O escrutínio que foi negado durante a pandemia finalmente começou
Anthony Fauci viveu mais uma semana difícil nos Estados Unidos. Poucos dias depois de comparecer ao Senado e invocar a Quinta Emenda 111 vezes, o médico que se tornou o principal rosto da resposta americana — e mundial — à pandemia voltou ao centro dos acontecimentos. Na quinta-feira, 6 de agosto, a Comissão de Segurança Interna e Assuntos Governamentais aprovou uma resolução para declará-lo em desacato ao Congresso.
O senador Rand Paul, presidente da comissão, anunciou que pretende encaminhar o caso ao Departamento de Justiça. Ao mesmo tempo, as investigações avançam. Depois dos milhares de e-mails tornados públicos, vieram os diários pessoais de Fauci.
Agora, investigadores tiveram acesso ao telefone celular utilizado por ele durante a pandemia, ampliando o conjunto de documentos sob análise. Pouco a pouco, e-mail após e-mail, página após página, mensagem após mensagem, o que parecia um castelo de areia erguido sobre certezas inquestionáveis começa a ser confrontado pelo maremoto causado pelos próprios registros daqueles anos. Independentemente das conclusões das investigações, uma realidade já se impõe:
Anthony Fauci deixou de ser apenas o homem que explicava a pandemia para se tornar um dos principais personagens da investigação sobre como ela foi conduzida. Como se não bastasse, procuradores-gerais de diferentes Estados — entre eles Flórida, Louisiana e Oklahoma — anunciaram investigações próprias para apurar possíveis violações de suas legislações relacionadas à atuação de Fauci durante a pandemia.
O mais relevante, porém, não é o destino jurídico de Fauci. É o colapso da blindagem política e midiática que o cercou durante anos. A figura apresentada como autoridade praticamente incontestável agora enfrenta investigações, documentos públicos, depoimentos sob juramento e questionamentos institucionais que dificilmente teriam espaço poucos anos atrás. O escrutínio que foi negado durante a pandemia finalmente começou. Essa mudança diz muito menos sobre Anthony Fauci do que sobre o funcionamento das instituições democráticas.
Durante crises, sociedades concentram confiança em determinadas figuras. Em guerras, nos generais. Em colapsos econômicos, nos ministros da Fazenda. Em pandemias, nas autoridades sanitárias. O fenômeno não é novo nem necessariamente negativo. Situações extraordinárias exigem liderança técnica e capacidade de coordenação. O problema surge quando a autoridade técnica é confundida com infalibilidade.
Foi o que ocorreu durante boa parte da pandemia. Fauci deixou de ser apresentado como um cientista experiente para se transformar, aos olhos de grande parte da imprensa e da classe política, em autoridade acima do contraditório. Questionar decisões passou a ser interpretado como ataque à ciência. A distinção entre discordar de um gestor público e negar o conhecimento científico foi apagada, criando um ambiente no qual perguntas legítimas frequentemente eram recebidas com hostilidade.
Esse talvez tenha sido um dos maiores erros daquele período. A ciência nunca avançou pela ausência de perguntas. Ela avança justamente porque perguntas continuam sendo feitas. Hipóteses são formuladas, confrontadas, testadas, abandonadas ou confirmadas.
Nenhuma teoria científica permanece verdadeira por decreto. Nenhuma conclusão deixa de poder ser revisada apenas porque determinada autoridade a apresentou em entrevista coletiva. Ainda assim, criou-se uma atmosfera em que determinadas discussões simplesmente não podiam existir. Hipóteses sobre a origem do vírus eram descartadas antes de serem investigadas.
Médicos que defendiam protocolos diferentes eram imediatamente desqualificados. Especialistas que levantavam dúvidas sobre lockdowns prolongados, fechamento de escolas, imunidade natural ou eficácia das vacinas na interrupção da transmissão eram retratados como propagadores de desinformação. Esse ambiente produziu um efeito corrosivo.
A confiança pública na ciência não foi enfraquecida pelo excesso de perguntas. Ela começou a ser corroída quando milhões perceberam que perguntas deixavam de ser respondidas e, em muitos casos, sequer podiam ser feitas.
É nesse contexto que as investigações envolvendo Fauci adquirem importância maior do que a trajetória de um único homem. Elas representam a tentativa de reconstituir decisões que afetaram bilhões de pessoas: escolas foram fechadas, liberdades restringidas, políticas de saúde foram alteradas do dia para a noite sem debates, influenciaram eleições e redefiniram a relação entre governos e cidadãos.
Decisões cujo custo civilizacional só agora começa a ser medido na sua verdadeira extensão, e que nenhuma sociedade séria pode simplesmente deixar para trás.
O precedente da Suprema Corte Entre as discussões jurídicas das últimas semanas, uma merece atenção especial por quase não ter aparecido fora dos Estados Unidos: o argumento de Rand Paul de que Fauci não poderia ter invocado a Quinta Emenda da forma como fez. A Quinta Emenda garante o direito de não produzir provas contra si mesmo. Foi o que Fauci invocou 111 vezes.
Rand Paul, porém, afirma que existe um precedente histórico da Suprema Corte que torna essa discussão muito mais complexa do que normalmente se imagina. E, curiosamente, para compreender um dos debates jurídicos mais importantes da política americana em 2026, é preciso voltar ao ano de 1896: Brown versus Walker.
O caso começou quando Brown, um funcionário de uma companhia ferroviária, foi chamado para prestar depoimento em uma investigação federal. Diante das perguntas que lhe foram dirigidas, recusou-se a responder, alegando que suas declarações poderiam incriminá-lo. Era, em essência, a mesma proteção constitucional invocada por Anthony Fauci mais de um século depois.
A questão submetida aos juízes parecia simples, mas possuía enormes consequências jurídicas. A Quinta Emenda protege qualquer pessoa contra a possibilidade de ser obrigada a produzir provas que possam levá-la à própria condenação criminal. Mas essa proteção continua existindo quando o risco de condenação deixa de existir?
A Suprema Corte respondeu que não. A corte explicou que a finalidade da Quinta Emenda é impedir que alguém seja obrigado a fornecer provas que possam resultar em sua própria condenação. No entanto, quando esse risco jurídico deixa de existir — seja porque a pessoa recebeu imunidade, porque o prazo para processá-la terminou ou porque houve um perdão para aquele delito — desaparece também a razão que justifica a invocação dessa proteção constitucional.
O direito ao silêncio não existe para proteger alguém de constrangimento político ou desgaste de reputação. Existe apenas para impedir que alguém seja obrigado a fornecer provas que possam servir a uma condenação criminal. Quando esse risco cessa, cessa também o fundamento da proteção.
Segundo Rand Paul, o perdão concedido por Joe Biden a Fauci levanta exatamente essa questão. Se o perdão realmente o protege dos fatos investigados, o risco de condenação federal desapareceu — e, com ele, o fundamento para invocar a Quinta Emenda. Isso não significa, porém, que a discussão esteja encerrada. Diversos constitucionalistas sustentam que a situação jurídica de Fauci pode ser muito mais complexa.
O alcance de um perdão presidencial depende da forma como ele foi concedido, dos fatos efetivamente abrangidos por esse perdão e da existência de eventuais responsabilidades que escapem da esfera federal. Também permanece aberta a discussão sobre possíveis investigações estaduais, que não necessariamente são alcançadas por um perdão concedido pelo presidente da República.
A quebra da espiral de silêncio
Essas divergências continuarão sendo debatidas nos tribunais e no Congresso. O ponto realmente importante, porém, é outro. Pela primeira vez desde o início da pandemia, Fauci passou a ser tratado como qualquer outro agente público. Seus atos deixaram de ser analisados apenas sob a perspectiva sanitária e passaram a ser submetidos ao escrutínio institucional próprio de uma democracia.
Essa mudança acompanha outra transformação. Afirmações apresentadas como certezas absolutas começaram a ser revistas. Durante anos, milhões ouviram que as vacinas de mRNA impediriam a infecção, interromperiam a transmissão e colocariam fim à pandemia. Essas declarações fundamentaram campanhas governamentais, vacinação obrigatória e restrições impostas a cidadãos que decidiram não se vacinar ou seguir tratamentos de acordo com seus médicos.
Hoje, ninguém sustenta essas afirmações da mesma maneira. A própria compreensão científica sobre o comportamento das vacinas evoluiu com o acúmulo de evidências. Autoridades sanitárias alteraram recomendações, modificaram protocolos e passaram a reconhecer limitações que durante muito tempo quase não apareciam no debate público.
A revisão de hipóteses faz parte do método científico. O problema nunca esteve na mudança de entendimento. O problema surgiu quando posições científicas foram tratadas como verdades definitivas e qualquer voz dissonante passou a ser silenciada.
Nesse ambiente, médicos perderam espaço profissional por defender interpretações diferentes das autoridades oficiais, pesquisadores tiveram trabalhos desacreditados, especialistas foram banidos de plataformas, jornalistas foram censurados e milhões de cidadãos comuns foram ridicularizados simplesmente por fazer perguntas que hoje já não parecem absurdas.
O dano ultrapassa a figura de Anthony Fauci. Quando uma sociedade associa ciência à impossibilidade de questionar autoridades, deixa de compreender tanto a ciência quanto a liberdade. A primeira depende do confronto permanente entre hipóteses. A segunda, da possibilidade de discordar sem ser tratado como inimigo.
Nenhuma democracia preserva esses dois valores quando o medo substitui o debate e o consenso vale mais do que a investigação.
Pandemia e Fauci. Oeste e Guzzo
Há coincidências de simbolismo difícil de ignorar. Na semana em que o mundo assiste a novos desdobramentos das investigações sobre Fauci — sob o silêncio da mídia brasileira —, recordamos o primeiro aniversário da morte de J.R. Guzzo, que passou décadas ensinando que o jornalismo não existe para proteger versões oficiais, mas para fazer perguntas, desconfiar do poder e insistir nos fatos.
Enquanto grande parte da imprensa reproduzia versões oficiais e desencorajava questionamentos, a Oeste, sob a batuta de Guzzo, escolheu o caminho mais difícil: continuar perguntando.
Narrativas podem dominar o debate público por algum tempo. Podem controlar manchetes, influenciar algoritmos, intimidar adversários e até convencer milhões de pessoas de que determinadas perguntas jamais deveriam ser feitas. Nenhum desses mecanismos, porém, altera a realidade. Os fatos continuam existindo independentemente do que governos, especialistas ou veículos de comunicação desejem que as pessoas acreditem.
Foi essa confiança na força dos fatos que Guzzo transmitiu a gerações de jornalistas. Ele jamais acreditou que a missão da imprensa fosse proteger autoridades ou administrar consensos. Seu compromisso esteve sempre em outro lugar: investigar, perguntar e permanecer fiel à realidade, mesmo quando isso significasse contrariar o pensamento dominante.
Não deixa de ser simbólico que o primeiro aniversário de sua morte coincida com uma semana em que antigas certezas voltaram a ser colocadas sob escrutínio. Independentemente do destino jurídico de Fauci, uma lição já é evidente: a tentativa de transformar questões científicas em dogmas políticos produziu enorme desgaste na confiança pública.
Reconstruí-la exigirá exatamente o que faltou durante tanto tempo: transparência, disposição para rever erros e liberdade para que perguntas difíceis continuem sendo feitas. Guzzo jamais confundiu prestígio com autoridade moral, nem autoridade com infalibilidade.
Sabia que governos, especialistas, instituições e jornalistas erram. E sabia que a única maneira de reduzir esses erros é preservar o que diferencia uma sociedade livre de qualquer regime autoritário: a possibilidade permanente de investigar, contestar e perguntar.
A Revista Oeste nasceu em um momento em que fazer essas perguntas significava enfrentar ataques e tentativas de silenciamento. Continuará fazendo exatamente a mesma coisa enquanto houver assuntos que mereçam ser investigados e verdades que ainda precisem ser contadas.
Esse sempre foi o legado de J.R. Guzzo. É também o compromisso que permanece orientando o nosso trabalho. Narrativas conseguem dominar o debate público durante algum tempo. Conseguem intimidar adversários, produzir consensos artificiais e até reescrever temporariamente a memória coletiva.
O que elas não conseguem fazer é alterar a realidade — nem a de Anthony Fauci, nem a lição que J.R. Guzzo insistiu em deixar.
Obrigada, mestre.
Ana Paula Henkel - Revista Oeste