domingo, 18 de janeiro de 2026

'É verdade que Keynes era um liberal?', por Ralph Raico



Nota do editor:

Este é o quarto artigo de uma série de publicações que reproduzem o artigo de Ralph Raico “Was Keynes a Liberal?“, publicado na edição de outono de 2008 da The Independent Review. Os artigos investigam a teoria keynesiana e a admiração de John Maynard Keynes por ideologias e governos totalitários. Leia o primeiro, o segundo e o terceiro artigo da série. Todas as referências bibliográficas estão contidas ao final do primeiro artigo.


O que explica o elogio de Keynes ao livro dos Webb e ao sistema soviético? Pouco resta a duvidar de que a principal razão seja, mais uma vez, sua aversão profundamente enraizada à busca do lucro e ao ganho monetário, uma atitude que o casal fabiano compartilhava.

Segundo sua amiga e também fabiana Margaret Cole, os Webb viam a Rússia soviética, do ponto de vista moral e espiritual, como “a esperança do mundo” (1946, p. 198). Para eles, o aspecto “mais empolgante” de todos era o papel do Partido Comunista, que, segundo Beatrice, constituía uma “ordem religiosa”, empenhada na criação de uma “Consciência Comunista”. Em 1932, Beatrice pôde anunciar: “É porque acredito que chegou o dia da mudança do egoísmo para o altruísmo — como mola propulsora da vida humana — que sou comunista” (citada em Nord 1985, pp. 242–44).

Em Soviet Communism, os Webb exaltam efusivamente a substituição dos incentivos monetários pelos rituais de “envergonhar o infrator” e pela autocrítica comunista (Webb e Webb 1936, pp. 761–62). Até praticamente o fim de sua vida, em 1943, Beatrice ainda elogiava a União Soviética por “sua democracia multiforme, sua igualdade sexual, de classe e racial, sua produção planejada para o consumo da comunidade e, acima de tudo, sua penalização do motivo do lucro” (Webb 1948, p. 491). Após sua morte, Keynes a exaltou como “a maior mulher da geração que agora está morrendo”1.

Assim como os Webb, Keynes identificava a religiosidade com a autoabnegação do indivíduo em favor do bem do grupo. Em termos econômicos, essa visão se traduzia em trabalhar em troca de recompensas não pecuniárias, transcendendo, dessa forma, a motivação sórdida de “nove décimos das atividades da vida” nas sociedades capitalistas. Para Keynes, assim como para os Webb, essa transcendência constituía a essência do elemento “religioso” e “moral” que eles identificavam e admiravam no comunismo.

Em sua paixão por difamar o ganho monetário, Keynes chegou até mesmo a recorrer à psicanálise em busca de respaldo. Fascinado pela obra de Sigmund Freud, como a maioria dos membros do Círculo de Bloomsbury, Keynes a valorizava sobretudo pelas “intuições” que se alinhavam às suas próprias, especialmente no que dizia respeito à importância do amor ao dinheiro. Em seu Tratado sobre a Moeda, ele se refere a uma passagem de um artigo de 1908 em que Freud escreve sobre as “conexões que existem entre os complexos de interesse pelo dinheiro e pela defecação” e sobre a identificação inconsciente “do ouro com as fezes” (Freud 1924, pp. 49–50; Keynes 1971b, p. 258 e n. 1; e Skidelsky 1992, 188, pp. 234, 237, 414)2. Esse “achado” psicanalítico permitiu a Keynes afirmar que o amor ao dinheiro era condenado não apenas pela religião, mas também pela “ciência”. Assim, além de constituir “o problema ético central da sociedade moderna” (O’Donnell 1989, p. 377, n. 14), a preocupação com o dinheiro seria também um tema adequado para o alienista.

Keynes aguardava com expectativa o tempo em que o amor ao dinheiro enquanto mera posse “será reconhecido pelo que é: uma morbidez um tanto repugnante, uma daquelas propensões semi-criminosas, semi-patológicas que se entrega, com um arrepio, aos especialistas em doenças mentais” (1972, p. 329). É lamentável dizer que Keynes não desenvolve qual tratamento ele esperava que tais especialistas aplicassem às pessoas perturbadas diagnosticadas como portadoras dessa aflição mental.

Nas declarações pró-soviéticas de Keynes e na completa ausência de preocupação com elas por parte de seus devotos, encontramos mais uma vez o grotesco duplo padrão que continua a ser quase universal (Applebaum 1997; Courtois 1999; Malia 1999). Se, em meados da década de 1930, um escritor celebrado tivesse se manifestado em relação à Alemanha nazista nos termos ocasionalmente benevolentes que Keynes utilizou para se referir à União Soviética, ele teria sido publicamente achincalhado, e seu nome exalaria infâmia até hoje. No entanto, por mais malignos que os nazistas viessem a se tornar, em 1936 suas vítimas ainda representavam apenas uma pequena fração das vítimas do regime soviético3.

De fato, o caso de Keynes é pior do que o de alguém que tivesse meramente elogiado Hitler, por exemplo, por supostos êxitos em curar o problema do desemprego, restaurar o autorrespeito alemão ou alcançar quaisquer outros “feitos” que o nacional-socialismo pudesse reivindicar. O verdadeiro análogo de Keynes, em sua mistura de crítica e simpatia em relação ao comunismo soviético, seria um escritor que denunciasse as perseguições e a supressão da liberdade de pensamento sob os nazistas e, ao mesmo tempo, os elogiasse por sua “consciência” da “questão racial”, da qual poderíamos extrair alguma esperança para o futuro. Pois justamente aquilo que Keynes considerava admirável na Rússia soviética — a vontade de suprimir o ganho monetário e o incentivo trazido pelo lucro — foi a principal fonte dos horrores.

Como adeptos de uma variante do marxismo, Lenin e, depois dele, Stalin compartilhavam o desprezo de Marx pelo dinheiro. O comunismo buscava abolir o dinheiro, juntamente com a busca do lucro e as trocas privadas — todo o sistema de mercado — que o dinheiro tornava possível. O comunismo soviético escolheu suas vítimas principalmente entre aqueles marcados por seu suposto amor ao dinheiro e aos lucros: a burguesia e os proprietários de terras do antigo regime; os “especuladores” e “açambarcadores” dos anos do “comunismo de guerra” e do primeiro Terror Vermelho; depois, os nepmen e os “kulaks” do período da coletivização e da introdução dos planos (Leggett 1981; Conquest 1986; Malia 1994, pp. 129–33). Como Keynes pôde ignorar a ligação entre a perseguição à busca individual de riqueza e o tormento imposto pelo estado que era a regra na Rússia soviética — especialmente considerando que, no livro que ele resenhou em seu pronunciamento por rádio, os autores glorificam a decisão de Stalin de avançar para “a liquidação dos kulaks enquanto classe” (Webb e Webb 1936, pp. 561–72)?

Uma característica notável dos comentários elogiosos de Keynes sobre o sistema soviético, tanto aqui quanto em outros textos, é a ausência total de qualquer análise econômica. Keynes parece estar despreocupadamente alheio à possibilidade de que exista um problema de cálculo econômico racional sob o socialismo. Essa questão já vinha ocupando estudiosos do continente europeu havia algum tempo e era objeto de discussões intensas na London School of Economics.

No ano anterior ao pronunciamento de Keynes em uma rádio, um volume editado por F. A. Hayek, Collectivist Economic Planning (Hayek, 1935) [Planejamento econômico coletivista], havia sido publicado em inglês. A obra incluía a tradução do ensaio seminal de 1920 de Ludwig von Mises, “Economic Calculation in the Socialist Commonwealth” [O cálculo econômico sob o socialismo]. Na London School of Economics, a partir de 1933–34, Hayek já ministrava um curso chamado “Os problemas da economia coletivista”. Um seminário dirigido por Hayek, Lionel Robbins e Arnold Plant, dedicado principalmente ao mesmo tema, já havia sido oferecido em 1932–33 (Moggridge, 2004).

Keynes não deu qualquer indicação de que estivesse minimamente ciente do debate ou sequer interessado na questão4. Em vez disso, o que importava para Keynes era a empolgação do experimento soviético (houve alguma vez outro economista — ou pensador liberal — que recorresse com tanta frequência a “empolgação” e “tédio” como critérios para julgar sistemas sociais?), a amplitude impressionante das transformações sociais dirigidas por aqueles “administradores desinteressados” e o avanço ético supostamente pioneiro representado pela abolição do motivo do lucro.

Essas evidências significam que Keynes tenha sido, em algum momento, comunista? Claro que não. Mas sua simpatia claramente expressa pelo sistema soviético (bem como, em grau muito menor, por outros estados totalitários), quando somada à sua teoria econômica favorável à expansão do estado e à sua visão utópica dominada pelo estado, deveria fazer com que aqueles que o alistam tão prontamente nas fileiras liberais reflitam com mais cautela. Encarar Keynes como talvez “o liberal modelo do século XX”, ou mesmo como qualquer liberal autêntico, só pode tornar obsoleto um conceito histórico indispensável.

Este artigo foi originalmente publicado no Mises Institute.


  1. Escrito em uma carta a George Bernard Shaw (citada em Skidelsky 2001, 168). Skidelsky acrescenta, de forma um tanto enigmática, que embora Keynes tivesse providenciado um obituário elogioso para Beatrice, ele “ainda ansiava por uma apreciação de sua economia” (2001, 527 n. 76). É de se perguntar em que consistiria uma “apreciação” do pensamento econômico de Beatrice Webb. ↩︎
  2. Obviamente, se alguém seguisse o exemplo de Keynes, teria de sondar o próprio inconsciente de Keynes para descobrir as fontes questionáveis tanto do seu envolvimento com o tema do dinheiro ao longo da sua carreira profissional como da sua rejeição intensa e carregada de emoção do motivo do dinheiro. ↩︎
  3. Em uma carta a Upton Sinclair datada de 2 de maio de 1936, H. L. Mencken, que era tão perspicaz politicamente quanto espirituoso em geral, escreveu: “Sou contra a violação dos direitos civis por Hitler e Mussolini tanto quanto você, e você sabe disso muito bem(…) Você protesta, e com razão, toda vez que Hitler prende um oponente, mas esquece que Stalin e companhia prenderam e assassinaram mil vezes mais pessoas. Parece-me, e de fato as evidências são claras, que, em comparação com os bandidos e assassinos de Moscou, Hitler é pouco mais do que um membro comum da Ku Klux Klan e Mussolini quase um filantropo” (1961, 403). Sou grato a Paul Boytinck por chamar minha atenção para essa passagem. ↩︎
  4. Ainda em 1944, em uma carta a Hayek comentando sobre O caminho da servidão, Keynes afirmou: “A linha de argumentação que você mesmo adota depende da suposição muito duvidosa de que o planejamento não é mais eficiente. É bem provável que, do ponto de vista puramente econômico, ele seja eficiente” (Keynes 1980, 386). O fato de Keynes ter se referido a essa visão como uma “suposição” indica que ele nunca tomou conhecimento do grande debate sobre o cálculo econômico no socialismo. A total ausência de análise econômica em seus relatórios sobre a Rússia Soviética lembra a conclusão de Karl Brunner sobre as noções de Keynes sobre reforma social: “Dificilmente se poderia imaginar, a partir do material dos ensaios, que um cientista social, mesmo um economista, os tivesse escrito. Qualquer sonhador social da intelectualidade poderia tê-los produzido. Questões cruciais […] nunca são enfrentadas ou exploradas” (1987, 47). Talvez haja alguma verdade no julgamento de sua boa amiga Beatrice Webb em 1936: “Keynes não leva a sério os problemas econômicos; ele joga xadrez com eles [sic] em suas horas de lazer. O único culto sério para ele é a estética” (1985, 371). Para uma avaliação de Keynes como “o artista consumado”, além das implicações científicas de sua teoria, consulte Buchanan 1987.




Ralph Raico - Mises Brasil

QUEM É O DONO DO BANCO QUE QUEBROU O BRASIL? Como funcionava o esquema de corrupção Lula-quadrilha - Brasil Paralelo

MASTER PRESTES A EXPLODIR - Cláudio Luís Caivano

Ladrão visceral, condenado a mais de 30 anos de cadeia, Lula volta a atacar Bolsonaro e as redes sociais

Ao citar o ex-presidente, o petista afirmou que influenciadores que 'falam bobagem' conseguem milhões de seguidores


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participa da cerimônia de assinatura da lei da tarifa social de energia elétrica "Luz do Povo", no Palácio do Planalto, em Brasília (8/10/2025) - Foto: Reuters/Adriano Machado 

Durante um evento na cidade do Rio de Janeiro, na sexa-feira 16, o presidente Lula voltou a atacar as redes sociais, a inteligência artificial e Jair Bolsonaro. De acordo com o petista, seus opositores disseminam fake news “todo o santo dia”. 

Ao falar sobre a internet, Lula disse que influenciadores que “falam bobagem” conseguem milhões de seguidores e citou Bolsonaro. “Eu não conheço ninguém que ensina uma coisa séria e tenha 4 milhões de seguidores”, afirmou. “Mas, se o cara estiver falando bobagem, pode até ter 20 milhões. O Bolsonaro tinha 30 milhões”. 


 Corrupto degenerdo, Lula fala mal das redes sociais, diz que quem fala bobagem tem seguidor e afirma que Bolsonaro tem 30 milhões de seguidores “se o cara estiver falando bobagem (nas redes), pode até ter 20 milhões (de seguidores). O Bolsonaro tinha 30 milhões.”


A fala ocorre três dias depois de o deputado Nikolas Ferreira publicar um vídeo afirmando que o governo teria retomado, de forma “escondida”, uma norma para monitoramento de transações via Pix. A publicação teve milhões de visualizações, mais de 100 mil comentários e quase 1 milhão de compartilhamentos. 


As falas de Lula sobre IA e eleições

O presidente Lula da Silva - Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil 

Condensdo a mais de 30 anos de xilindró, Lula defendeu o enfrentamento do que classifica como “desinformação na internet” e criticou o uso de inteligência artificial. Segundo ele, mulheres devem ter atenção redobrada. “Eles são capazes de pegar uma foto sua e colocar você pelada”, disse. 

O 'presidente' também “alertou” para o papel dos algoritmos. “Não podemos ficar reféns do algoritmo robotizado. Haverá uma eleição. E, se não formos espertos, a mentira vencerá a verdade”, afirmou.

Na sexta, Lula participou do lançamento de uma medalha comemorativa pelos 90 anos do salário mínimo, na Casa da Moeda, com a presença do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e de ministros. 

Mais cedo, ele se reuniu com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, na véspera da assinatura do acordo entre Mercosul e União Europeia. 


Com infotrmações de Rachel Dias - Revista Oeste

O escândalo que AINDA nao parou o Brasil e as últimas 72 horas...

Ex-presidiário Lula ataca ‘big techs’, mas continua torrando a grana dos pagadores de impostos em propaganda

 

Lula (PT) - Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil


A Secretaria de Comunicação de Lula, que adora demonizar as chamadas big techs, despejou entre R$537 mil e R$632,6 mil em propaganda apenas na plataforma Meta, que é a controladora de redes sociais no Brasil como Facebook, Instagram, WhatsApp, Messenger e Threads. Conforme levantamento da coluna, considerando dados disponibilizados pela própria Meta Platforms, a dinheirama bancou propagandas que circularam entre domingo (11) e sexta-feira (16).

Alvo gaúcho

O anúncio mais caro foi para divulgar, entre os dias 9 e 16, ações do governo Lula no Rio Grande do Sul. Custou entre R$90 mil e R$100 mil.

Bolso aberto

A Meta dá o valor estimado dos anúncios. Somando todos que miraram os gaúchos nos últimos seis dias, o custo foi entre R$235 mil e R$280 mil

Gastança liberada

Outro alvo foi o eleitorado do Ceará, os gastos da Secom para propagandear o governo Lula custou entre R$118,2 mil e R$135,3 mil.

Tem mais

O já conhecido Pix também ganhou holofotes, na quarta (14). A fatura ficou entre R$50 mil e R$60 mil. A indústria, coitada, uma merreca R$100

Diário do Poder

'O Ambientalismo é anti-humano', por Joshua Mawhorter

 



Após os fracassos do socialismo — econômicos, históricos e éticos — os intelectuais da esquerda, não querendo abandonar o socialismo, recorreram a várias novas estratégias. Já se sugeriu que essas diversas manifestações podem ser subsumidas sob uma única categoria geral — o pós-modernismo. Após uma revisão da filosofia pós-moderna e de suas influências filosóficas, Stephen Hicks expõe seu argumento central no livro Explaining Postmodernismm [Explicando o pós-modernismo]: “O pós-modernismo é a estratégia epistemológica da extrema esquerda acadêmica para responder à crise causada pelos fracassos do socialismo na teoria e na prática.” Em outras palavras, uma vez que o socialismo foi refutado do ponto de vista teóricoeconômico (de várias maneiras), histórico e ético, aqueles que permaneciam ideologicamente comprometidos com o socialismo, apesar de seus fracassos, tiveram de tentar alcançá-lo, juntamente com o planejamento central, apelando a outros objetivos. Uma dessas estratégias foi a busca do igualitarismo (isto é, da “igualdade”) entre todos os grupos díspares, inclusive entre os seres humanos e o meio ambiente. Assim, o moderno movimento ambientalista, influenciado por correntes de pensamento anteriores, nasceu.Descrevendo mais adiante sua análise de como os fracassos públicos do socialismo, somados ao pós-modernismo e ao ambientalismo moderno, se fundiram, Hicks escreve:

“A segunda variação foi vista na guinada à esquerda que a crescente preocupação com as questões ambientais assumiu. À medida que o movimento marxista se fragmentava e se transformava em novas formas, intelectuais e ativistas de esquerda passaram a buscar novos meios de atacar o capitalismo. As questões ambientais, ao lado das questões das mulheres e das minorias, passaram a ser vistas como uma nova arma no arsenal contra o capitalismo.

A filosofia ambiental tradicional não estava, em princípio, em conflito com o capitalismo. Ela sustentava que um ambiente limpo, sustentável e belo era algo positivo porque viver em tal ambiente tornava a vida humana mais saudável, mais próspera e mais agradável. Os seres humanos, agindo em benefício próprio, transformam seus ambientes para torná-los mais produtivos, mais limpos e mais atraentes. (…)

O novo impulso no pensamento ambiental, contudo, passou a aplicar aos temas ambientais conceitos marxistas de exploração e alienação. Como parte mais forte, os seres humanos necessariamente exploram de modo prejudicial as partes mais fracas — as outras espécies e o próprio ambiente não orgânico. Consequentemente, à medida que a sociedade capitalista se desenvolve, o resultado dessa exploração é uma forma biológica de alienação: os seres humanos se alienam do meio ambiente ao saqueá-lo e torná-lo inviável, e as espécies não humanas são alienadas ao serem levadas à extinção.

Nessa análise, o conflito entre a produção econômica e a saúde ambiental, portanto, não é apenas de curto prazo; ele é fundamental e inevitável. A própria produção de riqueza está em conflito mortal com a saúde ambiental. E o capitalismo, uma vez que é tão eficiente na produção de riqueza, deve, portanto, ser o inimigo número um do meio ambiente. A riqueza, assim, deixou de ser algo bom. Viver de forma simples, evitando ao máximo produzir e consumir, passou a ser o novo ideal.

O impulso dessa nova estratégia, captado de forma exemplar em Red to Green, de Rudolf Bahro, integrou-se à nova ênfase na igualdade em detrimento da necessidade. No marxismo, o domínio tecnológico da natureza pela humanidade era um pressuposto do socialismo. O marxismo era um tipo de filosofia humanista no sentido de colocar os valores humanos no centro de seu arcabouço valorativo e de pressupor que o meio ambiente existe para ser utilizado e desfrutado pelos seres humanos para seus próprios fins. Contudo, críticos igualitaristas passaram a argumentar de maneira mais enfática que, assim como o fato de os homens colocarem seus próprios interesses acima de tudo levou à subjugação das mulheres, e assim como o fato de os brancos colocarem seus interesses acima de tudo levou à subjugação de todas as demais raças, o fato de os seres humanos colocarem seus interesses acima de tudo levou à subjugação de outras espécies e do meio ambiente como um todo.

A solução proposta, então, foi a igualdade moral radical entre todas as espécies. Devemos reconhecer que não apenas a produtividade e a riqueza são más, mas também que todas as espécies, de bactérias a tatuzinhos-de-jardim, de porcos-da-terra a aardvarks, até os seres humanos, são iguais em valor moral. A ‘ecologia profunda’, como passou a ser chamado o igualitarismo radical aplicado à filosofia ambiental, rejeitou assim os elementos humanistas do marxismo e os substituiu pelo arcabouço de valores anti-humanista de Heidegger”.

A estrutura do argumento anti-impacto

Em Defendendo o Indefensável, Walter Block faz uma observação simples, mas profunda, sobre a natureza da existência humana em seu capítulo sobre lixo: “(…) a criação de resíduos é um concomitante do processo de produção e consumo”. Extrapolando esse princípio, a continuidade da existência e do florescimento humanos depende da produção e do consumo, isto é, da ação humana que manipula e transforma o ambiente físico no qual todos nós existimos. Isso foi reconhecido por John Locke em sua teoria da primeira apropriação (conhecida em inglês como homesteading) da propriedade, segundo a qual o homem é dono do próprio corpo, utiliza esse corpo para manipular o mundo físico ao seu redor e, assim, passa também a ser proprietário de bens externos. Portanto, impedir a transformação livre e voluntária da natureza pela humanidade, por meio da produção e do consumo — desde que isso não viole os direitos de propriedade de terceiros — é anti-humano e mau.

No Ocidente moderno, e nas regiões influenciadas por ele, muitos — especialmente as elites — adotaram e passaram a pressupor uma filosofia ambiental anti-impacto. Em vez de direitos de propriedade e liberdade a serviço do florescimento humano como o padrão ideal de valor pelo qual qualquer manipulação do meio ambiente deve ser julgada, muitos estabeleceram, em seu lugar, o impacto humano mínimo, ou nenhum impacto humano, sobre o meio ambiente como o padrão moral supremo. Em outras palavras, os seres humanos não deveriam impactar o meio ambiente; assim, enquanto um impacto humano mínimo seria melhor, nenhum impacto humano seria o ideal. Evidentemente, isso é impossível para seres humanos vivos que existem no tempo e no espaço. Levado às últimas consequências, os seres humanos passam a ser o problema, o que incute culpa e/ou conduz a uma conclusão letal — os seres humanos devem ser eliminados. Alex Epstein escreve no livro The Moral Case for Fossil Fuels [O argumento moral à favor dos combustíveis fósseis] : “A essência de ‘ser verde’, o denominador comum em todas as suas várias versões, é a crença de que os seres humanos devem minimizar seu impacto sobre a natureza não humana” (página 199).Se alguém achar que isso é exagerado ou melodramático, considere o seguinte: se o impacto humano é algo ruim e se o anti-impacto é o ideal moral, então até mesmo a minimização do impacto humano sobre o meio ambiente é insuficiente e incompleta. É impossível que os seres humanos não impactem o meio ambiente. Além disso, a conclusão consistente é que não deveria haver seres humanos, e não apenas menos seres humanos. Ora, isso significa que uma ou mais das seguintes coisas teriam de ocorrer: muitos seres humanos não deveriam nascer e/ou muitos seres humanos existentes deveriam morrer. Epstein escreve novamente: “ao associar impacto a algo negativo, você está concedendo que todo impacto humano é, de alguma forma, ruim para o meio ambiente” (p. 199). Além disso (p. 197):

“Este é o desfecho lógico de adotar o não impacto humano como seu padrão de valor; a melhor maneira de alcançá-lo é não fazer absolutamente nada, é não existir. É claro que poucos sustentam esse padrão de valor de forma consistente, e mesmo esses homens não despovoam o mundo de si próprios. Mas, na medida em que adotamos o não impacto humano como nosso padrão de valor, estamos indo contra aquilo que nossa sobrevivência exige”.

Felizmente, a maioria das pessoas não sustenta o arcabouço argumentativo anti-impacto de forma consistente (e muitas talvez nem tenham consciência epistemológica de seus próprios pressupostos), mas a existência desse padrão torna as pessoas vulneráveis à manipulação pela culpa. Quando você se sente mal por simplesmente existir, então passa a estar disposto a se submeter a uma série de políticas e medidas oferecidas pelas elites políticas para, ao menos, minimizar o seu impacto. Se você vai continuar a existir e a impactar o meio ambiente, então deve, pelo menos, submeter-se a quaisquer esquemas de planejamento central que “especialistas” sábios e altruístas proponham. Por exemplo, considere as palavras do ambientalista Bill McKibben a respeito de como as pessoas supostamente viveriam se o uso de combustíveis fósseis fosse reduzido a menos da metade e observe por que socialismo, planejamento central e ambientalismo se encaixam de maneira tão confortável:

“Cada ser humano poderia produzir 1,69 tonelada métrica de dióxido de carbono por ano — o que permitiria dirigir um carro médio americano por 14,5 quilômetros por dia. Quando a população aumentasse para 8,5 bilhões, por volta de 2025, isso cairia 9,6 quilômetros por dia. Se você compartilhasse o carro, teria cerca de três pontos de CO₂ restantes em sua cota diária — o suficiente para operar uma geladeira altamente eficiente. Esqueça seu computador, sua TV, seu aparelho de som, seu fogão, sua lava-louças, seu aquecedor de água, seu micro-ondas, sua bomba d’água, seu relógio. Esqueça suas lâmpadas, fluorescentes compactas ou não”.

Como se observa na citação de McKibben acima, se as pessoas se sentem mal por existir e, assim, ficam abertas a fazer o que for necessário para minimizar seu impacto, então o planejamento central — no qual as elites determinam cada aspecto do que você pode ou não fazer, até mesmo se você terá ou não uma lâmpada — torna-se algo evidente. Em Bourgeois Dignity: Why Economics Can’t Explain the Modern World [Dignidade burguesa: por que a economia não pode explicar o mundo moderno], Deirdre McCloskey escreve: “A nova alternativa ao socialismo de planejamento central é o ambientalismo” (p. 433).

Os ambientalistas são frequentemente creditados como sendo idealistas. Pode até ser o caso, mas o ideal deles — se for o não impacto humano em vez do florescimento humano — é anti-humano e mau. Eles podem não cometer suicídio para alcançar seus objetivos, mas propõem políticas suicidas e anti-humanas.

Humanizando a Natureza e Desumanizando os Seres Humanos

Milhões de pessoas já foram mortas por governos em tentativas de implementar projetos de planejamento central. O tipo de “Holodomor energético” que os ambientalistas do anti-impacto propõem significaria a morte de bilhões de pessoas. Se isso for verdade, tal proposta exigiria tanto a elevação da natureza não humana a um nível de significância moral igual ou superior ao dos seres humanos quanto, simultaneamente, a desvalorização da vida humana abaixo da natureza. Caso o leitor pense que estou exagerando, o movimento ambientalista moderno faz ambas as coisas.

O que significa o objetivo de “salvar o planeta” ou “proteger o meio ambiente”? Em última instância, os ambientalistas querem dizer que o planeta precisa ser salvo dos seres humanos. Proteger o meio ambiente de quê ou de quem? Proteger o meio ambiente para quê? Proteger o meio ambiente para quem? O planeta precisa ser protegido de você. Sem dúvida, muitos argumentarão que os ambientalistas apenas querem “salvar o planeta” para os seres humanos, mas — com o anti-impacto ainda sendo o ideal — isso ainda implica um planejamento central abrangente, na medida em que a existência humana teria de ser severamente reduzida se não puder ser eliminada.Além disso, temos muitos ambientalistas nos dizendo, com suas próprias palavras, que são anti-humanos. O grupo EarthFirstliteralmente chora, lamenta e grita por “crimes” cometidos contra árvores. (Isso também explica, de forma plausível, por que filmes como WALL-E e The Lorax são ideologicamente carregados de pressupostos anti-impacto, anti-humanos e anti-liberdade.) Um artigo do Washington Post de 2019 tinha o título: “Estudantes progressistas de seminário ofereceram uma confissão às plantas. Como pensamos sobre pecados contra a natureza?”. O texto diz: “Acho que há uma questão urgente com a qual muitos cristãos e pessoas sem fé estão lidando: qual é a nossa responsabilidade moral para com as formas de vida não humanas? Se podemos pecar contra o mundo natural, como nomeamos e expiamos esse pecado?”. A mensagem foi tweetada a partir de uma capela do Union Seminary:

“Hoje, na capela, confessamos às plantas. Juntos, levamos nosso luto, alegria, arrependimento, esperança, culpa e tristeza em oração; oferecendo-os aos seres que nos sustentam, mas cujo dom com frequência deixamos de honrar. O que você confessa às plantas em sua vida?”

Mantendo o motivo religioso-espiritual, agora todos nós somos “pecadores nas mãos de uma Greta Thunberg irada”.Alan Gregg escreveu em Mankind at the Turning Point [A humanidade em um ponto de inflexão] (1974): “O mundo tem câncer, e o câncer é o homem”. Em 1994, Jacques Cousteau declarou: “Para estabilizar a população mundial, devemos eliminar 350.000 pessoas por dia”. O príncipe Philip da Inglaterra certa vez escreveu, no prefácio de um livro de 1987: “Devo confessar que sou tentado a pedir a reencarnação como um vírus particularmente letal, mas talvez isso seja ir longe demais”. Eu argumentaria que esse tipo de pensamento anti-humano é um câncer. David M. Graber escreveu em 1989, a respeito das visões de Bill McKibben e dele próprio:

“Isso não torna o que está acontecendo menos trágico para aqueles de nós que valorizam a natureza selvagem por si mesma, e não pelo valor que ela confere à humanidade. Eu, por exemplo, não posso desejar nem para meus filhos nem para o restante da biota da Terra um planeta domesticado, um planeta gerido pelos humanos, seja ele monstruoso ou — por mais improvável que seja — benigno. McKibben é um biocentrista, e eu também sou. Não estamos interessados na utilidade de uma espécie em particular, ou de um rio de fluxo livre, ou de um ecossistema, para a humanidade. Eles têm valor intrínseco, mais valor — para mim — do que outro corpo humano, ou do que um bilhão deles.

A felicidade humana, e certamente a fecundidade humana, não são tão importantes quanto um planeta selvagem e saudável. Conheço cientistas sociais que me lembram de que as pessoas fazem parte da natureza, mas isso não é verdade. Em algum ponto do caminho — talvez há cerca de um bilhão de anos, talvez metade disso — rompemos o contrato e nos tornamos um câncer. Tornamo-nos uma praga para nós mesmos e para a Terra.

É cosmicamente improvável que o mundo desenvolvido decida pôr fim à sua orgia de consumo de energia fóssil, e que o Terceiro Mundo abandone seu consumo suicida da paisagem. Até que o Homo sapiens decida se reintegrar à natureza, alguns de nós só podem aguardar com esperança que o vírus certo surja”.

Essas pessoas — e todos os que operam a partir do arcabouço do anti-impacto — não merecem a superioridade moral que reivindicam. Elas são anti-humanas, muitas vezes de forma abertamente declarada. Alex Epstein afirma, perto do final de seu livro: “Não somos ensinados que algumas pessoas realmente acreditam que a vida humana não importa e que o objetivo delas não é nos ajudar a triunfar sobre os obstáculos da natureza, mas nos remover como um obstáculo para o restante da natureza” (p. 208). Ele adverte ainda: “Não se engane — há pessoas tentando usá-lo para promover ações que prejudicariam tudo aquilo com que você se importa. Não porque se importem com você — elas priorizam a natureza acima de você —, mas porque o veem como uma ferramenta” (p. 209).

Não deveríamos nos surpreender com a sobreposição entre socialismo e ambientalismo. Tampouco deveríamos nos surpreender que os defensores de ambos estariam dispostos a matar milhões, ou até bilhões, para alcançar seus objetivos impossíveis e anti-humanos. Ambos envolvem o controle político sobre os outros. Mises certa vez escreveu: “Todo socialista é um ditador disfarçado”. Podemos acrescentar: todo ambientalista do anti-impacto (que, em geral, também é socialista) é um ditador em potencial.

Os ambientalistas — ao menos os verdadeiros crentes que sustentam de forma consistente o objetivo do anti-impacto — querem você morto; no curto prazo, eles se contentarão com que você se sinta culpado por existir, produzir e consumir, e esteja disposto a cumprir qualquer grau de planejamento central e de restrição das liberdades para “salvar o planeta” de você.


Joshua Mawhorter, Mises Brasil