Da Oi ao escândalo do INSS, negócios suspeitos, lobistas e indícios de
corrupção acompanham a trajetória do filho mais velho do presidente
Fábio Luís Lula da Silva (Lulinha), filho do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva - Foto: Alex SIlva/Estadão Conteúdo
J
á era noite de 30 de julho quando o ministro André Mendonça, do
Supremo Tribunal Federal (STF), foi surpreendido pela
informação segundo a qual um novo pedido de investigação sobre
Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, havia chegado ao seu gabinete
depois de um sorteio no sistema interno do STF. O que o desconcertou
não foi tanto a necessidade de apurar mais uma falcatrua envolvendo o
filho do presidente, mas o fato de o caso não ter ido diretamente para ele.
Como relator dos processos que tratam dos desvios no Instituto Nacional
do Seguro Social (INSS), Mendonça deveria receber ações dessa natureza
automaticamente. No dia seguinte, o magistrado determinou a abertura
do inquérito, originado em provas encontradas pela Polícia Federal (PF)
durante a Sem Desconto, operação voltada a apurar a roubalheira no
INSS.
O episódio representou mais um capítulo da queda de braço entre
Mendonça e a ala da PF ligada ao diretor da corporação, Andrei
Rodrigues, aliado de Lula. O ministro assumiu as investigações após a
saída de Dias Toffoli do caso, em meio a denúncias de envolvimento com
o Banco Master. Os atritos entre Mendonça e Rodrigues começaram no
dia seguinte. Entre outros pontos, agentes próximos do diretor passaram
a retardar o cumprimento de diligências, o delegado responsável pelo
caso – ligado a Mendonça – acabou afastado sem aviso prévio e uma série
de procedimentos deixou de ser comunicada ao relator.
Andrei Augusto Passos Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, nomeado por Flávio Dino em janeiro de 2023 - Foto: Jose Cruz/Agência
Brasil
A tensão chegou ao ápice na semana passada, quando a PF enviou
diretamente à presidência do STF — exercida interinamente por
Alexandre de Moraes por causa do recesso forense e da ausência de
Edson Fachin — a solicitação mais recente sobre Lulinha. O documento
deixou brechas para que o juiz do STF submetesse o caso ao sorteio, em
vez de entregar diretamente a Mendonça. A manobra arriscada esbarrou
na própria roleta do STF, que sorteou Mendonça para relator. Em poucas
horas, viralizou nas redes sociais um vídeo no qual Lula convida Moraes
“para um café” depois de um evento no Planalto, que ocorreu horas antes
de a PF encaminhar a petição ao tribunal.
Lula chama Moraes para “tomar um cafezinho”.
Ao final de uma cerimônia no Palácio do Planalto, os microfones da transmissão
oficial captaram um momento de bastidor: o presidente Lula convidando o ministro
Alexandre de Moraes, do STF, para “tomar um café” reservado.
O encontro acontece em meio à escalada da crise diplomática com a Argentina.
(Vídeo: X | O Antagonista)
Siga o @thenews.cc para conteúdos que você não encontra em nenhum outro
lugar.
View all 411 comments
Add a comment...
Do zoológico ao mundo empresarial
Muito se fala sobre Lulinha, mas pouco se sabe sobre ele. Filho mais
velho do presidente Lula e da ex-primeira-dama Marisa Letícia, Fábio
Luís Lula da Silva tem 51 anos, formou-se em Biologia pela Universidade
Paulista e trabalhou como monitor no Zoológico de São Paulo, entre
meados de 1999 e dezembro de 2003, antes de ingressar no mundo empresarial. À época, recebia um salário de R$ 600 (algo em torno de R$
2.900, em valores atualizados).
Reservado e avesso à exposição pública,
Lulinha mantém-se próximo do pai, de quem se tornou uma espécie de
sombra nos bastidores, conforme relatos de petistas próximos dos dois.
Está presente em momentos importantes, tem acesso direto ao chefe do
Executivo e acompanha de perto seus movimentos, embora raramente
apareça diante das câmeras. Herdou também uma profunda lealdade à
mãe, morta em 2017, a quem considerava “o alicerce da família”.
A mudança de trajetória aconteceu de forma vertiginosa durante o
primeiro mandato de Lula. No primeiro ano de governo do pai, Lulinha
tornou-se sócio da recém-criada Gamecorp, empresa formalmente
registrada por ele como produtora de conteúdo para televisão, telefonia e
internet. A companhia nasceu com capital social de apenas R$ 10 mil
para produzir programas de jogos eletrônicos, animes (desenhos
japoneses) e aplicativos para celulares.
Por algum tempo, houve
parcerias curtas com canais, entre eles a MTV e a Band.
Segundo laudos da PF baseados em registros da Junta Comercial de São
Paulo, um mês depois de a empresa abrir as portas, entraram em suas
contas dois depósitos de origem não identificada que, juntos, somavam
R$ 5 milhões. Na mesma época, a Telemar (que viria a se chamar Oi)
adquiriu 35% da Gamecorp por R$ 2,5 milhões. A operadora alegou que
considerava o negócio promissor e previa retorno de R$ 16 milhões no
médio prazo.
O desempenho da empresa, contudo, não acompanhou as projeções: a
Gamecorp acumulou prejuízo de R$ 3,5 milhões em 2005. Ainda assim,
os repasses cresceram. Entre 2004 e 2014, conforme apontaram
investigações da PF e do Ministério Público Federal (MPF), a Oi transferiu
R$ 132 milhões à Gamecorp e a outras empresas do grupo ligado a
Lulinha e a Jonas Suassuna, sócio do filho do presidente. A Vivo repassou
outros R$ 40 milhões. Para os investigadores, parte dos contratos não
apresentava lógica econômica e poderia ter servido para beneficiar
parentes de Lula.
Os resultados dos serviços oferecidos ajudam a explicar as suspeitas. Um
dos contratos foi firmado entre a Oi e a Goal Discos, empresa de Jonas
Suassuna, sócio de Lulinha, que integrava o mesmo grupo econômico da
Gamecorp. A companhia fornecia aos clientes da operadora acesso ao
“Portal da Bíblia”, conteúdo narrado por Cid Moreira, e recebeu cerca de
R$ 30 milhões em 43 parcelas. Pelo acordo, a Oi deveria pagar à Goal R$
600 mil por mês, independentemente da utilização do serviço.
A PF,
contudo, identificou menos de 122 mil minutos de acesso entre janeiro
de 2012 e abril de 2013.
Os investigadores afirmaram ainda que,
considerada a tarifa de R$ 0,115 por minuto prevista em contrato, o uso
do portal justificaria repasses de aproximadamente R$ 20 mil. Para a PF,
a enorme diferença entre o desempenho do produto e o valor mínimo
garantido colocava em dúvida a lógica econômica do contrato.
Outro caso citado pela PF envolveu a Nuvem de Livros, plataforma digital
comercializada por uma empresa de Suassuna em parceria com a Vivo.
Documentos internos registraram apenas 151 assinaturas feitas
diretamente pela operadora. Em outra conferência, uma empresa
intermediária informou a existência de mais de 56 mil usuários do
serviço, mas somente 48 deles apareciam efetivamente cadastrados na
base de dados do grupo.
Para os investigadores, a discrepância reforçava
as suspeitas de que os valores pagos não correspondiam ao uso real da
plataforma.
As suspeitas alcançaram também imóveis utilizados pelo filho do
presidente.
Por meio do Grupo Gol (não relacionado à empresa aérea),
Suassuna pagava o aluguel mensal de R$ 12 mil do apartamento onde
Lulinha vivia, nos Jardins, área nobre de São Paulo. Na época, o filho de
Lula confirmou que o sócio custeava a locação, mas afirmou que havia
mobiliado o imóvel e assumido outras despesas. Posteriormente, o
empresário desembolsou pouco mais de R$ 4 milhões na compra e na
reforma de outro apartamento de luxo na capital paulista, alugado a
Lulinha por um valor que a PF considerou inferior ao preço de mercado.
As controvérsias em torno de Lulinha não se restringem aos negócios.
Embora preserve a vida pessoal longe dos holofotes, o filho mais velho de
Lula também ocupa posição central nas tensões da família presidencial.
Em 2024, vieram a público áudios de WhatsApp nos quais Luís Cláudio, o
filho caçula de Lula, chamou Janja de “oportunista” e de “puta”. Lulinha
não repetiu publicamente o insulto, mas, segundo apurou Oeste,
concordou, em conversas reservadas, com as críticas feitas pelo irmão e
o defendeu nos bastidores. Para o filho mais velho do presidente, Janja
afastou Lula de parte da família. A resistência à primeira-dama guarda
relação também com a lealdade de Lulinha à memória da mãe.
Fábio Luís da Silva, o Lulinha, e seu pai, o presidente Lula - Foto: Montagem sobre reprodução/Redes sociais/Marcelo Camargo/Agência
Brasil
Em meio a brigas familiares e ao avanço de operações da PF, como a que
investiga o roubo de aposentados e pensionistas do INSS, Lulinha
mudou-se para a Espanha em julho de 2025 – três meses depois de
estourar o escândalo do INSS –, sem previsão de retorno ao Brasil. No
país europeu, constituiu a Synapta, empresa de tecnologia sediada em
Madri. A sociedade limitada, aberta em janeiro de 2026 e inscrita no mês
seguinte no Registro Mercantil da capital espanhola, tem capital social de
3 mil euros — cerca de R$ 20 mil — e Lulinha como único sócio. A
companhia pode prestar serviços de “consultoria técnica e informática”, além de planejar e desenvolver sistemas que integrem equipamentos,
programas e tecnologias de comunicação.
A defesa de Lulinha afirmou à reportagem que a Synapta serve para
Lulinha “empreender no médio ou no longo prazo”. Além disso, segundo
o advogado Marco Aurélio Carvalho, do Grupo Prerrogativas, o filho do
presidente mantém vínculo empregatício na Espanha, mas não revelou o
nome do contratante nem as funções exercidas por ele naquele país.
Em meio à mudança para a Europa, a então Comissão Parlamentar de
Inquérito (CPMI) do INSS chegou a quebrar seus sigilos fiscal, bancário e
telemático, mas o ministro Flávio Dino derrubou o ato da CPMI. As
suspeitas sobre o filho do presidente surgiram a partir de pagamentos
atribuídos a Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do
INSS”, de depoimentos prestados por pessoas ligadas ao lobista e de um
envelope apreendido durante a Operação Sem Desconto contendo
ingressos para um show em Brasília.
No centro dessas descobertas
estava Roberta Luchsinger, lobista e amiga de Lulinha, apontada pela PF
como a intermediária entre Antunes e o filho do presidente.
Próxima do poder
Roberta circula há anos no entorno da família Lula. Próxima de Lulinha e
da mulher dele, Renata de Abreu Moreira, a empresária acumulou
registros de viagens e encontros com o casal. Quando estava em Brasília,
o filho do presidente costumava hospedar-se na casa dela no Lago Sul,
área nobre da capital federal.
A convivência era tão frequente que, em
uma ação trabalhista movida por uma ex-empregada doméstica, Lulinha
chegou a ser descrito equivocadamente como “marido” da antiga patroa.
Em outros trechos do mesmo processo, aparecia como “amigo”.
Com a volta de Lula ao Planalto, Roberta ampliou sua circulação pela
máquina pública. Entre 2023 e 2024, fez pelo menos 40 visitas a
ministérios e à Presidência da República. Apenas uma delas apareceu
nas agendas oficiais das autoridades — apesar da obrigação de dar
publicidade a esse tipo de compromisso.
Foram 17 idas ao Ministério do
Desenvolvimento Social, 15 ao Ministério da Saúde e oito ao Palácio do Planalto. Em algumas ocasiões, a lobista estava acompanhada de
representantes de empresas interessadas em negócios com o governo.
Essa proximidade com o poder despertou o interesse do Careca do INSS.
A PF identificou pagamentos de R$ 1,5 milhão feitos por uma empresa do
lobista à RL Consultoria e Intermediações, de Roberta, em cinco parcelas
de aproximadamente R$ 300 mil. Naquele período, Antunes buscava
espaço no governo para negócios que iam além do esquema de descontos
em aposentadorias e pensões.
O filho de Lula, Lulinha, e a amiga Roberta Luchsinger - Foto: Reprodução/Redes sociais
Foi nesse contexto que Roberta aproximou o Careca do INSS de Lulinha.
Em depoimento à PF, ela afirmou que o filho do presidente demonstrava
interesse por medicamentos à base de cannabis porque um familiar
utilizava esse tipo de produto. Segundo sua versão, o assunto levou
Antunes a convidá-lo para uma viagem à Europa, em novembro de 2024.
A empresária negou ter repassado a Lulinha qualquer parcela do
dinheiro recebido do lobista e sustentou que os R$ 1,5 milhão
remuneraram serviços efetivamente prestados por sua companhia.
O relatório final da CPMI do INSS deu dimensão ainda maior às suspeitas.
O relator, deputado Alfredo Gaspar (PL-AL), atribuiu a Roberta uma
“atuação estratégica” no núcleo comandado pelo Careca do INSS e
afirmou que a empresa dela movimentou quase R$ 20 milhões.
O
parlamentar recomendou seu indiciamento por organização criminosa,
lavagem de dinheiro, corrupção passiva, falsidade ideológica e tráfico de
influência. Segundo Gaspar, a atuação da lobista teria permitido que o
grupo ultrapassasse as fraudes contra aposentados e tentasse infiltrar-se
em outros ministérios. Roberta nega irregularidades.
Além do oceano
Lulinha não ocupa cargo público, não despacha no Planalto nem aparece
com frequência ao lado do pai. Ainda assim, os negócios que o cercam
demonstram uma curiosa vocação para gravitar em torno do Estado.
Ontem, eram contratos milionários com empresas de telefonia durante
os governos Lula. Hoje, são lobistas, intermediários, visitas a ministérios
e interesses privados à procura de espaço na administração federal.
Mudam os personagens, as empresas e as operações policiais. O método
permanece o mesmo.
Até agora, não há prova concreta de que o filho do presidente tenha
participado do roubo a aposentados e pensionistas. É isso que o novo
inquérito deverá esclarecer. Sua trajetória, entretanto, expõe uma
recorrência incômoda: embora viva longe dos holofotes — e agora
também do Brasil —, seu nome reaparece nos encontros entre dinheiro
privado e poder político. Lulinha atravessou o Atlântico, mas há sombras
que não se desprendem de quem as projeta.
Cristyan Costa - Revista Oeste