Ao castigar Flávio Bolsonaro com a proibição de visitar o pai, Alexandre de Moraes patrocina novamente uma farsa política travestida de questão jurídica
Alexandre de Moraes | Foto: Reuters/Adriano Machado
P ara começar, Jair Bolsonaro não deveria ter sido preso — nem ele nem os populares que Alexandre de Moraes caçou implacavelmente depois dos atos do 8 de janeiro, como demonstrou o ministro Luiz Fux no único voto técnico e isento proferido em um julgamento condenado à anulação e à reparação das tantas vítimas que o STF fez. Isso posto, e enquanto o país evita encarar a ilegitimidade das decisões de Moraes, sete meses depois do escândalo envolvendo as relações dele e de sua mulher com o banqueiro preso em razão do maior golpe já praticado contra o sistema financeiro, uma nova campanha eleitoral está prestes a começar e as cartas, como em 2022, parecem estar marcadas.
No sábado, 11, uma carta de Jair Bolsonaro veio a público para informar que Flávio Bolsonaro é seu porta-voz, e para reafirmar que o filho zeroum é o nome em que ele deposita suas esperanças “para livrarmos o Brasil da corrupção, da violência e do empobrecimento”.
Parênteses: das três palavras que o capitão plasmou no papel, com seu garrancho, “corrupção” deve ter sido a mais indigesta para Moraes, que há mais de sete meses não dá satisfações à sociedade sobre que diabo de negócio foi aquele que sua mulher firmou com Daniel Vorcaro no valor de R$ 129 milhões, cifra que escandalizou as bancas mais renomadas do país.
O ex-banqueiro Daniel Vorcaro e a advogada Viviane Barci, mulher do ministro do STF Alexandre de Moraes - Foto: Reprodução/X
Moraes viu “desvio de finalidade” no ato de Flávio, e antes de ir adiante convém lembrar que esta também foi sua alegação para anular a concessão da graça presidencial ao ex-deputado Daniel Silveira. Esse conceito calha muito bem com a vontade de Moraes de punir quem quiser, e como quiser, atuando no terreno da subjetividade. Se a lei e a justiça não servem para seu propósito, sempre haverá o terreno da “interpretação”. Este terreno fica no seu próprio quintal — o conjunto de decisões abusivas que vem tomando desde março de 2019, com a abertura do infamante Inquérito das Fake News (4.781).
Para ser coerente, Moraes se referencia em… Moraes. É a jurisprudência do arbítrio. Com base nela, construiu sua decisão de separar pai e filho. “Desvio de finalidade”. O problema de acusar o advogado Flávio de usar com fins políticos o seu acesso a Bolsonaro é que Lula se serviu deste mesmo recurso durante o período em que esteve preso na carceragem da Polícia Federal em Curitiba, entre abril de 2018 e novembro de 2019. Fernando Haddad, escolhido para disputar a presidência em 2018, valeu-se da condição de advogado para despachar rotineiramente com Lula na prisão. Idem, Gleisi Hoffmann.
Até mesmo um tesoureiro do PT recebeu procuração para ter acesso ao chefe e discutir assuntos do partido e da campanha. E cartas? Lula, em seus 580 dias de prisão, escreveu dezenas, se incluídos os bilhetes de cunho político e eleitoral. Não se sabe quantas correspondências foram, mas podem ter chegado a mais de meia centena. As mais importantes foram lidas em atos políticos que reuniam os petistas em vigília por Lula. Gleisi fez a leitura da primeira carta, em abril de 2018, no acampamento “Lula Livre”. O então advogado de Lula, Cristiano Zanin, hoje membro do STF, fez a leitura de outra carta diante da imprensa. Tornou-se uma situação banal.
“Nunca cogitei cercear o direito de visita ou de correspondência de Lula”, escreveu, na rede X, o senador Sérgio Moro (PL-PR). O ex-juiz da 12ª vara federal de Curitiba, que coordenou a Operação Lava Jato e sentenciou Lula em primeira instância, lembrou que em 2018 Lula recebeu 572 visitas na prisão, inclusive de Haddad. E que, ao deixarem o local, os visitantes tinham liberdade para contar à imprensa o que quisessem sobre o encontro. “Já Bolsonaro agora não pode mais receber visitas de seu filho, Flávio Bolsonaro, na prisão domiciliar e, pelo jeito, também não tem assegurado o direito de correspondência previsto na lei para todo preso. Falta proporcionalidade e legalidade à decisão do ministro Moraes”, postou Moro.
A comparação entre o tratamento dado pelo STF a Lula, em 2018-2019, e a Bolsonaro, em 2026, mostra uma disparidade estarrecedora. Enquanto cumpria pena, Lula concedeu 22 entrevistas para a imprensa do Brasil e do exterior. BBC News, da Inglaterra, e El País, da Espanha, puderam conversar com ele e amplificar, para o mundo, suas imprecações contra a Operação Lava Jato e o ministério público.
Bolsonaro, por sua vez, está politicamente intubado. Não pode conceder entrevistas, porque Moraes está à espreita — dele e de quem for entrevistá-lo. Pedidos não faltam, inclusive porque, ao que se sabe, não há entrevistado que rivalize com o ex-presidente em capacidade para turbinar a audiência de qualquer veículo. Até mesmo jornalistas que nos últimos anos aplaudiram ou se mostraram compreensivos com os abusos de Moraes, na crença de que fins justificam meios, questionam agora por que, afinal, o regime precisa impor ao capitão a pena de silenciamento.
Nesse contexto, o STF, em queda de livre nos índices de aprovação popular, já sente a ferrugem lhe comer. Como conta o repórter Cristyan Costa nesta edição de Oeste, o STF está dividido e claramente hesita sobre o rumo a seguir. É certo que o núcleo duro do regime STF-PT, liderado por Gilmar Mendes, Moraes e Flávio Dino, ainda pode contar com a colaboração acabrunhada de Cármen Lúcia, e com o pragmatismo com punhos de renda de Cristiano Zanin.
O bloco ainda tem, à sua mercê, o dócil Paulo Gonet, colocado na Procuradoria-Geral da República pelo ex-sócio, Gilmar Mendes. Mesmo sendo chefe do Ministério Público e, portanto, fiscal da aplicação da lei, Gonet parece conformado com a reles missão de não criar problemas para Moraes e muito menos para Gilmar.
Do outro lado, porém, está Edson Fachin, presidente da Corte, agastado com as críticas que Gilmar lhe dirige publicamente e com o apelido de “Frachin”. Em rota claramente divergente do trio Gilmar-Moraes-Dino, entrincheiram-se Luiz Fux e André Mendonça. Junto a eles, mas com a previsibilidade de uma biruta de aeroporto, desponta Kassio Nunes Marques, que preside o Tribunal Superior Eleitoral em um ano de eleição-chave para a redemocratização do país.
É com Nunes Marques que está o pedido de revisão criminal apresentado pela defesa de Bolsonaro em maio deste ano. Se revisitasse o longo e minucioso voto de Luiz Fux, Marques provavelmente já teria formado convicção sobre a procedência das alegações de erro judiciário. Ali estão apontadas, uma a uma, as truculências que uma Suprema Corte partidarizada praticou contra um ex-chefe de Estado, seus ministros e auxiliares e, principalmente, contra gente do povo perseguida sem escrúpulos nem misericórdia em nome da sustentação de uma farsa política.
A nulidade da delação de Mauro Cid, vítima de ameaças explícitas de Moraes, inclusive contra sua família, é apenas uma das barbaridades descritas no pedido de revisão, e que parte da elite brasileira reluta em denunciar por falta de coragem, indiferença para com o sofrimento de inocentes, vocação para o conformismo ou, simplesmente, cinismo remunerado por favores e sinecuras.
Moraes gosta de recorrer ao conceito de desvio de finalidade para negar a alguém um direito facultado por lei. Pois bem: não há maior desvio de finalidade que a presença, na Suprema Corte, de um ministro que ainda não explicou a exorbitância de um negócio de R$ 129 milhões firmado pelo escritório jurídico de sua família com o líder de uma máfia, para usar a expressão empregada pelo seu colega, o ministro André Mendonça.
Tão grave quanto é a atuação de um ministro que este mesmo capo do crime, horas antes de ser preso, acionou por mensagem de telefone celular com a pergunta: “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”
Moraes quer conduzir a eleição brasileira para um resultado que não traga ameaças a si e a outros ministros contra os quais há processos de impeachment dormitando nas gavetas do Senado. É um delírio, dele e dos apoiadores do regime, imaginar que possam erigir no Brasil uma democracia sem povo. Não por muito tempo. E o ciclo da ditadura da toga inaugurado pelo STF em 2019 já foi longe demais.
A exemplo do ex-ministro Luís Roberto Barroso, que costumava debochar dos críticos recomendando filmes para o fim de semana, deixa-se aqui uma sugestão aos que acham possível silenciar metade da população brasileira e sufocar os dissidentes bebendo uísque Macallan e fumando charutos cubanos.
Titanic, de James Cameron (1997), é uma ótima pedida. Reparem naquela cena em que os passageiros de terceira classe forçam as barras de contenção que os impedem de subir para os conveses superiores, enquanto o navio está afundando. Por quanto tempo as grades resistirão?
Eugêrnio Esser - Reviata Oeste