domingo, 6 de setembro de 2026

Marco Aurélio diz que André Mendonça agiu corretamente no caso Moraes/Vorcaro

Ministro aposentado afirma que Mendonça seguiu o procedimento adequado e critica adoção de sigilo


Marco Aurélio Mello, ministro aposentado do STF. (Foto: Diário do Poder).

O ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio Mello afirmou neste sábado (5) que houve uma “inversão de valores” na condução dos procedimentos que envolvem o ministro Alexandre de Moraes e o ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro.

Na avaliação de Marco Aurélio, o ministro André Mendonça agiu corretamente ao receber um relatório da Polícia Federal e encaminhá-lo à Procuradoria-Geral da República (PGR).

“Eu penso que está havendo uma inversão de valores. O ministro André Mendonça se defrontou com um relatório da PF e procedeu como deveria, encaminhando à PGR”, declarou em entrevista à CNN.

O ex-ministro também criticou a adoção de sigilo nos procedimentos e defendeu que as investigações sejam conduzidas com publicidade e transparência. Para ele, a regra deve ser o acesso às informações, especialmente quando estão em discussão atos relacionados à administração pública.

“A regra é transparência, publicidade, para que a gente saiba o que está acontecendo na administração pública. O sigilo não se coaduna com os ares democráticos”, afirmou.

Mael Belfort Diário do Poder

Líder dos delegados da PF defende identificação das conversas entre Vorcaro e Alexandre de Moraes

Edvandir Paiva também informa que relatório Usado por Moraes contra André Mendonça não pod circular fora da PF



Edvandir Paiva, presidente da Associacao Nacional dos Delegados da Polícia Federal - Foto: Jefferson Rudy/Senado.


O presidente da Associação Nacional dos Delegados da Polícia Federal (ADPF), Edvandir Paiva, afirmou neste sábado (5) que o relatório de inteligência da PF usado pelo ministro Alexandre de Moraes no inquérito das Fake News é “totalmente irregular” e nunca deveria ter saído da corporação. ele também defendeu os policiais que cumpriram a ordem judicial de Mendonça para identificar as conversas de Moraes, afirmando que não houve irregularidade na conduta da equipe.

Segundo Paiva, o documento reúne impressões internas e análises subjetivas. Por isso, não poderia circular fora da Polícia Federal nem ser juntado a um processo criminal. A posição de Paiva foi noticiada pelo jornalista Aguirre Talento, do Estadão.

“O conhecimento de que ele existe por pessoas de fora da polícia e a utilização dele em um processo criminal é algo totalmente irregular”, disse.

O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, entregou o material a Moraes após ordem do ministro. O próprio relatório indica que não tem valor probatório e não serve como elemento de acusação. Mesmo assim, Moraes o usou para acusar o colega André Mendonça de abuso de autoridade, depois que Mendonça pediu à PF um relatório com conversas entre Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro.

A divulgação gerou “estranheza muito grande” entre delegados. Muitos chegaram a questionar se o texto realmente tinha sido produzido na PF, porque o formato e a ausência de autor não são habituais em relatórios de inteligência. Paiva destacou que a doutrina de inteligência proíbe a inclusão desse tipo de documento em inquéritos e que situações internas como essa não deveriam ser conhecidas fora da corporação.

Ele também alertou que a exposição do relatório pode ter comprometido investigações em andamento, ao revelar alvos que ainda não sabiam que estavam sendo investigados.

Diário do Poder

sábado, 5 de setembro de 2026

Alexandre de Moraes afoga o STF na imundície

 Ministro usou documento apócrifo, sem valor probatório, para incluir André Mendonça no Inquérito das Fake News


Moraes participa de uma coletiva de imprensa depois do fechamento das urnas na eleição presidencial do Brasil - Foto: Adriano Machado/Reuters

Alexandre de Moraes jogou o STF na lama ao usar documento apócrifo, sem valor probatório, provavelmente escrito com ajuda de IA, como se fosse relatório oficial da Inteligência da PF para incluir André Mendonça no Inquérito das Fake News, do qual ele já tirado por Edson Fachin. As acusações são de usurpação do trabalho policial, condução irregular de tratativas de colaborações premiadas e direcionamento de ouça este conteúdo readme 0:00 1.0x 05/09/2026, 18:27 Mario Sabino: 'Moraes afoga o STF na imundície' https://revistaoeste.com/politica/moraes-afoga-o-stf-na-imundicie/ 2/11 investigações para atingir o próprio Moraes e o amigão dele no Senado, o notório Davi Alcolumbre, por motivos pessoais e políticos.

Alexandre de Moraes jogou o STF na lama ao usar documento apócrifo, sem valor probatório, provavelmente escrito com ajuda de IA, como se fosse relatório oficial da Inteligência da PF para incluir André Mendonça no Inquérito das Fake News, do qual ele já tirado por Edson Fachin. As acusações são de usurpação do trabalho policial, condução irregular de tratativas de colaborações premiadas e direcionamento de  investigações para atingir o próprio Moraes e o amigão dele no Senado, o notório Davi Alcolumbre, por motivos pessoais e políticos.

Para completar a ignomínia, outros ministros do STF foram colocados no meio da alegada trama perpetrada por André Mendonça, como se o desafeto de Alexandre de Moraes fosse inimigo de meio tribunal.

 André Mendonça é acusado por Alexandre de Moraes de tê-lo investigado ilegalmente, sem autorização do Supremo, mas Alexandre de Moraes foi quem “investigou” André Mendonça de maneira ilegal, sem conhecimento dos seus pares. 

Perguntas que não calam: quem deu ordem para que fosse produzido o relatório? Por que é apócrito? Por que foi enviado para o ministro e não para o presidente do Supremo?


Os cupinchas de Moraes

 Como é grande o desespero do ministro por ter ficado nu com a mão no bolso diante das revelações da sua relação promíscua com Daniel Vorcaro, gente republicana ligada a ele, a Paulo Gonet e a Andrei Rodrigues, igualmente citados no caso Master, tentou antes assassinar a reputação de André Mendonça. Espalharam que o instituto do ministro, do qual ele se desligou ontem, havia recebido dinheiro de Daniel Vorcaro.

O banqueiro do Master ofereceu patrocínio, mas André Mendonça diz que a oferta foi recusada. Mesmo assim, ele mandou revirar as contas do instituto e afirma que nada foi encontrado até o momento.

Fabricou-se até mesmo a acusação de que um cupincha do banqueiro fraudador havia pagado um terno para André Mendonça, feito sob medida por um alfaiate caro de São Paulo. O ministro apresentou as notas de que o terno foi pago por ele próprio. Só faltou dizer que André Mendonça comprou sorvete Kibon com dinheiro de Daniel Vorcaro.

Acuado, restou a Alexandre de Moraes tumultuar a cena do crime, fabricando acusações processuais contra o colega para tentar anular todas as investigações conduzidas por ele no âmbito do caso Master.

 Não é coincidência a semelhança com a estratégia utilizada para exterminar a Lava Jato. 

Dessa forma, Alexandre de Moraes salvaria a própria pele e a de todos os outros que levaram bola de Daniel Vorcaro (supostamente, como preveem os bons modos jornalísticos). Até Flávio Bolsonaro seria salvo, veja só, a quem acusam André Mendonça de proteger, ao contrário do que aconteceria com Lulinha.


As mentiras do ministro

O fato incontornável e teimoso é que, pego na mentira de que não era o destinatário das mensagens cabulosas do banqueiro fraudador, Alexandre de Moraes permanece calado sobre o motivo de ter enviado textos de visualização temporária em resposta aos pedidos do banqueiro por proteção. 

Também não explica por que Viviane Barci de Moraes, a advogada que confunde “sob” com “sobre”, assinou um contrato de R$ 131 milhões com o banco Master — contrato, aliás, revisado e editado pelo maridão Alexandre de Moraes, como veio a se descobrir.

Falta esclarecer também a proposta de Daniel Vorcaro para que o escritório da mulher do ministro se tornasse sócio na propriedade de um baita jato particular. Ninguém foi informado, ainda, da razão de os filhos do casal Moraes terem sido presenteados com cartões de crédito de limite de gastos estratosférico. 

E por que o banqueiro fraudador fez uma declaração de gratidão eterna ao ministro e à sua família? O silêncio impera. Alexandre de Moraes não explica nada, porque nada disso é explicável à luz da decência e da honestidade. 

Essa é a verdade fulgurante a ponto de machucar os olhos; e não há qualquer infração regimental que possa ser atribuída a André Mendonça, fabricação de relatório apócrifo contra ele ou manobra diversionista dos seus adversários capaz de apagá-la. 

Não há outro caminho correto e honrado para o STF, a não ser o de se livrar o mais cedo possível de Alexandre de Moraes, inclusive porque ele acha que pode boiar no mar de lama enquanto afoga o tribunal na imundície.

Mário Sabino - Revista Oeste

Governo corrupto do ex-presidiário Lula arrecada R$ 3 trilhões, mas fecha 2025 com déficit de R$ 60 bilhões

Consumo, crédito, investimentos, importações e empresas foram prejudicados por 46 iniciativas tributárias



Lula participa de um evento de campanha no bairro Liberdade, na Bahia - Foto: João Aurelio/NurPhoto/Reuters


Comprar produtos em plataformas on-line, buscar crédito ou abastecer o carro ficou sujeito a novas regras tributárias desde 2023. O governo Luiz Inácio Lula da Silva aumentou alíquotas, retomou cobranças e reduziu benefícios fiscais nesses e em outros setores.

A pedido da Revista Oeste, o Instituto Livre Mercado examinou as mudanças tributárias adotadas desde o início do terceiro mandato de Lula. O levantamento encontrou 46 medidas implantadas ou anunciadas até julho de 2026. A lista reúne aumentos de alíquotas, retomada de cobranças, redução de benefícios fiscais e alterações nos impostos incidentes sobre investimentos, importações, apostas esportivas e operações financeiras.

Nem todas as propostas avançaram da mesma forma ou continuam em vigor. Juntas, contudo, essas medidas mostram a direção seguida pela equipe do ministro da Fazenda, Fernando Haddad: aumentar a receita para financiar as despesas federais e tentar cumprir as metas fiscais. 

Esse movimento começou em 2023, com 16 iniciativas. O governo retomou tributos sobre combustíveis, regulamentou a cobrança sobre apostas esportivas, alterou a tributação de fundos exclusivos e of shores e modificou as regras do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. O IPI sobre armas e munições também aumentou.




Em 2024, outras nove medidas entraram no levantamento. A mais conhecida ficou popularmente chamada de “imposto das blusinhas”, aplicado a compras internacionais de pequeno valor. Painéis solares passaram a pagar uma tarifa de importação maior, enquanto PIS e Cofins voltaram a incidir integralmente sobre diesel e biodiesel. 

A ofensiva contra os pagadores de impostos aumentou em 2025, com 18 iniciativas. O aumento do IOF atingiu diferentes operações de crédito. O governo também anunciou mudanças na tributação de aplicações que ofereciam rendimentos isentos de Imposto de Renda, como as letras de crédito e os certificados de recebíveis dos setores imobiliário e do agronegócio. A arrecadação acompanhou esse movimento. A Receita Federal recolheu quase R$ 2,5 trilhões em 2023. Em 2025, o valor se aproximou de R$ 3 trilhões e estabeleceu o maior resultado da série histórica, com crescimento real de 3,65% sobre o ano anterior.


A crise econômica sob o governo Lula 

O dinheiro adicional não encerrou o desequilíbrio das contas. O governo terminou 2025 com déficit primário próximo de R$ 62 bilhões, equivalente a 0,5% do Produto Interno Bruto. A meta fiscal foi considerada cumprida depois da exclusão de despesas autorizadas pelas regras em vigor, incluindo parte dos precatórios. Enquanto a receita batia recordes, o custeio administrativo da União alcançou quase R$ 73 bilhões, maior valor em nove anos. Desde 2023, as viagens nacionais e internacionais do governo consumiram mais de R$ 7 bilhões, conforme os dados reunidos pela reportagem


Notícia publicada na Veja (29/01/2026) | Foto: Reprodução/Veja

O levantamento também compara a política de Haddad com a conduzida por Paulo Guedes entre 2019 e 2022. No governo Bolsonaro, a estratégia priorizou reduções de impostos e desonerações para estimular a atividade econômica. A arrecadação federal passou de R$ 1,5 trilhão em 2019 para mais de R$ 2,2 trilhões em 2022, apesar da queda provocada pela pandemia. 

Sarah Peres e Edilson Salgueiro - Revista Oeste

Consórcio de Lula com ministros do STF tenta isolar Mendonça, e isso é bom para ele

Quanto mais o sistema estrebucha, mais a opinião pública o vê como juiz que não se dobra aos poderosos


Ministro André Mendonça (STF) - (Foto: Luiz Silveira/STF).


André Mendonça logo se firmou como um dos mais admirados ministros do Supremo, por sua coragem, decência, rigor técnico e serenidade nas relatorias das fraudes bilionárias contra aposentados do INSS e clientes do Banco Master, atingindo poderosos em cheio, incluindo colegas. A turma que compartilha o poder no Brasil – Lula (PT), lulistas do STF e o presidente do Senado – tentam a isolar Mendonça, mas isso o fortalece: quanto mais o sistema estrebucha, mais a opinião pública o vê como juiz que não se dobra aos poderosos e inspira temor em cada um deles.

Inspirando confiança

A firmeza com que enfrenta o dilema de investigar o poder ou preservar o poder é o que o tornou, para os brasileiros, figura de confiança.

Reconhecimento

Agora, aonde chega, em eventos jurídicos ou nos cultos semanais de sua igreja em São Paulo, o tímido ministro André se vê ovacionado.

Tudo a seu tempo

Até mesmo antipetistas compreendem seu cuidado no caso envolvendo tráfico de influência e corrupção Lulinha, filho de Lula (PT).

Dilema do STF

Dividido entre relatoria e retaliação, o STF tem outro dilema: preservar ou hostilizar quem é sua esperança de reconquistar respeito e confiança.

Diário do Poder

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

'A solidão do homem que diz não', escreve Ana Paula Henkel

O poder parece absoluto enquanto todos obedecem. É quando alguém decide enfrentá-lo que descobrimos até onde ele estava disposto a avançar


Ministro André Mendonça - Foto: Gustavo Moreno/STF


N o início do século 17, um dos juristas mais importantes da Inglaterra descobriu algo que homens de diferentes épocas voltariam a descobrir muitas vezes: o poder aceita com relativa tranquilidade a existência da lei enquanto acredita que continuará sendo ele próprio a dizer onde a lei começa e onde termina. Sir Edward Coke havia chegado ao topo do sistema jurídico inglês. Foi procurador-geral da Coroa, ocupou algumas das posições judiciais mais importantes do país e tornou-se Chief Justice, construindo uma trajetória que faria dele uma das figuras fundamentais da tradição do common law. Coke conhecia como poucos as estruturas que sustentavam a autoridade inglesa e estava muito longe de ser um revolucionário. 

Não pretendia destruir a monarquia, substituir o rei ou abolir as instituições às quais havia dedicado a própria vida. Era justamente seu compromisso com essas instituições que acabaria colocando-o em confronto com James I. 

O rei acreditava que sua autoridade e sua própria capacidade de raciocínio lhe permitiam interferir diretamente em questões que chegavam aos tribunais. Coke sustentava um princípio muito mais incômodo: o direito possuía regras, procedimentos e uma forma própria de conhecimento que não poderia simplesmente ser substituída pela vontade do soberano. Em um dos confrontos que marcariam sua trajetória, diante de um rei enfurecido, Coke recorreu a uma antiga máxima segundo a qual o soberano não estava submetido a nenhum homem, mas estava submetido a Deus e à lei. 

A afirmação carregava uma ideia extraordinariamente poderosa para uma época em que a autoridade real ainda possuía dimensões difíceis de imaginar hoje. James I continuava sendo rei, sua autoridade permanecia imensa e Coke jamais pretendeu negar sua legitimidade. O que o jurista afirmava era a existência de uma fronteira que permanecia válida inclusive diante daquele que ocupava o ponto mais alto do poder político. Quatro séculos depois, em uma república do outro lado do Atlântico, esse problema fundamental continua surpreendentemente familiar



James I (1566-1625), pintura de John de Critz (1604) - Foto: Domínio Público


André Mendonça decidiu fazer algo que, em circunstâncias normais, deveria parecer absolutamente banal para um ministro do Supremo Tribunal Federal. Diante dos novos elementos produzidos nas investigações relacionadas ao Banco Master e das menções a integrantes das mais altas estruturas de poder da República, entre eles Alexandre de Moraes, Mendonça retirou o sigilo de parte do material e defendeu que as questões fossem examinadas pelo plenário do STF de maneira pública, transparente e presencial. 

A reação veio rapidamente. Dois dias depois, Alexandre de Moraes encaminhou ao presidente do Supremo, Edson Fachin, documentos e acusações contra o próprio Mendonça, apontando supostos indícios de abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade na condução de investigações. Fachin abriu um procedimento para esclarecer os fatos e determinou que os envolvidos apresentassem informações. 

Há um detalhe que importa. Mendonça não convocou uma praça. Não vazou seletivamente. Não montou um espetáculo. Fez o que um juiz deve fazer quando o fato atravessa o gabinete ao lado: documentar, publicizar e devolver a decisão ao órgão que a Constituição prevê. O plenário. A sessão presencial. O voto visível. A responsabilidade compartilhada. Quem teme o plenário teme o próprio tribunal. O que torna o episódio extraordinário está em outra dimensão. Mendonça está fazendo dentro da instituição aquilo que cabe ao cidadão fazer fora dela: deixar de ter medo. O poder raramente revela sua verdadeira dimensão quando todos obedecem. É quando alguém diz não que descobrimos até onde ele acredita poder chegar.


André Mendonça e Alexandre de Moraes em sessão plenária do STF (03/09/2026) - Foto: Luiz Silveira/STF 

Durante anos, o Brasil assistiu à expansão de um modelo de atuação judicial que concentrou poderes extraordinários nas mãos de poucos ministros e, particularmente, nas mãos de Alexandre de Moraes. Inquéritos longevos, decisões monocráticas, censura de perfis, ordens dirigidas a plataformas digitais, prisões ilegais, bloqueios e investigações produziram um ambiente no qual a excepcionalidade foi sendo incorporada à rotina institucional brasileira. As críticas vieram de juristas, jornalistas, parlamentares, cidadãos e até de fora do país. 

Dentro do próprio Supremo, porém, foram raros os momentos em que essa concentração de poder encontrou resistência proporcional à sua gravidade. É justamente aí que o gesto de Mendonça adquire uma dimensão que ultrapassa o caso desta semana e devolve ao debate uma pergunta elementar: o que significa ser leal a uma instituição? A lealdade ao Supremo Tribunal Federal não pode ser confundida com lealdade pessoal aos 11 homens que temporariamente ocupam suas cadeiras. 

O STF existia antes deles e continuará existindo depois deles. Sua autoridade nasce da Constituição e das funções que ela lhe atribui, e não da personalidade, das convicções ou do poder político de qualquer ministro.

Defender as instituições exige, portanto, protegê-las contra sua personalização. Quem protege homens do escrutínio não necessariamente protege a instituição; pode estar ajudando a destruí-la. André Mendonça pode estar defendendo o Supremo justamente ao contrariar parte do Supremo, ao lembrar que nenhuma instituição republicana pode depender da presunção de infalibilidade daqueles que a ocupam. 

Sir Edward Coke compreendeu esse paradoxo 400 anos atrás. Sua resistência ao rei não significava desprezo pela ordem jurídica inglesa; nascia precisamente de seu compromisso com ela. Se a vontade de um homem pudesse se confundir com a própria lei, a lei deixaria de cumprir sua função mais elementar, que é estabelecer limites também para aqueles que exercem o poder. Existe um ponto além do qual o poder não pode ultrapassar a lei.


Consciência, lei e verdade formam, assim, uma espécie de arquitetura moral sem a qual nenhuma sociedade livre consegue sobreviver por muito tempo. A civilização ocidental foi construída, em grande medida, sobre o reconhecimento desses limites. Reis, presidentes, juízes, parlamentos e governos recebem autoridade para exercer determinadas funções, mas essa autoridade jamais significou soberania absoluta sobre a consciência, a verdade ou a lei. Uma das grandes conquistas institucionais do Ocidente foi compreender que o poder legítimo continua sendo poder limitado e que a existência desses limites fortalece as instituições em vez de enfraquecê-las. 

É sob essa perspectiva que o Brasil chega a mais um 7 de Setembro. A crise que atravessamos vai muito além de Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro. O que está em discussão é a capacidade das instituições brasileiras de reconhecer limites, investigar os próprios integrantes e aceitar que autoridade sem escrutínio termina inevitavelmente corroendo a confiança que deveria sustentá-la.

Brasileiros voltarão às ruas neste 7 de Setembro, muitos deles indignados com Alexandre de Moraes, outros dispostos a demonstrar apoio a André Mendonça e tantos outros movidos pela convicção de que nenhum homem pode se tornar maior do que a instituição que representa.

Exigir transparência, cobrar limites, questionar autoridades e pedir que os mesmos princípios aplicados ao cidadão comum sejam respeitados nos pontos mais altos da República são atitudes perfeitamente compatíveis com a defesa da ordem constitucional. Em determinados momentos, tornam-se indispensáveis à sua sobrevivência.



Manifestação no Dia da Independência do Brasil, na Avenida Paulista, em São Paulo, em 7 de setembro de 2025 | Foto: Reuters/Amanda Perobelli


Existe ainda outra razão pela qual o gesto de Mendonça importa. Poderes excessivamente concentrados se alimentam da sensação de inevitabilidade que conseguem produzir. A impressão de que ninguém será capaz de enfrentá-los, de que instituições permanecerão silenciosas, de que autoridades encontrarão justificativas convenientes para não agir e de que cidadãos acabarão concluindo que sua voz já não produz consequência alguma pode ser tão eficiente quanto o próprio exercício formal do poder. 

É nesse ponto que a coragem se torna contagiosa. Basta que alguém permaneça de pé para que a aparência de unanimidade comece a desaparecer. O primeiro gesto pode parecer pequeno, institucional, técnico e até insuficiente diante da dimensão do problema.

André Mendonça não precisa destruir o Supremo para enfrentá-lo. Sua maior demonstração de lealdade ao STF pode estar justamente em lembrar aos próprios colegas que nenhum deles é o Supremo. A Corte é maior do que seus ministros e suas vontades, assim como a Constituição é maior do que aqueles encarregados temporariamente de interpretá-la. 

Quando essa distinção desaparece, a defesa das instituições começa perigosamente a se confundir com a defesa dos homens que detêm poder dentro delas. Existe algo especialmente simbólico no fato de essa discussão alcançar o país às vésperas do Dia da Independência. A liberdade política depende também de uma independência interior: a capacidade de cidadãos, juízes e homens públicos reconhecerem que existem fronteiras que o poder não pode atravessar e de aceitarem o preço de afirmá-las quando tantos outros preferem o conforto do silêncio.



Edward Coke enfrentou um rei e sustentou que até o soberano estava submetido à lei. André Mendonça se levanta praticamente sozinho diante do abismo institucional aberto no país pela concentração de poder nas mãos de Alexandre de Moraes. Homens separados por séculos, circunstâncias e desafios incomparáveis entre si, unidos apenas por uma característica essencial: em algum momento, cada um descobriu que permanecer de pé exigiria dizer não. 

O poder raramente revela sua verdadeira dimensão enquanto todos obedecem sem questionamentos. É somente diante da resistência que descobrimos até onde ele está disposto a avançar. Nenhum desses homens poderia saber, no momento em que decidiu permanecer de pé, a dimensão das consequências que seu gesto produziria. 

A coragem é contagiosa. O medo também. Durante anos, o silêncio virou doutrina. A doutrina virou normalidade. Até que alguém, de dentro, decidiu não se curvar.



O Brasil de Alexandre de Moraes e Lula, por Adalberto Piotto

 As eleições de outubro são a chance de o país se livrar dos abusos do STF e de um governo capenga pendurado na Corte


O Brasil de Alexandre de Moraes e Lula


A lexandre de Moraes é Lula. E Lula é Alexandre de Moraes. Nos bastidores barulhentos de Brasília, há quem compare a relação indicando que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) é o líder da bancada do governo na Corte. A anedota política não é um exagero, embora constitucionalmente trágica. No escândalo atual que expõe o ex-todo-poderoso “Xandão” como o advogado de fato do banqueiro Daniel Vorcaro, preso acusado de corrupção, Lula, o PT e o ministro estão todos juntos e misturados. 

O terceiro mandato de Lula só existe e resiste pelo ativismo político desmesurado do Supremo Tribunal Federal, cuja parte mais barulhenta escolheu fazer política em vez de obedecer à Constituição. E tudo começa quando a Corte anula as condenações da Justiça Federal de Curitiba, com a malfadada e estapafúrdia “tese do CEP”, a tempo de reabilitar o ex-presidente politicamente e fazer dele o seu candidato. Até a paredes da Corte gritam que Lula se reelegeu e só governa por causa disso. Moraes, que já conduzia o Inquérito 4.781, o “do Fim do Mundo”, desde 2019, e o transformou na mais violenta ferramenta de perseguição da direita, dobrou a aposta. 

Tornou-se o maior prócere aliado de Lula na Corte. Desde então, não fez questão de disfarçar que seu gabinete tinha lado.

Os acenos entre Lula e Alexandre são muitos. Alguns que deveriam causar constrangimentos se os pudores ainda estivessem na moda na era sobre população de rua, mas ao ser anunciado para discursar, o ministro ouviu a plateia do lulopetismo tratá-lo como um dos seus. Aos gritos de “Xandão” e “Sem Anistia”, ganhou o afago “de mano” da primeira-dama e sorrisos de Lula. Era indisfarçável o deslumbre de todos que se imaginavam intocáveis em seus abusos. Parecia até uma comemoração. É que no mês anterior, Alexandre havia sido agraciado por Lula com a medalha da Ordem de Rio Branco, a mais alta distinção da diplomacia brasileira.

A relação era séria, de absoluta cumplicidade. Em novembro de 2025, mais um aceno, um mimo, outro agrado. Lula concedeu a Moraes a condecoração da Ordem Nacional do Mérito Educativo, também em sua mais alta distinção. Isso deveria causar espanto, revolta e sabe-se lá mais qual sentimento nos brasileiros que prezam pela democracia de verdade. Tamanho o absurdo, também nos que se beneficiam da atual ditadura.

É que entre as homenagens de novembro de 2023 e o final de 2025, o país vivia o pesadelo de uma ditadura. Cleriston da Cunha, o Clezão, preso injustamente nos atos do dia 8 de janeiro, havia morrido na cadeia, apesar de um parecer da Procuradoria-Geral da República concordar com sua prisão domiciliar por problemas de saúde. O documento ficou parado na gaveta do ministro Alexandre de Moraes, sem despacho, por 80 dias. Neste mesmo período, Filipe Martins foi perseguido de forma implacável, e prisões arbitrárias contra qualquer um que fosse de Direita foram determinadas sem o devido processo legal, com todos os abusos típicos de um estado de exceção. 

Atos ilegais vertiam do gabinete de Moraes, como se tudo fosse permitido ao ministro. Sem limites, sem observância da Constituição, só com condecorações de Lula. Era Alexandre liderando o governo no STF, tal como suas decisões inviabilizaram o governo Bolsonaro e interferiram na eleição de 2022 a favor da reeleição de Lula.


Flávio Dino, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes - Foto: Antonio Augusto/STF

O Alexandre das conversas com Vorcaro, do contrato de R$ 131 milhões do escritório da esposa com o Banco Master, que ele próprio, o ministro, teria editado e sobre o qual fora consultado, segundo nota oficial do próprio escritório, é o mesmo que interferiu na economia a favor de Lula. Quem não se lembra do caso do IOF, uma interferência grotesca em que Moraes derrubou uma decisão do Congresso e moldou sua sentença a favor — e a pedido — do governo? Naquele momento, Palácio do Planalto e o Legislativo discordavam sobre a aplicação do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Transformado por Lula em arrecadatório via decreto presidencial, Câmara e Senado derrubaram a medida, alegando o óbvio: não se pode aumentar impostos por decreto sem redução dos gastos. Eleito por influência do STF, o governo Lula nunca teve maioria de votos nas duas casas. 

A eleição do presidente não combinava com a do Congresso. Alexandre de Moraes deu de ombros e anulou o decreto legislativo que derrubava o decreto presidencial. Democracia pra quê, não é? Como soberano, tomou uma decisão muito mais favorável ao governo federal. Os presidentes da Câmara e do Senado, pendurados em processos na Corte, não reagiram. A independência dos Poderes prevista na Constituição foi transformada em letra morta. No final, o Brasil pagou mais imposto por decisão monocrática de um ministro. 

Pressionado pelas pesquisas eleitorais que já mostram Flávio Bolsonaro empatado ou até à frente dele, Lula tenta agora desesperadamente se dissociar de Alexandre, tratado como radioativo pelos marqueteiros. Lula só pensa nele, não tem problemas em abandonar velhos aliados em momentos que possam comprometer seus objetivos de poder. Mas, desta vez, não bastasse ter o filho Lulinha, o irmão e o ex-assessor enrolados com outro escândalo, o do roubo de aposentados do INSS, afastar-se de Alexandre e do STF não será tão fácil. Não é que não cola, apenas. 

Não dá. Lula deve ao STF e, ainda mais, a Alexandre, seu companheiro de terceiro mandato. Tanto que fez questão de se regozijar no lançamento do SBT News, no ano passado, que foi à Casa Branca e interveio em favor do ministro na revogação da sanção Magnitsky aplicada a Moraes, veja só, por violação dos direitos humanos. Era para pagar dívida ou gerar ainda mais crédito dentro da relação que ofende a República. No mês passado, sem se incomodar com as câmeras, mais um gesto de intimidade foi flagrado: o convite a Moraes para um cafezinho nos bastidores. Era mais um pedido de Lula ao ministro. 

Dias depois, Alexandre de Moraes seria o anfitrião do jantar de reconciliação entre o presidente e Davi Alcolumbre. Dono do passado dos dois — no estilo “eu sei o que vocês fizeram no verão passado” —, o ministro do STF selou o acordo que fez o presidente do Senado dar andamento a pautas eleitoreiras do governo no Congresso.

Lula, Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro são a cara da República do PT que tomou de assalto o Brasil. O banqueiro foi recebido por Lula, no gabinete presidencial e fora da agenda, em 4 de dezembro de 2024, quando ouviu conselhos do presidente para não vender o seu banco ao BTG de André Esteves. Verborrágico e se achando dono do país, apontou como trunfo para Gabriel Galípolo, seu indicado ao Banco Central, que acabara de ser aprovado pelo Senado e assumiria a instituição em janeiro.

O acesso privilegiado de Vorcaro não era de graça. Além do mega contrato com a esposa de Moraes, custou milhões em consultorias com os ex-ministros Guido Mantega e Ricardo Lewandowski, além de favores ao senador Jaques Wagner — que teve um apartamento pago por Guga Lima, ex-sócio de Vorcaro, a título de adiantamento. Todos petistas e íntimos do presidente. 

Termino como comecei, porque as coisas são como estão. Lula é Alexandre. E Alexandre de Moraes é Luiz Inácio Lula da Silva. O desespero da campanha petista em tentar se afastar do escândalo que, segundo as investigações da Polícia Federal, expôs o ministro aliado do STF como o advogado de fato do banqueiro corruptor Daniel Vorcaro, não vai colar. Não dá. Cansados de tanta sujeira deste governo e de tantos abusos do STF, o Brasil ganhou a tempestade perfeita para lavar o país da imundície de corrupção e atraso que nos assola como nação.


O presidente Lula e o ministro Alexandre de Moraes em solenidade em Brasília | Foto: Wilton Junior/Estadão


Adalberto Piotto - Revista Oeste