Lula usou desfile como palanque e o TSE nada viu de errado onde
tudo de errado havia
Janja, Eduardo Paes, Lula e Geraldo Alckmin na Marquês de Sapucaí - Foto: João Salles/Riotur
A
queda da Acadêmicos de Niterói para a segunda divisão do
Carnaval carioca coroou um desfile de absurdos e
ilegalidades. A folia dos descarados teve como abre-alas uma
peça de propaganda eleitoral explícita, incluiu alas de
ofensas e mentiras, contou com a harmonia de uma Corte que sempre
se une para tomar a decisão errada e acabou atravessando o samba da
sensatez e da decência. O último lugar só seria mais simbólico se as
escolas de samba participantes fossem 13, e não as 12 atuais.
Advertido por ex-colaboradores, por integrantes do próprio governo e
pelo bom senso, Lula, acostumado a ouvir somente a própria voz,
achou uma boa ideia transformar a Sapucaí em palanque. O Tribunal
Superior Eleitoral (TSE) nada viu de errado onde tudo de errado havia.
O Brasil decente foi tratado como vilão pela turma da pilantragem. Foi
um liberou geral.
Em 2022, poucos dias antes da eleição da qual o então candidato Luiz
Inácio Lula da Silva sairia como vencedor sobre o presidente Jair
Bolsonaro, o TSE decidiu censurar previamente um documentário da
produtora Brasil Paralelo, atendendo a um pedido do Partido dos
Trabalhadores (PT). A produção Quem Mandou Matar Jair Bolsonaro?,
que fazia parte da série Investigação Paralela, foi proibida de ir ao ar
até 31 de outubro, um dia depois do segundo turno, sob pena de uma
multa diária de R$ 500 mil. Os ministros do TSE consideraram que o
documentário — a que eles nem sequer assistiram — apresentava
elementos de “desordem informacional”.
A proibição foi determinada antes mesmo de o documentário ser
finalizado. Entre os votos, destacou-se o da ministra Cármen Lúcia. A
magistrada reconheceu que a Constituição e a jurisprudência do
Supremo Tribunal Federal (STF) vedam qualquer forma de censura
prévia. Ainda assim, sustentou que, naquele caso específico, a regra
poderia ser flexibilizada. “É um caso extremamente grave, porque de
fato temos uma jurisprudência do STF, na esteira da Constituição, no
sentido do impedimento de qualquer forma de censura”, afirmou. Na
sequência, porém, defendeu a suspensão da exibição até 31 de
outubro, “para que não haja o comprometimento da lisura, da higidez, da segurança do processo eleitoral e dos direitos do eleitor”. A censura
não deixaria de ser censura — apenas ganharia prazo de validade.
Cármen Lúcia preza tanto a incoerência quanto as frases de efeito. Em
mais de uma ocasião, utilizou o dito popular “cala-boca já morreu”
para defender a liberdade de expressão. Ao votar pela
responsabilização das redes sociais por conteúdos publicados, viu a
necessidade de “impedir que 213 milhões de pequenos tiranos
soberanos dominem os espaços digitais no Brasil”, incluindo aí bebês
de colo e excluídos digitais em geral.
Quase quatro anos depois do episódio da Brasil Paralelo, já na
presidência do TSE, Cármen Lúcia invocou o mesmo argumento
constitucional — a vedação à censura prévia — para liberar o que pode
se tornar o mais explícito caso de propaganda antecipada já registrado
no sistema eleitoral brasileiro: o desfile em homenagem a Lula
promovido pela Acadêmicos de Niterói.
Ao rejeitar duas liminares que pediam a condenação do petista e da
escola de samba por infração eleitoral, a ministra afirmou, mais uma
vez, que a censura prévia é vedada pela Constituição. “Estaríamos
antecipando o que, tudo indica, acontecerá”, declarou, referindo-se ao
desfile. “E, diferentemente de outros casos que tivemos, como em 2022, tínhamos algo que estava para ser posto no ar. E consideramos
configuração de propaganda eleitoral.”
Ao contrário do que argumentou a magistrada, a escola de samba
nunca escondeu o subtom eleitoral da “homenagem”. No vídeo oficial
do samba-enredo, publicado há cerca de três meses, imagens de Lula
em vários momentos da vida política são intercaladas com imagens
dos intérpretes do jingle eleitoral disfarçado de samba-enredo.
Com a decisão do TSE, o desfile ocorreu normalmente. O sambaenredo Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil
foi marcado por exaltações ao presidente e críticas diretas a
adversários. A apresentação surpreendeu negativamente até quem já
esperava o pior. O conteúdo foi ainda mais explícito, mais direto e sem
qualquer disfarce ou pudor.
Bajulação bancada com dinheiro público
\Em períodos menos polarizados e com menor protagonismo do
Judiciário na arena política, o Carnaval frequentemente abrigava
críticas bem-humoradas ao governo — e até jingles associados a
líderes, como ocorreu com Getúlio Vargas e a marchinha O Retrato do
Velho. As músicas, no entanto, eram consideravelmente bem mais
contidas que o samba-enredo que homenageou Lula.
A Acadêmicos de Niterói recebeu R$ 1 milhão do governo federal por
meio de acordo de colaboração entre a Liga Independente das Escolas
de Samba do Rio de Janeiro (Liesa) e a Embratur, entidade vinculada
ao Ministério do Turismo. O repasse integra um conjunto mais amplo
de recursos públicos destinados às escolas do Grupo Especial.
Segundo ação apresentada ao Tribunal Superior Eleitoral pelo partido
Novo, a agremiação pode ter contado com até R$ 9,6 milhões
provenientes de diferentes esferas de governo. Desse total, R$ 4
milhões teriam sido repassados pela Prefeitura de Niterói, R$ 2,5
milhões pelo governo do Estado do Rio de Janeiro e R$ 2,1 milhões
pela prefeitura do Rio. Os valores foram transferidos por meio de
contratos firmados com a Liesa, responsável pela organização do
carnaval.
No total, a Liesa recebeu quase R$ 78 milhões em recursos públicos:
R$ 12 milhões da Embratur, R$ 40 milhões do governo estadual e R$
25,8 milhões da prefeitura carioca. Parte do montante permaneceu
com a entidade, e o restante foi distribuído entre as 12 escolas do
Grupo Especial.
Campanha explícita
Primeira escola a entrar na avenida, a Acadêmicos encerrou sua
apresentação às 23h32, dentro do limite regulamentar de 80 minutos.
Lula acompanhou o desfile do camarote da Prefeitura do Rio de
Janeiro, ao lado da primeira-dama Rosângela Lula da Silva, a Janja,
ministros e aliados, como o prefeito Eduardo Paes (PSD). Em
determinado momento, deixou o camarote e desceu à pista para
interagir com integrantes da agremiação.
Henrique
\GUARDEM ESTE VÍDEO!
LULA PARTICIPOU DO DESFILE!
Este vídeo certamente será
censurado nas eleições!
E ainda dirão que é "fake news"
ou "desordem informacional"!
LULA INELEGÍVEL!
Logo na comissão de frente, o impeachment de Dilma Rousseff foi
encenado como um “golpe”, com Michel Temer tomando a faixa
presidencial. Em seguida, Lula apareceu atrás das grades, em
referência à prisão pela Operação Lava Jato, enquanto Jair Bolsonaro
surgia caracterizado como o palhaço Bozo, recebendo a faixa
presidencial.
No quarto carro alegórico, o personagem do palhaço reapareceu, agora
vestido com uniforme prisional e tornozeleira eletrônica danificada — referência à prisão de Bolsonaro por suposta tentativa de golpe de
Estado.
O refrão do samba-enredo trouxe o tradicional grito “Olê, olê, olê, olá /
Lula, Lula” e incluiu o verso “Sem mitos falsos, sem anistia”.
Integrantes da escola também realizaram o gesto do “L” durante a
apresentação, inclusive o mestre de bateria, ainda que a orientação
interna fosse evitar manifestações explícitas. A letra faz alusão
também ao número do PT ao afirmar que Lula percorreu “treze noites,
treze dias” na migração para São Paulo — referência numérica direta
em pleno ano eleitoral.
A ala “Neoconservadores em conserva” ironizou setores identificados
como oposição ao presidente, incluindo representantes do
agronegócio, supostos defensores da ditadura militar, mulheres de
classe alta e grupos religiosos evangélicos. Outras alas exibiram
fantasias com estrelas — símbolo do PT — e alusões ao presidente dos
Estados Unidos, Donald Trump.
Henrique
O DESFILE DE LULA
Debochou da família
Debochou de Bolsonaro
Debochou dos evangélicos
Debochou dos conservadores
Debochou dos presos políticos
Debochou do pagador de impostos
Debochou de todo cidadão honesto
Esse DESFILE ELEITORAL foi um tapa na cara de todo
brasileiro de bem!
Um desfile fracassado
Segundo o jornalista Lauro Jardim, de O Globo, a avaliação interna no
Palácio do Planalto e no próprio PT é de que o desfile representou um
revés político. A leitura se baseia em pesquisas internas e no
monitoramento de redes sociais. Em vez de fortalecer a narrativa
favorável ao presidente, a apresentação teria potencializado críticas e
impulsionado uma sequência de memes que ampliaram justamente o
ponto que pretendia satirizar.
Não foi por falta de aviso. O alerta veio de colaboradores como o
secretário de Comunicação Social do governo, Sidônio Palmeira, e o
advogado-geral da União, Jorge Messias. Até mesmo João Santana, exmarqueteiro e ex-guru de Lula, responsável pela campanha à
presidência em 2006 e condenado pela Lava Jato por lavagem de
dinheiro — pena anulada pelo STF —, foi um dos tantos que tentaram
chamar a atenção do presidente para o previsível desastre. “Carnaval
se presta mais para demolição do que para construção de imagem de
político”, lembrou.
O desfile da Acadêmicos de Niterói está levando Lula e Janja a fazer uma aposta
muito arriscada. O que vocês acham disso?
#carnaval #lula #janja #eleições2026 #política
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A percepção de gol contra ganhou força especialmente com a ala que
colocou a “família tradicional” dentro de uma lata de conserva.
Milhares de usuários passaram a compartilhar fotos de suas próprias
famílias em latas estilizadas, acompanhadas de frases como
“conservados por Jesus Cristo”. Nos bastidores, o episódio passou a
ser tratado como símbolo do constrangimento, sobretudo porque o
governo tem buscado aproximação com o eleitorado evangélico,
segmento em que Lula enfrenta resistência.
Família em conserva: bem guardada, bem cuidada e cheia de amor. ❤️🥫
Porque o que é precioso a gente preserva.
Validade: eterna 💛
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A desfaçatez é tamanha que o Palácio do Planalto estuda a
possibilidade de recorrer ao TSE. Sidônio Palmeira afirma que está
havendo impulsionamento de postagens por parte de parlamentares e
partidos ligados à bancada evangélica para criar um falso debate, o
que considera “crime eleitoral”. Segundo ele, “é preciso ter respeito à
fé, algo que Lula sempre demonstrou ter”.
Mas a repercussão no ambiente digital foi além do ataque pífio às
famílias. Usuários passaram a produzir vídeos com auxílio de
inteligência artificial para ironizar o enredo da Acadêmicos de Niterói.
O governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), publicou uma
montagem simulando uma “homenagem honesta” a Lula, com
referências a episódios de corrupção.
E se o Lula recebesse uma homenagem sincera nesse carnaval? Seria mais ou
menos assim… A folia dos descarados
Outra peça viralizou ao retratar, também por meio de IA, um desfile
fictício da “G.R.E.S. do Tayayá”, com alegorias que remetiam a
controvérsias envolvendo o ministro Dias Toffoli.
Políticos da oposição anunciaram medidas contra o desfile, que
classificaram como propaganda eleitoral antecipada. O governador de
São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), afirmou que elementos
tradicionais do Carnaval, como sátira, crítica e pesquisa histórica,
foram substituídos por mensagens políticas explícitas. Ele mencionou
a presença de referências a jingles e bandeiras associadas a campanhas eleitorais. Da mesma forma, destacou o que chama de
instrumentalização política do evento.
Ao menos 12 medidas judiciais foram anunciadas contra o desfile. As
ações da oposição devem alegar propaganda antecipada, abuso de
poder político e econômico, uso indevido de recursos públicos e
discriminação religiosa. O Novo informou que pretende pedir a
inelegibilidade de Lula após o registro oficial da candidatura,
enquanto o PL anunciou que adotará “providências cabíveis”,
incluindo ação de investigação judicial eleitoral e pedido de abertura
das contas da escola no TSE. O senador e pré-candidato à Presidência
Flávio Bolsonaro (PL-RJ) também declarou que ingressará com ação
contra o que classificou como “crimes do PT na Sapucaí com dinheiro
público”.
Duplo padrão explícit
Em nota, o PT afirmou que o desfile da Acadêmicos de Niterói
constitui manifestação típica da liberdade de expressão artística
assegurada pela Constituição. A sigla declarou que a concepção e
execução do enredo ocorreram de forma autônoma pela escola, “sem
participação, financiamento, coordenação ou ingerência” do partido
ou de Lula. Citou precedentes do STF e do TSE para sustentar que
manifestações culturais espontâneas não configuram propaganda
eleitoral antecipada sem pedido explícito de voto. A Secretaria de
Comunicação Social da Presidência disse que o governo não interferiu
na escolha do enredo e que os ministros foram orientados a não
desfilar. Janja desistiu da participação, enquanto a Advocacia-Geral da
União recomendou presença apenas em agenda privada, sem uso de
recursos públicos.
O discurso contrasta com a memória recente do próprio partido. Em
2006, o PT ingressou na Justiça para tentar impedir o desfile da escola
Leandro de Itaquera, que exibiu bonecos de José Serra e Geraldo
Alckmin, do PSDB, então adversários de Lula. O argumento era de
promoção pessoal com uso de dinheiro público — ainda que também
se tratasse de manifestação carnavalesca e sem pedido explícito de
voto. A Justiça manteve o carro alegórico.
Horas depois do desfile da Acadêmicos de Niterói, um boneco de Lula
foi visto tombado, sendo arrastado no asfalto da Sapucaí. A cena
oferece uma metáfora involuntária de um governo com índices de aprovação em declínio, recordes negativos e pesquisas eleitorais cada
vez mais desfavoráveis, que luta para se manter de pé. Porém, assim
como a alegoria, apenas cai.
Eduardo Bolsonaro - No final o bem vencerá o mal.
Rachel Diaz - Revista Oeste