domingo, 16 de agosto de 2026

Lula é o caloteiro da esperança, afirma Flávio Bolsonaro

 Candidato afirma que promessa de esperança do governo Lula deu lugar a medo, insegurança e dificuldades sociais


Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência da República. (Foto: Reprodução/Youtube/Canal Flávio Bolsonaro)

urante o ato que marcou o início de sua campanha ao Palácio do Planalto, neste domingo (16), em Copacabana, no Rio de Janeiro, o senador Flávio Bolsonaro (PL) afirmou que o presidente Lula (PT) é o “caloteiro da esperança”.

 Em discurso aos apoiadores, Flávio afirmou que parte dos brasileiros que acreditaram nas promessas de campanha do petista teria passado a enfrentar medo, insegurança e dificuldades sociais.

 

“Pra essas pessoas que acreditaram que Lula traria esperança pro povo brasileiro. O que era esperança virou medo”, declarou.

 

Ao falar sobre a população em vulnerabilidade, o senador afirmou que “as pessoas em situação de rua dobraram o número de pessoas em situação de rua durante o governo atual”. 

Segundo ele, a situação representa o abandono de brasileiros que precisam viver nas ruas.

Pessoas que têm que dormir em cima de um pedaço de papelão, enrolar um cobertor, muitas vezes sob chuva, a esperança pra eles virou frio, virou humilhação”, disse. 

Flávio também direcionou parte do discurso às mulheres vítimas de violência. O senador questionou o que dizer às mulheres que acreditaram que o governo do PT iria protegê-las e afirmou que algumas acabaram vítimas de assassinatos.

 

“O que dizer pra uma mulher que acreditou no PT e foi abandonada, que foi assassinada por um vagabundo covarde, só pelo simples fato de ser mulher?”, afirmou.

 

O candidato também citou a situação do Ceará, que é comandado pelo petista Elmano de Freitas. Dirigindo-se aos moradores do Estado, afirmou que pessoas do bairro de Morada Nova teriam sido obrigadas a deixar suas casas após uma determinação do governo estadual.

“Você que é do Ceará e está me ouvindo, e mora no bairro de Morada Nova, e teve que deixar sua casa junto com a sua família, porque o governo do Heleno mandou você sair de casa”, disse.

 

Segundo Flávio, moradores que deixaram suas residências precisaram recorrer a parentes ou amigos ou, em alguns casos, ficaram sem ter para onde ir. 

“Pra essas pessoas que acreditaram que Lula traria esperança pro povo brasileiro. O que era esperança virou medo”, declarou.

Diário do Poder

‘Pai dos pobres’ chega de helicóptero a comício com espaços vazios ou cobertos por bandeirões

 Evento foi mais uma vez "controlado", com acesso restrito a ativistas credenciados


Comício em "ambiente controlado" não teve eleitor comum, quase todos eram petistas levados em ônibus.


O primeiro ato oficial da campanha de Lula (PT) à reeleição, neste domingo (16), em São Bernardo do Campo (SP), teve espaços vazios nas arquibancadas e no gramado do Estádio 1º de Maio, a Vila Euclides. Imagens aéreas divulgadas durante o próprio evento mostraram setores sem ocupação e áreas do gramado preenchidas por bandeiras grandes.

O evento de Lula foi realizado mais uma vez em espaço fechado, “controlado”, como classificam seus assessores, no qual somente podem ter acesso pessoas convidadas ou credenciadas por órgãos ligados ao PT ou por eles controlados, como sindicatos.

O PT havia informado a expectativa de reunir pelo menos 20 mil pessoas e organizado caravanas de diferentes regiões para levar militantes.

Outro episódio que chamou atenção foi a chegada de Lula ao estádio. O presidente e a primeira-dama Janja desembarcaram de helicóptero no local, em uma agenda concebida justamente para marcar a retomada do contato de Lula com sua histórica base popular no ABC.


A cena provocou comentários críticos nas redes sociais (esq.). Em uma publicação compartilhada no perfil oficial de Lula, um dos comentários com maior repercussão ironizou: “O Pai dos Pobres chegando de Helicóptero”, acompanhado de um emoji de risada. Outros usuários também fizeram críticas ao público presente no estádio.

A escolha da Vila Euclides teve forte carga simbólica. Foi ali que Lula, ainda como líder sindical, comandou algumas das grandes assembleias dos metalúrgicos do ABC no fim dos anos 1970. Décadas depois, o local escolhido para representar uma demonstração de força popular acabou dividindo as atenções entre os espaços vazios nas arquibancadas e a chegada presidencial de helicóptero.

Espaços vazios na arquibancada e no campo foram cobertos por bandeirões – Fotos: reprodução de vídeo.

Diário do Poder

Gaspar chama violência e corrupção de ‘legado de Lula e do PT’

Vice de Flávio diz que a chapa do PL representa a 'volta da esperança' ao Brasil e promete acabar com o crime



Flávio Bolsonaro ao lado de seu vice na chapa ao Planalto, Alfredo Gaspar. (Foto: Reprodução/Youtube/Canal Flávio Bolsonaro).


O deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL), escolhido como vice na chapa de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República, afirmou neste domingo (16) que a candidatura representa uma retomada da esperança para o país. 

A declaração foi feita durante ato em Copacabana, no Rio de Janeiro, que marca o início da campanha de Flávio ao Palácio do Planalto. 

Em discurso, Gaspar afirmou que o Brasil vive um cenário de violência, corrupção e avanço do crime organizado e atribuiu esses problemas aos governos do PT.

“Devolveremos o Brasil aos brasileiros de bem. Hoje é o primeiro dia dessa jornada difícil”, declarou. 


O candidato a vice também mencionou o ex-presidente Jair Bolsonaro, pai de Flávio, ao afirmar que a família teria sido alvo de perseguições e tentativas de desestabilização política.

“Tentaram matar seu pai, separaram sua família, mas o Brasil vai levantar as bandeiras verde e amarela”, disse.

 Gaspar ainda citou dados sobre homicídios e criticou o legado que atribui ao governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) 

“Quarenta mil assassinatos, corrupção e crime organizado. Esse é o legado de Lula e do PT”, afirmou. 

Ao defender a candidatura de Flávio, o deputado afirmou que o país poderá passar por uma mudança a partir de 2027.

 O vice encerrou o discurso com uma mensagem direcionada ao eleitorado nordestino e defendeu a eleição da chapa nas urnas. 

“Em nome do Nordeste, em nome do povo de bem, sofrido do meu país, eu quero dizer: a esperança voltou, voltou com Flávio Bolsonaro. Nós já choramos muito, nós já sofremos muito. O PT arrancou o futuro da nação. Mas com Flávio Bolsonaro, nós vamos acabar com o crime e a corrupção”, disse. 

Diário do Poder

Lorota eleitoral: Lula promete ‘acabar com a fome’ há 37 anos

 

Lula faz uso eleitoral da fome desde 1989 (Foto: Ricardo Stuckert)


O presidente Lula (PT) promete “acabar com a fome no Brasil” há pelo menos 37 anos. Em novembro de 1989, na sua primeira campanha presidencial, o petista disse que seu programa de governo acabaria com a fome de todos os brasileiros. Voltou a fazer a mesma promessa na campanha de 1994. Em 2003, após vencer a disputa pela primeira vez, reafirmou a lorota no seu discurso de posse e ainda chamou de “missão”.

Para se reeleger

Na disputa do segundo mandato passou a falar de “três refeições”, já que não poderia dizer que havia famintos após quatro anos de seu governo.

Para eleger Dilma

Em 2010, após os oito anos, Lula decretou que “a fome não é mais um flagelo no país”. O Brasil só saiu do Mapa da Fome em 2014.

Para voltar à cena

O papo voltou em 2020 e 2021, após deixar a prisão e virar pré-candidato a presidente, quando “denunciou” a volta da fome.

De volta para o passado

Em 2021 Lula disse que iria acabar com a fome; em 2023 chamou a promessa de obsessão e deu prazo: até 31 de dezembro de 2026.


Diário do Poder

sábado, 15 de agosto de 2026

Filho do ex-presidiário, Lulinha pode pegar 35 anos de cadeia

 

Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha - Foto: Reprodução / Redes Sociais


Filho do presidente Lula (PT), Lulinha é investigado pela Polícia Federal em três inquéritos, autorizados pelo Supremo Tribunal Federal (STF), suspeito de tráfico de influência, corrupção, lavagem de dinheiro e até organização criminosa. Caso se torne réu e acabe condenado, Lulinha está sujeito a mais de 35 anos de cadeia. Coincidentemente, Lula foi condenado na Lava Jato por corrupção e lavagem de dinheiro e também foi acusado de organização criminosa, mas não foi condenado.

Suspeita original

Lulinha é suspeito de ter cometido tráfico de influência e corrupção para favorecer o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”.

Inquérito no. 2

Lulinha também é investigado por esses crimes no Dataprev, num esquema que envolveria organização criminosa e lavagem de dinheiro.

Nas mãos de Dino

O terceiro inquérito, aberto há 10 dias, investiga mais tráfico de influência de um grupo, que incluiria Lulinha, que teriam fraudado contrato público.

Diário do Poder

Ex-presidiário Lula tenta arrancar compromisso de Alcolumbre

 

Lula e Davi Alcolumbre (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr)


Nos recentes encontros que Lula (PT) teve com Davi Alcolumbre (União-AP), o petista tentou sair com um compromisso do presidente do Senado de que os projetos de interesse do governo seriam pautados e aprovados na Casa Alta. Em vão. Lula destacou o fim da escala 6×1, PEC da Segurança e projeto dos minerais críticos para serem aprovados antes das eleições, além de reforçar que pretende insistir em Jorge Messias, da Advocacia-Geral da União (AGU), para o Supremo Tribunal Federal.

Não tem votos

Alcolumbre não se dobrou a Lula e disse que Messias continua sem votos suficientes entre os senadores para aprovar a indicação.

Como Hugo Motta

Fora a ladainha de “diálogo republicano” e de interesse do país, Alcolumbre quer o apoio do PT para se reeleger presidente do Senado.

A própria sorte

Das pautas que Lula destacou, o senador falou que andaria com a tramitação, como fez, mas sem compromisso com resultado de votação.

Suco de maracujá

Alcolumbre avisou ainda que dificilmente alguma sai antes das eleições, mas minerais críticos tem a maior chance de votação rápida.

Diário do Poder

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

'Revolução cultural e esporte feminino', por Ana Paula Henkel

 Liberdade exige domínio sobre os próprios impulsos e o reconhecimento de uma realidade que existe independentemente de nossos desejos



Foto: Montagem Revista Oeste/IA EDIÇÃO 33


D urante décadas, discussões sobre a guerra cultural americana foram frequentemente tratadas como disputas abstratas, confinadas a universidades, livros, movimentos políticos ou debates filosóficos sobre o significado de liberdade, identidade e natureza humana. Nesta semana, porém, dois ex-jogadores da NBA encontraram uma maneira bastante concreta de obrigar uma das maiores ligas esportivas femininas do mundo a enfrentar algumas dessas perguntas. 

Enes Kanter Freedom e, em seguida, Royce White anunciaram formalmente sua intenção de participar do draft da WNBA, a liga profissional americana de basquete feminino, de 2027. Ambos decidiram utilizar as próprias regras e o discurso de inclusão da liga para colocar diante dela uma questão que deveria ser elementar para qualquer competição esportiva feminina: se o sexo biológico deixa de estabelecer a fronteira da categoria, qual é exatamente o critério que define quem pode competir entre mulheres?


Enes Kanter Freedom e, em seguida, Royce White anunciaram formalmente sua intenção de participar do draft da WNBA de 2027-| Foto: Reprodução/Redes Sociais

A iniciativa foi recebida por alguns como uma provocação, mas reduzi-la a um embate político ou ideológico apenas significa perder aquilo que a tornou relevante. Kanter e White construíram uma espécie de experimento lógico, perspicaz é absolutamente necessário.

Em vez de escreverem manifestos contra a participação de “atletas trans” — homens — em competições femininas, decidiram levar determinadas premissas culturais às últimas consequências. A resposta da WNBA tornou a contradição ainda mais evidente. A liga condenou o que classificou como iniciativas de “má-fé”, afirmou que atualmente não existe uma questão concreta de elegibilidade envolvendo atletas transgêneros e reiterou seu “compromisso com a competição justa e a inclusão”. 

Ao mesmo tempo, o acordo coletivo determina que a WNBA seja disputada por mulheres sem apresentar uma definição detalhada de identidade de gênero aplicável à categoria. A questão ultrapassa em muito duas antigas estrelas do basquete. A WNBA só existe separadamente da NBA por uma razão que, durante praticamente toda a existência do esporte moderno, pareceu dispensar explicações: homens e mulheres são biologicamente diferentes, e essas diferenças possuem consequências relevantes para a competição atlética. Se isso não fosse verdade, a própria existência de uma categoria feminina seria desnecessária. 

O esporte para as mulheres nasceu precisamente do reconhecimento de que igualdade de dignidade não significa identidade física e de que proteger uma categoria feminina exige reconhecer diferenças que nenhuma decisão administrativa ou ideologia pode eliminar A WNBA só existe separadamente da NBA por uma razão, homens e mulheres são biologicamente diferentes .


A WNBA só existe separadamente da NBA por uma razão, homens e mulheres são biologicamente diferentes - Foto: Reuters

As principais vítimas dessa confusão não são os homens que “se sentem como mulheres” e que desejam competir conosco, nem mesmo os que fazem do tema um experimento político. São as atletas, reais mulheres, que dedicaram anos de treino a uma categoria que existe precisamente para protegê-las da desigualdade física inerente ao sexo. Quando essa proteção é relativizada em nome da inclusão, o que se perde não é apenas uma regra: é a própria razão de ser do esporte feminino.

O episódio poderia terminar aí como mais uma controvérsia americana de 2026, não fosse uma coincidência particularmente interessante do calendário. Neste sábado, 15 de agosto, completam-se 57 anos do início de Woodstock, o festival realizado em uma fazenda em Bethel, no Estado de Nova York, que reuniu centenas de milhares de jovens e se tornou um dos símbolos mais poderosos da contracultura dos anos 1960. Mais de 400 mil pessoas passaram pelo local para assistir a artistas como The Who, Janis Joplin, Santana, Jefferson Airplane, Creedence Clearwater Revival e Jimi Hendrix. Woodstock foi anunciado como uma experiência de três dias de paz e música e acabaria eternizado como a grande fotografia de uma geração que pretendia transformar muito mais do que o gosto musical dos Estados Unidos. 

Seria historicamente absurdo afirmar que Woodstock produziu as disputas sobre identidade de gênero do nosso tempo. Seria igualmente absurdo observar as transformações culturais ocorridas nos últimos 57 anos sem reconhecer a importância da revolução da qual aquele festival se tornou a vitrine mais conhecida. Woodstock não inventou a contracultura, a revolução sexual, o movimento hippie ou a rebelião contra as instituições tradicionais. Tudo isso já estava acontecendo. O festival ofereceu, porém, palco, música, juventude e uma narrativa extraordinariamente poderosa a uma mudança cultural que questionava a autoridade, a moral sexual, a religião, a família e muitas das convenções herdadas pelas novas gerações. A oposição à Guerra do Vietnã, as lutas pelos direitos civis, os assassinatos políticos da época e a profunda desconfiança em relação às instituições faziam parte daquele ambiente, e seria intelectualmente desonesto ignorar que muitos daqueles jovens possuíam razões legítimas para questionar determinados aspectos da sociedade em que viviam.

O problema começou quando a correção de abusos passou progressivamente a se confundir com uma revolta contra a própria existência de limites. Uma autoridade podia ser injusta, mas disso não decorria que toda autoridade fosse opressiva. Algumas tradições podiam precisar de correção, mas disso não decorria que toda tradição fosse um instrumento de dominação. A moral podia ser utilizada hipocritamente, mas disso não decorria que toda restrição moral fosse inimiga da liberdade. A família podia apresentar falhas, como qualquer instituição humana, mas disso não decorria que a família tradicional precisasse ser desconstruída. 

A revolução cultural avançou justamente nessa fronteira, transformando a libertação de determinadas injustiças numa suspeita cada vez maior em relação às próprias estruturas que estabeleciam deveres, responsabilidades e limites. A liberdade sexual foi uma das expressões mais evidentes dessa transformação. Drogas foram romantizadas como instrumentos de expansão da consciência. A rejeição de convenções tornou-se demonstração de autenticidade. A transgressão ganhou prestígio cultural precisamente por ser transgressão. 

Woodstock não foi responsável por cada uma dessas ideias, mas tornou-se inseparável delas e ofereceu ao mundo uma imagem sedutora de uma sociedade que poderia abandonar antigas restrições e descobrir uma forma mais autêntica de existência. Era uma promessa poderosa, especialmente para uma geração jovem que havia aprendido a desconfiar daqueles que lhe diziam como viver.


Neste sábado, 15, completam-se 57 anos do Woodstock, o festival realizado em uma fazenda em Bethel, no Estado de Nova York = Foto: Reprodução/Redes Sociais


Cinco décadas e meia oferecem uma vantagem que os participantes de qualquer revolução jamais possuem: a possibilidade de observar os frutos. 

A contracultura não permaneceu numa fazenda em Bethel. Aqueles jovens cresceram, e muitas das ideias que representavam rebelião contra o establishment passaram gradualmente a ocupar o próprio establishment. Elas entraram nas universidades, no entretenimento, na publicidade, na imprensa, nas empresas e nas instituições responsáveis pela formação das gerações seguintes. Conceitos que haviam começado como desafios à cultura dominante passaram, em muitos ambientes, a definir a própria cultura dominante. 

A grande ironia dos anos 1960 é que uma geração que se orgulhava de desafiar as instituições conquistou enorme influência sobre as instituições que entregaria aos seus filhos e netos.

Nesse processo, uma mudança particularmente importante ocorreu na compreensão da liberdade. Para grande parte da tradição ocidental, liberdade nunca significou simplesmente ausência de limites. A liberdade exigia também domínio sobre os próprios impulsos, responsabilidade pelas próprias escolhas e reconhecimento de uma realidade que existe independentemente de nossos desejos.

O indivíduo livre não era aquele que podia transformar qualquer vontade em direito, mas aquele capaz de governar a si mesmo. Quando essa compreensão começa a desaparecer, o limite deixa de ser visto como condição para o exercício responsável da liberdade e passa a ser tratado como inimigo a ser derrotado.

A contradição fica ainda mais aguda quando se observa que a mesma cultura que celebrou a libertação do indivíduo agora exige que instituições, ligas esportivas, escolas e empresas reconheçam e validem “identidades fluidas” como se fossem fatos objetivos. 

A revolução que começou desafiando autoridades externas terminou criando novas autoridades, apenas com premissas diferentes. É justamente nesse ponto que uma fazenda de 1969 e uma quadra de basquete de 2026 começam a pertencer à mesma conversa cultural.


Quando a liberdade encontrou a biologia. 

Entre Woodstock e a WNBA existem 57 anos de transformações, movimentos, ideias e disputas que jamais poderiam ser reduzidos a uma única linha causal. Existe, porém, uma continuidade intelectual que merece ser examinada. Se a liberdade é progressivamente compreendida como a capacidade de libertar o indivíduo de qualquer definição recebida, chega um momento em que a revolução encontra uma fronteira particularmente resistente: a própria realidade. 

O corpo humano passa então a ser tratado não como parte constitutiva de quem somos, mas como mais uma limitação diante da qual a vontade individual reivindica soberania — a última fronteira da revolução. O esporte tornou essa contradição impossível de esconder justamente por lidar com uma realidade mensurável. Cronômetros, força, velocidade, altura, massa muscular e desempenho não respondem a slogans. 

A categoria feminina existe para reconhecer diferenças físicas entre os sexos e permitir que mulheres tenham condições justas de competir. Defender essa categoria não diminui a dignidade de qualquer pessoa, assim como reconhecer diferenças biológicas não estabelece uma hierarquia de valor humano. Significa apenas aceitar que igualdade e diferença podem coexistir — uma conclusão perfeitamente normal até que a guerra contra os limites tornou o normal objeto de controvérsia. Biologia não é de esquerda ou direita.

Foi isso que Kanter e White perceberam. Ao anunciarem sua intenção de participar do recrutamento da liga feminina de basquete, eles retiraram a discussão do conforto das formulações abstratas e a entregaram a uma instituição que precisa estabelecer regras. Regras que deveriam proteger a realidade e não uma agenda ideológica ridícula que fere mulheres. Uma liga pode publicar manifestos sobre inclusão, organizar grupos de trabalho e condenar aqueles que considera agentes de má-fé, mas, em algum momento, precisa responder à pergunta objetiva sobre quem está autorizado a entrar em quadra. 

A WNBA anunciou que “continuará discutindo o tema com suas equipes”, enquanto as notícias provocadas pelos dois ex-atletas ganharam dimensão nacional.

Nada disso exige transformar Woodstock numa caricatura. A música foi extraordinária. A criatividade daquela geração é inegável. Muitos daqueles jovens desejavam sinceramente paz num país traumatizado.pela guerra, pelo conflito racial e pela violência política. 

Uma crítica conservadora séria não precisa fingir que tudo o que existia antes dos anos 1960 era bom para reconhecer que nem tudo o que foi destruído depois deles precisava desaparecer. Civilizações maduras são capazes de corrigir tradições injustas sem concluir que tradição é sinônimo de opressão, combater autoridades abusivas sem destruir a autoridade legítima e ampliar espaços de liberdade sem declarar guerra à responsabilidade, à natureza humana e à verdade. 

Esse talvez seja o ponto em que a coincidência entre Woodstock e a controvérsia da WNBA deixa de ser apenas uma curiosidade do calendário. Toda revolução contra os limites acaba, cedo ou tarde, encontrando um limite que não consegue abolir. Durante décadas, a cultura ocidental experimentou empurrar essas fronteiras cada vez mais longe. Agora, em alguns dos debates mais intensos do nosso tempo, chegou ao corpo humano. 

Os jovens que foram a Woodstock em 1969 queriam derrubar limites para descobrir quem realmente eram. Cinquenta e sete anos depois, duas antigas estrelas da NBA obrigaram uma instituição esportiva feminina a enfrentar uma pergunta que deveria ser infinitamente mais simples: o que é necessário para preservar uma categoria criada para mulheres? 

Woodstock prometeu liberdade sem fronteiras. Cinco décadas depois, a fronteira que se recusa a desaparecer é o corpo. E nenhuma liga esportiva, por mais inclusiva que pretenda ser, consegue abolir a biologia apenas por decreto. Woodstock não acabou. Só mudou de endereço. Agora que seus herdeiros encontram dificuldades até para explicar onde terminam a vontade individual e a realidade, talvez tenha chegado o momento de reconhecer algo essencial: nem todos os limites que aquela revolução derrubou eram, de fato, inimigos da liberdade.


 Ana Paula Henkel  - Revista Oeste