O país está à beira de uma recessão, cenário parecido com o produzido
por Dilma
Foto: Montagem Revista Oeste/IA
S
e quiser salvar o país da falência, quem assumir a Presidência
em 1º de janeiro de 2027 terá de desarmar uma bomba. Nos
últimos quatro anos, e especialmente neste, Lula torrou bilhões
em programas sociais para dar a falsa ideia de que o Brasil está
melhorando. Como ocorreu em 2015, no início do segundo mandato de
Dilma Rousseff, a conta vai ficar, de novo, no vermelho. O roteiro é muito
parecido com o que levou ao impeachment de Dilma. A incerteza fiscal
abala a confiança dos investidores a respeito da capacidade de
pagamento do governo. Esse receio faz com que o dólar fique mais caro, o
que, por sua vez, encarece uma grande parte de produtos. O aumento de
custos é repassado ao consumidor, resultando em uma inflação que
aperta o bolso. Para segurar a inflação, o Banco Central eleva a taxa
básica de juros, a chamada Selic, a qual serve de referência para
contratos e empréstimos. Na prática, o dinheiro vale menos no mercado e
o custo de vida aumenta. É um ciclo vicioso.

Nos últimos quatro anos, e especialmente neste, Lula torrou bilhões em programas sociais para dar a falsa ideia de que o Brasil está
melhorando - Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
“A falta de confiança fiscal acaba chegando à inflação, ao crédito e ao
crescimento”, explica André Braz, economista da FGV Ibre. “O problema
é que juros tão altos deixam as contas do dia a dia mais caras e sufocam
muitas famílias que não conseguem pagar suas dívidas. Com isso, a
inadimplência bate recordes e o consumo do brasileiro despenca”.
Somente em 2026, Lula torrou mais de R$ 187 bilhões num pacote de
“bondades” que inclui subsídios, expansão do Minha Casa Minha Vida,
Desenrola e Pé de Meia, entre outros.
Números assustam
A dívida pública em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) vem
crescendo nos últimos quatro anos. Em 2022, era 71,7%. Neste ano em
que Lula tenta se reeleger, somente até maio, a dívida chegou a 81,1% e a
projeção do mercado é que passe dos 86% em 2026. De acordo com o
Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), até 2028 a dívida bruta
pode alcançar 90%, e até 2030, 94,1% do PIB.
A relação entre a dívida do governo e o PIB é uma das principais medidas
da situação fiscal porque mostra o tamanho da dívida em comparação
com a capacidade de geração de renda do país. Ela reflete os déficits
acumulados e o peso dos juros. Mas há outros dados que evidenciam a
piora fiscal no país. O déficit primário atingiu R$ 92,3 bilhões em junho
de 2026 — número dez vezes superior aos R$ 9,8 bilhões registrados no
mesmo período do ano passado. O crescimento espantoso ocorreu
porque as despesas do governo tem aumentado em proporção bem maior do que a capacidade de arrecadação, embora ela seja altíssima. É como se
um chefe de família gastasse sempre mais do que recebe de salário.
A dívida pública federal alcançou cerca de R$ 9 trilhões em maio de
2026. Nos cinco primeiros meses do ano, a arrecadação já havia chegado
a R$ 3,3 trilhões. “O que vemos hoje é um cenário igual ou pior do que a
tragédia com Dilma, a qual nos levou para a pior recessão do país, com
crescimento desenfreado de gastos, tributos e dívida”, avalia Marina
Helena, economista e ex-diretora do Ministério da Economia. “Tem que
cortar de maneira geral, como os supersalários e verbas de municípios”,
sugere.
Os principais indicadores da economia vão mal. Nos últimos quatro anos,
o PIB vem caindo, enquanto as taxas de juros e a inflação sobem. O dólar
está baixando depois de chegar a R$ 6,19 em 2024 — a cotação mais alta
em dez anos. A moeda também está vulnerável à pressão externa, com o
preço do petróleo subindo por causa da guerra entre Estados Unidos e Irã
— cerca de 20% da produção mundial passa pelo Estreito de Ormuz.
Para piorar, “o tarifaço dos Estados Unidos vai afetar as exportações
brasileiras, o crescimento econômico e a geração de emprego, o que
atinge o orçamento das famílias, principalmente as mais pobres”, analisa
Claudio Felisoni, professor da FIA Business School.
A dívida da dívida
É aí que o nó da situação fiscal brasileira aperta. Uma das formas de o
governo financiar seus gastos é com a venda de títulos públicos. Quando
aumenta sua dívida em relação ao PIB, precisa vender mais títulos para
ter fôlego financeiro. Mas, quando a dívida do país se torna muito grande
e a previsão de estabilidade é turva, os investidores, receosos, exigem
juros mais altos para emprestar dinheiro ao país.
Por isso, o Tesouro Direto oferece atualmente rentabilidade indexada à
inflação oficial mais 8% de ganho real fixo todo ano (o IPCA+8%). A oferta
é considerada uma rara oportunidade para quem investe. Já o mercado
enxerga que o governo está gastando mais do que arrecada para
compensar o risco de um calote ou de descontrole econômico. Além
disso, é um dinheiro que vai para pagamento de dívida e não para
investimentos. “Não por acaso, o Tesouro Nacional enfrenta dificuldade
para vender títulos da dívida pública brasileira”, observa o comentarista
de economia Carlo Cauti. “Bancos e corretoras preveem uma alta forçada
dos juros até o fim do ano para conter os preços.”
No mercado financeiro, é difícil encontrar alguém que acredite que a
meta de inflação de 3% será cumprida — com tolerância de 1,5 ponto
percentual para mais ou para menos. O próprio governo admitiu, ao subir
a projeção para 5%. “O arcabouço fiscal perdeu força, enfrentando
pressões por emendas parlamentares sem punições reais e sem
compromisso do governo atual com o controle de despesas”, afirma
Cauti, que ressalta outro ponto: as exceções.
Para se blindar de não
incorrer em nenhum crime fiscal, como aconteceu com Dilma, Lula vem
conseguindo gastar mais com a ajuda do Supremo Tribunal Federal (STF)
e do Congresso Nacional para validar grandes manobras econômicas fora
do limite de despesa. Um exemplo recente é a decisão do STF de
derrubar a idade mínima para aposentadoria especial de trabalhadores
expostos a agentes nocivos à saúde. Isso pode elevar as despesas da
União em R$ 7,8 bilhões até 2030.
Carga pesada sem retorno
Renato Opice, gestor de recursos financeiros e sócio da Rafter
Investimentos, alerta que o impacto fiscal chega também ao comércio, à
indústria e ao mercado de trabalho: “Se os juros não caírem, muitas
empresas vão quebrar”, diz. “Ou faz uma reforma ou quebra, está
insustentável, há enorme quantidade de empresas pedindo concordata, o
dinheiro está caro.” Segundo Opice, o ambiente de negócios desfavorável
tem levado companhias brasileiras a investir em outros países. A Lupo,
por exemplo, expandiu sua produção no Paraguai para fugir dos altos
custos operacionais no Brasil.
Opice e Marina Helena salientam que, além de o brasileiro pagar muito
imposto, não tem retorno. O Brasil ocupa a última posição (30º) no
ranking do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT), que
mede a conversão da carga tributária em serviços essenciais para a
população.
Diferentemente de nações desenvolvidas com carga tributária
similar, o país não reverte os tributos em retornos efetivos para a sociedade. Ambos lembram do choque fiscal que Javier Milei aplicou na
Argentina em 2023. Entre as ações que tiraram o país do vermelho, o
governo eliminou repasses estatais que barateavam artificialmente as
contas de luz, gás e água, paralisou obras e cortou ministérios.
A Lupo, por exemplo, expandiu sua produção no Paraguai para fugir dos altos custos operacionais no Brasil - Foto: Divulgação
Há solução
O futuro presidente, no entendimento de muitos economistas, terá de ser
muito claro a respeito de sua política econômica: se continuará gastando
ou fará cortes e reajustes. Alguns defendem a ideia de rever planos na
Educação, Saúde e Previdência e desvincular essas áreas do orçamento
público. Outros, como o ex-ministro de Minas e Energia Adolfo Sachsida,
são contra mexer nas aposentadorias. Em entrevista à Oeste, Sachsida
afirmou que uma equipe experiente consegue reverter o cenário atual em
cerca de um ano e meio. O ex-ministro elaborou, com um grupo de cerca
de 100 especialistas, um projeto com propostas legislativas focadas em
crescimento, produtividade e inclusão social, que será entregue ao
próximo presidente.
Para não mexer nos benefícios, será necessário promover um imediato
enxugamento da máquina pública. Outra forma de melhorar a
arrecadação do governo sem aumentar impostos seria a venda ou
concessão de ativos da União, com os recursos direcionados à redução do
endividamento. Na visão desses economistas, um programa fiscal
consistente e de longo prazo ajudaria a reduzir a percepção de risco,
estimular a entrada de investimentos, melhorar gradualmente a
trajetória da dívida em relação ao PIB e reduzir os juros.
Seja qual for o caminho escolhido pelo próximo presidente, o essencial é
reconstruir a previsibilidade. “O país precisa mostrar que consegue
controlar a dívida sem paralisar a economia e promover crescimento
sem reacender a inflação”, afirma Braz. De outro modo, continuaremos
presos a uma combinação conhecida: juros altos, câmbio vulnerável e
crescimento abaixo do potencial.
Raphaela Ribas - Revista Oeste