sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Facção do ex-presidiário Lula fez quase 1.800 voos pela FAB

 A presidência do STF fez 100 decolagens. Os ministros, outras 19



Jatinho executivo da Força Aérea Brasileira (FAB), usado no transporte de autoridades


Regalia disputada pela nata de Brasília, os jatinhos da Força Aérea Brasileira fizeram ao menos 1.778 decolagens com autoridades ao longo de 2025. Têm direito à regalia os ministros de Estado, chefes das Forças Armadas, presidentes da Câmara, Senado e Supremo Tribunal Federal e, normalizado no governo Lula, sem previsão legal, até ministros do STF. A conta não considera os rolês de Lula e Janja, sempre com grandes comitivas e com a gastança protegida pelo sigilo. As informações são do jornalista Cláudio Humberto, do Diário do Poder.

Só deu Hugo Motta zanzando por aí. O deputado, que até tem o próprio avião, fez ao menos 141 viagens nas asas da FAB (e por nossa conta).

Fernando Haddad (Fazenda) não quer nem saber de voos de carreira. Foram 132 viagens ao longo do ano. Foram 20 a mais do que em 2024.

A presidência do STF fez 100 decolagens. Os ministros, outras 19. O total de 2025 supera os voos de 2024 (1553) e fica atrás de 2023 (1997).

Diário do Poder

'A ditadura sem ditador', 'por Carlo Cauti

A captura de Nicolás Maduro decapitou o regime, mas não garante a transição democrática na Venezuela

Cidadãos protestam coletivos que surgiram durante a presidência do falecido Chávez para proteger seu programa ditatorial em Caracas, Venezuela, 2014 - Foto: Ellen Curtis/Shutterstock

“O Equador é um convento, a Colômbia é uma universidade e a Venezuela é um quartel.” A frase, pronunciada pelo herói da independência sulamericana, Simón Bolívar, parece plenamente válida hoje, mais de 200 anos depois. A Venezuela de 2026 é um dos países mais militarizados do mundo. Conta com cerca de 350 mil homens fardados e quase 4,5 milhões de paramilitares que o ditador Nicolás Maduro disse estar pronto para mobilizar a qualquer momento. 

Um venezuelano a cada seis é membro das forças de segurança. A mesma proporção da polícia política da Alemanha Oriental, a Stasi, durante a ditadura comunista. O país tem mais de 2 mil generais e almirantes. No Brasil são cerca de 300. Nos EUA, pouco mais de 400. Essa desproporção tem uma razão. Os oficiais superiores não foram nomeados para comandar tropas, e sim para gerenciar um pedaço do Estado em nome do regime. 

Em alguns casos, tocando empresas estatais. Em outros, reprimindo a oposição. Frequentemente colaborando com o tráfico internacional de drogas. A autocracia de Caracas tem, ainda, cinco milhões de membros do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), quase 17% da população, que atuam na manutenção do controle capilar do país. 

O partido conta com 90% dos prefeitos, 83% dos governadores e 78% dos parlamentares da Assembleia Nacional, além de todos os juízes da Corte Suprema. O partido se tornou o Estado. A progressiva erosão da independência dos Poderes virou um obstáculo à vontade popular, que não era apenas ignorada, mas percebida como ameaça existencial para aqueles que estão no poder. 

Esse é o tamanho do aparelhamento do país tomado de assalto em 1999 por Hugo Chávez e seu grupo político e que, desde então, só conheceu opressão, autoritarismo, censura, tortura, fraudes eleitorais, devastação econômica e muita violência.

Há 26 anos, a Venezuela é governada pelo mesmo partido. As últimas três eleições foram descaradamente fraudadas. Apenas dois homens se sucederam em mais de um quarto de século no Palácio Miraflores: Chávez e Maduro, que tiveram tempo de sobra para ocupar extensivamente a máquina pública com pessoas fiéis ao regime. Dos membros do governo central até o superintendente mais periférico, todos são ligados ao bolivarianismo.


A Venezuela chavista atuou como o pilar financeiro e simbólico que sustentou por anos o projeto de poder da esquerda latinoamericana - Foto: Shutterstock


A partidarização do aparato estatal foi uma das causas da degradação da Venezuela, que hoje é um Estado falido. Também é o maior obstáculo a qualquer mudança democrática, mesmo que imposta do exterior, como tentam os Estados Unidos. 

Sem contar as amplas porções de território que sequer são controladas pelo governo central, estando nas mãos das guerrilhas comunistas colombianas das Farc e das ELN, que, além do tráfico de entorpecentes, dominam a mineração clandestina, o desmatamento ilegal, o contrabando, a extorsão e outras atividades ilícitas. Até grupos terroristas islâmicos, como o Hezbollah e o Hamas, operam impunemente na Venezuela. Impossível fazer tudo isso sem a anuência de Caracas. 


Ditadura decapitada

A captura de Maduro em 3 de janeiro e sua transferência para uma prisão em Nova York decapitaram a ditadura, mas não acabaram com o regime. O déspota foi rapidamente substituído por sua vice, Delcy Rodríguez, que teve o respaldo de quem detém o verdadeiro poder no país: os ministros da Defesa, Vladimir Padrino López, e do Interior, Diosdado Cabello. Esse último, o homem forte de Caracas, ao qual respondem diretamente as milícias bolivarianas, é acusado por tribunais americanos de tráfico internacional de entorpecentes.


O presidente venezuelano Nicolás Maduro, capturado, é escoltado até o Tribunal Federal Daniel Patrick Moynihan, em Manhattan, Nova York | Foto: Adam Gary/Reuters

O autoritarismo continua vigente. Desde a operação americana, nenhum jornalista estrangeiro foi autorizado a entrar no território venezuelano. E já começaram as prisões de repórteres locais, cuja única “culpa” seria criticar o regime. Ou não apoiá-lo suficientemente.

Depois da operação americana, as oposições sequer ousaram ir às ruas para festejar. Mesmo porque muitos dissidentes já deixaram o país, como quase 8 milhões de venezuelanos. O vencedor das eleições de 2024, Edmundo González, está exilado na Espanha. A líder carismática da frente anti-Maduro, María Corina Machado, também não está na Venezuela. As forças políticas locais, tradicionalmente litigiosas, não souberam, não quiseram ou não conseguiram tomar a iniciativa de forçar uma transição de poder.

“A grande maioria dos venezuelanos está muito feliz com a prisão do Maduro”, explica a Oeste um professor universitário venezuelano que mora em um bairro popular de Caracas. “Mas não pode manifestar sua alegria, pois o regime colocou nas ruas as patrulhas dos ‘coletivos’, que impedem aglomerações, realizam prisões arbitrárias e checam até se nos celulares dos transeuntes há mensagens críticas ao governo. Todo mundo está com muito medo

” Os EUA não querem outra guerra infinita Para acabar com um regime gangrenado como o da Venezuela, não é suficiente retirar o chefe da quadrilha. O sistema ideológico, político e criminoso construído em torno do projeto bolivariano de Chávez, sustentado por meio de clientelismo, repressão e financiamento ilícito, foi profundamente enraizado na sociedade. 

O regime nunca foi uma estrutura única, mas uma coalizão unida pelo acesso a privilégios e pelo medo de represálias. Com a saída de Maduro, a coalizão poderá se fragmentar. Mas para acabar de vez com o regime, seria necessário um ato de força muito maior. Uma invasão. Tudo o que Washington não quer, pois o eleitorado de Donald Trump rejeita a hipótese.

Os americanos estão cansados de guerras que consideram insensatas. Desde o final da Guerra Fria, os EUA entraram em uma série de conflitos nos quais não conseguiram colocar um ponto final. A invasão do Afeganistão, após os ataques terroristas do 11 de setembro, terminou com a vexaminosa retirada de Cabul em agosto de 2021. Depois de 20 anos de ocupação, 2,5 mil americanos mortos, 20 mil feridos e bilhões de dólares desperdiçados, os talibãs voltaram ao poder no instante em que o último soldado estrangeiro deixou o país.

Os EUA invadiram o Iraque em 2003 para retirar o ditador Saddam Hussein. Acabaram com o regime, dissolveram as Forças Armadas, expurgaram os membros do partido Baath da máquina pública. Depois de mais de uma década de guerra, com 4 mil americanos mortos, 33 mil feridos e outros bilhões dilapidados, o Iraque segue sendo uma autocracia. 

As intervenções nas guerras civis na Líbia e na Síria também não deram fruto. As ditaduras de Muammar Kadafi e Bashar al-Assad acabaram, mas ambos os países continuam devastados por guerras civis. Trump ganhou as eleições de 2024 prometendo não iniciar nenhum conflito e acabar com os que estão em andamento, evitando a chamada “armadilha imperial”. 

O excesso de compromissos bélicos absorveu recursos das grandes potências do passado além de suas capacidades, provocando seu colapso. Conceito popularizado pelo historiador da Universidade de Yale, Paul Kennedy, em seu livro de 1987, A Ascensão e Queda das Grandes Potências, e que se tornou uma obsessão entre as elites de Washington. 

Por isso, na Venezuela, Trump optou por uma intervenção cirúrgica. Um sucesso estrondoso do ponto de vista tático, que reafirma o papel dos EUA como superpotência militar e evita um possível novo atoleiro para as tropas americanas. Mas é uma aposta que não garante uma mudança de rumo na Venezuela.




Ameaça concreta 

A intervenção dos EUA foi provocada por uma série de razões. Mas, principalmente, pelo fato de a Venezuela estar se transformando de ameaça potencial em perigo concreto para os Estados Unidos. O país tem sido o principal fator de migração irregular, crime transnacional, corrupção e fluxos financeiros ilícitos no hemisfério, com reflexos negativos dentro dos EUA. Há cerca de 800 mil venezuelanos refugiados em solo americano. 

A tirania de Maduro não só devastou a sociedade venezuelana, como também exportou instabilidade para o exterior. Há décadas, o regime de Caracas estreitou laços com rivais estratégicos dos americanos, como Irã, Rússia e, principalmente, China. Teerã montou fábricas de drones no território venezuelano com alcance de 2 mil quilômetros, ou seja, cobrindo o território da Flórida e o Caribe. 

Além disso, estaria fabricando sistemas de mísseis antinavio e lanchas de ataque rápido. Um aparato com capacidade ofensiva posicionado do lado do território americano. A Rússia também se tornou uma grande fornecedora de armamentos de ponta para a Venezuela e mantém no país centenas de conselheiros militares, liderados pelo general Oleg Makarevich, que comandou grandes operações na guerra da Ucrânia. 

A inteligência venezuelana está sendo treinada por oficiais russos em guerra eletrônica, vigilância doméstica, operações com drones e formação de forças especiais. Junto com especialistas chineses, criaram um sistema de retransmissores de comunicação que hoje é tido como uma rede eletromagnética que cobre toda a extensão do Caribe.


Desmantelar o regime chavista imporá custos enormes a muitos atores que se beneficiaram dele. Eles resistirão. 


No caso da China, a questão se torna mais relevante em razão do perfil estratégico. Os chineses estabeleceram o controle operacional de todas as principais áreas de extração de terras raras da Venezuela, cujo subsolo é muito farto. Pequim já exporta 90% desses minerais, pouco presentes no solo americano e fundamentais para a produção de insumos tecnológicos e militares. A partir do ano passado, a China começou a usar as terras raras como forma de retaliação contra os EUA, proibindo a exportação dos minerais e colocando em séria dificuldade a indústria americana. Uma ameaça inconcebível para o Pentágono, especialmente pelo aumento das tensões entre as duas potências por causa de Taiwan. 

Sem contar o suporte da inteligência de Cuba, que tomou o controle dos centros nevrálgicos do Estado venezuelano, como a gestão das fronteiras e até a segurança pessoal de Maduro. Durante a operação americana, morreram pelo menos 32 agentes secretos cubanos que atuavam como guarda pretoriana e, ao mesmo tempo, como instrumentos de controle do ditador venezuelano. 

A Venezuela se tornou, portanto, o único lugar do hemisfério ocidental onde os principais inimigos dos Estados Unidos estabeleceram presença operacional simultânea. Uma convergência que transformou o país de um narcoestado problemático em uma ameaça estratégica.


A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, discursou durante a cerimônia “Promoções e Condecorações a Heróis e Mártires”, em homenagem aos militares e agentes de segurança venezuelanos e cubanos que morreram durante uma operação dos EUA para capturar o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e sua esposa, Cilia Flores, em Caracas, Venezuela, em 8 de janeiro - Foto: Leonardo Fernandez Viloria/Reuters


Transição pacífica ou guerra civil?

Se o governo de Delcy Rodríguez quiser realmente colaborar com os americanos, como declarou, uma das primeiras medidas será cortar esses laços geopolíticos perigosos. Obviamente, nenhum desses países aceitará passivamente perder uma base logística tão importante, especialmente após os tantos investimentos realizados. 

A estabilidade do governo de Delcy está em risco devido às acusações de traição. Começam a surgir boatos de negociações secretas com os americanos que envolveriam ela e seu irmão, Jorge. Algo que poderia ser utilizado pelos rivais para orquestrar um golpe interno nos moldes do que ocorreu com o ex-vice-presidente Tareck El Assaimi, poderoso ex-ministro do Petróleo e ex-presidente da PDVSA, preso em 2024 sob a acusação de corrupção, mas que, na verdade, teria iniciado uma aproximação com os americanos para liderar uma transição.

Isso tudo em um cenário de profunda deterioração econômica, hiperinflação, escassez de produtos básicos e dificuldades para garantir o fornecimento de energia elétrica. O risco de uma “noite das facas longas” é concreto. Especialmente em um contexto em que a violência — tanto política quanto institucional — tornou-se o principal modo de interação do governo com os oponentes e com a sociedade. 

Em um caso como esse, os americanos serão obrigados a decidir se intervêm ou não. Mesmo que a transição seja pacífica, qualquer governo venezuelano precisará de assistência internacional significativa para construir uma arquitetura de segurança capaz de conter a violência. Transições democráticas têm maior probabilidade de perdurar se um ator externo neutro — idealmente uma força de paz multinacional comprometida com os direitos humanos — estiver pronto para conter os sabotadores. Isso também impede que o novo governo tenha de agir de forma repressiva, o que poderia deslegitimá-lo. 

De todo modo, substituir Maduro e seu círculo por uma equipe comprometida com as normas democráticas não garantirá a liberdade. Sem uma desbolivarianização do aparato estatal nos mesmos moldes da desnazificação na Alemanha após a Segunda Guerra Mundial, será impossível garantir a transição. Não apenas pela questão ideológica, mas especialmente pela corrupção. O modelo econômico vigente na Venezuela é o do extrativismo cleptocrático. O regime está condicionado a roubar. Os bilhões subtraídos dos cofres públicos são fundamentais para manter a companheirada no poder. Se a ladroagem para, ninguém mais atende a ordens e o regime cai. Desmantelar o regime chavista imporá custos enormes a muitos atores que se beneficiaram dele. Eles resistirão. Não demorará muito para que voltem aos antigos hábitos. 

A captura de Maduro não significa, por si só, o início do fim do pesadelo vivido pelos venezuelanos, mas pode representar o encerramento de uma primeira etapa da ditadura — ainda que o risco de reversão do cenário permaneça elevado

Carlo Cauti - Revista Oeste

'O retorno do limite', por Ana Paula Henkel

A queda de Maduro restabelece uma verdade elementar da política internacional que o mundo tentou esquecer: ordem não nasce do consenso; nasce da capacidade de impor limites quando o consenso fracassa


Nicolás Maduro, capturado, é escoltado até o Tribunal Federal Daniel Patrick Moynihan, em Manhattan, para sua primeira audiência perante o tribunal, onde enfrentará acusações federais americanas, incluindo narcoterrorismo, conspiração, tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e outros crimes. Nova York, EUA, em 5 de janeiro de 2026 - Foto: Reuters/Adam Gray


E m dezembro de 1989, sob a presidência de George H. W. Bush, tropas americanas cruzaram o Panamá para capturar Manuel Noriega, um ditador transformado em narcotraficante de Estado. Em maio de 2011, já sob Barack Obama, forças especiais dos Estados Unidos entraram em território paquistanês para eliminar Osama bin Laden, o homem mais procurado do mundo.


Manuel Noriega, um ditador transformado em narcotraficante de Estado - Foto: Shutterstock 


Em maio de 2011, já sob Barack Obama, forças especiais dos Estados Unidos entraram em território paquistanês para eliminar Osama bin Laden - Foto: Wikimedia Commons


Agora, em janeiro de 2026, a captura de Nicolás Maduro recoloca esse mesmo fio histórico em movimento. Não se trata apenas da queda de um ditador latino-americano, mas do retorno explícito de uma lógica de poder que havia sido suspensa, terceirizada ou disfarçada por décadas: a de que a soberania real exige capacidade de agir — e disposição para fazê-lo. Três presidentes, três operações cirúrgicas, três decisões tomadas sem consulta prévia ao Congresso — e apenas uma delas passou a ser tratada como escândalo institucional. 

A operação que levou Maduro sob custódia americana não inaugura uma era. Ela encerra um intervalo. 

A imprensa que hoje se apressa em questionar a legalidade da ação esquece — ou prefere esquecer — um detalhe essencial: o precedente existe. Ele não é obscuro nem controverso. Ele é histórico. Alguns analistas de ocasião decidiram redescobrir a Constituição americana justamente agora, questionando a ausência de consulta prévia ao Congresso como se isso fosse um ato inédito. Não é. 

Noriega e Bin Laden foram capturados ou eliminados sem autorização legislativa prévia. Em nenhum dos dois casos, os Estados Unidos enfrentaram uma crise constitucional, nem a Casa Branca foi acusada de “golpismo institucional”. Ao contrário: as ações foram entendidas como exercício legítimo do poder executivo em defesa da segurança nacional. 

Obama autorizou a operação contra Bin Laden sem consulta prévia e foi amplamente elogiado por isso. A legalidade não foi questionada, a legitimidade menos ainda. O que mudou não foi o procedimento. Foi o presidente. 


Obama autorizou a operação contra Bin Laden sem consulta prévia e foi amplamente elogiado por isso - Foto: Shutterstock


O debate atual não é jurídico. É político. E, mais profundamente, estético. Trump não se encaixa no imaginário moral da imprensa progressista. Logo, seus atos, ainda que idênticos aos de seus antecessores, passam a ser tratados como ameaça institucional. Essa inversão revela mais sobre quem acusa do que sobre quem decide. 

Nicolás Maduro não era apenas um ditador autoritário à frente de um Estado falido. Ele comandava um regime integrado ao narcotráfico internacional, sustentado por redes transnacionais de crime, com proteção ativa de potências adversárias dos Estados Unidos. A Venezuela havia se tornado um nó estratégico em uma teia que ligava o Caribe ao Oriente Médio, passando por Havana, Teerã, Moscou e Pequim.

Ignorar isso é fingir que o mundo de 2026 ainda é o de 1996. 

Para entender por que essa lógica não é uma exceção contemporânea, mas um padrão recorrente da política americana, é preciso recuar dois séculos e lembrar o princípio fundador que moldou a relação dos Estados Unidos com o seu entorno estratégico.


A Doutrina Monroe (1823) 

Proclamada em 1823 pelo presidente James Monroe, a Doutrina Monroe estabeleceu um princípio simples e duradouro: o Hemisfério Ocidental não estaria mais aberto à colonização ou interferência de potências europeias. Em troca, os Estados Unidos se comprometeriam a não intervir nos assuntos internos do Velho Mundo. Não era um gesto imperial, mas defensivo. A jovem república americana afirmava que sua segurança dependia da estabilidade estratégica de seu entorno imediato — uma noção elementar de soberania em um sistema internacional ainda regido pela força.

Ao longo dos séculos, a doutrina foi reinterpretada, expandida e, por vezes, instrumentalizada, mas seu núcleo permaneceu intacto: nenhuma grande potência tolera a consolidação de adversários estratégicos em sua vizinhança direta. O que muda não é o princípio, mas o método. Em 2026, a captura de Nicolás Maduro não revive a Doutrina Monroe em sua forma original; ela reafirma sua lógica essencial em um mundo multipolar, no qual a disputa não se dá mais por colônias formais, mas por infraestrutura crítica, influência política e controle indireto de Estados falidos.


Proclamada em 1823 pelo presidente James Monroe, a Doutrina Monroe estabeleceu um princípio simples e duradouro: o hemisfério ocidental não estaria mais aberto à colonização ou interferência de potências europeias - Foto: Wikimedia Commons


A Doutrina Monroe revisitada 

Durante anos, analistas apressados decretaram a morte da Doutrina Monroe. Ela teria sido superada, diluída pelo multilateralismo, substituída por uma diplomacia de “valores compartilhados”. Na prática, o que se viu foi outra coisa: o abandono progressivo do Hemisfério Ocidental pelos Estados Unidos, preenchido rapidamente por potências que jamais esconderam sua hostilidade à ordem liberal ocidental.

A captura de Maduro não representa uma reedição caricata da Doutrina Monroe do século 19. Representa algo mais direto: o reconhecimento de que nenhuma potência pode permitir que seu entorno estratégico imediato se transforme em base avançada de adversários globais. 

Não se trata de imperialismo. Trata-se de geopolítica elementar. China, Rússia e Irã avançaram na América Latina porque puderam. Avançaram porque encontraram vácuos. Avançaram porque, durante anos, os Estados Unidos hesitaram, recuaram ou se limitaram a sanções simbólicas. A Venezuela foi o laboratório mais avançado desse processo. A operação que capturou Maduro é, nesse sentido, um freio de arrumação — tardio, mas inequívoco.


China, Rússia e Irã avançaram na América Latina porque puderam. Avançaram porque encontraram vácuos - Foto: Shutterstock

Seria um erro grave interpretar a ação apenas como um evento latinoamericano. Ela se insere claramente na lógica da agenda “America First”, que recoloca o interesse nacional americano no centro da política externa — não como slogan, mas como eixo operacional. A Venezuela é apenas uma peça de um tabuleiro maior. O verdadeiro alvo estratégico está mais a leste: a China. 

Pequim vem, há anos, institucionalizando sua presença no Hemisfério Ocidental. Não apenas por meio de investimentos, mas por infiltração tecnológica, controle logístico, dependência financeira e influência política. Portos, redes elétricas, telecomunicações, mineração, vigilância digital — tudo isso compõe uma arquitetura de poder que não é neutra.

Mais grave ainda: a China já não atua apenas fora dos Estados Unidos. Atua dentro. Universidades, centros de pesquisa, cadeias de suprimento críticas e comunidades estratégicas tornaram-se espaços de influência ativa. 

A ideia de que isso é apenas “globalização” é uma ingenuidade que custa caro. A captura de Maduro envia um recado claro: o Hemisfério Ocidental não está disponível para a consolidação estrutural de potências rivais fundadas em ideologias autoritárias que tratam a liberdade como obstáculo e o Estado como fim.


A captura de Maduro envia um recado claro: o Hemisfério Ocidental não está disponível para potências rivais - Foto: Reprodução/Redes Sociais


Irã: o aviso já havia sido dado 

Quem se diz “surpreendido” pela ação americana sofre de amnésia seletiva. No ano passado, uma operação contra interesses iranianos já havia sinalizado que Washington havia abandonado a lógica da contenção passiva e estava disposta a voltar a exercer poder real para proteger seus interesses — e, por extensão, os do Ocidente. 

O Irã, assim como a Venezuela, opera por meio de proxies, redes paralelas e alianças assimétricas. Sua presença na América Latina, inclusive em território venezuelano, nunca foi casual. Ela fazia parte de uma estratégia de cerco indireto aos Estados Unidos. A mensagem foi clara ainda em 2025: não haverá mais tolerância com zonas cinzentas. 

Quem insistiu em tratá-la como retórica errou o diagnóstico. 


Força Delta: o poder que não se anuncia 

Há um elemento simbólico que merece atenção nas operações da administração Trump na Casa Branca: o papel da Força Delta (unidade de elite do Exército dos Estados Unidos). Não por fetiche militar, mas pelo que ela representa institucionalmente. 

A Delta não é instrumento de ocupação. É instrumento de decisão. Sua lógica não é a da guerra ideológica, interminável e difusa, mas a da ação delimitada, silenciosa e eficaz. Onde ela atua, não há espetáculo. Há encerramento. 

Isso importa porque desmonta a narrativa de “invasão”. Não houve tentativa de remodelar a Venezuela pela força. Houve a neutralização de um vértice de poder criminoso. O objetivo não era conquistar território. Era remover um fator de desestabilização sistêmica. 


A América Latina: antes e depois

Antes da captura de Maduro, a América Latina vivia uma fragmentação silenciosa. Governos ideologicamente alinhados a regimes autoritários conviviam com democracias frágeis, enquanto a influência chinesa crescia de forma constante, pouco contestada. 

Depois da operação, o cenário mudou. Não porque todos passaram a apoiar Washington — não passaram—, mas porque a ilusão de que os Estados Unidos haviam abdicado do hemisfério caiu por terra. 

A região voltou a ser estratégica. E isso, por si só, já altera comportamentos, discursos e alianças.


O mundo que emerge após janeiro de 2026 é menos confortável para ditadores, menos previsível para burocracias internacionais e mais exigente para aliados hesitantes


Na Europa, a reação foi previsível: preocupação formal, condenações retóricas, apelos à legalidade internacional. O continente, cada vez mais dependente da proteção americana, vive o paradoxo de criticar aquilo que o sustenta. 

Na Ásia, o recado foi entendido com mais clareza. Precedentes importam. A ideia de que líderes ou estruturas fora do território americano estão automaticamente protegidos por formalismos jurídicos foi relativizada. O mundo entrou, definitivamente, em uma fase pós-ilusória. A crença de que normas sobreviveriam sem um poder que as apoiasse mostrou-se insustentável. 

A queda de Maduro não resolve a Venezuela. Não garante democracia, nem assegura prosperidade imediata. Mas remove um bloqueio central. E, sobretudo, restabelece uma verdade elementar da política internacional que o mundo tentou esquecer: ordem não nasce do consenso; nasce da capacidade de impor limites quando o consenso fracassa 




A queda de Maduro não resolve a Venezuela. Não garante democracia, nem assegura prosperidade imediata. Mas remove um bloqueio central | Foto: Reuters/Eduardo Muno

Por tempo demais, o Ocidente confundiu prudência com paralisia, diálogo com abdicação e legalismo com fraqueza. Ao fazê-lo, abriu espaço para regimes que não compartilham seus valores, mas que se beneficiam de suas hesitações. A captura de Maduro marca o momento em que essa ambiguidade estratégica começa a se fechar. Não por nostalgia de um passado imperial, mas por reconhecimento de que a liberdade não se sustenta sozinha — ela exige guardiões dispostos a agir. 

O mundo que emerge após janeiro de 2026 é menos confortável para ditadores, menos previsível para burocracias internacionais e mais exigente para aliados hesitantes. É um mundo em que a aposta na erosão lenta das democracias passa a ter custo real; em que a simetria moral entre regimes livres e regimes autoritários se torna insustentável; e em que o Hemisfério Ocidental volta a ser entendido não como zona neutra, mas como espaço civilizacional. 

 mais básicas do poder. E, desta vez, ela bateu à porta com força suficiente para ser ouvida de leste a oeste. A História não voltou por nostalgia. Voltou porque foi chamada, voltou por omissão, por excesso de tolerância, por esquecimento das lições mais básicas do poder. E, desta vez, ela bateu à porta com força suficiente para ser ouvida de leste a oeste.


Trump não se encaixa no imaginário moral da imprensa progressista. Logo, seus atos, ainda que idênticos aos de seus antecessores, passam a ser tratados como ameaça institucional - Foto: Shutterstock


Ana Paula Henkel - Revista Oeste

Fuga de cubanos do terror da ditadura em 2025 é maior do que a da venezulanos - O Foro de São Paulo criado por Fidel, Lula e outros celerados segue infernizando cidadãos

 O regime chavista ficou em segundo lugar, com 19.956 refugiados 



Cubanos deixam suas casas sob chuva torrencial, indo da Praia Siboney, em Santiago de Cuba, para locais seguros, antes da chegada do furacão Melissa. 28/10/2025 - (Yamil Lage/AFP) 


A ação dos Estados Unidos em Caracas contra o narcotráfico levantou um debate sobre o possível surgimento de uma nova onda de refugiados da Venezuela a caminho do Brasil.


A julgar pelos dados consolidados do governo sobre movimentações na fronteira, o temor de uma nova onda deve se transferir para outro país do Caribe fortemente afetado pelas ações dos Estados Unidos 


Em 2025, o país que mais exportou refugiados ao Brasil não foi a Venezuela. Dos 69.402 estrangeiros listados no Ministério da Justiça, 38.130 saíram de Cuba, ilha fortemente impactada pela caça ao crime organizado pelo Foro de São Paulo criado por Fidel, Lula e outros celerados.


Com informações da Veja


Jornal da Auri Verde Brasil – Alexandre Pittoli

OESTE COM ELAS

MARCEL VAN HATTEN FALA SOBRE O FIM DE LULA E MORAES - AS PROVAS