sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Auschwitz e o dever da memória', por Ana Paula Henkel

O Holocausto foi motivado por uma ideologia que via os judeus como um mal a ser erradicado. Retirar essa verdade da narrativa histórica não torna o passado mais inclusivo ou mais humano. Torna-o falso


Sobreviventes do regime nazista celebram a libertação de Auschwitz em janeiro de 1945 - Foto: Divulgação/United States Holocaust Memorial Museum 


N a manhã de 27 de janeiro de 1945, quando a Segunda Guerra Mundial entrava em seus dias finais e a Europa começava a emergir dos escombros, soldados do Exército Vermelho avançavam pela Polônia ocupada sem imaginar que estavam prestes a atravessar um dos limites mais sombrios da história humana. O que encontraram em Auschwitz-Birkenau não foi um campo de batalha, nem os vestígios comuns de uma guerra em retirada. Encontraram silêncio. Um silêncio pesado, quebrado apenas por corpos esqueléticos que ainda respiravam — e por milhões de vozes que jamais voltariam a falar. 


Uma visão geral do campo em 1945 - Foto: Memorial e Museu Auschwitz-Birkena

Os soldados não compreenderam imediatamente o que viam. Barracões intermináveis. Fornos. Pilhas de roupas, sapatos infantis, óculos, malas com nomes escritos à mão. Homens e mulheres que pareciam ter envelhecido décadas em poucos meses. Crianças sem infância, sem família, sem futuro. Auschwitz não se revelava de uma vez. Ele se impunha aos poucos, como uma verdade que o espírito humano reluta em aceitar.


Malas que pertenceram a pessoas deportadas para o campo de Auschwitz. Esta fotografia foi tirada após a libertação do campo pelas forças soviéticas. Auschwitz, Polônia, depois de janeiro de 1945 - Foto: Holocaust Encyclopedia 

Os relatos daqueles soldados descrevem um espanto para o qual nenhuma instrução militar poderia prepará-los. Alguns acreditaram, num primeiro momento, tratar-se de um hospital improvisado ou de um campo de prisioneiros comum. A compreensão veio lentamente e, com ela, o choque moral. Muitos sobreviventes estavam fracos demais para falar. Outros tentavam explicar o inexplicável, misturando línguas, gestos e lágrimas. Havia também os que já não conseguiam chorar: o corpo havia sobrevivido, mas algo essencial já tinha sido levado. 

Encontraram crianças órfãs que pareciam idosos, mulheres sem cabelo nem identidade, homens reduzidos a números tatuados no braço. Encontraram também armazéns inteiros cheios de objetos pessoais — malas, fotografias, utensílios simples — a prova silenciosa de que aquelas pessoas haviam chegado ali acreditando que viveriam. Cada mala guardava uma esperança enganada.


Mulheres sobreviventes se aglomeraram em um barracão de prisioneiros logo após as forças soviéticas libertarem o campo de Auschwitz. Auschwitz, Polônia, 1945 | Foto: Holocaust Encyclopedia

Auschwitz não foi revelado ao mundo como um campo abandonado, mas como um sistema em funcionamento interrompido apenas pelo avanço da guerra. Se não tivesse sido libertado naquele momento, teria continuado operando. Esse é um dado que pesa sobre a consciência humana: não foi o arrependimento que encerrou Auschwitz, foi a derrota militar do regime que o sustentava. 

Ali, o mal não era explosivo e nem era caótico. Era organizado. Havia horários, listas, funções, turnos. A morte tinha método. O assassinato em massa havia sido transformado em rotina administrativa. Auschwitz não foi um desvio da civilização moderna, mas uma de suas possibilidades quando a técnica se divorcia da moral e a ideologia substitui a consciência. 

Mais de um milhão de pessoas foram assassinadas naquele lugar. Judeus, em sua esmagadora maioria, mortos não por crimes, não por escolhas, mas por aquilo que eram. O antissemitismo, elevado à condição de política de Estado, produziu uma máquina de aniquilação sem precedentes. Auschwitz foi o ponto em que o ódio deixou de ser retórico e se tornou industrial.


Um grupo de judeus húngaros transportados forma uma fila na rampa para seleção no centro de extermínio de Auschwitz-Birkenau, na Polônia ocupada pelos alemães. Maio de 1944 - Foto: Holocaust Encyclopedia

Quando o mundo finalmente entendeu o que havia acontecido, veio o choque — e depois, o juramento. Nos anos seguintes, os Julgamentos de Nuremberg buscaram algo inédito: responsabilizar indivíduos por crimes cometidos em nome de um Estado. Ali, a humanidade tentou reafirmar um princípio essencial: há limites que nenhuma autoridade pode ultrapassar, e obedecer ordens não absolve o mal.

 Nuremberg não foi apenas um tribunal. Foi um esforço moral. Uma tentativa de dizer que a civilização ainda reconhecia a diferença entre o justo e o injusto, entre o crime e o dever. O mundo prometeu a si mesmo que Auschwitz não se repetiria. Que aquele grau de ódio, aquela escala de extermínio, jamais seriam tolerados novamente. A expressão “Nunca Mais” nasceu ali — não como slogan, mas como compromisso civilizacional.


Logo após a libertação, um médico soviético examina sobreviventes do campo de Auschwitz. Polônia, 18 de fevereiro de 1945 - Foto: Holocaust Encyclopedia 

Os Julgamentos de Nuremberg marcaram uma ruptura histórica profunda. Pela primeira vez, líderes de um Estado soberano foram julgados não apenas por perderem uma guerra, mas por crimes cometidos contra a própria ideia de humanidade. Ali, o mundo rejeitou formalmente a defesa que se tornaria tristemente famosa: “eu apenas obedecia ordens”. 

Nuremberg afirmou um princípio que deveria ser eterno: há ordens que não podem ser obedecidas, leis que não podem ser cumpridas, autoridades que perdem legitimidade no momento em que violam os limites morais fundamentais. Esse foi talvez o maior legado de Nuremberg — mais importante até do que as sentenças. A ideia de que o indivíduo nunca está completamente dissolvido no Estado, de que existe uma consciência que antecede o poder político. E de que a civilização depende da coragem de reconhecer essa hierarquia.


Alguns dos réus durante o julgamento. À frente, de cima para baixo: Hermann Göring, Rudolf Heß, Joachim von Ribbentrop, Wilhelm Keitel. Atrás, de cima para baixo: Karl Dönitz, Erich Raeder, Baldur von Schirach, Fritz Sauckel-| Foto: Wikimedia Commons

Quando esse princípio é esquecido, quando a responsabilidade moral é terceirizada, o caminho para novos Auschwitz se abre; ainda que com outros nomes, outros métodos, outras justificativas. Durante décadas, a memória do Holocausto funcionou como um limite. Auschwitz tornou-se referência negativa absoluta: o ponto a partir do qual se dizia “daqui não passaremos”. 

Ensinar aquela história não era apenas lembrar o passado, mas vacinar o futuro contra a tentação do totalitarismo, da desumanização e do ódio organizado. Mas a memória, como toda construção humana, exige vigilância. E hoje, 80 anos depois, sinais inquietantes começam a surgir. 

No Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, instituído pela ONU justamente para preservar essa lembrança, a BBC foi obrigada a pedir desculpas após omitir, em sua cobertura, que os 6 milhões assassinados pelo regime nazista eram judeus. Falou-se em “6 milhões de pessoas”. Um detalhe, dirão alguns. Um erro de redação, alegou a emissora. 


Foto: Reprodução/gov.br

Mas não é um detalhe. Não é um erro neutro. Quando se apaga o sujeito do crime, o crime se dissolve. Quando se dilui a identidade das vítimas, o ódio que as matou perde forma — e, sem forma, perde também o limite que o contém. 

O Holocausto não foi uma tragédia genérica. Não foi um desastre impessoal da guerra. Foi um genocídio dirigido, motivado por uma ideologia que via os judeus como um mal a ser erradicado. Retirar essa verdade da narrativa histórica não torna o passado mais inclusivo ou mais humano. Torna-o falso.

Não é por acaso que a primeira batalha travada por regimes totalitários ocorre na linguagem. Antes de prender, censurar ou matar, é preciso redefinir palavras, suavizar conceitos, apagar distinções morais. O Holocausto foi precedido por eufemismos. Deportações sem destino viraram “realocação”. Campos de extermínio foram chamados de “centros de trabalho”. O assassinato em massa foi escondido atrás de termos técnicos e burocráticos. A linguagem foi usada como anestesia moral. 

Por isso, quando hoje uma grande emissora evita nomear os judeus como vítimas centrais do Holocausto, não estamos diante de um simples erro editorial. Estamos diante de um eco histórico perigoso. A diluição da linguagem sempre precede a diluição da responsabilidade. A história mostra que o mal prospera quando deixa de ser nomeado com precisão. 

A relativização da memória não acontece de forma abrupta. Ela começa com ajustes de linguagem, com generalizações convenientes, com o receio de nomear. Aos poucos, o mal deixa de ter rosto, o crime perde autoria, e a história se transforma em uma abstração inofensiva. É assim que Auschwitz deixa de ser advertência e passa a ser apenas um capítulo distante dos livros de história. 

Esse processo não é acidental. Toda vez que a memória incomoda o presente, há uma tentação de suavizá-la. Toda vez que a verdade exige coragem, surge a alternativa do silêncio educado. Mas a história ensina — de forma implacável — que o silêncio nunca é neutro.

O antissemitismo, hoje, não veste mais o uniforme do século 20. Ele reaparece sob novas máscaras: linguagem acadêmica, slogans políticos, revisionismo seletivo, ataques simbólicos. Cresce em universidades, nas redes sociais, nas ruas da Europa e do mundo. E cresce, sobretudo, onde a memória foi enfraquecida. 

Lembrar Auschwitz não é um exercício acadêmico. É um ato moral. É reconhecer que a civilização depende de verdades inegociáveis: que não existem vidas descartáveis, que não há causas que justifiquem o extermínio, que nenhuma ideologia autoriza a negação da humanidade do outro.


Logo após a libertação, uma criança sobrevivente, emaciada, é retirada dos barracões do campo por socorristas soviéticos. Auschwitz, Polônia, após 27 de janeiro de 1945 | Foto: Holocaust Encyclopedi

Cada geração acredita, em algum momento, que aprendeu definitivamente as lições do passado. Mas a história é menos otimista. O aprendizado civilizacional não é cumulativo por natureza — ele precisa ser reafirmado, ensinado e defendido continuamente. A memória do Holocausto não é garantida pelo tempo. Pelo contrário: quanto mais distante Auschwitz parece, maior é o risco de que se torne abstrato, simbólico demais, inofensivo demais. 

Preservar essa memória exige mais do que cerimônias. Exige honestidade intelectual. Exige disposição para enfrentar narrativas confortáveis. Exige a coragem de afirmar que houve vítimas específicas, algozes específicos e uma ideologia específica responsável pelo maior crime do século 20.

Sem essa precisão, a memória se transforma em ritual vazio — e rituais vazios não impedem a repetição do mal. 

Por isso, o 27 de janeiro não pertence apenas aos museus ou aos livros de história. Ele pertence ao presente. Cada geração recebe Auschwitz como herança moral — e decide o que fazer com ela. Preservar a memória exige esforço, responsabilidade e vigilância constante. 

Auschwitz nos lembra que a civilização não cai de uma vez. Ela se deteriora aos poucos, quando aceita pequenas concessões à mentira, quando relativiza o mal, quando troca a verdade pelo conforto. E onde a memória falha, a civilização recua. 


Entrada principal do campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau. Esta fotografia foi tirada algum tempo depois da libertação do campo, em janeiro de 1945. Polônia, data incerta - Foto: Holocaust Encyclopedia 

Ana Paula Henkel - Revista Oeste


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Carlo Cauti - 'O Banco Master chegou ao Planalto'

 Uma delação premiada de Vorcaro abalaria a República de uma forma que nunca se viu


Gabriel Galípolo, Daniel Vorcaro e Lula - Foto: Revista Oeste/Reprodução


D aniel Vorcaro se encontrou com Lula de forma sigilosa no dia 4 de dezembro de 2024. A reunião não foi inserida na agenda oficial do presidente. Mas a entrada do banqueiro no Palácio do Planalto aparece nos registros do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e foi divulgada somente após um pedido com base na Lei de Acesso à Informação (LAI). 

Apenas esse episódio justificaria uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o Banco Master. Uma reunião secreta entre o presidente da República e o protagonista do maior escândalo bancário da história do Brasil é, por si só, uma indecência. 

Mas o que gera ainda mais ojeriza é que Vorcaro não esteve apenas uma vez no Planalto. Entre 2023 e 2024, ele entrou pelo menos outras quatro vezes na sede da Presidência. Quase certamente foi o banqueiro que mais pisou no Palácio no terceiro mandato de Lula. Até seu pai, Henrique Vorcaro, esteve no Planalto em reunião que não consta nas agendas oficiais divulgadas. Sem sequer ter um cargo no Banco Master. Como todos os escândalos do Brasil, tornou-se um caso de família. 

Em nota, o Palácio do Planalto negou qualquer encontro de Lula ou ministros com Daniel e Henrique Vorcaro nas datas registradas pelo GSI. Basicamente, chamou de mentirosos os responsáveis pela segurança do presidente, que teriam, portanto, forjado a entrada da dupla nos sistemas informáticos governamentais. Surrealismo palaciano. 

Uma reunião ocorrida no final de 2024 no Palácio do Planalto, entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o empresário Daniel Vorcaro — dono do Banco Master — não constou na agenda oficial da Presidência, segundo reportagem do Metrópoles. O encontro, realizado no gabinete presidencial, teria durado cerca de uma hora e meia e contou com a presença de figuras do mundo político e financeiro.  

De acordo com o Metrópoles, além de Lula e Vorcaro, participaram da reunião o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega (que teria articulado o encontro), o governador Rui Costa o senador Alexandre Silveira o então indicado à presidência do Banco Central Gabriel Galípolo e o então CEO do banco, Augusto Lima. A ausência do encontro na agenda oficial gerou questionamentos sobre transparência por parte da Presidência.  

A informação sobre a reunião fora da agenda também foi apurada e publicada por outros veículos de economia e política, que confirmaram que o encontro foi realizado em dezembro de 2024 e relataram que Guido Mantega teve papel na articulação da reunião. Esses relatos reforçam a sequência factual trazida inicialmente pelo veículo.  

A omissão do registro na agenda oficial e a participação de nomes ligados ao governo e ao setor financeiro ocorrem em meio a apurações e investigações sobre operações vinculadas ao Banco Master, tema que ganhou destaque na imprensa e motivou alertas e pedidos de apuração por parte de autoridades e do mercado. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, comentou sobre o caso, dizendo que Galípolo “herdou” problemas relacionados ao Master e que a apuração deve ser feita com rigor pelas instituições competentes.  

A assessoria da Presidência, segundo o Metrópoles, não explicou publicamente o motivo da não inclusão do encontro na agenda oficial. Já para analistas e opositores, o registro tardio (ou a ausência de registro) levanta dúvidas sobre transparência e sobre a natureza dos temas tratados na reunião. 📸 MONTAGEM DE FOTOS REAIS NA IA View all 4,790 comments Add a comment...


O senador petista Jaques Wagner e o ex-ministro da Justiça de Lula, Ricardo Lewandowski: conflito de interesses - Foto: Montagem sobre reprodução nas redes sociais/IA

Indicado por Jacques Wagner ao cargo após uma tentativa fracassada de nomeá-lo presidente da Vale, Mantega finalmente começou a receber um salário suntuoso, adequado para resolver seus problemas financeiros. Sua função era apenas uma: abrir as portas dos palácios do poder em Brasília. Cumpriu a missão. 

Em setembro de 2023, o governo Lula anunciou uma medida inesperada: o pagamento de quase R$ 95 bilhões em precatórios por ano. Mesmo com uma PEC que limitava o pagamento para não sobrecarregar as contas públicas, e apesar de o orçamento público estar no vermelho profundo, o Executivo pediu ao Supremo a autorização para pagar essas dívidas tirando-as do Arcabouço Fiscal. O STF prontamente acatou. Uma avalanche de dinheiro entrou nos cofres de quem tinha comprado precatórios. O Banco Master foi um dos mais beneficiados com a medida. 

Na época, até mesmo Ciro Gomes se sentiu obrigado a criticar o Planalto, declarando em várias entrevistas que os precatórios iriam ajudar sempre os “mesmos bancos amigos do governo”. Ninguém fez nada. O pagamento de precatórios deu novo fôlego ao Master, que poderia ter quebrado muito antes caso não o tivesse recebido. Tudo decidido no mesmo palácio muito frequentado pela família Vorcaro. 


Contratações generosas 

Os contratos com Lewandowski e Mantega eram generosos. Mas nada comparável aos R$ 3,6 milhões mensais pagos pelo Master ao escritório da mulher do ministro Alexandre de Moraes, Viviane Barci de Moraes, em um contrato-monstro de R$ 130 milhões sem sequer um escopo bem definido. Ela, egressa do curso de Direito da Unip e sem nenhuma especialização, atuou em um único processo, movido pelo banco contra um investidor por difamação, e conseguiu perder em duas instâncias. 

O marido, por sua vez, foi mais incisivo e começou a pressionar o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, para que encontrasse uma solução para o Master. Em um só dia, ligou seis vezes para o banqueiro central. Se não fosse um caso despudorado de advocacia administrativa, que é crime, seria stalking, que também é. 

Moraes teria se encontrado com Vorcaro na mansão de 1,7 mil metros quadrados e R$ 36 milhões do presidente do Master, para beber vinhos caros e fumar charutos, na mesma noite em que estaria presente no local o presidente do Banco Regional de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa. O encontro, revelado pelo portal Metrópoles, teria ocorrido em um fim de semana do primeiro semestre de 2025, quando o BRB começava o envolvimento na operação de compra do Master. Uma trapalhada grotesca, incompreensível para os especialistas desde o primeiro minuto após o anúncio, e que sequer o presidente do BRB conseguiu explicar nos meses seguintes. Tanto que, em setembro, o Banco Central vetou a aquisição e o Master foi liquidado poucas semanas depois.


O ministro Alexandre de Moraes, do STF, a mulher do magistrado, Viviane Barci, e o presidente Lula I Foto: Ricardo Stuckert/PR 


Mas nesse tempo, o BRB tinha repassado pelo menos R$ 12 bilhões ao Master, comprando carteiras de crédito podres. Um absurdo para um banco com uma receita bruta de cerca de R$ 1 bilhão por trimestre, e depois da liquidação do Master provocou uma crise financeira grave no BRB. A vergonha foi tamanha que o banco não publicou os balanços dos últimos dois trimestres. E tentou recrutar influenciadores digitais do setor financeiro para espalhar informações positivas sobre a gestão bancária. 

Modus operandi já visto no final de 2025, quando outra milícia digital teria sido contratada pelo Master para falar mal do Banco Central e criticar a liquidação. Em um e-mail surreal, a assessoria do BRB chegou a escrever “Nota Fiscal poderá ser emitida após a assinatura do contrato” e “Pagamento em 40 dias”. O banco negou ter conhecimento da ação. 

O ministro Moraes soltou uma nota definindo a matéria do Metrópoles como “falsa e mentirosa” e que “segue um padrão criminoso de ataques desqualificados contra os integrantes do Supremo Tribunal Federal”. 

O Metrópoles não retrocedeu um milímetro e manteve todas as informações. Se isso tivesse acontecido há 24 meses, a Polícia Federal já estaria fazendo busca e apreensão na redação do portal e os repórteres teriam sido incluídos no Inquérito das Fake News por “desordem informacional” e “ameaça ao Estado Democrático de Direito”. 

Nada aconteceu. 

Sinal dos tempos e de um Supremo cada vez mais acuado. Até pelo fato de Moraes ter arquivado em março de 2025, mesmo período em que frequentava a mansão de Vorcaro, o inquérito que investigava o governador do Distrito Federal (DF), Ibaneis Rocha (MDB), por suposta omissão na contenção dos atos de 8 de janeiro de 2023 em Brasília. Ibaneis tinha sido afastado do cargo por 90 dias pelo próprio Moraes no dia seguinte aos protestos. Quase perdeu o cargo por um impeachment liderado por sua vice. E foi o único que viu sua posição arquivada por ausência de elementos probatórios.


O governador Ibaneis Rocha convidou Nelson Souza para presidir o BRB - Foto: Reprodução/ Redes sociais

Poucos dias depois do arquivamento da investigação, o BRB, banco público do Distrito Federal, comunicou a compra do Master. O presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, foi nomeado por Ibaneis. E o governo do DF fez de tudo para agilizar essa compra, enviando a toque de caixa a autorização para a Assembleia Legislativa, que a aprovou em quatro dias, sem sequer ter recebido os relatórios fiscal e de riscos. Coincidências. 

Em depoimento à Polícia Federal, Vorcaro admitiu que falou com Ibaneis sobre a compra do Master pelo BRB. Os dois se encontraram pelo menos quatro vezes nos últimos dois anos. Algumas delas, na mansão de Vorcaro. 


Descalabro Toffoli 

Se isso tudo pode parecer espúrio, representa apenas a parte visível da encrenca. O que é realmente escabroso são os irmãos e um primo do ministro do STF Dias Toffoli se tornando sócios de fundos do Master em um hotel de luxo no Paraná. Pessoas que nunca administraram uma pensão estudantil de terceira categoria, que viviam e continuam vivendo apertos financeiros, e que inesperadamente se tornam proprietários do Tayayá Resort, em Ribeirão Claro. Um dos irmãos, inclusive, é padre. Que com certeza não fez voto de pobreza. Suas participações foram adquiridas por valores milionários pelo fundo Arleen, gerenciado pelo Master e controlado por Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro. 

Toffoli era um assíduo frequentador do resort e é apontado como o real proprietário por funcionários do local. Mesmo assim, não teve qualquer problema em se tornar juiz do caso Master no Supremo, decretar sigilo absoluto, suspender qualquer operação policial por mais de 15 dias e mandar até mesmo recolher e lacrar as provas já obtidas pelos investigadores e enviá-las para Brasília.

Em 2025, a propriedade do Tayayá Resort passou antes para Alberto Leite, amigo de Toffoli, que chegou a acompanhá-lo na final de Champions League em Londres em 2024, e em seguida foi vendida para Paulo Humberto Barbosa, advogado da JBS. Toffoli nunca parou de se hospedar no local.


Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e o ministro do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli - Montagem: Revista Oeste/Shutterstock/Reprodução 


Fala, Vorcaro! 

As ligações obscuras entre o presidente do Master e Brasília não se limitam ao Executivo e ao Judiciário. O Legislativo também está envolvido até os cabelos. Exemplos são as “emendas Master” apresentadas por expoentes do centrão para favorecer descaradamente o banco. Uma delas foi a do senador Ciro Nogueira (PP-PI), que, em agosto de 2024, tentou na malandragem alterar a PEC que garante autonomia financeira ao Banco Central e enfiar uma emenda que aumentava de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Não colou. 

Outra tentativa, em setembro de 2025, foi a de amedrontar os diretores do Banco Central. Os deputados Claudio Cajado (PP-BA) e Doutor Luizinho (PP-RJ) concediam ao Congresso a prerrogativa de demitir diretores do Banco Central se sua atuação fosse considerada “incompatível com os interesses nacionais”. 

Sem sequer detalhar critérios técnicos para isso. A proposta contou com o apoio de 300 parlamentares e foi apresentada no mesmo mês em que o Banco Central rejeitou a compra do Master pelo BRB. Não passou por pouco. Além de todas essas informações sobre as ligações entre Vorcaro e Brasília, há muito mais elementos dentro do telefone do banqueiro, apreendido pela PF, e na própria cabeça dele. Os promotores estariam tentando negociar um acordo de delação premiada e abrir o telefone para reconstruir essa teia de relacionamentos e, eventualmente, apurar se havia ilícitos por lá. Por enquanto, sem sucesso. 

Vorcaro se entrincheira em um silêncio cúmplice. 

Mas se ele voltar para a cadeia e perceber que está sozinho nessa guerra, que perdeu o banco para sempre, que seu patrimônio pessoal está sob sério risco, dificilmente vai se segurar. Uma delação premiada do banqueiro abalaria a República de uma forma que nunca se viu. Uma bomba nuclear pronta para explodir nas eleições de 2026. Pelo bem do Brasil, fala, Vorcaro!


Carlo Cauti - Revista Oeste

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