sábado, 21 de fevereiro de 2026

Alfredo Gaspar, relator da CPMI: Quantas vezes, Vorcaro, você botou a República no bolso?

 



Deputado Alfredo Gaspar (União-AL) - Foto: Carlos Moura/Agência Senado


O relator da CPMI do INSS, deputado Alfredo Gaspar de Mendonça (União-AL), concluiu que a desistência do banqueiro Daniel Vorcaro de depor à comissão do Congresso Nacional seria uma confissão de culpa. Em vídeo publicado na noite desta sexta (20), o parlamentar disse que perguntaria ao dono do Banco Master suspeito de fraudes financeiras de R$ 12,2 bilhões quantas vezes ele financiou políticos e “botou a República no bolso”.

Ao questionar a quem interessaria o silêncio de Vorcaro, Alfredo afirmou que questionaria se o banqueiro alvo da Operação Compliance Zero buscou “proteção”, ao contratar por R$ 129 milhões a advogada Barci de Moraes, esposa do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).

“Eu iria lhe perguntar, Vorcaro, a que título você contratou o escritório da esposa do ministro Alexandre de Moraes por quase 130 milhões de reais. Foi proteção que você estava atrás? Quais serviços foram ofertados? Mostre ao Brasil que esse foi um contrato sem nenhum tipo de mácula. Quantas vezes, Vorcaro, você financiou políticos na nação? Quantas vezes, Vorcaro, você botou essa República no bolso?”, questionou o relator da CPMI.

‘Fuga’ após decisão do STF

Vorcaro recuou de sua suposta decisão de depor à CPMI, após o ministro do STF, André Mendonça, vetar voo particular do banqueiro e tornar facultativa sua ida à oitiva marcada para a segunda-feira (23) na comissão do Congresso que investiga roubos bilionários a aposentados e pensionistas, por meio de descontos associativos. O Banco Master também é investigado por empréstimos consignados vultosos para beneficiários do INSS.

Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. (Foto: Reprodução Youtube TV LIDE)

Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. (Foto: Reprodução Youtube TV LIDE)

“Você fugiu da CPMI. Você tinha feito um compromisso e, agora, se a acovardou. Eu ia fazer perguntas a você, para o Brasil conhecer a verdade. E o Brasil precisa da verdade. O Brasil precisa ser passado a limpo. E você pode contribuir com isso”, argumentou Alfredo Gaspar.

Na quinta-feira (19), o relator da CPMI havia antecipado ao Diário do Poder que suas perguntas no depoimento de Vorcaro teriam como foco os 251,7 mil empréstimos suspeitos do Master. E reforçou, no vídeo de ontem, que o povo brasileiro mais sofrido, como aposentados e pensionistas querem saber se houve dinheiro desviado deles para comprar membros da República. “O seu silêncio é uma confissão de culpa. Isso é muito grave”, concluiu Alfredo Gaspar.

O Banco Master foi liquidado, em novembro, após o Banco Central identificar as fraudes financeiras e a Polícia Federal prender o Vorcaro, que hoje cumpre prisão domiciliar com uso de tornozeleira eletrônica.

Veja:

Davi Soares - Diário do Poder

Quando a Moderação se Torna Método: Cientificismo e o prestígio dos especialistas - Sergio Alberich e Marcos H. Giansante

 



A cultura contemporânea atribui prestígio crescente à figura do especialista que evita compromissos explícitos e se apresenta como moderado, técnico e “não ideológico”. Essa postura é celebrada como sinal de maturidade intelectual. Em um ambiente saturado por conflitos declarados, a recusa em escolher parece prudência. A moderação converte-se em virtude pública.

O problema surge quando essa moderação deixa de ser circunstancial e passa a operar como método. O especialista que se abriga na linguagem da técnica, dos dados e dos ajustes finos afirma não impor valores, apenas aplicar conhecimento. Suas recomendações parecem neutras, racionais e inevitáveis. O debate normativo é deslocado. O conflito de princípios é substituído por linguagem de otimização.

Esse deslocamento produz um tipo específico de autoridade. Não se trata da autoridade do legislador, nem da do governante, mas da autoridade do intérprete técnico da realidade. O especialista não governa, orienta. Não impõe, recomenda. Não decide, ajusta. Ainda assim, suas orientações passam a moldar comportamentos, políticas e expectativas sociais.

Esse padrão não é novo, mas assume formas renovadas. Ele reaparece sempre que sistemas complexos são tratados como suscetíveis a correção contínua por expertise. A intervenção não se anuncia como total. Instala-se por etapas, cada uma defensável quando considerada isoladamente. Em conjunto, porém, essas etapas transformam-se em administração abrangente daquilo que não pode ser administrado como projeto racional.

A fascinação contemporânea pela longevidade ilustra bem esse movimento. Cuidados preventivos, atenção metabólica e mudanças de estilo de vida não são problemáticos em si. Eles fazem parte da boa medicina. O deslocamento ocorre quando o cuidado prudente cede lugar à otimização permanente. O corpo passa a ser tratado como sistema administrável, cuja trajetória pode ser continuamente corrigida por dados, monitoramento e intervenção.

Nesse contexto, o envelhecimento deixa de ser condição humana que exige adaptação e passa a ser encarado como desafio técnico. O médico deixa de ser cuidador e se aproxima da figura do engenheiro. A saúde converte-se em projeto contínuo de aperfeiçoamento. O mensurável ganha primazia. O que escapa à métrica perde relevância.

Esse mesmo estilo aparece em outros domínios. Formadores de opinião tecnicamente sofisticados, dotados de linguagem científica refinada, evitam compromissos normativos claros. Apresentam-se como moderados, avessos a extremos, guiados apenas por evidências. A recusa em escolher princípios é apresentada como sinal de superioridade racional. A técnica assume o lugar do juízo.

É nesse ponto que a crítica austríaca se torna indispensável. Ludwig von Mises mostrou que o “meio do caminho” não constitui posição estável, como desenvolveu em Middle-of-the-Road Policy Leads to Socialism. Intervenções introduzidas como correções parciais alteram o próprio sistema que pretendem ajustar, criando novas distorções que passam a justificar intervenções adicionais. O que começa como moderação termina como expansão contínua do controle.

Friedrich Hayek aprofundou esse diagnóstico ao identificar o cientificismo como erro epistemológico, especialmente em The Counter-Revolution of Science. O problema não é a ciência, mas a transferência indevida de seus métodos para ordens complexas governadas por conhecimento disperso, tácito e contextual. Quando dados mensuráveis são tratados como conhecimento total, a humildade cede lugar à arrogância cognitiva. O que não pode ser quantificado é descartado como irrelevante.

Nesse quadro, a moderação desempenha papel decisivo. Ao evitar conflitos normativos, ela permite que decisões sejam apresentadas como exigências técnicas. A autoridade deixa de ser contestável, pois se esconde atrás da linguagem da necessidade científica. O especialista passa a operar como mediador entre conhecimento e poder.

Essa mediação raramente permanece neutra. Ajustes técnicos, padronizações e recomendações “baseadas em evidências” exigem respaldo institucional. A proximidade com o poder político torna-se funcional. Forma-se, assim, uma relação de conveniência: expertise em troca de alcance, legitimidade em troca de deferência. O que se apresenta como cooperação racional assume contornos claros de capitalismo de compadrio.

A moderação, convertida em método, revela então seu verdadeiro papel. Ela não limita o poder. Ela o suaviza. Não impede a expansão do controle. Apenas a torna aceitável, elegante e gradual. Sob a aparência de prudência, preserva a autoridade enquanto dilui a responsabilidade.

As formas mais eficazes de controle raramente se anunciam como radicais. Elas chegam educadamente, envoltas em dados, moderação e linguagem técnica. Não exigem obediência. Solicitam confiança. Avançam não por confronto, mas por acomodação.

Quando a moderação se torna método, ela deixa de proteger a ordem espontânea e passa a servi-la como ornamento retórico. O meio do caminho revela-se, então, não como equilíbrio, mas como inclinação suave em direção ao controle racionalizado da vida social.

Este artigo foi originalmente publicado no Mises Institute.


Sergio Alberich e Marcos H. Giansante - Mises Brasil

O tempo violado: juros, inflação e o ciclo econômico austríaco nos trópicos – parte II

 




Introdução

Se a Parte I deste artigo descreveu a violação do tempo econômico, esta segunda parte examina as respostas humanas a essa violação. Quando o cálculo econômico é corroído, quando juros deixam de sinalizar escassez real e quando o futuro se torna opaco, os indivíduos não permanecem passivos. Eles reagem.

Essas reações não são irracionais. São tentativas compreensíveis de preservar continuidade em um ambiente que a nega. O problema surge quando tais respostas passam a ser confundidas com soluções estruturais, ou quando se transformam em produtos oferecidos por um mercado que lucra com a instabilidade que afirma mitigar.

Racionalidade defensiva em um tempo desordenado

Em uma ordem econômica previsível, poupar é um ato construtivo. O indivíduo posterga consumo presente confiando que regras, preços e contratos preservarão sentido no futuro. Quando essa confiança se rompe, a poupança assume caráter defensivo.

Nas economias tropicais, poupar deixa de ser estratégia de acumulação e passa a ser estratégia de sobrevivência. O objetivo já não é maximizar retornos, mas minimizar perdas impostas por inflação, tributação mutável e instabilidade normativa.

Dolarização como resposta institucionalmente limitada

A primeira reação costuma ser a dolarização. Diante da recorrente perda de poder de compra da moeda local, manter ativos em moeda forte parece decisão elementar. Em termos imediatos, a estratégia pode reduzir exposição cambial e oferecer alívio psicológico.

O erro conceitual está em atribuir à moeda aquilo que é, em essência, um problema institucional. A moeda local não se deteriora por acaso. Ela se deteriora porque o arranjo fiscal e monetário que a sustenta opera sem restrições críveis ao longo do tempo.

Trocar de moeda não restaura cálculo econômico. Apenas desloca parcialmente seus efeitos. Quando a dolarização se amplia, ela própria passa a ser monitorada, regulada e tributada, reinserindo o indivíduo no mesmo campo de incerteza do qual tentou escapar.

A promessa de previsibilidade e seus limites

Em um segundo momento, surgem estruturas mais sofisticadas. Contas no exterior, holdingstrusts e entidades offshore são apresentadas como instrumentos de previsibilidade jurídica e proteção patrimonial.

Essas estruturas não são intrinsecamente ilegítimas. Em muitos casos, oferecem governança mais estável, contratos mais claros e menor arbitrariedade. Ainda assim, é preciso distinguir organização patrimonial de soberania econômica.

Grande parte dessas estruturas permanece integrada a regimes globais de reporte, sujeita a mudanças regulatórias internacionais e dependente das regras do país de origem do investidor. A complexidade aumenta, intermediários se multiplicam e custos se acumulam, enquanto a insegurança de fundo permanece.

Quando a instabilidade se converte em indústria

A instabilidade deixa de ser apenas um ambiente hostil e passa a ser um insumo econômico. Forma-se aquilo que se pode chamar de indústria da compensação intertemporal.

Sofisticação não é restauração da ordem

Hayek advertiu que o problema central das sociedades complexas não é a falta de instrumentos, mas os limites do conhecimento e a impossibilidade de concentrá-lo. Quando regras se tornam instáveis, nenhum arranjo técnico recompõe a ordem espontânea.

O encurtamento moral do horizonte temporal

O efeito mais profundo desse processo não é financeiro, mas moral e civilizacional. Quando o futuro deixa de ser confiável, a própria noção de responsabilidade intertemporal se enfraquece. Projetos de longo prazo perdem sentido, e a sociedade passa a operar sob lógica de encurtamento temporal.

Conclusão

A Parte I mostrou que o ciclo econômico austríaco tende a permanecer aberto. Esta Parte II mostra que as respostas a esse ciclo, embora compreensíveis, raramente o encerram. Funcionam como adaptações defensivas, não como restauração da ordem.

Nenhuma engenharia financeira substitui limites institucionais, regras previsíveis e uma moeda que não seja instrumento de conveniência política.

Quando o presente é financiado sistematicamente à custa do futuro, o tempo deixa de ser aliado da ação humana e se torna fonte permanente de ansiedade e desorientação.

A lição austríaca permanece. Prosperidade não nasce da sofisticação, mas da preservação das condições que permitem às pessoas planejar, cooperar e confiar no tempo.


 - Mises Brasil

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

'O Brasil e a carnavalização permanente', por Flávio Gordon

 “Mamãe, eu quero mamar” é a marchinha rotineira dos próceres da República de Tayayá


Ilustração: Júlia Xavier/Revista Oeste/Feito por I


“Tudo isso se combina para preparar o terreno para a pompa ruidosa de pseudofestas a serem celebradas ao comando de qualquer despotismo.” (Josef Pieper, Em sintonia com o mundo: uma teoria da festividade)


N ão culpo o leitor que, porventura, atribua a causa desta coluna sobre o Carnaval brasileiro à rabugice e ao envelhecimento precoce do autor. Por um lado, como é de hábito natural, não há dúvida de que estou ficando mais velho. Por outro, tampouco há dúvida de que, assim como até mesmo o mais otimista dos cidadãos, ando um tanto quanto rabugento com a degradante situação sociopolítica nacional. Ainda assim, contudo, posso garantir que minha abordagem do tema não decorre do meu estado de espírito. 

Não é de hoje que o brasileiro se orgulha de sua vocação festiva. Eu mesmo, quando jovem e solteiro, já tive minha fase carnavalesca. Não há aqui, portanto, nenhuma diatribe contra a festa e a alegria. Muito pelo contrário. O problema não reside na alegria — essa disposição fundamental da alma que afirma o ser —, mas na mutação espiritual que a converte em estímulo incessante, em necessidade de excitação contínua, como se o silêncio fosse uma ameaça e o recolhimento, uma forma de fracasso, quase um ato de impiedade. 

Como, aliás, já observei em uma coluna antiga sobre o mesmo tema, o que tem me chamado a atenção no Carnaval no Brasil de hoje é justamente a sua aparência menos alegre e mais extática, como se se tratasse de uma necessidade desesperada de escape. O que outrora era intervalo ritualizado tornou-se uma atmosfera permanente, e o que antes funcionava como inversão temporária converteu-se em paradigma cultural. Falta ao folião contemporâneo a virtude que, sempre inspirado em Aristóteles, São Tomás de Aquino chamava de eutrapelia — o uso moderado do divertimento. 

Historicamente, o Carnaval encontrava sua inteligibilidade no contraste com a Quaresma. A exuberância precedia o jejum; o riso, o exame de consciência; o excesso, a disciplina. A desmedida possuía contorno, e exatamente por isso educava, ao reconhecer tacitamente um limite. A inversão ritualizada das hierarquias — o servo que zombava do senhor, o grotesco que ridicularizava o solene, o homem que se vestia de mulher — durava alguns dias, apenas o suficiente para reafirmar, ao término da folia, a estrutura da ordem. 

O riso, quando enquadrado, fortalecia aquilo que parecia subverter. Mas quando o intervalo se torna permanente, já não há contraste que eduque, nem retorno que reordene. Uma sociedade não pode permanecer saudável quando o rito se converte em rotina. É justamente o que o Brasil fez com o Carnaval. “Mamãe, eu quero mamar” — não é mais um refrão sazonal, mas a marchinha rotineira dos próceres da República de Tayayá.


Ilustração: Júlia Xavier/Revista Oeste/Feito por IA

Quando se suprime o contraste, suprime-se também o sentido. Em sua meditação sobre a festa, o filósofo Josef Pieper recorda que ela não é mera explosão de energia coletiva, mas afirmação jubilosa da realidade enquanto criação. Celebrar é dizer “sim” ao mundo; é reconhecer, ainda que simbolicamente, que o ser é bom e digno de gratidão. A festa nasce do culto e a ele retorna; é derivada, não autossuficiente. Quando se emancipa dessa moldura ontológica, deixa de celebrar algo que a transcenda e passa a celebrar a si mesma, fechando-se num circuito autorreferente, degradando-se em entretenimento vulgar e daí ao puro hedonismo niilista. 

O Carnaval brasileiro contemporâneo, com toda a sua grandiosidade financeira, tecnológica e midiática, parece ilustrar essa rarefação simbólica: conserva a escala, mas perde a densidade; mantém o volume, mas dissipa o horizonte. Sem Quaresma — não apenas no calendário litúrgico, mas na consciência moral coletiva —, a festa deixa de ser prelúdio e converte-se na ordem social permanente. O excesso já não aponta para purificação alguma, mas limita-se à repetição infinita, convertendo-se em tautologia.

 Resta que esse deslocamento não permanece confinado às avenidas. Infiltra-se na própria forma da vida pública. O episódio do desfile da Acadêmicos de Niterói, financiado com recursos públicos e transformado em homenagem explícita ao mandatário da República, que ali compareceu como figura central da alegoria, não é apenas um crime eleitoral flagrante, mas também um sintoma da nossa carnavalização institucional. 

A oposição anuncia medidas judiciais, por óbvio, mas o tribunal eleitoral companheiro — no qual as togas viraram meros adereços — provavelmente fará o que vem fazendo desde, ao menos, 2022: agir politicamente e favorecer descaradamente o seu próprio partido. Deve-se, contudo, registrar para a posteridade o significado simbólico da cena: o governante convertido em enredo, o poder transfigurado em espetáculo, a cultura absorvida pela coreografia do aplauso.

Não é difícil reconhecer, sob o brilho carnavalesco dos trópicos, uma lógica antiga: aquela em que o Estado e a representação estética se fundem numa pedagogia de exaltação. Regimes totalitários do século 20 — de signos ideológicos distintos, quer fascistas, quer comunistas — compreenderam muito bem o poder da encenação pública como instrumento de legitimação. Nunca se elaborou tanto a liturgia do poder como durante esses regimes, modus operandi ora copiado pelo regime PT-STF-Globo. O que antes era sátira, converteu-se em consagração. Enquanto o carnaval tradicional ridicularizava o poder, o Carnaval do regime PT-STF-Globo o instrumentaliza e exalta.


Lula posa com a bandeira da escola de samba Acadêmicos de Niterói nas mãos - Foto: Acadêmicos de Niterói/Divulgação 

Essa inversão revela algo mais profundo do que um mero abuso de poder político. O grosseiro crime eleitoral cometido traduz uma cultura que já não distingue com nitidez entre representação e propaganda, entre celebração e mobilização, entre arte e aparato. Nessa cultura, tudo é performance, e nada é propriamente sério, uma vez que a seriedade exige forma e contorno. Tudo vira palco, e a própria República se converte em sambódromo. 

E é claro que, numa cultura que celebra sem penitência, os donos do poder tendem a governar sem contenção. Sem Quaresma — isto é, sem um limite reconhecido e interiorizado —, a festa degenera em vertigem e a política, em espetáculo permanente de pilhagem, brutalidade e escárnio. O hedonismo cultural encontra seu espelho na concupiscência institucional, não apenas na forma grosseira da corrupção, mas na erosão difusa do senso de responsabilidade, na incapacidade de reconhecer que o poder, como o riso, precisa de moldura. 

Talvez o traço mais inquietante de nosso Carnaval não seja, portanto, o excesso em si, mas a ausência de horizonte que o justifique. Ele explode, consome e se dissipa, deixando atrás de si não purificação, mas fadiga; não o silêncio dos satisfeitos, mas a expectativa ansiosa pela próxima explosão orgiástica, como um vício que já não produz euforia, apenas dependência. O mesmo se pode dizer de uma política que vive de narrativas grandiloquentes e de encenações simbólicas, enquanto a substância administrativa se dilui e a representatividade colapsa. 

Nada dessa constatação implica qualquer nostalgia de uma ordem ascética ou hostilidade à alegria. A verdadeira alegria, ao contrário da excitação, supõe forma. Ela não precisa de volume para afirmar-se. É possível que uma cultura que perdeu a capacidade de silêncio também tenha perdido a capacidade de júbilo — restando-lhe apenas a compulsão pela algazarra. 

Sem Quaresma, o Carnaval degenera em vertigem. Sem limite, a política degenera em espetáculo. Uma civilização pode sobreviver a crises econômicas e disputas ideológicas; o que dificilmente sobrevive é à dissolução do senso de limite. Sem limite, não há forma; sem forma, não há ordem; e sem ordem, a liberdade torna-se apenas palavra repetida em meio a um ruído que é tanto compulsivo quanto compulsório.


Ilustração: Júlia Xavier/Revista Oeste/Feito por IA


Quando a festa não celebra mais uma realidade reconhecida como boa, ela tende a converter-se em compensação. E a compensação, diferentemente da celebração, carrega sempre um traço de tensão. Talvez por isso o êxtase carnavalesco brasileiro, tanto nas avenidas quanto nos palácios, raramente se pareça com contentamento. Ele se aproxima mais de uma catarse. Como se o país inteiro estivesse tentando, por alguns dias — ou permanentemente — esquecer algo que não consegue nomear. 

Esse algo — um mal-estar fantasiado — pode ser simplesmente a ausência de fundamento. Uma sociedade que perdeu o vínculo com qualquer horizonte transcendente tende a oscilar entre a tecnocracia fria e o hedonismo ruidoso ou, o que é pior, a misturar os dois registros, transformando a administração pública em farra. 

A verdadeira festa, lembra Pieper, é sempre um “sim” ao mundo. Quando esse “sim” se esvazia, resta apenas o eco, sonoro e estridente, de uma afirmação não formulada. Mas o som, por mais estrondoso, pode até abafá-lo na consciência nacional, mas jamais substitui o sentido. 


Flávio Gordon - Revista Oeste

A maior ressaca da Terra, por Guilherme Fiuza

 


Foto: Montagem Revista Oeste/IA

— E aí, curtiu o desfile? 

— Desmaiei. 

— Uau! De emoção? 

— Não. De vergonha. 

— Vergonha de quê? 

— Sei lá. Me deu um negócio esquisito na hora. Eu tava super animado pra entrar na avenida, mas no que a coisa começou, me deu um revertério. 

— Muito calor. 

— Demais. Estranho é que calor em geral não dá vergonha, né? 

— Não. Pode até desidratar, mas nunca vi ninguém desmaiar de vergonha por causa do calor. 

— Esquisito mesmo. No que comecei a cantar aquele “olê, olê, olê, olá” da homenagem, escureceu tudo. 

— Teve blecaute na avenida? 

— Não. Mas pra mim ficou tudo preto. Como se fosse uma sombra pesada, sabe? 

— Eu, hein. Filme de terror. 

— Exatamente isso. Terror. 

— De onde você acha que veio essa alucinação?

— Parecia uma sombra do passado. E não tinha cara de alucinação. A sensação era muito real. 

— Trauma de vidas passadas? 

— Acho que era dessa vida mesmo. A sensação era de que eu estava roubando os outros. 

— Roubando?! Como assim? Não vai me dizer que você já participou de algum assalto. 

— Claro que não. Por isso eu fiquei completamente tonto. De repente, me senti um assaltante, sem nunca ter assaltado ninguém.

 — Quer o telefone de um psiquiatra?

 — Acho que não vai resolver. 

— Por quê?

— Psiquiatra sabe apagar o passado? 

— Acho que não.

— Então não adianta. Tenho a impressão de que fui cercado por fantasmas. Eles vieram me trazer notícias de um passado comprometedor. 

— Que tipo de fantasma? Da ditadura? 

— Fantasma da democracia. 

— Existe isso? 

— Existe. Fantasma da democracia de fachada. E da censura dissimulada. E da roubalheira desenfreada. 

— São vários fantasmas, então.

— Sim. Mais do que você imagina. Tem também o fantasma da mentira oficial. E o da perseguição aos opositores. E o do conluio com a imprensa. E o dos bajuladores de picaretas. 

— Bajuladores de picaretas? 

— Isso. Acho que foi esse que me fez desmaiar de vergonha. Parecia que eu estava me olhando no espelho.

— Que loucura. Bom, estimo as suas melhoras. 

— Obrigado.

— Enquanto isso, tome todas as precauções para evitar uma recaída. 

— Que precauções?

— Tire todos os espelhos de casa.


Foto: Montagem Revista Oeste

Guilherme Fiuza - Revista Oeste

"A folia dos descarados", por Rachel Diaz

 

Lula usou desfile como palanque e o TSE nada viu de errado onde tudo de errado havia


Janja, Eduardo Paes, Lula e Geraldo Alckmin na Marquês de Sapucaí - Foto: João Salles/Riotur


A queda da Acadêmicos de Niterói para a segunda divisão do Carnaval carioca coroou um desfile de absurdos e ilegalidades. A folia dos descarados teve como abre-alas uma peça de propaganda eleitoral explícita, incluiu alas de ofensas e mentiras, contou com a harmonia de uma Corte que sempre se une para tomar a decisão errada e acabou atravessando o samba da sensatez e da decência. O último lugar só seria mais simbólico se as escolas de samba participantes fossem 13, e não as 12 atuais. Advertido por ex-colaboradores, por integrantes do próprio governo e pelo bom senso, Lula, acostumado a ouvir somente a própria voz, achou uma boa ideia transformar a Sapucaí em palanque. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nada viu de errado onde tudo de errado havia. O Brasil decente foi tratado como vilão pela turma da pilantragem. Foi um liberou geral. 

Em 2022, poucos dias antes da eleição da qual o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva sairia como vencedor sobre o presidente Jair Bolsonaro, o TSE decidiu censurar previamente um documentário da produtora Brasil Paralelo, atendendo a um pedido do Partido dos Trabalhadores (PT). A produção Quem Mandou Matar Jair Bolsonaro?, que fazia parte da série Investigação Paralela, foi proibida de ir ao ar até 31 de outubro, um dia depois do segundo turno, sob pena de uma multa diária de R$ 500 mil. Os ministros do TSE consideraram que o documentário — a que eles nem sequer assistiram — apresentava elementos de “desordem informacional”. 

A proibição foi determinada antes mesmo de o documentário ser finalizado. Entre os votos, destacou-se o da ministra Cármen Lúcia. A magistrada reconheceu que a Constituição e a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal (STF) vedam qualquer forma de censura prévia. Ainda assim, sustentou que, naquele caso específico, a regra poderia ser flexibilizada. “É um caso extremamente grave, porque de fato temos uma jurisprudência do STF, na esteira da Constituição, no sentido do impedimento de qualquer forma de censura”, afirmou. Na sequência, porém, defendeu a suspensão da exibição até 31 de outubro, “para que não haja o comprometimento da lisura, da higidez, da segurança do processo eleitoral e dos direitos do eleitor”. A censura não deixaria de ser censura — apenas ganharia prazo de validade.

Cármen Lúcia preza tanto a incoerência quanto as frases de efeito. Em mais de uma ocasião, utilizou o dito popular “cala-boca já morreu” para defender a liberdade de expressão. Ao votar pela responsabilização das redes sociais por conteúdos publicados, viu a necessidade de “impedir que 213 milhões de pequenos tiranos soberanos dominem os espaços digitais no Brasil”, incluindo aí bebês de colo e excluídos digitais em geral.

Quase quatro anos depois do episódio da Brasil Paralelo, já na presidência do TSE, Cármen Lúcia invocou o mesmo argumento constitucional — a vedação à censura prévia — para liberar o que pode se tornar o mais explícito caso de propaganda antecipada já registrado no sistema eleitoral brasileiro: o desfile em homenagem a Lula promovido pela Acadêmicos de Niterói. 

Ao rejeitar duas liminares que pediam a condenação do petista e da escola de samba por infração eleitoral, a ministra afirmou, mais uma vez, que a censura prévia é vedada pela Constituição. “Estaríamos antecipando o que, tudo indica, acontecerá”, declarou, referindo-se ao desfile. “E, diferentemente de outros casos que tivemos, como em 2022, tínhamos algo que estava para ser posto no ar. E consideramos configuração de propaganda eleitoral.”

Ao contrário do que argumentou a magistrada, a escola de samba nunca escondeu o subtom eleitoral da “homenagem”. No vídeo oficial do samba-enredo, publicado há cerca de três meses, imagens de Lula em vários momentos da vida política são intercaladas com imagens dos intérpretes do jingle eleitoral disfarçado de samba-enredo.

Com a decisão do TSE, o desfile ocorreu normalmente. O sambaenredo Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil foi marcado por exaltações ao presidente e críticas diretas a adversários. A apresentação surpreendeu negativamente até quem já esperava o pior. O conteúdo foi ainda mais explícito, mais direto e sem qualquer disfarce ou pudor. 


Bajulação bancada com dinheiro público

\Em períodos menos polarizados e com menor protagonismo do Judiciário na arena política, o Carnaval frequentemente abrigava críticas bem-humoradas ao governo — e até jingles associados a líderes, como ocorreu com Getúlio Vargas e a marchinha O Retrato do Velho. As músicas, no entanto, eram consideravelmente bem mais contidas que o samba-enredo que homenageou Lula.

A Acadêmicos de Niterói recebeu R$ 1 milhão do governo federal por meio de acordo de colaboração entre a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa) e a Embratur, entidade vinculada ao Ministério do Turismo. O repasse integra um conjunto mais amplo de recursos públicos destinados às escolas do Grupo Especial. 

Segundo ação apresentada ao Tribunal Superior Eleitoral pelo partido Novo, a agremiação pode ter contado com até R$ 9,6 milhões provenientes de diferentes esferas de governo. Desse total, R$ 4 milhões teriam sido repassados pela Prefeitura de Niterói, R$ 2,5 milhões pelo governo do Estado do Rio de Janeiro e R$ 2,1 milhões pela prefeitura do Rio. Os valores foram transferidos por meio de contratos firmados com a Liesa, responsável pela organização do carnaval. 

No total, a Liesa recebeu quase R$ 78 milhões em recursos públicos: R$ 12 milhões da Embratur, R$ 40 milhões do governo estadual e R$ 25,8 milhões da prefeitura carioca. Parte do montante permaneceu com a entidade, e o restante foi distribuído entre as 12 escolas do Grupo Especial. 


Campanha explícita 

Primeira escola a entrar na avenida, a Acadêmicos encerrou sua apresentação às 23h32, dentro do limite regulamentar de 80 minutos. Lula acompanhou o desfile do camarote da Prefeitura do Rio de Janeiro, ao lado da primeira-dama Rosângela Lula da Silva, a Janja, ministros e aliados, como o prefeito Eduardo Paes (PSD). Em determinado momento, deixou o camarote e desceu à pista para interagir com integrantes da agremiação.


Henrique

\GUARDEM ESTE VÍDEO! LULA PARTICIPOU DO DESFILE! Este vídeo certamente será censurado nas eleições! E ainda dirão que é "fake news" ou "desordem informacional"! LULA INELEGÍVEL!


Logo na comissão de frente, o impeachment de Dilma Rousseff foi encenado como um “golpe”, com Michel Temer tomando a faixa presidencial. Em seguida, Lula apareceu atrás das grades, em referência à prisão pela Operação Lava Jato, enquanto Jair Bolsonaro surgia caracterizado como o palhaço Bozo, recebendo a faixa presidencial. 

No quarto carro alegórico, o personagem do palhaço reapareceu, agora vestido com uniforme prisional e tornozeleira eletrônica danificada — referência à prisão de Bolsonaro por suposta tentativa de golpe de Estado. 

O refrão do samba-enredo trouxe o tradicional grito “Olê, olê, olê, olá / Lula, Lula” e incluiu o verso “Sem mitos falsos, sem anistia”. Integrantes da escola também realizaram o gesto do “L” durante a apresentação, inclusive o mestre de bateria, ainda que a orientação interna fosse evitar manifestações explícitas. A letra faz alusão também ao número do PT ao afirmar que Lula percorreu “treze noites, treze dias” na migração para São Paulo — referência numérica direta em pleno ano eleitoral. 

A ala “Neoconservadores em conserva” ironizou setores identificados como oposição ao presidente, incluindo representantes do agronegócio, supostos defensores da ditadura militar, mulheres de classe alta e grupos religiosos evangélicos. Outras alas exibiram fantasias com estrelas — símbolo do PT — e alusões ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.


Henrique

O DESFILE DE LULA Debochou da família Debochou de Bolsonaro Debochou dos evangélicos Debochou dos conservadores Debochou dos presos políticos Debochou do pagador de impostos Debochou de todo cidadão honesto Esse DESFILE ELEITORAL foi um tapa na cara de todo brasileiro de bem!


Um desfile fracassado 

Segundo o jornalista Lauro Jardim, de O Globo, a avaliação interna no Palácio do Planalto e no próprio PT é de que o desfile representou um revés político. A leitura se baseia em pesquisas internas e no monitoramento de redes sociais. Em vez de fortalecer a narrativa favorável ao presidente, a apresentação teria potencializado críticas e impulsionado uma sequência de memes que ampliaram justamente o ponto que pretendia satirizar.

Não foi por falta de aviso. O alerta veio de colaboradores como o secretário de Comunicação Social do governo, Sidônio Palmeira, e o advogado-geral da União, Jorge Messias. Até mesmo João Santana, exmarqueteiro e ex-guru de Lula, responsável pela campanha à presidência em 2006 e condenado pela Lava Jato por lavagem de dinheiro — pena anulada pelo STF —, foi um dos tantos que tentaram chamar a atenção do presidente para o previsível desastre. “Carnaval se presta mais para demolição do que para construção de imagem de político”, lembrou.


O desfile da Acadêmicos de Niterói está levando Lula e Janja a fazer uma aposta muito arriscada. O que vocês acham disso? #carnaval #lula #janja #eleições2026 #política View all 225 comments Add a comment...


A percepção de gol contra ganhou força especialmente com a ala que colocou a “família tradicional” dentro de uma lata de conserva. Milhares de usuários passaram a compartilhar fotos de suas próprias famílias em latas estilizadas, acompanhadas de frases como “conservados por Jesus Cristo”. Nos bastidores, o episódio passou a ser tratado como símbolo do constrangimento, sobretudo porque o governo tem buscado aproximação com o eleitorado evangélico, segmento em que Lula enfrenta resistência.


Família em conserva: bem guardada, bem cuidada e cheia de amor. ❤️🥫 Porque o que é precioso a gente preserva. Validade: eterna 💛 View all 6,037 comments Add a comment... 


A desfaçatez é tamanha que o Palácio do Planalto estuda a possibilidade de recorrer ao TSE. Sidônio Palmeira afirma que está havendo impulsionamento de postagens por parte de parlamentares e partidos ligados à bancada evangélica para criar um falso debate, o que considera “crime eleitoral”. Segundo ele, “é preciso ter respeito à fé, algo que Lula sempre demonstrou ter”. 

Mas a repercussão no ambiente digital foi além do ataque pífio às famílias. Usuários passaram a produzir vídeos com auxílio de inteligência artificial para ironizar o enredo da Acadêmicos de Niterói. O governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), publicou uma montagem simulando uma “homenagem honesta” a Lula, com referências a episódios de corrupção. 


E se o Lula recebesse uma homenagem sincera nesse carnaval? Seria mais ou menos assim… A folia dos descarados 


Outra peça viralizou ao retratar, também por meio de IA, um desfile fictício da “G.R.E.S. do Tayayá”, com alegorias que remetiam a controvérsias envolvendo o ministro Dias Toffoli.


Políticos da oposição anunciaram medidas contra o desfile, que classificaram como propaganda eleitoral antecipada. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), afirmou que elementos tradicionais do Carnaval, como sátira, crítica e pesquisa histórica, foram substituídos por mensagens políticas explícitas. Ele mencionou a presença de referências a jingles e bandeiras associadas a campanhas eleitorais. Da mesma forma, destacou o que chama de instrumentalização política do evento.


Ao menos 12 medidas judiciais foram anunciadas contra o desfile. As ações da oposição devem alegar propaganda antecipada, abuso de poder político e econômico, uso indevido de recursos públicos e discriminação religiosa. O Novo informou que pretende pedir a inelegibilidade de Lula após o registro oficial da candidatura, enquanto o PL anunciou que adotará “providências cabíveis”, incluindo ação de investigação judicial eleitoral e pedido de abertura das contas da escola no TSE. O senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) também declarou que ingressará com ação contra o que classificou como “crimes do PT na Sapucaí com dinheiro público”. 


Duplo padrão explícit

Em nota, o PT afirmou que o desfile da Acadêmicos de Niterói constitui manifestação típica da liberdade de expressão artística assegurada pela Constituição. A sigla declarou que a concepção e execução do enredo ocorreram de forma autônoma pela escola, “sem participação, financiamento, coordenação ou ingerência” do partido ou de Lula. Citou precedentes do STF e do TSE para sustentar que manifestações culturais espontâneas não configuram propaganda eleitoral antecipada sem pedido explícito de voto. A Secretaria de Comunicação Social da Presidência disse que o governo não interferiu na escolha do enredo e que os ministros foram orientados a não desfilar. Janja desistiu da participação, enquanto a Advocacia-Geral da União recomendou presença apenas em agenda privada, sem uso de recursos públicos. 

O discurso contrasta com a memória recente do próprio partido. Em 2006, o PT ingressou na Justiça para tentar impedir o desfile da escola Leandro de Itaquera, que exibiu bonecos de José Serra e Geraldo Alckmin, do PSDB, então adversários de Lula. O argumento era de promoção pessoal com uso de dinheiro público — ainda que também se tratasse de manifestação carnavalesca e sem pedido explícito de voto. A Justiça manteve o carro alegórico. 

Horas depois do desfile da Acadêmicos de Niterói, um boneco de Lula foi visto tombado, sendo arrastado no asfalto da Sapucaí. A cena oferece uma metáfora involuntária de um governo com índices de aprovação em declínio, recordes negativos e pesquisas eleitorais cada vez mais desfavoráveis, que luta para se manter de pé. Porém, assim como a alegoria, apenas cai.


Eduardo Bolsonaro - No final o bem vencerá o mal.





Rachel Diaz - Revista Oeste

'Lulopetismo rebaixado', por Adalberto Piotto

  A esquerda consegue destruir tudo o que toca. Nem o Carnaval resistiu


O boneco gigante em homenagem a Lula foi o principal destaque do carro alegórico da Acadêmicos de Niterói | Foto: Reprodução/X 


Q uando, no final da noite do domingo, 15 de fevereiro de 2026, a Acadêmicos de Niterói entrou na Avenida Marquês de Sapucaí para abrir o primeiro dia do desfile das Escolas de Samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro com uma homenagem a Lula, o Carnaval do Rio já não seria mais o mesmo. De “o maior espetáculo da Terra”, tinha sido transformado em mero palanque eleitoral. E protagonizado por uma escola ainda sem expressão, que acabara de ascender à elite da avenida. Recorrendo ao melhor das tradições carnavalescas do passado, resumiu-se a um enorme “cordão dos puxa-saco”, aquele que cada vez aumenta mais. Original de 1945 e composta por Roberto Martins e Frazão, a marchinha que retrata a bajulação desavergonhada não poderia ser mais atual. 

O Carnaval é do povo, é livre e costuma fazer piada com a política e os políticos, jamais incensá-los. Lula e a esquerda subverteram esse espírito e, no caso do Rio, tiraram o protagonismo das outras escolas com seus milhares de integrantes que trabalham durante um ano inteiro para mostrar apoteoticamente um desfile que chama a atenção do mundo. Ao apostar no uso político do desfile para benefício próprio, a esquerda e o governo anteciparam a eleição com todas as suspeitas de abuso de poder político e econômico, e muito pouca gente falou dos demais enredos e apresentações. 

As consequências eleitorais são inequívocas, agravadas pelo uso do dinheiro público e da máquina do Estado, que entrou em funcionamento para permitir que o presidente estivesse no sambódromo não para prestigiar uma festa popular, mas para ver um desfile de culto à sua imagem no pior estilo de ditadores africanos, de Kim Jong-un, da Coreia do Norte, ou de Maduro, da Venezuela, hoje preso por tráfico de drogas e acusado de financiar partidos de esquerda ligados ao Foro de São Paulo, criado por Lula.


A exibição no sambódromo transforma a festa popular em um culto à imagem semelhante ao de regimes autoritários | Foto: Reprodução/X

Se o TSE será rigoroso o suficiente, não se sabe. Há muito, a Justiça deste país é imprevisível para a própria lei. Para Bolsonaro, uma reunião com embaixadores — prerrogativa do presidente da República — e um discurso depois do 7 de Setembro foram considerados gravíssimos pelo Tribunal e o ex-presidente hoje está inelegível. Como então deveria o TSE classificar um desfile de autopromoção pessoal com uso de dinheiro público, bandeiras partidárias do governo, críticas a opositores e menosprezo a religiosos visto por milhões em rede nacional? Independentemente do que fará a corte eleitoral — é preciso cobrar isonomia dela — fato é que o cidadão do país inteiro reconhece quando ele é feito de tolo com o dinheiro dele próprio. 

E aí o governo atual, antes soberbo pela homenagem “como nunca na história deste país”, entrou em modo desespero porque a estratégia deu errado. O caso em si pode ser dividido em três campos de repercussão: a questão jurídica, a repercussão na imprensa — antes dócil a Lula — e a político-eleitoral, do comportamento do eleitor, aquele que decide eleição. O primeiro depende de quão técnico, independente e isonômico será o Tribunal Superior Eleitoral. Atualmente, o TSE é presidido pela ministra Cármen Lúcia, a da “censura até segundafeira” ao filme da Brasil Paralelo, proibido de ser lançado, num ato de censura prévia grotesca e inconstitucional até as vísceras. No caso do desfile da escola de Niterói, a Corte rejeitou uma liminar que pretendia barrar o desfile. 

Na defesa da liminar apresentada inicialmente pelo Partido Novo, o argumento era o de que, se a escola desfilasse com inegável propaganda a Lula, o dano poderia ser irreparável. Transmitido pela Rede Globo com alcance nacional de milhões de espectadores, além dos milhares in loco e de toda a repercussão, se a “homenagem” desse certo, um candidato — e Lula já deixou claro que pretende concorrer à reeleição em outubro — teria tido enorme exposição em detrimento dos concorrentes.


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