sexta-feira, 2 de outubro de 2026

'Empresário' que opera na educação, no futebol e na produção de habeas corpus, Gilmar Mendes telefona para donos de veículos de comunicação depois de críticas ao STF

Decano contatou proprietário de grande emissora e publisher de jornal de circulação nacional; ministro não respondeu a Oeste


 

O ministro Gilmar Mendes, do STF, durante evento na Universidade Presbiteriana Mackenzie - 13/11/2023 | Foto: André Ribeiro/Estadão Conteúdo


Nas últimas semanas, o decano do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, telefonou para proprietários de veículos de comunicação.

Conforme apurou Oeste, Gilmar procurou o dono de uma grande emissora de televisão e o publisher de um jornal de circulação nacional para expressar sua insatisfação com editoriais e reportagens negativas ao STF.

As conversas ocorreram em um momento em que veículos tradicionais subiram o tom contra ministros em virtude do escândalo do Banco Master e, mais recentemente, das intervenções do STF em temas ligados à Justiça Eleitoral. 

Em 25 de agosto, a coluna revelou que Gilmar e Flávio Dino falaram com empresários no entorno do relator do Master no tribunal, André Mendonça, para eles se afastarem do juiz do STF..

À época, Oeste pediu um posicionamento do decano do tribunal. Assim como naquela ocasião, Gilmar não se manifestou desta vez. O espaço segue aberto.

Cristyan Costa - Revista Oeste


Em tempo: 'Empresário' que opera na educação, no futebol e na produção de habeas corpus para beneficiar criminosos, Gilmar Mendes telefona para donos de veículos de comunicação depois de críticas ao STF

Além dos EUA e Austrália, Reino Unido e Canadá fazem aviso sobre o Brasil

Os quatro países integram a aliança de inteligência Five Eyes, que inclui também a Nova Zelândia


Países membros da Five Eyes; EUA, Reino Unido, Canadá, Austrália e Nova Zelândia. FOTO: MI5

Estados Unidos, Austrália, Reino Unido e Canadá divulgaram, desde o início dessa semana, avisos ou medidas de segurança relacionados ao Brasil, às vésperas do primeiro turno das eleições, no domingo (4). Os quatro países representam 80% da “Five Eyes”, aliança de compartilhamento de inteligência que tem ainda a Nova Zelândia.

EUA e Austrália são casos mais extremos; anunciaram o fechamento das representações diplomáticas no Brasil, mas tanto o Reino Unido, quanto o Canadá alertam viajantes ao Brasil sobre perigos relacionados à eleição e eventuais protestos ou manifestações por conta da votação. A Nova Zelândia é o único país da aliança de inteligência que ainda não fez avisos sobre o Brasil.

Estados Unidos

A embaixada e os consulados dos Estados Unidos no Brasil informaram, em alerta de quinta-feira (1º), que os serviços consulares seriam suspensos a partir desta sexta-feira (2), “devido a preocupações de segurança”. Cidadãos americanos que precisem de assistência de emergência foram orientados a não se dirigir à embaixada, aos consulados ou a outras instalações diplomáticas americanas e a contatar o plantão.

O Departamento de Estado não detalhou a natureza da preocupação. Em nota atribuída a um porta-voz, afirmou que trabalha com as autoridades brasileiras. A agência de notícias Reuters registrou que o departamento não vinculou publicamente a suspensão à eleição de domingo nem informou quando os serviços serão retomados.

Austrália

O Smartraveller, serviço oficial de viagem da Austrália, foi atualizado nesta sexta-feira (2). O texto informa que a embaixada australiana em Brasília ficaria fechada nesse dia por preocupações de segurança e que australianos que precisem de assistência consular urgente devem contatar o centro de emergência em Camberra.

A atualização reproduz o alerta americano e recomenda que australianos evitem a embaixada, os consulados e outras instalações diplomáticas dos Estados Unidos no Brasil, além das áreas adjacentes. Também registra o primeiro turno em 4 de outubro, um eventual segundo turno em 25 de outubro e a posse presidencial, em Brasília, em 5 de janeiro de 2027, com possibilidade de reuniões políticas, manifestações e reforço de segurança.

Sobre terrorismo, o texto australiano diz que se trata de uma ameaça mundial, que ataques podem ocorrer em qualquer lugar e a qualquer momento, e que terroristas podem mirar áreas turísticas, locais frequentados por estrangeiros e grandes aglomerações. Não aponta uma ameaça específica no Brasil. O nível geral de cautela para o país permanece o mesmo: “exercise a high degree of caution”, por crime violento.

Reino Unido

O Foreign, Commonwealth & Development Office (FCDO) atualizou o aviso a viajantes sobre o Brasil na terça-feira (29). A nota da atualização informa que foram incluídos dados sobre as eleições de 4 de outubro e sobre eventos políticos.

O texto diz que o primeiro turno ocorre em 4 de outubro, o segundo turno está marcado para 25 de outubro e a posse, em Brasília, em 5 de janeiro. Acrescenta que protestos e manifestações podem ocorrer sem aviso prévio e que a situação pode mudar rapidamente. Na página de segurança, o FCDO afirma que mesmo eventos pacíficos podem se tornar confrontos e evoluir para violência, e que a polícia já usou balas de borracha e gás lacrimogêneo para dispersar manifestantes.

As recomendações são evitar comícios políticos, protestos e manifestações, acompanhar a imprensa local, seguir as autoridades locais e deixar o local se o viajante encontrar um protesto ou se sentir desconfortável em uma multidão. O Reino Unido não anunciou fechamento de embaixada nem suspensão de serviços consulares. O aviso contra viagens não essenciais continua restrito a trechos de rios no oeste do Amazonas.

Canadá

O Global Affairs Canada atualizou o aviso sobre o Brasil em 2 de outubro, às 13h no horário de Ottawa. A nota da atualização diz que foi acrescentada, na seção de segurança, informação sobre o alerta dos Estados Unidos, com a reprodução do texto americano sobre a suspensão dos serviços consulares.

O mesmo aviso informa que o Brasil realizará eleições gerais em 4 de outubro de 2026, com segundo turno em 25 de outubro, se necessário, e que pode haver reuniões políticas, manifestações e reforço de segurança antes, durante e depois do pleito. As orientações são evitar áreas de manifestações e grandes aglomerações, seguir as autoridades locais e acompanhar a imprensa. A conta oficial @TravelGoC havia publicado esse trecho eleitoral em 29 de setembro.

O nível canadense para o Brasil não mudou: “exercise a high degree of caution”, por crime e violência urbana, com ressalvas já existentes para faixas de fronteira e para os complexos da Maré e da Penha, no Rio de Janeiro.

Aliança Five Eyes

Five Eyes é a aliança de inteligência formada por Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Austrália e Nova Zelândia. Nasceu do acordo UKUSA, firmado em 1946 entre Estados Unidos e Reino Unido no pós-guerra, e foi ampliada com a entrada dos outros três países. O arranjo prevê o compartilhamento de informações de inteligência, inclusive sobre segurança.

Tiago Vasconcelos - Diário do Poder

Flávio Gordon - 'O império da força e a abdicação da imprensa'

Jornalistas começam a nomear corretamente, ainda que aos sussurros


Foto: Montagem Revista Oeste/IA


“A mentira voa, e a verdade vem mancando atrás dela.” (Jonathan Swift, The Examiner, nº 14, 1710) 


Na terça-feira, 29, o comentarista Leonardo Barreto acabara de dizer, ao vivo na CNN Brasil, que nosso país talvez já não esteja — segundo sua lírica formulação — “no leito institucional”. Notando estar diante de uma declaração grave, o apresentador William Waack pediu-lhe para confirmar. O cientista político respondeu que preferia não ter ouvido a pergunta. O constrangimento durou dois segundos e disse mais sobre o país do que cem colunas de opinião: a imprensa começa a nomear corretamente, ainda que aos sussurros e pedindo licença, aquilo que passou sete anos confundindo com “defesa da democracia”.

Barreto, afinal, venceu o medo e confirmou. Disse que o país já experimenta “muito mais a força do que o leito institucional” e que o pedido de um deputado — no caso, o sabujo Paulinho da Força (Solidariedade-SP) — para que uma ala do Supremo destitua a cúpula do TSE tem “roupagem jurídica, mas é força”. Waack concordou e admitiu chamar o grupo formado por Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes e Flávio Dino de “a ala da força” no STF. 

No mesmo dia e na mesma emissora, em entrevista à jornalista Thais Herédia, a constitucionalista Vera Chemim descreveu o Supremo como um tribunal “em que vale tudo”, no qual a Constituição virou “um mero detalhe”. E foi além, admitindo que a conduta da “ala da força” poderia servir de roteiro para a anulação da eleição. 

Em suas palavras: “Nós só podemos deduzir que toda essa conduta praticada principalmente pelo ministro Flávio Dino, sem falar do ministro Gilmar Mendes e do próprio ministro Alexandre de Moraes, é propositadamente direcionada para causar uma instabilidade jurídica e, sobretudo, uma instabilidade no âmbito do TSE, caso o ministro Nunes Marques não faça valer a sua autoridade enquanto presidente do Tribunal Superior Eleitoral e, ao mesmo tempo, o ministro Edson Fachin não se faça respeitar enquanto presidente do Supremo Tribunal Federal. Se isso continuar acontecendo, nós podemos ter uma eleição permeada por vários fatores que, com certeza, irão causar perturbação e, o que é pior, poderão servir de fundamento, de argumento, para uma suposta anulação do pleito eleitoral. Eu realmente não descarto essa conclusão que acabei de colocar, de se levantar qualquer tipo de fundamento para anular o pleito.”


O ministro do STF, Flávio Dino | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasi

Sejam bem-vindos ao Brasil real, prezados jornalistas e comentaristas da velha imprensa. Seu diagnóstico está correto, embora chegue com o frescor da década passada. Evoé! A imprensa descobre que o Supremo usa a força com o espanto de quem passou sete anos segurando a tocha e só agora percebe que o fogo queima. Queimava antes, é claro. Mas queimava os outros.

Para entender quem acendeu a tocha, todavia, convém recuar um pouco. Durante três décadas, a Nova República encenou aquilo que o professor Olavo de Carvalho batizou celebremente de “teatro das tesouras”: duas lâminas do mesmo instrumento fingindo cortar em direções opostas. Tucanos e petistas trocavam insultos no plenário e cartões de Natal nos bastidores. O PSDB fazia o papel de direita num país sem direita, com a convicção de um ator de novela interpretando o vilão, e todos concordavam no essencial: o Brasil conservador, religioso e desconfiado de um Estado cada vez mais socialista podia votar, desde que votasse num dos dois. 

Em 2018, o público subiu ao palco. A vitória de Jair Bolsonaro foi um raio em céu azul, e a elite política, cultural e financeira reagiu como reagem as aristocracias diante do plebeu que ousa sentar-se à mesa: com nojo. Semanas antes do pleito, aliás, José Dirceu já informara a El País que o PT voltaria para tomar o poder, coisa que, ensinou ele, nada tem a ver com ganhar eleição. Ninguém levou a sério. Deveria. Era o anúncio do golpe luloalexandrino contra o bolsonarismo, e os atores já estavam escalados.



A vitória de Jair Bolsonaro foi um raio em céu azul | Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil


Primeiro, era preciso retirar do vencedor a legitimidade. A Folha de S.Paulo forneceu a matéria-prima inicial: a reportagem da ultrapetista Patrícia Campos Mello, que, às vésperas do segundo turno, lançou a tese dos disparos em massa financiados por empresários, robôs e mentiras em escala industrial, semente da narrativa golpista. O povo não escolhera; fora hipnotizado. Nascia ali o dicionário da oligarquia ressentida: “fake news”, “discurso de ódio”, “gabinete do ódio”, “desinformação”, “ataque à democracia”. Termos elásticos o bastante para abrigar qualquer adversário e vagos o bastante para dispensar qualquer prova. 

Numa obra clássica, Estigma (1963), o sociólogo canadense Erving Goffman explicou como se fabrica um estigma social: começa na linguagem, produz uma identidade deteriorada e termina quando o rótulo engole a pessoa inteira. “Bolsonarista” seguiu o manual à risca. De designação política, virou marca de lepra moral, dessas que autorizam os sãos a atravessar a rua. E, contra o leproso, como se sabe, a lei não precisa — nem deve — ser aplicada com justiça. Há que aplicá-la com força exemplar. 

O protocolo de quarentena começou antes mesmo da posse. Em 13 de novembro de 2018, Rosa Weber, então presidente do TSE e ministra do Supremo, presenteou o mandatário eleito com um exemplar da Constituição. Não me recordo de outro presidente brindado com semelhante pedagogia. Era o gesto de quem entrega o código de trânsito ao motorista recém-contratado, com um olhar de suspeita: dirija, mas saiba que estamos vigiando. Governe, mas saiba que o seu mandato é uma concessão de nossa parte.

A vigilância não tardou a virar perseguição. Em março de 2019, como se sabe, Dias Toffoli abriu de ofício o Inquérito 4.781 e entregou sua relatoria, sem sorteio, a Alexandre de Moraes. O Supremo tornou-se, num só gesto, vítima, delegado, promotor e juiz, uma Santíssima Trindade com um membro a mais. Marco Aurélio Mello, que a história há de honrar por ter destoado dos pares, chamou a criatura de “Inquérito do Fim do Mundo”. 

Raquel Dodge, então procuradora-geral da República (cargo que ainda não havia sido inteiramente desmoralizado pelo gandaieiro Paulo Gonet), mandou arquivá-lo, alertando para a guinada da Corte rumo a um “tribunal de exceção” (palavras dela). Foi solenemente ignorada, e o fim do mundo segue transcorrendo até os nossos dias. Sob o nome perfumado de “democracia defensiva” — versão contemporânea da “democracia militante” (streitbare Demokratie) de Karl Loewenstein —, instalou-se a exceção permanente. 

Jornalistas, parlamentares, empresários, humoristas e cidadãos comuns foram tragados pelo buraco negro jurisdicional, pelo “crime” de serem ou parecerem bolsonaristas. O juiz natural virou peça de museu. Em 2020, Jair Bolsonaro foi impedido, por decisão monocrática de Moraes, de empossar Alexandre Ramagem na direção-geral da Polícia Federal, prerrogativa que a lei assegura com todas as letras ao presidente da República. É que as letras, àquela altura, já eram o que Vera Chemim diria seis anos depois: um mero detalhe.

 Recorrendo ao jurista americano Alec Stone Sweet, já em 2022 apliquei aqui nestas páginas o nome exato ao fenômeno: golpe de Estado jurídico, aquele em que uma Corte usa o poder que a Constituição lhe confere para reescrever a própria Constituição, até que o novo sistema já não possa ser deduzido do antigo. O golpe jurídico dispensa tanques porque tem toga, e sua marca registrada é a repetição obsessiva da palavra “democracia” na boca de quem desmonta a liberdade de expressão e o devido processo legal. Olavo notou que os assassinos da democracia sempre acusam de antidemocrático quem tenta salvá-la. 

O Brasil fez disso jurisprudência. E a história conhece o precedente: como mostrou Rainer Zitelmann em Hitler: Anticapitalista e Revolucionário, a “revolução legal” alemã de 1933 dispensou barricadas e jamais revogou formalmente a Constituição de Weimar. Bastou esvaziá-la por dentro, com toda a papelada em ordem.

O bolsonarismo fez então o que os democratas de ocasião exigiam: bateu à porta das instituições. O Senado sentou-se sobre os pedidos de impeachment com a firmeza de uma galinha no choco, e hoje, diante das mensagens afetuosas entre Davi Alcolumbre e Daniel Vorcaro, e Macallan de três milhões de reais que o banqueiro serviu a Moraes, Toffoli, Gonet, Andrei, Lewandowski e Hugo Motta em Londres, compreendemos melhor aquela serenidade. Os pares de Moraes no Supremo calaram ou aplaudiram. E a imprensa, que se diz cão de guarda da República, preferiu o colo: chamou a censura de “combate à desinformação”, a prisão de opositores de “defesa da democracia” e o arbítrio de “coragem”. 

Naquele tempo, o agora tóxico Alexandre de Moraes — que sempre agiu exatamente como hoje, com seus gabinetes paralelos, seus capangas, comparsas e procedimentos clandestinos — era tido por “a muralha” da democracia. Com o Senado no choco, o Supremo em bloco e a imprensa no colo, restou a uma parcela desesperada do campo conservador apelar às Forças Armadas. 

O diagnóstico estava certo; a esperança, não. Como o bolsonarismo já percebia com clareza a vigência de um regime de força, no qual se lhe aplicava o mais castiço “direito penal do inimigo”, surgiu naturalmente a ideia de recorrer ao poder moderador da instituição responsável constitucionalmente pela administração da força (art. 142). Ocorre que o Alto Comando já vinha sendo catequizado de fora.

Segundo relato do professor Oliver Stuenkel, da FGV, exibido com entusiasmo pela GloboNews e por mim analisado aqui na coluna, o governo Biden montou uma campanha de pressão sobre os militares brasileiros, com visitas do secretário de Defesa e do diretor da CIA em pleno ano eleitoral, listas de generais classificados como confiáveis ou suspeitos e a ameaça de cortar a cooperação militar caso o resultado fosse contestado. 

A esquerda, que passou 60 anos gritando que o golpe de 1964 começara em Washington, descobriu, encantada, que Washington podia ser uma excelente aliada, desde que o alvo fosse a direita. Na ocasião, a jornalista Natuza Nery sorria radiante para a “interferência americana” concretizada, a mesma “interferência americana” que hoje, em forma de mera conjectura, a faz franzir o cenho.

A conta da pressão externa chegou em 9 de janeiro de 2023. Manifestantes que confiaram nos quartéis, pois os comandantes das três forças lhes haviam assegurado que suas manifestações pacíficas estavam amparadas pela Constituição, foram emboscados, metidos em ônibus sob a promessa de segurança e desembarcados num ginásio da Polícia Federal: mais de mil pessoas, incluindo idosos e crianças, detidas em bloco, sem individualização de condutas. Gustavo Henrique Dutra, um dos generais responsáveis, relatou depois, com orgulho de aluno aplicado, o telefonema em que o novo presidente exigia a prisão de todos. 

Andrei Rodrigues, chefe da polícia política do regime, quis registrar as prisões políticas no Guinness, o livro dos recordes. Moraes avisara que havia muita gente para prender. E Barroso resumiria a filosofia do regime de exceção num “Perdeu, mané” e num “Derrotamos o bolsonarismo”. Alguns militares da reserva batizaram a data de Dia da Perfídia. O nome pegou, porque era exato. O epílogo foi o processo que, em 2025, condenou Bolsonaro por um golpe que, além de não sê-lo, jamais saiu do papel, enquanto o golpe que de fato ocorreu, o de toga, seguia seu curso sob aplausos das redações e da beautiful people. 

Os aplausos, contudo, começam a rarear. Foi o mesmo William Waack da conversa com Barreto que, no dia seguinte à infame sessão do último dia 15 de setembro no STF, em referência ao que chamou de “ala da força” na Corte, evocou a célebre advertência de Miguel de Unamuno aos franquistas. Em 12 de outubro de 1936, já velho e doente, o reitor da Universidade de Salamanca (por coincidência, a mesma instituição em que o ministro André Mendonça fez o seu doutorado em direito) disselhes, no paraninfo da instituição, que venceriam, porque lhes sobrava força bruta, mas não convenceriam, porque lhes faltava razão. 

A citação, convenhamos, não poderia ser mais perfeita, com o pequeno inconveniente de chegar tarde demais, depois que a força bruta já havia vencido tudo o que tinha para vencer e que a razão, expulsa das redações com a mesma sem-cerimônia com que foi expulsa dos tribunais, já não encontrava quem a quisesse ouvir.


William Waack, no Jornal da CNN | Foto: Reprodução/CNN

O regime não mudou de natureza, mas apenas de alvo. É essa mudança, e não algum súbito despertar da consciência jurídica nacional, que explica a recente lucidez de comentaristas que, enquanto a força esmagava bolsonaristas, enxergavam ali a mais pura expressão do Estado de Direito. Agora que os ministros se engalfinham e a própria Justiça Eleitoral virou butim disputado a golpes de petições incidentais, essa imprensa parece disposta a admitir que o rei está nu. Mas o rei já estava nu em 2019, quando boa parte dos nossos jornalistas lhe exaltava o caimento da toga. 

Não se pede à imprensa, por óbvio, que se desculpe com o bolsonarismo, o que seria exigir demais de uma corporação que jamais pediu desculpas a ninguém e que tem na própria infalibilidade a mais firme de suas superstições. Pede-se apenas que, uma vez disposta a contar a história política do Brasil de nossos dias, não a conte pela metade. Que reconheça o seu papel crucial no colapso institucional, uma vez que, por mero desprezo político, abdicou da função de fiscalizar o poder e aceitou o arbítrio porque o alvo lhe convinha.

O regime luloalexandrino não nasceu ontem, nem na guerra de ofícios entre Dino e Mendonça, ou entre Gilmar e Fux. Nasceu quando a Nomenklatura da Nova República, inconformada com a irrupção de um eleitorado que julgava domesticado, decidiu que o resultado das urnas de 2018 era um erro a ser corrigido, e que para corrigi-lo, valia tudo, inclusive aquilo que os analistas da grande imprensa hoje chamam, com ar de novidade, de “força”. 

É com esse passado recente que o jornalismo brasileiro precisa acertar as contas, nem que seja por um elementar instinto de sobrevivência — ou melhor, de renascimento. Lima Barreto, que pagou com o ostracismo o pecado de retratar o Correio da Manhã, sob o nome ficcional (e profético) de “O Globo“, como “o quarto poder fora da Constituição”, não poderia imaginar que, um século depois, a imprensa brasileira trocaria a ambição de ser ela própria um poder pela comodidade de servir a outro, condenando-se, com isso, às raias da extinção.


Flávio Gordon - Revista Oeste

'Golpe em gestação', por Cristyan Costa

 Ministros apontam articulação de ala de Gilmar Mendes para contestar a eleição se Flávio Bolsonaro ganhar




“I ndependência, equilíbrio e prudência.” Nunes Marques escolheu essas três palavras para anunciar como pretendia conduzir as eleições de 2026. Era 12 de maio, e o ministro assumia a presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com uma defesa da liberdade de expressão e uma advertência: combater ameaças à democracia não autorizava “excessos incompatíveis com o Estado democrático de Direito”. Quatro anos antes, sob Alexandre de Moraes, o tribunal havia suspendido a divulgação de um documentário da Brasil Paralelo até depois do segundo turno. Agora, o novo presidente prometia contenção. Restava saber quanto espaço teria para praticá-la. 

No Supremo Tribunal Federal (STF), a promessa encontrou desconfiança. Segundo apurou Oeste, uma ala da Corte discutia rever decisões da Justiça Eleitoral caso considerasse insuficiente a atuação de Nunes Marques e de seu vice, André Mendonça. A convivência tinha os contornos de uma trégua sob vigilância. Em junho, no programa Roda Viva, Gilmar Mendes tornou pública a disposição do Supremo de atuar como instância revisora diante de eventual parcialidade do TSE. 

Nos meses seguintes, aquilo que parecia uma divergência jurídica começou a ganhar forma concreta em processos, liminares e decisões contraditórias. Na reta final da campanha, porém, três ministros ouvidos pela reportagem passaram a enxergar algo maior. Para eles, uma ala do Supremo prepara as condições jurídicas e políticas para que a disputa sobre os limites da Justiça Eleitoral não termine com a apuração dos votos. Caso o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) vença Lula, a batalha seguinte poderá ser pela legitimidade do próprio resultado.


Caso Flávio Bolsonaro vença a disputa presidencial, STF articula ofensiva para contestar o resultado das urnas | Foto: Washington Alves/Reuters


Construção da narrativa 

Na avaliação dessas fontes, o núcleo político da eventual contestação já está à vista: a suspeita de “interferência estrangeira” na campanha brasileira. Uma iniciativa do PT ajuda a entender por quê. Em 23 de setembro, o partido pediu ao ministro Flávio Dino uma investigação sobre uma possível atuação do governo de Donald Trump em favor de Flávio Bolsonaro. O pedido não foi apresentado em uma ação eleitoral. Entrou em um processo sobre a barragem de Mariana, em Minas Gerais, que já estava sob a relatoria de Dino. 


A escolha do caminho não era irrelevante. 

Naquela mesma ação, Dino havia estabelecido meses antes que decisões judiciais estrangeiras referentes ao Brasil só poderiam produzir efeitos no país mediante autorização do Supremo — uma reação às sanções impostas com base na Lei Magnitsky. O PT pediu que essa proteção fosse transportada para a eleição presidencial e alcançasse votação, apuração, proclamação do resultado e até diplomação do vencedor pelo TSE. 

“São bons de narrativa”, disse a Oeste um ministro, sob reserva. “Querem uma justificativa para questionar a vitória do adversário de Lula e esvaziar o TSE.” O partido também requereu a abertura de investigação pela Polícia Federal e acesso a relatórios da Agência Brasileira de Inteligência. Pediu ainda que fossem avaliadas buscas no comitê de Flávio Bolsonaro e na sede nacional do PL, além de quebras de sigilo, mediante representação policial ou requerimento do Ministério Público. A petição cita relações com a organização norte-americana Rockbridge Network, publicidade no exterior favorável ao candidato e conteúdos utilizados por estruturas ligadas ao PL. O próprio documento, contudo, reconhece que o eventual financiamento estrangeiro precisa ser comprovado. Contatos internacionais, manifestações políticas e publicações produzidas no exterior, isoladamente, não demonstram que uma candidatura recebeu recursos ilegais.

É precisamente nesse espaço entre suspeita e prova que está a preocupação dos ministros ouvidos por Oeste. Uma investigação pode comprovar uma irregularidade. Pode também demonstrar que ela nunca existiu. O temor das fontes é outro: que a acusação adquira força política antes de qualquer conclusão e sobreviva até depois da contagem dos votos. A hipótese dos ministros é que, diante de uma derrota de Lula, a discussão deixe de ser apenas sobre propaganda, abuso de poder ou financiamento de campanha e se transforme em uma questão de soberania nacional. Nesse cenário, a controvérsia sairia da Justiça Eleitoral e chegaria ao Supremo com uma pergunta muito mais grave: uma vitória obtida sob alegada influência estrangeira poderia ser reconhecida? É esse salto — da fiscalização da campanha para a contestação do resultado — que dá dimensão à disputa em curso. 


Disputa de poder

Outros processos das últimas semanas ajudam a compreender por que os ministros levam essa hipótese a sério. Em 25 de setembro, o vicepresidente do TSE, André Mendonça, determinou a retirada de publicações ligadas à informação falsa de que Flávio pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. A ordem atingiu uma publicação do humorista Antonio Tabet. Para contestá-la, Tabet não abriu uma nova ação no TSE nem esperou o julgamento do colegiado eleitoral. Procurou Flávio Dino no Supremo e pediu que o ministro estendesse à publicação os efeitos de uma decisão tomada meses antes em outro caso — um processo envolvendo um vídeo sobre a inelegibilidade do ex-deputado Deltan Dallagnol.


Após TSE ordenar retirada de publicação falsa contra Flávio Bolsonaro, humorista busca atalho no STF com Flávio Dino | Foto: Rosinei Coutinho/SCO/STF

Uma ação originada de uma disputa eleitoral no Paraná recebia, assim, um conflito da campanha presidencial. Dino acolheu o pedido e suspendeu a ordem de Mendonça antes de o TSE concluir o julgamento. 

A defesa de Flávio reagiu pelo mesmo caminho: recorreu a Luiz Fux em outra ação já existente no Supremo. Fux suspendeu a decisão de Dino e restabeleceu a determinação da Justiça Eleitoral. Dentro do próprio STF, portanto, duas decisões individuais apontavam em sentidos opostos sobre uma controvérsia que estava sob análise do TSE. 

O tribunal eleitoral resolveu a questão em 30 de setembro. Manteve a retirada das informações falsas, mas preservou o post de Tabet depois de Mendonça ajustar seu voto. No dia seguinte, Dino reconheceu que seu processo havia perdido o objeto. Fez, contudo, uma ressalva: em questões constitucionais, a última palavra continuaria pertencendo ao Supremo. O episódio terminou. A disputa institucional, não. Antes disso, o Bolsa Família já havia mostrado como uma questão com impacto direto na campanha poderia sair da órbita do TSE. 

Em 18 de setembro, a pedido da Advocacia-Geral da União, o decano do STF reconheceu a legalidade do reajuste de 15% anunciado por Lula na véspera. Faltavam pouco mais de duas semanas para o primeiro turno. Gilmar decidiu dentro de um processo sobre a implementação da renda básica. Considerou que o aumento cumpria determinação anterior do Supremo e recompunha a inflação. Segundo apurou Oeste, integrantes da cúpula do TSE se irritaram com a iniciativa por entender que uma discussão sobre os limites eleitorais do reajuste deveria ocorrer na Justiça Eleitoral. 

O padrão se repetia: uma controvérsia surgida no meio da campanha era levada ao Supremo por meio de um processo aberto originalmente para discutir outro assunto. Movimentos semelhantes apareceram nos Estados. Em Roraima, uma decisão de Dino sobre prazos de desincompatibilização afetou o registro de Arthur Henrique, candidato do PL apoiado por Flávio Bolsonaro. No Rio de Janeiro, um impasse no Supremo interferiu na sucessão temporária do governo estadual. No Ceará, Floriano de Azevedo Marques impôs restrições a adversários do governador petista Elmano de Freitas, decisão posteriormente suspensa por Mendonça. Os casos têm objetos, personagens e fundamentos diferentes. 

Não demonstram, isoladamente, uma articulação nacional. Para os três ministros ouvidos por Oeste, porém, ajudam a revelar algo que consideram decisivo: o Supremo já encontrou caminhos processuais para interferir em controvérsias eleitorais enquanto elas ainda estavam submetidas ao TSE. 


Depois das urnas

É aqui que a preocupação muda de escala. Até agora, as intervenções atingiram publicações, registro de candidatura, acesso a recursos partidários, propaganda eleitoral e decisões administrativas com consequência política. A hipótese discutida nos bastidores do Supremo é que o mesmo mecanismo seja utilizado, depois da votação, sobre um objeto incomparavelmente maior: o resultado da eleição presidencial. 

Na avaliação das fontes, a narrativa de interferência estrangeira daria o fundamento político dessa mudança. A disposição do STF de rever atos do TSE forneceria o caminho jurídico. Os pedidos já apresentados ao Supremo proporcionariam os processos. Faltaria o fato capaz de reunir essas peças: uma derrota de Lula. Se Flávio vencer, dizem os ministros ouvidos pela reportagem, a alegação de ingerência norte-americana poderia deslocar a discussão da contagem dos votos para as condições em que eles foram conquistados. 

O argumento deixaria de ser apenas o de proteger uma campanha contra uma ameaça estrangeira. Poderia servir para questionar a legitimidade da vitória do adversário. Esse ponto é importante porque uma eleição presidencial não pode ser anulada apenas por suspeitas políticas. Seria necessário transformar a acusação em questão jurídica, apontar fatos, estabelecer nexo com a campanha e demonstrar consequência suficiente para comprometer a legitimidade do pleito. 

É justamente essa distância entre o discurso político e a consequência jurídica que torna decisivo o que ocorrerá depois do primeiro turno. Os três ministros consultados por Oeste não dizem que exista, hoje, uma decisão tomada para impedir a posse de Flávio Bolsonaro. O que afirmam é que estão sendo construídos argumentos, precedentes e vias processuais que poderiam ser acionados caso Lula seja derrotado. 

Essa distinção precisa permanecer clara. A petição do PT não comprova uma operação para invalidar as eleições. As decisões de Dino, Gilmar ou outros ministros tampouco demonstram, isoladamente, uma ação coordenada. O alerta decorre da combinação desses movimentos e da leitura feita por integrantes da própria Corte sobre onde eles podem desembocar.


As decisões de Flávio Dino, Gilmar Mendes e outros ministros, quando combinadas, acendem o alerta sobre os rumos do Supremo | Foto: Gustavo Moreno-SCO-STF


Na posse de maio, Nunes Marques prometeu independência, equilíbrio e prudência. Às vésperas da votação, porém, a disputa já ultrapassa os limites de sua presidência no TSE. O que está em jogo, na avaliação dos ministros ouvidos por Oeste, é saber se a autoridade da Justiça Eleitoral continuará valendo quando proclamar um vencedor que uma ala do Supremo não deseja. Se a hipótese dessas fontes se confirmar, a intervenção terá mudado de natureza. Deixará de servir apenas para rever decisões tomadas durante a campanha e alcançará a própria escolha feita nas urnas. 

A suspeita de interferência estrangeira poderá fornecer o argumento; os processos já abertos, o caminho; e o Supremo, a instância encarregada de decidir até onde vale o resultado proclamado pelo TSE. Nesse cenário, a eleição não terminaria com a contagem dos votos. O eleitor elegeria o presidente, mas a escolha permaneceria sujeita à aprovação de ministros que não receberam um único voto. A vontade popular deixaria de ser soberana. Entre a decisão das urnas e o exercício do poder, estaria a toga.


Cristyan Costa- Revista Oeste

 

Judiciário a serviço de Lula, por Anderson Scardoelli

Ministra do TSE Estela Aranha, em tabelinha com Gilmar Mendes, censura o que seria o debate presidencial da Globo


Ilustração: Montagem Revista Oeste/Gerada por IA

A ministra do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) Estela Aranha ganhou protagonismo, ainda que negativo, na reta final da campanha do primeiro turno das eleições. Em decisão monocrática tomada na noite desta quinta-feira, 1º, duas horas antes do que seria o começo do debate presidencial da TV Globo, proibiu a emissora de expor o púlpito que seria destinado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição, e também de permitir que os demais candidatos dirigissem perguntas a ele. As regras constavam de uma ata assinada por todos os partidos — inclusive o PT. 

No ato de censura disfarçado de parecer jurídico, Estela argumentou que a exibição do púlpito vazio iria constranger Lula, que, em meio a altos índices de rejeição e o crescimento do senador Flávio Bolsonaro (PL) em recentes pesquisas de intenções de voto, havia optado por não participar do debate. A decisão de Lula foi anunciada um dia antes. Ao se posicionar a favor do petista, a magistrada ressaltou ser facultativa a participação de candidatos em debates eleitorais.


Ministra Estela Aranha, durante sessão plenária do Tribunal Superior Eleitoral - Foto: Luiz Roberto/TSE

Horas depois da decisão, começou a circular um vídeo de 2022 em que ela afirma que votará 13 no segundo turno: “Como advogados nós não temos outra opção que não seja o Lula pra a gente estancar o aumento do autoritarismo, pra gente defender o Estado Democrático de Direito e a democracia no país. Então os advogados devem votar em Lula inclusive para salvar o próprio sistema de Justiça”.


Chefiada por Dino 

Foi justamente Lula, a pedido de Dino, quem indicou a advogada para o cargo de ministra do TSE em julho de 2025. Antes disso, ela integrou a equipe do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Na pasta, Estela teve como chefe direto Flávio Dino. Ela foi nomeada assessora especial do ministro em 26 de janeiro de 2023. Dez meses depois, ganhou promoção e se tornou, em 24 de novembro daquele ano, secretária de Direitos Digitais do ministério. 

Em fevereiro de 2024, Dino deixou o Ministério da Justiça depois de ter sido indicado por Lula para o cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). Estela foi exonerada no mês seguinte, quando a pasta já estava sob o comando de Ricardo Lewandowski. Ela, entretanto, não ficou desamparada pelo governo. Ganhou o cargo de assessora especial do presidente da República em 30 de setembro de 2024. 

Pediu para deixar a função no fim de fevereiro de 2025, quando passou a atuar como assessora no gabinete da presidência do TSE, ocasião em que a Corte tinha como presidente a ministra Cármen Lúcia, substituída por Nunes Marques em maio deste ano.


Lula nomeia Estela Aranha para TSE, antes foi assessora de Flávio Dino no Ministério da Justiça | Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil 

Tabelinha com Gilmar

A decisão de Estela Aranha, que proibiu a Globo de constranger Lula, foi tornada pública cerca de 20 minutos antes de o decano do STF, Gilmar Mendes, também interferir na organização do debate. Por meio de decisão monocrática e, indo contra entendimentos anteriores de Cármen Lúcia e do TSE, o magistrado tornou obrigatória a presença de Renan Santos (Missão) no encontro dos presidenciáveis. 

A decisão de Gilmar se deu à revelia das leis eleitorais, que determinam a obrigatoriedade de convites somente a candidatos que integrem partidos, federações partidárias ou coligações que tenham ao menos cinco representantes no Congresso Nacional. Não é o caso do Missão. O partido não conta com senador e tem em Kim Kataguiri (SP) seu único deputado federal. 


Interferência jurídica

Flávio Bolsonaro resolveu cancelar sua participação. De acordo com ele, a Globo foi alvo de “censura” por não poder exibir o púlpito vazio do “presidente fujão”. “A imprensa tem que ser livre”, enfatizou o candidato do PL à Presidência. “E as eleições, limpas.”

Alvo das decisões vindas do TSE e do STF, a Globo resolveu cancelar o debate, que contaria somente com Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo), além de Renan. Por meio de comunicado, o canal afirmou discordar do que classifica como “interferências” do Poder Judiciário nas regras previamente acordadas com representantes dos candidatos. 

“Nosso dever é o de promover a democracia, mas as sucessivas decisões judiciais tomadas momentos antes da realização do debate causam insegurança jurídica e representam uma interferência indevida na liberdade que os veículos de imprensa têm de organizar os debates eleitorais”, afirmou a emissora. “Por essa razão, a Globo decidiu cancelar o debate desta noite.”

O canal ganhou apoio da Associação de Emissoras de Rádio e Televisão, da Associação Nacional de Editores de Revistas e da Associação Nacional de Jornais. Em nota conjunta, as instituições criticaram a “intervenção judicial”. 

Antes do anúncio do cancelamento do debate, alguns colunistas do jornal O Globo, veículo que pertence ao Grupo Globo, preferiram criticar Flávio, em vez de Lula, Estela ou Gilmar. Fabio Graner e Vera Magalhães disseram que o senador temia encarar Renan Santos. Mas, para Malu Gaspar, também de O Globo, ministros de Cortes superiores “estão virando cabo eleitoral de candidato a presidente”. A esses magistrados, a jornalista aconselha: “Tire a toga e vá fazer campanha, vá fazer política”.


Malu Gaspar DETONOU o STF/TSE: “Estamos diante de uma situação surreal, absurda, inaceitável de ministros do Supremo que estão virando cabo eleitoral de candidato a presidente.” E completou: se ministro quer fazer política, “tira a toga e vai fazer campanha”.


Anderson Scardoelli - Revista Oeste 

Judiciário a serviço de Lula, por Anderson Scardoelli

Ministra do TSE Estela Aranha, em tabelinha com Gilmar Mendes, censura o que seria o debate presidencial da Globo


Ilustração: Montagem Revista Oeste/Gerada por IA

A ministra do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) Estela Aranha ganhou protagonismo, ainda que negativo, na reta final da campanha do primeiro turno das eleições. Em decisão monocrática tomada na noite desta quinta-feira, 1º, duas horas antes do que seria o começo do debate presidencial da TV Globo, proibiu a emissora de expor o púlpito que seria destinado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição, e também de permitir que os demais candidatos dirigissem perguntas a ele. As regras constavam de uma ata assinada por todos os partidos — inclusive o PT. 

No ato de censura disfarçado de parecer jurídico, Estela argumentou que a exibição do púlpito vazio iria constranger Lula, que, em meio a altos índices de rejeição e o crescimento do senador Flávio Bolsonaro (PL) em recentes pesquisas de intenções de voto, havia optado por não participar do debate. A decisão de Lula foi anunciada um dia antes. Ao se posicionar a favor do petista, a magistrada ressaltou ser facultativa a participação de candidatos em debates eleitorais.


Ministra Estela Aranha, durante sessão plenária do Tribunal Superior Eleitoral - Foto: Luiz Roberto/TSE

Horas depois da decisão, começou a circular um vídeo de 2022 em que ela afirma que votará 13 no segundo turno: “Como advogados nós não temos outra opção que não seja o Lula pra a gente estancar o aumento do autoritarismo, pra gente defender o Estado Democrático de Direito e a democracia no país. Então os advogados devem votar em Lula inclusive para salvar o próprio sistema de Justiça”.


Chefiada por Dino 

Foi justamente Lula, a pedido de Dino, quem indicou a advogada para o cargo de ministra do TSE em julho de 2025. Antes disso, ela integrou a equipe do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Na pasta, Estela teve como chefe direto Flávio Dino. Ela foi nomeada assessora especial do ministro em 26 de janeiro de 2023. Dez meses depois, ganhou promoção e se tornou, em 24 de novembro daquele ano, secretária de Direitos Digitais do ministério. 

Em fevereiro de 2024, Dino deixou o Ministério da Justiça depois de ter sido indicado por Lula para o cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). Estela foi exonerada no mês seguinte, quando a pasta já estava sob o comando de Ricardo Lewandowski. Ela, entretanto, não ficou desamparada pelo governo. Ganhou o cargo de assessora especial do presidente da República em 30 de setembro de 2024. 

Pediu para deixar a função no fim de fevereiro de 2025, quando passou a atuar como assessora no gabinete da presidência do TSE, ocasião em que a Corte tinha como presidente a ministra Cármen Lúcia, substituída por Nunes Marques em maio deste ano.


Lula nomeia Estela Aranha para TSE, antes foi assessora de Flávio Dino no Ministério da Justiça | Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil 

Tabelinha com Gilmar

A decisão de Estela Aranha, que proibiu a Globo de constranger Lula, foi tornada pública cerca de 20 minutos antes de o decano do STF, Gilmar Mendes, também interferir na organização do debate. Por meio de decisão monocrática e, indo contra entendimentos anteriores de Cármen Lúcia e do TSE, o magistrado tornou obrigatória a presença de Renan Santos (Missão) no encontro dos presidenciáveis. 

A decisão de Gilmar se deu à revelia das leis eleitorais, que determinam a obrigatoriedade de convites somente a candidatos que integrem partidos, federações partidárias ou coligações que tenham ao menos cinco representantes no Congresso Nacional. Não é o caso do Missão. O partido não conta com senador e tem em Kim Kataguiri (SP) seu único deputado federal. 


Interferência jurídica

Flávio Bolsonaro resolveu cancelar sua participação. De acordo com ele, a Globo foi alvo de “censura” por não poder exibir o púlpito vazio do “presidente fujão”. “A imprensa tem que ser livre”, enfatizou o candidato do PL à Presidência. “E as eleições, limpas.”

Alvo das decisões vindas do TSE e do STF, a Globo resolveu cancelar o debate, que contaria somente com Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo), além de Renan. Por meio de comunicado, o canal afirmou discordar do que classifica como “interferências” do Poder Judiciário nas regras previamente acordadas com representantes dos candidatos. 

“Nosso dever é o de promover a democracia, mas as sucessivas decisões judiciais tomadas momentos antes da realização do debate causam insegurança jurídica e representam uma interferência indevida na liberdade que os veículos de imprensa têm de organizar os debates eleitorais”, afirmou a emissora. “Por essa razão, a Globo decidiu cancelar o debate desta noite.”

O canal ganhou apoio da Associação de Emissoras de Rádio e Televisão, da Associação Nacional de Editores de Revistas e da Associação Nacional de Jornais. Em nota conjunta, as instituições criticaram a “intervenção judicial”. 

Antes do anúncio do cancelamento do debate, alguns colunistas do jornal O Globo, veículo que pertence ao Grupo Globo, preferiram criticar Flávio, em vez de Lula, Estela ou Gilmar. Fabio Graner e Vera Magalhães disseram que o senador temia encarar Renan Santos. Mas, para Malu Gaspar, também de O Globo, ministros de Cortes superiores “estão virando cabo eleitoral de candidato a presidente”. A esses magistrados, a jornalista aconselha: “Tire a toga e vá fazer campanha, vá fazer política”.


Malu Gaspar DETONOU o STF/TSE: “Estamos diante de uma situação surreal, absurda, inaceitável de ministros do Supremo que estão virando cabo eleitoral de candidato a presidente.” E completou: se ministro quer fazer política, “tira a toga e vai fazer campanha”.


Anderson Scardoelli - Revista Oeste


Augusto Nunes - Já é carnaval no Brasil

 A comissão de frente tem tudo para brilhar na Sapucaí




D epois de uma cerimônia pública, Alexandre de Moraes explicou ao parceiro Dias Toffoli, aos gritos, que não ficaria mais tempo por excesso de tarefas a cumprir. “Tem muita gente pra prendê”, berrou. “Tem muita multa pra aplicá”. Passados dois anos, não são poucos os brasileiros presos, multados e perseguidos pelo ex-promotor de Justiça que virou padroeiro dos fabricantes de tornozeleiras eletrônicas. Mas os brasileiros decentes clamam por outras urgências. Há pelo menos dois ministros do Supremo Tribunal Federal a investigar, julgar e punir: Toffoli e Moraes. E há meio tribunal a ser neutralizado por milhões de democratas indignados com o rebaixamento da corte a integrante da coligação partidária disposta a tudo para presentear Lula com um quarto mandato. 

A descoberta de que existem juízes dispostos a cumprir a lei tirou o sono e afetou o juízo dos que se acham doutores em tudo. Inquieta com as evidências de que já não controla o STF, insone com presença de ministros sem dono no comando da Justiça Eleitoral, a bancada dos discípulos de Gilmar Mendes ficou parecida com uma tropa brancaleônica ao topar com juristas sem medo. Resolveu recrutar juízes de instâncias inferiores, mobilizar tropas fiéis a um procurador-geral que envergonha o Ministério Público, recorrer a votos monocráticos obscenos e intromissões intoleráveis em outras esferas do Judiciário, fora o resto — tudo para impedir que Flávio Bolsonaro seja o escolhido pelo eleitorado brasileiro.


Flávio Dino e Lula, amizade de longa data | Foto: Reprodução


Nesta semana, o que se viu no STF — nas catacumbas da corte e no que os ministros chamam de Pretório Excelso — deixou ruborizado um decano dos advogados de porta de cadeia. Vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral, André Mendonça vetou a divulgação de uma falsidade que acusava Flavio Bolsonaro de planejar a destituição de Nossa Senhora Aparecida do posto de Padroeira do Brasil. Flávio Dino, que nada tem a ver com a Justiça Eleitoral, ordenou a liberação da mentira, sepultada horas depois pela maioria do TSE. Lula retribuiu a ajuda com um telefonema para Dino diretamente do palanque onde estacionara. “Fala, Flávio!”, ordenou. “Fala alguma coisa!” Por algum motivo ainda ignorado, o Flávio do Lula nada falou.


Flávio Dino e Lula, amizade de longa data | Foto: Reproduçã


Na quinta-feira, a ala governista do STF concentrou-se no debate entre candidatos à Presidência organizado pela TV Globo. Como manda a legislação, foram convocados apenas os filiados a partidos que tenham ao menos cinco representantes no Congresso. Excluído do evento, o candidato Renan Santos, do Missão, desandou em ofensas e insultos a Flávio Bolsonaro, que nada tinha a ver com a história. Feliz com o que leu, Gilmar Mendes exigiu que o correligionário Renan Santos fosse convidado. Era pouco, decidiu a companheira Estela Aranha, ministra do TSE graças aos muitos anos de serviços prestados ao PT (veja reportagem de Anderson Scardoelli). Estela proibiu a Globo de incluir no cenário a cadeira que o convidado Lula preferira deixar vazia. Mandou trancafiar o perigoso objeto em algum porão. 

Foram todos surpreendidos pelo alvo da conspiração: corretamente, Flávio Bolsonaro anunciou que desistira do debate. Nem Flávio Dino ousou determinar que o candidato desse as caras na emissora no horário combinado. Mas comentaristas e locutores da Globo, com o habitual destemor, imediatamente encontraram o culpado pelo fiasco da grande atração da noite: Flávio Bolsonaro, claro. Nada sobre os juízes de picadeiro. Nem sobre a fuga de Lula. Muito menos sobre o Carnaval antecipado para o primeiro dia de outubro pela ala lulista do Supremo, em pânico com a indigente campanha do Biden brasileiro. 

Por falar em Carnaval, as grandes escolas de samba não sabem o que estão perdendo. A cada sessão do Supremo Tribunal Federal, a espetaculosa entrada em cena dos ministros avisa que meia dúzia de superdoutores bastaria para a montagem de uma comissão de frente de embasbacar a Sapucaí. Chicanas e vigarices se tornaram mais ousadas que a menos pudica rainha de bateria. Pirotecnias tramadas para driblar as leis em geral e a Constituição em particular matariam de inveja um Joãosinho Trinta. A estranha linguagem da turma faz tanto sentido quanto a letra do Samba do Crioulo Doido. E a fantasia da comissão de frente está nos armários da corte: nada é tão majestoso, carnavalesco e adequadamente ridículo quanto o traje completo de um ministro do Supremo.


O ministro da Justiça, Flávio Dino, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a apresentação de um balanço da segurança pública em 2023, em cerimônia no Palácio do Planalto, Brasília, DF (31/1/2024) | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

“O uso das togas está previsto no regimento interno”, informa um documento exposto no Museu do Supremo Tribunal Federal. “Embora popularmente chamadas apenas de túnicas, as vestes são compostas por quatro peças: veste talar, cinto, capa e capelo”. Uma espécie de chapéu octogonal, o capelo caiu em desuso. Merece ser ressuscitado na Sapucaí. O Carnaval tudo permite. Até a gravata Hermès no modelo Lapindragon Tie usada por Alexandre de Moraes no julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro. Está disponível por R$ 1,5 mil no site oficial da grife francesa. 

Na época, Moraes já era amigo do peito de Daniel Vorcaro. Único folião comunista do planeta, desde a adolescência Flávio Dino tem peso e animação suficientes para perpetuar-se no posto de Rei Momo de São Luís. Era governador quando apareceu nas ruas da capital maranhense fantasiado de guerrilheiro. Ministro da Justiça de Lula, fez sucesso com um camisolão vermelho. Agora brilhando na bancada do governo no STF, o colosso maranhense vai levantar a arquibancada usando a mesma roupa que traja quando trabalha. A toga de cetim de seda é alguns metros maior do que as outras. Mas deixará o destaque da comissão à vontade para jurar que merece nota 10 a apresentação dos inventores da democracia à brasileira. Ele sempre mentiu mais do que respira.


O então governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), desfila no Carnaval vestido de comunista – 05/03/2019 | Foto: Reprodução


Em setembro de 2018, candidato à reeleição, o governador Flávio Dino foi entrevistado por uma emissora de TV do Maranhão. Já no começo da conversa, o repórter quis saber os motivos do descumprimento da mais vistosa promessa formulada quatro anos antes:

 — No dia 1º de janeiro de 2015, na sacada do Palácio dos Leões, o senhor prometeu que, ao final do seu governo, nenhum dos municípios maranhenses estaria no rol dos mais pobres do Brasil. Como explicar que o senhor tenha falhado no cumprimento dessa promessa, que foi aquela que mais esperanças despertou?

Dino retrucou de bate-pronto: 

— Em primeiro lugar, eu não prometi esse absurdo, porque seria obviamente algo inviável, algo inalcançável. A resposta foi interrompida para que os espectadores soubessem quem estava mentindo. Possíveis dúvidas foram dizimadas pela exibição de um trecho do discurso de posse: 

— Nós estamos instituindo hoje o Plano Mais IDH — anunciou o eleito com a faixa derramada sobre o ventre

. — Por intermédio desse plano, nós vamos adotar ações nas 30 cidades que têm o pior IDH do Maranhão, do Brasil. Porque o que nós queremos é que, ao fim do governo, não tenha nenhuma cidade maranhense no rol das cem piores do Brasil. (Não sei se Dino viu naquele momento o que a telinha mostrava ou se o trecho do discurso foi acrescentado ao vídeo depois da conversa no estúdio. Pouco importa. O que interessa é que o governador em busca da reeleição mentia com o descaramento de uma Dilma Rousseff). Escancarada a tapeação e retomada a entrevista, o jornalista voltou a tratar de promessas que nunca descem do palanque: 

— O senhor novamente elenca 75 propostas e o combate à pobreza extrema está entre elas. Por que desta vez o eleitor deve acreditar que a promessa será cumprida? Seguiu-se à pergunta o lembrete constrangedor :

 — Quanto à promessa de que ao final do seu mandato nenhum município estaria incluído no rol dos mais pobres do Brasil, ela está no seu discurso na internet. Dino ganhara uma segunda chance de render-se à verdade: ele garantira mesmo que, no fim do primeiro mandato, o Maranhão estaria muitas léguas distante da rabeira do ranking da miséria nacional. Sem hesitar um só segundo, preferiu reincidir no assassinato dos fatos. E tornou a jurar que aquilo não estava em discurso nenhum:

 — Nesses termos garanto que não está, porque não poderia dizer que iria fazer milagre. Eu não sou Deus.

Se o Brasil fosse menos insensato, a reprise da promessa no final do vídeo bastaria para encerrar a carreira política do milagreiro trapalhão. Como o país que nunca foi para principiantes agora anda deixando perplexos os melhores profissionais, Flávio Dino governou o Maranhão por oito anos, elegeu-se senador, foi ministro da Justiça e virou ministro do Supremo. Até agora não perdeu uma única chance de mostrar o que acontece num tribunal quando o deboche veste toga.

Augusto Nunes - Revista Oeste