sábado, 19 de setembro de 2026

O covil do Lula e o ‘Batom na cueca’: Foto mostra Vorcaro fumando charuto e bebendo uísque com Paulo Gonet em Londres

Flagrante confirma a proximidade do procurador-geral da República com banqueiro fraudador



A foto foi enviada a Vorcaro pelo próprio Paulo Gonet, por meio do advogado do investigado pela maior fraude financeira da História.


Mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, pela Polícia Federal revelam uma foto do procurador-geral da República, Paulo Gonet, ao lado do banqueiro em uma confraternização em Londres. Na imagem, Vorcaro aparece sentado próximo a Gonet, que segura um charuto, diante de uma mesa com copos de uísque.

A foto foi encaminhada em 19 de junho de 2025 pelo advogado Ciro Soares, ex-defensor do Master, acompanhada da mensagem “PG me mandou” — referência às iniciais de Paulo Gonet. A Procuradoria-Geral da República confirmou a autenticidade da imagem, mas se recusou a comentar. A pessoas próximas, Gonet afirmou que o encontro ocorreu em abril de 2024 e que a foto não demonstra intimidade com o banqueiro.

A fotografia, revelada em reportagem dos jornalistas Eduardo Gonçalves e Thiago Bronzatto, de O Globo, faz parte do relatório da PF tornado público pelo ministro André Mendonça, do STF, há cerca de duas semanas. Dessa farra com uísque Macallan e charutos participaram ao menos três ministros do  Supremo Triunal Federal (STF), incluindo Alexandre de Moraes, além de ministros do Superior Tribunal de Justiça (STJ), como Benedito Gonçalves, e membros do governo Lula (PT) como o então ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.

O relatório da PF tornado público por Mendonça também cita o ministro Alexandre de Moraes. Mendonça pediu que o caso fosse levado ao plenário, o que ocorreu na terça-feira passada, mas a discussão foi interrompida por pedido de vista de Flávio Dino.

Gonet questionou a validade do relatório, argumentando que ele foi produzido a pedido de Mendonça sem solicitação prévia do Ministério Público ou da Polícia Federal. Ele também lembrou que a investigação de um integrante do STF exige autorização do plenário da Corte.

No julgamento, Mendonça diferenciou as mensagens envolvendo Gonet das demais: “Aqui não estou fazendo juízo de valor em relação ao procurador-geral, até porque as informações que vieram, são informações, na minha avaliação, de outra densidade.”O próprio Gonet se manifestou na sessão e classificou o encontro como “banal”. Segundo ele, foi o único contato presencial com Vorcaro, ocorrido na presença de várias autoridades. “Não tive relacionamento de proximidade com o senhor Vorcaro. A única ligação intermediada por advogado foi brevíssima e banal”, afirmou.

As conversas também mostram que Gonet teria demonstrado interesse em participar de um segundo evento em Londres patrocinado pelo Master em 2025 — um fórum jurídico que acabou cancelado. Em mensagens encaminhadas por Soares, o procurador-geral teria dito “Tomara que tenha charuto e Macallan” e expressado “saudades” do banqueiro.

No ano anterior, Vorcaro pagou R$3,2 milhões em uma degustação privada de uísque Macallan no George Club, em Londres, evento no qual a foto foi tirada.

Outras mensagens indicam que Soares intermediou o convite para que o filho de Gonet viajasse com o grupo a Londres. Vorcaro teria respondido de forma positiva ao pedido.

A PGR deve se manifestar nos próximos dias sobre o pedido da defesa de Vorcaro para revogar a prisão do banqueiro, protocolado nesta sexta-feira.

Diário do Poder

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Marco Aurélio Mello critica atuação de Dino em sessão do STF sobre caso Vorcaro

Ministro aposentado avalia sessão de terça-feira (15), marcada por embates entre magistrados, e classifica o dia como difícil para a Corte


Foto:(Álvaro Rabello/Diário do Poder).



O ministro aposentado do STF (Supremo Tribunal Federal) Marco Aurélio Mello fez, em entrevista nesta sexta-feira (18), uma avaliação crítica da sessão da Corte realizada na terça-feira (15), quando os ministros discutiram a abertura de investigação contra Alexandre de Moraes por suposto envolvimento com o banqueiro Daniel Vorcaro.

Sessão marcada por embates

A sessão de terça-feira teve troca de acusações e discussões acaloradas entre os ministros. Ao final, Dino pediu vista do processo, o que suspendeu o julgamento.

Crítica à condução de Fachin

Segundo Marco Aurélio, faltou a Fachin uma atuação mais enérgica para conter as discussões e dissolver os embates ocorridos em plenário.

Além disso, para o ministro aposentado, um dos momentos mais emblemáticos do descontrole na sessão foi quando Dino acusou Fachin de avocar para si os processos relativos a Moraes e a André Mendonça. Na avaliação de Mello, essa acusação levou disputa política para dentro do Tribunal — e o cargo de presidente da Corte, independentemente de quem o ocupe, deveria ser respeitado.

“Um dia triste para o Supremo”

Mello classificou a sessão como um dia difícil para a Corte e defendeu que os magistrados devem atuar com honestidade de propósito. Para ele, o encerramento do dia sem uma resposta concreta reforçou a percepção de desgaste institucional em torno do Supremo.

“O Supremo não pode cometer um suicídio institucional”, disse o ministro aposentado, ao afirmar que a sociedade aguarda uma resposta concreta da Corte.

Mello acrescentou que o exemplo de conduta deve partir dos próprios ministros e que as ofensas trocadas durante a sessão não condizem com o comportamento esperado da bancada do STF.

Davi Pereira - Diário do Poder

Flávio Dino, segundo Aristóteles

O ministro comunista usou seu tempo de fala não para esclarecer fatos, mas para representar erudição que não tem, mal citando os autores citados e ironizando sem saber o que é ironia


Ministro Flávio Dino | Foto: Rosinei Coutinho/STF


“A retórica não deve conhecer como as coisas são em si mesmas, mas descobrir algum mecanismo persuasivo de modo a parecer, aos ignorantes, conhecer mais do que aquele que tem conhecimento.” (Platão, Górgias)

“Os sofistas não nos são tão extemporâneos como poderíamos supor.” (G. W. F. Hegel, Lições sobre a História da Filosofia)


Flávio Dino é um comunista. E, em sendo comunista, ele é também um sofista. Não por acidente biográfico, mas por tradição ideológica: o comunista, como o sofista antigo, não compreende a linguagem como instrumento de comunicação da realidade, mas como arma de manipulação dos sentimentos e das percepções da audiência. Para ambos, a palavra não serve para revelar o mundo, mas para dobrá-lo à vontade de quem fala. 

O interlocutor, nessa lógica, nunca é um igual a ser convencido pela razão. Ele é uma presa a ser capturada pela retórica. Pois, na última terça-feira, 15, a sociedade brasileira foi transformada em presa de um sofista do Supremo Tribunal Federal, quando a Corte deveria decidir se abriria ou não investigação contra Alexandre de Moraes, o Careca do Master, por seus vínculos com Daniel Vorcaro. 

Na infame sessão, que muitos têm considerado como o atestado de óbito do STF tal como conhecíamos, coube a Flávio Dino — a quem apelidei carinhosamente de Camarada Rocambole — a missão de pedir vistas travar o julgamento. 

No caminho de fazê-lo, todavia, o militante togado nos ofereceu uma aula — não de Direito, mas de impostura. Minha amiga Bruna Torlay, professora de filosofia, fez uma observação muito pertinente: Dino lembra Hípias, dos diálogos platônicos Hípias Maior, Hípias Menor e Protágoras. Platão retrata esse sofista como um homem extremamente vaidoso, convencido da própria erudição, apaixonado pelo sucesso e pelo dinheiro, superficial a despeito de todo o conhecimento que arrota em praça pública. Trocando Atenas por Brasília e a túnica clássica pela toga moderna, a descrição cai como uma luva. Dino discursou empolado. 

Citou Aristóteles. Citou Hobbes — embora, deste, tenha recolhido apenas a frase que já é praticamente adesivo de para-choque de caminhão: “o homem é o lobo do homem”. Ocorre que Aristóteles e Hobbes, na boca do ministro, soam tão adequados quanto uma bola de futebol nos pés de um perna-de-pau: o instrumento existe, a intenção de usá-lo é evidente, mas a perícia simplesmente não acompanha a pretensão. 

Curiosamente, quando o Camarada Rocambole abandonou os clássicos e foi buscar na baixa cultura referências mais comezinhas — notadamente o humorista Fábio Porchat e o cantor Chico César —, a voz mudou de registro. Ali, sim, havia naturalidade, quase intimidade. 

Faz sentido: esses os filósofos que Dino verdadeiramente consome. Se, nele, Aristóteles é mencionado como quem exibe um diploma emprestado, Porchat e Chico César o são como quem fala de amigos de infância. A discrepância entre os dois registros é, ela mesma, a prova do que se quer demonstrar: em Dino, como em Hípias, há erudição de vitrine. Mas o ápice da encenação veio quando, ao dirigir uma ironia ao presidente Edson Fachin, Dino sentiu a necessidade de explicar o próprio recurso: a ironia, disse ele, serve para descontrair o ambiente. 

E completou, grandiloquente: “como diria Aristóteles”. Eis o momento em que o colosso tropeça na própria toga. Porque Aristóteles, na Ética a Nicômaco (1127a-1127b), não trata a ironia como recurso de descontração de ambiente. Trata-a como um dos modos pelos quais os homens se apresentam a si mesmos e aos outros, estabelecendo três disposições possíveis, duas viciosas (por desmedidas) e uma virtuosa (por comedida).


Sessão plenária extraordinária do STF (15/09/2026) | Foto: Alejandro Zambrana/STF


A disposição virtuosa é a alḗtheia (ἀλήθεια): a veracidade, o apresentar-se aos outros como de fato se é. A primeira, e menos grave, disposição viciosa é a eirōneía (εἰρωνεία): a ironia no sentido grego, que consiste na dissimulação modesta, o hábito de negar ou diminuir qualidades que realmente se possui. Se usada como ferramenta retórica para a busca da verdade — como Aristóteles reconhece ser o caso da maiêutica socrática —, a ironia tem o seu valor. O problema mesmo está na segunda disposição viciosa, que é a alazoneía (ἀλαζονεία): a alazonia, a jactância, a impostura, a bazófia, a fanfarronice, a vanglória, em suma, o vício de atribuir a si mesmo qualidades maiores do que as que se tem. 

Se pudesse retornar do Hades e examinar a retórica do Camarada Rocambole naquela sessão, não é a ironia que saltaria aos olhos de Aristóteles, mas justamente o seu oposto. O estagirita não veria em Dino um homem afetando modéstia, disposto a diminuir as próprias qualidades; veria, ao contrário, um homem disposto a inflar qualidades que não tem. Não veria eirōneía, mas alazoneía. O eirōn — o agente da ironia — é o exato oposto do alazṓn — o agente da alazonia. O primeiro pode ser chamado de irônico; o segundo, de alazônico. Ou, simplesmente, de fanfarrão.

Flávio Dino é esse fanfarrão, esse jactancioso, no sentido aristotélico. Ao invocar Aristóteles para justificar uma ironia como “recurso de descontração”, ele mostra não ter a menor intimidade com o autor que cita. O Camarada Rocambole não parece ter as qualidades exigidas para se tornar irônico no sentido grego. Ele é, isso sim, um espécime quase perfeito de alazṓn: o sujeito dedicado a atribuir a si mesmo talentos — de jurista, de filósofo, de homem de humor fino, de estadista acima do partidarismo — que a sua vida real de militante comunista permanente insiste em desmentir.


Platão e Aristóteles caminhando e debatendo. Detalhe da pintura Escola de Atenas, de Rafael (1509–1511) | Foto: WIkimedia Commons


Não é pouca ironia — essa, sim, no sentido comum da palavra — que um pretenso magistrado tenha adiado, com citações postiças de Aristóteles, o julgamento que poderia esclarecer se seu colega de Corte manteve relação promíscua com o homem por trás de um dos maiores rombos bancários da história recente do país. Enquanto o Brasil esperava para ver se Alexandre de Moraes tinha como explicar a troca de mensagens comprometedoras com Daniel Vorcaro, teve de assistir a uma sessão em que a substância desse fato cedeu lugar ao teatro de erudição de um sujeito que confunde pompa com conhecimento, e chicana com justiça.

 Trata-se do método sofístico em estado puro: quando a pergunta é incômoda — “o senhor Alexandre de Moraes deve ser investigado?” —, a resposta hábil não é responder, mas adiar. E o adiamento precisa ser embrulhado num verniz filosófico para não parecer o que é. Hípias também fazia isso. Diante de Sócrates, sempre tinha uma resposta pronta, elegante, cheia de nomes ilustres — e sempre, no fim, vazia. A diferença é que Sócrates estava ali para desmontar o artifício. Não tínhamos um Sócrates no STF, caso em que o Camarada Rocambole sairia dali desencarambolado.

Fica, então, o registro para a posteridade: um membro da mais alta Corte do país pediu vista de um julgamento sensível à credibilidade do próprio Judiciário, e usou seu tempo de fala não para esclarecer fatos, mas para representar erudição que não tem, mal citando os autores citados, ironizando sem saber o que é ironia, e confundindo, mais uma vez, o exercício do saber com o exercício da sofística. Um homem, dizem que disse Hobbes (ou terá sido Porchat?), talvez seja o lobo de outro homem. Mas o fanfarrão, isso Aristóteles realmente disse, é sempre o fanfarrão de si mesmo.

'O golpe supremo', por Adalberto Piotto

Ao se negar a investigar Moraes, com chicanas e medidas protelatórias, o STF fora da lei dá um golpe na própria Corte, na democracia e no Brasil decente


Ilustração: Criada por IA/Revista Oeste

Golpes são sempre por projeto de poder. Não há golpes jurídicos em defesa de boas intenções. Defender a democracia atropelando a lei é golpe. O verniz do falatório rebuscado e pretensamente em defesa das instituições dá brilho, mas não esconde a cara de pau de quem quer apenas levar vantagem, sobrepor-se aos demais. Ou, ainda pior, só ficar rico com a mais deslavada corrupção que aflige e atrasa o Brasil. Foi golpe do STF a instalação de ofício e sem sorteio do Inquérito 4.781, o das Fake News e do Fim do Mundo, que o ministro Alexandre de Moraes usa, desde 2019, para perseguir, prender e abusar legalmente dos brasileiros. 

Foi e é golpe da Corte quando um ministro reiteradamente nega os mais elementares direitos constitucionais de defesa a quem é acusado de seja lá o que for. Mais grave ainda quando mira apenas um lado do pensamento político. Foi golpe o tratamento dado aos presos do 8 de janeiro, que não tiveram individualização de conduta, devido processo legal e direito à ampla defesa. Golpe nos advogados que não tiveram acesso aos autos. Golpe no governo Bolsonaro ao lhe retirar prerrogativas de simplesmente nomear o diretor-geral da Polícia Federal. Golpe na liberdade de expressão de todos, cláusula pétrea da Constituição. Golpe no Congresso, ao relativizar o artigo 53, aquele em que “os deputados e senadores são invioláveis, civil e penalmente, por quaisquer de suas opiniões, palavras e votos”. 

Golpe de novo por usar o direito ao “foro privilegiado” como ferramenta de chantagem e cabresto de parlamentares. Golpe quando mantém tudo em sigilo. Golpe quando abre inquéritos para ameaçar a tudo e a todos. Golpe no passado, golpe do STF no presente — ao não ter força de punir um único ministro pego nas investigações da Polícia Federal como advogado de fato de um banqueiro corrupto. E, por fim, golpe no futuro do Brasil ao destruir-se como uma Corte Suprema, deixando um rastro de abuso, desrespeito aos direitos humanos e uma imundície vexatória de sequer se conter em seus excessos. O STF que deve guardar e defender a Constituição não existe mais. No momento, está refém de uma minoria sem lei e movida a interesses particulares.



Presos na noite de 8 de janeiro de 2023 no Congresso Nacional - Foto: Reprodução


O resumo desse STF arrogante definiu a formação de sua Corte paralela dentro do próprio plenário. Ganhou cara e voz no comportamento insubmisso à lei e ao país de Gilmar Mendes, Flávio Dino e Cristiano Zanin, além do próprio Alexandre de Moraes, na sessão da Corte na última terça, dia 15 de setembro. Era a sessão que entraria para a história porque o Supremo daria satisfações à sociedade e voltaria a se dar ao respeito. Era tão somente uma sessão em que nove ministros deveriam se debruçar sobre farto material da investigação da Polícia Federal que comprometia a condição de um único ministro, Alexandre de Moraes, e tomar uma decisão para salvar a imagem rasurada da própria Corte.

Não conseguiu. O grupo que decidiu proteger Alexandre e abandonar a Justiça dominou a sessão. Entre chicanas, protelações, grosserias e histerias de Gilmar, intervenções afrontosas e discursos enjoativos de Dino, e de Zanin, cujo maior predicado é o de ter sido advogado do Lula, além de legitimar a pesca probatória no fim de semana que antecedeu a sessão — para coagir outros membros do tribunal —, o que se viu foi uma atuação engendrada de proteção mafiosa. Foi o decano quem recorreu ao termo “máfia e seus derivados”, para que fique claro. 

Na única interpretação plausível para seu ousado aparte, ele defendeu que um ministro não poderia ser investigado com denúncia de outro porque não seria ético. Não obstante, recorreu à citação da “omertà“, o código de honra da máfia siciliana que proíbe qualquer cooperação com a polícia ou a justiça. Reivindicou o silêncio de criminosos para se protegerem. Um escárnio, um papel que o ministro André Mendonça, relator do inquérito legal e definido por sorteio, não aceitou protagonizar e virou alvo do grupo. Verifique por si mesmo, caro leitor de Oeste, a citação original de Gilmar Mendes: 

“Quem detém sozinho aquilo que pode alcançar outros integrantes do colegiado passa a exercer sobre eles algum tipo de ascendência. Eu protejo você. Relação de máfia. Isso não se faz, não é ambiente de pessoas dignas. Desculpe a sinceridade, presidente. Mas as coisas precisam ser chamadas pelo nome. Não se pode submeter… Mesmo o colega que esteja eventualmente envolvido, que teve um filho, não pode estar submetido a esse tipo de vexame. É uma atitude covarde, vil. Já disse isso em outro momento. Até a máfia tem ética. É preciso ter decência. Não se comporta dessa forma.”


Luiz Fux na sessão plenária extraordinária do STF, em 15/09/2026 | Foto: Gustavo Moreno/STF


Não foi, convenhamos, a defesa da lei, da transparência e da “decência” que fez Gilmar. Era uma crítica a Mendonça, que não aderiu ao suposto código de autoproteção porque tinha compromisso com a verdade e a necessidade de investigar um possível crime de um membro do Supremo. E com evidências eloquentes vindas da longa investigação da Polícia Federal, cercada de tecnicidade e profissionalismo dos delegados, que havia encontrado nos telefones do banqueiro Daniel Vorcaro, preso por corrupção, conversas com indícios inequívocos de notória promiscuidade com uma alta autoridade. O suspeito era Alexandre de Moraes.

 Depois de negar essa informação ao público por meses a fio, na própria sessão da terça, 15, ficou-se sabendo que o número a quem Vorcaro recorria era o do telefone usado por Moraes. A ligação estava feita. Cabia a Moraes se defender, questionar a titularidade do telefone. Preferiu reclamar da investigação e do investigador. Nada disso pareceu abalar Gilmar, Dino e Zanin. “Às favas com os fatos, as evidências, o Brasil e o STF”, devem ter pensado. Obcecados pelo código próprio de autopreservação acima da lei, deram de ombros ao que se julgava ali e foram construindo narrativas e enrolações para postergar o que o Brasil inteiro já sabia e não suportava mais: o mau-cheiro do roteiro criminoso que envolvia um membro da Corte. Uma Suprema Corte de ministros de quem só se exigem duas coisas: notável saber jurídico e reputação ilibada. 

Como reputação diante do interesse público e reputação dentro de qualquer omertà não têm nada a ver uma com a outra, o grupo deu um tapa na cara da sociedade e escolheu ignorar obscenidades institucionais: “Acha que segunda já tenho de estar fora?”, pergunta o banqueiro, calculando o melhor momento de fugir do país. Ou a sequência: “Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei? (…) Ele não consegue segurar isso? (…) E com Andrei, dá pra segurar?”, para evitar a iminente prisão. Todas absolutamente comprometedoras, que reivindicavam supostamente a intervenção de Moraes diante do procurador-geral da República, Paulo Gonet, e do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. 

Mas a mensagem de 17 de novembro de 2025, na manhã do dia da prisão, é ainda mais assustadora. Por WhatsApp, Vorcaro perguntava como quem sabia que tinha pago caro por proteção suprema: “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”, perguntou Vorcaro a Moraes. A conexão com o contrato do banqueiro, de R$ 131 milhões, com o escritório da esposa de Moraes gritava.



Procurador-geral da República Paulo Gonet na sessão plenária extraordinária do STF, no dia 15/09/2026 | Foto: Rosinei Coutinho/STF


No devido processo legal, por mais constrangedoras e imorais que sejam as mensagens, ainda assim, tudo é tratado como indício de crime. A presunção no Direito brasileiro é de inocência, jamais de culpa. Mas é mandatório investigar pelo interesse social. A sessão da terça no Supremo Tribunal Federal não era para condenar Moraes. Era para se decidir sobre a abertura ou não de uma investigação contra ele, na qual lhe seria garantido um julgamento justo com amplas condições de se defender. 

Exatamente tudo o que ele negou aos brasileiros que investigou, cancelou, de quem congelou contas bancárias e de redes sociais, que prendeu e condenou de forma arbitrária e ilegal, ao levar todos para serem julgados dentro do STF e não na primeira instância. Foi um golpe com apoio de parte da imprensa e com muitos votos dentro da própria Corte, sobretudo na 1ª Turma, onde ele reinou, ao lado de Flávio Dino e Cristiano Zanin, sob olhares de orgulho de Gilmar Mendes. 

Depois de anos de espera, na terça-feira, o STF tinha um encontro marcado com o Brasil. Dava sinais de que se recolheria de seus devaneios de poder moderador. Que passaria a se abster definitivamente de jornadas de julgamentos absurdos e abusivos que geraram perseguições, presos políticos, exilados e humilhações internacionais de ver suas sentenças demolidas por Cortes de países civilizados. Era a chance de encerrar esse clima insuportável de terror social e político com insegurança jurídica avassaladora dentro do país. 

Não foi o que aconteceu, em que pesem os esforços do presidente Edson Fachin, tímidos e com enorme lacuna de autoridade; os embates protagonizados por Mendonça e Luiz Fux contra os colegas do lado de lá, tentando recolocar a lei no centro da Corte; ou mesmo os pedidos de desculpas de Cármen Lúcia ao país, assumindo as próprias faltas diante do monstro em que se transformou o Supremo. Sequer a análise da sorrateira questão de ordem de Gilmar, que questionava a inegável autoridade de Fachin de presidir a sessão, foi decidida..

Depois de uma série infindável de interrupções para protelar, Flávio Dino pediu vista, mesmo já tendo votado. Foi o derradeiro gesto que demoliu de vez o mínimo de credibilidade ainda existente da mais alta Corte de Justiça. Transformada por quatro ministros em um tribunal chicaneiro e incapaz de se corrigir, não foi capaz de julgar um ministro fora da lei, mas provocou uma onda coletiva de críticas da sociedade como há muito não se via. É exatamente a reação que faltou dessa mesma gente quando a Corte decidiu que não cumpriria a Constituição para “salvar a democracia”. Foi o golpe da época, que perdura até hoje. 

Que os novos cristãos da democracia ou cristãos em penitência pelas suas omissões resistam. Democracia é uma só. E ela não é a do Supremo, do Dino, do Moraes ou do Gilmar. Muito menos a de Lula, fiador desse Supremo golpista e fora da lei. A única democracia que nos serve é a descrita e garantida na Constituição de 1988. E ela pertence a todos os brasileiros e não aceita intermediários.

  Revista Oeste - Adalberto Piotto







Chicaneiros de toga, por Cristyan Costa

Com o apoio do Planalto, ala de Gilmar Mendes trava investigação sobre Moraes, impõe sua agenda ao STF e expõe Fachin acuado na presidência da Corte


Ministro Gilmar Mendes na sessão plenária extraordinária do STF | Foto: Rosinei Coutinho/STF

N a sessão mais esperada do ano, na terça-feira, 15, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiriam se Alexandre de Moraes deveria ser investigado por suas relações com Daniel Vorcaro, ex-dono do extinto Banco Master. No centro do plenário, estavam mensagens extraídas pela Polícia Federal (PF) do celular do empresário, com pedidos de ajuda ao magistrado, e acordos milionários envolvendo o juiz e o escritório da mulher dele, Viviane Barci. Assim que o presidente do STF, Edson Fachin, concluiu a leitura do relatório, o decano da Corte, Gilmar Mendes, interveio. Apresentou uma “questão de ordem” (instrumento regimental destinado a resolver dúvidas ou erros na sessão) para atrapalhar a condução dos trabalhos: propôs julgar, juntos, Moraes e André Mendonça, relator do caso Master, que também tinha contra si um pedido de investigação. A audiência mudou completamente de rumo. 

A chicana de Gilmar vinha sendo costurada nos bastidores desde que Mendonça levantou o sigilo do relatório da PF que expôs o escândalo envolvendo Moraes. Uma das preocupações é a eleição, cujo primeiro turno ocorrerá em cerca de 15 dias. As pesquisas mostram a vantagem do presidente Lula cair para o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Por isso, a primeira tentativa foi demover Fachin da ideia de pautar o caso agora. Ao se dar conta de que o presidente não o atenderia, propôs redistribuir as relatorias das ações. Quando percebeu que não conseguiria dobrar Fachin, levou a intervenção ao plenário. Diante da derrota iminente, Flávio Dino suspendeu o julgamento, por até 90 dias, com um pedido de vista. A ofensiva já havia sido antecipada por Oeste na semana anterior, quando membros da ala do decano telefonaram uns para os outros para organizar o contra-ataque, depois de alguns dias atordoados com a situação.


Ministro Flávio Dino | Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Orientação de Lula 

Parte desse contra-ataque havia sido combinada com o Palácio do Planalto durante a crise. A ofensiva tinha uma divisão de tarefas. Embora cobre, publicamente, a abertura de uma investigação “doa a quem doer” no STF, longe dos holofotes, Lula ajudou a blindar Moraes. A Dino, ele deu a ordem para confrontar Fachin, enquanto mandou Cristiano Zanin sustentar os argumentos técnicos do grupo com “serenidade”, sem entrar em embates. Paralelamente, Gilmar disse a Lula que concentraria os ataques em Luiz Fux e Nunes Marques — com os quais o decano trocara mensagens insultuosas dias antes da sessão. Já Moraes miraria a artilharia na direção do relator do Master. Com a saída inesperada de Nunes Marques, que se declarou impedido em meio a notícias de suposto envolvimento com uma garota de programa, tudo ficou mais fácil.

O roteiro traçado nos bastidores começou a aparecer assim que a discussão avançou no plenário. O primeiro embate envolveu justamente Dino e Fachin. Enquanto Dias Toffoli justificava sua suspeição no julgamento, Dino tentou pedir-lhe aparte diretamente. O presidente do STF disse que a palavra deveria ser solicitada à presidência e elevou o tom ao insistir na prerrogativa de comandar a sessão. Dino não recuou. Lembrou a Fachin que ele próprio havia pedido “ponderação” e “equilíbrio” aos colegas na abertura dos trabalhos e sustentou que o regimento permitia que o aparte fosse autorizado por quem estivesse com a palavra. Fachin consultou o texto e acabou lendo o dispositivo em plenário. A primeira tentativa de impor autoridade terminava, assim, com a vitória de Dino. 

Com Nunes Marques fora do julgamento, Gilmar concentrou-se em Mendonça. O decano acusou o relator do Master de conduzir as investigações com “inequívoco viés político-eleitoral” e disparou: “Até a máfia tem ética”. Disse ainda que a atuação do colega era “digna de máfia, covarde, vil”, chamou-o de “boneco de campanha”, “pixuleco eleitoral” e “aprendiz de feiticeiro” e sustentou que sua conduta beneficiava interesses eleitorais. Mendonça reagiu. Classificou como leviana a acusação de parcialidade e exigiu respeito. 

A temperatura subiu ainda mais quando Mendonça mencionou o procurador-geral da República, Paulo Gonet, cujo nome também aparecia nas mensagens de Vorcaro. Gilmar interrompeu o colega, acusou-o de fazer ilações e disse que ele estava tomado por um “sentimento policialesco”. Mendonça voltou a exigir respeito. “Pode chorar, pode chorar”, provocou o decano. “Aqui não tem choro, não. Respeite”, respondeu o relator. Fachin não interrompeu o decano para assegurar a palavra a Mendonça nem conteve a provocação. O bate-boca continuou.


O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques | Foto: Luiz Roberto/TSE

Moraes assumiu a ofensiva na sequência. Acusou Mendonça de agir em favor de um grupo político, questionou a regularidade da investigação e afirmou que o relator teria pressionado integrantes da PF para incluir seu nome numa eventual delação premiada de Vorcaro. Disse ter testemunhas — policiais e advogados — e propôs levá-las ao Supremo. Mendonça rebateu: 

“Isso é mentira”. Moraes então perguntou: “Quem tem medo da PF?”. O relator tentou responder. “Eu não estou perguntando a Vossa Excelência”, cortou Moraes. “Mas eu estou lhe respondendo”, devolveu. A PF virou outro campo de batalha. Gilmar criticou a presença de delegados cedidos a gabinetes do Supremo e voltou ao episódio do afastamento do diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues. 

Fux reagiu às críticas e acusou a PF de desvios de conduta contra integrantes da Corte. Mendonça chegou a falar na existência de uma “PF paralela”. Dino também voltou à carga. Ao tratar das mensagens encontradas no celular de Vorcaro, afirmou que havia referência a Fux. O ministro reagiu imediatamente. “Não tem. Comigo, não tem”, assegurou. As mensagens divulgadas até então apontavam contatos envolvendo Rodrigo Fux, filho do magistrado, mas Fux negava qualquer relação pessoal com o exbanqueiro. A hostilidade transbordava das palavras para os gestos. Gilmar e Toffoli riam enquanto Mendonça falava. Em diferentes momentos, o decano, Moraes e Dino sequer dirigiam o olhar ao relator do Master. 

No intervalo, Gilmar e Dino davam gargalhadas no cafezinho em meio à confusão. Por fim, Cármen Lúcia destoou do ambiente. Declarou estar constrangida e triste, reconheceu o “mal-estar cívico” produzido pela crise e pediu desculpas aos brasileiros. O pedido, contudo, não encerrou as discussões. Horas haviam sido consumidas com acusações, apartes, questões regimentais, suspeitas sobre colegas, PF, delações e relações pessoais. A sessão convocada para decidir se havia elementos para investigar Moraes ainda não havia chegado à pergunta que justificara sua realização. Quando Gilmar e Mendonça voltaram a se enfrentar, 

Dino pôs fim ao julgamento. Pediu vista e dirigiu a crítica ao próprio presidente do Supremo. Disse que Fachin estava há horas assistindo àquilo sem tomar providências: “Se Vossa Excelência vai assistir a isto, eu não vou”. Com o pedido, a discussão foi suspensa antes de o plenário examinar o mérito da Petição 16.662. O STF passou o dia reunido para decidir se Moraes deveria ser investigado e terminou sem votar a investigação. O resultado imediato favoreceu a estratégia de ganhar tempo. Mas deixou também outro saldo dentro do tribunal.


Presidente acuado 

Nos bastidores, ministros das duas alas se disseram decepcionados com a maneira como Fachin conduziu a sessão. Para interlocutores de ambos os grupos, o presidente permitiu que ataques pessoais ocupassem o plenário sem estabelecer limites claros e, em momentos decisivos, deixou de exercer a autoridade esperada do cargo. O contraste ficou evidente: de um lado havia uma ala organizada, com estratégia e distribuição prévia de tarefas; do outro, ministros reagindo individualmente aos ataques, sem coordenação.

A pressão da ala de Gilmar não se limitara ao que ocorreria dentro do plenário. Nos dias anteriores, integrantes do grupo também defenderam o reforço do esquema de segurança para a sessão. Na manhã de terçafeira, o Supremo estava cercado por grades, policiais e viaturas. Cães farejadores fizeram uma varredura na Praça dos Três Poderes, câmeras e drones ajudaram a monitorar a região e até o espaço aéreo recebeu atenção especial. A Polícia Judicial chegou a derrubar um drone que sobrevoava a Corte sem autorização. A maior parte dos jornalistas não pôde entrar no plenário. Aos poucos profissionais autorizados, entre eles a reportagem de Oeste, determinou-se que os celulares permanecessem desligados dentro de sacolas lacradas durante toda a sessão. O tribunal se preparara para controlar qualquer interferência externa.


O ministro Edson Fachin, durante uma sessão plenária | Foto: Rosinei Coutinho/STF


Fachin parecia conhecer a dimensão do que estava por vir. Pediu “ponderação” e “equilíbrio” aos colegas e advertiu que a divergência jurídica não poderia se transformar em confronto pessoal. O paradoxo apareceria poucas horas depois. Enquanto praticamente tudo do lado de fora estava sob controle, dentro do plenário o presidente não conseguia fazer valer a recomendação que ele próprio dera. A situação não melhorou nos dois dias seguintes. Nesta quinta-feira, 17, Fachin cancelou a sessão extraordinária do plenário prevista para a tarde. 

A pauta não tratava do caso Master, mas o episódio ampliou a percepção de anormalidade no funcionamento da Corte: foi o terceiro cancelamento de uma sessão presencial neste mês. No mesmo dia, o presidente retirou do calendário a sessão extraordinária de 23 de setembro, convocada para analisar as acusações contra Mendonça no caso Master. 

Não marcou nova data. O motivo estava diretamente ligado à manobra de terça-feira. Como permanece pendente a questão de ordem de Gilmar sobre a reunião dos casos de Moraes e Mendonça — interrompida pelo pedido de vista de Dino —, o Supremo ficou sem definir se poderia examinar separadamente a situação do relator. 

O tribunal entrou no plenário para resolver uma crise e saiu dele com duas investigações paradas, relações internas ainda mais deterioradas e sem sequer definir o caminho para voltar ao mérito. Gilmar, porém, conseguiu o que buscava desde o início: tempo. O julgamento de Moraes foi interrompido; o de Mendonça saiu do calendário; e a dúvida sobre reunir os dois casos passou a impedir o avanço de ambos. Fachin resistiu à manobra, mas não conseguiu neutralizar seus efeitos. Na terça-feira, dissera que a história olharia para aquele momento. No dia seguinte, restava uma conclusão mais simples: diante da maior crise de sua gestão, os ministros conseguiram discutir quase tudo — menos o que foram convocados a decidir. 


Com reportagem de Matheus Santos




As bestas do apocalipse, por Augusto Nunes

 Cavalgaduras de toga desmoralizam o Supremo



Sessão plenária extraordinária do STF (15/09/2026) | Foto: Montagem Revista Oeste/Rosinei Coutinho/STF

T em sido fabuloso o inverno brasileiro de 2026. Faz muito frio onde só havia gente ensolarada. Revezam-se em 24 horas as quatro estações do ano. O presidente do Senado e o presidente da República flertam, namoram ou se desentendem não por motivos políticos, mas para ganhar eleição ou dinheiro. O milagreiro agora de chapéu celebrou outra semeadura imaginária e prometeu que será ainda mais farta a colheita sucessivamente adiada desde 2024. Em agosto, garantiu que a picanha para todos estava prestes a descer do palanque em que se esconde desde a campanha de 2022. Até agora só deu as caras em churrascos no Palácio da Alvorada. 

Ocorrências espantosas animaram o inverno que vai terminando. Lula vive ensinando que quando um não quer dois não brigam, e que não há guerra que resista a uma conversa regada a cerveja no botequim da esquina. Mas agora anda provocando Donald Trump com desafios que o gringo valentão teme aceitar. Como se viu no desfile de 7 de Setembro, tropas armadas com carabinas, trabucos e facões deixam claro qual é a superpotência militar do subcontinente. É bom não mexer com o Brasil. Se mexerem com o País do Carnaval, aí estão a China, a Rússia, o MST e a agricultura familiar para enquadrar a extrema direita.


Desfile da Independência, 7 de Setembro, em Brasília, DF (07/09/2026) | Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil 

Aparentemente insensatos, movimentos na seita lulista apenas reafirmam que, num inverno eleitoral, convém cumprir disciplinadamente as ordens do chefe que tudo sabe e tudo vê. Para que Fernando Haddad reprise em São Paulo o naufrágio de 2022, por exemplo, Lula ordenou à acriana Marina Silva e à a sul-matogrossense Simone Tebet que disputassem vagas no Senado discursando com sotaque de Piracicaba. Ao vice-presidente Geraldo Alckmin coube tornarse o principal cabo eleitoral de José Dirceu. Janja parece ter guardado para as últimas horas da caça ao voto o trunfo que ensaiou ao longo do inverno: recitar com aquela voz de sessentona tatibitate os dois xingamentos em inglês que conseguiu decorar. Oitentão, 

Lula jura manter o tesão dos 30. O que anda piorando neste inverno é a memória do Biden brasileiro. Ele jurou, por exemplo, que nem sabia quem era a facilitadora de negociatas Roberta Luchsinger, comparsa do filho Lulinha. “Nunca vi essa mulher”, garantiu na sabatina.na Globo. É possível que o buquê de fotos em que o presidente e a vigarista aparecem juntos seja parte de algum projeto secreto que logo mostrará ao mundo a sofisticação da inteligência artificial à brasileira. Como emergiram mais bandalheiras promovidas em parceria por Roberta, pelo filho Lulinha e por Marcola do Lula, seu chefe de gabinete, Lula pediu de volta a sala ao lado da sua. Mas faz de conta que mal conheceu o concorrente do Marcola do PCC.


O presidente Lula aparece em diversas selfies ao lado de Roberta Luchsinger em diferentes ocasiões | Fotos: Reprodução/X

Com o estranhíssimo inverno entrando em seu último mês, muita gente imaginou que já vira coisas demais. Esses ignoram que a Era da Corrupção, inaugurada há quase 25 anos pela chegada da seita petista ao poder federal, transformou o Brasil numa espécie de clube dos cafajestes reservado a figurões que se julgam condenados à perpétua impunidade. Nunca faltaram representantes do Legislativo e do Executivo. A entrada de ministros do Supremo no bando dos que topam tudo por dinheiro transformou em questão de tempo o 15 de setembro de 2026. 

Daqui a muitas décadas, os brasileiros que tinham neste fim de inverno mais de 15 anos de idade e pelo menos 10 neurônios na cabeça ps://revistaoeste.com/revista/edicao-340/as-bestas-do-apocalipse/ 4/9 continuarão lembrando com desoladora nitidez o que aconteceu no que deveria ter sido uma sessão extraordinária do STF convocada para tratar dos crimes cometidos pelo ministro Alexandre de Moraes. Que Vargas Llosa, que nada. 

Que García Márquez, que nada. Perto do que se viu e ouviu, os assombros eternizados pelos gênios do realismo mágico são coisa de principiante pouco imaginoso. No tribunal que existiu até o começo do século, nem haveria caso a julgar: juízes corruptos só agiam nos campos de futebol. O plenário do Supremo era reservado a homens honrados. Se as trapaças da sorte ali infiltrassem um alexandre de moraes ou um dias toffoli, o corpo estranho seria expulso em meia hora pela maioria esmagadora de juristas decentes. Nem precisariam meter-se em patifarias: bastaria abrirem a boca ou redigirem um parágrafo.

No documento em que tentou livrar-se das provas e evidências empilhadas pela Polícia Federal, por exemplo, Moraes cometeu mais de 50 atentados à língua portuguesa (veja reportagem “Moraes espanca o idioma” , de Eliziário Goulart Rocha). Não pode mais posar de juiz por ter usado seus poderes ou para tentar manter em atividade a usina de dinheiro sujo administrada por Daniel Vorcaro. Como sofre de um profundo apreço por castigos adicionais, merece ser matriculado num curso de alfabetização de adultos e comparecer às aulas carregando a guilhotina que amputa todos os erres finais de verbos no infinitivo. Ele ainda acha que tem muita gente “pra prendê” e muita multa “pra aplicá”.


Sessão plenária extraordinária do STF (15/09/2026) | Foto: Rosinei Coutinho/STF


Toffoli considerou-se impedido de participar do julgamento. Moraes não viu problema algum em absolver-se, sustentar que o criminoso é o ministro André Mendonça, que ousou divulgar o que a Polícia Federal descobriu ao devassar um celular pertencente a Vorcaro. Moraes, que se considera perseguido por inimigos da democracia, tenta acreditar que não é um cadáver insepulto. Fingem acreditar na fantasia outras três cavalgaduras que, na terça-feira, tentaram matar de vergonha o Supremo e o Brasil decente. 

O líder do grupo é o decano Gilmar Mendes. A caminho da aposentadoria, ele exibe o humor de quem vive perdendo a namorada. Também por isso, forma uma dupla afinada com o cinismo debochado do comunista Flávio Dino. 

Devoto de Mao Tsé-tung até a morte do ditador chinês, Dino aprecia assaltos noturnos a geladeiras e passeios em carros blindados emprestados pelo Judiciário maranhense. Completa o quarteto Cristiano Zanin. O que há na cabeça do novato? Pelo visto, apenas fios de cabelo que, enquanto agonizam, são penteados com muito capricho pelo exadvogado de Lula. Os destroços produzidos pela passagem das quatro cavalgaduras do apocalipse transformaram o plenário do STF num terreno baldio que empilha trechos dos Dez Mandamentos, alguns dos sete pecados capitais, páginas rasuradas dos códigos legais, cláusulas de contratos suspeitíssimos e, claro, exemplares destroçados da Constituição. 

Foram encontradas também duas anotações manuscritas. “Lula é Moraes, Moraes é Lula”, dizia uma delas. A outra já pertence ao patrimônio popular: “Gilmar: cuide de não encher meu saco”. Talvez coubesse aí um “Vossa Excelência”. Mas só se deve tratar com polidez quem merece respeito. Não é o caso de chicaneiros que fizeram do STF uma instituição agonizante.


Augusto Nunes - Revista Oeste  

O retrato do Brasil, por Ana Paula Henkel

Uma Corte cada vez mais distante de suas funções e do País




Registro dos ministros Flávio Dino, André Mendonça e Alexandre de Moraes durante sessão no Supremo (3/9/2026) | Foto: Reprodução/Instagram 


A lgumas fotografias registram um instante e outras, involuntariamente, registram uma época. A fotografia que ilustra este artigo — e que me inspirou a escrevê-lo — foi feita no plenário do Supremo Tribunal Federal em 3 de setembro de 2026, mas acabou se tornando muito maior do que o instante que registrou. Hoje, parece guardar bem mais do que uma simples cena do plenário. No centro, André Mendonça. Sério. De um lado, Flávio Dino. Do outro, Alexandre de Moraes. Os dois às gargalhadas.

Doze dias depois, a composição que o acaso produziu ganhou uma força impressionante diante da cena institucional a que o Brasil assistiria menos de duas semanas depois. Aqueles três homens voltariam a ocupar o centro dos acontecimentos, e a fotografia acabaria transformada em símbolo de uma Corte cada vez mais distante de suas funções e do país sobre o qual exerce tamanho poder. 

O retrato parece condensar algo que ultrapassa aqueles poucos segundos. Para uma parcela do país que acompanha com crescente desconfiança a atuação do Supremo, ele se tornou a imagem de uma Corte que conserva um poder extraordinário ao mesmo tempo que enfrenta uma profunda crise de credibilidade. E a sessão de 15 de setembro ofereceu razões concretas para discutir essa crise. 

A convocação era extraordinária. Pela primeira vez, o plenário do STF iniciaria formalmente a discussão sobre a abertura de uma investigação destinada a apurar a conduta de um de seus próprios ministros. O caso era Alexandre de Moraes. O material levado ao plenário vinha de relatório da Polícia Federal relacionado às mensagens encontradas no âmbito das investigações sobre Daniel Vorcaro e o Banco Master.


Sessão plenária extraordinária do STF (15/9/2026) | Foto: Gustavo Moreno/STF


Era uma oportunidade rara para o Supremo enfrentar publicamente uma pergunta que atinge o fundamento de qualquer instituição republicana: quem exerce tamanho poder também está sujeito ao escrutínio quando surgem elementos que justificam esclarecimentos? Em qualquer instituição preocupada com sua própria credibilidade, dúvidas envolvendo um de seus integrantes deveriam aumentar o compromisso com a transparência.

O que se viu durante mais de sete horas foi muito diferente de uma discussão concentrada nessa pergunta. A sessão convocada para analisar se deveria ser aberta uma investigação sobre Moraes consumiu sete horas sem chegar a essa questão. André Mendonça, que trouxe o material ao escrutínio do plenário, acabou submetido a uma sucessão de acusações públicas de seus próprios colegas. O mérito permaneceu sem análise, como registrou o próprio Supremo ao final da sessão. 

Esse deslocamento diz mais sobre a crise do STF do que uma longa reconstrução das discussões daquele dia. A pergunta sobre Moraes perdeu espaço, e Mendonça acabou colocado no centro das acusações. Transparência, naquele plenário, pareceu transformar-se em provocação. 

Há tanto para ser dito sobre esse fatídico dia, uma mancha nas páginas do Supremo e do país. Mas é difícil observar a maneira como Gilmar Mendes se dirige a André Mendonça e reduzir o conflito a uma simples divergência jurídica. Existe ali uma distância muito mais profunda. Gilmar parece não reconhecer Mendonça como um intelectual. Trata-o com um desprezo que se manifesta no tom, nas palavras e na maneira como procura estabelecer diante dos demais ministros uma hierarquia que ultrapassa a condição formal de decano. 



Tom de Gilmar Mendes contra André Mendonça no STF expõe desprezo e conflito que vai além da divergência jurídica (15/9/2026) | Foto: Rosinei Coutinho/STF


O curioso é que essa pretensa superioridade parte de alguém que está longe de representar a figura do grande intelectual que parece enxergar em si mesmo. Há uma dose desconcertante de arrogância — e de hipocrisia — em erguer para si próprio um pedestal de erudição para, do alto dele, decidir quem merece ou não ser reconhecido como seu igual. Há também um choque de visões de mundo. Mendonça é pastor presbiteriano. Sua fé está publicamente integrada à maneira como compreende a própria vida. Sua formação, suas referências e o sistema de valores que carrega destoam profundamente de uma cultura jurídica brasileira na qual o poder, muitas vezes, aprendeu a enxergar a si próprio como fonte suficiente de autoridade. Esse contraste ajuda a explicar a sessão do dia 15. 

Mendonça aparece como um corpo estranho diante de uma facção que se acostumou a exercer enorme poder e a reagir com hostilidade quando esse poder é questionado. Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Flávio Dino desempenharam papéis distintos, numa sequência que pareceu tão bem articulada quanto ardilosa: cada um agiu à sua maneira, em momentos diferentes, mas todos empurraram a sessão na mesma direção. Ao final, a pressão havia sido deslocada para Mendonça, o mérito permanecia intocado e a apuração que justificara a convocação extraordinária não avançara. Três movimentos diferentes, um mesmo resultado. 

Mendonça ficou no centro. Exatamente como na fotografia. O episódio revela ainda uma característica preocupante da transformação do Supremo nos últimos anos. Uma instituição que deveria retirar sua autoridade da Constituição, da sobriedade e da confiança conquistada pela imparcialidade passou a ocupar diariamente o centro da vida política brasileira. Seus ministros se tornaram personagens permanentes do debate público. Suas declarações produzem crises políticas. 

Seus conflitos pessoais são transmitidos ao vivo. Suas decisões alcançam cada vez mais áreas da vida nacional. Quanto mais esse poder cresce, mais indispensável se torna a existência de limites. A desmoralização de uma instituição começa muito antes de sua autoridade formal desaparecer. Começa quando parte significativa da população passa a enxergar suas decisões com desconfiança, seus integrantes como atores políticos e suas regras como instrumentos aplicados com diferentes intensidades conforme o personagem envolvido. Nenhum acórdão consegue obrigar um povo a confiar. 

É justamente por isso que a fotografia de 3 de setembro incomoda e fale fala de maneira tão visceral com o país, retratando a realidade de uma Corte cada vez mais confortável com o poder que acumulou e cada vez menos constrangida pela desconfiança que provoca. Moraes e Dino estão às gargalhadas; Mendonça permanece sério entre eles. A câmera congelou um instante que acabou se tornando metáfora do abismo entre o Tribunal e milhões de brasileiros. As gargalhadas ganharam contornos de deboche, símbolo de um poder confortável consigo mesmo e aparentemente indiferente à própria crise de credibilidade. E, no centro da fotografia, permanece um homem sério.
 

Flávio Dino, André Mendonça e Alexandre de Moraes durante sessão no Supremo (3/9/2026) | Foto: Reprodução/Instagram


Mendonça construiu parte importante de sua formação acadêmica em Salamanca, na Espanha. E é justamente Salamanca que oferece uma imagem histórica extraordinária para compreender a discussão sobre poder e autoridade que o Supremo colocou diante do país. Em 12 de outubro de 1936, poucos meses depois do início da Guerra Civil Espanhola, Miguel de Unamuno, então reitor da Universidade de Salamanca, protagonizou um episódio que atravessaria o século. 

A Espanha mergulhava numa guerra que expunha toda a brutalidade das paixões políticas transformadas em violência. Durante uma cerimônia na universidade, discursos exaltados provocaram a reação de Unamuno. Diante de militares, autoridades e apoiadores do levante, o filósofo se levantou e pronunciou palavras que sobreviveriam à guerra e aos homens que naquele momento pareciam controlar o destino da Espanha. Daquele episódio nasceu uma das frases mais célebres associadas a Unamuno, uma advertência que atravessaria gerações:

“Vencer não é convencer.” 

A diferença parece pequena, mas é imensa. Um tribunal vence pela autoridade que a Constituição e as leis lhe conferem. Suas decisões produzem efeitos, mesmo quando desagradáveis, impopulares ou contestadas. Nenhuma Suprema Corte poderia cumprir sua função se sua autoridade dependesse de aplausos. Convencer pertence a outra esfera. Exige que a sociedade reconheça nas instituições critérios que ultrapassam a força de uma decisão: coerência, imparcialidade, previsibilidade, autocontenção e transparência. 

Exige, acima de tudo, a confiança de que aqueles que julgam também aceitam ser submetidos às regras que aplicam aos demais. É nesse ponto que a sessão de 15 de setembro se torna maior do que o caso Master. Uma Corte pode sobreviver a divergências. Aliás, deve conviver com elas. O problema surge quando a própria instituição oferece ao público motivos para perguntar se os mesmos padrões de escrutínio valem dentro e fora de suas paredes. Por isso a transparência importava tanto na terça-feira. 

Ao final de mais de sete horas, a pergunta que justificara a sessão extraordinária continuava sem resposta. O país não assistiu à conclusão sobre a abertura da investigação. Assistiu ao conflito entre ministros, às acusações contra Mendonça e ao covarde pedido de vista de Dino que interrompeu o julgamento.

Voltemos, então, à fotografia. Seria injusto exigir tanto de uma imagem. Ela não conhece o caso Master, não leu relatórios da Polícia Federal, não assistiu à sessão de 15 de setembro. Sequer pertence àquele dia. Uma fotografia captura apenas um breve instante. Algumas frações de segundo, porém, sobrevivem ao instante que as produziu.

No centro está André Mendonça, com a mesma expressão séria. Aos lados, Alexandre de Moraes e Flávio Dino às gargalhadas. Depois do vexame protagonizado pelo STF na última terça-feira, a imagem ganhou ainda mais força e deixou uma pergunta sobre o exercício do poder no Brasil: o que resta da autoridade de uma instituição que conserva a força para impor suas decisões, mas perde progressivamente a capacidade de inspirar confiança? 

O Supremo tem diante de si um problema que nenhuma maioria de seis votos e nenhum pedido de vista conseguem resolver: confiança pública não nasce de decisões judiciais. A autoridade moral tampouco pode ser imposta pela força de uma toga. A advertência de Unamuno permanece assustadoramente atual. Vencer não é convencer.


Sessão plenária extraordinária do STF (15/9/2026) | Foto: Gustavo Moreno/ST


Ana Paula Henkel - Revista Oeste