petróleo e celulose, ainda assim a tarifa de 25% sobre as
exportações brasileiras pode atingir mais de 40% de tudo o que
vendemos aos Estados Unidos. E atinge sobretudo produtos
manufaturados industriais, de maior valor agregado. Isso significa atingir
a indústria nacional, a parte que mostrou competência para se inserir na
cadeia produtiva americana e que paga melhores salários aqui no país.
Não por acaso, a nota da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo
é dura e aponta o dedo para o governo Lula. O trecho a seguir revela o
desprezo de Lula em defender os negócios e os empregos brasileiros
porque aposta em supostos ganhos eleitorais.
“Em um momento de extrema sensibilidade econômica mundial, a opção do
governo brasileiro por ruídos diplomáticos desnecessários, críticas personalistas,
discursos eleitorais e desalinhamento político com Washington acabou por minar
vínculos construídos ao longo de mais de 200 anos de cooperação bilateral.”
O comunicado, que ainda reclama da falta de uma condução diplomática
técnica e pragmática por parte do governo federal, expõe o ambiente
deteriorado da economia brasileira sob Lula numa declaração do próprio
presidente da entidade, Paulo Skaf:
“O mercado norte-americano é o
principal destino de produtos brasileiros de alto valor agregado. Esse novo pedágio’ imposto às exportações se soma à crônica realidade enfrentada pelas
nossas empresas, que convivem com alta carga tributária e com as taxas de juros
reais mais elevadas do mundo, entre outros desafios”.
Em um post na plataforma X, o secretário de Estado Marco Rubio, outro a
quem o presidente brasileiro se dedica a desdenhar com a verborragia
inconsequente de sempre, disse que “o presidente Lula e seu governo não
negociaram com os EUA de boa-fé”. Mais adiante, disse que “Lula colocou seu
próprio ego à frente de fazer um acordo pelo bem-estar do povo brasileiro”.
O
segundo homem mais importante da maior economia do planeta, que
compra quase US$ 4 trilhões do mundo, entendeu o Brasil e chegou à
mesma conclusão que maioria dos brasileiros.
Segundo a pesquisa Quaest divulgada na última quarta-feira, o instituto
que quase sempre traz levantamentos favoráveis ao governo, desta vez
demonstrou que 51% dos entrevistados dizem que Lula não merece um
novo mandato.
Esse número é bem maior que isso, sabemos. Assim como
não para em pé que a mesma pesquisa tenha trazido um aumento na
diferença das intenções de voto no segundo turno a favor de Lula de 8
pontos em relação a Flávio Bolsonaro.
No dia anterior, a Futura/Apex
mostrava empate técnico com diferença de 0,2 ponto percentual a favor
de Lula numa simulação de segundo turno. Nesta quinta, o PoderData
mostrou que ambos estão em empate técnico com diferença de apenas 2
pontos.
Não existe eleição ganha de véspera. E desta vez é bem improvável que a
tarifa americana gere dividendos eleitorais ao governo. Fadiga de
narrativa cansada. Não cola mais. Até porque a conta do supermercado
grita. Na lista de produtos da cesta básica, tomate, cenoura e batatainglesa mais que dobraram de preço entre janeiro e junho deste ano.
Feijão (+52,8%) e leite (+22%) são outros exemplos. Quem teve aumentos
salariais nessa proporção? Embora a inflação oficial de 4,64% registrada
pelo IPCA de junho (bem acima do teto da meta) seja uma média
ponderada de vários produtos, alimentação é o que mais pesa no
orçamento doméstico dos mais pobres.
Apesar do sofrimento de quem mais precisa que a economia funcione de
fato, gerando renda e mantendo estabilidade de preços, Lula faz de conta
que esse Brasil não existe e vive obcecado com a eleição de outubro em
um projeto de poder que atropela tudo o que vê pela frente. Da ética ao
bom senso e da necessidade de governar à obrigação de fazer diplomacia
pragmática, nada resiste ao desastre institucional do terceiro mandato do
petista. Lula é ele e só. Às favas com o país e os brasileiros que trabalham.
O populismo de programas sociais ineficientes que aumentam a pobreza é método. O gasto irresponsável do dinheiro do pagador de impostos, um
mero meio para se manter no poder.
Em consórcio com o Supremo Tribunal Federal, que acossa e mantém
sob controle os dois presidentes do Congresso, estabeleceu uma ditadura
tipo jabuticaba e sabor democracia. Mas democracia não tem meio
termo: ou é ou não é. E não temos sido desde, é sempre necessário
lembrar, a instalação do malfadado inquérito 4.781, aquele de 2019, os
das Fake News, que já dura mais de sete anos e não tem fim. É o “do Fim
do Mundo”, como apelidou o então ministro Marco Aurélio Mello,
espantado com tantos abusos e ilegalidades. Absurdos que fizeram
Alexandre de Moraes se tornar o ministro superpoderoso e incontrolável
que acaba de proibir Flávio Bolsonaro de visitar o pai até o fim do
primeiro turno.
Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes, Luiz Inácio Lula da Silva e Paulo Gonet, em solenidade comemorativa ao Dia do Soldado, em 2024,
Brasília - Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
É nesse ponto que o Brasil está. Como um governo que é fonte dos
maiores escândalos de corrupção, que promoveu o maior retrocesso
institucional de nossa história, e se beneficia dele, sobretudo com
perseguições à oposição, ainda se mantém? Justamente porque a
sociedade que deveria reagir não o fez na medida e quando deveria ter
feito.
À exceção da parte que tira enorme proveito desse absurdo estado
de coisas — como o lulismo e seus puxadinhos nos Três Poderes, nas
entidades de classe, na mídia e nas universidades, porque ganha
dinheiro com isso —, a outra parte da sociedade precisa reagir, porque é
quem paga a conta.
A nota da Fiesp é um alento diante disso tudo. De histórico poder político
e participação no debate nacional, ficou inerte por anos durante o pífio
mandato de Josué Gomes, filho de José Alencar, o vice de Lula nos dois
primeiros mandatos.
Antes, ainda sob a gestão de Paulo Skaf, a Fiesp
colocou um pato inflável gigante em frente à sede da entidade na Avenida
Paulista, a mais importante do país, em protesto contra o aumento da
carga tributária e o desgoverno de Dilma, que endividava o país com
gastos descontrolados fora do orçamento, tal como Lula repete agora.
O ano era 2016 e se tornou símbolo do impeachment da ex-presidente.
Falei disso outro dia. É preciso que mais gente fale. A nota de agora da
Federação das Indústrias de São Paulo, novamente sob o comando de
Skaf, não é ainda um novo pato, mas dá sinais de que a sociedade
organizada começa a reagir à destruição dos valores nacionais: a
democracia e a estabilidade econômica, o compromisso com a lisura
pública — catapultada pela Operação Lava Jato — e a diplomacia técnica e
de sucesso que marcou o Itamaraty até a chegada do PT ao poder.
Na seara econômica, há números e evidências de que o Brasil precisa
reagir ao buraco que ameaça o futuro de todos.
Os números podem ser
relativizados, até manipulados por análises tortas. A realidade, não.
Segundo dados do próprio governo aferidos pelo CadÚnico, a população
de rua praticamente dobrou nos três anos e meio deste terceiro mandato
de Lula. Saiu de 198 mil, em dezembro de 2022, para 392 mil, em junho
deste ano. Um aumento de 97,4% de cidadãos brasileiros transformados
em zumbis sociais por falta de crescimento econômico real.
Como pode a taxa de desemprego estar em seu patamar mais baixo? Que medição é
essa? O desalento está visível nas ruas, assim como 50 milhões de
brasileiros dependem do Bolsa Família, o maior programa social do país,
que se transformou em mero assistencialismo porque não tem porta de
saída. Programa social que gera dependência eterna é cabresto eleitoral.
Fato é que os números do IBGE mostram um dado. Seus olhos, a vida
real. Não existe programa social ou de mitigação de pobreza mais
eficiente que emprego.
E para se ter emprego é preciso um ambiente
saudável para investir e democracia de verdade. Com a maior taxa real de
juros do mundo — porque Lula promove uma bomba fiscal que vai
explodir ainda este ano ou no colo do próximo presidente, e insegurança
jurídica monstruosa somada a uma das maiores cargas tributárias do
planeta —, o governo impede a recuperação econômica. Crédito caro e
escasso, por causa dos juros altos e porque o governo suga a poupança
nacional para financiar seus próprios déficits, afasta investidores e reduz
o investimento privado, justamente o que geraria receita saudável e
empregos.
Trump e Lula se reúnem à margem da 47ª cúpula da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean) em Kuala Lumpur, Malásia –
26/10/2025 - Foto: Evelyn Hockstein/Reuters
Ao não negociar com os Estados Unidos por picuinha eleitoreira, Lula
coloca em risco os empregos formais e bem pagos das indústrias
exportadoras. Os empregos dos brasileiros. Até porque, sufocados no
Brasil pela sanha arrecadatória de Lula e de seu ex-ministro da Fazenda,
Fernando Haddad, cada vez mais empresários estão se mudando para o
Paraguai e gerando empregos lá.
O que antes era mera expansão dos
negócios, algo normal no setor, tem se revelado busca pela sobrevivência.
Cerca de 70% das empresas inseridas no regime de Maquila — tributação
menor e simplificada, mão de obra mais acessível e com menos impostos
e custo de energia 60% menor — são brasileiras.
A tarifa dos Estados Unidos é só um lado da moeda. A China, aliada
comunista do governo Lula, impôs cota de exportação para a carne
brasileira para proteger seu mercado interno. Na ausência de
pragmatismo e diplomacia apartidária, e com o fim da cota já em julho,
os produtores brasileiros viram a tarifa de 12% ser elevada para 67%.
Os
Estados Unidos, uma nação democrática, esperaram o Brasil para
negociação desde o primeiro tarifaço em abril de 2025, quando o mundo
todo foi atingido. Enquanto diplomatas e negociadores da Europa, das
Américas e da Ásia faziam check-in em hotéis de Washington, esperando
para negociar com a Casa Branca, Lula desdenhou e preferiu o palanque
interno.
Mesmo agora, com a investigação da Seção 301, que resultou na tarifa de
25%, quando era possível negociar novamente, o governo brasileiro
abdicou de defender a indústria nacional. De novo, apostou no confronto
de um falastrão só vagando pelo país em cerimônias com plateias
amestradas.
A diferença no caso das exportações de carne para a China é
reveladora. Pequim, capital de uma ditadura de esquerda, simplesmente
aumentou alíquotas unilateralmente. E Lula continuou falando muito e
fazendo nada. Sem um aceno de atuação mais eficiente do governo
federal, frigoríficos já diminuíram os abates. Perdem os exportadores,
perde a balança comercial, perdem os trabalhadores e perde o país.
Mas Lula quer ganhar a eleição de outubro. Depende dos brasileiros. De cada
um.
Adalberto Piotto - Revista Oeste