Nota do editor:
Este é o quarto artigo de uma série de publicações que reproduzem o artigo de Ralph Raico “Was Keynes a Liberal?“, publicado na edição de outono de 2008 da The Independent Review. Os artigos investigam a teoria keynesiana e a admiração de John Maynard Keynes por ideologias e governos totalitários. Leia o primeiro, o segundo e o terceiro artigo da série. Todas as referências bibliográficas estão contidas ao final do primeiro artigo.
O que explica o elogio de Keynes ao livro dos Webb e ao sistema soviético? Pouco resta a duvidar de que a principal razão seja, mais uma vez, sua aversão profundamente enraizada à busca do lucro e ao ganho monetário, uma atitude que o casal fabiano compartilhava.
Segundo sua amiga e também fabiana Margaret Cole, os Webb viam a Rússia soviética, do ponto de vista moral e espiritual, como “a esperança do mundo” (1946, p. 198). Para eles, o aspecto “mais empolgante” de todos era o papel do Partido Comunista, que, segundo Beatrice, constituía uma “ordem religiosa”, empenhada na criação de uma “Consciência Comunista”. Em 1932, Beatrice pôde anunciar: “É porque acredito que chegou o dia da mudança do egoísmo para o altruísmo — como mola propulsora da vida humana — que sou comunista” (citada em Nord 1985, pp. 242–44).
Em Soviet Communism, os Webb exaltam efusivamente a substituição dos incentivos monetários pelos rituais de “envergonhar o infrator” e pela autocrítica comunista (Webb e Webb 1936, pp. 761–62). Até praticamente o fim de sua vida, em 1943, Beatrice ainda elogiava a União Soviética por “sua democracia multiforme, sua igualdade sexual, de classe e racial, sua produção planejada para o consumo da comunidade e, acima de tudo, sua penalização do motivo do lucro” (Webb 1948, p. 491). Após sua morte, Keynes a exaltou como “a maior mulher da geração que agora está morrendo”1.
Assim como os Webb, Keynes identificava a religiosidade com a autoabnegação do indivíduo em favor do bem do grupo. Em termos econômicos, essa visão se traduzia em trabalhar em troca de recompensas não pecuniárias, transcendendo, dessa forma, a motivação sórdida de “nove décimos das atividades da vida” nas sociedades capitalistas. Para Keynes, assim como para os Webb, essa transcendência constituía a essência do elemento “religioso” e “moral” que eles identificavam e admiravam no comunismo.
Em sua paixão por difamar o ganho monetário, Keynes chegou até mesmo a recorrer à psicanálise em busca de respaldo. Fascinado pela obra de Sigmund Freud, como a maioria dos membros do Círculo de Bloomsbury, Keynes a valorizava sobretudo pelas “intuições” que se alinhavam às suas próprias, especialmente no que dizia respeito à importância do amor ao dinheiro. Em seu Tratado sobre a Moeda, ele se refere a uma passagem de um artigo de 1908 em que Freud escreve sobre as “conexões que existem entre os complexos de interesse pelo dinheiro e pela defecação” e sobre a identificação inconsciente “do ouro com as fezes” (Freud 1924, pp. 49–50; Keynes 1971b, p. 258 e n. 1; e Skidelsky 1992, 188, pp. 234, 237, 414)2. Esse “achado” psicanalítico permitiu a Keynes afirmar que o amor ao dinheiro era condenado não apenas pela religião, mas também pela “ciência”. Assim, além de constituir “o problema ético central da sociedade moderna” (O’Donnell 1989, p. 377, n. 14), a preocupação com o dinheiro seria também um tema adequado para o alienista.
Keynes aguardava com expectativa o tempo em que o amor ao dinheiro enquanto mera posse “será reconhecido pelo que é: uma morbidez um tanto repugnante, uma daquelas propensões semi-criminosas, semi-patológicas que se entrega, com um arrepio, aos especialistas em doenças mentais” (1972, p. 329). É lamentável dizer que Keynes não desenvolve qual tratamento ele esperava que tais especialistas aplicassem às pessoas perturbadas diagnosticadas como portadoras dessa aflição mental.
Nas declarações pró-soviéticas de Keynes e na completa ausência de preocupação com elas por parte de seus devotos, encontramos mais uma vez o grotesco duplo padrão que continua a ser quase universal (Applebaum 1997; Courtois 1999; Malia 1999). Se, em meados da década de 1930, um escritor celebrado tivesse se manifestado em relação à Alemanha nazista nos termos ocasionalmente benevolentes que Keynes utilizou para se referir à União Soviética, ele teria sido publicamente achincalhado, e seu nome exalaria infâmia até hoje. No entanto, por mais malignos que os nazistas viessem a se tornar, em 1936 suas vítimas ainda representavam apenas uma pequena fração das vítimas do regime soviético3.
De fato, o caso de Keynes é pior do que o de alguém que tivesse meramente elogiado Hitler, por exemplo, por supostos êxitos em curar o problema do desemprego, restaurar o autorrespeito alemão ou alcançar quaisquer outros “feitos” que o nacional-socialismo pudesse reivindicar. O verdadeiro análogo de Keynes, em sua mistura de crítica e simpatia em relação ao comunismo soviético, seria um escritor que denunciasse as perseguições e a supressão da liberdade de pensamento sob os nazistas e, ao mesmo tempo, os elogiasse por sua “consciência” da “questão racial”, da qual poderíamos extrair alguma esperança para o futuro. Pois justamente aquilo que Keynes considerava admirável na Rússia soviética — a vontade de suprimir o ganho monetário e o incentivo trazido pelo lucro — foi a principal fonte dos horrores.
Como adeptos de uma variante do marxismo, Lenin e, depois dele, Stalin compartilhavam o desprezo de Marx pelo dinheiro. O comunismo buscava abolir o dinheiro, juntamente com a busca do lucro e as trocas privadas — todo o sistema de mercado — que o dinheiro tornava possível. O comunismo soviético escolheu suas vítimas principalmente entre aqueles marcados por seu suposto amor ao dinheiro e aos lucros: a burguesia e os proprietários de terras do antigo regime; os “especuladores” e “açambarcadores” dos anos do “comunismo de guerra” e do primeiro Terror Vermelho; depois, os nepmen e os “kulaks” do período da coletivização e da introdução dos planos (Leggett 1981; Conquest 1986; Malia 1994, pp. 129–33). Como Keynes pôde ignorar a ligação entre a perseguição à busca individual de riqueza e o tormento imposto pelo estado que era a regra na Rússia soviética — especialmente considerando que, no livro que ele resenhou em seu pronunciamento por rádio, os autores glorificam a decisão de Stalin de avançar para “a liquidação dos kulaks enquanto classe” (Webb e Webb 1936, pp. 561–72)?
Uma característica notável dos comentários elogiosos de Keynes sobre o sistema soviético, tanto aqui quanto em outros textos, é a ausência total de qualquer análise econômica. Keynes parece estar despreocupadamente alheio à possibilidade de que exista um problema de cálculo econômico racional sob o socialismo. Essa questão já vinha ocupando estudiosos do continente europeu havia algum tempo e era objeto de discussões intensas na London School of Economics.
No ano anterior ao pronunciamento de Keynes em uma rádio, um volume editado por F. A. Hayek, Collectivist Economic Planning (Hayek, 1935) [Planejamento econômico coletivista], havia sido publicado em inglês. A obra incluía a tradução do ensaio seminal de 1920 de Ludwig von Mises, “Economic Calculation in the Socialist Commonwealth” [O cálculo econômico sob o socialismo]. Na London School of Economics, a partir de 1933–34, Hayek já ministrava um curso chamado “Os problemas da economia coletivista”. Um seminário dirigido por Hayek, Lionel Robbins e Arnold Plant, dedicado principalmente ao mesmo tema, já havia sido oferecido em 1932–33 (Moggridge, 2004).
Keynes não deu qualquer indicação de que estivesse minimamente ciente do debate ou sequer interessado na questão4. Em vez disso, o que importava para Keynes era a empolgação do experimento soviético (houve alguma vez outro economista — ou pensador liberal — que recorresse com tanta frequência a “empolgação” e “tédio” como critérios para julgar sistemas sociais?), a amplitude impressionante das transformações sociais dirigidas por aqueles “administradores desinteressados” e o avanço ético supostamente pioneiro representado pela abolição do motivo do lucro.
Essas evidências significam que Keynes tenha sido, em algum momento, comunista? Claro que não. Mas sua simpatia claramente expressa pelo sistema soviético (bem como, em grau muito menor, por outros estados totalitários), quando somada à sua teoria econômica favorável à expansão do estado e à sua visão utópica dominada pelo estado, deveria fazer com que aqueles que o alistam tão prontamente nas fileiras liberais reflitam com mais cautela. Encarar Keynes como talvez “o liberal modelo do século XX”, ou mesmo como qualquer liberal autêntico, só pode tornar obsoleto um conceito histórico indispensável.
Este artigo foi originalmente publicado no Mises Institute.
- Escrito em uma carta a George Bernard Shaw (citada em Skidelsky 2001, 168). Skidelsky acrescenta, de forma um tanto enigmática, que embora Keynes tivesse providenciado um obituário elogioso para Beatrice, ele “ainda ansiava por uma apreciação de sua economia” (2001, 527 n. 76). É de se perguntar em que consistiria uma “apreciação” do pensamento econômico de Beatrice Webb. ↩︎
- Obviamente, se alguém seguisse o exemplo de Keynes, teria de sondar o próprio inconsciente de Keynes para descobrir as fontes questionáveis tanto do seu envolvimento com o tema do dinheiro ao longo da sua carreira profissional como da sua rejeição intensa e carregada de emoção do motivo do dinheiro. ↩︎
- Em uma carta a Upton Sinclair datada de 2 de maio de 1936, H. L. Mencken, que era tão perspicaz politicamente quanto espirituoso em geral, escreveu: “Sou contra a violação dos direitos civis por Hitler e Mussolini tanto quanto você, e você sabe disso muito bem(…) Você protesta, e com razão, toda vez que Hitler prende um oponente, mas esquece que Stalin e companhia prenderam e assassinaram mil vezes mais pessoas. Parece-me, e de fato as evidências são claras, que, em comparação com os bandidos e assassinos de Moscou, Hitler é pouco mais do que um membro comum da Ku Klux Klan e Mussolini quase um filantropo” (1961, 403). Sou grato a Paul Boytinck por chamar minha atenção para essa passagem. ↩︎
- Ainda em 1944, em uma carta a Hayek comentando sobre O caminho da servidão, Keynes afirmou: “A linha de argumentação que você mesmo adota depende da suposição muito duvidosa de que o planejamento não é mais eficiente. É bem provável que, do ponto de vista puramente econômico, ele seja eficiente” (Keynes 1980, 386). O fato de Keynes ter se referido a essa visão como uma “suposição” indica que ele nunca tomou conhecimento do grande debate sobre o cálculo econômico no socialismo. A total ausência de análise econômica em seus relatórios sobre a Rússia Soviética lembra a conclusão de Karl Brunner sobre as noções de Keynes sobre reforma social: “Dificilmente se poderia imaginar, a partir do material dos ensaios, que um cientista social, mesmo um economista, os tivesse escrito. Qualquer sonhador social da intelectualidade poderia tê-los produzido. Questões cruciais […] nunca são enfrentadas ou exploradas” (1987, 47). Talvez haja alguma verdade no julgamento de sua boa amiga Beatrice Webb em 1936: “Keynes não leva a sério os problemas econômicos; ele joga xadrez com eles [sic] em suas horas de lazer. O único culto sério para ele é a estética” (1985, 371). Para uma avaliação de Keynes como “o artista consumado”, além das implicações científicas de sua teoria, consulte Buchanan 1987.
Ralph Raico - Mises Brasil