A máquina de fake news do PT | Foto: Montagem Revista Oeste/Shuttestock
B rasil, janeiro de 2027. Nossa Senhora Aparecida perde o título de Padroeira do país, o Sistema Único de Saúde (SUS) é extinto, bem como as aposentadorias e benefícios sociais, como o Bolsa Família. Até o Pix deixa de ser gratuito. Evidentemente, nada disso ocorrerá, mas a campanha de Lula quer que a população acredite que sim, se Flávio Bolsonaro for eleito presidente.
Enquanto vende a ideia de regular as redes sociais para evitar a circulação de fake news, o PT trata de multiplicá-las. Na noite de 24 de setembro, dez dias antes do primeiro turno, a jornalista Maria Cristina Fernandes afirmou na GloboNews que haveria uma “reação” de lideranças católicas contra evangélicos que, de acordo com ela, estariam se “mobilizando” em torno de um projeto de lei contra a Padroeira do Brasil. Em poucas horas, o comentário viralizou. A afirmação falsa não permaneceu de pé por muito tempo. A GloboNews reconheceu que errou e pediu desculpas. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinou a derrubada de postagens que associavam Flávio ao projeto que não existe. Nas urnas, a mentira não impediu que Flávio chegasse dois pontos porcentuais à frente de Lula.
O PT seguiu com a estratégia de divulgar notícias falsas. Membros da esquerda passaram a afirmar que, uma vez eleito, Flávio terminaria com o Bolsa Família. Também espalharam que o candidato do PL planejaria acabar com o SUS e com a Farmácia Popular. A mentira ganhou tração na classe artística. A atriz Bruna Marquezine compartilhou esse temor com seus 43 milhões de seguidores no Instagram. A Revista Fórum chegou a noticiar que a eleição de Flávio representaria o fim de benefícios como o Pé-de-Meia, o Gás do Povo e o Minha Casa, Minha Vida.
Lula em pessoa espalhou fake news contra Flávio. “Vou continuar questionando o meu adversário qual é o ‘tesouraço’ que ele vai fazer”, disse o presidente em 11 de outubro, antes de discursar na Avenida Paulista. “Possivelmente será cortar direito do povo pobre, cortar direito do aposentado.”
A máquina de mentiras ganhou até verniz acadêmico. Integrante da Academia Brasileira de Letras e professora da Universidade de São Paulo, a antropóloga e historiadora Lilia Schwarcz divulgou vídeo em que acusa Flávio de querer, a mando de Donald Trump, encerrar a gratuidade do Pix. Mesmo sendo alvo de críticas, Lilia decidiu manter a postagem.
liliaschwarcz Aproveitem o Pix enquanto é tempo! “papai Trump do Eduardo Bolsonaro, já avisou muitas vezes que vai acabar com o Pix. Não sabia? vai lá ouvir. O presidente dos EUA defendeu seus cartões de crédito e já s pronunciou muitas vezes contra o PIX. Por sinal. Viva a nossa soberania. #eleições #eleições2026
Líder do PL no Senado, Carlos Portinho (RJ) critica a forma como aliados de Lula conduzem a campanha. “Essa é uma eleição do bem contra o mal, da verdade contra a mentira”, afirma. “Como é que pode, por exemplo, uma fake news de que o Flávio iria tirar o direito de voto das mulheres?”
Contra-ataque
A equipe de Flávio criou página na internet para desmentir os boatos. O candidato se viu obrigado a explicar que não acabará com o salário mínimo. Àqueles que indagam se há possibilidade de extinção da aposentadoria, o sistema define como fake news e apresenta explicação legal. “Pagar a aposentadoria dos brasileiros é uma das primeiras obrigações do governo”, afirma.
“É um direito garantido por lei e ninguém vai mexer no que é seu.” Deputado federal reeleito pelo PL da Bahia, Capitão Alden se mobilizou. Responsável pelo que chama de “Cartilha da Verdade”, ele destaca a importância de divulgar esse material, ainda mais num Estado onde Lula é campeão de votos.
“Estamos fazendo a contraofensiva para que as pessoas possam realmente conhecer as informações”, afirma o parlamentar, que faz um apelo aos eleitores, inclusive os que são identificados com a direita, mas acabam iludidos por conteúdos falsos.
“Leia, confira as fontes e compartilhe com responsabilidade.” Outra série de mentiras disseminadas pela esquerda atende pelo nome Outra série de mentiras disseminadas pela esquerda atende pelo nome de Ana Elisa. Aos 21 anos, ela foi alçada à condição de conselheira de Lula depois de ter sido eleita deputada federal pelo PT de Minas Gerais com 500 mil votos.
Sucesso nas redes sociais, ela era a esperança do partido de conversar com os jovens. Entretanto, sucumbiu à revelação de que, num passado nem tão distante, propagou racismo, xenofobia e intolerância religiosa. Falou que “pretos do Sul são racistas” e defendeu o fechamento de igrejas. Antes de excluir sua conta no X, Ana Elisa encontrou tempo para promover nova fake news, a de que apoiadores de Flávio teriam sido responsáveis por incêndio na Universidade Federal de Pernambuco. Desmentida, Ana Elisa acabou dispensada da campanha de Lula.
République @republiqueBRA · Seguir Ana Elisa apaga tweets antigos nos quais defendia o aborto, pedia a Lula que fechasse igrejas, criticava “crentes”, dizia odiar brancos, defendia que o Vaticano proibisse padres de usar redes sociais e apoiava o bloqueio do Instagram, Facebook e WhatsApp no Brasi
“Exército do Lula”
O deputado federal reeleito André Janones (Rede-MG) é o responsável por administrar o Exército do Lula, canal no WhatsApp dedicado a incentivar o voto no candidato do PT e criticar Flávio. O espaço tornou-se o epicentro de uma batalha jurídica entre as duas campanhas. Segundo o PL, o ambiente gerido pelo parlamentar serve para disseminar conteúdo falso. Depois de um vaivém de decisões, o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, liberou o canal, que conta com cerca de 4,5 milhões de seguidores, mesmo com Janones admitindo ter apagado mais de 500 mensagens do canal de WhatsApp depois que as “missões” eram cumpridas. O deputado não explicou quais seriam essas “missões”. Segundo o comentarista político Caio Coppolla, o principal objetivo de Janones é claro. “A estratégia deles é espalhar o medo”, diz o analista, em vídeo que desmente outra fake news, a de que Flávio mudaria a Constituição para abolir programas sociais.
Janones tem companhia na hora de cumprir sua missão.
O ministro da Previdência Social, Wolney Queiroz, acusou Flávio de querer “congelar” aposentadorias. “Estou preocupado mesmo e você também deveria estar”, diz, em vídeo publicado em seu perfil no Instagram. Em outra publicação, o ministro não citou o nome de nenhum político, mas deu a entender que, dependendo de quem ganhar a eleição, o Brasil se transformará na Alemanha nazista.
Síndrome de Estocolmo
Flávio Bolsonaro não é o primeiro alvo da indústria de mentiras do PT. Até quem hoje se apresenta como aliado já foi vítima de ações similares. Parte das fake news disparadas contra o candidato do PL foi reciclada de 2014, quando Marina Silva (então no PSB) foi candidata ao Palácio do Planalto contra Dilma Rousseff. Em 2020, em entrevista ao humorista Fábio Porchat, Marina lembrou que tentaram rotulá-la como “exterminadora” do país, alguém que acabaria com o Bolsa Família e retiraria de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
Novamente aliada de Lula, Marina atuou como ministra do Meio Ambiente de janeiro de 2023 a março deste ano, quando deixou o cargo para concorrer — e perder — a disputa pelo Senado por São Paulo. Algo similar ocorreu com Geraldo Alckmin. Depois de décadas como adversário do PT, aceitou ser vice de Lula. A mudança de postura não apaga, contudo, a história de ataques. Os militantes chegaram a comparar Alckmin a Adolf Hitler.
Hoje vice-presidente da República e aliado de Lula, Geraldo Alckmin já foi comparado a Adolf Hitler por militantes petistas | Foto: Reprodução/X/@alex_borges
Enquanto Flávio Bolsonaro se ocupa em desmentir as fake news, Lula se preocupa mesmo é com a disseminação de verdades incômodas. O endividamento de 80% das famílias brasileiras, o recorde de empresas em recuperação judicial e a inflação dos alimentos, que chegaram a subir até 60% durante o atual governo, são apenas alguns dos indicadores que mostram que, para Lula, a realidade consegue ser pior que qualquer mentira.
Sarah Peres e Anderson Scardoelli - Revista Oeste

























