sábado, 19 de setembro de 2026

'Com a devida vênia, Moraes, prefiro acreditar em meus olhos', por Pedro Henrique Alves

 A crise no STF mostra como o juridiquês pode ser usado para tentar negar ao cidadão aquilo que seus próprios olhos já enxergaram


Ministro Alexandre de Moraes, do STF | Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil 

Tenho a profunda convicção de que o homem comum possui uma qualidade que a academia e a mídia têm se esforçado para invalidar: a percepção sã e inata da verdade. 

Converse com o seu João do bar do Dito, a Creuza, costureira de Osasco, ou a dona Sônia, cuidadora de idosos em Santana de Parnaíba, e todos eles vão ser crus, diretos e essencialmente corretos sobre temas complexos como o aborto, a teoria de gênero, a maioridade penal ou o foro privilegiado. Não que a realidade seja simplória e fácil, que tudo se explique por uma observação de senso comum e sem aprofundamento. 

Eu sei que, muito possivelmente, o seu Geraldo, marceneiro, não conseguiria explicar como se deu a construção química e física de um carvalho-alvarinho, nem como se dá o ciclo das gimnospermas; porém, é certo que ele saberá construir uma cadeira de eucalipto ou uma cômoda de tauari, e um móvel também é um fato. Da mesma maneira, uma parteira anciã do Cariri não sabe o que é formação do blastocisto ou etapa da organogênese, porém sabe que, inevitavelmente, se nasce homem ou mulher ‒ ainda que intelectuais do porte de Judith Butler e Simone de Beauvoir não concordem.

O que eu quero dizer é que, na modernidade, tornou-se comum utilizarse de muita informação, emplastros intelectualoides, microscópios ideológicos e verborragias retóricas para transformar fatos em mentiras; e mentiras, em fatos. Fico imaginando, por exemplo, quanta retórica, quantas estatísticas e quanto financiamento da Fundação Ford foram necessários para que mulheres julgassem que seus úteros e suas casas eram prisões e que cargos altos e ansiolíticos caros eram sinônimos de liberdade. Enfim, deixe-me chegar ao meu ponto.


Sede do Supremo Tribunal Federal | Foto: Divulgação/STF


Durante os últimos meses, em especial nas últimas duas semanas, estamos assistindo à orgia corrupta em nosso Judiciário. As mensagens reveladas pelo ministro André Mendonça, principalmente concernentes ao ministro Alexandre de Moraes e ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, não mostram outra coisa senão favorecimento ilícito e advocacia paralela em prol de um banqueiro. Pelo menos um ministro do Supremo Tribunal brasileiro e o diretorgeral da principal polícia do Estado parecem ter sido literalmente comprados para exercer influência e servir de escudo a um mafioso. 

Conquanto não surjam evidências absurdamente esclarecedoras de Moraes e Andrei que expliquem ou desmintam os próprios técnicos da Polícia Federal, conclui-se que ‒ assim como disse o ministro Fux ‒ o Brasil tem hoje uma PF paralela a serviço de um ministro possivelmente corrupto, o que, a reboque, leva-nos a concluir que também tínhamos um STF paralelo.

Partindo do pressuposto — mais do que provado — de que as mensagens apresentadas por André Mendonça são verdades periciáveis e duras o suficiente, os fatos não precisam de mais lupas, teses e descortinamentos além dos que já existem para se chegar a uma conclusão. O povo não conhece o Regimento Interno do STF, mas sabe quanto mede um safado e qual é o cheiro moral de um corrupto. O brasileiro comum entendeu plenamente que Moraes servia a interesse paralelos, seja no Inquérito das Fake News, seja em outros. 

Que, junto à sua esposa, exercia advocacia para um banqueiro que mantinha contratos milionários injustificáveis. Parece mais do que claro, basta ver, que Moraes era o consultor de luxo de Vorcaro, a quem, em suas próprias palavras, ele “devia a sua vida”.  

O que vimos na última terça-feira ‒ isto é, eu, você, dona Neide e seu Bastião ‒, o julgamento-picadeiro, foi mais uma tentativa dessa ala apodrecida do Estado brasileiro de defender o indefensável, de purpurinar o cocô, de esconder, sob camadas grossas de retórica, juridiquês e até mesmo de um clamor por uma ética mais mafiosa, as vergonhas morais e as verdades fedorentas da Corte máxima deste país. Gilmar Mendes, Zanin e Moraes atualizam aquilo que deveria ser apenas uma linha da comédia de Chico Marx, o comediante norteamericano que, em 1933, no filme O Diabo a Quatro, eternizou a frase: Who are you going to believe, me or your own eyes?. “Em quem você vai acreditar, em mim ou nos seus próprios olhos?”

Homens e mulheres comuns, vocês não são loucos, burros ou alienados. Como dizia Sebastião Freitas a Simão Bacamarte em O Alienista: “Quem nos afirma que o alienista não é o alienado?”. Quem nos assegura hoje que os verdadeiros golpistas não são os que deveriam ser os guardiões da Constituição?

Enfim… Confie em seus olhos.


Pedro Henrique Alves - Revista Oeste

Frente Parlamentar Católica repudia falas de Lula sobre celibato e ordenação de mulheres

Diálogo entre o poder público e as religiões exige respeito à autonomia de cada confissão, diz deputado


Presidente da Frente Parlamentar, deputado Luiz Gastão. (Foto: Diário do Poder).

A Frente Parlamentar Católica da Câmara dos Deputados divulgou nesta sexta-feira (18) nota de repúdio às declarações de Lula (PT) sobre o celibato sacerdotal e a ordenação de mulheres na Igreja Católica. O texto, assinado pelo presidente da frente, deputado Luiz Gastão (PSD-CE), foi publicado no Instagram do grupo parlamentar.

As falas de Lula ocorreram na quarta-feira (16), em encontro no Palácio do Planalto com pastores brasileiros e norte-americanos da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito. Na ocasião, o presidente, que se declara católico, afirmou ter dito ao papa Francisco que a Igreja Católica “passaria dificuldades” enquanto mantivesse o celibato e não permitisse que mulheres fossem padres e bispas. Ele relacionou o crescimento evangélico no Brasil à “igualdade de condições” dada às mulheres nessas igrejas.

“Enquanto a Igreja Católica não acabar com o celibato e permitir que as mulheres possam ser padres, bispas, a gente vai ver a Igreja Católica passar dificuldades. Essa é uma vantagem que a igreja evangélica tem. As mulheres são tratadas em igualdade de condições”, declarou Lula.

O que diz a nota
Na nota, a Frente Parlamentar Católica afirma repudiar as declarações “a respeito de aspectos próprios da vida, da disciplina e da constituição sacramental da Igreja Católica”. O texto reconhece o valor do diálogo entre o poder público e as religiões, mas afirma que esse diálogo exige respeito à autonomia de cada confissão.

“Questões como o ministério ordenado e o celibato sacerdotal pertencem à vida e à tradição da Igreja Católica e possuem fundamentos teológicos, sacramentais e eclesiológicos que não podem ser reduzidos a uma comparação de funções ou modelos organizacionais”, diz o documento.

A frente argumenta que o Estado laico existe para garantir a liberdade religiosa, e não para que autoridades indiquem como cada tradição deve organizar sua vida interna. “Autoridades públicas podem e devem dialogar com as religiões, mas esse diálogo precisa respeitar a identidade, a doutrina e a autonomia de cada tradição religiosa”, afirma a nota.

Contexto das declaraçõesNo mesmo encontro, Lula criticou o uso eleitoral de templos e disse que se recusa a fazer campanha em igrejas, católicas ou evangélicas. A reunião ocorre em ano eleitoral, com disputa pelo voto religioso. Dados do Censo 2022 indicam 56,7% de católicos e 26,9% de evangélicos no país.

Na doutrina católica, a ordenação sacerdotal é reservada a homens, posição reafirmada pelo Vaticano como definitiva. O celibato é disciplina da Igreja latina, com exceções em ritos orientais católicos, nos quais homens casados podem ser ordenados. Até a divulgação da nota parlamentar, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) não havia se pronunciado especificamente sobre a fala.
O Palácio do Planalto não havia respondido publicamente à nota da frente até a publicação desta matéria. Aliados do presidente, como o presidente do PT, Edinho Silva, tentaram contextualizar as declarações como opinião pessoal e como parte de uma relação histórica de Lula com setores da Igreja.

Diário do Poder

O covil do Lula e o ‘Batom na cueca’: Foto mostra Vorcaro fumando charuto e bebendo uísque com Paulo Gonet em Londres

Flagrante confirma a proximidade do procurador-geral da República com banqueiro fraudador



A foto foi enviada a Vorcaro pelo próprio Paulo Gonet, por meio do advogado do investigado pela maior fraude financeira da História.


Mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, pela Polícia Federal revelam uma foto do procurador-geral da República, Paulo Gonet, ao lado do banqueiro em uma confraternização em Londres. Na imagem, Vorcaro aparece sentado próximo a Gonet, que segura um charuto, diante de uma mesa com copos de uísque.

A foto foi encaminhada em 19 de junho de 2025 pelo advogado Ciro Soares, ex-defensor do Master, acompanhada da mensagem “PG me mandou” — referência às iniciais de Paulo Gonet. A Procuradoria-Geral da República confirmou a autenticidade da imagem, mas se recusou a comentar. A pessoas próximas, Gonet afirmou que o encontro ocorreu em abril de 2024 e que a foto não demonstra intimidade com o banqueiro.

A fotografia, revelada em reportagem dos jornalistas Eduardo Gonçalves e Thiago Bronzatto, de O Globo, faz parte do relatório da PF tornado público pelo ministro André Mendonça, do STF, há cerca de duas semanas. Dessa farra com uísque Macallan e charutos participaram ao menos três ministros do  Supremo Triunal Federal (STF), incluindo Alexandre de Moraes, além de ministros do Superior Tribunal de Justiça (STJ), como Benedito Gonçalves, e membros do governo Lula (PT) como o então ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.

O relatório da PF tornado público por Mendonça também cita o ministro Alexandre de Moraes. Mendonça pediu que o caso fosse levado ao plenário, o que ocorreu na terça-feira passada, mas a discussão foi interrompida por pedido de vista de Flávio Dino.

Gonet questionou a validade do relatório, argumentando que ele foi produzido a pedido de Mendonça sem solicitação prévia do Ministério Público ou da Polícia Federal. Ele também lembrou que a investigação de um integrante do STF exige autorização do plenário da Corte.

No julgamento, Mendonça diferenciou as mensagens envolvendo Gonet das demais: “Aqui não estou fazendo juízo de valor em relação ao procurador-geral, até porque as informações que vieram, são informações, na minha avaliação, de outra densidade.”O próprio Gonet se manifestou na sessão e classificou o encontro como “banal”. Segundo ele, foi o único contato presencial com Vorcaro, ocorrido na presença de várias autoridades. “Não tive relacionamento de proximidade com o senhor Vorcaro. A única ligação intermediada por advogado foi brevíssima e banal”, afirmou.

As conversas também mostram que Gonet teria demonstrado interesse em participar de um segundo evento em Londres patrocinado pelo Master em 2025 — um fórum jurídico que acabou cancelado. Em mensagens encaminhadas por Soares, o procurador-geral teria dito “Tomara que tenha charuto e Macallan” e expressado “saudades” do banqueiro.

No ano anterior, Vorcaro pagou R$3,2 milhões em uma degustação privada de uísque Macallan no George Club, em Londres, evento no qual a foto foi tirada.

Outras mensagens indicam que Soares intermediou o convite para que o filho de Gonet viajasse com o grupo a Londres. Vorcaro teria respondido de forma positiva ao pedido.

A PGR deve se manifestar nos próximos dias sobre o pedido da defesa de Vorcaro para revogar a prisão do banqueiro, protocolado nesta sexta-feira.

Diário do Poder

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Marco Aurélio Mello critica atuação de Dino em sessão do STF sobre caso Vorcaro

Ministro aposentado avalia sessão de terça-feira (15), marcada por embates entre magistrados, e classifica o dia como difícil para a Corte


Foto:(Álvaro Rabello/Diário do Poder).



O ministro aposentado do STF (Supremo Tribunal Federal) Marco Aurélio Mello fez, em entrevista nesta sexta-feira (18), uma avaliação crítica da sessão da Corte realizada na terça-feira (15), quando os ministros discutiram a abertura de investigação contra Alexandre de Moraes por suposto envolvimento com o banqueiro Daniel Vorcaro.

Sessão marcada por embates

A sessão de terça-feira teve troca de acusações e discussões acaloradas entre os ministros. Ao final, Dino pediu vista do processo, o que suspendeu o julgamento.

Crítica à condução de Fachin

Segundo Marco Aurélio, faltou a Fachin uma atuação mais enérgica para conter as discussões e dissolver os embates ocorridos em plenário.

Além disso, para o ministro aposentado, um dos momentos mais emblemáticos do descontrole na sessão foi quando Dino acusou Fachin de avocar para si os processos relativos a Moraes e a André Mendonça. Na avaliação de Mello, essa acusação levou disputa política para dentro do Tribunal — e o cargo de presidente da Corte, independentemente de quem o ocupe, deveria ser respeitado.

“Um dia triste para o Supremo”

Mello classificou a sessão como um dia difícil para a Corte e defendeu que os magistrados devem atuar com honestidade de propósito. Para ele, o encerramento do dia sem uma resposta concreta reforçou a percepção de desgaste institucional em torno do Supremo.

“O Supremo não pode cometer um suicídio institucional”, disse o ministro aposentado, ao afirmar que a sociedade aguarda uma resposta concreta da Corte.

Mello acrescentou que o exemplo de conduta deve partir dos próprios ministros e que as ofensas trocadas durante a sessão não condizem com o comportamento esperado da bancada do STF.

Davi Pereira - Diário do Poder

Flávio Dino, segundo Aristóteles

O ministro comunista usou seu tempo de fala não para esclarecer fatos, mas para representar erudição que não tem, mal citando os autores citados e ironizando sem saber o que é ironia


Ministro Flávio Dino | Foto: Rosinei Coutinho/STF


“A retórica não deve conhecer como as coisas são em si mesmas, mas descobrir algum mecanismo persuasivo de modo a parecer, aos ignorantes, conhecer mais do que aquele que tem conhecimento.” (Platão, Górgias)

“Os sofistas não nos são tão extemporâneos como poderíamos supor.” (G. W. F. Hegel, Lições sobre a História da Filosofia)


Flávio Dino é um comunista. E, em sendo comunista, ele é também um sofista. Não por acidente biográfico, mas por tradição ideológica: o comunista, como o sofista antigo, não compreende a linguagem como instrumento de comunicação da realidade, mas como arma de manipulação dos sentimentos e das percepções da audiência. Para ambos, a palavra não serve para revelar o mundo, mas para dobrá-lo à vontade de quem fala. 

O interlocutor, nessa lógica, nunca é um igual a ser convencido pela razão. Ele é uma presa a ser capturada pela retórica. Pois, na última terça-feira, 15, a sociedade brasileira foi transformada em presa de um sofista do Supremo Tribunal Federal, quando a Corte deveria decidir se abriria ou não investigação contra Alexandre de Moraes, o Careca do Master, por seus vínculos com Daniel Vorcaro. 

Na infame sessão, que muitos têm considerado como o atestado de óbito do STF tal como conhecíamos, coube a Flávio Dino — a quem apelidei carinhosamente de Camarada Rocambole — a missão de pedir vistas travar o julgamento. 

No caminho de fazê-lo, todavia, o militante togado nos ofereceu uma aula — não de Direito, mas de impostura. Minha amiga Bruna Torlay, professora de filosofia, fez uma observação muito pertinente: Dino lembra Hípias, dos diálogos platônicos Hípias Maior, Hípias Menor e Protágoras. Platão retrata esse sofista como um homem extremamente vaidoso, convencido da própria erudição, apaixonado pelo sucesso e pelo dinheiro, superficial a despeito de todo o conhecimento que arrota em praça pública. Trocando Atenas por Brasília e a túnica clássica pela toga moderna, a descrição cai como uma luva. Dino discursou empolado. 

Citou Aristóteles. Citou Hobbes — embora, deste, tenha recolhido apenas a frase que já é praticamente adesivo de para-choque de caminhão: “o homem é o lobo do homem”. Ocorre que Aristóteles e Hobbes, na boca do ministro, soam tão adequados quanto uma bola de futebol nos pés de um perna-de-pau: o instrumento existe, a intenção de usá-lo é evidente, mas a perícia simplesmente não acompanha a pretensão. 

Curiosamente, quando o Camarada Rocambole abandonou os clássicos e foi buscar na baixa cultura referências mais comezinhas — notadamente o humorista Fábio Porchat e o cantor Chico César —, a voz mudou de registro. Ali, sim, havia naturalidade, quase intimidade. 

Faz sentido: esses os filósofos que Dino verdadeiramente consome. Se, nele, Aristóteles é mencionado como quem exibe um diploma emprestado, Porchat e Chico César o são como quem fala de amigos de infância. A discrepância entre os dois registros é, ela mesma, a prova do que se quer demonstrar: em Dino, como em Hípias, há erudição de vitrine. Mas o ápice da encenação veio quando, ao dirigir uma ironia ao presidente Edson Fachin, Dino sentiu a necessidade de explicar o próprio recurso: a ironia, disse ele, serve para descontrair o ambiente. 

E completou, grandiloquente: “como diria Aristóteles”. Eis o momento em que o colosso tropeça na própria toga. Porque Aristóteles, na Ética a Nicômaco (1127a-1127b), não trata a ironia como recurso de descontração de ambiente. Trata-a como um dos modos pelos quais os homens se apresentam a si mesmos e aos outros, estabelecendo três disposições possíveis, duas viciosas (por desmedidas) e uma virtuosa (por comedida).


Sessão plenária extraordinária do STF (15/09/2026) | Foto: Alejandro Zambrana/STF


A disposição virtuosa é a alḗtheia (ἀλήθεια): a veracidade, o apresentar-se aos outros como de fato se é. A primeira, e menos grave, disposição viciosa é a eirōneía (εἰρωνεία): a ironia no sentido grego, que consiste na dissimulação modesta, o hábito de negar ou diminuir qualidades que realmente se possui. Se usada como ferramenta retórica para a busca da verdade — como Aristóteles reconhece ser o caso da maiêutica socrática —, a ironia tem o seu valor. O problema mesmo está na segunda disposição viciosa, que é a alazoneía (ἀλαζονεία): a alazonia, a jactância, a impostura, a bazófia, a fanfarronice, a vanglória, em suma, o vício de atribuir a si mesmo qualidades maiores do que as que se tem. 

Se pudesse retornar do Hades e examinar a retórica do Camarada Rocambole naquela sessão, não é a ironia que saltaria aos olhos de Aristóteles, mas justamente o seu oposto. O estagirita não veria em Dino um homem afetando modéstia, disposto a diminuir as próprias qualidades; veria, ao contrário, um homem disposto a inflar qualidades que não tem. Não veria eirōneía, mas alazoneía. O eirōn — o agente da ironia — é o exato oposto do alazṓn — o agente da alazonia. O primeiro pode ser chamado de irônico; o segundo, de alazônico. Ou, simplesmente, de fanfarrão.

Flávio Dino é esse fanfarrão, esse jactancioso, no sentido aristotélico. Ao invocar Aristóteles para justificar uma ironia como “recurso de descontração”, ele mostra não ter a menor intimidade com o autor que cita. O Camarada Rocambole não parece ter as qualidades exigidas para se tornar irônico no sentido grego. Ele é, isso sim, um espécime quase perfeito de alazṓn: o sujeito dedicado a atribuir a si mesmo talentos — de jurista, de filósofo, de homem de humor fino, de estadista acima do partidarismo — que a sua vida real de militante comunista permanente insiste em desmentir.


Platão e Aristóteles caminhando e debatendo. Detalhe da pintura Escola de Atenas, de Rafael (1509–1511) | Foto: WIkimedia Commons


Não é pouca ironia — essa, sim, no sentido comum da palavra — que um pretenso magistrado tenha adiado, com citações postiças de Aristóteles, o julgamento que poderia esclarecer se seu colega de Corte manteve relação promíscua com o homem por trás de um dos maiores rombos bancários da história recente do país. Enquanto o Brasil esperava para ver se Alexandre de Moraes tinha como explicar a troca de mensagens comprometedoras com Daniel Vorcaro, teve de assistir a uma sessão em que a substância desse fato cedeu lugar ao teatro de erudição de um sujeito que confunde pompa com conhecimento, e chicana com justiça.

 Trata-se do método sofístico em estado puro: quando a pergunta é incômoda — “o senhor Alexandre de Moraes deve ser investigado?” —, a resposta hábil não é responder, mas adiar. E o adiamento precisa ser embrulhado num verniz filosófico para não parecer o que é. Hípias também fazia isso. Diante de Sócrates, sempre tinha uma resposta pronta, elegante, cheia de nomes ilustres — e sempre, no fim, vazia. A diferença é que Sócrates estava ali para desmontar o artifício. Não tínhamos um Sócrates no STF, caso em que o Camarada Rocambole sairia dali desencarambolado.

Fica, então, o registro para a posteridade: um membro da mais alta Corte do país pediu vista de um julgamento sensível à credibilidade do próprio Judiciário, e usou seu tempo de fala não para esclarecer fatos, mas para representar erudição que não tem, mal citando os autores citados, ironizando sem saber o que é ironia, e confundindo, mais uma vez, o exercício do saber com o exercício da sofística. Um homem, dizem que disse Hobbes (ou terá sido Porchat?), talvez seja o lobo de outro homem. Mas o fanfarrão, isso Aristóteles realmente disse, é sempre o fanfarrão de si mesmo.

'O golpe supremo', por Adalberto Piotto

Ao se negar a investigar Moraes, com chicanas e medidas protelatórias, o STF fora da lei dá um golpe na própria Corte, na democracia e no Brasil decente


Ilustração: Criada por IA/Revista Oeste

Golpes são sempre por projeto de poder. Não há golpes jurídicos em defesa de boas intenções. Defender a democracia atropelando a lei é golpe. O verniz do falatório rebuscado e pretensamente em defesa das instituições dá brilho, mas não esconde a cara de pau de quem quer apenas levar vantagem, sobrepor-se aos demais. Ou, ainda pior, só ficar rico com a mais deslavada corrupção que aflige e atrasa o Brasil. Foi golpe do STF a instalação de ofício e sem sorteio do Inquérito 4.781, o das Fake News e do Fim do Mundo, que o ministro Alexandre de Moraes usa, desde 2019, para perseguir, prender e abusar legalmente dos brasileiros. 

Foi e é golpe da Corte quando um ministro reiteradamente nega os mais elementares direitos constitucionais de defesa a quem é acusado de seja lá o que for. Mais grave ainda quando mira apenas um lado do pensamento político. Foi golpe o tratamento dado aos presos do 8 de janeiro, que não tiveram individualização de conduta, devido processo legal e direito à ampla defesa. Golpe nos advogados que não tiveram acesso aos autos. Golpe no governo Bolsonaro ao lhe retirar prerrogativas de simplesmente nomear o diretor-geral da Polícia Federal. Golpe na liberdade de expressão de todos, cláusula pétrea da Constituição. Golpe no Congresso, ao relativizar o artigo 53, aquele em que “os deputados e senadores são invioláveis, civil e penalmente, por quaisquer de suas opiniões, palavras e votos”. 

Golpe de novo por usar o direito ao “foro privilegiado” como ferramenta de chantagem e cabresto de parlamentares. Golpe quando mantém tudo em sigilo. Golpe quando abre inquéritos para ameaçar a tudo e a todos. Golpe no passado, golpe do STF no presente — ao não ter força de punir um único ministro pego nas investigações da Polícia Federal como advogado de fato de um banqueiro corrupto. E, por fim, golpe no futuro do Brasil ao destruir-se como uma Corte Suprema, deixando um rastro de abuso, desrespeito aos direitos humanos e uma imundície vexatória de sequer se conter em seus excessos. O STF que deve guardar e defender a Constituição não existe mais. No momento, está refém de uma minoria sem lei e movida a interesses particulares.



Presos na noite de 8 de janeiro de 2023 no Congresso Nacional - Foto: Reprodução


O resumo desse STF arrogante definiu a formação de sua Corte paralela dentro do próprio plenário. Ganhou cara e voz no comportamento insubmisso à lei e ao país de Gilmar Mendes, Flávio Dino e Cristiano Zanin, além do próprio Alexandre de Moraes, na sessão da Corte na última terça, dia 15 de setembro. Era a sessão que entraria para a história porque o Supremo daria satisfações à sociedade e voltaria a se dar ao respeito. Era tão somente uma sessão em que nove ministros deveriam se debruçar sobre farto material da investigação da Polícia Federal que comprometia a condição de um único ministro, Alexandre de Moraes, e tomar uma decisão para salvar a imagem rasurada da própria Corte.

Não conseguiu. O grupo que decidiu proteger Alexandre e abandonar a Justiça dominou a sessão. Entre chicanas, protelações, grosserias e histerias de Gilmar, intervenções afrontosas e discursos enjoativos de Dino, e de Zanin, cujo maior predicado é o de ter sido advogado do Lula, além de legitimar a pesca probatória no fim de semana que antecedeu a sessão — para coagir outros membros do tribunal —, o que se viu foi uma atuação engendrada de proteção mafiosa. Foi o decano quem recorreu ao termo “máfia e seus derivados”, para que fique claro. 

Na única interpretação plausível para seu ousado aparte, ele defendeu que um ministro não poderia ser investigado com denúncia de outro porque não seria ético. Não obstante, recorreu à citação da “omertà“, o código de honra da máfia siciliana que proíbe qualquer cooperação com a polícia ou a justiça. Reivindicou o silêncio de criminosos para se protegerem. Um escárnio, um papel que o ministro André Mendonça, relator do inquérito legal e definido por sorteio, não aceitou protagonizar e virou alvo do grupo. Verifique por si mesmo, caro leitor de Oeste, a citação original de Gilmar Mendes: 

“Quem detém sozinho aquilo que pode alcançar outros integrantes do colegiado passa a exercer sobre eles algum tipo de ascendência. Eu protejo você. Relação de máfia. Isso não se faz, não é ambiente de pessoas dignas. Desculpe a sinceridade, presidente. Mas as coisas precisam ser chamadas pelo nome. Não se pode submeter… Mesmo o colega que esteja eventualmente envolvido, que teve um filho, não pode estar submetido a esse tipo de vexame. É uma atitude covarde, vil. Já disse isso em outro momento. Até a máfia tem ética. É preciso ter decência. Não se comporta dessa forma.”


Luiz Fux na sessão plenária extraordinária do STF, em 15/09/2026 | Foto: Gustavo Moreno/STF


Não foi, convenhamos, a defesa da lei, da transparência e da “decência” que fez Gilmar. Era uma crítica a Mendonça, que não aderiu ao suposto código de autoproteção porque tinha compromisso com a verdade e a necessidade de investigar um possível crime de um membro do Supremo. E com evidências eloquentes vindas da longa investigação da Polícia Federal, cercada de tecnicidade e profissionalismo dos delegados, que havia encontrado nos telefones do banqueiro Daniel Vorcaro, preso por corrupção, conversas com indícios inequívocos de notória promiscuidade com uma alta autoridade. O suspeito era Alexandre de Moraes.

 Depois de negar essa informação ao público por meses a fio, na própria sessão da terça, 15, ficou-se sabendo que o número a quem Vorcaro recorria era o do telefone usado por Moraes. A ligação estava feita. Cabia a Moraes se defender, questionar a titularidade do telefone. Preferiu reclamar da investigação e do investigador. Nada disso pareceu abalar Gilmar, Dino e Zanin. “Às favas com os fatos, as evidências, o Brasil e o STF”, devem ter pensado. Obcecados pelo código próprio de autopreservação acima da lei, deram de ombros ao que se julgava ali e foram construindo narrativas e enrolações para postergar o que o Brasil inteiro já sabia e não suportava mais: o mau-cheiro do roteiro criminoso que envolvia um membro da Corte. Uma Suprema Corte de ministros de quem só se exigem duas coisas: notável saber jurídico e reputação ilibada. 

Como reputação diante do interesse público e reputação dentro de qualquer omertà não têm nada a ver uma com a outra, o grupo deu um tapa na cara da sociedade e escolheu ignorar obscenidades institucionais: “Acha que segunda já tenho de estar fora?”, pergunta o banqueiro, calculando o melhor momento de fugir do país. Ou a sequência: “Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei? (…) Ele não consegue segurar isso? (…) E com Andrei, dá pra segurar?”, para evitar a iminente prisão. Todas absolutamente comprometedoras, que reivindicavam supostamente a intervenção de Moraes diante do procurador-geral da República, Paulo Gonet, e do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. 

Mas a mensagem de 17 de novembro de 2025, na manhã do dia da prisão, é ainda mais assustadora. Por WhatsApp, Vorcaro perguntava como quem sabia que tinha pago caro por proteção suprema: “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”, perguntou Vorcaro a Moraes. A conexão com o contrato do banqueiro, de R$ 131 milhões, com o escritório da esposa de Moraes gritava.



Procurador-geral da República Paulo Gonet na sessão plenária extraordinária do STF, no dia 15/09/2026 | Foto: Rosinei Coutinho/STF


No devido processo legal, por mais constrangedoras e imorais que sejam as mensagens, ainda assim, tudo é tratado como indício de crime. A presunção no Direito brasileiro é de inocência, jamais de culpa. Mas é mandatório investigar pelo interesse social. A sessão da terça no Supremo Tribunal Federal não era para condenar Moraes. Era para se decidir sobre a abertura ou não de uma investigação contra ele, na qual lhe seria garantido um julgamento justo com amplas condições de se defender. 

Exatamente tudo o que ele negou aos brasileiros que investigou, cancelou, de quem congelou contas bancárias e de redes sociais, que prendeu e condenou de forma arbitrária e ilegal, ao levar todos para serem julgados dentro do STF e não na primeira instância. Foi um golpe com apoio de parte da imprensa e com muitos votos dentro da própria Corte, sobretudo na 1ª Turma, onde ele reinou, ao lado de Flávio Dino e Cristiano Zanin, sob olhares de orgulho de Gilmar Mendes. 

Depois de anos de espera, na terça-feira, o STF tinha um encontro marcado com o Brasil. Dava sinais de que se recolheria de seus devaneios de poder moderador. Que passaria a se abster definitivamente de jornadas de julgamentos absurdos e abusivos que geraram perseguições, presos políticos, exilados e humilhações internacionais de ver suas sentenças demolidas por Cortes de países civilizados. Era a chance de encerrar esse clima insuportável de terror social e político com insegurança jurídica avassaladora dentro do país. 

Não foi o que aconteceu, em que pesem os esforços do presidente Edson Fachin, tímidos e com enorme lacuna de autoridade; os embates protagonizados por Mendonça e Luiz Fux contra os colegas do lado de lá, tentando recolocar a lei no centro da Corte; ou mesmo os pedidos de desculpas de Cármen Lúcia ao país, assumindo as próprias faltas diante do monstro em que se transformou o Supremo. Sequer a análise da sorrateira questão de ordem de Gilmar, que questionava a inegável autoridade de Fachin de presidir a sessão, foi decidida..

Depois de uma série infindável de interrupções para protelar, Flávio Dino pediu vista, mesmo já tendo votado. Foi o derradeiro gesto que demoliu de vez o mínimo de credibilidade ainda existente da mais alta Corte de Justiça. Transformada por quatro ministros em um tribunal chicaneiro e incapaz de se corrigir, não foi capaz de julgar um ministro fora da lei, mas provocou uma onda coletiva de críticas da sociedade como há muito não se via. É exatamente a reação que faltou dessa mesma gente quando a Corte decidiu que não cumpriria a Constituição para “salvar a democracia”. Foi o golpe da época, que perdura até hoje. 

Que os novos cristãos da democracia ou cristãos em penitência pelas suas omissões resistam. Democracia é uma só. E ela não é a do Supremo, do Dino, do Moraes ou do Gilmar. Muito menos a de Lula, fiador desse Supremo golpista e fora da lei. A única democracia que nos serve é a descrita e garantida na Constituição de 1988. E ela pertence a todos os brasileiros e não aceita intermediários.

  Revista Oeste - Adalberto Piotto







Chicaneiros de toga, por Cristyan Costa

Com o apoio do Planalto, ala de Gilmar Mendes trava investigação sobre Moraes, impõe sua agenda ao STF e expõe Fachin acuado na presidência da Corte


Ministro Gilmar Mendes na sessão plenária extraordinária do STF | Foto: Rosinei Coutinho/STF

N a sessão mais esperada do ano, na terça-feira, 15, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiriam se Alexandre de Moraes deveria ser investigado por suas relações com Daniel Vorcaro, ex-dono do extinto Banco Master. No centro do plenário, estavam mensagens extraídas pela Polícia Federal (PF) do celular do empresário, com pedidos de ajuda ao magistrado, e acordos milionários envolvendo o juiz e o escritório da mulher dele, Viviane Barci. Assim que o presidente do STF, Edson Fachin, concluiu a leitura do relatório, o decano da Corte, Gilmar Mendes, interveio. Apresentou uma “questão de ordem” (instrumento regimental destinado a resolver dúvidas ou erros na sessão) para atrapalhar a condução dos trabalhos: propôs julgar, juntos, Moraes e André Mendonça, relator do caso Master, que também tinha contra si um pedido de investigação. A audiência mudou completamente de rumo. 

A chicana de Gilmar vinha sendo costurada nos bastidores desde que Mendonça levantou o sigilo do relatório da PF que expôs o escândalo envolvendo Moraes. Uma das preocupações é a eleição, cujo primeiro turno ocorrerá em cerca de 15 dias. As pesquisas mostram a vantagem do presidente Lula cair para o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Por isso, a primeira tentativa foi demover Fachin da ideia de pautar o caso agora. Ao se dar conta de que o presidente não o atenderia, propôs redistribuir as relatorias das ações. Quando percebeu que não conseguiria dobrar Fachin, levou a intervenção ao plenário. Diante da derrota iminente, Flávio Dino suspendeu o julgamento, por até 90 dias, com um pedido de vista. A ofensiva já havia sido antecipada por Oeste na semana anterior, quando membros da ala do decano telefonaram uns para os outros para organizar o contra-ataque, depois de alguns dias atordoados com a situação.


Ministro Flávio Dino | Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Orientação de Lula 

Parte desse contra-ataque havia sido combinada com o Palácio do Planalto durante a crise. A ofensiva tinha uma divisão de tarefas. Embora cobre, publicamente, a abertura de uma investigação “doa a quem doer” no STF, longe dos holofotes, Lula ajudou a blindar Moraes. A Dino, ele deu a ordem para confrontar Fachin, enquanto mandou Cristiano Zanin sustentar os argumentos técnicos do grupo com “serenidade”, sem entrar em embates. Paralelamente, Gilmar disse a Lula que concentraria os ataques em Luiz Fux e Nunes Marques — com os quais o decano trocara mensagens insultuosas dias antes da sessão. Já Moraes miraria a artilharia na direção do relator do Master. Com a saída inesperada de Nunes Marques, que se declarou impedido em meio a notícias de suposto envolvimento com uma garota de programa, tudo ficou mais fácil.

O roteiro traçado nos bastidores começou a aparecer assim que a discussão avançou no plenário. O primeiro embate envolveu justamente Dino e Fachin. Enquanto Dias Toffoli justificava sua suspeição no julgamento, Dino tentou pedir-lhe aparte diretamente. O presidente do STF disse que a palavra deveria ser solicitada à presidência e elevou o tom ao insistir na prerrogativa de comandar a sessão. Dino não recuou. Lembrou a Fachin que ele próprio havia pedido “ponderação” e “equilíbrio” aos colegas na abertura dos trabalhos e sustentou que o regimento permitia que o aparte fosse autorizado por quem estivesse com a palavra. Fachin consultou o texto e acabou lendo o dispositivo em plenário. A primeira tentativa de impor autoridade terminava, assim, com a vitória de Dino. 

Com Nunes Marques fora do julgamento, Gilmar concentrou-se em Mendonça. O decano acusou o relator do Master de conduzir as investigações com “inequívoco viés político-eleitoral” e disparou: “Até a máfia tem ética”. Disse ainda que a atuação do colega era “digna de máfia, covarde, vil”, chamou-o de “boneco de campanha”, “pixuleco eleitoral” e “aprendiz de feiticeiro” e sustentou que sua conduta beneficiava interesses eleitorais. Mendonça reagiu. Classificou como leviana a acusação de parcialidade e exigiu respeito. 

A temperatura subiu ainda mais quando Mendonça mencionou o procurador-geral da República, Paulo Gonet, cujo nome também aparecia nas mensagens de Vorcaro. Gilmar interrompeu o colega, acusou-o de fazer ilações e disse que ele estava tomado por um “sentimento policialesco”. Mendonça voltou a exigir respeito. “Pode chorar, pode chorar”, provocou o decano. “Aqui não tem choro, não. Respeite”, respondeu o relator. Fachin não interrompeu o decano para assegurar a palavra a Mendonça nem conteve a provocação. O bate-boca continuou.


O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques | Foto: Luiz Roberto/TSE

Moraes assumiu a ofensiva na sequência. Acusou Mendonça de agir em favor de um grupo político, questionou a regularidade da investigação e afirmou que o relator teria pressionado integrantes da PF para incluir seu nome numa eventual delação premiada de Vorcaro. Disse ter testemunhas — policiais e advogados — e propôs levá-las ao Supremo. Mendonça rebateu: 

“Isso é mentira”. Moraes então perguntou: “Quem tem medo da PF?”. O relator tentou responder. “Eu não estou perguntando a Vossa Excelência”, cortou Moraes. “Mas eu estou lhe respondendo”, devolveu. A PF virou outro campo de batalha. Gilmar criticou a presença de delegados cedidos a gabinetes do Supremo e voltou ao episódio do afastamento do diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues. 

Fux reagiu às críticas e acusou a PF de desvios de conduta contra integrantes da Corte. Mendonça chegou a falar na existência de uma “PF paralela”. Dino também voltou à carga. Ao tratar das mensagens encontradas no celular de Vorcaro, afirmou que havia referência a Fux. O ministro reagiu imediatamente. “Não tem. Comigo, não tem”, assegurou. As mensagens divulgadas até então apontavam contatos envolvendo Rodrigo Fux, filho do magistrado, mas Fux negava qualquer relação pessoal com o exbanqueiro. A hostilidade transbordava das palavras para os gestos. Gilmar e Toffoli riam enquanto Mendonça falava. Em diferentes momentos, o decano, Moraes e Dino sequer dirigiam o olhar ao relator do Master. 

No intervalo, Gilmar e Dino davam gargalhadas no cafezinho em meio à confusão. Por fim, Cármen Lúcia destoou do ambiente. Declarou estar constrangida e triste, reconheceu o “mal-estar cívico” produzido pela crise e pediu desculpas aos brasileiros. O pedido, contudo, não encerrou as discussões. Horas haviam sido consumidas com acusações, apartes, questões regimentais, suspeitas sobre colegas, PF, delações e relações pessoais. A sessão convocada para decidir se havia elementos para investigar Moraes ainda não havia chegado à pergunta que justificara sua realização. Quando Gilmar e Mendonça voltaram a se enfrentar, 

Dino pôs fim ao julgamento. Pediu vista e dirigiu a crítica ao próprio presidente do Supremo. Disse que Fachin estava há horas assistindo àquilo sem tomar providências: “Se Vossa Excelência vai assistir a isto, eu não vou”. Com o pedido, a discussão foi suspensa antes de o plenário examinar o mérito da Petição 16.662. O STF passou o dia reunido para decidir se Moraes deveria ser investigado e terminou sem votar a investigação. O resultado imediato favoreceu a estratégia de ganhar tempo. Mas deixou também outro saldo dentro do tribunal.


Presidente acuado 

Nos bastidores, ministros das duas alas se disseram decepcionados com a maneira como Fachin conduziu a sessão. Para interlocutores de ambos os grupos, o presidente permitiu que ataques pessoais ocupassem o plenário sem estabelecer limites claros e, em momentos decisivos, deixou de exercer a autoridade esperada do cargo. O contraste ficou evidente: de um lado havia uma ala organizada, com estratégia e distribuição prévia de tarefas; do outro, ministros reagindo individualmente aos ataques, sem coordenação.

A pressão da ala de Gilmar não se limitara ao que ocorreria dentro do plenário. Nos dias anteriores, integrantes do grupo também defenderam o reforço do esquema de segurança para a sessão. Na manhã de terçafeira, o Supremo estava cercado por grades, policiais e viaturas. Cães farejadores fizeram uma varredura na Praça dos Três Poderes, câmeras e drones ajudaram a monitorar a região e até o espaço aéreo recebeu atenção especial. A Polícia Judicial chegou a derrubar um drone que sobrevoava a Corte sem autorização. A maior parte dos jornalistas não pôde entrar no plenário. Aos poucos profissionais autorizados, entre eles a reportagem de Oeste, determinou-se que os celulares permanecessem desligados dentro de sacolas lacradas durante toda a sessão. O tribunal se preparara para controlar qualquer interferência externa.


O ministro Edson Fachin, durante uma sessão plenária | Foto: Rosinei Coutinho/STF


Fachin parecia conhecer a dimensão do que estava por vir. Pediu “ponderação” e “equilíbrio” aos colegas e advertiu que a divergência jurídica não poderia se transformar em confronto pessoal. O paradoxo apareceria poucas horas depois. Enquanto praticamente tudo do lado de fora estava sob controle, dentro do plenário o presidente não conseguia fazer valer a recomendação que ele próprio dera. A situação não melhorou nos dois dias seguintes. Nesta quinta-feira, 17, Fachin cancelou a sessão extraordinária do plenário prevista para a tarde. 

A pauta não tratava do caso Master, mas o episódio ampliou a percepção de anormalidade no funcionamento da Corte: foi o terceiro cancelamento de uma sessão presencial neste mês. No mesmo dia, o presidente retirou do calendário a sessão extraordinária de 23 de setembro, convocada para analisar as acusações contra Mendonça no caso Master. 

Não marcou nova data. O motivo estava diretamente ligado à manobra de terça-feira. Como permanece pendente a questão de ordem de Gilmar sobre a reunião dos casos de Moraes e Mendonça — interrompida pelo pedido de vista de Dino —, o Supremo ficou sem definir se poderia examinar separadamente a situação do relator. 

O tribunal entrou no plenário para resolver uma crise e saiu dele com duas investigações paradas, relações internas ainda mais deterioradas e sem sequer definir o caminho para voltar ao mérito. Gilmar, porém, conseguiu o que buscava desde o início: tempo. O julgamento de Moraes foi interrompido; o de Mendonça saiu do calendário; e a dúvida sobre reunir os dois casos passou a impedir o avanço de ambos. Fachin resistiu à manobra, mas não conseguiu neutralizar seus efeitos. Na terça-feira, dissera que a história olharia para aquele momento. No dia seguinte, restava uma conclusão mais simples: diante da maior crise de sua gestão, os ministros conseguiram discutir quase tudo — menos o que foram convocados a decidir. 


Com reportagem de Matheus Santos