sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Ana Paula Henkel escreve sobre 'O castelo de areia de Anthony Fauci'

 O escrutínio que foi negado durante a pandemia finalmente começou


Foto: Shutterstock


Anthony Fauci viveu mais uma semana difícil nos Estados Unidos. Poucos dias depois de comparecer ao Senado e invocar a Quinta Emenda 111 vezes, o médico que se tornou o principal rosto da resposta americana — e mundial — à pandemia voltou ao centro dos acontecimentos. Na quinta-feira, 6 de agosto, a Comissão de Segurança Interna e Assuntos Governamentais aprovou uma resolução para declará-lo em desacato ao Congresso. 

O senador Rand Paul, presidente da comissão, anunciou que pretende encaminhar o caso ao Departamento de Justiça. Ao mesmo tempo, as investigações avançam. Depois dos milhares de e-mails tornados públicos, vieram os diários pessoais de Fauci. 

Agora, investigadores tiveram acesso ao telefone celular utilizado por ele durante a pandemia, ampliando o conjunto de documentos sob análise. Pouco a pouco, e-mail após e-mail, página após página, mensagem após mensagem, o que parecia um castelo de areia erguido sobre certezas inquestionáveis começa a ser confrontado pelo maremoto causado pelos próprios registros daqueles anos. Independentemente das conclusões das investigações, uma realidade já se impõe: 

Anthony Fauci deixou de ser apenas o homem que explicava a pandemia para se tornar um dos principais personagens da investigação sobre como ela foi conduzida. Como se não bastasse, procuradores-gerais de diferentes Estados — entre eles Flórida, Louisiana e Oklahoma — anunciaram investigações próprias para apurar possíveis violações de suas legislações relacionadas à atuação de Fauci durante a pandemia.


Anthony Fauci viveu mais uma semana difícil nos Estados Unidos - Foto: Reuters

O mais relevante, porém, não é o destino jurídico de Fauci. É o colapso da blindagem política e midiática que o cercou durante anos. A figura apresentada como autoridade praticamente incontestável agora enfrenta investigações, documentos públicos, depoimentos sob juramento e questionamentos institucionais que dificilmente teriam espaço poucos anos atrás. O escrutínio que foi negado durante a pandemia finalmente começou. Essa mudança diz muito menos sobre Anthony Fauci do que sobre o funcionamento das instituições democráticas. 

Durante crises, sociedades concentram confiança em determinadas figuras. Em guerras, nos generais. Em colapsos econômicos, nos ministros da Fazenda. Em pandemias, nas autoridades sanitárias. O fenômeno não é novo nem necessariamente negativo. Situações extraordinárias exigem liderança técnica e capacidade de coordenação. O problema surge quando a autoridade técnica é confundida com infalibilidade. 

Foi o que ocorreu durante boa parte da pandemia. Fauci deixou de ser apresentado como um cientista experiente para se transformar, aos olhos de grande parte da imprensa e da classe política, em autoridade acima do contraditório. Questionar decisões passou a ser interpretado como ataque à ciência. A distinção entre discordar de um gestor público e negar o conhecimento científico foi apagada, criando um ambiente no qual perguntas legítimas frequentemente eram recebidas com hostilidade. 

Esse talvez tenha sido um dos maiores erros daquele período. A ciência nunca avançou pela ausência de perguntas. Ela avança justamente porque perguntas continuam sendo feitas. Hipóteses são formuladas, confrontadas, testadas, abandonadas ou confirmadas. 

Nenhuma teoria científica permanece verdadeira por decreto. Nenhuma conclusão deixa de poder ser revisada apenas porque determinada autoridade a apresentou em entrevista coletiva. Ainda assim, criou-se uma atmosfera em que determinadas discussões simplesmente não podiam existir. Hipóteses sobre a origem do vírus eram descartadas antes de serem investigadas. 

Médicos que defendiam protocolos diferentes eram imediatamente desqualificados. Especialistas que levantavam dúvidas sobre lockdowns prolongados, fechamento de escolas, imunidade natural ou eficácia das vacinas na interrupção da transmissão eram retratados como propagadores de desinformação. Esse ambiente produziu um efeito corrosivo. 

A confiança pública na ciência não foi enfraquecida pelo excesso de perguntas. Ela começou a ser corroída quando milhões perceberam que perguntas deixavam de ser respondidas e, em muitos casos, sequer podiam ser feitas.

É nesse contexto que as investigações envolvendo Fauci adquirem importância maior do que a trajetória de um único homem. Elas representam a tentativa de reconstituir decisões que afetaram bilhões de pessoas: escolas foram fechadas, liberdades restringidas, políticas de saúde foram alteradas do dia para a noite sem debates, influenciaram eleições e redefiniram a relação entre governos e cidadãos. 

Decisões cujo custo civilizacional só agora começa a ser medido na sua verdadeira extensão, e que nenhuma sociedade séria pode simplesmente deixar para trás.


Questionar lockdowns, escolas fechadas ou vacinas podia render o rótulo de desinformação - Foto: Shutterstoc

O precedente da Suprema Corte Entre as discussões jurídicas das últimas semanas, uma merece atenção especial por quase não ter aparecido fora dos Estados Unidos: o argumento de Rand Paul de que Fauci não poderia ter invocado a Quinta Emenda da forma como fez. A Quinta Emenda garante o direito de não produzir provas contra si mesmo. Foi o que Fauci invocou 111 vezes.

Rand Paul, porém, afirma que existe um precedente histórico da Suprema Corte que torna essa discussão muito mais complexa do que normalmente se imagina. E, curiosamente, para compreender um dos debates jurídicos mais importantes da política americana em 2026, é preciso voltar ao ano de 1896: Brown versus Walker.


Rand Paul afirma que Fauci não tinha direito de invocar a Quinta Emenda da maneira como o fez | Foto: Reuters/Tom Williams/CQ-Roll Call/Sipa USA

O caso começou quando Brown, um funcionário de uma companhia ferroviária, foi chamado para prestar depoimento em uma investigação federal. Diante das perguntas que lhe foram dirigidas, recusou-se a responder, alegando que suas declarações poderiam incriminá-lo. Era, em essência, a mesma proteção constitucional invocada por Anthony Fauci mais de um século depois. 

A questão submetida aos juízes parecia simples, mas possuía enormes consequências jurídicas. A Quinta Emenda protege qualquer pessoa contra a possibilidade de ser obrigada a produzir provas que possam levá-la à própria condenação criminal. Mas essa proteção continua existindo quando o risco de condenação deixa de existir?

A Suprema Corte respondeu que não. A corte explicou que a finalidade da Quinta Emenda é impedir que alguém seja obrigado a fornecer provas que possam resultar em sua própria condenação. No entanto, quando esse risco jurídico deixa de existir — seja porque a pessoa recebeu imunidade, porque o prazo para processá-la terminou ou porque houve um perdão para aquele delito — desaparece também a razão que justifica a invocação dessa proteção constitucional. 

O direito ao silêncio não existe para proteger alguém de constrangimento político ou desgaste de reputação. Existe apenas para impedir que alguém seja obrigado a fornecer provas que possam servir a uma condenação criminal. Quando esse risco cessa, cessa também o fundamento da proteção. 

Segundo Rand Paul, o perdão concedido por Joe Biden a Fauci levanta exatamente essa questão. Se o perdão realmente o protege dos fatos investigados, o risco de condenação federal desapareceu — e, com ele, o fundamento para invocar a Quinta Emenda. Isso não significa, porém, que a discussão esteja encerrada. Diversos constitucionalistas sustentam que a situação jurídica de Fauci pode ser muito mais complexa. 

O alcance de um perdão presidencial depende da forma como ele foi concedido, dos fatos efetivamente abrangidos por esse perdão e da existência de eventuais responsabilidades que escapem da esfera federal. Também permanece aberta a discussão sobre possíveis investigações estaduais, que não necessariamente são alcançadas por um perdão concedido pelo presidente da República.


A quebra da espiral de silêncio

Essas divergências continuarão sendo debatidas nos tribunais e no Congresso. O ponto realmente importante, porém, é outro. Pela primeira vez desde o início da pandemia, Fauci passou a ser tratado como qualquer outro agente público. Seus atos deixaram de ser analisados apenas sob a perspectiva sanitária e passaram a ser submetidos ao escrutínio institucional próprio de uma democracia.

Essa mudança acompanha outra transformação. Afirmações apresentadas como certezas absolutas começaram a ser revistas. Durante anos, milhões ouviram que as vacinas de mRNA impediriam a infecção, interromperiam a transmissão e colocariam fim à pandemia. Essas declarações fundamentaram campanhas governamentais, vacinação obrigatória e restrições impostas a cidadãos que decidiram não se vacinar ou seguir tratamentos de acordo com seus médicos. 


Durante anos, milhões ouviram que as vacinas de mRNA impediriam a infecção, interromperiam a transmissão e colocariam fim à pandemia - Foto: Shutterstock

Hoje, ninguém sustenta essas afirmações da mesma maneira. A própria compreensão científica sobre o comportamento das vacinas evoluiu com o acúmulo de evidências. Autoridades sanitárias alteraram recomendações, modificaram protocolos e passaram a reconhecer limitações que durante muito tempo quase não apareciam no debate público.

A revisão de hipóteses faz parte do método científico. O problema nunca esteve na mudança de entendimento. O problema surgiu quando posições científicas foram tratadas como verdades definitivas e qualquer voz dissonante passou a ser silenciada. 

Nesse ambiente, médicos perderam espaço profissional por defender interpretações diferentes das autoridades oficiais, pesquisadores tiveram trabalhos desacreditados, especialistas foram banidos de plataformas, jornalistas foram censurados e milhões de cidadãos comuns foram ridicularizados simplesmente por fazer perguntas que hoje já não parecem absurdas. 

O dano ultrapassa a figura de Anthony Fauci. Quando uma sociedade associa ciência à impossibilidade de questionar autoridades, deixa de compreender tanto a ciência quanto a liberdade. A primeira depende do confronto permanente entre hipóteses. A segunda, da possibilidade de discordar sem ser tratado como inimigo. 

Nenhuma democracia preserva esses dois valores quando o medo substitui o debate e o consenso vale mais do que a investigação. 


Pandemia e Fauci. Oeste e Guzzo

Há coincidências de simbolismo difícil de ignorar. Na semana em que o mundo assiste a novos desdobramentos das investigações sobre Fauci — sob o silêncio da mídia brasileira —, recordamos o primeiro aniversário da morte de J.R. Guzzo, que passou décadas ensinando que o jornalismo não existe para proteger versões oficiais, mas para fazer perguntas, desconfiar do poder e insistir nos fatos.

Enquanto grande parte da imprensa reproduzia versões oficiais e desencorajava questionamentos, a Oeste, sob a batuta de Guzzo, escolheu o caminho mais difícil: continuar perguntando.


J.R. Guzzo - Foto: Arquivo Pessoal

Narrativas podem dominar o debate público por algum tempo. Podem controlar manchetes, influenciar algoritmos, intimidar adversários e até convencer milhões de pessoas de que determinadas perguntas jamais deveriam ser feitas. Nenhum desses mecanismos, porém, altera a realidade. Os fatos continuam existindo independentemente do que governos, especialistas ou veículos de comunicação desejem que as pessoas acreditem. 

Foi essa confiança na força dos fatos que Guzzo transmitiu a gerações de jornalistas. Ele jamais acreditou que a missão da imprensa fosse proteger autoridades ou administrar consensos. Seu compromisso esteve sempre em outro lugar: investigar, perguntar e permanecer fiel à realidade, mesmo quando isso significasse contrariar o pensamento dominante. 

Não deixa de ser simbólico que o primeiro aniversário de sua morte coincida com uma semana em que antigas certezas voltaram a ser colocadas sob escrutínio. Independentemente do destino jurídico de Fauci, uma lição já é evidente: a tentativa de transformar questões científicas em dogmas políticos produziu enorme desgaste na confiança pública. 

Reconstruí-la exigirá exatamente o que faltou durante tanto tempo: transparência, disposição para rever erros e liberdade para que perguntas difíceis continuem sendo feitas. Guzzo jamais confundiu prestígio com autoridade moral, nem autoridade com infalibilidade. 

Sabia que governos, especialistas, instituições e jornalistas erram. E sabia que a única maneira de reduzir esses erros é preservar o que diferencia uma sociedade livre de qualquer regime autoritário: a possibilidade permanente de investigar, contestar e perguntar.

 A Revista Oeste nasceu em um momento em que fazer essas perguntas significava enfrentar ataques e tentativas de silenciamento. Continuará fazendo exatamente a mesma coisa enquanto houver assuntos que mereçam ser investigados e verdades que ainda precisem ser contadas. 

Esse sempre foi o legado de J.R. Guzzo. É também o compromisso que permanece orientando o nosso trabalho. Narrativas conseguem dominar o debate público durante algum tempo. Conseguem intimidar adversários, produzir consensos artificiais e até reescrever temporariamente a memória coletiva. 

O que elas não conseguem fazer é alterar a realidade — nem a de Anthony Fauci, nem a lição que J.R. Guzzo insistiu em deixar. 

Obrigada, mestre.


Ana Paula Henkel - Revista Oeste

Flávio Gordon e 'O vingador dos aposentados'

 A opção por Alfredo Gaspar para compor a chapa de Flávio Bolsonaro tem um simbolismo poderoso


Dep. Alfredo Gaspar (UNIÃO - AL) na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do INSS (29/09/2025) - Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados

F inalmente chegou ao fim o suspense sobre a escolha do vice de Flávio Bolsonaro para a eleição presidencial deste ano. Dentre especulações sobre vantagens táticas do futuro indicado, sua capacidade de atrair votos e dialogar com determinados segmentos populacionais, a decisão do comitê de campanha acabou priorizando o valor simbólico do nome indicado. A opção pelo deputado Alfredo Gaspar para compor a chapa — um nome que, até então, não aparecia em nenhuma lista dos mais cotados — traz consigo um simbolismo poderoso. O que está em jogo não é a indicação de um nome de segunda linha, escolhido faute de mieux depois que PP, União Brasil e Republicanos recusaram formalizar o apoio esperado. O que está em jogo é a tentativa de reconduzir a candidatura bolsonarista para um caminho do qual a direita brasileira, viciada em pragmatismo nonsense e em dar ouvidos a marqueteiros eleitorais com cabeça de identitário de esquerda, quase já se havia afastado por completo: o de contar uma história. 

Mas convém relembrar os fatos, sem os quais nenhum símbolo se sustenta. Gaspar é advogado, ex-promotor de Justiça em Alagoas, com mais de duas décadas de carreira dedicadas ao combate ao crime organizado, tendo coordenado o grupo estadual de enfrentamento a organizações criminosas e presidido o equivalente nacional. Foi duas vezes secretário de Segurança Pública em seu Estado. Peregrinou por três partidos — MDB, União Brasil e, agora, PL — numa trajetória que tem menos de ideológica e mais de errática, como costuma ser o destino de quem chega tarde às certezas. 

Há, contudo, um fato que ofusca todos os outros, e é nele que a campanha decidiu apostar: Gaspar foi o relator da CPMI do INSS, a comissão que investigou o desvio bilionário de recursos de aposentados e pensionistas por meio de descontos associativos não autorizados nos contracheques — um escândalo que floresceu, cresceu e frutificou sob o terceiro governo Lula, assim como o Mensalão frutificara no primeiro, e o Petrolão, no segundo. E, dos três, foi esse o caso mais repugnante de saque petista ao patrimônio nacional, dada a especial vulnerabilidade das vítimas.


Relator da CPMI do INSS, Alfredo Gaspar, em oitiva do CEO do Banco C6 (19/03/2026) - Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

Cogitou-se, em algum momento das tratativas, indicar uma mulher para a vaga de vice. A ideia não vingou, e ainda bem. Não, obviamente, porque mulher alguma fosse capaz de ocupar o posto, mas porque a lógica identitária que preside esse tipo de cogitação nada tem a ver com a cosmovisão conservadora e de direita, que valoriza o mérito e o caráter acima de características físicas que, da perspectiva política, são inteiramente secundárias e contingenciais. Escolher Gaspar não por ser homem, mas por ter sido o homem que investigou o maior roubo aos aposentados da história recente do país, é escolher pelo critério certo: o do mérito, da história pessoal, da causa que se representa.

Uma campanha que se pretende de direita erra quando maquia decisões estratégicas com verniz identitário; e acerta, e muito, quando as fundamenta em fatos, biografia e substância. Mas a escolha de Gaspar supera a própria biografia e — como deve ser uma campanha política empolgante — adentra o terreno da alegoria. Porque o roubo ao aposentado brasileiro não foi um desvio administrativo, um erro de sistema, uma falha burocrática que qualquer governo, de qualquer matiz, pudesse cometer por acidente. Foi a expressão mais nua do que o lulopetismo sempre foi em sua essência: um projeto de poder que se alimenta do Estado como um parasita se alimenta do hospedeiro, sugando não a abstração distante do “orçamento público”, mas o dinheiro concreto, mensal, suado, que separava o aposentado humilde de passar fome. 

As digitais do partido estão por toda parte — nos sindicatos e associações que prosperaram sob o guardachuva político do governo, na morosidade cúmplice de órgãos que deveriam fiscalizar e não fiscalizaram, na resistência que a própria CPMI encontrou para avançar. Não é acaso que o parecer do relator, pedindo o indiciamento de mais de 200 pessoas, tenha sido derrubado por 19 votos a 12: a máquina que rouba também sabe se blindar quando ameaçada. 

Ora, se há um crime que sintetiza o que este governo fez ao brasileiro comum, é este. E se há uma figura que pode reivindicar, com alguma legitimidade, o papel de acusador público desse crime, é o homem que assinou o relatório. A campanha de Flávio Bolsonaro não escolheu Gaspar por mera afinidade eleitoral, por peso de legenda ou por aritmética de coligação — todas essas portas, aliás, estiveram fechadas. Escolheu-o porque, na ausência de alternativas mais vistosas, sobrou a alternativa mais honesta: colocar ao lado do candidato a Presidente um homem que passou meses debruçado sobre planilhas de roubo, ouvindo depoimentos de vítimas, tentando — ainda que sem êxito pleno, dadas as artimanhas do lulopetismo e seus aliados no Centrão — nomear os responsáveis. 

Não se trata de ingenuidade quanto aos limites do gesto. Um vice de primeiro mandato, sem grande capital político acumulado, não muda sozinho o destino de uma eleição, e a necessidade prática dessa escolha — a segunda opção depois de negociações fracassadas com PP, União Brasil, Republicanos e Novo — é evidente e não deve ser escondida sob retórica. Mas o simbolismo, justamente por nascer de uma necessidade e não de um plano de marketing perfeitamente calculado, tem uma autenticidade que os gestos publicitários raramente possuem. Não foi desenhado por nenhum publicitário para “ressoar” com o eleitor idoso, tampouco obedeceu a qualquer cálculo de representatividade de gênero; ele apenas é o que é, porque o homem simplesmente fez o que fez.



Fachada da sede do Instituto Nacional do Seguro Social - Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil


O aposentado brasileiro talvez não saiba explicar em termos técnicos o que aconteceu com seu benefício. Mas sabe, com a certeza elementar de quem sente o próprio bolso mais leve, que algo lhe foi tirado, e que quem lhe tirou tinha nome, sobrenome e, quase sempre, algum tipo de proteção institucional. Ter na chapa de oposição um homem que investigou esse roubo até as raias do Palácio do Planalto — pois é isso que uma CPMI instalada sob um governo petista, mirando fraudes ocorridas sob esse mesmo governo, necessariamente faz — é oferecer a essas vítimas algo que a política raramente oferece: não apenas indignação retórica, mas um rosto conhecido, um nome que já demonstrou disposição de remexer no lodo. 

À campanha de Flávio, obviamente, caberá saber explorar esse capital simbólico com a seriedade que ele merece, e não apenas como acessório de campanha a ser mencionado em um debate e depois esquecido. Porque o roubo ao INSS não foi um escândalo qualquer entre tantos que o noticiário digere e descarta em poucas semanas. Foi a revelação, em carne viva, de que o discurso da compaixão pelos pobres e pelos velhos, tão caro à retórica petista, convive sem o menor pudor com a extração sistemática da renda dos mais indefesos, quando a oportunidade se apresenta e a fiscalização adormece. Gaspar não precisa ser um grande orador nem um estrategista consumado para cumprir seu papel simbólico. 

Basta que continue sendo, publicamente, o que já foi nos gabinetes da CPMI: a lembrança viva de que houve crime, de que houve vítimas, e de que alguém, finalmente, se dispôs a apontar o dedo./ 


Flávio Bolsonaro anunciou uma chapa pura do PL com o deputado Alfredo Gaspar como seu vice - Foto: Sarah Peres/Revista Oeste= 

Flávio Gordon - Revista Oeste


'O homem da Lei', por Augusto Nunes

 Uma lição de Direito ao chefe da família Moraes



Ilustração: Shutterstock


E m 9 de dezembro de 2025, a Polícia Federal encontrou num dos celulares de Daniel Vorcaro o contrato assinado pelo dono do Banco Master e por Viviane Barci de Moraes. Segundo o documento, o contratante pagaria R$ 129 milhões, divididos em gordas mensalidades de R$ 3,6 milhões, para contar por três anos com os serviços do escritório de advocacia pertencente à mulher do ministro Alexandre de Moraes e dois filhos do casal de bacharéis em Direito. O tamanho dos honorários, ao qual se juntariam provas e evidências contundentes, avisava aos berros que foi esse o preço pago para comprar, arrendar ou alugar a proteção da mais truculenta das togas. 

Há oito meses, o país que pensa e presta espera do ministro alguma explicação, algum esboço de álibi, ao menos uma desculpa esfarrapada. Passados quase 250 dias, o carcereiro-geral da nação não deu um único e escasso pio sobre suas ligações com o produtor do maior escândalo financeiro da história. Neste começo de agosto, constatou-se que Moraes acha pouco: ele também quer proibir o Brasil inteiro de tocar no assunto. Melhor desistir: o desfecho da tentativa de silenciar o senador Alessandro Vieira reiterou que ainda há juízes por aqui. Um deles é Fabio de Souza Pimenta, titular da 32ª Vara Cível da Justiça paulista, a quem coube julgar uma ação indenizatória movida por Viviane e os dois filhos contra o senador do MDB de Sergipe. Oficialmente, o chefe da família acompanhou a disputa da arquibancada.



Senador Alessandro Vieira concede entrevista após leitura do relatório final da CPI do Crime Organizado (14/04/2026) - Foto: Carlos Moura/Agência Senado


Vieira foi acusado pela trinca de “associar indevidamente os seus nomes à suposta circulação de recursos entre o Banco Master, investigado por ligação com o PCC, e o escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados”. O crime teria sido cometido em 15 de março deste ano, na entrevista concedida ao programa Sala de Imprensa, do SBT News, pelo então relator da CPI do Crime Organizado e suplente da CPMI do INSS. Na sequência de uma fala que juntou dinheiro do Primeiro Comando da Capital e parentes de dois ministros do STF (merecidamente, sobrou também para Dias Toffoli), o entrevistado teria estranhado o preço astronômico da contratação do escritório da família. Tamanha injustiça, nos cálculos dos três alvejados, valia R$ 20 mil por cabeça. Somados filhos e mãe, os indenizados ficariam R$ 60 mil mais ricos. 

A ação saiu pela culatra. Um a um, os argumentos dos acusadores foram demolidos pelas 14 páginas que justificam a decisão final: Pimenta julgou improcedentes os pedidos formulados pelos Moraes, condenou os autores da ação ao pagamento das custas e despesas processuais, “bem como dos honorários advocatícios em favor do réu”, declarou a ação extinta e encerrou o assunto. Sempre tratando gentilmente o idioma, com a serenidade que anda em falta no Supremo, amparado apenas em artigos legais e mandamentos constitucionais, o magistrado ministrou uma irretocável aula de Direito. E disse “não” aos caprichos e vontades de Alexandre de Moraes. 

Pimenta ensinou, por exemplo, que o réu concedeu a entrevista “como parlamentar do Congresso Nacional, para apresentar informações atinentes ao exercício do mandato”. Portanto, mesmo fora das dependências do Senado, Vieira continuava protegido pelo artigo 53 da Constituição. “Deputados e senadores são invioláveis, civil e penalmente, por opiniões, palavras e votos, de modo que a imunidade não se circunscreve à esfera penal, mas também se estende à responsabilidade civil”, lembrou o juiz. Em outro trecho, a sentença evocou os limites impostos à interferência de magistrados no discurso político: 

“Eventuais excessos de linguagem porventura identificados devem ser submetidos tão somente ao controle interno da respectiva casa legislativa e não à responsabilização pelo Poder Judiciário”. O jornalismo estatizado fingiu não ter visto outro relâmpago iluminando o horizonte escurecido por uma Suprema Corte desfigurada por chicanas, espertezas, vigarices, chiliques, shows de exibicionismo, politicagem, abusos criminosos, gastanças — e, agora, enlameada pelo pântano da corrupção. Nenhuma surpresa. “Em tempos sombrios”, escreveu Hannah Arendt, “as piores pessoas perdem o medo e as melhores perdem a esperança”. 

A imprensa velha não tem medo de tentar esconder as lições ministradas no STF pelo comportamento exemplar de André Mendonça. Coerentemente, procurou ocultar a aula oferecida pelo juiz que age como homem da lei.

Pior para os bandidos e seus comparsas. Sempre haverá esperança de salvação enquanto existir a tribo dos que veem as coisas como as coisas são, contam o caso como o caso foi e não conseguem conjugar o verbo “capitular” na primeira pessoa do singular.


Ministro André Mendonça, do STF - Foto: Fellipe Sampaio/STF


Augusto Nunes - Revista Oeste

'A sombra de Lula', por Cristyan Costa

Da Oi ao escândalo do INSS, negócios suspeitos, lobistas e indícios de corrupção acompanham a trajetória do filho mais velho do presidente


Fábio Luís Lula da Silva (Lulinha), filho do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva - Foto: Alex SIlva/Estadão Conteúdo


J á era noite de 30 de julho quando o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), foi surpreendido pela informação segundo a qual um novo pedido de investigação sobre Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, havia chegado ao seu gabinete depois de um sorteio no sistema interno do STF. O que o desconcertou não foi tanto a necessidade de apurar mais uma falcatrua envolvendo o filho do presidente, mas o fato de o caso não ter ido diretamente para ele. Como relator dos processos que tratam dos desvios no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), Mendonça deveria receber ações dessa natureza automaticamente. No dia seguinte, o magistrado determinou a abertura do inquérito, originado em provas encontradas pela Polícia Federal (PF) durante a Sem Desconto, operação voltada a apurar a roubalheira no INSS. 

O episódio representou mais um capítulo da queda de braço entre Mendonça e a ala da PF ligada ao diretor da corporação, Andrei Rodrigues, aliado de Lula. O ministro assumiu as investigações após a saída de Dias Toffoli do caso, em meio a denúncias de envolvimento com o Banco Master. Os atritos entre Mendonça e Rodrigues começaram no dia seguinte. Entre outros pontos, agentes próximos do diretor passaram a retardar o cumprimento de diligências, o delegado responsável pelo caso – ligado a Mendonça – acabou afastado sem aviso prévio e uma série de procedimentos deixou de ser comunicada ao relator.


Andrei Augusto Passos Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, nomeado por Flávio Dino em janeiro de 2023 - Foto: Jose Cruz/Agência Brasil 

A tensão chegou ao ápice na semana passada, quando a PF enviou diretamente à presidência do STF — exercida interinamente por Alexandre de Moraes por causa do recesso forense e da ausência de Edson Fachin — a solicitação mais recente sobre Lulinha. O documento deixou brechas para que o juiz do STF submetesse o caso ao sorteio, em vez de entregar diretamente a Mendonça. A manobra arriscada esbarrou na própria roleta do STF, que sorteou Mendonça para relator. Em poucas horas, viralizou nas redes sociais um vídeo no qual Lula convida Moraes “para um café” depois de um evento no Planalto, que ocorreu horas antes de a PF encaminhar a petição ao tribunal.


Lula chama Moraes para “tomar um cafezinho”. Ao final de uma cerimônia no Palácio do Planalto, os microfones da transmissão oficial captaram um momento de bastidor: o presidente Lula convidando o ministro Alexandre de Moraes, do STF, para “tomar um café” reservado. O encontro acontece em meio à escalada da crise diplomática com a Argentina. (Vídeo: X | O Antagonista) Siga o @thenews.cc para conteúdos que você não encontra em nenhum outro lugar. View all 411 comments Add a comment...


Do zoológico ao mundo empresarial

 Muito se fala sobre Lulinha, mas pouco se sabe sobre ele. Filho mais velho do presidente Lula e da ex-primeira-dama Marisa Letícia, Fábio Luís Lula da Silva tem 51 anos, formou-se em Biologia pela Universidade Paulista e trabalhou como monitor no Zoológico de São Paulo, entre meados de 1999 e dezembro de 2003, antes de ingressar no mundo empresarial. À época, recebia um salário de R$ 600 (algo em torno de R$ 2.900, em valores atualizados). 

Reservado e avesso à exposição pública, Lulinha mantém-se próximo do pai, de quem se tornou uma espécie de sombra nos bastidores, conforme relatos de petistas próximos dos dois. Está presente em momentos importantes, tem acesso direto ao chefe do Executivo e acompanha de perto seus movimentos, embora raramente apareça diante das câmeras. Herdou também uma profunda lealdade à mãe, morta em 2017, a quem considerava “o alicerce da família”. 

A mudança de trajetória aconteceu de forma vertiginosa durante o primeiro mandato de Lula. No primeiro ano de governo do pai, Lulinha tornou-se sócio da recém-criada Gamecorp, empresa formalmente registrada por ele como produtora de conteúdo para televisão, telefonia e internet. A companhia nasceu com capital social de apenas R$ 10 mil para produzir programas de jogos eletrônicos, animes (desenhos japoneses) e aplicativos para celulares. 

Por algum tempo, houve parcerias curtas com canais, entre eles a MTV e a Band. Segundo laudos da PF baseados em registros da Junta Comercial de São Paulo, um mês depois de a empresa abrir as portas, entraram em suas contas dois depósitos de origem não identificada que, juntos, somavam R$ 5 milhões. Na mesma época, a Telemar (que viria a se chamar Oi) adquiriu 35% da Gamecorp por R$ 2,5 milhões. A operadora alegou que considerava o negócio promissor e previa retorno de R$ 16 milhões no médio prazo.

O desempenho da empresa, contudo, não acompanhou as projeções: a Gamecorp acumulou prejuízo de R$ 3,5 milhões em 2005. Ainda assim, os repasses cresceram. Entre 2004 e 2014, conforme apontaram investigações da PF e do Ministério Público Federal (MPF), a Oi transferiu R$ 132 milhões à Gamecorp e a outras empresas do grupo ligado a Lulinha e a Jonas Suassuna, sócio do filho do presidente. A Vivo repassou outros R$ 40 milhões. Para os investigadores, parte dos contratos não apresentava lógica econômica e poderia ter servido para beneficiar parentes de Lula.

Os resultados dos serviços oferecidos ajudam a explicar as suspeitas. Um dos contratos foi firmado entre a Oi e a Goal Discos, empresa de Jonas Suassuna, sócio de Lulinha, que integrava o mesmo grupo econômico da Gamecorp. A companhia fornecia aos clientes da operadora acesso ao “Portal da Bíblia”, conteúdo narrado por Cid Moreira, e recebeu cerca de R$ 30 milhões em 43 parcelas. Pelo acordo, a Oi deveria pagar à Goal R$ 600 mil por mês, independentemente da utilização do serviço. 

A PF, contudo, identificou menos de 122 mil minutos de acesso entre janeiro de 2012 e abril de 2013.

Os investigadores afirmaram ainda que, considerada a tarifa de R$ 0,115 por minuto prevista em contrato, o uso do portal justificaria repasses de aproximadamente R$ 20 mil. Para a PF, a enorme diferença entre o desempenho do produto e o valor mínimo garantido colocava em dúvida a lógica econômica do contrato. 

Outro caso citado pela PF envolveu a Nuvem de Livros, plataforma digital comercializada por uma empresa de Suassuna em parceria com a Vivo. Documentos internos registraram apenas 151 assinaturas feitas diretamente pela operadora. Em outra conferência, uma empresa intermediária informou a existência de mais de 56 mil usuários do serviço, mas somente 48 deles apareciam efetivamente cadastrados na base de dados do grupo. 

Para os investigadores, a discrepância reforçava as suspeitas de que os valores pagos não correspondiam ao uso real da plataforma. As suspeitas alcançaram também imóveis utilizados pelo filho do presidente. 

Por meio do Grupo Gol (não relacionado à empresa aérea), Suassuna pagava o aluguel mensal de R$ 12 mil do apartamento onde Lulinha vivia, nos Jardins, área nobre de São Paulo. Na época, o filho de Lula confirmou que o sócio custeava a locação, mas afirmou que havia mobiliado o imóvel e assumido outras despesas. Posteriormente, o empresário desembolsou pouco mais de R$ 4 milhões na compra e na reforma de outro apartamento de luxo na capital paulista, alugado a Lulinha por um valor que a PF considerou inferior ao preço de mercado.

As controvérsias em torno de Lulinha não se restringem aos negócios. Embora preserve a vida pessoal longe dos holofotes, o filho mais velho de Lula também ocupa posição central nas tensões da família presidencial. 

Em 2024, vieram a público áudios de WhatsApp nos quais Luís Cláudio, o filho caçula de Lula, chamou Janja de “oportunista” e de “puta”. Lulinha não repetiu publicamente o insulto, mas, segundo apurou Oeste, concordou, em conversas reservadas, com as críticas feitas pelo irmão e o defendeu nos bastidores. Para o filho mais velho do presidente, Janja afastou Lula de parte da família. A resistência à primeira-dama guarda relação também com a lealdade de Lulinha à memória da mãe.



Fábio Luís da Silva, o Lulinha, e seu pai, o presidente Lula - Foto: Montagem sobre reprodução/Redes sociais/Marcelo Camargo/Agência Brasil


Em meio a brigas familiares e ao avanço de operações da PF, como a que investiga o roubo de aposentados e pensionistas do INSS, Lulinha mudou-se para a Espanha em julho de 2025 – três meses depois de estourar o escândalo do INSS –, sem previsão de retorno ao Brasil. No país europeu, constituiu a Synapta, empresa de tecnologia sediada em Madri. A sociedade limitada, aberta em janeiro de 2026 e inscrita no mês seguinte no Registro Mercantil da capital espanhola, tem capital social de 3 mil euros — cerca de R$ 20 mil — e Lulinha como único sócio. A companhia pode prestar serviços de “consultoria técnica e informática”, além de planejar e desenvolver sistemas que integrem equipamentos, programas e tecnologias de comunicação.

A defesa de Lulinha afirmou à reportagem que a Synapta serve para Lulinha “empreender no médio ou no longo prazo”. Além disso, segundo o advogado Marco Aurélio Carvalho, do Grupo Prerrogativas, o filho do presidente mantém vínculo empregatício na Espanha, mas não revelou o nome do contratante nem as funções exercidas por ele naquele país. 

Em meio à mudança para a Europa, a então Comissão Parlamentar de Inquérito (CPMI) do INSS chegou a quebrar seus sigilos fiscal, bancário e telemático, mas o ministro Flávio Dino derrubou o ato da CPMI. As suspeitas sobre o filho do presidente surgiram a partir de pagamentos atribuídos a Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, de depoimentos prestados por pessoas ligadas ao lobista e de um envelope apreendido durante a Operação Sem Desconto contendo ingressos para um show em Brasília. 

No centro dessas descobertas estava Roberta Luchsinger, lobista e amiga de Lulinha, apontada pela PF como a intermediária entre Antunes e o filho do presidente. Próxima do poder Roberta circula há anos no entorno da família Lula. Próxima de Lulinha e da mulher dele, Renata de Abreu Moreira, a empresária acumulou registros de viagens e encontros com o casal. Quando estava em Brasília, o filho do presidente costumava hospedar-se na casa dela no Lago Sul, área nobre da capital federal. 

A convivência era tão frequente que, em uma ação trabalhista movida por uma ex-empregada doméstica, Lulinha chegou a ser descrito equivocadamente como “marido” da antiga patroa. Em outros trechos do mesmo processo, aparecia como “amigo”.

Com a volta de Lula ao Planalto, Roberta ampliou sua circulação pela máquina pública. Entre 2023 e 2024, fez pelo menos 40 visitas a ministérios e à Presidência da República. Apenas uma delas apareceu nas agendas oficiais das autoridades — apesar da obrigação de dar publicidade a esse tipo de compromisso. 

Foram 17 idas ao Ministério do Desenvolvimento Social, 15 ao Ministério da Saúde e oito ao Palácio do Planalto. Em algumas ocasiões, a lobista estava acompanhada de representantes de empresas interessadas em negócios com o governo. Essa proximidade com o poder despertou o interesse do Careca do INSS. A PF identificou pagamentos de R$ 1,5 milhão feitos por uma empresa do lobista à RL Consultoria e Intermediações, de Roberta, em cinco parcelas de aproximadamente R$ 300 mil. Naquele período, Antunes buscava espaço no governo para negócios que iam além do esquema de descontos em aposentadorias e pensões.



O filho de Lula, Lulinha, e a amiga Roberta Luchsinger - Foto: Reprodução/Redes sociais


Foi nesse contexto que Roberta aproximou o Careca do INSS de Lulinha. Em depoimento à PF, ela afirmou que o filho do presidente demonstrava interesse por medicamentos à base de cannabis porque um familiar utilizava esse tipo de produto. Segundo sua versão, o assunto levou Antunes a convidá-lo para uma viagem à Europa, em novembro de 2024. A empresária negou ter repassado a Lulinha qualquer parcela do dinheiro recebido do lobista e sustentou que os R$ 1,5 milhão remuneraram serviços efetivamente prestados por sua companhia.

O relatório final da CPMI do INSS deu dimensão ainda maior às suspeitas. O relator, deputado Alfredo Gaspar (PL-AL), atribuiu a Roberta uma “atuação estratégica” no núcleo comandado pelo Careca do INSS e afirmou que a empresa dela movimentou quase R$ 20 milhões.

O parlamentar recomendou seu indiciamento por organização criminosa, lavagem de dinheiro, corrupção passiva, falsidade ideológica e tráfico de influência. Segundo Gaspar, a atuação da lobista teria permitido que o grupo ultrapassasse as fraudes contra aposentados e tentasse infiltrar-se em outros ministérios. Roberta nega irregularidades. 

Além do oceano Lulinha não ocupa cargo público, não despacha no Planalto nem aparece com frequência ao lado do pai. Ainda assim, os negócios que o cercam demonstram uma curiosa vocação para gravitar em torno do Estado. 

Ontem, eram contratos milionários com empresas de telefonia durante os governos Lula. Hoje, são lobistas, intermediários, visitas a ministérios e interesses privados à procura de espaço na administração federal. Mudam os personagens, as empresas e as operações policiais. O método permanece o mesmo. 

Até agora, não há prova concreta de que o filho do presidente tenha participado do roubo a aposentados e pensionistas. É isso que o novo inquérito deverá esclarecer. Sua trajetória, entretanto, expõe uma recorrência incômoda: embora viva longe dos holofotes — e agora também do Brasil —, seu nome reaparece nos encontros entre dinheiro privado e poder político. Lulinha atravessou o Atlântico, mas há sombras que não se desprendem de quem as projeta. 


Cristyan Costa - Revista Oeste

Hora de enterrar o globalismo, por Brendan O'neill - da Spiked

 

Após invasão por mar e terra em Ceuta, grupo de imigrantes é reconduzido à fronteira por forças de segurança da Espanha - Foto: Reuters/Jon Nazca


P odemos agora chamar de “invasão”? Que outra palavra existe para descrever a incursão turbulenta de dezenas de milhares de homens jovens no território soberano de uma nação estrangeira? Nem o esquerdista mais piegas, com seu keffiyeh esfarrapado e sua camiseta com os dizeres “Refugees Welcome” (“Refugiados, sejam bem-vindos”), ousaria chamar de “busca de asilo” a invasão de uma nação independente por uma manada de baderneiros. Talvez esse seja o único lado positivo dos eventos extraordinários em Ceuta: a morte, finalmente, do eufemismo — já não se pode pintar como “benevolência” o abandono suicida das fronteiras do Ocidente. As cenas vindas do enclave espanhol no extremo norte da África são estarrecedoras. Estima-se que 49 mil pessoas — na maioria marroquinos, na maioria homens — tenham invadido sem cerimônia o território do Reino da Espanha. 

É aproximadamente o mesmo número de pessoas que chegam de barco ilegalmente à Grã-Bretanha em um ano. Eles escalaram os portões da fronteira e atropelaram os encarregados de proteger as terras espanholas. Vídeos que viralizaram mostram homens dando socos no ar enquanto se espalham pelo território, visivelmente entusiasmados com a incursão num Estado soberano. Até a imprensa espanhola sente a morte do eufemismo. “Ceuta, invadida”, estampa a capa do ABC, jornal de referência, ao lado da imagem de milhares de homens desfilando pela praia. 


Cerca de 49 mil pessoas, em sua maioria homens marroquinos, cruzam a fronteira e invadem o enclave espanhol de Ceuta - Foto: Reproudução/US Home Securit

a em massa de Ceuta conseguiu concentrar as atenções até da tragicamente apática classe dominante espanhola. Todos os partidos de Ceuta, de direita e esquerda, pediram a Madri que enviasse o exército para reforçar a fronteira com o Marrocos. O premiê espanhol Pedro Sánchez prometeu uma “resposta imediata”. Mas, ainda que os espanhóis consigam domar essa terrível crise que acomete seu Estado soberano, é preciso que as lições da catástrofe reverberem não só na Espanha, mas em toda a Europa. Pois a queda de Ceuta expõe a tensão letal do globalismo. Ela escancara a destruição caótica da soberania, da democracia e do nosso próprio modo de vida que o globalismo e seus acólitos de colarinho dourado provocaram. 

A invasão de Ceuta despedaça as falsas narrativas da esquerda. Durante anos, os “progressistas” ludibriaram o público, insistindo que os homens que cruzam ilegalmente nossas fronteiras são “pessoas vulneráveis” em “busca de asilo”. Como o Big Brother, esperavam que ignorássemos as evidências diante dos nossos olhos e ouvidos e aceitássemos que esses insolentes da Eritreia ou do Afeganistão são grandes vítimas da miséria, carentes do nosso amor, do nosso cuidado e de abrigo em hotéis quatro estrelas. Ceuta desmonta essa mentira. O mundo inteiro pôde ver que praticamente não havia mulheres e crianças nessas hordas. O mundo inteiro sabe que o Marrocos não é devastado por guerra e fome. De agora em diante, toda menção ao termo “requerente de asilo” deve provocar um ceticismo sonoro e indignado. 

A crise de Ceuta também confirma que a covardia moral do Estado moderno é como um pano vermelho para atores hostis. É inegável que a maluquice da concessão de asilo a imigrantes ilegais por parte de Pedro Sánchez encorajou esses marroquinos a desaguar numa benevolente Espanha. Em janeiro deste ano, Sánchez driblou o parlamento e editou um decreto real para regularizar praticamente todos os “imigrantes sem documentação” em território espanhol. Quase 1,2 milhão de ilegais se candidataram a esse status regularizado, que lhes daria o direito de residir e trabalhar na Espanha, desfrutar de acesso irrestrito à saúde e à educação do país. 


Pedro Sánchez, primeiro-ministro da Espanha - Foto: Shutterstock


O ato monárquico de Sánchez que deu à luz quase um milhão de “neoespanhóis” foi uma insanidade desastrosa. Ao liberar o acesso a direitos de residência e serviços públicos a estrangeiros que entraram ilegalmente no país, ele apagou a própria definição de “espanhol”. Qualquer um, de qualquer lugar, pode ter o que você tem — no fundo, essa foi a ordem autoritária que ele impôs ao povo da Espanha. E acendeu um enorme sinal verde para que forasteiros tentassem a sorte contra seu regime frouxo. O resultado: 50 mil norte-africanos aceitaram seu convite imbecil e irresponsável para fazer a Espanha de gato e sapato. 

A crise de Ceuta é o fruto podre desse culto da morte chamado globalismo. Uma combinação tóxica de paralisia institucional e sequestro ideológico pelo delírio globalista fez com que nossos líderes abandonassem deliberadamente o primeiro dever do Estado: proteger seu território de agentes externos. O espírito de resignação diante da crise nas nossas fronteiras é estarrecedor e deprimente. Na Espanha, na Grã-Bretanha, na França, na Alemanha, ecoa o lamento: “não há nada que possamos fazer para deter a chegada diária de incontáveis homens de países estrangeiros”. O fatalismo é impressionante. Não há momento comparável na história, com exceção das guerras, em que Estados-nação tenham entregado seu território a agentes estrangeiros com tamanha subserviência.


A crise de Ceuta reflete o fracasso do globalismo e revela a inércia do Estado em proteger suas fronteiras - Foto: REUTERS/Jon Nazca.


Também na Grã-Bretanha, a soberania duramente conquistada da nossa nação foi sacrificada no altar do globalismo. Na última semana de julho, 1.487 pessoas, na maioria homens, chegaram ilegalmente em pequenos barcos. E o que está fazendo nosso novo primeiro-ministro, Andy Burnham? Comendo torresmo e falando pelos cotovelos sobre a banda The Smiths. Isso é doentio. Cada líder da história britânica, cada um dos nossos ancestrais, consideraria isso um desastre, uma calamidade que estrangula a dignidade da nação e a segurança do seu povo. E ainda assim nos dizem para encarar tudo como normal, ou pelo menos inevitável, inerente à vida num mundo globalizado. Resistir à apatia perigosa dos nossos governantes, à sua inércia letal quanto à integridade soberana da nação, é a missão mais urgente do nosso tempo. 

Não se enganem: o abandono das nossas fronteiras pelos governantes é um ataque direto a nós. Eles estão essencialmente dizendo que não há nada no modo de vida espanhol ou no modo de vida britânico que valha a pena defender. Seu país, suas comunidades, sua história, sua cidadania, seu Estado de bem-estar social. Para eles, essas coisas são insignificantes de tal modo que nem vale a pena erguer uma cerca ao redor para protegê-las de invasores. O que as elites globalistas vendem como bondade para com os estrangeiros é, na verdade, um ataque selvagem aos direitos e à dignidade dos cidadãos. Chega. Parem os barcos. Fortifiquem as fronteiras. Salvem a nação desses niilistas em pele de altruístas.


Brendan O’Neill é repórter-chefe de política da Spiked e apresentador do podcast The Brendan O’Neill Show, também da Spiked. Seu novo livro, After the Pogrom: 7 October, Israel and the Crisis of Civilisation, foi lançado em 2024. Brendan está no Instagram: @burntoakboy

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Ex-presidiário Lula, condenado a mais de 30 anos de cadeia, como corrupto, teve 113 reuniões com Marcola, que recebeu dinheiro de lobista ligada a Lulinha, filho do larápio

 

Marcola trabalha há anos com o descondenado  Lula


O PT não consegue descolar Lula de Marcola, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o ex-chefe de gabinete do petista durante quase todo o atual mandato e demitido da campanha lulista após a Polícia Federal descobrir vultosos depósitos na conta do auxiliar oriundos de Roberta Luchsinger, alvo da investigação sobre o roubo ao INSS. Marcola se reuniu ao menos 113 vezes com Lula no Planalto, Alvorada e Granja do Torto, conforme levantamento feito pela coluna nos registros da agenda presidencial.

Às escuras?

O número pode ser maior, já que Lula costuma ter encontros fora da agenda, como as reuniões com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

Descobriu, caiu

A grana foi “empréstimo”, diz Marcola, que admitiu levar R$249 mil. Ele deixou a chefia de gabinete em julho e partiu para cargo na campanha.

Olha o Careca aí

Roberta é amicíssima de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. A PF apura se a dupla cometeu atos de corrupção atuando para o “Careca do INSS”.

Cargo com poder

Como chefe o gabinete de Lula, um dos cargos mais poderosos do Planalto, entre janeiro/23 e junho/26, Marcola ganhava R$32 mil por mês.

Diário do Poder

Lula teve 113 reuniões com Marcola, ligado a lobista

 


Marcola trabalha há anos com Lula


O PT não consegue descolar Lula de Marcola, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o ex-chefe de gabinete do petista durante quase todo o atual mandato e demitido da campanha lulista após a Polícia Federal descobrir vultosos depósitos na conta do auxiliar oriundos de Roberta Luchsinger, alvo da investigação sobre o roubo ao INSS. Marcola se reuniu ao menos 113 vezes com Lula no Planalto, Alvorada e Granja do Torto, conforme levantamento feito pela coluna nos registros da agenda presidencial.

Às escuras?

O número pode ser maior, já que Lula costuma ter encontros fora da agenda, como as reuniões com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

Descobriu, caiu

A grana foi “empréstimo”, diz Marcola, que admitiu levar R$249 mil. Ele deixou a chefia de gabinete em julho e partiu para cargo na campanha.

Olha o Careca aí

Roberta é amicíssima de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. A PF apura se a dupla cometeu atos de corrupção atuando para o “Careca do INSS”.

Cargo com poder

Como chefe o gabinete de Lula, um dos cargos mais poderosos do Planalto, entre janeiro/23 e junho/26, Marcola ganhava R$32 mil por mês.



Diário do Poder