Setor é o motor da economia desde o Descobrimento
U m dos cartões-postais mais famosos do mundo, o Pão de Açúcar é chamado assim em referência à massa doce obtida com a secagem do melaço nos antigos engenhos. O açúcar está entre os grandes pilares da formação do Rio de Janeiro e da própria nação, mas a principal matéria-prima deste produto não é nativa. O cultivo ocorre graças a decisões tomadas nos tempos da chegada das caravelas da coroa portuguesa, que patrocinou a importação de mudas de cana-de-açúcar.
Foi política de Estado com visão de futuro. Nenhum governante deveria negligenciar essa relação. Infelizmente, é o que ocorre no atual governo. O principal programa voltado ao agronegócio é o Plano Safra. Quando o presidente Lula disse que os produtores deveriam se ajoelhar pela quantidade de dinheiro destinado ao setor, omitiu um detalhe fundamental: esse recurso é movimentado por meio de empréstimos, e a esmagadora maioria é realizada com juros a preços de mercado, gerando bom lucro para os credores.
E o plano é também mal formulado. Ministro da Agricultura entre 2003 e 2006, Roberto Rodrigues lembra que em sua gestão o Plano Safra tinha critérios como preço mínimo para produção, financiamento por hectare, tipo de produto e região. “Hoje há apenas volume de crédito, nem a taxa de juros está escrita, o quanto que vai ser”, diz. O modelo direcionava o agricultor a fazer escolhas de acordo com diretrizes claras.
Para Rodrigues, o programa precisa ser reformulado e transformado em política de longo prazo, o que permitiria ao produtor se planejar. Em um determinado ano, a ênfase seria maior em empréstimos para formar estruturas de estocagem. No seguinte, para a compra de máquinas. Mais à frente, irrigação. E assim por diante, com os ajustes que se fizessem necessários ao longo do tempo.
Outro fator crítico é o seguro rural. Muitos países subsidiam o prêmio das apólices para baratear o valor do seguro. Agricultores segurados têm menos riscos de dar calote e, portanto, conseguem empréstimos mais baratos. Nos Estados Unidos, onde vigora esse modelo, cerca de 95% da safra tem cobertura; no Brasil, não chega a 5%.
“Se o país tivesse uma política de crédito agrícola que contemplasse os seguros, sobrariam mais recursos para os bancos emprestarem”, explica o ex-ministro. “Com o seguro, o produtor está coberto contra geadas, incêndios e problemas de mercado.” Os norte-americanos entendem a agricultura como infraestrutura crítica, o que a equipara em importância ao setor de defesa. O mesmo acontece na China e na União Europeia.
No Brasil, não. O interesse do produtor é sobreposto por interesses de minorias, avalia Jacyr Costa, Diretor Financeiro da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo e sócio da Agro Advice, ao recordar a questão do Marco Temporal. Havia o entendimento de que os povos originários só poderiam reivindicar áreas comprovadamente já ocupadas por eles em 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição.
A isso dava-se o nome de Marco Temporal. Em 2025, porém, o Supremo Tribunal Federal entendeu a regra como inconstitucional e a incerteza tomou conta da questão. Grandes áreas produtoras estão em regiões que podem se tornar alvo de reivindicação, mesmo sem a menor sombra de indígenas por lá há séculos. Somam-se a isso outras decisões da Corte como o embargo da Ferrogrão, ferrovia fundamental para o escoamento da soja, o principal produto agrícola brasileiro, até os portos da Região Norte.
Embora os indígenas representem menos de 1% da população brasileira, 14% do território está demarcado para eles. É praticamente a metade da área ocupada pelo agronegócio. Além disso, em torno de 70% do território nacional é formado por áreas de preservação ambiental, metade dentro de fazendas. O produtor rural é um grande preservador. Em alguns casos, é obrigado a manter mais floresta do que lavoura e pasto.
Ainda assim, ocorreu uma grande revolução agrícola no país. Na década de 1970, o governo federal entendeu que era necessário eliminar a dependência da importação de alimentos. A solução era povoar os rincões brasileiros, o “integrar para não entregar”. O problema é que o solo era impróprio para o cultivo. A dificuldade se tornou incentivo e resultou na criação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
A partir daí, houve o trabalho conjunto de produtores, cientistas, empresários e políticos. O país desenvolveu a agricultura tropical e, além de prover comida para sua própria população, tornou-se um grande fornecedor de grãos, carne e fibras. Mas muito desse impulso perdeu força ao longo dos anos, e o acesso à tecnologia continua um grande gargalo.
Não basta fornecer as ferramentas, é preciso capacitar a mão de obra. ExCEO da John Deere no Brasil, Paulo Herrmann acredita que os operadores mais bem preparados do país usem no máximo 60% das funcionalidades das máquinas agrícolas. “Estamos subutilizando a tecnologia”, afirma.
“É importante ter programas robustos de qualificação, e o país desarticulou todo o sistema de extensão rural — a rede responsável por levar assistência técnica, capacitação e novas tecnologias aos produtores.” Herrmann defende o uso de ferramentas como WhatsApp, inteligência artificial e telemarketing para atender núcleos de acordo com a região e a cultura.
Algumas empresas usam modelos similares, contudo estruturá-lo como plataforma de Estado traria ganhos em escala. O executivo também chama a atenção para a necessidade de reestruturação da Embrapa. Celso Moretti, que presidiu a instituição de 2019 a 2023, procurou estabelecer os parâmetros para as mudanças que a tornariam menos dependente de recursos públicos. O projeto envolvia a criação do Núcleo de Inovação Tecnológica, órgão destinado a firmar parcerias com o setor privado.
“Cerca de 45% do faturamento voltaria para a pesquisa e desenvolvimento”, explica. O projeto não foi levado adiante pela nova gestão. Outro ponto da remodelagem envolve abandonar estruturas em que a estatal não é mais necessária, caso do melhoramento de sementes de soja, atividade em que o setor privado é autossuficiente.
O agro brasileiro tem de reorganizar seu modelo e suas relações com o Estado, desta vez com foco no mercado internacional. Há bastante espaço para isso. Apenas 5% das vendas agropecuárias brasileiras para outros países estão cobertas por grandes acordos comerciais. Antonio Cabrera, ministro da Agricultura de 1990 a 1992, lembra que o produto brasileiro é carregado de taxas pesadas. “Nossa carne bovina paga 40% de sobretaxa para entrar na Coreia do Sul, enquanto a dos norte-americanos tem alíquota zero”, explica.
São práticas que minam a competitividade do setor e cuja mudança depende de ações do governo. Na contramão, Lula tem optado por alimentar o conflito comercial com os EUA, os maiores importadores de alimentos do mundo. Cabrera chama a atenção para outro problema: a reforma tributária prevista para entrar em vigor em 2027 elimina impostos de alimentos innatura e mantém os dos processados.
A carne de frango não processada, por exemplo, fica isenta, enquanto o nugget segue com alíquota alta. Isso significa que um frigorífico pode optar por processar o produto em outro país com alíquotas mais favoráveis e depois trazê-lo de volta. Além de encarecer o alimento para o consumidor brasileiro, corre-se o risco de um país vizinho lucrar mais com nosso agro do que nós mesmos.
Com carga tributária baixa e juros bem menores, o Paraguai é forte candidato a assumir este papel.
10 propostas para o agronegócio
1. Reformular o Plano Safra como política de Estado de longo prazo.
2. Criar uma política de subsídio ao seguro rural.
3. Reconhecer a agricultura e o abastecimento de alimentos como atividades estratégicas para a segurança nacional.
4. Garantir regras claras e estáveis para o campo e ampliar mecanismos de conciliação de conflitos fundiários e ambientais.
5. Modernizar o sistema de extensão e assistência técnica rural.
6. Reestruturar e promover a autonomia da Embrapa.
7. Ampliar grandes acordos comerciais internacionais.
8. Valorizar e reconhecer o produtor rural como agente preservador do meio ambiente.
9. Ajustar a Reforma Tributária para incentivar a industrialização.
10. Aumentar a competitividade e melhorar o ambiente de negócio
São práticas que minam a competitividade do
setor e cuja mudança depende de ações do governo. Na contramão, Lula
tem optado por alimentar o conflito comercial com os EUA, os maiores
importadores de alimentos do mundo.
Cabrera chama a atenção para outro problema: a reforma tributária
prevista para entrar em vigor em 2027 elimina impostos de alimentos i

