domingo, 15 de março de 2026

Desconstruindo as notas da mulher de Alexandre de Moraes, por Mário Sabino

'Gente que acha que não deve satisfações a ninguém é muito ruim quando se vê obrigada a fazê-lo'


O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, e sua mulher, a advogada Viviane Barci, que assinou contrato com o Banco Master - Foto: Beto Barata/PR


Depois que a casa caiu com a descoberta da conversa estarrecedora entre Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes, no dia da primeira prisão do estelionatário, a doutora Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro do STF, decidiu dar satisfações sobre o seu contrato com o Banco Master. As satisfações não satisfazem. 

Vamos à primeira por ordem de relevância: 

Em nota de esclarecimento à imprensa que a doutora Viviane divulgou na segunda-feira 9, ela afirma que o seu escritório fez 94 reuniões de trabalho com o Master e confeccionou 36 pareceres para o banco. O comunicado diz que a sua equipe atuou na área de compliance do Master, ajudando a estruturá-la. A piada já veio pronta, nada a acrescentar.

A nota também afirma que, para além dos trabalhos para a área administrativa do banco, os causídicos auxiliaram na “análise consultiva e estratégica de inquéritos policiais”, sem nunca ter representado o banco perante o STF. Não há explicação sobre a quais análises e estratégias o escritório se ateve. 

Quem redigiu a nota fez um esforço tremendo para esticar o texto ao máximo, como se cada linha a mais pudesse justificar cada milhão embolsado pelo escritório. Veja-se o seguinte parágrafo, um clássico master de encheção de linguiça:


“Elaboração e apresentação de processos para certificação de ética e governança, com mapeamento das atividades, levantamento de documentação-base, análise das oportunidades, elaboração e revisão e  treinamentos do público-alvo sobre as novas políticas, a partir da revisão do Código de Ética e Conduta, políticas de integridade, estruturação do departamento de compliance e apoio à alta administração.” 


De advocacia mesmo, tem-se “atuação contenciosa específica em ação penal, cujo ajuizamento ocorreu em 17/10/2024, e inquérito policial federal específico, cuja habilitação se deu em 8/4/2024”. 

As tarefas da mulher de Moraes 

Vamos fazer uma continha de padeiro pelo lado das quantidades ressaltadas pela nota: 94 reuniões, 36 pareceres e duas atuações, uma em ação penal e outra em inquérito policial, em 22 meses de trabalho, de fevereiro de 2024 a novembro de 2025, período que consta na nota de esclarecimento. 

Portanto, ao todo, entre reuniões, pareceres e atuações elencados na nota de esclarecimento,132 tarefas foram executadas.

Muito bem, o valor total do contrato de três anos era de espetaculares R$ 129 milhões (não há menção a dinheiro na nota); mas, como o Master foi liquidado, calcula-se que o escritório da doutora Viviane tenha recebido R$ 79,2 milhões, visto que a quantia mensal prevista no acordo era de R$ 3,6 milhões.

Deixando de lado as especificidades e os diferentes graus de complexidade das tarefas, visto que são as quantidades que interessam aqui, isso significa que cada uma saiu pelo preço médio de R$ 600 mil, valor de apartamentos de médio padrão em São Paulo. 

É um preço que só existe no mundo que parecia maravilhoso de Daniel Vorcaro, um especialista em fazer amigos caros em Brasília.  

Se a conta fosse feita de modo ortodoxo, com base no alegado número de horas trabalhadas (advogados faturam por hora) e no que normalmente é cobrado na indústria de pareceres, a diferença entre a bolada efetivamente ganha pelo escritório da mulher de Moraes e os valores normalmente embolsados por grandes bancas seria igualmente escandalosa: algo como R$ 70 milhões a mais. 

Supõe-se que a evolução patrimonial da doutora Viviane, de R$ 24 milhões, no final de 2023, para R$ 79,7 milhões, no final de 2024, conforme publicou Lauro Jardim, o jornalista de quem Vorcaro queria “quebrar os dentes”, deva-se principalmente aos dividendos obtidos por meio do Master. Ou seja, o contrato assinado com o banco proporcionou à mulher de Moraes um lucro estratosférico, até mesmo estelar. 

Curiosamente, o valor atípico não acendeu o alerta da área de compliance do banco, estruturada com a ajuda do escritório da doutora Viviane.


Vamos à segunda satisfação: 

Como as emoções não param no Jardim Europa, a mulher de Moraes havia divulgado outra nota no sábado 7 para dizer que não foi ela quem recebeu as mensagens de Vorcaro no dia da primeira prisão do banqueiro. 

É uma afirmação que só serviu para complicar a vida do ministro: se a advogada contratada a peso de ouro não foi consultada em momento tão crucial para o dono do Master, isso reforça a impressão de que o contratado por Vorcaro foi, na verdade, Moraes, não a advogada casada com ele. 

O ministro era o destinatário das mensagens, não resta dúvida, a doutora Viviane poderia ter poupado esforço. Ele até tentou negar na sexta-feira 6, mas o fez de maneira tão canhestra, que ficou ainda mais fácil para o jornal O Globo desmentir o desmentido de Moraes.

É que gente que acha que não deve satisfações a ninguém é muito ruim quando se vê obrigada a fazê-lo. E, pelo visto, contratou a assessoria de imprensa errada. 

PS: doeu na alma que os cenários do noivado tão faustoso quanto fajuto de Vorcaro com a influencer tenham sido Villa Adriana e o Palazzo Colonna. O estelionatário conseguiu sujar até mesmo a história da minha Roma.


Mário Sabino - Revista Oeste

sábado, 14 de março de 2026

Governo corrupto do descondenado Lula torrou R$126,4 milhões em viagens

Foram R$69,6 milhões em diárias e outros R$56,1 milhões em passagens para funcionários do governo do PT


"Aerolula" (VC-2) (Foto: Reprodução/FAB)



Dispararam para mais de R$126,4 milhões as despesas do governo Lula (PT) com viagens. Até o dia 9 de março, data da última atualização desses dados no Portal da Transparência, foram destinados R$69,6 milhões ao pagamento de diárias de funcionários do governo petista e outros R$56,1 milhões bancaram as passagens aéreas. A informação é destaque da Coluna Cláudio Humberto deste sábado (14).

O total não inclui as despesas do presidente, primeira-dama e outras autoridades que se aproveitam do luxo dos jatinhos da Força Aérea Brasileira (FAB).

Apenas entre 9 de fevereiro e 9 de março, o governo Lula admite ter torrado R$93 milhões com deslocamentos.

O Portal da Transparência aponta ainda R$753,4 mil em “outros gastos” com viagens do governo Lula. São taxas de agenciamento, seguros etc.

Em 2025, o governo petista bateu recorde histórico de gastos com viagens – pelo terceiro ano seguido – com R$2,44 bilhões.

Diário do Poder

Imagem da Semana: pelas lentes de Sinatra

The Voice trabalhou como fotógrafo freelancer para a revista Life na "Luta do Século" entre Muhammad Ali e Joe Frazie



 O astro maior da música Frank Sinatra fotografando a “Luta do Século” para a revista Life. Nova York, 1971 - Foto: John Shearer/Life


N a noite de 8 de março de 1971, admiradores do boxe pararam para assistir ao confronto que ficaria conhecido como “A Luta do Século” — o duelo entre Muhammad Ali e Joe Frazier no lendário Madison Square Garden, em Nova York, nos Estados Unidos. Era a primeira vez que dois campeões pesos-pesados invictos se enfrentavam pelo título mundial. 

A expectativa era enorme. 

Celebridades, políticos, atletas e jornalistas do mundo inteiro lotaram o ginásio para presenciar o combate. Entre as celebridades presentes, no meio da multidão, estava o cantor e ator Frank Sinatra. Sem conseguir ingresso próximo ao ringue (ringside), Sinatra garantiu um lugar privilegiado na área destinada à imprensa, credenciado como fotógrafo da revista Life. 

Vestido em um impecável terno e com uma câmera profissional em mãos, o artista se misturou aos fotógrafos esportivos à beira do ringue para registrar momentos da luta. 

A imagem que abre esta matéria mostra justamente esse inesperado instante em que Sinatra, concentrado, é retratado por seus colegas fotógrafos no reduto da imprensa. O episódio tornou-se um dos momentos mais curiosos da história do esporte e da cultura pop. 



O artigo intitulado “As estrelas mais brilhantes brilham na ‘Luta do Século'”, de Ger Siggins, foi publicado em 8 de março de 2026 como uma retrospectiva em comemoração ao 55º aniversário do lendário combate - Foto: Reprodução Daily Mail


Frank Sinatra na luta Ali-Frazier em março de 1971 | Foto: MPTV Images/Shutterstock

Durante quinze rounds intensos, Ali usou sua velocidade e técnica, enquanto Frazier aplicou pressão constante e seus famosos ganchos de esquerda. No 15º round, Frazier derrubou Ali com um poderoso golpe, consolidando sua vitória por decisão unânime e marcando a primeira derrota profissional de Muhammad Ali. A luta não apenas definiu o melhor peso-pesado daquele momento, mas também se tornou um marco cultural. A rivalidade entre Ali e Frazier continuaria em mais duas lutas memoráveis — incluindo o célebre confronto conhecido como Thrilla in Manila, em outubro de 1975. 

As fotografias registradas naquela noite, incluindo as feitas por Sinatra, integraram a cobertura especial da Life (publicadas na edição de 19 de março de 1971) e reforçaram o caráter singular do evento: o encontro de três grandes forças da cultura do século 20 — música, esporte e mídia — reunidas em um único momento histórico.


O gancho de Frazier derrubou Muhammad Ali na luta de 8 de março de 1971 - Foto: Reprodução


Daniela Giorno é diretora de arte de Oeste e, a cada edição, seleciona uma imagem relevante na semana. São fotografias esteticamente interessantes, clássicas ou que simplesmente merecem ser vistas, revistas ou conhecidas.

Narcoterrorismo nas Américas, por Ana Paula Henkel

 O crime organizado latino-americano já deixou de ser um problema doméstico


Presidente dos EUA, Donald Trump | Foto: Reuters/Samuel Corum/Sipa USA

E m diferentes momentos da história, ameaças que pareciam locais acabam revelando algo maior: sintomas de um desarranjo regional. O que começa como violência doméstica, tráfico ou corrupção passa, pouco a pouco, a assumir dimensões geopolíticas. 

Sob a administração de Donald Trump na Casa Branca, esse diagnóstico começou a ganhar forma mais clara nos últimos meses nas discussões de segurança no continente. Para o presidente americano, o crime organizado latino-americano já deixou de ser um problema doméstico e se tornou uma ameaça regional. 

Foi nesse contexto que surgiu a iniciativa do Escudo das Américas (Shield of the Americas), uma reunião voltada à cooperação hemisférica para enfrentar o crime organizado transnacional. O encontro reuniu autoridades de segurança, ministros, chefes de inteligência e representantes de diversos países do continente para discutir um problema que deixou de ser tratado como questão doméstica e passou a ser encarado como um desafio estratégico regional. 

A proposta do Escudo das Américas é criar um mecanismo de coordenação entre governos para enfrentar ameaças que operam em múltiplos territórios ao mesmo tempo — narcotráfico, cartéis, redes de lavagem de dinheiro e organizações criminosas transnacionais. 


Escudo das Américas (Shield of the Americas), uma reunião voltada à cooperação hemisférica para enfrentar o crime organizado transnacional - Foto: Reuters/Kevin Lamarque

A iniciativa ganhou impulso dentro da estratégia de segurança hemisférica defendida por Trump, que insiste na necessidade de tratar o narcotráfico e as grandes organizações criminosas como ameaças diretas à estabilidade do continente. A lógica por trás da reunião é simples: nenhum país consegue enfrentar sozinho estruturas que movimentam bilhões de dólares, controlam rotas internacionais e operam simultaneamente em diversas jurisdições. 

Por isso, o encontro reuniu autoridades de diferentes governos das Américas, responsáveis pelas áreas de segurança, defesa e inteligência, para discutir mecanismos de cooperação mais robustos, como compartilhamento de informações, coordenação policial internacional e estratégias conjuntas para interromper cadeias logísticas do narcotráfico que atravessam o continente. Lula não apareceu e não enviou nenhum representante do Brasil para o importante evento. 

O objetivo do Escudo das Américas é construir uma espécie de rede de proteção regional diante de ameaças que já não respeitam fronteiras. No diagnóstico apresentado durante o encontro, o narcotráfico e o crime organizado deixaram de ser apenas um problema policial. 

Tornaram-se um fator de instabilidade capaz de pressionar instituições, financiar violência em larga escala e comprometer a soberania dos Estados. 

Nesse contexto, duas siglas brasileiras passaram a aparecer com frequência crescente nos relatórios de inteligência e nas análises estratégicas: Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV). 

Por décadas, esses grupos foram vistos essencialmente como facções criminosas domésticas, ligadas ao tráfico de drogas dentro do Brasil. Essa percepção, no entanto, tornou-se rapidamente obsoleta. Hoje, tanto o PCC quanto o CV operam redes logísticas que atravessam fronteiras, controlam rotas internacionais de narcotráfico, mantêm conexões com organizações estrangeiras e exercem influência em diversos países da América do Sul. 

O que antes era tratado como crime organizado local começa a ser discutido, cada vez mais, como uma ameaça à segurança hemisférica. A mudança de linguagem não é apenas retórica política. Ela revela uma mudança de diagnóstico. 


Hoje, tanto o PCC quanto o CV operam redes logísticas que atravessam fronteiras - Foto: Reprodução/Redes Sociais 

Quando o crime se torna poder O crime organizado moderno raramente se limita à criminalidade tradicional. Em muitos casos, evolui para algo mais complexo: estruturas paralelas de poder. Essas organizações controlam territórios, impõem regras próprias, corrompem instituições, movimentam bilhões de dólares e mantêm cadeias logísticas que lembram as de empresas multinacionais. 

No caso latino-americano, esse fenômeno assume uma característica adicional: a convergência entre crime organizado, narcotráfico e estruturas paramilitares. 

É por isso que, em círculos estratégicos, o termo narcoterrorismo voltou a aparecer com frequência. A expressão surgiu nos anos 1980 para descrever a atuação dos cartéis colombianos e suas relações com grupos insurgentes. Hoje reaparece para descrever uma realidade semelhante: organizações que utilizam o narcotráfico não apenas para lucro, mas também para ampliar influência territorial e institucional.

Esse é o ponto que tem despertado crescente preocupação sob a ótica do governo Trump. Quando redes criminosas passam a controlar corredores logísticos internacionais — portos, rotas marítimas e fronteiras terrestres — a questão deixa de ser apenas policial e passa a ser estratégica. E a América Latina vive hoje um momento delicado nesse campo. 


O crime organizado moderno raramente se limita à criminalidade tradicional | Foto: Shutterstock 

Diversos países enfrentam a expansão acelerada do crime organizado. O Equador viu cidades inteiras mergulharem em crises de segurança. O Chile registrou um aumento abrupto de organizações transnacionais. O Peru enfrenta pressões nas rotas amazônicas. Na Colômbia, grupos armados continuam disputando territórios ligados ao narcotráfico. 

Nesse cenário, o Brasil ocupa uma posição central. Não apenas pelo tamanho de sua economia ou de seu território, mas porque boa parte das rotas que ligam a produção de cocaína andina aos mercados globais passa pelo país. Portos brasileiros tornaram-se pontos estratégicos para exportação da droga rumo à Europa e à África. 

Rotas fluviais na Amazônia conectam áreas produtoras a redes de distribuição. Fronteiras extensas e de difícil controle ampliam as oportunidades logísticas para as facções. 

Nesse ambiente, organizações como PCC e CV expandiram sua presença para países vizinhos, criando alianças com grupos locais e consolidando rotas internacionais. O resultado é um fenômeno que especialistas descrevem como transnacionalização do crime brasileiro.

O objetivo da ação da Casa Branca com o encontro é claro: reconhecer que as ameaças contemporâneas nas Américas já não se limitam a conflitos militares tradicionais. Elas incluem redes criminosas globais, narcotráfico, terrorismo, lavagem de dinheiro e estruturas híbridas que combinam elementos desses fenômenos — por isso, a necessidade de maior cooperação entre governos para enfrentá-las. 

A discussão incluiu inteligência compartilhada, coordenação policial internacional e novas estratégias de combate a redes logísticas que operam em múltiplos países. 

A classificação de determinadas organizações como grupos terroristas e ameaças significativas à segurança regional surge nesse contexto, como gesto político, mas, principalmente, como parte de uma mudança de percepção: o reconhecimento de que certas estruturas criminosas já ultrapassaram o estágio da criminalidade convencional. 


Uma ideia antiga que volta ao debate

Curiosamente, essa discussão também reacende uma referência histórica na política hemisférica: a Doutrina Monroe. Formulada em 1823, a doutrina partia de um princípio simples: as Américas deveriam permanecer livres de interferência externa e preservar sua estabilidade política. 

Durante o século 21 e grande parte do século 20, essa ideia foi frequentemente associada à rivalidade entre potências e à presença de atores externos no continente. No mundo contemporâneo, no entanto, a ameaça pode assumir outras formas. Ela pode surgir não de impérios europeus ou de rivalidades ideológicas, mas de estruturas criminosas capazes de corroer Estados por dentro. 

Nesse sentido, alguns analistas argumentam que o desafio atual nas Américas não é apenas geopolítico no sentido clássico. É também institucional, uma vez que redes criminosas que capturam territórios, corrompem autoridades e dominam economias locais produzem efeitos semelhantes aos de conflitos armados: enfraquecem o Estado e desestabilizam sociedades.


Proclamada em 1823 pelo presidente James Monroe, a Doutrina Monroe estabeleceu um princípio simples e duradouro: o hemisfério ocidental não estaria mais aberto à colonização ou interferência de potências europeias | Foto: Wikimedia Commons

Talvez o aspecto mais perigoso desse fenômeno seja a sua normalização. Em muitos países, a presença do crime organizado tornou-se parte do cotidiano político e social. Governos tratam o problema como questão policial rotineira. Instituições convivem com níveis crescentes de infiltração. A sociedade aprende, pouco a pouco, a viver com a violência. 

Mas há um ponto em que essa normalização deixa de ser sustentável. Quando organizações criminosas acumulam poder suficiente para influenciar eleições locais, controlar economias regionais ou desafiar diretamente a autoridade do Estado, o problema muda de escala e deixa de ser criminal. E passa a ser civilizacional. 

A existência de Estados capazes de aplicar leis e garantir segurança não é um detalhe administrativo da vida moderna, mas um dos pilares da ordem política. E sem esse pilar, outras instituições — democracia, economia de mercado, liberdades individuais — começam a perder sustentação. 

É por isso que o debate sobre narcotráfico e crime organizado nas Américas ganhou, nos últimos anos, uma dimensão mais ampla. A questão já não trata apenas de drogas ou violência urbana. Trata de soberania. 

Estados que perdem controle territorial, que não conseguem conter a expansão de organizações criminosas ou que veem suas instituições capturadas por redes ilícitas acabam enfrentando uma forma silenciosa de erosão política. 

Não se manifesta necessariamente em guerras ou golpes, mas em algo mais gradual: a substituição da autoridade legítima por estruturas paralelas de poder. Esse é o risco que muitos analistas enxergam no avanço das facções transnacionais. 

A classificação de organizações como o PCC e o Comando Vermelho como ameaças relevantes no cenário hemisférico não resolve automaticamente o problema. Mas representa um sinal importante: parte da comunidade internacional começa a reconhecer que o crime organizado latino-americano deixou de ser um fenômeno doméstico. Tornou-se um desafio continental — um desafio que envolve segurança, governança, economia e estabilidade institucional e que exige respostas à altura dessa complexidade.


Classificação de organizações como o PCC e o Comando Vermelho como ameaças relevantes no cenário hemisférico não resolve automaticamente o problema - Foto: Agência Brasil  


Entre as preocupações discutidas por autoridades americanas está também a possibilidade de conexões entre redes criminosas da América Latina e grupos classificados como organizações terroristas, especialmente o Hezbollah, movimento apoiado e financiado pelo Irã. 

Ao longo dos últimos anos, investigações de segurança e relatórios de inteligência apontaram para a presença de estruturas ligadas ao grupo em áreas como a região da Tríplice Fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina, tradicionalmente utilizada para atividades de contrabando e lavagem de dinheiro. Para analistas de segurança, a eventual convergência entre narcotráfico, crime organizado e redes de financiamento do terrorismo representaria um salto qualitativo no nível da ameaça. 

No fim das contas, a questão central não é apenas a força das organizações criminosas, mas a capacidade das democracias de reagir. A história mostra que instituições podem ser corroídas lentamente quando ameaças persistentes deixam de ser enfrentadas com clareza. 

Mostra também que sociedades capazes de reconhecer riscos e agir de forma coordenada conseguem preservar sua ordem política. O avanço do narcotráfico e do crime organizado nas Américas talvez seja um desses testes históricos — um teste sobre a capacidade do continente de defender suas instituições, sua soberania e a própria ideia de Estado de Direito.

Se a história ensina algo às democracias, é isto: ameaças raramente desaparecem sozinhas. Elas precisam ser reconhecidas — e, de fato, enfrentadas. 

Ana Paula Henkel - Revista Oeste


sexta-feira, 13 de março de 2026

'O pior STF da história', por Eugênio Esser

 

O país marcha para a eleição dividido em preferências políticas, mas unido na convicção de erguer uma Suprema Corte digna de confiança e fiel à sua missão constitucional



Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock/IA 


A voluma-se no Brasil um consenso — o único consenso possível em um país que se partiu ao meio na eleição presidencial de 2022. O Supremo Tribunal Federal não serve para mais nada. Nada que tenha mínima relação com a função de uma corte constitucional de atuação técnica e idônea. Transformada em um cadáver insepulto, como Oeste registrou na reportagem “Um Judiciário fora da lei”, a atual composição da Suprema Corte virou objeto de galhofa no país que costuma rir da própria desgraça. Tal como “Sicário”, o suicidado comparsa da gangue de Daniel Vorcaro, o STF se enforca dia após dia, enrolado em decisões e condutas que variam do patético ao despudorado. 

O brasileiro, atônito com os detalhes que têm vindo à tona sobre os escândalos do Banco Master e do INSS, ainda não viu tudo. E nem é preciso ver. A amostra das bandalheiras colhida até o momento pelos investigadores já é suficiente para abalar as mais arraigadas convicções de que o STF era uma vaca sagrada, o único bastião de defesa da democracia, como seus ministros gostavam de propagandear. A rede de proteção institucional das manobras radicais do supremo autoritarismo se rompeu. E coube a uma das vozes mais influentes desta corrente, que viu golpismo nos atos do 8 de janeiro, o ex-juiz de direito Walter Maierovitch, vocalizar um sentimento que, até recentemente, poderia ser atribuído a “golpistas”.

 “Quando uma peça de cristal quebra, não tem conserto”, disse ele em seu espaço na Rádio CBN, sugerindo um plebiscito ou referendo sobre emenda constitucional que aposente ou coloque “em disponibilidade” os ministros que integram a atual composição do STF. “O Supremo perdeu a credibilidade. A maioria dos seus ministros passou dos limites da ética. Estão socialmente desmoralizados. Queimados. O brasileiro terá de reagir e pressionar o Congresso para aviar um remédio amargo e salvador.” No compasso atual, avisou, “dias piores virão”. 


“Quando uma peça de cristal quebra, não tem conserto” | Foto: Shutterstock

Não estava errado, porque os dias seguintes ainda trariam as trôpegas e desmascaradas tentativas de Alexandre de Moraes de negar ser o destinatário da mensagem “Conseguiu bloquear?”, que Daniel Vorcaro lhe enviou quase duas horas antes de ser preso pela primeira vez, em novembro. Na sequência, seria a vez de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, passar humilhação ao enumerar os serviços que teria prestado ao Banco Master e, de imediato, ver a imprensa brasileira afirmar que nada daquilo é capaz de justificar sequer uma fração dos R$ 129 milhões de seu contrato com o Master — nem mesmo a preço das mais renomadas bancas jurídicas do país.



Viviane é sócia do escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados, com sede em São Paulo - Foto: Reprodução/TSE

Colunista de Oeste, há muito tempo o advogado André Marsiglia sustenta, em ponto de vista compartilhado por todos os que se tornaram alvos do supremo autoritarismo, que o Brasil deixou deixou de ter um tribunal constitucional à medida em que o STF foi exorbitando de suas funções de guardião da Carta de 1988 e se intrometendo em questões legislativas, atos executivos e, principalmente, assumindo o caráter de corte criminal — uma corte que não assegura direito à ampla defesa nem dá espaço para apelação de seus condenados. A bem da verdade, Maierovitch, situado em campo ideológico oposto, também vinha percebendo os arroubos tirânicos do Supremo, mas em tom de comedimento. Agora, curva-se à evidência de que “o cristal” quebrou e “não tem conserto”. 

Na imprensa, difunde-se aos poucos, e veladamente, um sentimento de que não há mais nada a esperar deste STF. A manifestação de Maierovitch ecoou até mesmo no canal GloboNews, desde 2019 a mais empedernida trincheira de defesa do STF — antes, pela oposição que a Corte fez ao governo de Jair Bolsonaro e, a partir de 2023, pela aliança que firmou com o governo Lula. Ex-deputado pelo PT e o mais experiente analista político do canal, Fernando Gabeira declarou estar de acordo com a proposta de mandar os ministros para casa — “em disponibilidade” — e permitir a formação de uma nova corte. “Este Supremo já se desgastou de uma forma que não tem mais conserto.” 

Não tem mesmo. Ressalve-se o trabalho do ministro André Mendonça, tentando conduzir de forma técnica a apuração da Polícia Federal sobre os dois maiores escândalos da República, que implicam seus próprios colegas, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, no caso Master, e o filho mais velho do presidente da República, Lulinha, na farra do INSS. Mendonça enfrenta uma ala que conta com a verve do decano e caudilho da Corte, Gilmar Mendes; inclui Flávio Dino, uma espécie de ministro de Lula que veste toga; e abriga ainda os próprios ministros apanhados nas diligências policiais, Toffoli e Moraes. 

Jornalistas de veículos tradicionais que, aos poucos, soltam a mão do Supremo, referem-se ao quarteto que fecha o cerco sobre Mendonça como “ala política” do Supremo, eufemismo que denota receio de chamar as manobras pelo nome que têm — sabotagem. Não é só medo, claro. As redações ainda patrulham quem ouse defender com alguma ênfase o trabalho solitário de Mendonça. Ainda vigora o código tácito de não dar recibo de virtude a um ministro que foi indicado ao STF por Jair Bolsonaro.


Ministro André Mendonça | Foto: Victor Piemonte/STF 13/03/2026, 18:10 O pior STF da história - Revista Oeste https://revistaoeste.com/revista/edicao-313/o-pior-stf-da-historia/


Diante deste pelotão, Mendonça, que não tem traquejo “político” e nem demonstra apetite para articulações, está vulnerável — e, com ele, a própria instituição já desmoralizada. Senão, vejamos: 

1. O quarteto da blindagem tem sob seu jugo o titular das ações penais, o Ministério Público, chefiado por Paulo Gonet, procurador-geral da República. Gonet deve o cargo de PGR às pressões que seu ex-sócio, Gilmar Mendes, exerceu sobre Lula para indicá-lo. Alexandre de Moraes engajou-se na campanha e tem cobrado a fatura de Gonet, que deu passagem livre a todas as tropelias cometidas pelo relator dos processos do 8 de janeiro e da suposta “trama golpista”. Mendonça não pôde contar com Gonet para, sequer, voltar a prender Daniel Vorcaro e conter seu desvairado plano de atentados, perseguições e obstrução da justiça. Não parece crível que Gonet solicite formalmente a investigação de Moraes e de Toffoli no caso Master, apesar de todos os indícios contra ambos. 

2. O quarteto da blindagem é vocal e ousado a um ponto que o brasileiro médio qualifica, nas rodas de cafezinho, como cara-de-pau. Toffoli não tem a estridência de Gilmar, Dino e Moraes, é certo, mas sozinho bancou a destruição de provas da Operação Lava-Jato e desfez acordos de leniência, beneficiando empresas que haviam confessado a prática de corrupção ativa e se sujeitado ao pagamento de indenizações bilionárias aos cofres públicos. Gilmar, sem dúvida o líder do grupo, e Dino, bom de palanque, sequestraram pedaços da relatoria de Mendonça nos processos relativos ao caso Master e à farra do INSS. Ambos se utilizaram de espertezas processuais para barrar o trabalho de investigação de duas CPIs que, na ordem natural dos processos, estariam na esfera de decisão de Mendonça. Que se calou e, assim, abriu o flanco para novos assaltos em suas prerrogativas.

3. O quarteto da blindagem precisa apenas de dois votos para obter maioria no colegiado, hoje com dez ministros. Talvez não tenha êxito na abordagem a Luiz Fux, rompido com Gilmar e com Moraes diante do voto divergente que proferiu no julgamento de Bolsonaro e dos demais réus da alegada “trama golpista”, defendendo a anulação dos processos. Mas há alguma chance de sucesso, por surpreendente que pareça, na eventual tentativa de cooptar Kassio Nunes Marques, indicado à Corte por Bolsonaro. Cristiano Zanin, ex-advogado de Lula nos processos da Lava Jato e o mais jovem integrante do tribunal, é outro apoio plausível à tese do garantismo a qualquer custo para blindar ministros e manter de pé a casa na qual ingressou recentemente.

Restam duas incógnitas. Ou três, se a elas for somado Kassio Nunes Marques. A primeira é Cármen Lúcia, que iniciou sua carreira no Supremo Tribunal Federal exibindo firmeza em torno de princípios, mas, com o tempo, enturmou-se com Moraes e, principalmente, com Gilmar. A mistura de princípios com viés político e vontade de agradar à imprensa a levou a um voto com jeito de ornitorrinco, o bicho que é mamífero, mas põe ovos. Foi quando ela se enrolou na tentativa de justificar o voto favorável à censura do documentário Quem mandou matar Jair Messias Bolsonaro?, da Brasil Paralelo, às vésperas do segundo turno da eleição presidencial de 2022. Por Gilmar, Cármen Lúcia cerraria fileiras com o quarteto da blindagem. Mas se os editoriais dos jornais forem eloquentes o bastante na execração das imoralidades, Cármen pode tomar o lado da opinião pública — ou da opinião publicada. Ainda que o olhar de Gilmar a fulmine.

A derradeira incógnita é Edson Fachin, o escorregadio presidente do Supremo Tribunal Federal, que ora ensaia movimentos de escuta do clamor público, ora cede às pressões corporativistas. A indecisão já lhe valeu, internamente, o apelido de “Frachin”. Depois de uma nota em que tentou responsabilizar a imprensa pelo que seria uma campanha de difamação da Corte, deu marcha à ré ao perceber o passo em falso e desfraldou a bandeira de um anódino código de ética que ninguém, nem dentro e nem fora do tribunal, levou a sério. Agendou um almoço para discutir o assunto e, ante a carranca de Moraes, Toffoli e Gilmar, desmarcou. De mais a mais, falar em código de ética se tornou sinal de hipocrisia depois que Viviane Barci de Moraes, em pueril tentativa de justificar o contrato de R$ 129 milhões com o Master, informou ter implantado o programa de compliance e integridade do banco que oferecia festas com charutos, uísque e belas garotas trazidas de alémmar para fazer a delícia dos donos do poder.  

Uma edição da pesquisa Meio/Ideia trouxe esta semana a informação de que 7 em cada 10 brasileiros que acompanham o caso Master acreditam que a credibilidade do Supremo já está abalada. Nada menos do que 35% apontam o STF como a instituição mais associada ao escândalo, bem à frente do governo federal (21%) e do Congresso Nacional (18%). Em síntese, as legiões de brasileiros que tomarão o caminho das urnas em outubro, independentemente de inclinações políticas, carregam um sentimento inédito — o de que a corrupção veste toga. E o veredito popular pode ser duríssimo — a eleição de numerosos senadores comprometidos com o impeachment de ministros corruptos e, principalmente, a elaboração de uma reforma judiciária que feche o pior STF da história do Brasil e, sobre seus escombros, erga uma nova e verdadeira corte constitucional. 

Não será uma obra simples. Remover a mais deletéria composição que o Supremo Tribunal Federal já teve é apenas um primeiro passo. Mais sério e delicado será remover o lixo jurisprudencial que o regime de Alexandre, Toffoli, Gilmar e Luís Roberto Barroso legou ao país. É, sem exagero, um gigantesco “entulho autoritário” — expressão cunhada nos tempos pós-ditadura militar para se referir aos atos institucionais que forneceram molde legal para a censura, as cassações e outros abusos. Ao menos, os atos institucionais dos generais-presidentes estavam escritos e codificados. No caso das decisões pós-2019, especialmente as lavradas em mau português por Alexandre de Moraes, o que se tem é um caótico conjunto de violações aos preceitos da Constituição Federal e das leis infraconstitucionais, como Augusto Nunes e André Marsiglia demonstraram na reportagem de Oeste “Constituição em frangalhos”.

É uma obra monumental e desafiadora que começa com o voto de protesto de cidadãos determinados a eleger um Senado à altura da missão de depurar e reinaugurar a mais alta instância do Poder Judiciário brasileiro.




Eugênio Esser  -  Revista Oeste





'A mancha que nada remove' - Augusto Nunes

 Se assassinar a verdade, o STF vai virar comparsa do Master


Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, ministros do STF envolvidos no caso do Banco Master - Foto: Rosinei Coutinho/STF 

A té novembro passado, a ladroagem no INSS parecia ter assegurado a primeira colocação no ranking das mais impressionantes roubalheiras descobertas em 2025. No penúltimo mês do ano, foi ultrapassada pelo caso Master, primeiro escândalo do gênero cujo elenco inclui, no grupo de atores principais, dois ministros do Supremo Tribunal Federal. Entre a proclamação da República e estes tempos estranhos, a permanência do país no pelotão dos mais corruptos do planeta foi garantida por figurões do Executivo e do Legislativo, apoiados por esforçados coadjuvantes muito bem remunerados. 

É verdade que já não espantam ninguém aparições no noticiário político-policial de juízes que prosperam com a venda de sentenças e outras patifarias facilitadas pelo cargo. Mas a cúpula do Judiciário ficou fora, por exemplo, do Mensalão, do Petrolão e outros casos de polícia excepcionalmente lucrativos. 

A única irregularidade cometida por um presidente do Supremo ocorreu quando o presidente Getúlio Vargas foi deposto e substituído por José Linhares, que governou o Brasil entre 29 de outubro de 1945 e e 31 de janeiro de 1946. A multidão de parentes nomeados pouco depois da posse induziu um amigo a sugerir-lhe que não exagerasse na prática do nepotismo. 

O presidente interino foi sincero: era melhor ser criticado por meio mundo durante dois meses do que aturar as queixas da família pelo resto da vida. Se vivesse para ver o espetáculo da promiscuidade criminosa em curso neste março, como reagiria Linhares? O que diria ao saber da transferência de Alexandre de Moraes e José Antônio Dias Toffoli da alta classe média para o clube dos milionários, financiada pelo banqueiro vigarista que protagonizou a maior fraude financeira da história do Brasil?


André Mendonça, relator do caso do Banco Master e os envolvidos: Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. Sessão plenária do STF no dia 11 de março de 2026 - Foto: Antonio Augusto/STF 

Surpreendida por revelações espantosas, a dupla de superdoutores fez de conta que não acontecera nada de mais. Moraes, por exemplo, atravessou semanas sem dar um pio sobre o contrato assinado por Daniel Vorcaro e o escritório de advocacia pilotado por Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, e tripulado por dois filhos do casal. Há dias, Viviane divulgou uma nota para provar que o dono do Master não havia rasgado dinheiro ao oferecer R$ 129 milhões, divididos em gordas parcelas mensais, para dispor dos serviços da doutora por três anos. Viviane cuidaria dos interesses do Master num território que abrange o Ministério Público, a Procuradoria Geral da República, o Banco Central, a Receita Federal, a Polícia Federal e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), além de vigiar no Congresso o andamento de projetos do interesse do contratante. 

A doutora jura que fez bonito na área de compliance. Tal estrangeirismo, que em inglês significa “conformidade”, é a palavra usada para identificar o pacote de regras, procedimentos e práticas que devem ser adotados por empresas ou organizações dispostas a garantir que suas atividades estejam em conformidade com leis, regulamentos e princípios éticos. Tudo o que o Master ignorou. Não foi a única piada pronta inspirada pelo uso da expressão. Viviane talvez tenha esquecido o nome da operação policial que a transformou na advogada mais bem paga do planeta: Compliance Zero.

O “Código de Ética” que obrigaria Vorcaro e sua turma a criarem juízo é ilustrado com imagens facilmente encontradas na internet. Mais: o copia-e-cola é desmoralizado por erros de grafia, pelas construções gramaticais incompletas e por uma escrita indigente. O contrato poderia ser reduzido a uma só cláusula: o marido da contratada recorrerá a seus poderes de gerente da democracia à brasileira para impedir que o Master seja liquidado e o contratante durma na cadeia. Deve-se registrar que Moraes esforçou-se para cumprir tal missão. Num único dia, telefonou seis vezes para o presidente do Banco Central, Gabriel Galipoli, para evitar a liquidação extrajudicial do Master.


Lula, Viviane Barci e Alexandre de Moraes - Foto: Flickr/STF 


Nesta semana, foi divulgada parte das mensagens extraídas do celular de Vorcaro apreendido no fim de 2025. Somadas, são um monumento ao convívio incestuoso entre um bandido e autoridades que deveriam encarcerá-lo havia muito tempo. No dia em que seria preso pela primeira vez, Vorcaro interpela Moraes: “Alguma novidade? Conseguiu bloquear?”. 

Nas respostas, o ministro recorre à visualização única do WhatsApp, que em tese apaga a mensagem depois de lida pelo destinatário. Naquela mesma manhã, Vorcaro relata negociações com possíveis investidores e informa que ficou preocupado com perguntas de uma jornalista sobre a situação do Master. “Fiz uma correria aqui para tentar salvar”, disse. “Fiz o que deu, vou anunciar parte da transação.” A esperteza de Moraes pode ter colidido com os avanços da tecnologia: peritos da Polícia Federal garantem que as mensagens apagadas depois de lidas por Vorcaro foram recuperadas.


Tanto o dono do Master, Daniel Vorcaro, como o ministro do STF, Alexandre de Moraes, escreviam o texto no bloco de notas de seus aparelhos, tiravam prints e depois enviavam como imagens de visualização única — por isso não aparecem as mensagens de Moraes nas conversas - Foto: Reprodução/UOL 


Conversa do Daniel Vorcaro para Alexandre de Moraes - Foto: Reprodução/UOL


Outras peças do quebra-cabeça foram encontradas nas mensagens remetidas à namorada, Martha Graeff. Resgatou-se, por exemplo, uma reunião em Londres de que participaram Moraes, Toffoli, Andrei Rodrigues, diretor-geral da PF, o procurador-geral Paulo Gonet e Benedito Gonçalves, então corregedor-geral da Justiça Eleitoral, além de responsável por pareceres que tornaram o ex-presidente Jair Bolsonaro inelegível e anularam a conquista de uma vaga na Câmara dos Deputados por Deltan Dallagnol. “Eu sou muito louco”, disse Vorcaro a Martha, que concorda com o companheiro eufórico: “Essa realidade. Todos os ministros do Brasil. Do STF, STJ etc. Euzinho discursando”. 

Bem menos cauteloso que Moraes, Toffoli viajou para Lima num jatinho em companhia do advogado Augusto de Arruda Botelho, um dos destaques da tropa de bacharéis contratados pelo dono do Master, preso poucos dias antes. Todos os passageiros alegam que voaram rumo à capital peruana para assistir ao duelo entre Flamengo e Palmeiras na final da Copa Libertadores. Todos também juram que, na ida e na volta, só se falou de futebol. Foi por acaso, portanto, que no dia seguinte Toffoli confiscou o processo em nome do STF, declarou-se relator, emparedou o caso com o “sigilo máximo” e valeu-se de vários golpes de caneta para retardar investigações ou anular provas. 

A contra-ofensiva tropeçou em outra descoberta inquietante para o viajante: ele ganhara muitos milhões ao embolsar a parte que lhe cabia na venda a um fundo do Master do resort Tayayá, no interior do Paraná, pertencente à família Toffoli. Mal no retrato, o relator suspeitíssimo conseguiu piorar a situação com sucessivas decisões absurdas. Pressionado até por aliados, concordou em pedir para sair — desde que os nove colegas que participaram da reunião subscrevessem uma nota oficial atulhada de elogios ao bisonho desempenho. Escolhido por sorteio, 

André Mendonça vem tentando restabelecer a normalidade. Revogou regras que algemavam o trabalho da PF, decretou a prisão de Vorcaro e seus homens de confiança e transferiu a palavra final aos demais integrantes da Segunda Turma. Além de Mendonça, dela fazem parte Dias Toffoli, Gilmar Mendes, Luiz Fux e Nunes Marques. Eles dirão neste 13 de março se as decisões do relator merecem ser aprovadas ou não. 

Entre o desempenho inaugural de Mendonça e a sessão marcada para esta sexta-feira, aumentaram as evidências de que o STF requer urgentes mudanças moralizadoras. Não rima com cortes supremas, por exemplo, o festim ocorrido em Londres na noite de 25 de abril de 2024, no refinadíssimo George Club. Os participantes do encontro saborearam pratos da culinária europeia contemporânea e esvaziaram garrafas de uísque escocês da marca Macallan. 

A depender da safra, o valor de uma unidade pode ultrapassar a marca dos R$ 10 mil. A conta do jantar: £ 7,3 mil, ou R$ 46 mil. Desse total, £ 1,77 mil foram gastos apenas com a bebida. O banquete integrou um evento mais amplo. Planilhas apreendidas pela PF indicam que a programação total custou US$ 650 mil, ou R$ 3,5 milhões. Tudo foi pago por Vorcaro. 


Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes e outros membros do STF tomaram uísque escocês da marca Macallan, no refinado o George Club, em Londres. Tudo pago pelo Vorcaro - Foto: Reprodução/X


Relatórios da PF registram gastanças semelhantes em encontros da mesma turma em outras capitais europeias. Uma das planilhas apreendidas registra, por exemplo, a reserva (formalizada pelo dono do Master) de uma mesa que seria ocupada por Moraes, sua mulher e Toffoli. Além de Vorcaro, claro. Todos participavam de um painel internacional bancado por empresas e instituições financeiras.

Na noite de quarta-feira, Toffoli declarou-se impedido de participar de decisões vinculadas ao caso protagonizado por Vorcaro. Depois de recusar-se a analisar o pedido de abertura de uma CPI do Banco Master, informou que não participará da sessão da Segunda Turma que endossará ou não as decisões de Mendonça. Com a ausência de Toffoli, serão quatro os julgadores. Fux deverá apoiar Mendonça. Gilmar votará contra. Nunes Marques anda sumido e calado. Caso se junte a Gilmar, o empate determinará a soltura do grupo que agora ameaça quebrar todos os dentes de jornalistas que cumprem seu dever e honram a profissão. Vorcaro ficará livre. O Supremo será para sempre prisioneiro de uma tramóia que insulta os brasileiros que cumprem a lei. 

A Operação Lava Jato, nascida para investigar um grupo de doleiros, percorreu veredas sombrias que desembocaram na devassa do Petrolão — e a transformaram na maior e mais bem-sucedida ofensiva anticorrupção da história. Foi tão longe que Lula teve de curtir mais de 500 dias na gaiola e milhões de brasileiros acreditaram que, até que enfim, todos se haviam tornado iguais perante a lei. A legião dos fora da lei homiziada nos três Poderes se uniu para deter o avanço da operação. A Compliance Zero foi concebida para investigar e desmantelar o bilionário esquema de fraudes montado por Daniel Vorcaro no Master e em empresas parceiras. Logo passou a apurar a compra do Master pelo Banco Regional de Brasília, controlado pelo governo do Distrito Federal.


O governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha - Foto: José Cruz/Agência Brasil 


A Polícia Federal mirava a usina de delinquências, da emissão de títulos de crédito falsos à manipulação de mercado e lavagem de dinheiro, que provocaram prejuízos estimados em mais de R$ 12 bilhões. Como a Lava Jato, acabou descobrindo que as bandalheiras envolviam o governador do Distrito Federal, a direção do Banco Regional de Brasília e alguns reizinhos de toga. Em 2023, Ibaneis Rocha foi acusado de omissão durante os barulhos do 8 de janeiro e ficou fora do gabinete 90 dias por ordem de Alexandre de Moraes. Na semana passada, Moraes arquivou o inquérito por solicitação do procurador-geral da República, Paulo Gonet, que não encontrou elementos que justificassem o prolongamento da história.


Neste 13 de março — outra sexta-feira 13 — as semelhanças entre a Lava Jato e a Compliance Zero serão ampliadas caso a Segunda Turma do Supremo revogue as corretíssimas decisões do relator André Mendonça. Se Vorcaro e seus asseclas forem libertados, Dias Toffoli e Moraes talvez voltem a dormir em sossego. Mas só por alguns dias, porque a verdade é teimosa. O Brasil que pensa e presta perderá o respeito que resta pelo STF. Seja qual for o desfecho da sessão, o envolvimento no caso Master já danificou duas togas com uma espécie de mancha que nada remove. A mancha que identifica culpados é eterna. 


Augusto Nunes - Revista Oeste

Ex-presidiário Lula já pagou R$1,8 bilhão em emendas este ano

 

 Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom / Agência Brasil


O governo Lula (PT) já pagou R$1,8 bilhão em emendas parlamentares, apenas este ano. A plataforma de transparência do Tesouro Nacional revela que a administração petista distribuiu R$955,4 milhões em emendas individuais e outros R$843,8 milhões para bancar as emendas de bancada. Já o Portal da Transparência do governo federal ainda não registrou sequer um centavo pago em emendas.

Ritmo acelerou

Do total, foram pagos mais de R$700 milhões nos últimos 20 dias. Apenas em março, a conta das emendas é de R$227 milhões.

Início do ano

Somente em fevereiro, Lula e cia. pagaram mais de R$1,1 bilhão em emendas parlamentares. Em janeiro, foram mais de R$455 milhões.

Top 3

Mato Grosso, Rio Grande do Sul e Pará receberam as emendas mais caras; R$36,8 milhões, R$27 milhões e R$22 milhões respectivamente.


Diário do Poder