A captura de Nicolás Maduro decapitou o regime, mas não garante a transição democrática na Venezuela
Cidadãos protestam coletivos que surgiram durante a presidência do falecido Chávez para proteger seu programa ditatorial em Caracas, Venezuela, 2014 - Foto: Ellen Curtis/Shutterstock“O Equador é um convento, a Colômbia é uma universidade e a Venezuela é um quartel.” A frase, pronunciada pelo herói da independência sulamericana, Simón Bolívar, parece plenamente válida hoje, mais de 200 anos depois. A Venezuela de 2026 é um dos países mais militarizados do mundo. Conta com cerca de 350 mil homens fardados e quase 4,5 milhões de paramilitares que o ditador Nicolás Maduro disse estar pronto para mobilizar a qualquer momento.
Um venezuelano a cada seis é membro das forças de segurança. A mesma proporção da polícia política da Alemanha Oriental, a Stasi, durante a ditadura comunista. O país tem mais de 2 mil generais e almirantes. No Brasil são cerca de 300. Nos EUA, pouco mais de 400. Essa desproporção tem uma razão. Os oficiais superiores não foram nomeados para comandar tropas, e sim para gerenciar um pedaço do Estado em nome do regime.
Em alguns casos, tocando empresas estatais. Em outros, reprimindo a oposição. Frequentemente colaborando com o tráfico internacional de drogas. A autocracia de Caracas tem, ainda, cinco milhões de membros do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), quase 17% da população, que atuam na manutenção do controle capilar do país.
O partido conta com 90% dos prefeitos, 83% dos governadores e 78% dos parlamentares da Assembleia Nacional, além de todos os juízes da Corte Suprema. O partido se tornou o Estado. A progressiva erosão da independência dos Poderes virou um obstáculo à vontade popular, que não era apenas ignorada, mas percebida como ameaça existencial para aqueles que estão no poder.
Esse é o tamanho do aparelhamento do país tomado de assalto em 1999 por Hugo Chávez e seu grupo político e que, desde então, só conheceu opressão, autoritarismo, censura, tortura, fraudes eleitorais, devastação econômica e muita violência.
Há 26 anos, a Venezuela é governada pelo mesmo partido. As últimas três eleições foram descaradamente fraudadas. Apenas dois homens se sucederam em mais de um quarto de século no Palácio Miraflores: Chávez e Maduro, que tiveram tempo de sobra para ocupar extensivamente a máquina pública com pessoas fiéis ao regime. Dos membros do governo central até o superintendente mais periférico, todos são ligados ao bolivarianismo.
A partidarização do aparato estatal foi uma das causas da degradação da Venezuela, que hoje é um Estado falido. Também é o maior obstáculo a qualquer mudança democrática, mesmo que imposta do exterior, como tentam os Estados Unidos.
Sem contar as amplas porções de território que sequer são controladas pelo governo central, estando nas mãos das guerrilhas comunistas colombianas das Farc e das ELN, que, além do tráfico de entorpecentes, dominam a mineração clandestina, o desmatamento ilegal, o contrabando, a extorsão e outras atividades ilícitas. Até grupos terroristas islâmicos, como o Hezbollah e o Hamas, operam impunemente na Venezuela. Impossível fazer tudo isso sem a anuência de Caracas.
Ditadura decapitada
A captura de Maduro em 3 de janeiro e sua transferência para uma prisão em Nova York decapitaram a ditadura, mas não acabaram com o regime. O déspota foi rapidamente substituído por sua vice, Delcy Rodríguez, que teve o respaldo de quem detém o verdadeiro poder no país: os ministros da Defesa, Vladimir Padrino López, e do Interior, Diosdado Cabello. Esse último, o homem forte de Caracas, ao qual respondem diretamente as milícias bolivarianas, é acusado por tribunais americanos de tráfico internacional de entorpecentes.
O autoritarismo continua vigente. Desde a operação americana, nenhum jornalista estrangeiro foi autorizado a entrar no território venezuelano. E já começaram as prisões de repórteres locais, cuja única “culpa” seria criticar o regime. Ou não apoiá-lo suficientemente.
Depois da operação americana, as oposições sequer ousaram ir às ruas para festejar. Mesmo porque muitos dissidentes já deixaram o país, como quase 8 milhões de venezuelanos. O vencedor das eleições de 2024, Edmundo González, está exilado na Espanha. A líder carismática da frente anti-Maduro, María Corina Machado, também não está na Venezuela. As forças políticas locais, tradicionalmente litigiosas, não souberam, não quiseram ou não conseguiram tomar a iniciativa de forçar uma transição de poder.
“A grande maioria dos venezuelanos está muito feliz com a prisão do Maduro”, explica a Oeste um professor universitário venezuelano que mora em um bairro popular de Caracas. “Mas não pode manifestar sua alegria, pois o regime colocou nas ruas as patrulhas dos ‘coletivos’, que impedem aglomerações, realizam prisões arbitrárias e checam até se nos celulares dos transeuntes há mensagens críticas ao governo. Todo mundo está com muito medo
” Os EUA não querem outra guerra infinita Para acabar com um regime gangrenado como o da Venezuela, não é suficiente retirar o chefe da quadrilha. O sistema ideológico, político e criminoso construído em torno do projeto bolivariano de Chávez, sustentado por meio de clientelismo, repressão e financiamento ilícito, foi profundamente enraizado na sociedade.
O regime nunca foi uma estrutura única, mas uma coalizão unida pelo acesso a privilégios e pelo medo de represálias. Com a saída de Maduro, a coalizão poderá se fragmentar. Mas para acabar de vez com o regime, seria necessário um ato de força muito maior. Uma invasão. Tudo o que Washington não quer, pois o eleitorado de Donald Trump rejeita a hipótese.
Os americanos estão cansados de guerras que consideram insensatas. Desde o final da Guerra Fria, os EUA entraram em uma série de conflitos nos quais não conseguiram colocar um ponto final. A invasão do Afeganistão, após os ataques terroristas do 11 de setembro, terminou com a vexaminosa retirada de Cabul em agosto de 2021. Depois de 20 anos de ocupação, 2,5 mil americanos mortos, 20 mil feridos e bilhões de dólares desperdiçados, os talibãs voltaram ao poder no instante em que o último soldado estrangeiro deixou o país.
Os EUA invadiram o Iraque em 2003 para retirar o ditador Saddam Hussein. Acabaram com o regime, dissolveram as Forças Armadas, expurgaram os membros do partido Baath da máquina pública. Depois de mais de uma década de guerra, com 4 mil americanos mortos, 33 mil feridos e outros bilhões dilapidados, o Iraque segue sendo uma autocracia.
As intervenções nas guerras civis na Líbia e na Síria também não deram fruto. As ditaduras de Muammar Kadafi e Bashar al-Assad acabaram, mas ambos os países continuam devastados por guerras civis. Trump ganhou as eleições de 2024 prometendo não iniciar nenhum conflito e acabar com os que estão em andamento, evitando a chamada “armadilha imperial”.
O excesso de compromissos bélicos absorveu recursos das grandes potências do passado além de suas capacidades, provocando seu colapso. Conceito popularizado pelo historiador da Universidade de Yale, Paul Kennedy, em seu livro de 1987, A Ascensão e Queda das Grandes Potências, e que se tornou uma obsessão entre as elites de Washington.
Por isso, na Venezuela, Trump optou por uma intervenção cirúrgica. Um sucesso estrondoso do ponto de vista tático, que reafirma o papel dos EUA como superpotência militar e evita um possível novo atoleiro para as tropas americanas. Mas é uma aposta que não garante uma mudança de rumo na Venezuela.
Ameaça concreta
A intervenção dos EUA foi provocada por uma série de razões. Mas, principalmente, pelo fato de a Venezuela estar se transformando de ameaça potencial em perigo concreto para os Estados Unidos. O país tem sido o principal fator de migração irregular, crime transnacional, corrupção e fluxos financeiros ilícitos no hemisfério, com reflexos negativos dentro dos EUA. Há cerca de 800 mil venezuelanos refugiados em solo americano.
A tirania de Maduro não só devastou a sociedade venezuelana, como também exportou instabilidade para o exterior. Há décadas, o regime de Caracas estreitou laços com rivais estratégicos dos americanos, como Irã, Rússia e, principalmente, China. Teerã montou fábricas de drones no território venezuelano com alcance de 2 mil quilômetros, ou seja, cobrindo o território da Flórida e o Caribe.
Além disso, estaria fabricando sistemas de mísseis antinavio e lanchas de ataque rápido. Um aparato com capacidade ofensiva posicionado do lado do território americano. A Rússia também se tornou uma grande fornecedora de armamentos de ponta para a Venezuela e mantém no país centenas de conselheiros militares, liderados pelo general Oleg Makarevich, que comandou grandes operações na guerra da Ucrânia.
A inteligência venezuelana está sendo treinada por oficiais russos em guerra eletrônica, vigilância doméstica, operações com drones e formação de forças especiais. Junto com especialistas chineses, criaram um sistema de retransmissores de comunicação que hoje é tido como uma rede eletromagnética que cobre toda a extensão do Caribe.
Desmantelar o regime chavista imporá custos enormes a muitos atores que se beneficiaram dele. Eles resistirão.
No caso da China, a questão se torna mais relevante em razão do perfil estratégico. Os chineses estabeleceram o controle operacional de todas as principais áreas de extração de terras raras da Venezuela, cujo subsolo é muito farto. Pequim já exporta 90% desses minerais, pouco presentes no solo americano e fundamentais para a produção de insumos tecnológicos e militares. A partir do ano passado, a China começou a usar as terras raras como forma de retaliação contra os EUA, proibindo a exportação dos minerais e colocando em séria dificuldade a indústria americana. Uma ameaça inconcebível para o Pentágono, especialmente pelo aumento das tensões entre as duas potências por causa de Taiwan.
Sem contar o suporte da inteligência de Cuba, que tomou o controle dos centros nevrálgicos do Estado venezuelano, como a gestão das fronteiras e até a segurança pessoal de Maduro. Durante a operação americana, morreram pelo menos 32 agentes secretos cubanos que atuavam como guarda pretoriana e, ao mesmo tempo, como instrumentos de controle do ditador venezuelano.
A Venezuela se tornou, portanto, o único lugar do hemisfério ocidental onde os principais inimigos dos Estados Unidos estabeleceram presença operacional simultânea. Uma convergência que transformou o país de um narcoestado problemático em uma ameaça estratégica.
Transição pacífica ou guerra civil?
Se o governo de Delcy Rodríguez quiser realmente colaborar com os americanos, como declarou, uma das primeiras medidas será cortar esses laços geopolíticos perigosos. Obviamente, nenhum desses países aceitará passivamente perder uma base logística tão importante, especialmente após os tantos investimentos realizados.
A estabilidade do governo de Delcy está em risco devido às acusações de traição. Começam a surgir boatos de negociações secretas com os americanos que envolveriam ela e seu irmão, Jorge. Algo que poderia ser utilizado pelos rivais para orquestrar um golpe interno nos moldes do que ocorreu com o ex-vice-presidente Tareck El Assaimi, poderoso ex-ministro do Petróleo e ex-presidente da PDVSA, preso em 2024 sob a acusação de corrupção, mas que, na verdade, teria iniciado uma aproximação com os americanos para liderar uma transição.
Isso tudo em um cenário de profunda deterioração econômica, hiperinflação, escassez de produtos básicos e dificuldades para garantir o fornecimento de energia elétrica. O risco de uma “noite das facas longas” é concreto. Especialmente em um contexto em que a violência — tanto política quanto institucional — tornou-se o principal modo de interação do governo com os oponentes e com a sociedade.
Em um caso como esse, os americanos serão obrigados a decidir se intervêm ou não. Mesmo que a transição seja pacífica, qualquer governo venezuelano precisará de assistência internacional significativa para construir uma arquitetura de segurança capaz de conter a violência. Transições democráticas têm maior probabilidade de perdurar se um ator externo neutro — idealmente uma força de paz multinacional comprometida com os direitos humanos — estiver pronto para conter os sabotadores. Isso também impede que o novo governo tenha de agir de forma repressiva, o que poderia deslegitimá-lo.
De todo modo, substituir Maduro e seu círculo por uma equipe comprometida com as normas democráticas não garantirá a liberdade. Sem uma desbolivarianização do aparato estatal nos mesmos moldes da desnazificação na Alemanha após a Segunda Guerra Mundial, será impossível garantir a transição. Não apenas pela questão ideológica, mas especialmente pela corrupção. O modelo econômico vigente na Venezuela é o do extrativismo cleptocrático. O regime está condicionado a roubar. Os bilhões subtraídos dos cofres públicos são fundamentais para manter a companheirada no poder. Se a ladroagem para, ninguém mais atende a ordens e o regime cai. Desmantelar o regime chavista imporá custos enormes a muitos atores que se beneficiaram dele. Eles resistirão. Não demorará muito para que voltem aos antigos hábitos.
A captura de Maduro não significa, por si só, o início do fim do
pesadelo vivido pelos venezuelanos, mas pode representar o
encerramento de uma primeira etapa da ditadura — ainda que o risco
de reversão do cenário permaneça elevado
Carlo Cauti - Revista Oeste