domingo, 24 de junho de 2018

Para concluir obras paradas no país, governo teria de desembolsar R$ 76 bilhões


O governo federal precisaria desembolsar, pelo menos, R$ 76 bilhões para concluir as milhares de obras paradas de Norte a Sul do Brasil. Mas, com a grave crise fiscal que derrubou os investimentos ao menor nível em mais de uma década, a preocupação é que parte desses empreendimentos seja de vez abandonada.
O resultado faz parte do estudo Impacto Econômico e Social das Obras Públicas no Brasil, feito pelo presidente da consultoria InterB, Cláudio Frischtak, a pedido da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic). O levantamento mapeia cerca de 7 mil obras paradas só na esfera federal. Além dos projetos tradicionais e bilionários, como as Ferrovias Norte-Sul e Oeste-Leste, o trabalho coloca luz sobre a paralisação de obras menores, como creches e escolas municipais.
Obras públicas
Obra parada de centro de educação em Parque Novo Mundo, zona norte
de São Paulo Foto: Hélvio Romero/Estadão
Embora seja alarmante, o resultado do estudo pode ser considerado conservador, afirma Frischtak. Isso porque o conjunto de informações disponíveis sobre o assunto é escasso e incompleto nas esferas estaduais e municipais. Pelas estimativas do economista, se incluídas essas obras, o volume de projetos paralisados no País sobe para R$ 144 bilhões. “A situação é muito pior do que a gente consegue mensurar.”
A paralisação de obras, que já era grave nos tempos de bonança da economia, vem se transformando num problema crônico com a incapacidade de o Estado investir, alertam especialistas. Com dificuldade para fechar a conta no azul, a medida mais fácil tem sido cortar investimentos. E isso tem ocorrido num efeito dominó que atinge todas as esferas públicas: governo federal, Estados e municípios.
“Como não dá para mexer nos gastos obrigatórios, a alternativa tem sido limitar investimentos importantes para o País voltar a crescer”, afirma o diretor de macroeconomia do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), José Ronaldo Souza Junior. O resultado é a ausência de novos projetos e a paralisação daqueles já iniciados.
Além dos transtornos para a população, a interrupção de uma obra representa grande prejuízo para o poder público, com o inevitável aumento dos custos numa retomada, afirma o presidente da Comissão de Infraestrutura da Cbic, Carlos Eduardo Lima Jorge. Isso ocorre por causa da deterioração de serviços já feitos e de reajustes do contrato pelo tempo parado.
Para o executivo, existe ainda outro efeito perverso na paralisação de obras: muitas delas perderam sentido econômico e social e não se justificam mais. “Ou seja, o dinheiro investido no início do projeto vai para o lixo”, completa o presidente do Cbic, José Carlos Martins. Na avaliação dele, mesmo aquelas que têm racionalidade econômica correm o risco de não serem concluídas. Além da falta de dinheiro, diz o executivo, as obras paradas também sofrem com problemas de desapropriação, licenciamento ambiental e má qualidade dos projetos executivos.
Empurrão. Na prática, a interrupção de obras tem impacto direto no Produto Interno Bruto (PIB), cujo desempenho está abaixo do esperado neste ano. Pelos cálculos de Frischtak, apenas a retomada dos projetos federais poderia dar um impulso de 1,8% no PIB, o que significaria R$ 115 bilhões a mais na economia nacional.
Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

"O palco digitalizado", por Gustavo Krause

A vida do poeta/compositor Orestes Barbosa “era um palco iluminado” em que a “lua salpicava de estrelas nosso chão”. A voz aveludada de Silvio Caldas, “o caboclinho querido”, imortalizou a composição. Em toda seresta e cantoria boêmia que se preze, alguém canta “Chão de Estrelas’ e, entoada a primeira frase, forma-se imediatamente um coral.
A obra musical está viva e admirada. Mas, o mundo mudou muito. Para melhor ou para pior? Não sei. Trata-se de uma discussão inconclusa. O certo é que o nosso mundo é muito diferente da época do disco de vinil. E por que esta comparação? Uma decorrência do efeito Copa do Mundo.
Por enquanto, não adianta mudar de assunto. A pauta é determinada pela FIFA, uma centenária senhora, não tão respeitável como deveria, mas que congrega 211 filiados, contra os 193 Estados-membros e 2 observadores da ONU. A cada quatro anos, a FIFA promove um campeonato que, além de mobilizar a opinião pública mundial, apresenta, dentro e fora do campo, grandes inovações.
No gramado, as equipes revelam mudanças táticas e métodos de avaliação de desempenho dos jogadores que tornam o jogo mais ciência do que arte diferente dos tempos em que fora mais arte do que ciência. O futebol ficou mais previsível e parelho, porém, o talento continua fazendo a diferença.
Fora do gramado, o “palco iluminado” passou a ser um “palco digitalizado”. Quem se opunha à introdução da tecnologia no futebol, quebrou a cara. A razão é simples: o mundo analógico faz parte da arqueologia tecnológica. Reina a tecnologia digital em todas as atividades humanas com transformações inimagináveis pelas mais ousadas obras de ficção.
No futebol, o saudável conservadorismo não resistiu ao argumento de que o uso da tecnologia, devidamente testado em 2016, a Vídeo-Arbitragem (VAR), reduziria a margem de erro dos árbitros em quatro situações capitais (gols, pênaltis, cartões vermelhos e erros de identidade). E faria justiça.
A propósito, o VAR divide as atenções com o próprio espetáculo e suas mais fulgurantes estrelas. Mantida a possibilidade de interpretação, o VAR não eliminará o debate dos profissionais e as discussões de botequim que dão vida às paixões pelo futebol.
Cada Copa deixa marcas e personagens. A marca é o palco digitalizado. Meu personagem é um meia franzino, 1,71m, anjo da guarda dos companheiros; joga simples, eficiente, solidário, quase invisível: Iniesta, campeoníssimo, puro talento e exemplo!
Gustavo Krause é ex-ministro da Fazenda do governo Itamar Franco 
Com Blog do Noblat, Veja

"Ciro e o tempo", por Miriam Leitão

Ciro Gomes chega à terceira disputa presidencial confirmando certos defeitos e algumas qualidades. Continua sendo um atirador a esmo, como mostrou nos últimos dias quando mirou em um vereador de primeira legislatura. O tempo não conteve seu temperamento. 
Ele tem se preparado para o cargo e pode mostrar bons trunfos como gestor, mas suas ideias econômicas permanecem com muitos equívocos.
No Ceará, Ciro e depois seu irmão Cid, como governadores, fizeram uma revolução na educação e, curiosamente, ele tem falado pouco disso. Hoje são inúmeras as cidades cearenses que constam entre as mais bem avaliadas nos anos iniciais e finais do ensino médio. Em Sobral, onde ele foi prefeito, há várias escolas com as melhores avaliações. Esse bom desempenho se espalhou pelo estado. No excruciante problema da educação, há um caminho que passa pelo Ceará no fundamental, como há um caminho que passa por Pernambuco no ensino médio. Sei de visitar escolas nos dois estados.
Na economia, o ex-ministro da Fazenda continua confuso e com propostas mal explicadas. A ideia que ele defende de estabelecer um teto para o gasto com a dívida é a mais perigosa das que já defendeu nesta campanha. Segundo ele, seria um mecanismo parecido com o que existe nos Estados Unidos. Lá quando bate no teto, como se viu, ou o Congresso o eleva ou o governo fecha as portas. Mas o que espanta é ele não ter entendido ainda o que é ser emissor da moeda mais desejada do mundo, e da dívida que mais atrai investidores, e ser um país que sequer tem grau de investimento. Ao mesmo tempo que diz que sabe que a dívida é a poupança dos brasileiros, Ciro aproveita as entrevistas para defender a ideia, fácil e errada, de que os juros da dívida pública são pagos apenas aos banqueiros. Foi exatamente desse erro que o PT fugiu quando quis se tornar viável em 2002. Tantos anos depois, Ciro comete o mesmo equívoco. Limite para pagamento do serviço da dívida pode ser o primeiro passo para um calote.
Na Previdência, ele não nega o déficit, mas quase. Usa números para o rombo que não fazem sentido algum. Aliás, Ciro e números são seres que estão sempre em desencontro. Ele os confunde e mistura, mas fala com uma convicção que quem não entende acredita, quem entende se cansa se for discutir um por um.
Há muito tempo ele propõe como solução fazer uma reforma na Previdência que a leve do regime de repartição para o de capitalização. Desta vez, ele já demonstra entender que há “dificuldades monstruosas” para essa transição. Mas seu modelo ainda não ficou de pé.
A sua proposta de política de preços para a Petrobras repete, sem dizer, a mesma prática do governo Dilma. Ele quer que a estatal receba apenas a seguinte quantia: “quanto custa produzir um litro de gasolina, mais a remuneração do investimento, mais a depreciação, mais o lucro em linha com os competidores estrangeiros.” Ou seja, Ciro está propondo aquilo que critica, controle de preços. Quem dirá quanto é cada parcela do preço? O governo?
São inúmeras as confusões que ele tem feito, mas o que é espantoso é o fato de o tempo não ter dado a ele nem um pouco de temperança. O ataque ao vereador Fernando Holiday — a quem chamou de “capitãozinho do mato” e do qual disse que “a pior coisa é um negro que é usado para estigmatizar” — foi absolutamente gratuito. A jornalista da Jovem Pan até alertou que ele falava aquilo “sem ninguém ter perguntado”. Como ele é ex-prefeito, ex-governador, ex-ministro da Fazenda, ex-ministro da Integração, candidato à Presidência pela terceira vez, o que o faz atirar gratuitamente em um iniciante na política e nestes termos?
Há analistas que consideram que Ciro nunca teve tantas condições, como agora, de disputar de forma competitiva a Presidência da República. Outros acham que ele não mudou e continuará sendo o seu maior adversário. Nesta pré-campanha ele tem confirmado a segunda visão. Cid Gomes, cuja principal função é apagar os incêndios do irmão mais velho, disse que o Brasil quer alguém assim “franco e sincero”. É uma versão. A verdade é que a maturidade chegou em vão para Ciro Gomes.
Com Alvaro Gribel, O Globo

"Aos jovens", por Danuza Leão

Você, que tem 20, 30 ou 40 anos, fique alerta: essa idade vai passar, e mais depressa do que imagina.Não perca tempo, por favor, sofrendo porque a mãe ou o pai sei lá o quê. 

Nada importa; quem tem 25 anos deve aproveitar a vida a cada segundo. Talvez seja inútil dizer isso, porque quem tem 25 não ouve os mais velhos, mas é muito bom ter 25. Não importa se o dinheiro está curto, se foi abandonada pelo namorado, se o futuro é incerto. 

Nessa idade, não há futuro certo ou incerto, há muito mais: há futuro.

Aproveite; se estiver triste em casa neste domingo, sem amigos, nem amores nem dinheiro, pense: sou jovem, tenho uma vida pela frente. Isso é melhor do que todas as glórias do mundo, só que ninguém diz isso aos que têm 25. A mim, ninguém nunca disse.Não dizem talvez por inveja; é mais fácil mostrar que a vida é dura, que é preciso estudar, trabalhar — o que também é verdade; mas ninguém pega uma menina ou um garoto de 25 pelos ombros, sacode, e diz “você tem 25, não se esqueça disso um só minuto, viva sua juventude. Aproveite e viva, por que ela vai passar”.E passa. Não que aos 50 não existam outras alegrias, outras compensações; mas saber que os de 25 não se dão conta do que estão vivendo é quase revoltante. Seria preciso que eles pensassem, de hora em hora, a cada minuto, “tenho 25 anos”.

Nessa idade não temos obrigação de nada, a não ser a de sermos felizes. Se o seu time perdeu o campeonato, se os juros estão altos, se foi presa naquela blitz, olhe para seu joelho, bote uma saia bem curta e vá dar uma volta no quarteirão. Coma um sanduíche bem engordativo, beba um refrigerante não diet, deite num banco de praça, de preferência debaixo de uma árvore, e olhe o céu através das folhas, mais lindo do que a mais linda renda francesa. E respire fundo, muito fundo, pensando em tudo que pode e ainda vai poder fazer durante muito tempo, isto é: qualquer coisa.

Ache graça em tudo, ria de tudo. O dinheiro está curto, o namorado sumiu, a melhor amiga fez uma falseta? E daí? O dinheiro pode pintar, namorados não vão faltar, e a amiga, esqueça. Tome um sorvete de casquinha, pegue aquele biquíni do ano passado — o único que você tem — vá para uma praia, e quando mergulhar, tenha a consciência de que não existem diamantes nem rubis que façam alguém mais feliz do que mergulhar no mar.

Quando, à noite, for para a cama com sono, pense na felicidade que é botar a cabeça no travesseiro e dormir sem precisar de comprimido para esperar o sono vir; e quando acordar e se olhar no espelho, pense em outra felicidade, que é não ter que pintar o olho, botar um blush nem fazer uma escova, pois por menos bonita que se seja, sempre se é linda aos 25 anos.

E se alguma coisa a aborrecer, tire da cabeça e pense: “sou jovem e isso ninguém pode me tirar”.E viva, e sonhe, e seja feliz, porque um dia a juventude vai passar, e será uma tristeza se você não tiver aproveitado todos os minutos dela, ou os de quando tiver 30, 40, 50, 60, 70, 80 ou 90.Para que nunca passe pela sua cabeça a pior de todas as coisas: “eu não aproveitei minha vida”.

P.S. Pedro Nava uma vez me disse que dos 18 aos 25 ninguém deveria estudar nem trabalhar; só aproveitar a juventude.


O Globo

Tecnologia para privacidade impede rastreamento de boatos no WhatsApp


Criptografia do aplicativo dificulta rastreamento - Emily Almeida / Agência O Globo


Daniel Salgado, O Globo


Enquanto o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Luiz Fux, diz que eleições influenciadas por fake news podem ser anuladas, o papel político dos ambientes virtuais ainda é uma incógnita. Entre os inúmeros sistemas usados para distribuir boatos, o WhatsApp, em particular, é uma caixa-preta, blindando a origem e o compartilhamento dos conteúdos tanto para a Justiça como para a sua própria empresa-mãe, o Facebook. 

Não à toa, pelo menos dois juízes já suspenderam o serviço por tempo limitado em retaliação ao descumprimento, pelo Facebook, de decisões judiciais.

A Justiça determinara a abertura de mensagens trocadas por usuários. O problema para cumprir a ordem era simples, segundo a própria empresa: a criptografia impede a quebra de privacidade.

Diferentemente de redes sociais como Facebook, Instagram, Twitter e até a maioria dos serviços de e-mail, o WhatsApp foi construído com base em um sistema de criptografia de ponta a ponta. Ou seja, as mensagens são “inquebráveis”.

— O WhatsApp não pode ser interceptado. É impossível para a empresa ter acesso a essas informações — explica Fábio Malini, coordenador do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

É o que disse também Jam Koum, um dos fundadores da rede, numa das raras declarações de executivos da empresa ao comentar a derrubada do serviço por decisão judicial: “Não apenas criptografamos mensagens de ponta a ponta no WhatsApp para manter as informações das pessoas a salvo e seguras, como também não mantemos o histórico do chat nos nossos servidores. Quando você manda uma mensagem criptografada de ponta a ponta, ninguém mais pode lê-la — nem mesmo nós”, disse o executivo, em 2016.

ESPAÇO PRIVADO

Para entender esse tipo de criptografia, é possível pensar no WhatsApp como uma troca de cartas. A quebra da cifra das mensagens requer uma chave que só fica disponível para os usuários. A empresa sabe que houve uma troca de informações entre aqueles dois telefones, mas não qual foi o conteúdo dessa comunicação. É como no caso dos Correios: eles têm os registros de suas entregas, mas não sabem o conteúdo das cartas que enviaram.

A diferença para as redes sociais também tem um impacto jurídico no tratamento do WhatsApp, que é, antes de tudo, um espaço privado, assim como uma conversa telefônica. É o contrário dos perfis em redes como o Facebook e o Twitter, que são vistos como públicos, ainda que virtuais.

— O WhatsApp é tratado juridicamente de modo diferente das redes sociais, com proteções diferentes, por se tratar do direito constitucional à privacidade do cidadão — explica Diogo Rais, professor de Direito Eleitoral da Mackenzie e da FGV de São Paulo.

A briga jurídica envolvendo a rede tem diminuído. Anteriormente, não era raro ver as empresas e o Judiciário em posições antagônicas. O WhatsApp disse não ter posicionamento oficial sobre as decisões jurídicas no momento. Já o TSE, comandado por Fux, diz dialogar com empresas como o Facebook e a Google, além de agências de inteligência como a Abin para evitar a proliferação de notícias falsas na internet durante as eleições de 2018. E que só pode agir quando provocado — ou seja, ao receber uma denúncia.

As fake news, cada vez mais citadas por políticos, ministros e juízes, já existiam com outro nome na legislação brasileira: os “fatos sabidamente inverídicos”. E quem as espalha não necessariamente pode ser punido.

— A punição dos fatos sabidamente inverídicos tem mais a ver com uma questão de dolo do que de veracidade. Depende do dano causado. Se for uma injúria ou calúnia eleitoral, há apenas remoção do conteúdo — explica Diogo Rais.

Ainda que não seja o maior local de compartilhamento de fake news e boatos, o WhatsApp se diferencia das demais redes sociais pela natureza de suas conversas. Por se tratar de um espaço de conversas informais, localizadas e privadas, ele potencializa a proliferação de mensagens pautadas por sentimentos de emoção.

— Não há nenhum estudo que comprove que o WhatsApp é o principal vetor de notícias falsas. Mas os casos em que a emoção supera a razão, que geram ansiedade pelo futuro, acabam mais intensos nele. A história falsa ou distorcida é movida pelo envolvimento emocional, com frequência, com a melhor das intenções — explica Fábio Malini.

PRODUÇÃO DE BOATOS

Ainda assim, é preciso diferenciar a natureza do compartilhamento dos boatos políticos. Se boa parte deles advém desses contatos espontâneos entre as pessoas, mobilizadas em função de seus sentimentos, há também uma parcela significativa que tem origem em práticas eleitorais e massivas.

— É bom dividir os boatos em dois tipos: uma coisa é o que chega no grupo da família, que não acho que deva ser uma preocupação da Justiça Eleitoral. O problema está na produção industrial de notícias falsas — explica Fernando Neisser, coordenador adjunto da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político.

Segundo Neisser, a concentração dessa prática se dá nos “chipeiros”, máquinas — usadas legalmente na publicidade — em que milhares de chips de celular podem ser inseridos e que fazem disparo automático de mensagens de SMS e de WhatsApp. Com uma base de dados, essas máquinas podem enviar milhões de mensagens em poucas horas.

O fator “local” do WhatsApp também serve às campanhas políticas. Organizados em grupos para mobilizar diretórios e lideranças, os partidos já desenvolveram redes regionais que permitem o compartilhamento intenso de conteúdo de campanha a partir desses contatos.

CINCO FAKE NEWS SOBRE POLÍTICA QUE CORRERAM NO WHATSAPP EM 2018

Eleições em Tocantins
Um dos boatos mais recentes a percorrer o WhatsApp envolvendo as eleições aconteceu durante o pleito suplementar para a escolha de governador do Tocantins, que terá seu segundo turno hoje. Um áudio corria trazendo a informação falsa de que, caso houvesse 50% de abstenção no primeiro turno, um novo pleito seria convocado, contando obrigatoriamente com candidatos diferentes. A mentira, que já apareceu outras vezes em ciclos eleitorais, também trazia a informação de que os candidatos poderiam ficar inelegíveis por “rejeição popular”.

Intervenção Militar
A greve dos caminhoneiros, mês passado, foi prato cheio para boatarias no WhatsApp em função das características de descentralização de comando. Uma das mais graves foi a de uma possível intervenção militar, representada por um vídeo em que uma série de veículos das Forças Armadas passam por uma rua. Originalmente de 2015, ele mostrava na verdade a preparação de um desfile de 7 de setembro.

Prisão de Lula
A prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi das que mais geraram boatos. Diversas correntes apareceram no serviço e espalharam informações falsas, como a de que a ONU teria reconhecido o petista como “preso político”. Também houve notícias falsas de que o julgamento da liberdade de Lula no STF seria secreto, o que foi desmentido pelo próprio STF, e de que o filho de Lula teria sido anunciado como pré-candidato à Presidência pelo pai, diretamente do cárcere.

Assassinato de Marielle
O assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) foi marcado pelo compartilhamento de notícias falsas. Uma das mais reproduzidas era que Marielle teria sido casada com o traficante Marcinho VP e recebido ajuda de uma facção criminosa para se eleger. Ambas as informações são mentirosas.

Voto Impresso
Outro boato recorrente no WhatsApp em eleições é o do “chupa-cabra” do voto eletrônico. Um suposto método de transferência de votos de um candidato para o outro colocaria em xeque a veracidade da contagem nas urnas eletrônicas. Surgida em 2015, a história retornou após a decisão recente do STF de acabar com o voto impresso. O boato foi desmentido pelo próprio TSE, em checagem do “Estado de S.Paulo”.


MBA: carreiras no setor de tecnologia demandam atualização constante

Estudo mostra que novas 24 profissões estão começando a aparecer e outras que ainda serão criadas, como designer de impressão 3D e realidade virtual



Na PUC, turma do projeto Insurtech Innovation Program
Foto: Adriana Lorete / Adriana Lorete
Na PUC, turma do projeto Insurtech Innovation Program - Adriana Lorete / Adriana Lorete

Ana Carolina Diniz, O Globo


Curadores digitais, especialistas em investimentos e moedas digitais, como o Bitcoin, designer de impressão 3D e de realidade virtual, gestor de marketing para e-commerce, cientista de dados... A tecnologia cria novas profissões o tempo todo e as instituições escolares correm para se adaptar ao novo mundo. Os cursos de MBA e pós-graduação disponíveis começam com uma grade e vão se adaptando no decorrer do tempo.

A Universidade Veiga de Almeida (UVA) faz parte do grupo Ilumno, que é mantenedora de 18 universidades na América Latina. Esta rede reúne profissionais do mercado e educadores de diversos países para traçar um panorama das profissões que estão surgindo. O último estudo listou 24 profissões que estão começando a aparecer e outras que ainda serão criadas, como designer de impressão 3D e realidade virtual e hacker ético.

— O objetivo do estudo é embasar o trabalho dos diretores acadêmicos das instituições de ensino da rede no processo de adaptação das grades dos cursos tradicionais e também na criação de novos cursos de acordo com as tendências do mercado — explica Davino Pontual, vice-presidente de Marketing da Ilumno no Brasil.


Pontual destaca que os cursos são atualizados anualmente, já que o objetivo dos MBAs é mostrar aos alunos as tendências das grandes corporações (brasileiras e internacionais) e isso está em constante ajuste e transformação.

— Cada vez mais, as empresas e os pequenos empreendedores apostam nos modelos de negócios com projetos ágeis, em que o protótipo é lançado logo no mercado para que seja testado e aprimorado. Não há mais tempo para esperar o produto ou serviço prestado atingir a perfeição para ser lançado aos consumidores. Quem espera perde a oportunidade do ineditismo e de surpreender o mercado — afirma ele.

As companhias lançam uma primeira versão para teste e a partir daí, ajustes e aperfeiçoamentos vão sendo feitos.

— E estamos acompanhando todas essas mudanças da quarta revolução industrial que estamos vivendo e repassando para os nossos alunos através de novas disciplinas, como Design Thinking e Gamificação — afirma.

Na PUC, entre as matérias da pós-graduação do Departamento de Informática está a de Ciência de Dados. Em termos de especialização, também há o curso de Data Analytics.

— A área de Ciência de Dados busca transformar dados em informação e, com a expertise do domínio, transformar informação em conhecimento — explica o professor Hélio Lopes, do departamento de Informática.

Lopes acrescenta que as atualizações, muitas vezes, geram novas disciplinas, novas áreas de concentração e/ou novos cursos. E há uma tendência do uso da multidisciplinaridade trazendo outras áreas para conversar e gerar um conhecimento mais abrangente.

— Essa característica multidisciplinar da PUC-Rio é muito frutífera. Um exemplo é a junção do direito com a informática ou da economia com a engenharia. Em particular, o uso de dados nessas áreas não-técnicas está cada vez mais frequente, e com isso os cursos da área de Ciência de Dados estão cada vez mais sendo utilizados por outros departamentos e cursados por profissionais das mais diversas áreas, como Direito, História, Comunicação, Administração, Economia, Relações Internacionais etc.

Na Estácio, cursos na área de Ciência de Dados e Big Data Analytics, Projetos de Arquitetura e Cloud Computing e Business Intelligence fazem parte da atualização do portfólio da pós-graduação.

Oscar Javier Celis Ariza, coordenador nacional de Exatas e Engenharias, considera que, para o curso de Arquitetura e Projetos em Cloud Computing, as empresas estão atentas a um novo perfil de profissional com habilidades para desempenharem funções que abordem soluções para “nuvens”, tanto no âmbito privado como público.

— Além de buscar conhecimentos ligados a operações, os inscritos no curso de Arquitetura e Projetos em Cloud Computing têm a preocupação de desenvolver habilidades em soluções, tomada de decisões e acompanhamento de projetos. Suas expectativas estão em torno de segurança da informação, gestão de projeto, arquitetura de software e migração para nuvem — explica.

Ariza acredita que uma especialização na área de tecnologia da informação possibilita ao profissional o reconhecimento das atividades afins assim como a proposta de soluções em todos os níveis, que representarão um ganho na gestão estratégica das empresas.

— O curso assimila os debates atuais pautados nas novas demandas do mercado de trabalho, desenvolvendo no aluno competências e ferramentas necessárias para se inserir e crescer na área de TI.

IMPASSES NAS EMPRESAS

Na opinião de Davino Pontual, vice-presidente de Marketing da Ilumno no Brasil, mantenedora da UVA, o aluno que procura cursos voltados para tecnologia é naturalmente curioso, gosta de pesquisar e sobretudo, de resolver problemas. Para ele, uma pós-graduação é essencial, pois as vivências práticas e os conteúdos das aulas ajudam a resolver problemas e impasses do dia a dia de uma empresa. As leituras com discussões dirigidas estimulam o pensamento proativo e crítico de um profissional.

— O mundo antes valorizava quem detinha o conhecimento. Hoje, é preciso mais do que isso. O profissional tem que ir além do conhecimento, deve ter capacidade de atuar num ambiente em constantes transformações e profundas contradições. Por isso, é preciso aliar o conhecimento ao processo criativo, preditivo e proativo — considera ele.

Márcio Silva, aluno do MBA de Inteligência Competitiva e Business Intelligence (BI) da UVA, formou-se em sistemas de informação e atualmente trabalha como analista de sistemas. Ele buscou o MBA justamente por acreditar que a análise de dados é a tecnologia do futuro e que a especialização será essencial para a sua profissão daqui alguns anos.

— A área de tecnologia é muito dinâmica, e está constantemente mudando. Novas tecnologias são geradas a cada momento. Não é fácil acompanhar, exige muito esforço e comprometimento.




Criada no Brasil, ‘supercana’ promete mudar o campo


Nos campos de testes do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), uma empresa privada que ganha dinheiro com pesquisa, desenvolvimento e inovação, convivem lado a lado pés de cana de açúcar diferentes por dentro e por fora. Externamente, é fácil notar que as canas marcadas com fitas vermelhas não têm folhas na parte inferior. Por dentro, estão sendo devorados por brocas, enquanto as plantas saudáveis resistem à praga, graças a um gene letal à lagarta, colocado em seu interior.
Com sua chegada às fazendas desde março, a nova variedade de cana traz consigo a promessa de causar impacto semelhante ao provocado pela soja, pelo milho e pelo algodão transgênicos, há quase 20 anos. Com uma diferença: agora, a tecnologia foi toda desenvolvida no Brasil.
Cana
Resistência. Gerente de biotecnologia da CTC, em Piracicaba, Agustina Gentile
observa evolução dos pés de cana; as fitas vermelhas diferenciam os tradicionais
 dos transgênicos Foto: Gabriela Biló/Estadão
“A coitada da cana é meio órfã porque os produtores de milho, soja e algodão sempre puderam contar com o desenvolvimento das multinacionais”, afirma Gustavo Teixeira Leite, presidente do CTC. “Afinal de contas, essas culturas são produzidas em áreas dez vezes maiores do que as da cana e nos países de principal interesse dessas empresas, geralmente no hemisfério norte.”
Os transgênicos tomaram conta de quase todas as grandes lavouras do mundo por seu ganho de produtividade, redução no uso de agrotóxicos e no impacto ambiental. Fácil de entender quando se olha, por exemplo, o caso da broca, que causa perdas estimadas em R$ 5 bilhões por safra aos canavieiros.
Com o bicudo, outra frente de ataque do CTC, são perdidos outros R$ 4 bilhões. São valores significativos em um setor que tem receita anual média de R$ 100 bilhões, lucros operacionais em torno de 20% e ocupa área de 10 milhões de hectares. A expectativa dos usineiros com a cana geneticamente modificada para sobreviver à broca é aumentar a rentabilidade em 20%.
Teixeira Leite, que era presidente da Monsanto no Canadá e no Brasil quando a canola e a soja transgênicas foram lançadas, acredita que os ganhos podem ser maiores. “Os benefícios que o agricultor vê costumam ir além do que a gente antecipa”, diz ele. “O controle da broca, por exemplo, é feito por um camarada andando no meio dos canaviais, procurando furinho em pau de cana: não é um método muito científico e nem fácil de fazer em 10 milhões de hectares.” Hoje, o controle biológico tem eficiência de 30% a 50% no controle do inseto. O químico mata 70% das brocas.
O lançamento marca o início de uma série de inovações que devem ser colocadas no mercado nos próximos anos pelo CTC. Entre elas há uma cana geneticamente modificada desenvolvida especificamente para o cerrado, região para a qual jamais foi trabalhado um produto específico e que já está na Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) para ser aprovada. Também há investimentos num laboratório nos Estados Unidos, onde os pesquisadores começarão a trabalhar com a CRISPR, sigla em inglês para a última inovação na área, que permite a edição de genes.
O mais revolucionário deles, porém, começa a ser testado em campo ainda este ano: sementes de cana. No ano passado, o projeto se provou em laboratório, depois de oito anos de pesquisa. Uma semente totalmente desenvolvida pelos pesquisadores gerou um embrião, que se transformou numa planta completa. Agora, o conceito será provado na terra, onde intempéries e pragas decidirão se ele poderá continuar evoluindo ou se deve voltar à bancada de trabalho. 
Culturas propagativas, como são chamadas as que acontecem com o replantio de mudas – ou toletes – no caso, são lentas. Ao contrário das que usam sementes, levam-se anos para se plantar uma área completa, com uma variedade mais moderna e eficiente. “Os desafios ainda são muito grandes porque num projeto de pesquisa realmente inovador como esse não se sabe se os resultados virão”, diz Teixeira Leite. “Mas nunca estivemos tão perto”. Caso tudo dê certo, as primeiras sementes de cana estarão disponíveis na safra de 2021/2022. 
Mercado. Enquanto isso, outro desafio já começa a ser enfrentado: a aprovação, nos mercados que o exigem, para o comércio de açúcar proveniente de cana geneticamente modificada. Responsável por metade da produção e das exportações de açúcar de cana do mundo, o Brasil obteve quase US$ 12 bilhões com a venda do produto ao exterior, no ano passado, o equivalente a pouco mais de 5% da balança comercial.
O Canadá foi o primeiro a autorizar a exportação e deve ser seguido em breve pelos EUA. “O processamento desse tipo de açúcar só deve ganhar escala em 2023, por conta do plantio da cana ocorrer num ritmo lento pelas características da cultura”, diz Antonio de Padua Rodrigues, diretor técnico da União da Indústria de Cana de Açúcar (Unica). “Mas deverá ser um processo simples, já que não estamos exportando organismos geneticamente modificados vivos, como a soja ou o milho.” Além disso, os Estados Unidos conseguiram a aprovação de comercialização do açúcar de beterraba transgênica, no início da década de 2000. 
Cristiane Barbieri, O Estado de S. Paulo