sábado, 21 de fevereiro de 2015

Laurentino Gomes: diante da espantosa declaração de Dilma, que tal investigar a corrupção no Brasil desde D. João VI?

Com Blog Ricardo Setti - Veja



Diante da espantosa declaração de Dilma de que a atual roubalheira na Petrobras não seria bem assim se não fosse o governo FHC, o autor de “1808″ sugere: que tal, então, investigar a corrupção no Brasil desde D. João VI?

A cerimônia do beija-mão no tempo de Dom João: uma corte corrupta que vivia da troca de favores da monarquia
A cerimônia do beija-mão no tempo de Dom João: uma corte corrupta que vivia da troca de favores da monarquia

Por Laurentino Gomes (*), publicado em seu blog

A presidente Dilma Rousseff acaba de fazer uma declaração surpreendente a respeito da história da corrupção no Brasil.
Segundo ela, empreiteiras e políticos flagrados na chamada Operação Lava Jato, da Polícia Federal, não teriam roubado tanto dinheiro da Petrobrás se lá atrás, nos Anos 90, o governo Fernando Henrique Cardoso tivesse iniciado investigações para apurar desvios na estatal.
No entender da presidente, em vez de punir de forma exemplar as empresas corruptoras, o melhor agora é fazer um acordo para que elas continuem funcionando, de modo a preservar empregos e assegurar o crescimento da economia.
Em outra palavras: para quê revirar lama nova se já existe muito lodo depositado no fundo deste vasto e escuro pântano chamado Brasil?
Eu tenho uma proposta melhor: que tal investigar os casos de corrupção durante o governo do rei Dom João VI no Brasil? Lá se vão mais de duzentos anos e, até agora, ninguém foi punido.
Mãos à obra, portanto. Hora de botar a Polícia Federal, o Ministério Público, a Tribunal de Contas da União, a Advocacia Geral da União e todos os demais recursos que o país tiver disponíveis para punir os corruptos do Brasil Joanino. Evidências é que não faltam. As denúncias são tantas que renderam dois capítulos inteiros no meu livro 1808.
O regime de toma-lá-dá-cá que se estabeleceu no Brasil depois da chegada da família real de Dom João, em 1808, foi escabroso.
Na opinião do historiador Manuel de Oliveira Lima, os treze anos de permanência da corte portuguesa no Rio de Janeiro foram um dos períodos de maior corrupção na história brasileira  – com a ressalva de que Oliveira Lima morreu há quase cem anos e não teve a oportunidade avaliar o que aconteceu depois disso. “A corrupção medrava escandalosa e tanto contribuía para aumentar as despesas, como contribuía o contrabando para diminuir as rendas”, escreveu o historiador pernambucano.
A caixinha, na época, era de 17%
Uma herança da época de Dom João é a prática da “caixinha” nas concorrências e pagamentos dos serviços públicos. Oliveira Lima, citando os relatos do inglês Luccock, diz que cobrava-se uma comissão de 17% sobre todos os pagamentos ou saques no tesouro público. Era uma forma de extorsão velada: se o interessado não comparecesse com os 17%, os processos simplesmente paravam de andar.
Uma das raríssimas imagens de Francisco Bento Maria Targini é esta foto, esmaecida pelo tempo, de autoria do estúdio Carneiro & Gaspar, do Rio (Foto: Biblioteca Nacional)
Uma das raríssimas imagens de Francisco Bento Maria Targini é esta foto, esmaecida pelo tempo, de autoria do estúdio Carneiro & Gaspar, do Rio (Foto: Biblioteca Nacional)
No Rio de Janeiro, a corte portuguesa estava organizada em seis grandes setores administrativos – chamados de repartições. Os responsáveis por essas repartições passariam para a história como símbolos de maracutaia e enriquecimento ilícito.
A área de compras e os estoques da casa real eram administrados por Joaquim José de Azevedo. Bento Maria Targini comandava o erário real.
Os dois eram muito próximos de Dom João e [da rainha] Carlota Joaquina, convivendo na intimidade da família real, o que lhes dava poder e influência que iam muito além das suas atribuições normais. De seus departamentos saíam a comida, o transporte, o conforto e todos os benefícios que sustentavam os milhares de dependentes da Corte.
Seus amigos tinham tudo. Seus inimigos, nada.
No Brasil, Azevedo enriqueceu tão rapidamente e teve sua imagem de tal modo ligada à roubalheira que no retorno de Dom João VI, em 1821, foi impedido de desembarcar em Lisboa pelas cortes portuguesas.
(*) Laurentino Gomes é jornalista, palestrante e autor dos best-sellers18081822 e 1889, livros que, somados, venderam mais de 1,5 milhão de exemplares