A Abin tem razão. Há, de fato, interferência estrangeira no Brasil. A
agência apenas procurou em inglês o que provavelmente está escrito
em cirílico, hanzi e persa
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N
o fim de agosto, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin)
despachou à Presidência, ao TSE e ao Ministério da Justiça um
relatório intitulado “Ameaças ao processo eleitoral de 2026”.
Era reservado e, como de costume, veio a público pela coluna
de um militante petista de redação, a tempo de ser servido ao eleitor
como prato forte da reta final do período eleitoral. O texto falava em
“tendência de escalada de pressão sobre o Brasil” e descrevia a ação
americana como um processo “gradual, combinado e adaptativo”.
Convém ler o relatório com a atenção que ele próprio não dedicou a
problemas oriundos de fora dos EUA. Não há ali registro de fraude
eleitoral, ataque a sistemas eletrônicos ou exércitos de robôs. Há sanções
econômicas, pressão diplomática, declarações de Marco Rubio e a
lembrança de uma minuta, de 2025, em que Washington exigia do Brasil
o compromisso com eleições “livres e justas” e com a não limitação de
“dissidentes políticos”. Lula disse que a proposta foi “recusada” e
repousa no “arquivo morto”. O que a Abin definiu como “ameaça crítica à
democracia brasileira” consistia, portanto, no fato de um governo
estrangeiro dizer em voz alta o que pensava do nosso e demandar, por
escrito, que o governo não perseguisse opositores.
O secretário Marco Rubio no Departamento de Estado, em Washington, D.C., EUA (14/10/2026) | Foto: Departamento de Estado/Freddie
Everett
Carl Schmitt ensinou que o político se define pela distinção entre amigo e
inimigo, e que essa distinção não depende de critérios morais, estéticos
ou econômicos. A Abin fez claramente essa distinção ao elaborar o tal
relatório. O critério que orientou a escolha do inimigo não foi o grau de
perigo, mas o grau de antipatia que ele desperta no governo de turno.
Chamarei a esse fenômeno de inteligência estrábica: um olho fixo em
Washington, arregalado, e o outro voltado para dentro, a fitar a própria
consciência ideológica, sem jamais pousar sobre Moscou, Pequim ou
Teerã — os maiores centros agressores às soberanias nacionais mundo
afora.
Em 8 de outubro, quatro dias depois do primeiro turno no Brasil, a
OpenAI publicou um relatório justamente sobre aquilo que a Abin
preferiu não ver. A empresa desarticulou uma operação russa batizada de
“Dark Clark”, que operava por meio de uma fachada chamada Social
Research Center, apresentada como plataforma de estudos sobre a diáspora indiana na América Latina e gerida por uma persona fictícia,
“Mia Clark”.
Pesquisadores latino-americanos de carne e osso
trabalhavam para ela, ao que tudo indica, sem saber a quem serviam.
Fontes abertas associam a operação à chamada Politology, ou La
Compania, sucessora do Grupo Wagner. O repertório incluía áudios
falsos, como o que anunciava um corte de água em La Paz durante
protestos. A OpenAI classificou a operação na categoria 5 da escala de
Brookings, a primeira desse nível que a empresa derrubou.
Foto: Shutterstock
O Brasil não ficou fora do cardápio. O jornalista investigativo David
Ágape, do portal A Investigação, encontrou entre as publicações do
centro um estudo comparativo, “Entre el Arreglo y la Reconstrucción“,
segundo o qual “a era de Lula, por sua vez, restaurou a posição moral e
diplomática do Brasil”. Não é preciso imaginar que o Kremlin tenha
escolhido abertamente o seu candidato brasileiro. Basta notar que,
quando os fabricantes de fachadas russos resolveram falar do Brasil, foi
isso o que acharam conveniente dizer.
Nada disso é improviso, por óbvio. O que estamos vendo aqui é o
aprimoramento tecnológico da velha técnica russa da dezinformatsiya.
Segundo o desertor romeno Ion Mihai Pacepa, o termo foi cunhado sob
Stalin com sonoridade francesa, para sugerir que a prática viera do
Ocidente. A Grande Enciclopédia Soviética de 1952 definia a palavra
como “a difusão, na imprensa e no rádio, de informações falsas com o
propósito de enganar a opinião pública”. A definição é correta, mas, como
toda definição soviética, omite o essencial.
A mentira era a parte barata
do serviço. O trabalho caro, paciente, às vezes de anos, consistia em
erguer antes a fonte que a tornaria crível, uma fachada acima de
qualquer suspeita. Anatoliy Golitsyn, que desertou da KGB em 1961,
sustentou em New Lies for Old (1984) que a desinformação soviética não
era um expediente de ocasião, mas uma estratégia de longo prazo,
destinada a moldar a percepção que o Ocidente tinha do próprio bloco
comunista. Nos anos 1920, a polícia política bolchevique inventou uma
organização monarquista clandestina, o Trust, que enganou emigrados
russos e serviços ocidentais e atraiu de volta à Rússia o espião britânico
Sidney Reilly, que de lá não saiu vivo. Primeiro a fachada. Depois a
mentira.
Capa do livro New Lies for Old, de Anatoliy Golitsyn - Foto: Divulgação/Amazon
Daí a predileção da KGB pela imprensa das democracias liberais, cuja
liberdade se torna ao mesmo tempo alvo e veículo. Segundo o desertor
Ilya Dzerkvelov, citado pelo Departamento de Estado americano em 1987,
a KGB criou em 1962 o jornal indiano Patriot com o único propósito de
publicar desinformação. Foi ali que apareceu, em julho de 1983, a carta
anônima de um “conhecido cientista americano”, segundo a qual o vírus
da aids fora fabricado em laboratório militar em Fort Detrick. Dois anos
depois, a Literaturnaya Gazeta citou o Patriot como se fosse fonte independente, e a mentira correu o mundo com passaporte indiano. Em
1992, Ievguêni Primakov, então chefe da inteligência externa russa,
admitiu a autoria.
A fachada da Dark Clark, observe-se, também se
apresentava como dedicada à diáspora indiana. Os operadores de 2026
trocaram a máquina de escrever pelo ChatGPT, mas conjugam a
gramática dos avós da Lubianka. A iraniana Bogus Bylines, também
descrita no relatório, seguiu a mesma cartilha: inventou sete jornalistas
ocidentais e emplacou quase cem artigos em cerca de uma dúzia de
veículos. A fisionomia era americana. A procedência, persa.
Não se ouviu da Abin, do Itamaraty ou do Planalto uma palavra pública
sobre nada disso.
A Rússia, aliás, não aparece nos trechos do relatório da
agência que vieram a público. Apareceu noutro lugar. Segundo a Reuters,
entre 9 e 11 de setembro, representantes da Abin receberam em Brasília
delegações da França e da Alemanha e lhes confirmaram “a existência de
interferência dos EUA e também da Rússia”. Sobre os americanos, foram
eloquentes: a ameaça iria “do lawfare à interferência abertamente
reconhecida”. Sobre os russos, nenhum detalhe. A inteligência estrábica,
como se vê, também sabe a quem convém mostrar cada olho.
Vladimir Putin e Ievguêni Primakóv, na Rússia (03/07/2013) -= Foto: Wikimedia Commons
Em 4 de agosto, semanas antes de o relatório da Abin seguir para o
Planalto, Lula recebeu Nikolai Patrushev, diretor do FSB entre 1999 e
2008, depois secretário do Conselho de Segurança da Rússia e hoje
assessor de Putin. O encontro não constava da agenda oficial e só se
tornou conhecido porque a embaixada russa o divulgou. No mesmo dia, o
Descondenado telefonou a Putin. Patrushev foi recebido por Celso
Amorim, pela secretária-geral do Itamaraty e pelo comandante da
Marinha, e dois dias depois passeava pelo convés do Atlântico, o maior
navio de guerra da esquadra brasileira, no Rio de Janeiro. Um assessor de
Rubio que fizesse o mesmo roteiro teria virado capítulo de relatório. O
velho chekista virou foto de embaixada.
E não estamos falando aqui de um burocrata russo qualquer. Em janeiro
de 2016, a investigação pública britânica sobre a morte de Alexander
Litvinenko, ex-agente do FSB envenenado em Londres com polônio-210
em 2006, concluiu, pela pena do juiz Sir Robert Owen, que a operação
“provavelmente foi aprovada pelo senhor Patrushev e também pelo
presidente Putin”. Ainda que a afirmação não configure uma sentença
criminal, tampouco se pode reduzi-la a um mero boato. Trata-se da
conclusão formal de um inquérito oficial de uma democracia, após o
exame das provas. Antes disso, em setembro de 1999, explosões em
prédios residenciais mataram centenas de pessoas na Rússia e serviram
de pretexto para a segunda Guerra da Chechênia.
Em Ryazan, moradores
flagraram agentes do FSB depositando sacos suspeitos no porão de um
edifício, e Patrushev, que comandava o serviço, explicou que se tratava de
um exercício de treinamento. Nenhum tribunal independente
estabeleceu sua participação nos atentados, e é improvável que algum
venha a fazê-lo. Mas o episódio basta para mostrar com que espécie de
interlocutor o governo brasileiro julgou dispensável registrar uma
reunião.
Nikolai Patrushev, então diretor do FSB, e Vladimir Putin (30/01/2008) - Foto: Wikimedia Commons
Quanto à China, o relatório da Abin a menciona apenas como a potência
que Trump pretende conter. Pequim surge ali como vítima da hegemonia
americana, e não como agente de coisa alguma. Ocorre que, em 1999,
dois coronéis do Exército Popular de Libertação, Qiao Liang e Wang
Xiangsui, publicaram Guerra sem Restrições, tratado em que o comércio, o
direito, a mídia e as redes figuram como armas tão legítimas quanto
mísseis. O que hoje se convencionou chamar de guerra híbrida tem ali
uma de suas cartas de fundação. A doutrina é pública e estudada no
mundo inteiro. Mas, para ser lida, exige o olho que a Abin mantém virado
para o outro lado.
Eric Voegelin, tomando a expressão do romancista Heimito von Doderer,
falava em “segunda realidade” para designar a construção imaginária
que certos espíritos erguem para não ter de habitar a primeira. O
relatório da Abin é um documento dessa segunda realidade. Nela, o
perigo à soberania é a crítica pública de um aliado histórico, e não as
fachadas encomendadas por uma potência em guerra. Nela, o pedido de
respeito a dissidentes é uma agressão, e o ex-chefe do FSB circulando
pelo Planalto sem registro na agenda é cooperação bilateral.
A Abin tem razão, portanto. Há, de fato, interferência estrangeira no
Brasil. A agência apenas errou o alfabeto e procurou em inglês o que
provavelmente está escrito em cirílico, hanzi e persa
Bandeiras da Rússia, China, Irã e EUA - Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock
Flávio Gordon - Revista Oeste