segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Lula foi o mais votado na penitenciária da Papuda, onde estão Vorcaro e Careca do INSS

Flávio fiou em segundo lugar; Michelle foi a mais votada para o Senado



Complexo Penitenciário da Papuda


Lula (PT) foi o candidato mais votado para presidente na seção eleitoral instalada no Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília, no primeiro turno das eleições deste domingo (4). Na seção 0420 da 18ª Zona Eleitoral do Distrito Federal, o petista recebeu 74 votos, contra 70 do senador Flávio Bolsonaro (PL).

Na sequência ficaram Ronaldo Caiado (PSD), com 6 votos; Renan Santos (Missão), com 4; e Augusto Cury (Avante), com 2. A seção registrou ainda 3 votos em branco e 3 nulos.

Dos 185 eleitores aptos, 162 compareceram — cerca de 87,6% — e 23 não votaram. A urna atende presos provisórios, que mantêm os direitos políticos por não terem condenação criminal transitada em julgado. Presos com condenação definitiva não votam.

Entre os aptos a votar no complexo estavam Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, preso preventivamente, o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, e o ex-presidente do INSS Alessandro Stefanutto.

Para o Senado, a mais votada na mesma seção foi Michelle Bolsonaro (PL), com 68 votos, seguida de Érika Kokay (PT), com 62, Leila do Vôlei (PDT), com 58, e Bia Kicis (PL), com 54, segundo registros divulgados por veículos que acompanharam a apuração.

O resultado local contrasta com o cenário nacional do primeiro turno, em que Flávio Bolsonaro liderava a disputa presidencial com a quase totalidade das urnas apuradas. Os números da Papuda constam do boletim de urna do Tribunal Superior Eleitoral.

Diário do Poder

‘Cala a boca, Janja’, diz mãe de Nikolas, ‘mexeu com o piá errado’ de 3,1 milhões de votos

A mãe do deputado Npuxa o coro de “cala a boca, Janja”, após o filho se tornar o deputado federal mais votado da história


Ruth Ferreira, mãe do depuado Nikolas Ferreira - Foto: reprodução das redes sociais.

No comitê de campanha de Nikolas Ferreira (PL-MG), em Belo Horizonte, a mãe do deputado, Maria Ruth Ferreira de Oliveira, respondeu neste domingo (4) às ofensas da primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, com a frase que circulou nas redes: “Cala a boca, Janja”, que completou: “mexeu com o piá errado”.

Ruth levantou o coro de “cala a boca, Janja” entre apoiadores que acompanhavam a apuração e, apontando para o telão com os números do Tribunal Superior Eleitoral, ironizou: “Olha aqui o piá de bosta”. No mesmo painel, uma montagem exibia a expressão “piá de ouro”, em contraste com o xingamento usado pela primeira-dama. O público repetiu gritos contra Janja. Nikolas conquistou 3,1 milhões de votos, maior votação de um deputado federal na História do Brasil.

A troca de ataques vinha da reta final da campanha. Em 29 de setembro, em ato de Lula (PT) em Salvador, Janja chamou Nikolas de “piá de bosta”. Ela explicou que a expressão é usada no Paraná — “piá” significa menino — para quem “faz alguma coisa errada” e afirmou que o deputado deveria “lavar a boca” antes de falar do presidente e ainda precisaria “comer muito arroz com feijão” para se comparar a ele. Lula, no mesmo palanque, referiu-se ao parlamentar como “canalha”.

Janja repetiu o termo nos dias seguintes. Em Belo Horizonte, na sexta-feira (2), disse “um salve para todo mundo de Minas Gerais, menos para o piá de bosta” e que “Minas é muito maior que esse piá de bosta”. No Rio de Janeiro, voltou a usar a expressão. Nikolas respondeu em comício e nas redes que o ataque seria “um elogio” e perguntou por que “um jovem de 30 anos, que nasceu na favela”, teria feito a primeira-dama “perder a linha”.

O estopim foi um vídeo em que Nikolas criticou uma fala de Lula sobre mulheres serem “tocadas” desde cedo, atribuindo conotação sexual ao trecho. A campanha do presidente sustentou que a declaração foi retirada de contexto — ligada, segundo o Planalto, a exames preventivos e à resistência masculina aos cuidados de saúde — e acionou o TSE pedindo a retirada das publicações.

Nas urnas, a resposta veio em votos. Com a apuração praticamente encerrada em Minas Gerais, Nikolas foi reeleito com cerca de 3,119 milhão de votos, segundo registros da noite de domingo, e se tornou o deputado federal mais votado da história do Brasil. Superou a própria marca de 2022, quando recebeu cerca de 1,49 milhão de votos e já havia sido o mais votado do país naquele pleito, e ultrapassou o recorde anterior de Eduardo Bolsonaro, de cerca de 1,84 milhão em 2018. O segundo colocado na disputa histórica desta eleição foi Lucas Pavanato (PL-SP), com cerca de 3,038 milhão de votos.

A cena no comitê — a mãe do deputado devolvendo em público o xingamento da primeira-dama diante do placar da apuração — sintetizou o tom da reta final em Minas: ofensa pessoal de um lado, recorde de votação do outro.


Diário do Poder

domingo, 4 de outubro de 2026

Vídeos: Ex-presidiário Lula ignora lei e pede voto na boca de urna, e ainda joga no chão a bandeira do Brasil

Descondenado esteve acompanhado de Alckmin, Haddad, Tebet, Marina e Padilha... Tuti buoma gente


  Petista votando nas eleições de 2026. (Foto: Redes sociais).

O presidente e candidato à reeleição Lula (PT) votou neste domingo (4), em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, e parecia tão à vontade que até mesmo chegou a pedir votos a jornalistas.

O detalhe é que, no dia da eleição, pedidos de voto são proibidos e podem caracterizar crime de boca de urna, conforme o artigo 39, § 5º, II, da Lei nº 9.504/1997.

Antes disso, o atual presidente da República posou para fotos segurando a bandeira do Brasil no local de votação, ao lado do seu vice, Geraldo Alckmin, e nesse momento fez um gesto transmitido pela TV registrado em imagens que viralizaram: ele amassa a bandeira e depois a descarta, usando a mãos esquerda. As imagens não mostram a bandeira no chão, mas nada indica que tenha acontecido algo diferente disso. Até mesmo seu prestimoso fotógrafo pessoal não conseguiu evitar o gesto porque apareceu apenas na sequência.

Lula chegou ao local de votação por volta das 9h05, acompanhado de Alckmin, do candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad (PT), das candidatas ao Senado Simone Tebet (PSB) e Marina Silva (Rede), além do ministro da Saúde, Alexandre Padilha.

Após votar, o petista falou sobre a importância da escolha dos eleitores:

“As pessoas têm que votar pensando no Brasil, nos filhos, nos netos, no futuro que vão deixar”, afirmou.

Veja os vídeos abaixo:

Diário do Poder 

sábado, 3 de outubro de 2026

'O tiro saiu pela toga', escreve Pedro Henrique Alves

 Ao interferir no debate da Globo, Judiciário pode ter dado a Flávio o argumento que faltava para reta final


'Gilmar é um dos conhecidos portos seguros das ações judiciais que afetam Lula no STF', escreve Pedro Henrique Alves | Foto: Divulgação/Oeste 


Quinta-feira foi um dia ímpar para a política no Brasil. Após Gilmar Mendes mudar as diretrizes da Globo para encaixar Renan Santos no debate, e Estela Aranha, juíza do TSE, proibir que Lula fosse questionado e que a emissora carioca deixasse o seu púlpito vazio no estúdio, os céticos e moralmente míopes que até então diziam que as interferências judiciais nas eleições para favorecer Lula não passavam de uma conspiração, finalmente puderam constatar o óbvio por meio do maior canal televisivo do país. E o melhor, com os seus próprio olhos. 

Gilmar é um dos conhecidos portos seguros das ações judiciais que afetam Lula no STF. Há tempos que nem mesmo o mais aguerrido jornalista esquerdista consegue negar isso. Estela, por sua vez, desde antes de receber o cargo no TSE, se assumia publicamente como lulista ‒ temos até vídeo a esse respeito, segura a censura, Moraes. Não entrarei na obviedade que Estela e Gilmar envergam até na alma aquilo que todos os juízes jamais deveriam ser: parciais. E nem choverei no molhado ao dizer que a democracia acaba quando tribunais superiores favorecem candidatos determinados. Respeito demais a inteligência de quem está lendo.

Fato é que o negócio foi tão escrachado, desesperado e imprudente que até mesmo os jornalistas de esquerda ficaram espantados. Algo como: “Orra… mas nem disfarçaram desta vez”. Pois é, não disfarçaram. As decisões de Mendes e Aranha foram claras demais para que a já batida “defesa da democracia” fosse o suficiente para convencer meia dúzia de desavisados. E por isso mesmo julgo que o grande revés da esquerda, pós quinta-feira, está na derrocada da narrativa principal. Está mais do que claro que não é “pela democracia”, e sim por Lula. 


Tribunais jogam para Lula

Isso porque falar de imparcialidade eleitoral dos ministros virou papo de maluco; hoje TSE e STF estão para a imparcialidade tal como os bordéis estão para a castidade. Temo que a grande mídia não conseguirá mais embalar o argumento de que eles estão aí para garantirem a democracia e a lisura eleitoral. Não cola mais. A reboque, o Judiciário conseguiu dar razão a pelo menos três das principais teses da campanha de Flávio Bolsonaro: 1. Estamos sob uma ditadura do Judiciário; 2. O Judiciário trabalha em prol de Lula; 3. Logo, a ação seguinte de uma população minimamente sensata é se unir contra a esquerda e o sistema. 

Além disso, Flávio Bolsonaro sofria para se vender como o candidato que defenderia a liberdade de expressão em suas múltiplas subdivisões, mas foi justamente a imagem do “Flávio defensor de liberdades” que STF e TSE, sem querer, ajudaram a desenhar no imaginário popular depois de quinta-feira. Era Flávio ‒ ainda na quinta ‒ quem defendia a liberdade de imprensa da Globo, enquanto a esquerda, entre calados e “veja como isso é bom”, brigava para enfeitar o cocô de Gilmar e Estela. Talvez, ao final, o tiro tenha saído pela toga.


A ditadura do Judiciário 

Afinal, antropologicamente, o sentimento popular tende a se envergar para apoiar os injustiçados. Ao protegerem Lula, os juízes deixaram a sensação imediata de que o sistema ‒ o mesmo sistema que ninou Vorcaro em peitos fofos ‒ quer que Lula se mantenha no poder a todo custo. Para os ainda lúcidos, o Judiciário tornou a escolha de domingo mais fácil. Se até há poucos dias uma resistência moral, política e até mesmo ideológica se interpunha entre parte da população e Flávio, acredito que Gilmar e Estela arranjaram um porquê de vencê-la. 

Muitos colegas de redação vêm apurando um movimento que eu mesmo confirmo por minhas vias: eleitores de Caiado, Zema, Cury e até alguns de Renan, vêm dizendo que depois da pataquada na Globo eles iriam apoiar Flávio já no primeiro turno. 

Se tivesse um jogo do bicho para presidentes ‒ já que Lula recém descobriu que as bets são do capeta ‒, apostaria com força num maciço crescimento de Flávio na votação de domingo. E se é minimamente verdade que o povo não é trouxa, então agora ele sabe quem é o candidato do sistema, o que tal sistema faz para proteger os seus, e por que ele apoia Lula.

Pedro Henrique Alves - Revista Oeste

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

'Empresário' que opera na educação, no futebol e na produção de habeas corpus, Gilmar Mendes telefona para donos de veículos de comunicação depois de críticas ao STF

Decano contatou proprietário de grande emissora e publisher de jornal de circulação nacional; ministro não respondeu a Oeste


 

O ministro Gilmar Mendes, do STF, durante evento na Universidade Presbiteriana Mackenzie - 13/11/2023 | Foto: André Ribeiro/Estadão Conteúdo


Nas últimas semanas, o decano do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, telefonou para proprietários de veículos de comunicação.

Conforme apurou Oeste, Gilmar procurou o dono de uma grande emissora de televisão e o publisher de um jornal de circulação nacional para expressar sua insatisfação com editoriais e reportagens negativas ao STF.

As conversas ocorreram em um momento em que veículos tradicionais subiram o tom contra ministros em virtude do escândalo do Banco Master e, mais recentemente, das intervenções do STF em temas ligados à Justiça Eleitoral. 

Em 25 de agosto, a coluna revelou que Gilmar e Flávio Dino falaram com empresários no entorno do relator do Master no tribunal, André Mendonça, para eles se afastarem do juiz do STF..

À época, Oeste pediu um posicionamento do decano do tribunal. Assim como naquela ocasião, Gilmar não se manifestou desta vez. O espaço segue aberto.

Cristyan Costa - Revista Oeste


Em tempo: 'Empresário' que opera na educação, no futebol e na produção de habeas corpus para beneficiar criminosos, Gilmar Mendes telefona para donos de veículos de comunicação depois de críticas ao STF

Além dos EUA e Austrália, Reino Unido e Canadá fazem aviso sobre o Brasil

Os quatro países integram a aliança de inteligência Five Eyes, que inclui também a Nova Zelândia


Países membros da Five Eyes; EUA, Reino Unido, Canadá, Austrália e Nova Zelândia. FOTO: MI5

Estados Unidos, Austrália, Reino Unido e Canadá divulgaram, desde o início dessa semana, avisos ou medidas de segurança relacionados ao Brasil, às vésperas do primeiro turno das eleições, no domingo (4). Os quatro países representam 80% da “Five Eyes”, aliança de compartilhamento de inteligência que tem ainda a Nova Zelândia.

EUA e Austrália são casos mais extremos; anunciaram o fechamento das representações diplomáticas no Brasil, mas tanto o Reino Unido, quanto o Canadá alertam viajantes ao Brasil sobre perigos relacionados à eleição e eventuais protestos ou manifestações por conta da votação. A Nova Zelândia é o único país da aliança de inteligência que ainda não fez avisos sobre o Brasil.

Estados Unidos

A embaixada e os consulados dos Estados Unidos no Brasil informaram, em alerta de quinta-feira (1º), que os serviços consulares seriam suspensos a partir desta sexta-feira (2), “devido a preocupações de segurança”. Cidadãos americanos que precisem de assistência de emergência foram orientados a não se dirigir à embaixada, aos consulados ou a outras instalações diplomáticas americanas e a contatar o plantão.

O Departamento de Estado não detalhou a natureza da preocupação. Em nota atribuída a um porta-voz, afirmou que trabalha com as autoridades brasileiras. A agência de notícias Reuters registrou que o departamento não vinculou publicamente a suspensão à eleição de domingo nem informou quando os serviços serão retomados.

Austrália

O Smartraveller, serviço oficial de viagem da Austrália, foi atualizado nesta sexta-feira (2). O texto informa que a embaixada australiana em Brasília ficaria fechada nesse dia por preocupações de segurança e que australianos que precisem de assistência consular urgente devem contatar o centro de emergência em Camberra.

A atualização reproduz o alerta americano e recomenda que australianos evitem a embaixada, os consulados e outras instalações diplomáticas dos Estados Unidos no Brasil, além das áreas adjacentes. Também registra o primeiro turno em 4 de outubro, um eventual segundo turno em 25 de outubro e a posse presidencial, em Brasília, em 5 de janeiro de 2027, com possibilidade de reuniões políticas, manifestações e reforço de segurança.

Sobre terrorismo, o texto australiano diz que se trata de uma ameaça mundial, que ataques podem ocorrer em qualquer lugar e a qualquer momento, e que terroristas podem mirar áreas turísticas, locais frequentados por estrangeiros e grandes aglomerações. Não aponta uma ameaça específica no Brasil. O nível geral de cautela para o país permanece o mesmo: “exercise a high degree of caution”, por crime violento.

Reino Unido

O Foreign, Commonwealth & Development Office (FCDO) atualizou o aviso a viajantes sobre o Brasil na terça-feira (29). A nota da atualização informa que foram incluídos dados sobre as eleições de 4 de outubro e sobre eventos políticos.

O texto diz que o primeiro turno ocorre em 4 de outubro, o segundo turno está marcado para 25 de outubro e a posse, em Brasília, em 5 de janeiro. Acrescenta que protestos e manifestações podem ocorrer sem aviso prévio e que a situação pode mudar rapidamente. Na página de segurança, o FCDO afirma que mesmo eventos pacíficos podem se tornar confrontos e evoluir para violência, e que a polícia já usou balas de borracha e gás lacrimogêneo para dispersar manifestantes.

As recomendações são evitar comícios políticos, protestos e manifestações, acompanhar a imprensa local, seguir as autoridades locais e deixar o local se o viajante encontrar um protesto ou se sentir desconfortável em uma multidão. O Reino Unido não anunciou fechamento de embaixada nem suspensão de serviços consulares. O aviso contra viagens não essenciais continua restrito a trechos de rios no oeste do Amazonas.

Canadá

O Global Affairs Canada atualizou o aviso sobre o Brasil em 2 de outubro, às 13h no horário de Ottawa. A nota da atualização diz que foi acrescentada, na seção de segurança, informação sobre o alerta dos Estados Unidos, com a reprodução do texto americano sobre a suspensão dos serviços consulares.

O mesmo aviso informa que o Brasil realizará eleições gerais em 4 de outubro de 2026, com segundo turno em 25 de outubro, se necessário, e que pode haver reuniões políticas, manifestações e reforço de segurança antes, durante e depois do pleito. As orientações são evitar áreas de manifestações e grandes aglomerações, seguir as autoridades locais e acompanhar a imprensa. A conta oficial @TravelGoC havia publicado esse trecho eleitoral em 29 de setembro.

O nível canadense para o Brasil não mudou: “exercise a high degree of caution”, por crime e violência urbana, com ressalvas já existentes para faixas de fronteira e para os complexos da Maré e da Penha, no Rio de Janeiro.

Aliança Five Eyes

Five Eyes é a aliança de inteligência formada por Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Austrália e Nova Zelândia. Nasceu do acordo UKUSA, firmado em 1946 entre Estados Unidos e Reino Unido no pós-guerra, e foi ampliada com a entrada dos outros três países. O arranjo prevê o compartilhamento de informações de inteligência, inclusive sobre segurança.

Tiago Vasconcelos - Diário do Poder

Flávio Gordon - 'O império da força e a abdicação da imprensa'

Jornalistas começam a nomear corretamente, ainda que aos sussurros


Foto: Montagem Revista Oeste/IA


“A mentira voa, e a verdade vem mancando atrás dela.” (Jonathan Swift, The Examiner, nº 14, 1710) 


Na terça-feira, 29, o comentarista Leonardo Barreto acabara de dizer, ao vivo na CNN Brasil, que nosso país talvez já não esteja — segundo sua lírica formulação — “no leito institucional”. Notando estar diante de uma declaração grave, o apresentador William Waack pediu-lhe para confirmar. O cientista político respondeu que preferia não ter ouvido a pergunta. O constrangimento durou dois segundos e disse mais sobre o país do que cem colunas de opinião: a imprensa começa a nomear corretamente, ainda que aos sussurros e pedindo licença, aquilo que passou sete anos confundindo com “defesa da democracia”.

Barreto, afinal, venceu o medo e confirmou. Disse que o país já experimenta “muito mais a força do que o leito institucional” e que o pedido de um deputado — no caso, o sabujo Paulinho da Força (Solidariedade-SP) — para que uma ala do Supremo destitua a cúpula do TSE tem “roupagem jurídica, mas é força”. Waack concordou e admitiu chamar o grupo formado por Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes e Flávio Dino de “a ala da força” no STF. 

No mesmo dia e na mesma emissora, em entrevista à jornalista Thais Herédia, a constitucionalista Vera Chemim descreveu o Supremo como um tribunal “em que vale tudo”, no qual a Constituição virou “um mero detalhe”. E foi além, admitindo que a conduta da “ala da força” poderia servir de roteiro para a anulação da eleição. 

Em suas palavras: “Nós só podemos deduzir que toda essa conduta praticada principalmente pelo ministro Flávio Dino, sem falar do ministro Gilmar Mendes e do próprio ministro Alexandre de Moraes, é propositadamente direcionada para causar uma instabilidade jurídica e, sobretudo, uma instabilidade no âmbito do TSE, caso o ministro Nunes Marques não faça valer a sua autoridade enquanto presidente do Tribunal Superior Eleitoral e, ao mesmo tempo, o ministro Edson Fachin não se faça respeitar enquanto presidente do Supremo Tribunal Federal. Se isso continuar acontecendo, nós podemos ter uma eleição permeada por vários fatores que, com certeza, irão causar perturbação e, o que é pior, poderão servir de fundamento, de argumento, para uma suposta anulação do pleito eleitoral. Eu realmente não descarto essa conclusão que acabei de colocar, de se levantar qualquer tipo de fundamento para anular o pleito.”


O ministro do STF, Flávio Dino | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasi

Sejam bem-vindos ao Brasil real, prezados jornalistas e comentaristas da velha imprensa. Seu diagnóstico está correto, embora chegue com o frescor da década passada. Evoé! A imprensa descobre que o Supremo usa a força com o espanto de quem passou sete anos segurando a tocha e só agora percebe que o fogo queima. Queimava antes, é claro. Mas queimava os outros.

Para entender quem acendeu a tocha, todavia, convém recuar um pouco. Durante três décadas, a Nova República encenou aquilo que o professor Olavo de Carvalho batizou celebremente de “teatro das tesouras”: duas lâminas do mesmo instrumento fingindo cortar em direções opostas. Tucanos e petistas trocavam insultos no plenário e cartões de Natal nos bastidores. O PSDB fazia o papel de direita num país sem direita, com a convicção de um ator de novela interpretando o vilão, e todos concordavam no essencial: o Brasil conservador, religioso e desconfiado de um Estado cada vez mais socialista podia votar, desde que votasse num dos dois. 

Em 2018, o público subiu ao palco. A vitória de Jair Bolsonaro foi um raio em céu azul, e a elite política, cultural e financeira reagiu como reagem as aristocracias diante do plebeu que ousa sentar-se à mesa: com nojo. Semanas antes do pleito, aliás, José Dirceu já informara a El País que o PT voltaria para tomar o poder, coisa que, ensinou ele, nada tem a ver com ganhar eleição. Ninguém levou a sério. Deveria. Era o anúncio do golpe luloalexandrino contra o bolsonarismo, e os atores já estavam escalados.



A vitória de Jair Bolsonaro foi um raio em céu azul | Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil


Primeiro, era preciso retirar do vencedor a legitimidade. A Folha de S.Paulo forneceu a matéria-prima inicial: a reportagem da ultrapetista Patrícia Campos Mello, que, às vésperas do segundo turno, lançou a tese dos disparos em massa financiados por empresários, robôs e mentiras em escala industrial, semente da narrativa golpista. O povo não escolhera; fora hipnotizado. Nascia ali o dicionário da oligarquia ressentida: “fake news”, “discurso de ódio”, “gabinete do ódio”, “desinformação”, “ataque à democracia”. Termos elásticos o bastante para abrigar qualquer adversário e vagos o bastante para dispensar qualquer prova. 

Numa obra clássica, Estigma (1963), o sociólogo canadense Erving Goffman explicou como se fabrica um estigma social: começa na linguagem, produz uma identidade deteriorada e termina quando o rótulo engole a pessoa inteira. “Bolsonarista” seguiu o manual à risca. De designação política, virou marca de lepra moral, dessas que autorizam os sãos a atravessar a rua. E, contra o leproso, como se sabe, a lei não precisa — nem deve — ser aplicada com justiça. Há que aplicá-la com força exemplar. 

O protocolo de quarentena começou antes mesmo da posse. Em 13 de novembro de 2018, Rosa Weber, então presidente do TSE e ministra do Supremo, presenteou o mandatário eleito com um exemplar da Constituição. Não me recordo de outro presidente brindado com semelhante pedagogia. Era o gesto de quem entrega o código de trânsito ao motorista recém-contratado, com um olhar de suspeita: dirija, mas saiba que estamos vigiando. Governe, mas saiba que o seu mandato é uma concessão de nossa parte.

A vigilância não tardou a virar perseguição. Em março de 2019, como se sabe, Dias Toffoli abriu de ofício o Inquérito 4.781 e entregou sua relatoria, sem sorteio, a Alexandre de Moraes. O Supremo tornou-se, num só gesto, vítima, delegado, promotor e juiz, uma Santíssima Trindade com um membro a mais. Marco Aurélio Mello, que a história há de honrar por ter destoado dos pares, chamou a criatura de “Inquérito do Fim do Mundo”. 

Raquel Dodge, então procuradora-geral da República (cargo que ainda não havia sido inteiramente desmoralizado pelo gandaieiro Paulo Gonet), mandou arquivá-lo, alertando para a guinada da Corte rumo a um “tribunal de exceção” (palavras dela). Foi solenemente ignorada, e o fim do mundo segue transcorrendo até os nossos dias. Sob o nome perfumado de “democracia defensiva” — versão contemporânea da “democracia militante” (streitbare Demokratie) de Karl Loewenstein —, instalou-se a exceção permanente. 

Jornalistas, parlamentares, empresários, humoristas e cidadãos comuns foram tragados pelo buraco negro jurisdicional, pelo “crime” de serem ou parecerem bolsonaristas. O juiz natural virou peça de museu. Em 2020, Jair Bolsonaro foi impedido, por decisão monocrática de Moraes, de empossar Alexandre Ramagem na direção-geral da Polícia Federal, prerrogativa que a lei assegura com todas as letras ao presidente da República. É que as letras, àquela altura, já eram o que Vera Chemim diria seis anos depois: um mero detalhe.

 Recorrendo ao jurista americano Alec Stone Sweet, já em 2022 apliquei aqui nestas páginas o nome exato ao fenômeno: golpe de Estado jurídico, aquele em que uma Corte usa o poder que a Constituição lhe confere para reescrever a própria Constituição, até que o novo sistema já não possa ser deduzido do antigo. O golpe jurídico dispensa tanques porque tem toga, e sua marca registrada é a repetição obsessiva da palavra “democracia” na boca de quem desmonta a liberdade de expressão e o devido processo legal. Olavo notou que os assassinos da democracia sempre acusam de antidemocrático quem tenta salvá-la. 

O Brasil fez disso jurisprudência. E a história conhece o precedente: como mostrou Rainer Zitelmann em Hitler: Anticapitalista e Revolucionário, a “revolução legal” alemã de 1933 dispensou barricadas e jamais revogou formalmente a Constituição de Weimar. Bastou esvaziá-la por dentro, com toda a papelada em ordem.

O bolsonarismo fez então o que os democratas de ocasião exigiam: bateu à porta das instituições. O Senado sentou-se sobre os pedidos de impeachment com a firmeza de uma galinha no choco, e hoje, diante das mensagens afetuosas entre Davi Alcolumbre e Daniel Vorcaro, e Macallan de três milhões de reais que o banqueiro serviu a Moraes, Toffoli, Gonet, Andrei, Lewandowski e Hugo Motta em Londres, compreendemos melhor aquela serenidade. Os pares de Moraes no Supremo calaram ou aplaudiram. E a imprensa, que se diz cão de guarda da República, preferiu o colo: chamou a censura de “combate à desinformação”, a prisão de opositores de “defesa da democracia” e o arbítrio de “coragem”. 

Naquele tempo, o agora tóxico Alexandre de Moraes — que sempre agiu exatamente como hoje, com seus gabinetes paralelos, seus capangas, comparsas e procedimentos clandestinos — era tido por “a muralha” da democracia. Com o Senado no choco, o Supremo em bloco e a imprensa no colo, restou a uma parcela desesperada do campo conservador apelar às Forças Armadas. 

O diagnóstico estava certo; a esperança, não. Como o bolsonarismo já percebia com clareza a vigência de um regime de força, no qual se lhe aplicava o mais castiço “direito penal do inimigo”, surgiu naturalmente a ideia de recorrer ao poder moderador da instituição responsável constitucionalmente pela administração da força (art. 142). Ocorre que o Alto Comando já vinha sendo catequizado de fora.

Segundo relato do professor Oliver Stuenkel, da FGV, exibido com entusiasmo pela GloboNews e por mim analisado aqui na coluna, o governo Biden montou uma campanha de pressão sobre os militares brasileiros, com visitas do secretário de Defesa e do diretor da CIA em pleno ano eleitoral, listas de generais classificados como confiáveis ou suspeitos e a ameaça de cortar a cooperação militar caso o resultado fosse contestado. 

A esquerda, que passou 60 anos gritando que o golpe de 1964 começara em Washington, descobriu, encantada, que Washington podia ser uma excelente aliada, desde que o alvo fosse a direita. Na ocasião, a jornalista Natuza Nery sorria radiante para a “interferência americana” concretizada, a mesma “interferência americana” que hoje, em forma de mera conjectura, a faz franzir o cenho.

A conta da pressão externa chegou em 9 de janeiro de 2023. Manifestantes que confiaram nos quartéis, pois os comandantes das três forças lhes haviam assegurado que suas manifestações pacíficas estavam amparadas pela Constituição, foram emboscados, metidos em ônibus sob a promessa de segurança e desembarcados num ginásio da Polícia Federal: mais de mil pessoas, incluindo idosos e crianças, detidas em bloco, sem individualização de condutas. Gustavo Henrique Dutra, um dos generais responsáveis, relatou depois, com orgulho de aluno aplicado, o telefonema em que o novo presidente exigia a prisão de todos. 

Andrei Rodrigues, chefe da polícia política do regime, quis registrar as prisões políticas no Guinness, o livro dos recordes. Moraes avisara que havia muita gente para prender. E Barroso resumiria a filosofia do regime de exceção num “Perdeu, mané” e num “Derrotamos o bolsonarismo”. Alguns militares da reserva batizaram a data de Dia da Perfídia. O nome pegou, porque era exato. O epílogo foi o processo que, em 2025, condenou Bolsonaro por um golpe que, além de não sê-lo, jamais saiu do papel, enquanto o golpe que de fato ocorreu, o de toga, seguia seu curso sob aplausos das redações e da beautiful people. 

Os aplausos, contudo, começam a rarear. Foi o mesmo William Waack da conversa com Barreto que, no dia seguinte à infame sessão do último dia 15 de setembro no STF, em referência ao que chamou de “ala da força” na Corte, evocou a célebre advertência de Miguel de Unamuno aos franquistas. Em 12 de outubro de 1936, já velho e doente, o reitor da Universidade de Salamanca (por coincidência, a mesma instituição em que o ministro André Mendonça fez o seu doutorado em direito) disselhes, no paraninfo da instituição, que venceriam, porque lhes sobrava força bruta, mas não convenceriam, porque lhes faltava razão. 

A citação, convenhamos, não poderia ser mais perfeita, com o pequeno inconveniente de chegar tarde demais, depois que a força bruta já havia vencido tudo o que tinha para vencer e que a razão, expulsa das redações com a mesma sem-cerimônia com que foi expulsa dos tribunais, já não encontrava quem a quisesse ouvir.


William Waack, no Jornal da CNN | Foto: Reprodução/CNN

O regime não mudou de natureza, mas apenas de alvo. É essa mudança, e não algum súbito despertar da consciência jurídica nacional, que explica a recente lucidez de comentaristas que, enquanto a força esmagava bolsonaristas, enxergavam ali a mais pura expressão do Estado de Direito. Agora que os ministros se engalfinham e a própria Justiça Eleitoral virou butim disputado a golpes de petições incidentais, essa imprensa parece disposta a admitir que o rei está nu. Mas o rei já estava nu em 2019, quando boa parte dos nossos jornalistas lhe exaltava o caimento da toga. 

Não se pede à imprensa, por óbvio, que se desculpe com o bolsonarismo, o que seria exigir demais de uma corporação que jamais pediu desculpas a ninguém e que tem na própria infalibilidade a mais firme de suas superstições. Pede-se apenas que, uma vez disposta a contar a história política do Brasil de nossos dias, não a conte pela metade. Que reconheça o seu papel crucial no colapso institucional, uma vez que, por mero desprezo político, abdicou da função de fiscalizar o poder e aceitou o arbítrio porque o alvo lhe convinha.

O regime luloalexandrino não nasceu ontem, nem na guerra de ofícios entre Dino e Mendonça, ou entre Gilmar e Fux. Nasceu quando a Nomenklatura da Nova República, inconformada com a irrupção de um eleitorado que julgava domesticado, decidiu que o resultado das urnas de 2018 era um erro a ser corrigido, e que para corrigi-lo, valia tudo, inclusive aquilo que os analistas da grande imprensa hoje chamam, com ar de novidade, de “força”. 

É com esse passado recente que o jornalismo brasileiro precisa acertar as contas, nem que seja por um elementar instinto de sobrevivência — ou melhor, de renascimento. Lima Barreto, que pagou com o ostracismo o pecado de retratar o Correio da Manhã, sob o nome ficcional (e profético) de “O Globo“, como “o quarto poder fora da Constituição”, não poderia imaginar que, um século depois, a imprensa brasileira trocaria a ambição de ser ela própria um poder pela comodidade de servir a outro, condenando-se, com isso, às raias da extinção.


Flávio Gordon - Revista Oeste