A esquerda joga xadrez; a direita tecnocrata, paciência
D urante os quatro anos do governo Bolsonaro, certa direita de boas maneiras, refém da hegemonia cultural de esquerda e apavorada diante dos olhares de reprovação provenientes da bancada da GloboNews, cultivou uma curiosa taxonomia intragovernamental. De um lado ficava a “ala ideológica”, gente ruidosa, leitora de livros suspeitos, inclinada a brigar com jornalistas e a enxergar inimigos onde só havia interlocutores.
Do outro, a “ala técnica”, composta de engenheiros, gestores e homens de planilha, que entregava obras, abria mercados e conversava com todo mundo. Nos salões da Faria Lima e nos editoriais dos grandes jornais, os segundos eram a prova de que o bolsonarismo poderia, quem sabe, ser domesticado. Tarcísio de Freitas e Tereza Cristina eram os nomes mais citados desse panteão da competência.
O resultado de 25 de outubro, estranho, suspeito e ainda não reconhecido por vários países — com destaque para os EUA —, ofereceu aos técnicos a oportunidade de mostrar para que serve a técnica quando a política aperta.
E mostraram. Tarcísio lançou um vídeo em que posa de futuro líder da direita e fala em “pacificação”. Pacificação com quem, cabe perguntar. Com um regime que mantém centenas de presos políticos e que mal acabara de empurrar para o exílio Flávio Bolsonaro, o candidato do campo que o governador agora pretende liderar. A palavra soa sensata, um tanto quanto evangélica, e cai como uma luva para uma oligarquia ansiosa por uma oposição domesticada.
Mas a paz só é virtude entre partes que reconhecem uma à outra o direito de existir. Oferecida a quem detém as chaves da cela, chama-se outra coisa. Tereza Cristina, por sua vez, finca pé na candidatura à presidência do Senado e, segundo a imprensa, sai à caça de votos entre dissidentes do PL e do Centrão, enquanto o PL, partido de Flávio, sustenta o nome de Rogério Marinho.
Seus aliados a apresentam como “terceira via” entre Alcolumbre, o candidato do governo, e Marinho, e gabam-lhe o trânsito fácil entre os senadores governistas. A estratégia, segundo o noticiário, é permanecer na disputa para ganhar musculatura e depois convencer Marinho a desistir e apoiá-la.
Sim, é isso mesmo. A desistência a ser negociada não é a de Alcolumbre, mas a do candidato da direita. A ex-ministra declarou querer ser “a primeira mulher presidente do Senado”. A aspiração política até poderia ser legítima, mas a linguagem é a da esquerda identitária. Por acreditarse acima das ideologias, a tecnocrata fala com a voz da ideologia hegemônica. A aritmética, ademais, é bem menos sentimental. Aliados de Davi Alcolumbre dizem reunir 48 votos.
A oposição, somando os 29 senadores que o PL terá a partir de fevereiro e os três do Novo, estima em 32 os votos potenciais contra a reeleição dele. Cada voto que Tereza subtrai desse bloco não se perde no vazio. Vai engordar a margem de conforto de Alcolumbre, o grande porta-voz do regime na Casa alta. A federação de que o PP faz parte, aliás, já anunciou apoio ao atual presidente em nome da “estabilidade institucional” e do “equilíbrio político”.
A fórmula é perfeita no gênero. Ninguém se opõe à estabilidade, sobretudo quando não se pergunta o que está sendo estabilizado. Não é preciso supor traição pessoal em nenhum dos dois — embora o eleitorado de direita tenha todo o direito de sentir-se traído. O que há é algo mais interessante e mais grave, que é a coerência. Tarcísio e Tereza fazem exatamente aquilo que a fama deles prometia. Agem como gestores. E o gestor, por definição, não tem inimigos. Tem problemas a resolver, interlocutores a acomodar e votos a contar. Louco é quem acha que o gerencialismo não é uma ideologia.
A própria distinção entre uma ala ideológica e uma ala técnica sempre foi ideológica. A imprensa que, em 2019, celebrava o “núcleo pragmático” de Paulo Guedes contra o “núcleo ideológico” associado a Olavo de Carvalho já professava, sem o saber, uma doutrina. O sonho de abolir a política pela técnica não tem nada de neutro. Seu pedigree, aliás, é revolucionário. No Anti-Dühring, Engels anunciava que, extinto o Estado, o governo das pessoas seria substituído pela “administração das coisas”.
Comte imaginava uma sociedade positiva gerida por sábios, na qual a política cederia lugar à gestão tecnocientífica. Marx e Engels prometiam o fim das contradições. O liberal ingênuo supõe que, removidos os preconceitos, todos acabarão concordando com a razão econômica. O professor Olavo, num artigo de título exato, A ideologia da anti-ideologia, resumiu o problema numa frase: “Um mundo sem ideologias é o mesmo que um mundo sem política”.
O mesmo vício reaparece na educação, onde liberais e conservadores costumam reduzir a crise escolar a uma questão de logística, de prédios, livros e provas, como se do outro lado não houvesse um projeto deliberado de formatação das consciências. Num caso e noutro, a ilusão consiste em tratar o adversário como uma versão atrasada do próprio gestor, alguém que ainda não foi devidamente informado sobre a melhor maneira de fazer as coisas. Ocorre que o adversário está muito bem informado. Apenas quer outras coisas — dentre elas, a destruição total do inimigo.
Carl Schmitt descreveu a modernidade europeia como uma era de neutralizações e despolitizações. De século em século, a Europa foi buscando na teologia, na metafísica, na moral e na economia um terreno neutro onde as disputas pudessem enfim cessar, até depositar a esperança derradeira na técnica, aparentemente o mais neutro de todos. O engano, advertia ele, está em supor que a técnica pacifica. Mas a técnica serve a qualquer senhor, de paz ou de guerra. O engenheiro constrói pontes para a liberdade com o mesmo zelo com que as constrói para o cárcere. A decisão sobre quem passa por elas continua sendo política. Quem a abandona não a suprime, apenas a entrega de bandeja a outro.
Esse outro, no Brasil, tem um nome, um programa e um método bem consolidados. É a esquerda que hoje controla o Executivo, boa parte do Judiciário e impôs uma hegemonia cultural cujos guardiões jamais padeceram do fetiche da neutralidade. Essa esquerda nunca deixou de afirmar sua visão de mundo em cada nomeação, cada sentença, cada currículo escolar, cada verba de publicidade. Nunca tratou o adversário como interlocutor, e sim como inimigo a ser vencido e, quando possível, encarcerado. Para ela, a pedagogia é política, a economia é política, o direito é política, e até a gramática é política. Enquanto isso, a direita de gabinete pede licença para discutir eficiência. A esquerda joga xadrez; a direita tecnocrata, paciência.
Proponho chamar o fenômeno de abstinência categorial. O técnico abre mão das categorias de amigo e inimigo, de justo e injusto, de liberdade e servidão, e conserva apenas as de eficiente e ineficiente. Mas um regime que prende opositores pode ser perfeitamente eficiente. Pode até ser estável e equilibrado. A pergunta que a técnica não sabe formular é justamente a única que importa.
Por isso, o vídeo de Tarcísio e a candidatura de Tereza são menos um desvio que uma revelação. A ala “ideológica”, que tanto constrangia a direita de boas maneiras, tinha, no mínimo, o mérito de reconhecer a existência da guerra e se posicionar inequivocamente do lado certo. A ala “técnica”, com a afetação de serenidade típica dos semicultos, torce desesperadamente pelo fim da guerra, pouco importando quem será o vencedor e o que significa essa vitória.
Tácito põe na boca do chefe caledônio Calgaco, a propósito dos romanos, a frase que a posteridade não esqueceu: ubi solitudinem faciunt, pacem appellant (“onde fazem um deserto, chamam-lhe paz”). Nossos técnicos não se interessam pela diferença entre um bosque e um deserto. Contentam-se em administrar um ou outro.
Flávio Gordon - Revista Oeste
















