sábado, 23 de maio de 2026

Como a Havan virou um fenômeno do varejo brasileiro em quatro décadas

No ciclo em que se aproxima dos 40 anos, a rede catarinense mostra como a aposta em megalojas, expansão regional e símbolos reconhecíveis contrariou previsões sobre o fim do varejo físico


As fachadas monumentais e as megalojas se tornaram parte da identidade da Havan no varejo brasileiro - Foto: Divulgação/Havan

 

Em 1986, a Havan cabia em 45 metros quadrados. Tinha um balcão, algumas prateleiras de tecidos, um funcionário e uma loja em Brusque, no Vale do Itajaí. Quase quatro décadas depois, a rede se tornou uma das marcas mais reconhecíveis do varejo brasileiro, com megalojas, fachadas monumentais e réplicas da Estátua da Liberdade espalhadas pelo país. 

A trajetória chama atenção não apenas pelo tamanho, mas pela aposta. Enquanto parte do mercado passou a tratar as grandes lojas físicas como estruturas pesadas demais para o novo consumo, a Havan cresceu justamente nesse modelo: lojas amplas, forte presença regional, mix variado e uma experiência pensada para transformar a ida às compras em evento.


Do chão de fábrica ao balcão próprio 

Nos anos 1980, Brusque já era um dos polos têxteis mais conhecidos do Sul do país. Boa parte da economia local girava em torno das fábricas de tecido, e Luciano Hang conheceu esse ambiente por dentro. Filho de operários da tradicional Fábrica de Tecidos Carlos Renaux, passou pela expedição, pelas vendas e pela produção antes de decidir abrir o próprio negócio. 

A experiência na indústria ajudou a definir o caminho. Depois de participar da compra de uma pequena fiação, Hang percebeu que sua vocação estava menos em produzir e mais em vender. Em 1986, ao lado do sócio Vanderlei de Limas, fundou a Havan. O nome nasceu da união dos sobrenomes: Hang e Vanderlei. A sociedade durou cinco anos, tornando então Luciano dono único da empresa.


Registro da fase inicial da Havan em Brusque reforça o contraste entre a origem têxtil e a escala atual da rede - Foto: Divulgação/Havan 


A aposta no que parecia fora de moda 

Quando nomes como Mesbla, Mappin e Arapuã desapareceram do mapa do varejo brasileiro, a conclusão parecia inevitável: lojas de departamento grandes demais haviam perdido espaço. A abertura econômica, a chegada de novos produtos e a reorganização do consumo mudavam a lógica do setor. 

Foi nesse cenário que a Havan escolheu seguir na direção oposta. Em vez de reduzir área e concentrar a estratégia apenas no digital, a rede investiu em megalojas com fachadas inspiradas na Casa Branca, estacionamento, grande variedade de produtos e presença em cidades médias e regiões fora do eixo mais disputado pelas grandes redes. 

A expansão ganhou força principalmente a partir dos anos 2010. Em 2017, a inauguração da 100ª megaloja, em Rio Branco, no Acre, reuniu 150 mil pessoas, segundo a própria empresa. O episódio sintetiza uma parte importante da estratégia: chegar a mercados onde uma loja desse porte também funciona como novidade urbana, ponto de encontro e símbolo de desenvolvimento local.


Símbolos que viraram marca 

A Estátua da Liberdade talvez seja um dos elementos mais visíveis da construção. Instalada pela primeira vez em Brusque, tornou-se uma assinatura visual da rede e passou a operar como sinal de reconhecimento imediato. Antes mesmo de o consumidor entrar na loja, ele já identifica a Havan pela arquitetura, pela fachada da Casa Branca e pelo monumento na entrada. 

A figura de Luciano Hang também entrou nessa equação. Por muitos anos, a rede cresceu sem que o grande público soubesse quem era seu dono. Em 2016, após boatos sobre a propriedade da empresa circularem nas redes sociais, a Havan respondeu com uma campanha que estampava a imagem de Hang nas lojas e perguntava: 

“Quem é o dono da Havan?” 

A campanha ganhou reconhecimento no marketing e ajudou a transformar o empresário em personagem público. O apelido “Véio da Havan”, antes usado em tom provocativo, foi incorporado à comunicação e passou a fazer parte da identidade popular da marca.

Luciano Hang passou a ocupar papel central na comunicação da Havan a partir da campanha que revelou o dono da rede ao público | Foto: Divulgação/Havan Uma loja física em tempos digitais 23/05/2026, 11:13 Quatro décadas, um balcão, a Casa Branca e a estátua da Liberdade: como a Havan virou um fenômeno do varejo brasileiro … https://revistaoeste.com/projetos-especiais-oeste/havan-40-anos-fenomeno-varejo-brasileiro/ 6/13 Entre 1986 e 2026, o Brasil passou por hiperinflação, planos econômicos, crises políticas, pandemia e mudanças profundas no comportamento do consumidor. A Havan atravessou esse período sem abrir capital na bolsa e mantendo a gestão concentrada em seu fundador. A decisão preservou velocidade e controle estratégico, embora também limite o acesso público a dados detalhados da companhia. 

O modelo físico, por sua vez, segue como parte central da tese de crescimento. Em um setor pressionado por marketplaces, vendas por aplicativo e consumidores cada vez mais conectados, a rede aposta que a loja ainda pode ser destino. Não apenas um ponto de retirada ou compra rápida, mas um espaço de circulação, escolha e convivência. 



Luciano Hang passou a ocupar papel central na comunicação da Havan a partir da campanha que revelou o dono da rede ao público  Foto: Divulgação/Havan 


Uma loja física em tempos digitais  

Entre 1986 e 2026, o Brasil passou por hiperinflação, planos econômicos, crises políticas, pandemia e mudanças profundas no comportamento do consumidor. A Havan atravessou esse período sem abrir capital na bolsa e mantendo a gestão concentrada em seu fundador. A decisão preservou velocidade e controle estratégico, embora também limite o acesso público a dados detalhados da companhia. O modelo físico, por sua vez, segue como parte central da tese de crescimento. Em um setor pressionado por marketplaces, vendas por aplicativo e consumidores cada vez mais conectados, a rede aposta que a loja ainda pode ser destino. Não apenas um ponto de retirada ou compra rápida, mas um espaço de circulação, escolha e convivência. 

É essa contradição que torna a história da Havan relevante para além da própria marca. A empresa cresceu fazendo exatamente aquilo que muitos analistas consideravam improvável: ampliar lojas, ocupar cidades fora dos grandes centros, investir em símbolos monumentais e transformar a presença física em lembrança de marca. 

No ciclo em que se aproxima dos 40 anos, a Havan chega à maturidade com uma pergunta aberta para o varejo brasileiro: quanto da experiência de compra ainda depende do espaço físico? A resposta da rede catarinense, até aqui, tem sido ocupar esse espaço com escala, espetáculo e uma marca impossível de passar despercebida. 

Para conhecer a história completa da Havan, conferir lojas, campanhas e canais oficiais da marca, acesse o site da rede

Governo corrupto do ex-presidiário Lula já torrou só neste ano R$172,9 milhões via cartão corporativo

 



Segue sem freio a farra com cartões corporativos no desgoverno Lula, que já ultrapassou os R$172,92 milhões este ano. O cobiçado item foi distribuído para 3.762 servidores do executivo federal, que parecem não ter de esbanjar à vontade. Servidor Henrique Araujo Hohne, do Ministério da Justiça e Segurança Pública, é quem mais gastou, conforme dados do Portal da Transparência, mais de R$357,3 mil.

Segue a lista

Colado em Henrique está Wander Lima Carvalho, do Ministério de Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, torrou R$343,4 mil.

Esbanja sem dó

A Presidência da República de Lula não fica atrás na gastança, torrou mais de R$2,4 milhões em 2.770 pagamentos realizados com os cartões.

Por nossa conta

Ano passado, a gastança com os cartões deixou amarga fatura para o pagador de impostos, que banca tudo: R$434,48 milhões.

Diário do Poder

Justiça italiana derrota governo Lula e STF ao reconhecer perseguição a Zambelli

 

Carla Zambelli (Foto: Vinicius Loures/Câmara dos Deputados)


Os seis juízes da Corte de Cassação, última instância judicial da Itália, negaram a extradição da ex-deputada federal Carla Zambelli (PL-SP). A Corte reconheceu, de forma explícita, os argumentos centrais da defesa: Zambelli é vítima de perseguição política no Brasil. Isso representa duro revés para o governo Lula (PT) e o ministro do STF Alexandre de Moraes, principal artífice das acusações. A prisão de Zambelli virou teste internacional sobre a credibilidade do Judiciário brasileiro. Perdeu, mané.

Constrangedor

A decisão italiana expõe, com clareza, o que vem sendo denunciado há anos: a judicialização da política e a politização da Justiça no Brasil.

Criminalização

Os juízes negaram extradição e validaram a alegação de que, no Brasil, dissidência política é criminalizada pelo aparato repressivo do Estado.

Perseguir não pode

Contaminar justiça com política viola princípios fundamentais do direito internacional que impedem extraditar em caso de “persecuzione politica”.

Cantando a bola

Recebeu tratamento de precedente incômodo o governo e STF insistirem em classificar opositores como “golpistas” ou “ameaças à democracia”.


Diário do Poder

sexta-feira, 22 de maio de 2026

'A semente baiana: o elevador, o cartão e a conta que o Brasil vai pagar', por Carlo Cauti

Num edifício da Faria Lima, um encontro casual ligou um operador político do PT baiano a um banqueiro ambicioso. O resultado foi o maior escândalo financeiro da história do país. E um rastro de dinheiro que leva direto o Palácio do Planalto


Augusto Lima, Jaques Wagner e Rui Costa - Foto: Montagem Revista Oeste/Reprodução

Numa tarde quente e chuvosa de janeiro de 2018, Augusto Lima, operador dos governos petistas da Bahia, saiu desapontado de uma reunião com o banco BMG. Ele procurava um parceiro para o Credcesta, um cartão de crédito consignado para servidores públicos e aposentados baianos que estava prestes a adquirir. Lima precisava de um banco para colocar a operação na rua. O BMG não topou. Entrando no elevador para sair do Pátio Victor Malzoni, icônico edifício da Avenida Faria Lima, coração financeiro de São Paulo, Lima reclamou com um investidor que o acompanhava. “Vamos parar no segundo andar, conheço alguém que poderia ter interesse”, foi a resposta. 

Naquele piso estava instalado o Banco Máxima, que abriu as portas imediatamente. Depois de uma reunião com a diretoria, o negócio foi fechado. O presidente do Máxima era um jovem mineiro muito ambicioso, recém-desembarcado na capital paulista: Daniel Vorcaro. Poucos meses depois, o Máxima se tornaria Master, compraria 50% do Credcesta, pagando o dobro do valor desembolsado por Lima e incluiria o baiano em seu quadro societário.

Por quase oito anos, o Credcesta foi um dos negócios mais lucrativos do Master. “Provavelmente era o único que dava dinheiro de verdade”, explica a Oeste um gestor de fundo próximo da trama e que prefere se manter anônimo.


Augusto Lima - Foto: Paulo Mocofaya/Agência ALBA

O ministro Fernando Haddad classificaria tudo isso, anos mais tarde, como “o maior escândalo da história financeira do país”. O que Haddad talvez não esperasse — ou preferisse não ter que admitir — é que a Polícia Federal conduziria as investigações para dentro do campo político que ele próprio representa.


Ebal, Empresa Baiana de Alimentos - Foto:Adenilson Nunes/AGECOM 

O que emergiu das quebras de sigilo, dos registros do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e dos documentos enviados pela Receita Federal à CPI do Crime Organizado é uma narrativa que começa nos supermercados estatais da Bahia, passa pelo cofre de consultores petistas e chega a uma reunião com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O fio condutor de tudo isso tem nome: Augusto Lima. Mas o tecido da história é mais largo, envolve dezenas de milhões de reais distribuídos a personalidades do campo petista a título de “consultorias”, e levanta questões que a investigação ainda tenta responder sobre a fronteira, cada vez mais turva, entre negócios privados e Poder de Estado.

Mungindo a vaca leiteira Para entender o escândalo do Master, é preciso voltar a 2007, quando o governo da Bahia criou o Credcesta. O produto surgiu como um cartão de benefícios destinado aos servidores públicos estaduais, inicialmente vinculado à rede de supermercados estatal Cesta do Povo, administrada pela Empresa Baiana de Alimentos (Ebal). Na prática, o cartão funcionava como um vale-alimentação: o servidor comprava produtos básicos — açúcar, óleo de cozinha, itens do cotidiano — com desconto automático na folha de pagamento.


Ebal, Empresa Baiana de Alimentos - Foto:Adenilson Nunes/AGECOM 

O risco de inadimplência quase zero tornava a carteira de recebíveis gerada pelo programa extraordinariamente atraente para investidores. Quem controlasse esse fluxo controlaria uma mina de ouro. Augusto Lima percebeu o potencial. Em 2018, na gestão do então governador Rui Costa, hoje ministro-chefe da Casa Civil de Lula, Lima arrematou a Ebal num processo de privatização conduzido pelo governo petista baiano. Na época, o senador Jaques Wagner (PT-BA), hoje líder do governo no Senado, estava à frente da Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado, posição que lhe dava influência direta sobre decisões de política industrial e concessões.  


Rui Costa, hoje ministro-chefe da Casa Civil de Lula - Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil 

A engrenagem que sustentaria a expansão meteórica do Master estava montada. Sobre essa base sólida e estável, o Master construiria uma estrutura de captação de CDBs com rentabilidade muito acima do mercado — o núcleo do esquema fraudulento que viria a desabar anos depois. 

Posteriormente, surgiram questionamentos sobre a qualidade desses créditos, sua origem e a forma como foram empacotados em operações financeiras revendidas a outras instituições. As investigações iniciadas com a liquidação do banco, em novembro de 2025, começaram a relacionar a engenharia financeira do Master aos consignados baianos. O nome de Augusto Lima passou a aparecer com frequência. Em março de 2026, ele foi citado entre os investigados convocados por comissões parlamentares para explicar relações financeiras e políticas do grupo de Daniel Vorcaro. 

Lima construiu relações políticas profundas na Bahia durante os governos Jaques Wagner, Rui Costa e Jerônimo Rodrigues. O Estado é governado pelo PT desde 2007. No mercado financeiro e nos círculos políticos de Salvador e Brasília, Lima era descrito como muito mais que um executivo do setor bancário. Aliados e adversários o identificavam como um operador com acesso privilegiado ao núcleo dos governos petistas da Bahia. O nome de Jaques Wagner aparece repetidamente nesse contexto. Senador, ex-governador baiano e uma das figuras mais influentes do PT nacional, Wagner admitiu conhecer Lima e Vorcaro. Em declarações públicas, afirmou que Lima o procurou para sugestões profissionais e minimizou o alcance da relação.


Jaques Wagner, Lula, Jerônimo Rodrigues e Rui Costa. Petistas sorridentes, enquanto a Bahia lida com uma série de problemas | Foto: Reprodução/Instagram 

“Augusto Lima é um fantasma. Todo mundo sabe que ele está atuando, mas ninguém admite que está lá. Parece invisível. Ninguém sabe exatamente onde atua, o que está fazendo e quem está favorecendo. Mas ele é onipresente”, explica um político baiano da oposição. Nos bastidores de Brasília, Lima era visto como alguém capaz de conectar interesses financeiros privados ao núcleo político petista. Foi justamente por meio dessa rede de relações que Vorcaro ampliou sua presença institucional. 


A chegada do Master ao coração de Brasília 

A aproximação entre Vorcaro e figuras centrais do governo Lula ganhou dimensão nacional quando vieram à tona informações sobre reuniões reservadas no Palácio do Planalto. Em dezembro de 2024, Vorcaro participou de um encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva que não constava na agenda oficial. A reunião acabou sendo revelada posteriormente por registros do Gabinete de Segurança Institucional obtidos via Lei de Acesso à Informação. Participaram do encontro, além de Lula, o então futuro presidente do Banco Central Gabriel Galípolo, o ex-ministro Guido Mantega, Lima e Vorcaro. 

Se a Bahia é o berço político do esquema, o Palácio do Planalto é onde ele buscou proteção. O episódio gerou forte reação política, mas o governo tentou minimizar o encontro. A ministra Gleisi Hoffmann afirmou que presidentes e executivos de bancos são recebidos regularmente por autoridades do Executivo. A oposição, porém, passou a questionar por que um banqueiro que mais tarde se tornaria alvo da maior investigação financeira do país havia sido recebido de maneira reservada pelo presidente da República. Ao longo das investigações, vieram à tona relatos de outras entradas de Daniel Vorcaro e de seu pai, Henrique Moura Vorcaro, em áreas do Palácio do Planalto sem registros transparentes nas agendas oficiais. 

O controle de acesso ao Planalto é considerado rígido e normalmente documentado. A revelação de encontros não publicizados alimentou suspeitas de que o empresário mantinha um canal privilegiado de interlocução com integrantes do governo federal. O caso ampliou a pressão sobre o governo Lula. Naquele momento, já começavam a surgir suspeitas sobre a saúde financeira do Master e sobre operações envolvendo o BRB, o Fundo Garantidor de Créditos e carteiras bilionárias de recebíveis. 



Executivos estão sendo pressionados a apoiar Guido Mantega - Foto: Antonia Cruz/Agência Brasil 


Guido Mantega: o elo econômico 

Entre os nomes ligados ao Banco Master, nenhum causou tanto impacto quanto o de Guido Mantega. Ex-ministro da Fazenda e um dos principais formuladores de políticas econômicas dos governos Lula e Dilma Rousseff, Mantega foi contratado como consultor do grupo de Daniel Vorcaro pela bagatela de R$ 1 milhão por mês em consultorias. Os pagamentos à sua empresa, a Pollaris Consultoria, podem ter alcançado, no mínimo, R$ 14 milhões. 

Sua atuação incluiria articulações relacionadas à tentativa de venda do Master ao BRB, vetada pelo Banco Central em setembro de 2025 e alvo de investigação por fraudes que levaram à quase falência do banco público de Brasília. Mantega negou irregularidades e afirmou que todas as consultorias foram legais e técnicas. Não adiantou, e o impacto político foi imediato. O caso tornou-se ainda mais delicado porque Mantega também participou do encontro reservado no Planalto com Lula e Vorcaro.


Ricardo Lewandowski e a ponte jurídica 

Outro nome que passou a ser associado ao escândalo foi o do exministro do STF Ricardo Lewandowski. Antes de assumir a pasta da Justiça no governo Lula, Lewandowski teria mantido relações profissionais indiretas com o universo empresarial de Daniel Vorcaro. O contrato entre o ministro e o banco foi assinado em 28 de agosto de 2023, com pagamentos mensais de R$ 250 mil e permaneceu em vigor por 21 meses após Lewandowski assumir o ministério, em janeiro de 2024. No total, a Lewandowski Advocacia recebeu cerca de R$ 6,1 milhões do Master, dos quais aproximadamente R$ 5,25 milhões foram pagos quando ele já ocupava cargo no governo. A indicação de Lewandowski para o banco foi confirmada pelo próprio senador Jaques Wagne.


Ricardo Lewandowski, ex-ministro da Justiça e Segurança Pública - Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil 

O filho do ministro, Enrique Lewandowski, atuou em processos relacionados a empresas investigadas por fraudes em consignados. Ricardo Lewandowski afirmou desconhecer detalhes específicos dos processos citados e sustentou que se afastou formalmente da advocacia ao ingressar no governo. Lewandowski foi indicado pessoalmente por Jaques Wagner para Augusto Lima. E o nome do exgovernador, embora não investigado, está se tornando cada vez mais central na trama do Master. Wagner admitiu conhecer Augusto Lima e Daniel Vorcaro. Em Brasília, ele se tornou um avalista informal do grupo.


De volta às sombras 

Lima formalizou sua saída do Master em maio de 2024, depois de assinar um acordo que previa a transferência a Daniel Vorcaro de suas 33 milhões de ações ordinárias, equivalentes a quase 19% do capital. Apesar disso, em janeiro de 2026, o nome de Lima ainda constava como diretor da instituição no sistema da Receita Federal. Em agosto de 2025, passou a controlar o Banco Pleno, concentrando ali os negócios de crédito consignado que desenvolveu durante sua passagem pelo Master. 

O desfecho, por ora, é conhecido: Lima foi detido em Salvador no âmbito da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal para apurar as fraudes do grupo Master. Solto após decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, permanece sob monitoramento eletrônico. A defesa argumentou que Lima “já havia se desligado definitivamente de todas as suas funções executivas no Banco Master em maio de 2024”. 

Os investigadores, no entanto, prosseguem examinando o papel que ele desempenhou na estruturação do esquema. Uma das frentes de investigação relacionadas a Lima envolve a BK Financeira, empresa sediada em Salvador que, segundo apurações, recebeu cerca de R$ 11 milhões do Banco Master para indicar novos convênios de empréstimos consignados. Uma das sócias da empresa é Bonnie Bonilha, nora do senador Jaques Wagner. A assessoria do senador nega qualquer intermediação ou favorecimento à empresa. Bonilha é casada com Eduardo Sodré, secretário de Meio Ambiente da Bahia e enteado do senador.


Eduardo Sodré, secretário do Meio Ambiente da Bahia - Foto: Reprodução/ba.gov 

A pergunta que a investigação ainda não respondeu é simples e incômoda: onde termina a coincidência e onde começa o favorecimento? O que os fatos estabelecem, por ora, é que o maior escândalo financeiro da história do Brasil foi irrigado, em parte fundamental, por decisões, contratos e relações cultivadas ao longo de 18 anos de governos petistas na Bahia e de três anos de governo Lula em Brasília. 

Tudo começou num elevador na Faria Lima, no segundo andar, numa tarde de chuva, entre um operador político do PT baiano e um banqueiro mineiro sem escrúpulos. Os CDBs superfaturados, os consultores petistas bem pagos, as visitas sem registro ao Planalto, os R$ 49 bilhões do FGC, a tornozeleira eletrônica, o carrinho de golfe em fuga. O restante ainda está sendo escrito.


Carlo Cauti - Revista Oeste







'Uma CPI essencial', por Branca Nunes

O crescimento do império financeiro de Vorcaro amparou-se no fortalecimento de suas relações promíscuas com integrantes dos Três Poderes


Daniel Vorcaro - Foto: Montagem Revista Oeste/Divulgação/Shutterstock

O lado mais sombrio deste segundo quarto de século no Brasil começou a ser desenhado em 17 de novembro de 2025, quando vieram à tona os primeiros capítulos do que já se transformou no maior escândalo financeiro da história do país. Naquele dia, Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, foi preso no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, onde tentava embarcar para a Ilha de Malta, a bordo de um de seus jatos particulares. O sorriso estampado no rosto do banqueiro no momento da prisão escancarava a certeza da impunidade. A primeira temporada na cadeia durou 12 dias. 

Foi então que a imensa maioria dos brasileiros soube da existência do hoje famoso executivo de 42 anos, porte atlético, pele bronzeada e farta cabeleira castanha. O mercado financeiro, políticos de diferentes partidos, magistrados e boa parte da alta sociedade, contudo, já conheciam havia muito tempo aquele mineiro bon-vivant, dono de mansões no Brasil e no exterior, que promovia festanças ornamentadas por belas mulheres, e excepcionalmente pródigo com amigos e parceiros de negociatas. 

O Banco Master se tornou a menina dos olhos de milhares de investidores quando passou a oferecer Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com rentabilidade 30% acima da média do mercado. Era evidente que algo estava errado. Mesmo assim, prefeitos, secretários e gestores de fundos de previdência investiram pesado naquele dinheiro supostamente fácil, ignorando alertas feitos por técnicos e por Tribunais de Contas estaduais.




Entre 2021 e 2025, o patrimônio líquido do Master saltou de R$ 200 milhões para R$ 4,7 bilhões. A carteira de crédito avançou de R$ 1,4 bilhão para R$ 40 bilhões — um crescimento de quase 100% ao ano. Nas três últimas décadas, nenhum banco brasileiro conseguiu uma expansão dessa magnitude em tão pouco tempo. Numa reportagem publicada na Oeste em 19 de dezembro passado, Carlo Cauti lembrou que Vorcaro costumava reiterar que, no Brasil, ninguém prospera sem  proteção política — e que não teria chegado onde chegou sem o apoio de figuras poderosas

O crescimento desse império financeiro amparou-se no fortalecimento de suas relações promíscuas com integrantes dos Três Poderes. Ele patrocinou promoções dos grupos Lide, comandado pelo ex-governador João Doria, Esfera, liderado por João Camargo, e o Grupo Voto, coordenado por Karim Miskulin. Também financiou eventos promovidos no Brasil e no exterior. Em abril de 2024, por exemplo, o Fórum Jurídico Brasil de Ideias, realizado em Londres, reuniu figurões, como os ministros do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Dias Toffoli, além do procurador-geral da República, Paulo Gonet.


Os ministros do STF Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes - Foto: Gustavo Moreno/STF


Depois da descoberta do escândalo, outras revelações ampliaram as informações sobre o envolvimento de autoridades públicas e integrantes do Judiciário. Descobriu-se, por exemplo, o contrato de R$ 129 milhões assinado por Vorcaro e pela advogada Viviane Barci, mulher de Alexandre de Moraes. Dias antes da liquidação da instituição financeira, o ministro telefonou seis vezes para Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central. 

A coluna de Augusto Nunes registra que, pela primeira vez na história deste país, ministros do STF se envolveram comprovadamente num caso escandaloso de corrupção. A ladroagem do Master também contaminou os dois campos políticos que polarizam a disputa presidencial deste ano.

Em 13 de maio, soube-se que o senador Flávio Bolsonaro conversou com Vorcaro sobre os R$ 61 milhões destinados a patrocinar um filme sobre a trajetória de Jair Bolsonaro. Até então, o candidato presidencial do PL negava qualquer relação com o banqueiro. Dias depois, noticiou-se o encontro entre ambos logo depois da soltura de Vorcaro. 

Adalberto Piotto relata o encontro entre Lula e Vorcaro, omitido pela agenda oficial. Em dezembro de 2024, Lula aconselhou o banqueiro a não vender o Master ao BTG Pactual, argumentando que era iminente a mudança no comando do Banco Central. Em mensagem de WhatsApp, Vorcaro resumiu numa única palavra o que havia achado da reunião:

“Ótima”. O principal objetivo do banqueiro naquele momento era viabilizar a compra do Master pelo Banco de Brasília (BRB). Os bastidores dessa operação são detalhados na reportagem de Cristyan Costa. 

As conexões entre o PT e o Master são bem mais antigas. Começaram na Bahia, quando o misterioso empresário Augusto Lima, que já conhecia o senador Jaques Wagner, virou sócio da instituição financeira. 

Carlo Cauti reconstrói os bastidores dessa aproximação, considerada o primeiro ato do escândalo. Com o tempo, as articulações se estenderam a diferentes partidos e grupos políticos (veja o gráfico abaixo). Previsivelmente, como mostra a reportagem de Sarah Peres, o centrão não ficou de fora. 



O senador Ciro Nogueira (PP-PI), por exemplo, foi o pai da chamada “Emenda Master”, que elevaria de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o valor coberto pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) por CPF. Caso a medida fosse aprovada, os R$ 49 bilhões já pagos pelo fundo aos correntistas do Master depois da liquidação do banco passariam de R$ 200 bilhões — valor superior ao patrimônio atual do fundo (cerca de R$ 160 bilhões). Em troca de ações políticas do gênero, Nogueira recebia uma mesada no valor de R$ 500 mil.

Corrupção endêmica 

No primeiro quarto deste século, a Operação Lava Jato desarticulou o maior esquema de corrupção já revelado desde o descobrimento. Centenas de envolvidos foram denunciados, e dezenas de políticos, empresários e empreiteiros acabaram condenados. Durante aqueles poucos anos, os brasileiros acreditaram que a lei enfim passara a valer para todos. O cenário mudou quando as investigações bateram na porta do Supremo Tribunal Federal. Em mensagens internas da Odebrecht, Dias Toffoli era identificado pelo codinome “o amigo do amigo do meu pai”.

A partir dali, a operação passou a sofrer sucessivas derrotas no Judiciário. Foram anulados ou revistos acordos, condenações e multas. Agora, no fim de 2025, o nome de Toffoli reapareceu associado a um escândalo que mistura bancos, lobby e influência institucional. 

Nesta quinta-feira, 21, a Justiça rejeitou uma proposta de delação premiada apresentada por Daniel Vorcaro por considerá-la insuficiente. O banqueiro está preso preventivamente desde 4 de março. No Congresso, parlamentares defendem publicamente a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). Nos bastidores, contudo, condenam por recear o potencial destrutivo das investigações — a poucos meses da eleição presidencial. Tal atitude pode gerar uma reação negativa do eleitorado: as urnas ameaçam rechaçar os que insistem em acobertar a corrupção. Chegou a hora de instaurar uma CPI com suficiente musculatura para investigar tudo e todos.




Branca Nunes - Revista Oeste

*Com reportagem de Uiliam Grizafis e Luana Viana

Augusto Nunes - 'A toga e a lama'

 Ministros do STF viram verbetes na enciclopédia da corrupção


Foto: Montagem Revista Oeste/IA 

P arece mentira, mas houve não faz tanto tempo um Brasil em que a honradez era a regra, e quem se arriscava a engordar o volume de exceções não se expunha apenas às punições previstas em códigos legais: também sofria o afastamento imposto pelos honestos. Guardo na memória o caso do gerente de banco perdido de amor pela bela forasteira recém-chegada à Casa da Diná, bordel mais concorrido da região. O cinquentão apaixonado exagerou na gastança com a jovem amante, sem reduzir as despesas com a família numerosa. Acuado pelo endividamento excessivo, sucumbiu à má ideia: dar um desfalque. 

Nenhum cliente perdeu dinheiro. O prejuízo foi engolido sem barulho pela direção do banco, que revidou com a demissão por justíssima causa. Esse seria o menor dos castigos. Muito mais dolorosa foi a exclusão social. Além do emprego, ele perdeu os amigos. Todos emparedados pelo isolamento e pela vergonha, o gerente, sua mulher e os quatro filhos primeiro sumiram dos bailes no clube, depois das sessões de cinema, em seguida das festas de aniversário e finalmente das ruas. Numa madrugada, a família deixou a cidade para nunca mais voltar. Naquele tempo, corrupção era crime hediondo e sem perdão. Hoje, quem diria?, um Brasil virado do avesso contempla com passividade bovina a chegada da ladroagem endêmica ao Supremo Tribunal Federal. 

Até o último verão, o comando do Judiciário era o único entre os Três Poderes que ficara fora dos sucessivos escândalos descobertos no primeiro quarto deste século. No último verão, o maior crime financeiro da história derrubou a fortaleza moral. Foi reduzida a escombros no fim de 2025, quando os ministros José Antonio Dias Toffoli e Alexandre de Moraes viraram verbetes de uma inevitável Enciclopédia Nacional da Infâmia. Ambos anabolizados por premiações em dinheiro distribuídas pelo dono do falecido Banco Master, Toffoli e Moraes garantiram a vaga no porão da História, nadando de braçada no pântano administrado por Daniel Vorcaro. Acabaram afundando até o pescoço. 


Ministros do STF Alexandre de Moraes e José Antonio Dias Toffoli - Foto: Gustavo Moreno/STF 

Passados quase seis meses, a dupla, que até recentemente fazia bonito no grupo da alta classe média, foi transferida para a primeira divisão reservada aos multimilionários. As fortunas embolsadas tornaram dispensáveis os rendimentos arrecadados por ministros do STF. Mas Toffoli e Moraes seguem no emprego, vestindo sem sinais visíveis de constrangimento a toga emporcalhada pela lama da corrupção. Malandragem impune é a norma. Honesto virou sinônimo de otário. 

Toffoli embolsou mais de R$ 40 milhões com as negociatas costuradas no Tayayá, único resort do planeta que não precisa de hóspedes para atrair interessados em comprá-lo por muito mais do que vale. Moraes já pode viver como o diabo gosta, graças a um contrato que não precisou assinar e nem menciona seu nome. Bastaram os garranchos manuscritos por Vorcaro e Viviane Barci, advogada casada com o ministro, para validar o documento. O texto informa que o dono do Master pagará R$ 129 milhões para dispor dos serviços da doutora Viviane entre janeiro de 2024 e dezembro de 2026. As entrelinhas revelam o preço acertado para que o pronto-socorro do mais poderoso ministro ficasse permanentemente à disposição do banqueiro bandido.


Tayayá, único resort do planeta que não precisa de hóspedes para atrair interessados em comprá-lo por muito mais do que vale - Foto: Divulgação/Tayayá

Toffoli anda meio sumido. Talvez tenha aprendido que culpa rima com cautela. Talvez esteja aprendendo como é a vida de nababo que não precisa fingir que trabalha. Talvez acredite que já cumpriu seu dever no curto período em que foi dono do caso do Master — e fez o que pôde para destruir as pilhas de provas colhidas pela Polícia Federal. O importante é que o silêncio do ministro tem poupado a gramática e a ortografia (além dos integrantes do Pretório Excelso que conseguiriam a aprovação no Enem) das medonhas sessões de tortura que impõe à língua portuguesa, sobretudo quando desanda em improvisos.

O súbito surto de discrição também poupa a Constituição e os códigos legais dos socos e pontapés aplicados pelo líder do ranking dos ministros que mais envergonharam o Supremo. Se as circunstâncias exigirem obscenidades urgentes, Alexandre de Moraes tem procuração para agir em nome de Toffoli. Juntos, eles criaram há quase sete anos o mais torpe inquérito da história do STF. Juntos, proclamaram em 2022 a ditadura do Judiciário. Juntos, anexaram o Supremo ao escândalo do Master. É provável que só se separem na disputa da primazia indesejada: um deles será o primeiro integrante da Corte punido com o impeachment. 

Por enquanto, Moraes faz de conta que continua acumulando os cargos de detetive, delegado, promotor, juiz e Primeiro Carcereiro — soma de funções que o transformou no Comandante Supremo da Democracia à Brasileira. Com a arrogância e a crueldade que balizam seu comportamento desde 2019, segue administrando uma imaginária Vara Criminal especializada em prender, multar e atormentar os perseguidos favoritos, além de garantir a prosperidade dos fabricantes de tornozeleiras eletrônicas. 


Moraes faz de conta que continua acumulando os cargos de detetive, delegado, promotor, juiz e Primeiro Carcereiro — soma de funções que o transformou no Comandante Supremo da Democracia à Brasileira - Foto: Gustavo Moreno/STF


A insolência patológica é anabolizada pela cumplicidade de colegas. Até agora, o único punido pelo enriquecimento criminoso de Moraes é o perito criminal João Cláudio Nabas, acusado de ter quebrado o sigilo que protegia o contrato assinado por Vorcaro e Viviane Barci de Moraes. Alvo de uma operação de busca e apreensão executada pela Polícia Federal, Nabas está suspenso das funções que exercia. Nestes trêfegos trópicos, é criminoso quem revela que um ministro do Supremo ganhou o equivalente a várias Mega-Senas acumuladas para manter em liberdade um parceiro fora da lei. Inocente é o juiz de araque que tenta esconder a resposta que deu à pergunta formulada pelo chefe da quadrilha: 

“Conseguiu bloquear?”. Bloquear a prisão de Vorcaro, o interpelado não conseguiu. Livre, leve e solto, Moraes concentra-se agora na luta pelo bloqueio das investigações sobre o acerto criminoso em que se meteu. O Brasil decente tem na ponta da língua as duas palavras que celebrarão o triunfo da Justiça: “Perdeu, Mané”.


Augusto Nunes - Revista Oeste


Guardiola se despede em grande estilo

Técnico espanhol, para muitos o melhor de todos os tempos, deixa o Manchester City em busca de novos rumos



A comoção na despedida do técnico Bep Guardiola, de 55 anos, do Manchester City está ligada à importância dele na história do clube. A partida entre Brasil e Inglaterra, na Copa de 1970, ajuda a explicar essa longa evolução.

As duas seleções se enfrentavam na primeira fase. A Inglaterra era a atual campeã mundial. O jogo era tenso. 

Pelé não encontrava espaços diante da marcação de Bobby Moore. Mesmo assim, segurava a defesa inglesa e ajudava a abrir brechas para Jairzinho avançar. Dois lances ficaram marcados naquela partida: o gol de Jairzinho, costurando a fechada defesa inglesa no segundo tempo, e a defesa do goleiro Gordon Banks, depois da cabeçada de Pelé para o chão, na etapa inicial. 

Aquela é considerada a maior defesa da história do futebol. Mas, injustamente, outro momento grandioso ficou esquecido. Minutos depois, Félix, goleiro do Brasil, fez defesa quase tão difícil ao impedir, na pequena área a finalizasção de Francis Lee. 

Naquele instante, pela primeira vez, o futebol brasileiro e o Manchester City se relacionavam diretamente.

Lee, loiro, era o atacante do City campeão inglês de 1967-68, até então a melhor geração da história do clube. O time contava ainda com os talentosos Colin Bell, Neil Young e Mike Summerbee, do meio para a frente.

Aqueles anos haviam sido os melhores da trajetória do City, considerado até então um clube de porte médio e sem tanta sorte. 

Justamente na temporada de sua principal conquista, porém, o maior rival, o Manchester United, ganhava a Liga dos Campeões da Europa, hoje chamada Champions League. 

O City passou então por décadas de declínio, rebaixamentos e instabilidade, até ser comprado pelo grupo de Abu Dhabi, em 2008. 

A nova fase começou a render títulos em 2011, já com um elenco recheado de craques graças aos investimentos permanentes: o goleiro Joe Hart; o zagueiro belga Vincent Kompany; o lateral sérvio Aleksandar Kolarov; o habilidoso espanhol David Silva; o intempestivo atacante italiano Mario Balotelli; e o obcecado atacante argentino Carlos Tevez. 

Naquele elenco estava a base dos quatro ou cinco anos seguintes, período em que o City voltou a conquistar o principal título nacional, em 2011-2012 e 2013-2014. O clube já se colocava entre os mais fortes do futebol na Inglaterra. Até então, acumulava 17 títulos em sua história. 


A transformação com Guardiola 

A dimensão da transformação pode ser medida pela era Guardiola. Desde a estreia do treinador, em 13 de agosto de 2016, até a despedida, marcada para o próximo domingo, 24, contra o Aston Villa, no Etihad Stadium, o City conquistou 20 títulos. 

Em dez anos, três a mais do que em seus 146 anos anteriores. Entre eles está a Champions League de 2022-2023, vencida com uma equipe moldada por Guardiola, formada pelo goleiro Ederson; pelos defensores John Stones e Rúben Dias; pelos meio-campistas Rodri, Kevin De Bruyne, İlkay Gündoğan e Bernardo Silva; além dos atacantes Jack Grealish e Erling Haaland. 

Mais do que montar grandes equipes, Guardiola deixou uma identidade. Nesse período, ele consolidou seu jogo posicional, sempre com flexibilidade para se adaptar às características da partida e do adversário. 

A equipe se abria ao máximo, explorando a amplitude pelos lados do campo e obrigando o rival a se espalhar. Ao mesmo tempo, mantinha um posicionamento capaz de facilitar a recuperação da bola.

Os setores permaneciam próximos. Dessa aproximação surgia a chamada densidade funcional: vários jogadores do mesmo time perto da bola, oferecendo linhas de passe e pressão imediata. Seu objetivo foi, além das conquistas, deixar esse conceito, em forma de legado. 

“Não me perguntem por que estou saindo”, disse Guardiola. “Não há motivo, mas lá no fundo sei que chegou a minha hora. Nada é eterno. Se fosse, eu estaria aqui. Eternos serão os sentimentos, as pessoas, as lembranças, o amor que tenho pelo meu Manchester City.” 

Ao que parece, esse trabalho coletivo dependia também do ambiente fora do campo. Essa simbiose, alimentada por Guardiola, ajuda a explicar por que ele se tornou, para muitos, o maior treinador de todos os tempos. O técnico optou por utilizar a cláusula de rescisão prevista em seu contrato, válido até junho de 2027, e sair um ano antes. Traçará outros rumos como treinador. Porém, permanecerá ligado ao clube como embaixador global e consultor técnico do City Football Group. 

Para o City difícil imaginar desfecho melhor: eternizar a relação com um profissional que deixou sua assinatura em campo. Como um artista assina uma obra de arte.


Eugênio Gousslinsky - Revista Oeste