Rota 2014 - Blog do José Tomaz
Blog do José Tomaz
sexta-feira, 16 de janeiro de 2026
'Recordes indesejáveis', por Anderson Scardoelli
Governo Lula assume a liderança em indicadores como gastos com viagens, déficit das estatais, empresas em recuperação judicial, queimadas na Amazônia e pagamento de emendas parlamentares
Políticos costumam se gabar dos indicadores positivos registrados durante seus mandatos, sobretudo durante campanhas eleitorais. No pleito deste ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deverá seguir estratégia diferente. A atual gestão empilha recorde atrás de recorde, em geral, negativos. A estratégia de esconder o que é ruim já se faz presente antes mesmo da corrida eleitoral de outubro, na qual o petista deverá buscar a reeleição.
O governo Lula é campeão, por exemplo, em recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF). Foram 19 vezes desde janeiro de 2023, enquanto Bolsonaro acionou o órgão em 17 ocasiões ao longo de todo o mandato. Sem uma base aliada robusta no Congresso Nacional, onde rotineiramente acumula derrotas, o presidente nem tenta disfarçar a tabelinha com o STF. “Se não entrar com recurso no Judiciário, eu não governo mais o país”, admitiu, em entrevista a uma afiliada da TV Globo em julho do ano passado. Na série iniciada em 2003, os governos anteriores (Lula 1 e 2, Dilma 1 e Dilma 2/Michel Temer) ficaram em um ou dois pedidos desse tipo, segundo levantamento do jornal O Estado de S. Paulo.
O atual governo é também o que mais alegou sigilo para não atender a pedidos feitos via Lei de Acesso à Informação. O ápice se deu no ano passado, com 37% de negativas sob tal justificativa. O menor patamar se deu em 2013, no governo Dilma Rousseff, com 19%; na administração do ex-presidente Jair Bolsonaro, o índice chegou a 31% em 2022.
A equipe do petista se destaca ainda no item viagens.
Em três anos, os gastos — tanto em roteiros nacionais quanto internacionais — foram de quase R$ 7 bilhões, segundo a Controladoria-Geral da União. O valor supera em 65% o montante gasto durante os quatro anos da gestão anterior. Gastos com viagens Total anual de gastos do governo federal com viagens, incluindo diárias, passagens e outros custos. Valores em bilhões de reais Fonte:
Portal da Transparência da Controladoria-Geral da União 2019 2020 2021 2022 2023 2024 2025 1,27 0,54 0,79 1,55 2,28 2,38 2,32
Sanha arrecadatória
A sanha arrecadatória é outra característica do governo Lula. Em 2024, a receita atingiu R$ 2,6 trilhões e deve fechar 2025 acima deste valor — de janeiro a novembro chegou a R$ 2,5 trilhões. No governo Bolsonaro, o recorde havia se dado em 2022, com R$ 2,2 trilhões. Desde 2010, o ano com menor arrecadação foi o último ano de Lula 1, com R$ 805 bilhões. Sem constrangimentos em tirar mais dinheiro dos pagadores de impostos, o PT apela para o cinismo ao classificar este furor tributário como “justiça fiscal”. Apesar do aumento expressivo da arrecadação, o governo bateu recorde no quesito dívida pública: R$ 8,5 trilhões em novembro de 2025, o equivalente a 79% do Produto Interno Bruto do país. Depois de a dívida pública chegar a 86,9% do PIB em 2020, Bolsonaro entregou o governo com a relação dívida pública/PIB em 71,7%.
Arrecadação anual do governo federal (em R$ trilhão) OBS:
o valor de 2025 é da parcial até novembro Fonte: Análise da Arrecadação das Receitas Federais Obter dados Criado com Datawrapper 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 2019 2020 2021 2022 2023 2024 2025 0,81 0,92 1,02 1,13 1,18 1,22 1,29 1,34 1,45 1,53 1,47 1,87 2,21 2,31 2,65 2,5
As estatais são exemplo de como a gestão petista lida mal com recursos financeiros. Conforme o Banco Central, o déficit das empresas controladas pela União chegou próximo dos R$ 6,7 bilhões em 2024 — valor mais alto desde o início da série histórica, em 2002 —, sendo que os Correios respondem por cerca de 95%, com rombo de R$ 6 bilhões. Temer e Bolsonaro encerraram seus mandatos deixando as estatais federais no azul: saldos de R$ 313 milhões e R$ 4,8 bilhões, respectivamente.
O economista Izak Carlos da Silva, do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais e do Instituto Millenium, explica que o resultado de um governo que gasta mais do que arrecada é a aceleração da inflação, o que obriga o Banco Central a agir. “Para conter esse processo, a autoridade monetária é levada a manter juros mais elevados por mais tempo, o que encarece o crédito e reduz o consumo”, afirma. “Isso também desestimula o investimento privado e afeta diretamente decisões cotidianas como financiamento da casa própria, compra de bens duráveis e expansão de pequenos negócios.”
Jogando contra quem produz
Nunca antes na história deste país tantas empresas entraram com pedido de recuperação judicial como em 2024. Foram mais de 2,2 mil CNPJs recorrendo ao Poder Judiciário na tentativa de evitar a falência, indica levantamento da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), com base em dados da Serasa Experian. Situação que representa crescimento de mais de 60% na comparação com os 1,4 mil pedidos de recuperação feitos em 2023. Mesmo durante a pandemia de covid-19, a média pedidos por ano ficou abaixo de mil.
Divulgada no mês passado, uma nova pesquisa da Serasa apresentou outro dado alarmante em relação ao setor empresarial brasileiro. Em outubro, 8,7 milhões de empresas estavam inadimplentes, o que estabeleceu um novo recorde, que vem sendo renovado mensalmente desde janeiro de 2025. Problema que afetou principalmente as micro, pequenas e médias empresas: do total de corporações com dívidas em atraso, 8,2 milhões estão dentro dessa classificação.
“O número recorde de empresas inadimplentes reforça os sinais de fragilidade financeira no setor corporativo”, avalia Camila Abdelmalack, economista da Serasa Experian. “A desaceleração na concessão de crédito tem limitado a capacidade das empresas de renegociar dívidas e reorganizar suas obrigações financeiras, aumentando a pressão sobre o caixa. Paralelamente, o esfriamento da atividade econômica reduz a geração de receita, criando um cenário desafiador para a manutenção da liquidez e para a sustentabilidade das operações, especialmente entre micro e pequenas empresas.”
Dinheiro para a companheirada
O dinheiro que tem faltado para o setor produtivo sobra para os amigos do poder. No âmbito político-partidário, em três anos, o governo Lula já pagou mais emendas parlamentares do que todo o período da administração Bolsonaro. De 2023 a 2025, cerca de R$ 120 bilhões foram direcionados a projetos indicados por deputados federais e senadores, registra a plataforma Siga Brasil. Montante bem maior que os R$ 85 bilhões liberados pelo ex-presidente de janeiro de 2019 até o fim de seu mandato, em dezembro de 2022.
Ainda na esfera política, o recorde também se dá no número de cargos comissionados (aqueles em que a função surge por meio de indicação do governo de plantão, sem a realização de concurso público). Em novembro de 2025, o Painel Estatístico de Pessoal, plataforma vinculada ao Ministério da Gestão e Inovação em Serviços Públicos, rompeu a barreira dos 50 mil profissionais comissionados na esfera federal, o que inclui a administração direta, autarquias e fundações. Quando Bolsonaro deixou o poder, a máquina pública federal contava com 46,3 mil concursados. Com Lula, tem sido recorde seguido de recorde. Antes de ultrapassar 50 mil, o número de cargos de confiança fechou em 47,7 mil em 2023 e 49,4 mil em 2024.”
A companheirada espalhada pela imprensa também impulsiona
recordes da gestão petista. No decorrer do ano passado, o governo
federal, via Secretaria de Comunicação Social da Presidência da
República, repassou em torno de R$ 200 milhões a veículos
de comunicação on-line e elevou o acumulado com esse tipo de gasto
para mais de R$ 450 milhões desde o início de Lula 3. Na soma dos
quatro anos de Bolsonaro no poder, o montante gasto com publicidade
na internet ficou abaixo dos R$ 400 milhões.
A Lei Rouanet não ficou de fora da lista. Nunca tanto dinheiro foi captado por projetos culturais, a partir dessa regra do governo federal, como em 2025. No caso, foram R$ 3,4 bilhões.
Durante a campanha de 2022, Lula prometeu zerar a fila do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). A promessa passou longe de ser cumprida. Pelo contrário. Quando reassumiu o comando do Palácio do Planalto, em janeiro de 2023, 1,2 milhão aguardavam decisões do órgão. Em outubro do ano passado, o número de pessoas à espera de benefícios do INSS era de 2,8 milhões. Mais um recorde.
“Defender a Amazônia da política de devastação” foi outra promessa não cumprida pelo atual presidente do Brasil. Diferentemente da afirmação registrada no plano de governo apresentado à Justiça Eleitoral em 2022, o bioma tem sofrido. O recorde de focos de calor se deu em 2024, com 140 mil ocorrências, segundo a plataforma BDQueimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Em 2022, pior ano de Bolsonaro nesse sentido, foram 115 mil registros, recorde até então.
O petista também prometeu cuidar das mulheres, mas falhou. Em 2024, o número de feminicídios bateu recorde, com 1,5 mil casos, informa a 19ª Edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgada em julho do ano passado. Avanço de 1,7% na comparação com 2023, então recorde desde 2015, quando a lei específica contra feminicídio foi criada no Brasil.
Com esse combo de indicadores negativos, incluindo na parte da economia, Lula poderá ter dificuldades para tentar se reeleger. “O bolso é um dos principais fatores da eleição”, observa Murilo Hidalgo, diretor do instituto Paraná Pesquisas. Nesse sentido, o petista corre o risco de ter mais um recorde para chamar de seu: o de maior índice de rejeição.
Anderson Scardoelli - Revista Oeste
'O amante secreto', por Guilherme Fiuza
A ditadura cenográfica era uma beleza: alimentava a carreira de políticos medíocres, conferia grandeza de alma a picaretas, reabilitava corruptos, consagrava internacionalmente filmes ruins e transformava canatrões em gênios da arte
E ra uma vez uma ditadura. Uma ditadura muito lucrativa. Uma ditadura que ficou para trás, mas não ficou. Ela sempre reaparecia nos corações e nas mentes dos que a evocavam — supostamente para repudiá-la, mas discretamente para cultivá-la. Não como regime, mas como cenografia.
Essa ditadura cenográfica era uma beleza. Com o tempo, foi se consolidando como uma das instituições mais generosas do século (sendo ela originalmente do século anterior, mas isso não encabulava os seus devotos). Sua generosidade se traduzia em fertilidade: alimentava a carreira de políticos medíocres, conferia grandeza de alma a picaretas, reabilitava corruptos, consagrava internacionalmente filmes ruins e transformava canastrões em gênios da arte.
A forma preferida de encarnação da ditadura cenográfica era na condição de fantasma. Quando o fantasma da ditadura aparecia nas manchetes, todo mundo já sabia que vinha novidade por aí: filme novo, livro, candidatura ou alguma maldade contra o povo que precisava ser disfarçada. Era que nem dar remédio amargo para criança de antigamente: se não tomar, o bicho-papão te pega.
Simples e eficaz: se não aceitar os parasitas no seu cangote, o bichopapão da ditadura volta; se não aceitar arbitrariedade, o bicho-papão da ditadura pega; se não aceitar censura, o bicho-papão da ditadura mata; se não aceitar a escória da escória torrando o seu dinheiro à luz do dia na sua cara, o bicho-papão da ditadura come. Não vai arriscar, né?
Para proteger a sociedade do fantasma da ditadura, valia apoiar outras ditaduras. China, Venezuela, Irã, Nicarágua… Eram muitos os exemplos de ditaduras amigas que os heróis do cinema aceitavam amistosamente. A indústria do combate à ditadura imaginária era baseada no regime de retroalimentação: o poder dava uma força para a arte panfletária e a arte panfletária embelezava o poder — exaltando seus predicados democráticos para lindas plateias de black-tie aplaudirem. Ninguém ia querer estragar uma festa dessas, né?
Claro que havia liberdade para dizer que se tratava de um bando de demagogos enriquecendo às custas de uma falsa resistência política. Mas quem dissesse isso seria automaticamente enquadrado como fascista. E a ditadura imaginária continuaria protegida, numa boa, sustentada pelos seus amantes secretos — e sustentando o autoritarismo inconfessável deles. Final feliz!
Guilherme Fiuza - Revista Oeste
Augusto Nunes e a 'Trinca de canastrões'
Wagner Moura posa com o prêmio de Melhor Ator em Filme Dramático por "O Agente Secreto" na 83ª edição do Globo de Ouro em Beverly Hills, Califórnia, EUA (11/1/2026) - Foto: Reuters/Mario Anzuoni
O que deve fazer um ator para incorporar o personagem que vai interpretar num palco de teatro?, perguntei a Paulo Autran no meio da entrevista na TV Bandeirantes. “No meu caso, a coisa é meio mediúnica”, começou a resposta. Durante uma semana, ele lia reiteradamente o texto inteiro da peça. Em seguida, consumia outra semana lendo as falas que lhe cumpria decorar. Simultaneamente, procurava imaginar, em quaisquer situações, como agiria não ele, Paulo Autran, mas a figura que o substituiria no palco.
“Eu ficava espantado com o que acontecia”, prosseguiu. Por exemplo: vestir um terno aprisionado no guarda-roupa pela antipatia surgida já no instante da compra. Ou perceber, durante a caminhada, que as passadas se haviam tornado mais ágeis — ou mais lentas. O grande ator se considerava pronto quando ouvia a própria voz dizendo algo que jamais ocorreria ao carioca formado em Direito pela Faculdade do Largo de São Francisco. “Fiquei perplexo quando, ao jantar num restaurante paulistano, escolhi um prato que nunca tinha comido nem pretendia comer”, revelou na entrevista. “O pedido foi feito pelo personagem”.
Até a morte aos 85 anos (e descontadas dezenas de atuações no cinema e em telenovelas), reencarnaram em Paulo Autran criaturas forjadas por Shakespeare, Pirandello, Sartre, Millôr Fernandes, Brecht, Molière e outras sumidades do teatro mundial. Enquanto durava a temporada, eram dois seres num corpo só. Mas ele camuflava a dupla identidade com a elegância discreta de quem parecia ter frequentado a Câmara dos Lordes quando ainda usava fraldas.
Parecia constrangido quando recebia mais um prêmio. Ganhou todos, sem jamais recorrer a leis Rouanet ou financiamentos federais. Inteligente, culto, assertivo, guardava seus pontos de vista para conversas entre amigos e gente que pensa. Evitava perder tempo com canastrões fantasiados de pais da pátria. Nunca se sujeitou a pedir favores, até porque sempre lhe sobrou plateia. Preferia concentrar-se na incorporação de personagens que mostrariam aos espectadores a vida como ela é. O que pensaria Paulo Autran da performance de um Wagner Moura antes, durante e depois do tiroteio pela conquista de um Globo de Ouro?
Eufórico com o prêmio de Melhor Filme em Língua Não Inglesa conferido a O Agente Secreto, Wagner foi às nuvens com a conquista do Globo de Ouro reservado ao melhor ator de drama em idiomas falados fora do Reino Unido. No enredo, o ator vive um veterano militante da luta armada que continua sonhando com a derrubada do regime militar instaurado em 1964. Vitorioso, um Wagner Moura todo de branco agarrou o microfone para desandar na discurseira transcrita a seguir:
“Eu acho que temos que continuar fazendo filmes sobre a ditadura. A ditadura ainda é uma cicatriz na vida brasileira. Isso aconteceu há 50 anos apenas. Nós recentemente tivemos, de 2018 a 2022, tivemos um presidente de extrema direita no Brasil, um fascista, que é a manifestação física dos ecos da ditadura. Então, a ditadura ainda está muito presente no cotidiano brasileiro.
Então temos que continuar fazendo filmes sobre isso”.
Nascido em 1976, o ator baiano era ainda um bebê de colo quando a revogação do Ato Institucional nº 5, em 1º de janeiro de 1979, encerrou os anos de chumbo. Não viu o que houve e, pelo jeito, tampouco procurou saber o que aconteceu. Acompanhou já quarentão o governo de Jair Bolsonaro — e nem mesmo uma besta quadrada amestrada nos confins da Coreia do Norte conseguiria enxergar uma ditadura fascista num governo que não prendeu nem perseguiu ninguém por motivos políticos.
Feliz com o palavrório, o presidente da República tratou a conquista de dois Globos de Ouro em data merecedora de feriado nacional, com desfiles de colegiais em todas as cidades do país. É o que mostra a confraternização telefônica entre Lula, Wagner e Kléber Mendonça Filho, diretor do colosso cinematográfico. Confiram os melhores momentos, sem correções nem retoques:
Lula: Wagner, querido, olhe… Olhe, você pode ter certeza, pode ter certeza que você é um orgulho desse país, cara.
Wagner: Desde o seu primeiro governo, sempre, né, o cinema teve um espaço… Eu me lembro que você fazia umas sessões de cinema. É um governo que gosta de cultura, Presidente. E isso é uma diferença muito grande para qualquer país que se queira desenvolver.
Lula: A gente tem que criar núcleos de cultura em cada município para transformar uma coisa muito forte, sabe? E a gente passar a criar instrumentos da sociedade fiscalizar as coisas, a execução dos recursos, sabe? Porque assim a gente vai conseguir colocar a cultura como uma coisa perene nesse país. Ela ensina as pessoas, ela torna as pessoas mais cultas, torna as pessoas mais politizadas. Ela gera milhões de empregos.
Wagner: E eu acredito mesmo que o Brasil é o país que tem vocação para isso, sabe, Presidente? Assim, vocação para a cultura. Olha, você não sabe a alegria que me dá, Lula, estar falando com você e ouvi-lo falar assim de cultura. É lindo, emociona e faz a gente ter certeza de que a gente está indo para o lugar certo, para o caminho certo. Muito obrigado por essa ligação. Presidente que liga para seus artistas e conversa com eles, isso aí é…
Lula: Acho que foi um espetáculo extraordinário, Wagner e Kleber. Eu acho que para os próximos dias nós vamos anunciar aqui no Brasil, que nós vamos colocar nas redes públicas a obrigatoriedade de ter os filmes nacionais. Sabe, são não sei quantas centenas de filmes que a gente vai passar para todo dia o povo brasileiro ter o direito de conhecer o que que é o cinema brasileiro.
Wagner: É de muita importância isso. Eu acho que a capacidade que nós temos de se ver na tela, seja uma série, um filme, um cinema, é de extrema, extrema importância.
Wagner Moura em cena do filme O Agente Secreto - Foto: Divulgação
Wagner: Você é o maior exemplo disso, Presidente. E é muito importante pra gente ter um presidente que se coloca dessa forma.
Kleber: Eu dediquei o prêmio aos jovens cineastas no Brasil. Que eu acho que é um grande momento de fazer filmes e nós temos instrumentos de apoio. Isso tá muito claro com toda a trajetória do “Agente Secreto” e de tantos filmes brasileiros que foram feitos dentro do sistema de financiamento público. Lula: E nós vamos continuar financiando, porque a cultura é efetivamente uma das coisas mais sagradas na construção, na construção da personalidade de um país.
Oito milhões de reais enterrados na realização do filme por um governo em situação falimentar ajudam a entender a euforia da trinca, os delírios patrióticos de Lula e o servilismo rastaquera da dupla laureada. Os dois sabem que Lula nunca rimou com cultura. Não sabe escrever, nunca leu um livro, nunca deu as caras num teatro e só vê filme brasileiro no cineminha do Alvorada por não conseguir decifrar legendas. Na discurseira de todo santo dia, submete a língua portuguesa a medonhas sessões de tortura.
Pena que Wagner Moura tenha incorporado um terrorista sem cérebro
em vez do Capitão Nascimento. Se não estivesse aposentado, o herói
de Tropa de Elite não perderia a chance de, mesmo por telefone, dar
voz de prisão ao único presidente analfabeto da história da República.
Augusto Nunes e a 'Trinca de canastrões'
'O silêncio dos indecentes', por Eugênio Esser
Uma Suprema Corte que não dá satisfações à sociedade e persegue seus críticos vai, dia após dia, instalando no Brasil uma distopia: escândalos que não escandalizam
E m vão, os brasileiros aguardaram esta semana uma explicação convincente do ministro Dias Toffoli sobre uma descoberta — mais uma — que fulmina a sua credibilidade para investigar a decisão do Banco Central que liquidou o Banco Master. O ministro do Supremo Tribunal Federal, que estancou o trâmite do processo na justiça federal e o pegou para si, decretando um inaudito sigilo máximo sobre o caso, viu os nomes de dois irmãos e um primo dele ocuparem as manchetes dos jornais porque empreendimentos da família Toffoli, especialmente o resort Tayayá, em Ribeirão Claro (PR), tiveram como sócios fundos de investimento ligados à intrincada rede de fraudes financeiras em que o Banco Master está metido, segundo apuraram a Polícia Federal e os técnicos do Banco Central.
Toffoli nada disse, como nada tem dito sobre tudo o que vem cercando sua nebulosa atuação no processo que levou à prisão do banqueiro Daniel Vorcaro. Segue impávido. Se ele voou em jato privado com o advogado do ex-diretor de Compliance do Master, o que tem de mais nisso? Se decidiu, em seguida, fazer uma acareação esdrúxula cujo único propósito parecia ser o de constranger o Banco Central e salvar o Master da liquidação, qual o problema? Algum incômodo no fato de a advogada Roberta Rangel, com quem Toffoli foi casado até recentemente, ter integrado o quadro de sócios do escritório Warde Advogados, que defende Vorcaro?
Em qualquer país com uma Suprema Corte respeitável, o mais tênue fio de suspeita gera comoções — e remoções. No STF, há um novelo de maus indícios, com pontas soltas encontradas a cada nova semana, em um ritmo que atordoa a consciência moral dos brasileiros. O escândalo de hoje abafa o de ontem e será nublado pelo escândalo de amanhã.
Na edição anterior, Oeste mostrou a longa folha corrida de Toffoli como abafador geral da República e personagem fundamental para tornar o Supremo Tribunal Federal uma lubrificada máquina de perseguição a partir do Inquérito das Fake News, de 2019. O mesmo artigo relembra que Toffoli, criador do monstrengo jurídico que permitiu a Alexandre de Moraes tornar-se o primeiro autocrata de toga do continente, volta a reeditar a sinistra dobradinha quase sete anos depois. Ambos têm um interesse em comum: desarmar uma bomba instalada perigosamente perto da cúpula do Poder Judiciário. É uma operação delicada, somente possível com o uso de robôs no Congresso, no Tribunal de Contas da União, no jurispetismo e no próprio governo, controlador da Polícia Federal e do Banco Central.
A bomba é o telefone celular de Daniel Vorcaro, verdadeira caixa-preta das relações que o banqueiro estabeleceu com os mais empedernidos figurões da República, tanto na órbita política quanto nos círculos jurídicos. Pelo que vazou até agora, já se soube, por exemplo, de um contrato de R$ 129 milhões que o Master firmou com o escritório jurídico da esposa de Moraes para fazer nada — ou tudo. Tudo que não se possa escrever em um contrato. Há cinco semanas, Moraes deve uma explicação ao Brasil, e nada diz, esperando que as manchetes a respeito esfriem. Volte ao parágrafo anterior e entenderá. O escândalo de hoje abafa o de ontem e será nublado pelo de amanhã.
Moraes também não ofereceu até agora resposta razoável para os repetidos contatos que fez com o Banco Central, em meados do ano passado, para saber do estágio em que andavam as investigações sobre o Master e externar preocupação com o destino de um banco médio que enfrentava grandes bancos. Era precisamente o discurso de Vorcaro: oferecer juros 30% superiores aos praticados pelos bancões não significava vender ilusões aos compradores de CDBs, e sim estratégia de crescimento em águas dominadas por tubarões. Deu no que deu: o maior rombo já visto no mercado financeiro. O Fundo Garantidor de Crédito terá de lançar mão de mais de R$ 40 bilhões para ressarcir os compradores de CDBs do Master.
E o BRB, banco distrital de Brasília, terá de explicar como aceitou injetar liquidez no encrencado Banco Master, recebendo em troca ativos considerados fraudulentos pela Polícia Federal no montante de R$ 12 bilhões. Instado pelo portal Metrópoles a revelar datas e detalhes das conversas com Moraes, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, “toffolizou”. Colocou as comunicações do Banco Central com Moraes em sigilo. Menos para Toffoli, claro, que tudo sabe e nada revela, como titular do sigilo master.
“Silêncio no tribunal”, é a ordem. Não há respostas a dar. Mas há perguntas a fazer. Na Corte, começa a ganhar corpo a ideia de investigar agentes públicos, instalados na Receita Federal e no Coaf, de onde estariam partindo dados sensíveis envolvendo a vida financeira de ministros e parentes. Caso se confirme a abertura do inquérito, seria uma reedição da famigerada caça às bruxas inaugurada pela dupla Toffoli-Moraes quase sete anos atrás. Vale lembrar as semelhanças. Em 2019, dois agentes da Receita Federal acionaram um software de fiscalização, o ContÁgil, que cruzou bancos de dados em busca de agentes públicos que, entre outros critérios, tivessem patrimônio familiar acima de R$ 5 milhões e apresentassem “inconsistências graves” em declarações fiscais.
A lista gerada automaticamente pelo software trouxe os nomes de 133 contribuintes, entre os quais resplandeciam as esposas de Gilmar Mendes, Guiomar, e de Dias Toffoli, Roberta Rangel — ambas advogadas com causas em tramitação no STF. Nenhuma explicação foi dada pela Suprema Corte, mas Moraes, o condutor do Inquérito das Fake News, afastou temporariamente os servidores da Receita, e não se falou mais nisso.
O celular de Vorcaro, hoje um homem-bomba, tira o sono de Brasília. Nomes como o ex-presidente Michel Temer e o ex-ministro do STF e da Justiça de Lula, Ricardo Lewandowski, prestaram serviços de consultoria para o Master.
Temer não deu detalhes sobre quanto recebeu pelo trabalho que disse ter sido de “articulação política” para ajudar na venda do Master ao BRB.
Lewandowski emudeceu, estimulando ilações de que o desgaste, real ou potencial, à sua imagem, teria contribuído para a decisão de sair do Ministério da Justiça e Segurança Pública.
São muitos sigilos. De Toffoli sobre todo o caso Master. Do Banco Central sobre os contatos impertinentes de Moraes. De Moraes sobre o contrato de R$ 129 milhões com o Banco Master. A soma dos silêncios está soprando em direção a Brasília nuvens muito carregadas. Mas… e se Vorcaro quiser contar o que sabe? Toffoli desejará ouvi-lo em “sigilo máximo” também? Declarar-se-á, como diria Temer, impedido?
Chamará Moraes para incluir o banqueiro no Inquérito das Fake News? Não ria do absurdo. No absurdo nos encontramos, e qualquer hipótese, mesmo a mais delirante, é perturbadoramente factível. Afinal, tenhamos em conta que:
— O STF aboliu, no Brasil, o duplo grau de jurisdição, isto é, o direito que um condenado tem de recorrer a, pelo menos, uma segunda instância. Assim é em todo o mundo livre. Assim foi com Lula, condenado em sucessivas instâncias por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Assim deixou de ser quando Jair Bolsonaro e seus apoiadores, de dentro e de fora do governo, foram processados por crimes impossíveis.
Sugiro que assista, também, ao documentário The Fake Judge (“O Falso Juiz“), do jornalista português Sérgio Tavares. É sobre os abusos de Alexandre de Moraes.
— Por crimes impossíveis, entenda-se, principalmente: levante armado sem uso de armas; dano a patrimônio público sem provas individualizadas de participação em vandalismo, graças ao conceito do “crime de multidão”; fixação de penas excessivas pelo acúmulo sem sentido de condenações não só redundantes como ilógicas — caso de Débora Rodrigues dos Santos, submetida a uma pena de 14 anos por escrever “Perdeu, mané” na estátua da Justiça, usando um batom. O STF desgraçou a vida da moça, como a de tantos brasileiros de vida honesta, ao atribuir, em um sistema de copia-e-cola, os crimes de “associação criminosa armada”, “abolição violenta do Estado de Direito”, “golpe de Estado”, “dano qualificado” e “deterioração de patrimônio tombado”.
— As sucessivas ordens de prisão de Alexandre de Moraes contra Filipe Martins por uma viagem que ele não fez e por uma reunião da qual não participou. Graças ao abuso de Moraes, o STF criou um precedente desastroso: se o Estado acusar um cidadão de algo, cabe ao infeliz o dever de provar que é inocente, e mesmo assim corre o risco de ser condenado por, digamos, presunção de culpa.
— A presunção de culpa é o alicerce motivacional dos julgamentos que o STF aplicou a todos os detidos nas manifestações de 8 e até de 9 de janeiro de 2023. Dentre todos os condenados, o grande alvo da cólera do regime STF-PT é, de longe, Jair Bolsonaro, preso em uma sala de 12 metros quadrados na superintendência da Polícia Federal em Brasília. As múltiplas sequelas e comorbidades de um septuagenário que sobreviveu a um atentado a faca em 2018 e se submeteu a sucessivas cirurgias são suficientes para a decretação de prisão domiciliar para Bolsonaro. Seus familiares almejam o mesmo benefício dado ao expresidente Fernando Collor de Mello, mas Moraes não só rejeitou o pedido, que invoca razões humanitárias, como parece disposto a testar a resistência do ex-presidente.
Quando Bolsonaro caiu da cama e apresentou um traumatismo na cabeça, Moraes esperou 24 horas para autorizar exames. O Conselho Federal de Medicina recebeu denúncias e determinou ao CRM de Brasília uma sindicância sobre os cuidados médicos prestados a Bolsonaro. Moraes, no mesmo dia, tornou sem efeito a ordem do CFM e determinou que seu presidente seja ouvido pela Polícia Federal — a mesquinha intimidação que já é praxe nos procedimentos do ministro.
Moraes deveria ter em mente — ele ou alguém com bom senso no Supremo — que a toga não veste bem em um carrasco. É a lição que fica do dia 20 de novembro de 2023, quando um brasileiro inocente, vítima das prisões em baciada do 8 de janeiro, tombou agonizante no pátio da Papuda, em Brasília. O grave estado de saúde de Cleriston Cunha foi informado à Procuradoria-Geral da República (PGR), que recomendou a soltura de Clezão — também porque já não havia a menor razão para mantê-lo preso preventivamente. Moraes deixou o parecer da PGR em sua gaveta por 80 dias — até o fatídico 20 de novembro, que a imprensa brasileira, nas reportagens alusivas ao Dia da Consciência Negra, tanto em 2024 como em 2025, fez questão de ignorar. O negro conservador, pelo visto, não é negro.
Se você chegou até aqui e já sabe que Wagner Moura faturou o Globo de Ouro por seu trabalho de ator no filme O Agente Secreto, ambientado no final do regime militar no Brasil, sugiro que assista, também, ao documentário The Fake Judge (“O Falso Juiz“), do jornalista português Sérgio Tavares. É sobre os abusos de Alexandre de Moraes e poderia se chamar “O Processo Secreto“. Os inquéritos sigilosos conduzidos por Moraes e que levaram ao exílio tantos brasileiros ainda estão abertos, quase sete anos depois da abertura do primeiro deles, o 4.781. Os métodos utilizados por Moraes para determinar prisões, mandados de busca e apreensão, bloqueios de redes sociais, congelamentos de contas bancárias e suspensões de passaportes são de estarrecer juristas não corrompidos pelo cinismo.
Ex-braço direito de Alexandre de Moraes na “Assessoria de Enfrentamento à Desinformação” do Tribunal Superior Eleitoral, Eduardo Tagliaferro denunciou os abusos de autoridade cometidos pelo ex-chefe. Mostrou a todo Brasil uma prova de fraude processual praticada por Moraes contra oito empresários brasileiros, que foram alvo de um mandado de busca e apreensão em suas casas e escritórios em 2022. Resultado: Moraes não se explicou, a imprensa mostrou desinteresse no assunto e… Tagliaferro virou réu no STF por, entre outras imputações, “tentativa de abolição violenta do Estado de Direito”.
Uma Suprema Corte que não dá satisfações à sociedade e persegue seus críticos vai, dia após dia, instalando no Brasil uma distopia: escândalos que não escandalizam.
Eugênio Esser - Revista Oeste