O crime organizado latino-americano já deixou de ser um problema
doméstico
Presidente dos EUA, Donald Trump | Foto: Reuters/Samuel Corum/Sipa USA
E
m diferentes momentos da história, ameaças que pareciam
locais acabam revelando algo maior: sintomas de um
desarranjo regional. O que começa como violência doméstica,
tráfico ou corrupção passa, pouco a pouco, a assumir
dimensões geopolíticas.
Sob a administração de Donald Trump na Casa Branca, esse
diagnóstico começou a ganhar forma mais clara nos últimos meses
nas discussões de segurança no continente. Para o presidente
americano, o crime organizado latino-americano já deixou de ser um
problema doméstico e se tornou uma ameaça regional.
Foi nesse contexto que surgiu a iniciativa do Escudo das Américas
(Shield of the Americas), uma reunião voltada à cooperação
hemisférica para enfrentar o crime organizado transnacional. O
encontro reuniu autoridades de segurança, ministros, chefes de
inteligência e representantes de diversos países do continente para
discutir um problema que deixou de ser tratado como questão
doméstica e passou a ser encarado como um desafio estratégico
regional.
A proposta do Escudo das Américas é criar um mecanismo de
coordenação entre governos para enfrentar ameaças que operam em
múltiplos territórios ao mesmo tempo — narcotráfico, cartéis, redes de
lavagem de dinheiro e organizações criminosas transnacionais.
Escudo das Américas (Shield of the Americas), uma reunião voltada à cooperação hemisférica para enfrentar o crime organizado
transnacional - Foto: Reuters/Kevin Lamarque
A iniciativa ganhou impulso dentro da estratégia de segurança
hemisférica defendida por Trump, que insiste na necessidade de
tratar o narcotráfico e as grandes organizações criminosas como
ameaças diretas à estabilidade do continente. A lógica por trás da
reunião é simples: nenhum país consegue enfrentar sozinho
estruturas que movimentam bilhões de dólares, controlam rotas
internacionais e operam simultaneamente em diversas jurisdições.
Por isso, o encontro reuniu autoridades de diferentes governos das
Américas, responsáveis pelas áreas de segurança, defesa e
inteligência, para discutir mecanismos de cooperação mais robustos,
como compartilhamento de informações, coordenação policial
internacional e estratégias conjuntas para interromper cadeias
logísticas do narcotráfico que atravessam o continente. Lula não
apareceu e não enviou nenhum representante do Brasil para o
importante evento.
O objetivo do Escudo das Américas é construir uma espécie de rede de
proteção regional diante de ameaças que já não respeitam fronteiras.
No diagnóstico apresentado durante o encontro, o narcotráfico e o
crime organizado deixaram de ser apenas um problema policial.
Tornaram-se um fator de instabilidade capaz de pressionar
instituições, financiar violência em larga escala e comprometer a
soberania dos Estados.
Nesse contexto, duas siglas brasileiras passaram a aparecer com
frequência crescente nos relatórios de inteligência e nas análises
estratégicas: Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho
(CV).
Por décadas, esses grupos foram vistos essencialmente como facções
criminosas domésticas, ligadas ao tráfico de drogas dentro do Brasil.
Essa percepção, no entanto, tornou-se rapidamente obsoleta. Hoje,
tanto o PCC quanto o CV operam redes logísticas que atravessam
fronteiras, controlam rotas internacionais de narcotráfico, mantêm
conexões com organizações estrangeiras e exercem influência em
diversos países da América do Sul.
O que antes era tratado como crime organizado local começa a ser
discutido, cada vez mais, como uma ameaça à segurança hemisférica.
A mudança de linguagem não é apenas retórica política. Ela revela
uma mudança de diagnóstico.
Hoje, tanto o PCC quanto o CV operam redes logísticas que atravessam fronteiras - Foto: Reprodução/Redes Sociais
Quando o crime se torna poder
O crime organizado moderno raramente se limita à criminalidade
tradicional. Em muitos casos, evolui para algo mais complexo:
estruturas paralelas de poder. Essas organizações controlam
territórios, impõem regras próprias, corrompem instituições,
movimentam bilhões de dólares e mantêm cadeias logísticas que
lembram as de empresas multinacionais.
No caso latino-americano, esse fenômeno assume uma característica
adicional: a convergência entre crime organizado, narcotráfico e
estruturas paramilitares.
É por isso que, em círculos estratégicos, o termo narcoterrorismo
voltou a aparecer com frequência. A expressão surgiu nos anos 1980
para descrever a atuação dos cartéis colombianos e suas relações com
grupos insurgentes. Hoje reaparece para descrever uma realidade
semelhante: organizações que utilizam o narcotráfico não apenas para
lucro, mas também para ampliar influência territorial e institucional.
Esse é o ponto que tem despertado crescente preocupação sob a ótica
do governo Trump. Quando redes criminosas passam a controlar
corredores logísticos internacionais — portos, rotas marítimas e
fronteiras terrestres — a questão deixa de ser apenas policial e passa a
ser estratégica.
E a América Latina vive hoje um momento delicado nesse campo.
O crime organizado moderno raramente se limita à criminalidade tradicional | Foto: Shutterstock
Diversos países enfrentam a expansão acelerada do crime organizado.
O Equador viu cidades inteiras mergulharem em crises de segurança.
O Chile registrou um aumento abrupto de organizações
transnacionais. O Peru enfrenta pressões nas rotas amazônicas. Na
Colômbia, grupos armados continuam disputando territórios ligados
ao narcotráfico.
Nesse cenário, o Brasil ocupa uma posição central. Não apenas pelo
tamanho de sua economia ou de seu território, mas porque boa parte
das rotas que ligam a produção de cocaína andina aos mercados
globais passa pelo país.
Portos brasileiros tornaram-se pontos estratégicos para exportação da
droga rumo à Europa e à África.
Rotas fluviais na Amazônia conectam
áreas produtoras a redes de distribuição. Fronteiras extensas e de
difícil controle ampliam as oportunidades logísticas para as facções.
Nesse ambiente, organizações como PCC e CV expandiram sua
presença para países vizinhos, criando alianças com grupos locais e
consolidando rotas internacionais. O resultado é um fenômeno que especialistas descrevem como transnacionalização do crime
brasileiro.
O objetivo da ação da Casa Branca com o encontro é claro: reconhecer
que as ameaças contemporâneas nas Américas já não se limitam a
conflitos militares tradicionais. Elas incluem redes criminosas
globais, narcotráfico, terrorismo, lavagem de dinheiro e estruturas
híbridas que combinam elementos desses fenômenos — por isso, a
necessidade de maior cooperação entre governos para enfrentá-las.
A
discussão incluiu inteligência compartilhada, coordenação policial
internacional e novas estratégias de combate a redes logísticas que
operam em múltiplos países.
A classificação de determinadas organizações como grupos terroristas
e ameaças significativas à segurança regional surge nesse contexto,
como gesto político, mas, principalmente, como parte de uma
mudança de percepção: o reconhecimento de que certas estruturas
criminosas já ultrapassaram o estágio da criminalidade convencional.
Uma ideia antiga que volta ao debate
Curiosamente, essa discussão também reacende uma referência
histórica na política hemisférica: a Doutrina Monroe. Formulada em
1823, a doutrina partia de um princípio simples: as Américas
deveriam permanecer livres de interferência externa e preservar sua
estabilidade política.
Durante o século 21 e grande parte do século 20, essa ideia foi
frequentemente associada à rivalidade entre potências e à presença
de atores externos no continente. No mundo contemporâneo, no
entanto, a ameaça pode assumir outras formas. Ela pode surgir não de
impérios europeus ou de rivalidades ideológicas, mas de estruturas
criminosas capazes de corroer Estados por dentro.
Nesse sentido, alguns analistas argumentam que o desafio atual nas
Américas não é apenas geopolítico no sentido clássico. É também
institucional, uma vez que redes criminosas que capturam territórios,
corrompem autoridades e dominam economias locais produzem efeitos semelhantes aos de conflitos armados: enfraquecem o Estado e
desestabilizam sociedades.
Proclamada em 1823 pelo presidente James Monroe, a Doutrina Monroe estabeleceu um princípio simples e duradouro: o hemisfério ocidental não estaria mais aberto à colonização ou interferência de potências europeias | Foto: Wikimedia Commons
Talvez o aspecto mais perigoso desse fenômeno seja a sua
normalização. Em muitos países, a presença do crime organizado
tornou-se parte do cotidiano político e social. Governos tratam o
problema como questão policial rotineira. Instituições convivem com
níveis crescentes de infiltração. A sociedade aprende, pouco a pouco, a
viver com a violência.
Mas há um ponto em que essa normalização deixa de ser sustentável.
Quando organizações criminosas acumulam poder suficiente para
influenciar eleições locais, controlar economias regionais ou desafiar
diretamente a autoridade do Estado, o problema muda de escala e
deixa de ser criminal. E passa a ser civilizacional.
A existência de
Estados capazes de aplicar leis e garantir segurança não é um detalhe
administrativo da vida moderna, mas um dos pilares da ordem
política.
E sem esse pilar, outras instituições — democracia, economia de
mercado, liberdades individuais — começam a perder sustentação.
É por isso que o debate sobre narcotráfico e crime organizado nas
Américas ganhou, nos últimos anos, uma dimensão mais ampla. A
questão já não trata apenas de drogas ou violência urbana. Trata de
soberania.
Estados que perdem controle territorial, que não conseguem conter a
expansão de organizações criminosas ou que veem suas instituições
capturadas por redes ilícitas acabam enfrentando uma forma
silenciosa de erosão política.
Não se manifesta necessariamente em
guerras ou golpes, mas em algo mais gradual: a substituição da
autoridade legítima por estruturas paralelas de poder. Esse é o risco
que muitos analistas enxergam no avanço das facções transnacionais.
A classificação de organizações como o PCC e o Comando Vermelho
como ameaças relevantes no cenário hemisférico não resolve
automaticamente o problema. Mas representa um sinal importante:
parte da comunidade internacional começa a reconhecer que o crime
organizado latino-americano deixou de ser um fenômeno doméstico.
Tornou-se um desafio continental — um desafio que envolve segurança, governança, economia e estabilidade institucional e que
exige respostas à altura dessa complexidade.
Classificação de organizações como o PCC e o Comando Vermelho como ameaças relevantes no cenário hemisférico não resolve automaticamente o problema - Foto: Agência Brasil
Entre as preocupações discutidas por autoridades americanas está
também a possibilidade de conexões entre redes criminosas da
América Latina e grupos classificados como organizações terroristas,
especialmente o Hezbollah, movimento apoiado e financiado pelo Irã.
Ao longo dos últimos anos, investigações de segurança e relatórios de
inteligência apontaram para a presença de estruturas ligadas ao grupo
em áreas como a região da Tríplice Fronteira entre Brasil, Paraguai e
Argentina, tradicionalmente utilizada para atividades de contrabando
e lavagem de dinheiro. Para analistas de segurança, a eventual
convergência entre narcotráfico, crime organizado e redes de
financiamento do terrorismo representaria um salto qualitativo no
nível da ameaça.
No fim das contas, a questão central não é apenas a força das
organizações criminosas, mas a capacidade das democracias de
reagir. A história mostra que instituições podem ser corroídas
lentamente quando ameaças persistentes deixam de ser enfrentadas com clareza.
Mostra também que sociedades capazes de reconhecer
riscos e agir de forma coordenada conseguem preservar sua ordem
política.
O avanço do narcotráfico e do crime organizado nas Américas talvez
seja um desses testes históricos — um teste sobre a capacidade do
continente de defender suas instituições, sua soberania e a própria
ideia de Estado de Direito.
Se a história ensina algo às democracias, é isto: ameaças raramente
desaparecem sozinhas. Elas precisam ser reconhecidas — e, de fato,
enfrentadas.
Ana Paula Henkel - Revista Oeste