terça-feira, 27 de outubro de 2026

'Lula 4: como navegar com quem decidiu afundar o navio?', por Adalberto Piotto

A herança maldita de Lula se volta contra ele próprio. E é enorme em déficits e rombos do próprio governo e endividamentos de famílias e empresas. Quem vai tapar o buraco?


Foto: Montagem Revista Oeste/Gerada por IA


O Brasil foi dormir na noite deste domingo, 25 de outubro, sem futuro definido. Lula saiu vitorioso, mas Flávio Bolsonaro não reconheceu o resultado. Nem poderia. A sucessão de abuso de poder pelo governo federal na eleição, somada à manobra de Cristiano Zanin, ministro do Supremo Tribunal Federal, em prorrogar a eleição por mais duas horas, com uma canetada monocrática, é sem precedentes na vida nacional. A virada de Lula sobre Flávio não consegue ser explicada pela estatística. De uma vantagem em torno de 2 milhões de votos no 1º turno, Flávio Bolsonaro perdeu a eleição neste domingo com uma diferença de mais de 4 milhões de votos. 

Lula teve um acréscimo superior a 10 milhões de votos. Os números eleitorais poderão ter alguma explicação na redução da abstenção — apenas parcial —, em alguma virada de opinião do eleitor e muito na compra descarada de votos de Lula com a série de medidas eleitoreiras que anunciou às vésperas da eleição e dias antes do 2º turno. 

No Brasil, sem lei de Lula 3, distante da democracia, o ministro Gilmar Mendes, do STF, autorizou o governo a pagar um aumento do Bolsa Família na semana que antecedeu a votação deste domingo. Foi um atropelo da Justiça Eleitoral e da paridade de armas entre os candidatos, com desmesurado abuso de poder pelo presidente que concorria à reeleição. É a democracia que foi afrontada. De novo. Como já fora na perseguição que o bolsonarismo e a direita sofreram em 2022, quando da volta de Lula ao poder. Questões de legalidade eleitoral à parte, concentro-me aqui no futuro econômico do país sob Lula 4. Ou completa ausência de futuro.

O primeiro sinal foi dado ainda na noite de domingo. Na Bolsa de Nova York, a principal ETF ligada a ativos brasileiros, um fundo de investimento, despencou 19,63% nos primeiros momentos do anúncio da vitória de Lula. A mesma ETF havia crescido quase 2% na semana passada com a expectativa de vitória de Flávio. O comportamento dos investidores americanos é um sinal de crise à vista. Quem vai investir no país e quem vai pagar os sucessivos déficits do governo? 

No Brasil dos brasileiros que trabalham e produzem, que viveram os últimos quatro anos aprisionados por uma política velha, perdulária e que lhes amedrontava diariamente com perseguição estatal, Lula continua um peso insuportável nas costas. Algo inimaginável até poucos meses atrás. Continuará a se ter um governo jogando a favor de si e contra a livre iniciativa.


Foto: Montagem Revista Oeste/Gerada por IA


Lula 3 pode ser definido em duas palavras: herança maldita. E quando me refiro a essa expressão que o próprio Lula usou lá atrás, em 2003, para injustamente definir o legado dos oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso, que ele sucedia, é porque o país só veio a experimentar tal herança muito tempo depois, com o desastre de Dilma Rousseff. Afastada do cargo em 2016, depois de 13 anos e meio de governos petistas, o ápice da incompetência e maldição petista sobre o país havia sido atingido. A herança maldita que Lula dizia ter herdado era mentira. A que Dilma deixou e a que ele deixará são reais. 

Os crimes de responsabilidade fiscal e a mais brutal recessão econômica de nossa história de 10 anos atrás levaram a afilhada de Lula ao impeachment constitucional, que devolveu o Brasil aos brasileiros. Fato é que a “mulher sapiens” do “estoca vento” e que não enxerga as “nuvens” de dados cibernéticos praticamente moldou este terceiro mandato de Lula. E agora, Lula 4 herda de Lula 3 uma herança de degradação nas contas públicas e um mercado reticente em investir e acreditar no país. Neste 2026, depois de voltar ao poder e governar movido a bile, ódio e perseguição política, com um time de assessores mais afeiçoados a serviçais sem voz ativa e nenhuma perícia — o padrão do PT no governo —, Lula entrega para si algo ainda pior. 

O descalabro fiscal “a la Dilma” vem acompanhado de um desarranjo institucional sem precedentes, fonte inesgotável de insegurança jurídica e descompasso com a Constituição, em que apenas ele, seu governo e seus aliados mais próximos ganharam. O Brasil, os brasileiros, todos os demais perderam. Inclusive o desavisado ou comprado eleitor de Lula nesta eleição. 

Desde 2023, o país vem acumulando déficits primários que já somam mais de R$ 335 bilhões. Déficit primário é o quanto você gasta mais do que arrecada e sinaliza que está piorando a dívida do país como um todo. O déficit nominal, quando você também soma o quanto de juros o governo paga — e paga cada vez mais porque aumenta a dívida —, só em 2025 ultrapassou a marca de R$ 1 trilhão. Não por acaso, a relação dívida/PIB que Lula herdou como herança bendita de Bolsonaro, de 72%, atingiu o número astronômico da irresponsabilidade: 83%. 

 O governo atual não vê problema nisso, Lula trata o tema com desdém. José Sérgio Gabrielli, coordenador da campanha petista, chamou a crise fiscal de “fake news” e de que seria um “mito” que a alta da relação Dívida/PIB seja um problema. Declarações estúpidas ou de má-fé. Um governo que se endivida demais e despreza os mais básicos fundamentos da economia perde a confiança do mercado, que é quem financia o déficit do governo. Dinheiro não dá em árvore. É sempre alguém que aceita pagar por algo. Mas que já não está mais aceitando.

No fim de 2024, um primeiro sinal do descarrilamento entre o governo e a boa gestão. À época, o Tesouro chegou a não vender quase nenhum dos títulos da dívida que financiariam o rombo daquele ano por desconfiança da capacidade do governo de honrar contratos. Em junho deste ano, mais uma vez. Para rolar a dívida, o governo chegou a oferecer títulos de IPCA (a inflação oficial) mais 8,5% de rendimento líquido e não encontrou compradores.

 Política e economia foram feitas para andarem juntas. Mas, quando a política ignora a matemática ou o significado das coisas, a conta não fecha. O governo insistiu no populismo e tentou vender a ideia de que dívida pública, rombo fiscal, e dificuldade em encontrar credores para a dívida pública seriam temas distantes da realidade cotidiana das pessoas. Erro de cálculo grosseiro. Economia é feita de gente. E gente respira, olha ao redor, faz contas e chega a conclusões.


Foto: Montagem Revista Oeste/Gerada por IA

Longe dos grandes números da macroeconomia, que dá a exata dimensão de terror das contas do governo, 82% das famílias brasileiras se viram endividadas. Quase 7 mil empresas recorreram à recuperação judicial ou extrajudicial porque não conseguiram lidar com o ambiente de juros altos e burocracia governamental. Da Brasília de Lula não vinha solução, vinha deboche: “se não tem picanha, come ovo”, disse o agora presidente derrotado. “O agro é fascista”, insistiu ele. São mais de 9,3 milhões de empresas negativadas com dívidas de R$ 244 bilhões. Parte disso tudo vem do agronegócio, o orgulho nacional que garante a balança comercial do país, mas é maltratado pelo presidente agora reeleito. 

A crise no setor privado é endêmica e tem origem na Brasília lulopetista que piora a situação até no que só depende dela. As estatais voltaram a dar prejuízo astronômico. Até agosto desse ano, excluindo a Petrobras e a Eletrobras, as estatais geraram um rombo de R$ 24,3 bilhões. Só os Correios, estatal do primeiro escândalo petista do Mensalão, em 2005, têm um rombo acumulado de R$ 11,7 bilhões. E aí é que está a parte ainda mais preocupante da herança amaldiçoada pela política de baixo nível do atual governo. Lula 3 está se dando um governo abarrotado de gente incompetente, acomodada em cabides de emprego na máquina pública e uma república disfuncional, altamente partidarizada e corroída por interesses de compadrio, com cortes tomadas por juízes militantes que desfizeram o básico da democracia e da lei: a igualdade entre todos os brasileiros e a previsibilidade. 

O retrocesso institucional no país é gigantesco. Basta ver a politização do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral, tomados por aliados de Lula e simpáticos à esquerda.

O descalabro institucional em que se transformou o país é de Lula. O custo eleitoral de quase R$ 300 bilhões das medidas eleitoreiras de Lula em campanha será do Lula, agora reeleito. Mas o custo Brasil, que piorou dramaticamente com o último governo até será a marca de Lula 4, mas terá de ser pago pelos brasileiros. Lula passará. O rombo econômico e o desmonte da república, despudorado de qualquer sentimento de ética e preservação da vida nacional, não! 

Se a oposição não for bem-sucedida em seu justo questionamento sobre como estas eleições foram burladas pelo abuso de poder e intervencionismo do Supremo; ou se o novo Congresso eleito no início de outubro, majoritariamente conservador e de direita, não conseguir limitar um Lula 4, renovado em seu governo movido a bile, a resiliência brasileira será testada como nunca.


Adalberto Piotto - Revista Oeste





Augusto Nunes escreve sobre 'O triunfo da malandragem'

O descondenade fez o diabo para conseguir o quarto mandato


 
O ex-presidiário Luiz Inácio Lula da Silva abraça seu advogado Cristiano Zanin - Foto: Wilton Junior/Estadão Conteúdo


P ela primeira vez desde a Proclamação da República, o advogado de um presidente candidato à reeleição, e por ele premiado com uma vaga no Supremo Tribunal Federal, decidiu monocraticamente adiar por duas horas o encerramento de uma votação nacional. Pior: a decisão de Cristiano Zanin foi anunciada às 17h01, um minuto depois do horário fixado. Pela primeira vez desde que o Brasil adotou o sistema da eleição em dois turnos, um candidato derrotado no primeiro (por uma diferença de 2 milhões de votos) venceu o segundo (com uma vantagem de quase 5 milhões). Estranhamente, também pela primeira vez, a taxa de abstenção registrou uma queda de 3 milhões de eleitores do primeiro para o segundo turno. Pela primeira vez no mundo, um político conseguiu, no curto prazo de três semanas, anexar mais 10 milhões de cabeças a seu rebanho de eleitores. Pela primeira vez, nenhum instituto de pesquisas eleitorais registrou qualquer indício da virada de dimensões amazônicas. Dois dias antes de completar 81 anos, Luiz Inácio Lula da Silva conseguiu, graças à soma desses assombros, mais quatro anos na chefia do governo brasileiro. 

Segundo a apuração oficial, Lula obteve, neste 25 de outubro, mais de 64 milhões de votos. No primeiro turno, estacionou abaixo de 54 milhões. O senador Flávio Bolsonaro, candidato da oposição, não conseguiu chegar a 60 milhões. Em 4 de outubro, ele ultrapassou a marca de 56 milhões. “A gente faz o diabo pra ganhar a eleição”, confessou Dilma Rousseff ao vencer Aécio Neves em 2014. Para conquistar o quarto mandato, Lula inspirou-se nessa lição que ensinou à discípula. Transformou de vez o Bolsa Família numa fábrica de dependentes desinformados, fez do buquê de “programas sociais” o maior sistema de compra de votos do planeta e gastou bilhões de reais inexistentes em medidas populistas. Ao longo da campanha, sobretudo nos dois debates na TV, mentiu mais do que nunca.


Lula cumprimenta pessoas do lado de fora de uma seção eleitoral – 25/10/2026 | Foto: Jean Carniel/Reuters

Além da amputação de plurais e do r final dos infinitivos, os falatórios de Lula em sua última campanha foram perturbados por estranhos curtocircuitos. Na Band, por exemplo, afirmou que nos próximos quatro anos acabaria com o Brasil. Na Globo, depois de uma pausa, recitou o seguinte: “Imposto, imposto, imposto, se alguém lhe fala todo santo dia imposto, imposto, imposto… porque pra eles… o que pesa pra eles é melhorá a vida do povo.” 

No mesmo debate, desconfiou do inimigo: “Eu não sei se o meu adversário fala baixo pra mim não escutá”. Em seguida, prometeu combater organizações narcoterroristas com a extinção da polícia e, mais de uma vez, recomendou a Flávio Bolsonaro, à plateia e aos espectadores que fossem “ao Gugo”, caso não entendessem alguma coisa. Quem foi ao Google descobriu que Lula mentira ao revelar de que forma conseguiu conhecer o Brasil: percorreu 91 mil quilômetros de ônibus, barco e trem. Tal proeza é impossível. A distância equivale a mais de duas voltas completas ao redor do planeta.

Lula ampliou a manada de cabos eleitorais com a inclusão da imprensa estatizada, dos institutos de pesquisa reduzidos a lojinhas de porcentagens, da máquina federal e dos devotos da seita, fora o resto. O ex-advogado Cristiano Zanin, presenteado por Lula com uma vaga no STF, foi o ministro que decidiu adiar o fim da votação para as sete horas da noite. Zanin passou meses afirmando que seu cliente mais ilustre não era corrupto e lavador de dinheiro, ofícios que custaram a Lula a condenação a nove anos de cadeia pelo juiz Sérgio Moro, agora governador eleito do Paraná. 

O TRF da 4ª Região aumentou a pena para 12 anos. O Superior Tribunal de Justiça endossou a decisão. Zanin só não mente mais que Lula, que sempre foi essencialmente um assassino da verdade. Mentindo, abandonou o emprego de torneiro mecânico para virar primeiro-secretário do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema. Procurado pela também viúva Marisa Letícia, que queria tratar do caso do marido morto, Lula engavetou a papelada até conseguir seduzi-la. Assumiu o comando da entidade amparado em outra falácia: aquele pernambucano atarracado e barbudo jamais abandonava companheiros de lutas. Todos foram esquecidos em algum lugar do caminho percorrido pelo operário que se converteu em político profissional depois da fundação do Partido dos Trabalhadores em fevereiro de 1980. 


á no STF, em 2023, Zanin se declarou impedido de julgar um recurso da defesa de Bolsonaro contra a condenação do TSE | Foto: Reprodução: Valter Campanato/Agência Brasil

Candidato a governador de São Paulo em 1982, perdeu para Franco Montoro, Reinaldo de Barros e Jânio Quadros. Mas conseguiu mais de 1 milhão de votos e, sobretudo, aprendeu a tapear plateias. Diante de órfãos dos grupelhos que tentaram derrubar a bala a ditadura militar e substituí-la pela ditadura do proletariado, ou estudantes que sem terem lido uma única vírgula de O Capital se apaixonavam pelo líder operário com jeitão de marxista, Lula repetia o refrão da campanha: “Vote 3, porque o resto é burguês”. Se houvesse muitos burgueses entre os espectadores, abrandava o falatório: “Não sou de esquerda nem de direita. Sou torneiro mecânico”. 

Até virar presidente de sindicato, Lula jurava querer distância de partidos e ideologias. “Detesto política e quem gosta de política”, repetia. Em julho de 1979, entrevistado pela revista Playboy, mudou de ideia. Revelou que entre as celebridades que admirava estavam o ditador cubano Fidel Castro, Tiradentes, Gandhi, Che Guevara, Mao Tsé-Tung e Adolf Hitler. Diante da expressão intrigada do jornalista, tentou explicarse: “Não apoio todas as ideias do Hitler, mas ele tinha uma coisa que eu admiro num homem. O fogo de se propor a fazer alguma coisa e tentar fazer”. Em 1989, transferiu-se para a banda esquerda: “Sou daqueles que acreditam que o socialismo é o melhor sistema político”, informou o candidato à Presidência da República pelo PT, 

Com a dissolução do colosso comunista e o fim da Guerra Fria, começou a referir-se a si próprio como se o apelido fosse alguma entidade. “Só o Lula pode dar um jeito no Brasil”, por exemplo. Para quem vê as coisas como as coisas são, ficou claro que Lula sempre fora e sempre seria apenas lulista. O mais fanático e passional dos lulistas. Foi assim que o que poderia ter sido um partido virou seita, cujos devotos veem no líder seu único deus. Lula transformou seu altar em palanque ambulante. Derrotado por Fernando Collor na primeira tentativa de instalar-se no Palácio do Planalto, também perdeu para Fernando Henrique Cardoso os duelos de 1994 e 1998. Concretizou o sonho neste século ao vencer José Serra no pleito de 2002. Reeleito em 2006, esperaria 12 anos para voltar ao cargo que deixara no fim de 2010. 

A partir de janeiro, Lula terá de lidar com seu próprio legado. Ele sempre atribuiu a terceiros os problemas que cria ou aumenta. Fernando Henrique Cardoso, que o derrotou duas vezes já no primeiro turno, entregou-lhe em janeiro de 2003 um país com a moeda estável, modernizado pelas privatizações de estatais deficitárias e em pleno desenvolvimento. No dia da posse, Lula despediu-se do antecessor que lhe entregara a faixa com uma mentira carinhosa: “Aqui você sempre terá um amigo”. Três meses depois, de passagem por Paris em companhia de Lula, o ministro Antônio Palocci telefonou para FHC, que também estava na capital da França. “Em nome do presidente, quero agradecer ao senhor pelo país que recebemos”, ouviu o ex-presidente. Ainda em 2003, Lula responsabilizou Fernando Henrique por todos os problemas passados, presentes e futuros do Brasil: “Ele me deixou uma herança maldita”. 

Maldita é a herança com que o presidente reeleito terá de lidar — e enfrentando, pela primeira vez, uma oposição vigorosa, fortalecida pela conquista de 16 governos estaduais e majoritária tanto na Câmara quanto no Senado. Na noite deste domingo, tão logo terminou a apuração, Flávio Bolsonaro avisou que não reconhece o resultado oficial e pedirá a anulação da disputa manchada pela interferência de outro Poder. Se é que isso serve de consolo, Flávio escapou da missão de encontrar soluções para um Brasil submerso no poço de areia movediça escavado pela fusão da crise econômica, da incompetência administrativa, da corrupção endêmica e de um Supremo Tribunal Federal em adiantado estágio de decomposição.


Flávio Bolsonaro - Foto: Facebook Flávio Bolsonaro

Augusto Nunes - Revista Oeste

Justiça italiana nega extradição de Tagliaferro, em nova derrota de Alexandre de Moraes, integrante do 'cartel lula-stf-globolixo'

Tribunal revogou a proibição de Tagliaferro deixar a Itália e mandou devolver a ele os passaportes


Ex-assessor do TSE, Eduardo Tagliaferro, quando falava a Senadores do seu exílio - Foto: Saulo Cruz/Agência Senado


A Corte de Apelação de Catanzaro, na Itália, negou o pedido de extradição de Eduardo Tagliaferro, ex-assessor de Alexandre de Moraes no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). É mais uma derrota de Moraes em cortes europeias, que consideram seus alvos vítimas de perseguição política.

Na decisão, os magistrados italianos consideraram que o envolvimento pessoal de Moraes nos fatos investigados, somado à sua atuação na condução do procedimento, compromete a garantia de imparcialidade. Segundo a corte, mesmo sem formalizar Moraes como “pessoa ofendida”, é indiscutível que ele foi diretamente atingido pelas revelações. A sentença critica o fato de o ministro ter, ao mesmo tempo, dirigido a investigação, avaliado os resultados e adotado medidas restritivas contra Tagliaferro. O caráter colegiado das decisões, segundo os juízes, não elimina a dúvida objetiva gerada pelo papel de relator e pela direção pessoal do processo.

A negativa se baseia no tratado de extradição entre Brasil e Itália, que impede a entrega quando o procedimento não assegura direitos mínimos de defesa. A corte também apontou a natureza política da acusação de tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito.

Além de rejeitar a extradição, o tribunal revogou a proibição de Tagliaferro deixar a Itália e determinou a devolução dos passaportes retidos.

O pedido de extradição foi formalizado por Moraes em agosto de 2025. Em novembro de 2025, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal aceitou a denúncia por quatro crimes.

O caso teve origem na divulgação de mensagens relacionadas à produção de relatórios pelo setor de “enfrentamento à desinformação” do TSE. Moraes negou irregularidades e afirmou que os procedimentos foram regulares. A decisão italiana ainda pode ser objeto de recurso.

Em nota, o advogado de Tagliaferro, Eduardo Kuntz, afirmou que a defesa comemora a independência da Justiça italiana, que “não se dobrou às infundadas alegações do ministro Moraes” e reconheceu Tagliaferro como “verdadeiro perseguido político” por revelar o que via no gabinete que chefiava.


Diário do Poder




segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Efeito 'cartel lula-stf' - Bolsa aciona circuit breaker, primeiro desde a pandemia, e Real despenca

Mercado financeiro reage à 'vitória' do ex-presidiário Lula no segundo turno; Bolsa cai e dólar dispara


Ex-prrsidiário Lula votando nas eleições de 2026. (Foto: Redes sociais).


A B3, Bolsa de Valores de São Paulo, acionou o “circuit breaker” nesta segunda-feira após a 'vitória' de Lula (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno da eleição presidencial deste domingo (25). É a primeira vez que o mecanismo é acionado desde março de 2020, durante a pandemia de covid-19. A medida se deu após ser registrada queda de mais de 10% no valor das ações.

O circuit breaker interrompe temporariamente as negociações na Bolsa em momentos de forte queda do mercado. Ele é ativado quando o Ibovespa cai 10% em relação ao fechamento do pregão anterior, com suspensão das operações por 30 minutos. Se, após a reabertura, a queda chegar a 15%, a interrupção dura uma hora. Caso atinja 20%, a B3 pode suspender novamente as negociações por período a ser definido pela própria bolsa. Durante a suspensão, ficam interrompidas as negociações de ativos, derivativos e títulos de renda fixa privada.

No câmbio, o real perdeu mais de 10% em relação ao dólar, 8% já na abertura do mercado, cotado a R$ 5,42 e já atingiu R$5,60 no meio da manhã desta segunda-feira (26).

Os futuros do Ibovespa caíram 15% e atingiram o limite de variação permitido logo após a abertura, forçando uma interrupção temporária das negociações. A B3 ampliou a banda de flutuação diária para 20%. O Tesouro Nacional cancelou os leilões de títulos programados para os dias 27 a 29 de outubro. Trata-se da maior queda do real desde 1999.

A queda desta segunda reverte grande parte dos ganhos registrados após o primeiro turno. Naquela ocasião, Flávio Bolsonaro terminou na liderança, com 47,03% dos votos válidos, ante 45,16% de Lula. No pregão seguinte, a Bolsa subiu 7,70%, aos 206.911 pontos — recorde em termos nominais e reais —, enquanto o dólar caiu 4,11%, a R$ 5,001.

No acumulado desde a confirmação das candidaturas de Lula e Flávio Bolsonaro, em agosto, a Bolsa registrava alta de 15,3%. O desempenho positivo dos ativos após o primeiro turno refletia a expectativa de vitória de Flávio e de um ajuste fiscal mais rigoroso sob seu governo. Para os investidores, a continuidade de Lula na Presidência aumenta o temor de que não haja medidas suficientes para ajustar as contas públicas. A expectativa de menor controle fiscal tende a elevar o prêmio de risco exigido pelos investidores para financiar o governo, pressionando a curva de juros.

Com 100% das urnas apuradas, Lula obteve 51,79% dos votos válidos (64.256.232 votos) contra 48,21% de Flávio Bolsonaro (59.826.041 votos), segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral divulgados pelo G1. No primeiro turno, a diferença havia sido de cerca de 2,2 milhões de votos a favor de Flávio; no segundo, Lula reverteu o resultado com vantagem de cerca de 4,4 milhões de votos.

O Ibovespa havia fechado a sexta-feira (23) em torno de 205.082 pontos. A reação do mercado na manhã desta segunda ocorreu em ambiente de forte pressão vendedora nos ativos brasileiros, conforme movimentos registrados no pré-mercado internacional na noite de domingo.


domingo, 25 de outubro de 2026

Filho do ex-presidiário Lula fez turismo de ultraluxo nos Alpes suíços pago por lobista investigada

Diária de Lulinha custou R$133 mil em um complexo de chalés privativos em Crans-Montana, em estadia estiada em R$1,5 milhão


Lulinha fazendo pose de milionário ao lado de quem pagou a conta, a lobista Roberta Luchsinger, fazendo o L.


A revista Veja revelou nesta sexta-feira (24) que Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho de Lula (PT), realizou viagens de alto padrão aos Alpes suíços e franceses entre 2024 e 2025, com custos bancados pela lobista Roberta Luchsinger. Os registros constam de material apreendido pela Polícia Federal no celular de Luchsinger e integram inquérito que tramita no Supremo Tribunal Federal.

Segundo a reportagem de Robson Bonin, Lulinha, sua esposa Renata Moreira e familiares se hospedaram nos primeiros meses de 2025 no Ultima, complexo de chalés privativos em Crans-Montana, nos Alpes suíços. As diárias no local ultrapassam 22 mil francos suíços (R$133 mil). O refúgio oferece spa de mil metros quadrados, piscina externa aquecida, cinema particular, chef com experiência em cozinhas Michelin, mordomo, motorista e serviços personalizados. Fotos e vídeos mostram ainda o uso de jatos privados, instrutores exclusivos de esqui, equipamentos de neve e consumo de champanhe na neve.

Marina Mantega, filha do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, teria indicado o destino ao grupo. A estadia nos Alpes suíços foi estimada em cerca de R$1,5 milhão. Em 2024, Luchsinger também bancou uma temporada em Courchevel, nos Alpes franceses, destino frequentado por ultra-ricos. Fontes da investigação apontam que só as viagens detalhadas na reportagem somam mais de R$ 2 milhões.

Para investigadores, o principal “produto” oferecido por Luchsinger em sua atividade de lobby era o acesso a Lulinha e aos benefícios que o filho do presidente poderia proporcionar a empresários interessados em influenciar a gestão federal. A empresária já declarou disposição de negociar delação premiada para relatar o que viu e ouviu nos últimos anos de governo.

O episódio ganha relevância política porque Lula afirmou publicamente não conhecer Luchsinger e a classificou como “pilantra”. A lobista, por sua vez, respondeu chamando o presidente de covarde, mentiroso e misógino. Lulinha, que mantém relação antiga de amizade com a empresária — anterior ao atual mandato de Lula, segundo ela —, permanece na Espanha enquanto a PF avança nas apurações sobre possível tráfico de influência. A reportagem destaca que apenas Luchsinger sofreu buscas até o momento.

As revelações se inserem em um conjunto mais amplo de apurações da Polícia Federal sobre a relação entre Lulinha e Luchsinger, que incluem outras viagens internacionais de luxo (como à Escandinávia para ver a aurora boreal, com orçamento superior a R$ 1,8 milhão) e suspeitas de intermediação de interesses privados no governo. O material documentado nos Alpes, segundo a Veja, contrasta com o discurso de “pai dos pobres” do presidente em plena campanha eleitoral de 2026.

Veja destaca que as imagens e registros estavam “escondidos no inquérito que tramita a passos lentos no STF”. Não há, até o momento, condenação ou indiciamento formal de Lulinha ou Luchsinger especificamente por essas viagens, que a defesa tem caracterizado como deslocamentos privados entre amigos.


Veja




sábado, 24 de outubro de 2026

Simulador eleitoral Global Election crava vitória de Flávio com 53,2%, somando 63.467.439 de votos

Plataforma, que acertou resultado do 1º turno, projeta Lula com 46,8% e somando 55.832.259 de votos

Os cariocas compareceram em massa no comício de Flávio Bolsonaro (PL) neste sábado (24) na Barra da Tijuca - Foto: Charles Vieira.


Na véspera do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, a plataforma Global Election Simulator divulgou, neste sábado (24), uma projeção que aponta o senador Flávio Bolsonaro (PL) com 53,2% dos votos válidos (equivalente a 63.467.439 votos) contra 46,8% de Lula (PT), com 55.832.259 votos. A margem de erro informada é de ±1,0 ponto percentual, e a projeção foi datada de 23 de outubro.

O conteúdo foi publicado na conta oficial da plataforma no X (@globalelectsim), acompanhado de link para o site globalelectionsimulator.com e de material em vídeo. A conta descreve o Global Election Simulator como um instituto de pesquisa e simulador eleitoral independente, gerido por cidadãos e voltado a transparência de dados, com cobertura de eleições em vários países.

O Global Election Simulator acertou o primeiro turno brasileiro de 2026, identificando corretamente o líder, a necessidade de segundo turno e a ordem dos principais candidatos, com erro médio baixo (cerca de 0,7 ponto percentual em suas métricas).

Eleição tem 100% de certeza
Agora à noite, a plataforma publicou post no X no qual afirma:
“Podemos dizer com certeza estatística que Flávio Bolsonaro (PL) será eleito o próximo presidente da República Federativa do Brasil amanhã à noite. Bolsonaro agora tem oficialmente 100% de chance de vitória, em comparação com 0% de Lula.”

O Global Election Simulator informou ainda que atualizará suas projeções finais nas próximas horas. “Neste momento, a única incerteza que nossa equipe tem é a margem exata, não o resultado. O intervalo absoluto para Flávio Bolsonaro é de 50,5% a 56,2%, enquanto o de Lula é de 43,8% a 49,5%. Nossa atualização final de projeção entrará no ar em breve no site e aqui logo depois. Um banner indicará que a projeção foi atualizada, para que você saiba que é oficial”, publicou.
Histórico da plataforma

A plataforma Global Election se apresenta como alternativa a institutos tradicionais e combina agregação de pesquisas, modelos de transferência de votos e simulações de cenários. Ela também oferece páginas de resultados em tempo real e simuladores interativos.

Em publicações posteriores na mesma conta, o time indicou certeza estatística elevada de vitória de Flávio (chegando a 100% de probabilidade em uma atualização), com faixa absoluta projetada entre 50,5% e 56,2% para o candidato do PL. A projeção específica de 53,2% × 46,8% circulou amplamente e foi repercutida em veículos e discussões políticas.

A divulgação ocorre em um momento de alta mobilização, com os candidatos encerrando a campanha após o último debate na TV Globo na sexta-feira (23) e atos de rua em diversas cidades. O resultado oficial será conhecido na noite de domingo, com a apuração do TSE.

Projeções e simuladores não substituem o voto nem pesquisas registradas no TSE; eles refletem modelos e interpretações de dados disponíveis até o momento da publicação. A disputa permanece acirrada segundo a maioria dos levantamentos tradicionais.

Diário do Poder

Flávio Gordon - 'Inteligência estrábica'

A Abin tem razão. Há, de fato, interferência estrangeira no Brasil. A agência apenas procurou em inglês o que provavelmente está escrito em cirílico, hanzi e persa



Reprodução


N o fim de agosto, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) despachou à Presidência, ao TSE e ao Ministério da Justiça um relatório intitulado “Ameaças ao processo eleitoral de 2026”. Era reservado e, como de costume, veio a público pela coluna de um militante petista de redação, a tempo de ser servido ao eleitor como prato forte da reta final do período eleitoral. O texto falava em “tendência de escalada de pressão sobre o Brasil” e descrevia a ação americana como um processo “gradual, combinado e adaptativo”. 

Convém ler o relatório com a atenção que ele próprio não dedicou a problemas oriundos de fora dos EUA. Não há ali registro de fraude eleitoral, ataque a sistemas eletrônicos ou exércitos de robôs. Há sanções econômicas, pressão diplomática, declarações de Marco Rubio e a lembrança de uma minuta, de 2025, em que Washington exigia do Brasil o compromisso com eleições “livres e justas” e com a não limitação de “dissidentes políticos”. Lula disse que a proposta foi “recusada” e repousa no “arquivo morto”. O que a Abin definiu como “ameaça crítica à democracia brasileira” consistia, portanto, no fato de um governo estrangeiro dizer em voz alta o que pensava do nosso e demandar, por escrito, que o governo não perseguisse opositores.


O secretário Marco Rubio no Departamento de Estado, em Washington, D.C., EUA (14/10/2026) | Foto: Departamento de Estado/Freddie Everett

Carl Schmitt ensinou que o político se define pela distinção entre amigo e inimigo, e que essa distinção não depende de critérios morais, estéticos ou econômicos. A Abin fez claramente essa distinção ao elaborar o tal relatório. O critério que orientou a escolha do inimigo não foi o grau de perigo, mas o grau de antipatia que ele desperta no governo de turno. Chamarei a esse fenômeno de inteligência estrábica: um olho fixo em Washington, arregalado, e o outro voltado para dentro, a fitar a própria consciência ideológica, sem jamais pousar sobre Moscou, Pequim ou Teerã — os maiores centros agressores às soberanias nacionais mundo afora. 

Em 8 de outubro, quatro dias depois do primeiro turno no Brasil, a OpenAI publicou um relatório justamente sobre aquilo que a Abin preferiu não ver. A empresa desarticulou uma operação russa batizada de “Dark Clark”, que operava por meio de uma fachada chamada Social Research Center, apresentada como plataforma de estudos sobre a diáspora indiana na América Latina e gerida por uma persona fictícia, “Mia Clark”.

Pesquisadores latino-americanos de carne e osso trabalhavam para ela, ao que tudo indica, sem saber a quem serviam. Fontes abertas associam a operação à chamada Politology, ou La Compania, sucessora do Grupo Wagner. O repertório incluía áudios falsos, como o que anunciava um corte de água em La Paz durante protestos. A OpenAI classificou a operação na categoria 5 da escala de Brookings, a primeira desse nível que a empresa derrubou.


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O Brasil não ficou fora do cardápio. O jornalista investigativo David Ágape, do portal A Investigação, encontrou entre as publicações do centro um estudo comparativo, “Entre el Arreglo y la Reconstrucción“, segundo o qual “a era de Lula, por sua vez, restaurou a posição moral e diplomática do Brasil”. Não é preciso imaginar que o Kremlin tenha escolhido abertamente o seu candidato brasileiro. Basta notar que, quando os fabricantes de fachadas russos resolveram falar do Brasil, foi isso o que acharam conveniente dizer.

Nada disso é improviso, por óbvio. O que estamos vendo aqui é o aprimoramento tecnológico da velha técnica russa da dezinformatsiya. Segundo o desertor romeno Ion Mihai Pacepa, o termo foi cunhado sob Stalin com sonoridade francesa, para sugerir que a prática viera do Ocidente. A Grande Enciclopédia Soviética de 1952 definia a palavra como “a difusão, na imprensa e no rádio, de informações falsas com o propósito de enganar a opinião pública”. A definição é correta, mas, como toda definição soviética, omite o essencial. 

A mentira era a parte barata do serviço. O trabalho caro, paciente, às vezes de anos, consistia em erguer antes a fonte que a tornaria crível, uma fachada acima de qualquer suspeita. Anatoliy Golitsyn, que desertou da KGB em 1961, sustentou em New Lies for Old (1984) que a desinformação soviética não era um expediente de ocasião, mas uma estratégia de longo prazo, destinada a moldar a percepção que o Ocidente tinha do próprio bloco comunista. Nos anos 1920, a polícia política bolchevique inventou uma organização monarquista clandestina, o Trust, que enganou emigrados russos e serviços ocidentais e atraiu de volta à Rússia o espião britânico Sidney Reilly, que de lá não saiu vivo. Primeiro a fachada. Depois a mentira.


Capa do livro New Lies for Old, de Anatoliy Golitsyn - Foto: Divulgação/Amazon

Daí a predileção da KGB pela imprensa das democracias liberais, cuja liberdade se torna ao mesmo tempo alvo e veículo. Segundo o desertor Ilya Dzerkvelov, citado pelo Departamento de Estado americano em 1987, a KGB criou em 1962 o jornal indiano Patriot com o único propósito de publicar desinformação. Foi ali que apareceu, em julho de 1983, a carta anônima de um “conhecido cientista americano”, segundo a qual o vírus da aids fora fabricado em laboratório militar em Fort Detrick. Dois anos depois, a Literaturnaya Gazeta citou o Patriot como se fosse fonte independente, e a mentira correu o mundo com passaporte indiano. Em 1992, Ievguêni Primakov, então chefe da inteligência externa russa, admitiu a autoria.

A fachada da Dark Clark, observe-se, também se apresentava como dedicada à diáspora indiana. Os operadores de 2026 trocaram a máquina de escrever pelo ChatGPT, mas conjugam a gramática dos avós da Lubianka. A iraniana Bogus Bylines, também descrita no relatório, seguiu a mesma cartilha: inventou sete jornalistas ocidentais e emplacou quase cem artigos em cerca de uma dúzia de veículos. A fisionomia era americana. A procedência, persa. Não se ouviu da Abin, do Itamaraty ou do Planalto uma palavra pública sobre nada disso. 

A Rússia, aliás, não aparece nos trechos do relatório da agência que vieram a público. Apareceu noutro lugar. Segundo a Reuters, entre 9 e 11 de setembro, representantes da Abin receberam em Brasília delegações da França e da Alemanha e lhes confirmaram “a existência de interferência dos EUA e também da Rússia”. Sobre os americanos, foram eloquentes: a ameaça iria “do lawfare à interferência abertamente reconhecida”. Sobre os russos, nenhum detalhe. A inteligência estrábica, como se vê, também sabe a quem convém mostrar cada olho.



Vladimir Putin e Ievguêni Primakóv, na Rússia (03/07/2013) -= Foto: Wikimedia Commons


Em 4 de agosto, semanas antes de o relatório da Abin seguir para o Planalto, Lula recebeu Nikolai Patrushev, diretor do FSB entre 1999 e 2008, depois secretário do Conselho de Segurança da Rússia e hoje assessor de Putin. O encontro não constava da agenda oficial e só se tornou conhecido porque a embaixada russa o divulgou. No mesmo dia, o Descondenado telefonou a Putin. Patrushev foi recebido por Celso Amorim, pela secretária-geral do Itamaraty e pelo comandante da Marinha, e dois dias depois passeava pelo convés do Atlântico, o maior navio de guerra da esquadra brasileira, no Rio de Janeiro. Um assessor de Rubio que fizesse o mesmo roteiro teria virado capítulo de relatório. O velho chekista virou foto de embaixada. 

E não estamos falando aqui de um burocrata russo qualquer. Em janeiro de 2016, a investigação pública britânica sobre a morte de Alexander Litvinenko, ex-agente do FSB envenenado em Londres com polônio-210 em 2006, concluiu, pela pena do juiz Sir Robert Owen, que a operação “provavelmente foi aprovada pelo senhor Patrushev e também pelo presidente Putin”. Ainda que a afirmação não configure uma sentença criminal, tampouco se pode reduzi-la a um mero boato. Trata-se da conclusão formal de um inquérito oficial de uma democracia, após o exame das provas. Antes disso, em setembro de 1999, explosões em prédios residenciais mataram centenas de pessoas na Rússia e serviram de pretexto para a segunda Guerra da Chechênia. 

Em Ryazan, moradores flagraram agentes do FSB depositando sacos suspeitos no porão de um edifício, e Patrushev, que comandava o serviço, explicou que se tratava de um exercício de treinamento. Nenhum tribunal independente estabeleceu sua participação nos atentados, e é improvável que algum venha a fazê-lo. Mas o episódio basta para mostrar com que espécie de interlocutor o governo brasileiro julgou dispensável registrar uma reunião.


Nikolai Patrushev, então diretor do FSB, e Vladimir Putin (30/01/2008) - Foto: Wikimedia Commons

Quanto à China, o relatório da Abin a menciona apenas como a potência que Trump pretende conter. Pequim surge ali como vítima da hegemonia americana, e não como agente de coisa alguma. Ocorre que, em 1999, dois coronéis do Exército Popular de Libertação, Qiao Liang e Wang Xiangsui, publicaram Guerra sem Restrições, tratado em que o comércio, o direito, a mídia e as redes figuram como armas tão legítimas quanto mísseis. O que hoje se convencionou chamar de guerra híbrida tem ali uma de suas cartas de fundação. A doutrina é pública e estudada no mundo inteiro. Mas, para ser lida, exige o olho que a Abin mantém virado para o outro lado. 

Eric Voegelin, tomando a expressão do romancista Heimito von Doderer, falava em “segunda realidade” para designar a construção imaginária que certos espíritos erguem para não ter de habitar a primeira. O relatório da Abin é um documento dessa segunda realidade. Nela, o perigo à soberania é a crítica pública de um aliado histórico, e não as fachadas encomendadas por uma potência em guerra. Nela, o pedido de respeito a dissidentes é uma agressão, e o ex-chefe do FSB circulando pelo Planalto sem registro na agenda é cooperação bilateral. 

A Abin tem razão, portanto. Há, de fato, interferência estrangeira no Brasil. A agência apenas errou o alfabeto e procurou em inglês o que provavelmente está escrito em cirílico, hanzi e persa


Bandeiras da Rússia, China, Irã e EUA - Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock


Flávio Gordon - Revista Oeste