A nova geração conservadora transforma audiência nas redes em força
nas urnas
Com marcas recordes nas urnas, Lucas Pavanato e Nikolas Ferreira se consolidam como os deputados federais mais votados do país | Foto:
Reprodução/Facebook/Lucas Pavanato
A
multidão vestida de verde e amarelo que toma as ruas de Belo
Horizonte responde à convocação de Nikolas Ferreira, um jovem
cuja voz há muito ultrapassou as fronteiras de Minas Gerais e
conquistou o país. “Nunca subestime um piá”, fala ao microfone
o deputado federal mais votado da história do Brasil. A declaração
responde à grosseria da primeira-dama, Janja da Silva, que horas antes o
chamara de “piá de bosta” por ter criticado mais uma das incontáveis
asneiras ditas pelo presidente Lula. Ao abordar a resistência masculina a
realizar exames de prevenção do câncer de próstata, Lula havia dito que
“as mulheres aprendem a tomar toque desde pequenas”.
Enquanto líderes tradicionais construíram suas bases ao longo de
décadas na política institucional, jovens com pouca experiência no meio
político operam na lógica de algoritmos, gerando inúmeras visualizações
e pautando o debate público. Nikolas recebeu 3,1 milhões de votos em
Minas Gerais e garantiu a reeleição para a Câmara. Antes da votação,
apoiadores do parlamentar já haviam incorporado o termo à campanha.
Em um dos atos, um cartaz dizia: “Somos todos piá”. Em vídeo publicado
nas redes sociais, Nikolas aparece cercado por apoiadores, sob gritos
contra o PT, e diz: “É assim que se faz blocão, Janja.”
Nikolas não garantiu apenas a própria reeleição, mas também conseguiu
emplacar 21 deputados federais em todo o país. Muitos deles foram os
mais votados em seus Estados. É o caso do vereador paulistano Lucas
Pavanato (PL), de 28 anos, que também ultrapassou os 3 milhões, e o
deputado estadual capixaba Lucas Polese (PL), de 30, que conseguiu 419
mil votos.
Os três chegaram ao topo da votação nacional, enquanto
nomes com décadas de mandatos ficaram pelo caminho. Eles
representam uma geração da direita que combina militância nas redes,
pautas conservadoras e ambição de ampliar sua influência no
Legislativo.
Eduarda Campopiano (PL-SP) também entrou para a história das
votações milionárias ao ser eleita deputada estadual com quase 2
milhões de votos aos 23 anos. Nenhuma outra mulher recebeu tantos
votos nas disputas para a Câmara e as assembleias legislativas. Dois anos
antes, Eduarda havia conquistado seu primeiro mandato com 3,5 mil
votos. Eduarda, Nikolas, Pavanato e Polese somam mais de 8,5 milhões
de votos.
Do sótão aos 3 milhões
Antes da eleição, Pavanato calculava que poderia chegar a 700 mil votos.
Considerava 1 milhão ou 1,2 milhão um cenário excepcional. Quando a
apuração terminou, 3.038.438 eleitores haviam digitado seu número. O
resultado fez dele o deputado federal mais votado de São Paulo e colocou
seu nome, ao lado do de Nikolas, acima dos antigos recordes de votação
para a Câmara
A escalada eleitoral ocorreu em apenas quatro anos. Em 2022, Pavanato
recebeu pouco mais de 36 mil votos na disputa por uma cadeira na
Assembleia Legislativa e ficou como suplente. Em 2024, saltou para 161
mil e se tornou o vereador mais votado da cidade de São Paulo. Dois anos
depois, multiplicou essa votação quase 19 vezes.
A trajetória começou antes da fama nas redes. Nascido em Sorocaba e
criado em São José dos Campos, Pavanato entrou na militância durante as manifestações pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Aos
18 anos, mudou-se para a capital paulista. Sem uma estrutura familiar
montada na cidade, chegou a morar no sótão de um comitê político na
Vila Mariana e recebia um salário de R$ 1 mil.
Ligado ao Movimento Brasil Livre (MBL), começou como estagiário no
gabinete do então vereador Fernando Holiday. Mais tarde, rompeu com o
movimento, aproximou-se do ex-presidente Jair Bolsonaro e filiou-se ao
PL. Se os gabinetes lhe ensinaram a mecânica da política, foram as redes
que deram escala à carreira. Pavanato construiu sua audiência com
vídeos curtos, abordagens nas ruas e confrontos sobre temas políticos.
Com mais de 3 milhões de votos, Pavanato supera as próprias previsões e bate recorde | Foto: Reprodução/Redes sociai
Depois da eleição, atribuiu parte da votação à autenticidade que o público
reconhece nele. A explicação ajuda a entender uma característica
compartilhada pelos quatro personagens. A presença nas redes vai além
dos meses de campanha. O seguidor acompanha discussões, viagens,
reações a notícias e disputas políticas ao longo do tempo.
Quando chega a eleição, já os conhece, ainda que essa familiaridade nem sempre se
transforme em voto.
Pavanato pretende levar a Brasília bandeiras que defendia como
vereador: segurança pública, redução da maioridade penal, fiscalização
do Judiciário e legislação sobre ideologia de gênero.
“Vão sair vários
Nikolas”, diz. “Vamos construir os próximos prefeitos, parlamentares e
governadores usando a força das redes sociais.”
Das telas para as urnas
Eduarda esperava obter cerca de 500 mil votos. Na noite da eleição, pediu
aos convidados no QG de campanha que guardassem os celulares numa
caixa. Queria receber a notícia de uma vez. Apenas um amigo
acompanharia a apuração; o chefe de gabinete anunciaria os resultados
quando a contagem terminasse. Ao ouvir que Pavanato havia
ultrapassado 3 milhões, ficou pálida.
Quando veio o anúncio de sua
própria votação, os óculos saíram do rosto. Choravam os pais, o noivo e a
equipe.
Aos 17 anos, Eduarda mudou-se para a Praia Grande. Mais tarde, um
livro que ganhou da mãe a estimulou a gravar vídeos sobre aborto e
feminismo.
O cabelo colorido e as tatuagens chamavam a atenção de
quem não esperava ouvir posições conservadoras. A reação do público,
segundo ela, ajudou a difundir os primeiros conteúdos. “Nossa, essa
menina aqui, com cara de esquerdista, toda metaleira, meio emo, falando
de política de direita?”, lembra.
A repercussão trouxe convites para podcasts, palestras e, em 2024, a
proposta de disputar uma cadeira de vereadora. Eduarda hesitou:
pensava em continuar produzindo conteúdo.
Com o incentivo da mãe, de
Pavanato e de integrantes do PL, decidiu concorrer. Nikolas também
apoiou a campanha. Na Câmara Municipal, Eduarda afirma ter aprovado
três dos cerca de 20 projetos apresentados. Atribui as dificuldades a
objeções jurídicas e à resistência dos colegas. Segundo ela, os vereadores
evitam votar propostas polêmicas.
Eduarda Campopiano, a deputada estadual mais votada do Estado de São Paulo | Foto: Reprodução/X
Entre as propostas aprovadas, Eduarda cita a conscientização sobre
saúde mental masculina, a preferência de matrícula para irmãos na
mesma escola e restrições a contratações. Esta última limita o acesso a
cargos públicos de condenados por violência sexual contra crianças e
adolescentes. Ela pretende levar a medida à Assembleia.
“Ser pró-vida
não é só defender o direito de nascer, é você proteger essas crianças
depois que elas nascem também.” Na Assembleia, como seu primeiro ato,
pretende pedir informações sobre abortos realizados no Estado, seus
motivos e investigações de clínicas clandestinas para orientar a
elaboração de propostas.
Ascensão em todo o Brasil
Fora do maior colégio eleitoral do país, a renovação chegou ao Espírito
Santo, que tem cerca de 3 milhões de eleitores aptos a votar. Lucas Polese (PL) recebeu aproximadamente 419 mil votos e tornou-se o deputado
federal mais votado da história capixaba. “Fiquei muito surpreso”,
afirma. “Nem nas melhores projeções imaginávamos esse resultado.
Estamos muito honrados pela confiança dos capixabas, mas também é
muita responsabilidade. De cada cinco eleitores do Estado, um votou em
mim”.
Lucas Polese (PL) é o deputado federal mais votado da história do Espírito Santo | Foto: Reprodução/Assembleia Legislativa do ES
Toda a receita da campanha veio de doações, sem recursos do fundão
eleitoral. “Foi a campanha mais barata do país para a Câmara dos
Deputados. Custou cerca de 18 centavos o voto”, relata.
Natural de Cariacica (ES), Polese mudou-se para Colatina, no interior do
Estado. Sua família possui uma pequena propriedade rural em Linhares,
dedicada ao cultivo de café, onde o parlamentar trabalhou na agricultura.
Eleito deputado estadual em 2022, Polese priorizou a oposição ao
governador Renato Casagrande (PSB), aliado do presidente Lula, e a
defesa de pautas ligadas ao agronegócio.
Próximo de Nikolas, o parlamentar projeta uma atuação na Câmara
baseada na defesa da propriedade privada, da desburocratização e de um
Estado mais enxuto. Ele divide sua plataforma em grandes blocos. O
primeiro visa a um “reequilíbrio de forças entre os Poderes”.
“Apesar de o
Senado conduzir o impeachment, a Câmara também é muito importante
nesse processo de investigação política,” defende, citando a necessidade
de reformas para que o Supremo “deixe de ser uma delegacia”. A terceira
prioridade do mandato é a segurança pública. Seu alvo principal é o
domínio das facções, que impõem “uma legislação própria e tribunais do
crime” em partes do país.
O teste do Congresso
A presença de jovens com forte atuação digital entre os mais votados do
país desenha a troca geracional em curso. Em vez de estruturas
partidárias consolidadas e décadas de mandatos, parte dos novos
campeões de voto chegou à política na era dos vídeos curtos e construiu
ali a própria base eleitoral. Os quatro assumem a legislatura com capital
político erguido fora do roteiro tradicional.
Se a velha política ensinava a
esperar a vez, as urnas de 2026 provaram que essa geração decidiu
chegar antes.
Vanessa Araújo, Rachem Diaz e Tauany Cattan - Revista O)este