A administração Joe Biden optou, em 2021, por flexibilizar os
critérios de entrada de afegãos. A urgência humanitária serviu de
justificativa política, mas a triagem foi falha e a fronteira converteuse em uma avenida aberta
Agentes da lei se reúnem em uma área isolada após dois membros da Guarda Nacional terem sido baleados perto da Casa Branca, em
Washington, D.C., EUA, em 26 de novembro de 2025 - Foto: Nathan Howard/Reuters
D
urante um bom tempo, discutir sistemas de imigração foi
tratado como falta de compaixão. Como se proteger
fronteiras fosse um ato de hostilidade, e não de
responsabilidade. Por anos, elites políticas e parte
significativa da imprensa repetiram que exigir critérios, triagem e lei
era sinal de intolerância. Até que a realidade começou a cobrar a
conta. Desta vez, foi em Washington, no coração político dos Estados
Unidos, a poucas quadras da Casa Branca.
Dois soldados da Guarda Nacional da Virgínia Ocidental patrulhavam
o centro da capital americana quando foram surpreendidos por
disparos à queima-roupa. Uma das balas atingiu o pescoço de Sarah
Beckstrom, uma jovem de apenas 20 anos. Outra feriu gravemente o
cabo Andrew Wolfe, de 24. Sarah não resistiu e faleceu na quinta-feira,
27 de novembro.
O atirador não era um cidadão americano. Não era sequer um
imigrante documentado e legalizado no país. Rahmanullah Lakanwal,
afegão de 29 anos, entrou nos Estados Unidos em 2021, no fluxo de
refugiados aceitos às pressas após a retirada caótica das tropas
americanas de Cabul durante o governo Biden. Chegou
com status provisório, viveu sem rastreamento, sem visto permanente
e sem controle migratório real.
Há uma informação ainda em verificação por diferentes veículos e que
levanta novas dúvidas sobre os mecanismos de seleção de refugiados
nos EUA: relatos preliminares indicam que Rahmanullah Lakanwal
teria tido sua solicitação de asilo aprovada em abril de 2025, já sob a
administração Trump. A confirmação oficial ainda está em apuração,
mas o simples fato de essa possibilidade existir reacende um debate
mais amplo: o processo de checagem e triagem aplicado a refugiados e
solicitantes de asilo é realmente capaz de identificar perfis de
risco?
Se o atirador passou por esse filtro e foi aprovado, surge a
pergunta que Washington tenta responder desde o ataque: quem está
avaliando essas pessoas, com quais critérios, e até que ponto os
protocolos atuais conseguem distinguir colaborador de ameaça
potencial? O caso, além de doloroso, pode se tornar um divisor de
águas na revisão dos sistemas de triagem migratória previstos para os
próximos meses.
A administração Joe Biden optou, em 2021, por flexibilizar os critérios
de entrada de afegãos. A urgência humanitária serviu de justificativa
política, mas a triagem foi falha, superficial, insuficiente para lidar
com milhares de pessoas cuja procedE aqui, não se trata de metáfora. Trata-se de Sarah, uma jovem fardada
que acreditava estar servindo e protegendo o seu país, quando, na
verdade, era o país que havia deixado de protegê-la.
Seu nome agora
se torna mais uma lápide na conta de uma política pública que
confundiu compaixão com imprudência, e que expõe sua fatura mais
alta: vidas que não voltam, famílias que se dilaceram, e uma Nação
que desperta tarde demais para a realidade que ignorou durante anos.ência era, em muitos casos,
impossível de verificar completamente. A fronteira converteu-se em
uma avenida aberta, sem portões, sem segurança.
E quando um país não controla quem entra, também perde o controle do que acontece
depois.
E aqui, não se trata de metáfora. Trata-se de Sarah, uma jovem fardada
que acreditava estar servindo e protegendo o seu país, quando, na
verdade, era o país que havia deixado de protegê-la. Seu nome agora
se torna mais uma lápide na conta de uma política pública que
confundiu compaixão com imprudência, e que expõe sua fatura mais
alta: vidas que não voltam, famílias que se dilaceram, e uma Nação
que desperta tarde demais para a realidade que ignorou durante anos.
Rahmanullah Lakanwal, 29, é acusado de balear Sarah Beckstrom e Andrew Wolfe - Foto: Reprodução/ X
Durante a campanha de 2024, Donald Trump retomou com vigor a
bandeira que o consagrou em 2016: proteger as fronteiras
americanas, priorizar a segurança interna e colocar a vida dos
cidadãos e residentes legais no centro das decisões do Estado. Seus discursos, diretos e sem eufemismos, sustentavam que nenhum país
permanece livre se não controla quem entra em seu território, e que a
compaixão sem filtro não é virtude, mas imprudência. O tema, por
anos tratado com constrangimento pelas elites encasteladas,
transformou-se em ativo eleitoral. Em um país exausto por crises
migratórias, cidades sobrecarregadas e sensação crescente de
vulnerabilidade, o discurso de soberania e proteção não apenas
ganhou ressonância — foi decisivo para sua vitória.
Donald Trump classificou o atentado desta semana como terrorismo,
covardia e ódio, e anunciou a revisão completa das permissões
migratórias concedidas a cidadãos de nações consideradas de risco.
Foi um recado duro, objetivo e previsível: os Estados Unidos retomam,
ainda que tardiamente, a defesa de suas fronteiras. A pausa na
concessão de vistos e na tramitação de pedidos de asilo de afegãos não
é apenas medida administrativa; é mudança de clima político. A
complacência ideológica perdeu o verniz moral. A realidade rompeu o
véu da hipocrisia.
A civilização ocidental é forte e já sobreviveu a muitos desmandos, mas protegê-la requer zelo constante e rigor, não ingenuidade.
Há poucos anos, questionar políticas migratórias era, no Ocidente, um
ato quase proibido, sinônimo de insensibilidade, falta de empatia,
suposta xenofobia. Líderes evitavam o debate, jornalistas suavizavam
números, universidades tratavam o tema como tabu moral. Defender
controle de fronteiras era ser “reacionário”, “populista”, “antihumanitário”. O establishment progressista decretou que o bem residia
no acolhimento irrestrito e que o mal estava em perguntar quem
entra, por que entra e com quais antecedentes. Foi essa moral
invertida que permitiu o ingresso de Rahmanullah Lakanwal. Foi essa
moral invertida que matou Sarah.
Agora, porém, o eixo parece estar se deslocando. Não por ideologia,
mas por urgência prática. Dinamarca, Reino Unido e Irlanda, antes defensores entusiastas de fronteiras fluidas, passaram a restringir de
forma severa o acesso de imigrantes e solicitantes de asilo.
A Dinamarca anunciou que vai endurecer o processo de residência
permanente, limitar benefícios a imigrantes recém-chegados e
transferir refugiados para instalações desconfortáveis como forma de
desencorajar a permanência massiva.
O Reino Unido decidiu ampliar o tempo necessário para cidadania (de
5 para 20 anos), restringir apoio financeiro, eliminar a reunião
automática de familiares e acabar com o modelo de hospedagem de
requerentes em hotéis.
A Irlanda segue no mesmo caminho. Nos últimos meses, o país
aprovou um amplo endurecimento de suas regras de imigração e asilo:
quem solicita proteção internacional ou busca naturalização deverá
agora comprovar autonomia financeira, ausência de dívidas ao Estado
e não ter recebido determinados benefícios sociais nos dois anos
anteriores. A exigência mínima de residência para cidadania
aumentou, e as regras de reunificação familiar tornaram-se mais
rígidas: os requerentes deverão demonstrar meios financeiros e
moradia adequada para acolher parentes. O acesso à cidadania poderá
ser negado a quem já viveu ilegalmente no país.
Esse movimento na Europa não é coincidência histórica: é reação. O
que ontem era chamado de radicalismo é, hoje, política pública. O que
antes era denunciado como “agenda xenófoba” é, agora, reconhecido
como simples defesa da soberania.
Donald Trump não mudou esse caminho sozinho, mas foi o primeiro a
pagar o preço político por dizer o óbvio em voz alta. Ele não discutiu o
mundo como desejavam que fosse, mas como o mundo é — e foi
ridicularizado e hostilizado por isso. Agora, o próprio establishment que
o demonizou adota aquilo que ele apontou há quase uma década. O
futuro, enfim, encontra a realidade e expõe o óbvio: “causas
humanitárias” não podem caminhar ao lado da negligência estatal.
Donald Trump, durante pronunciamento sobre o atentado em Washington | Foto: Reprodução
O desafio, daqui para frente, não é apenas fechar brechas migratórias,
mas resgatar a noção de responsabilidade. Não se cobra culpa coletiva
de uma comunidade inteira por um crime. Mas se cobra
responsabilidade de um governo que permitiu a entrada sem rigor.
Um Estado civilizado protege o inocente antes do risco. Um governo
maduro compreende que compaixão sem prudência é crueldade
disfarçada. O discurso humanitário que ignora a segurança
transforma-se, inevitavelmente, em tragédia.
Os defensores do modelo vigente tentarão reduzir o episódio a um
incidente isolado. Dirão que casos como o de Lakanwal são raros,
excepcionais. Talvez sejam. Mas basta um. Basta um tiro para encerrar
uma vida.
Basta um documento concedido sem verificação para
transformar uma política em fatalidade por procuração. Segurança
nacional não se mede pela média estatística, mede-se pela
consequência do erro.
E a consequência será enterrada no fim de semana. Tem nome. Tinha
sonhos. Tinha 20 anos.
Washington agora vive o dilema que o Ocidente tenta adiar há
décadas: como conciliar abertura e responsabilidade? Como equilibrar acolhimento e soberania? Como exercer compaixão sem
abdicar do dever primário de proteger seus próprios cidadãos?
A
resposta se impõe, lenta, porém inevitável: o Estado que renuncia à
defesa de suas fronteiras renuncia também ao direito de existir. A paz
não se sustenta na boa intenção. Sustenta-se na ordem, na lei, na
capacidade de dizer sim — e de dizer não.
Sarah Beckstrom não terá outra chance. Sua família jamais verá o
futuro que ela prometia. Os Estados Unidos, porém, ainda têm a
oportunidade de reescrever seu curso e mostrar ao mundo que
soberania não é palavra suja — é pedra angular que sustenta a
civilização.
Nenhuma nação permanece grande se transforma seu
território em corredor, suas fronteiras em véu simbólico, sua
segurança em gentileza abstrata. Nenhum país sobrevive por muito
tempo ignorando quem entra, por que entra e sob quais riscos entra. A
liberdade americana sempre foi imensa demais para caber num
mundo ingênuo, mas é igualmente frágil para sobreviver sem
vigilância.
Membros da Guarda Nacional, da esquerda para a direita, o Sargento Andrew Wolfe e a Especialista Sarah Beckstrom | Foto:
Reprodução/MS Now
Talvez o Ocidente esteja, enfim, acordando. Não pela sabedoria, mas
pela dor. Não pela elegância do debate, mas pelo estampido de uma
arma na capital da maior democracia do planeta. A morte de uma
soldado de vinte anos deve ser o ponto de inflexão de uma política, se
encarada com honestidade e coragem.
Que o nome de Sarah Beckstrom não desapareça entre manchetes.
Que seu sacrifício não seja estatística, mas alerta. Que seu corpo não
tenha servido apenas à pátria que ela amou e jurou defender, mas à
lucidez de um tempo que ainda hesita em proteger o que construiu.
A civilização ocidental é forte e já sobreviveu a muitos desmandos,
mas protegê-la requer zelo constante e rigor, não ingenuidade. Não
deixamos a porta de casa aberta para estranhos entrarem livremente;
tampouco uma nação pode sobreviver se age como se não tivesse
muros.
Fronteiras escancaradas não são generosidade — são renúncia. E toda
renúncia cobra seu preço, às vezes tarde demais para evitar o luto
Ana Paula Henkel - Revista Oeste