Ao interferir no debate da Globo, Judiciário pode ter dado a Flávio o argumento que
faltava para reta final
'Gilmar é um dos conhecidos portos seguros das ações judiciais que afetam Lula no STF', escreve Pedro Henrique Alves | Foto:
Divulgação/Oeste
Quinta-feira foi um dia ímpar para a política no Brasil. Após Gilmar
Mendes mudar as diretrizes da Globo para encaixar Renan Santos no
debate, e Estela Aranha, juíza do TSE, proibir que Lula fosse
questionado e que a emissora carioca deixasse o seu púlpito vazio no
estúdio, os céticos e moralmente míopes que até então diziam que as
interferências judiciais nas eleições para favorecer Lula não passavam
de uma conspiração, finalmente puderam constatar o óbvio por meio do
maior canal televisivo do país. E o melhor, com os seus próprio olhos.
Gilmar é um dos conhecidos portos seguros das ações judiciais que
afetam Lula no STF. Há tempos que nem mesmo o mais aguerrido
jornalista esquerdista consegue negar isso. Estela, por sua vez, desde
antes de receber o cargo no TSE, se assumia publicamente como lulista
‒ temos até vídeo a esse respeito, segura a censura, Moraes. Não
entrarei na obviedade que Estela e Gilmar envergam até na alma aquilo
que todos os juízes jamais deveriam ser: parciais. E nem choverei no
molhado ao dizer que a democracia acaba quando tribunais superiores
favorecem candidatos determinados. Respeito demais a inteligência de
quem está lendo.
Fato é que o negócio foi tão escrachado, desesperado e imprudente que
até mesmo os jornalistas de esquerda ficaram espantados. Algo como:
“Orra… mas nem disfarçaram desta vez”. Pois é, não disfarçaram. As
decisões de Mendes e Aranha foram claras demais para que a já batida
“defesa da democracia” fosse o suficiente para convencer meia dúzia de
desavisados. E por isso mesmo julgo que o grande revés da esquerda,
pós quinta-feira, está na derrocada da narrativa principal. Está mais do
que claro que não é “pela democracia”, e sim por Lula.
Tribunais jogam para Lula
Isso porque falar de imparcialidade eleitoral dos ministros virou papo
de maluco; hoje TSE e STF estão para a imparcialidade tal como os
bordéis estão para a castidade. Temo que a grande mídia não
conseguirá mais embalar o argumento de que eles estão aí para
garantirem a democracia e a lisura eleitoral. Não cola mais. A reboque,
o Judiciário conseguiu dar razão a pelo menos três das principais teses
da campanha de Flávio Bolsonaro: 1. Estamos sob uma ditadura do
Judiciário; 2. O Judiciário trabalha em prol de Lula; 3. Logo, a ação
seguinte de uma população minimamente sensata é se unir contra a
esquerda e o sistema.
Além disso, Flávio Bolsonaro sofria para se vender como o candidato
que defenderia a liberdade de expressão em suas múltiplas
subdivisões, mas foi justamente a imagem do “Flávio defensor de
liberdades” que STF e TSE, sem querer, ajudaram a desenhar no
imaginário popular depois de quinta-feira. Era Flávio ‒ ainda na quinta
‒ quem defendia a liberdade de imprensa da Globo, enquanto a
esquerda, entre calados e “veja como isso é bom”, brigava para enfeitar
o cocô de Gilmar e Estela. Talvez, ao final, o tiro tenha saído pela toga.
A ditadura do Judiciário
Afinal, antropologicamente, o sentimento popular tende a se envergar
para apoiar os injustiçados. Ao protegerem Lula, os juízes deixaram a
sensação imediata de que o sistema ‒ o mesmo sistema que ninou
Vorcaro em peitos fofos ‒ quer que Lula se mantenha no poder a todo
custo.
Para os ainda lúcidos, o Judiciário tornou a escolha de domingo mais
fácil. Se até há poucos dias uma resistência moral, política e até mesmo
ideológica se interpunha entre parte da população e Flávio, acredito
que Gilmar e Estela arranjaram um porquê de vencê-la.
Muitos colegas
de redação vêm apurando um movimento que eu mesmo confirmo por
minhas vias: eleitores de Caiado, Zema, Cury e até alguns de Renan,
vêm dizendo que depois da pataquada na Globo eles iriam apoiar Flávio
já no primeiro turno.
Se tivesse um jogo do bicho para presidentes ‒ já que Lula recém
descobriu que as bets são do capeta ‒, apostaria com força num maciço
crescimento de Flávio na votação de domingo. E se é minimamente
verdade que o povo não é trouxa, então agora ele sabe quem é o
candidato do sistema, o que tal sistema faz para proteger os seus, e por
que ele apoia Lula.
Pedro Henrique Alves - Revista Oeste