quinta-feira, 20 de agosto de 2026

'Cabides de Emprego', por Artur Piva

 No governo Lula, o BNDES garante altos salários para os companheiros no setor privado


O presidente do Luiz Inácio Lula da Silva | Foto: Ricardo Moraes/Reuters

E x-ministro de Lula e de Dilma Rousseff, Paulo Bernardo não conseguiu empregos em estatais, órgãos públicos ou autarquias federais depois do retorno do PT ao poder. Em vez disso, ficou com uma vaga no conselho da JBS, onde permanece desde 2023. A cadeira é garantida pelo BNDES, dono de parte expressiva das ações da empresa dos irmãos Batista. O banco do governo é o segundo maior sócio do grupo, posição que é fonte de influência no negócio e de rendimentos milionários para os indicados a ocupá-la. Em 2025, por exemplo, Paulo Bernardo ganhou US$ 388 mil pela função. São R$ 2,2 milhões, de acordo com a cotação média daquele ano. 

A cifra equivale a um salário de R$ 180 mil por mês. Em tese, quem ocupa este cargo participa das reuniões de alta cúpula para influenciar os rumos da companhia. Daí a tendência de os maiores cotistas terem assentos à mesa. Ao longo de 2025, os conselheiros da JBS se reuniram pouco mais de 20 vezes. A presença de Paulo Bernardo foi registrada nas atas de apenas sete delas. São R$ 314 mil por reunião. Kátia Abreu, ex-senadora e ministra durante o governo Dilma, também conseguiu a função graças à proximidade com o PT e recebe a mesma quantia de seu par. O caso da dupla não é isolado, embora os rendimentos deles sejam os maiores.


Paulo Bernardo, ex-ministro do Planejamento do governo Lula e das Comunicações do governo Dilma | Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil


Conhecido por emprestar dinheiro (dos pagadores de impostos), o BNDES também compra ações de empresas que pretende alavancar. As participações garantem o poder de escolher membros para o conselho de administração, cargos acompanhados de gordos salários. Parte das companhias tem capital aberto na bolsa, como a JBS. Tais empresas precisam manter parte de seus documentos públicos. Muitos desses registros mostram a distribuição de cargos a aliados políticos sem notório conhecimento sobre o negócio da companhia em questão. Algumas vagas ficam com quem está empregado como ministro, outras estão com nomes menos famosos ou até quase esquecidos.


https://revistaoeste.com/revista/edicao-335/cabides-de-emprego-oficiais/?logged

Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores e da Defesa nas gestões petistas anteriores, tornou-se assessor especial da Presidência da República com a volta do partido ao Palácio do Planalto em 2023. Ao salário mensal de R$ 32 mil já se soma a aposentadoria de R$ 36 mil. Em outubro do mesmo ano, entrou para a lista dos indicados pelo BNDES para a cúpula da Naturgy Brasil, distribuidora de gás natural no Estado do Rio de Janeiro. O posto deve render quase R$ 22 mil por mês ao longo de 2026, R$ 260 mil até o fim do ano.


Celso Amorim, ex-ministro das Relações Exteriores e da Defesa | Foto: Wilson Dias /Agência Brasil

Ao todo, o banco controla três cadeiras na distribuidora de gás. As outras estão ocupadas por Mathias Jourdan de Alencastro, cientista político que fez parte do primeiro governo Lula, e Sandra Márcia Chagas Brandão, assessora especial do Ministério do Trabalho. Desde o retorno do PT a Brasília, também passaram por esses cargos aliados como o ministro da Defesa, José Múcio (conselheiro de outubro de 2023 a abril de 2025), e o ex-ministro dos Direitos Humanos e da Cidadania Silvio Almeida (conselheiro de outubro de 2023 até setembro de 2024). Almeida saiu do governo pela porta dos fundos em setembro de 2024, quando foi demitido da pasta em meio a acusações de assédio sexual. Anielle Franco, autora da denúncia e ex-ministra da Igualdade Racial, também teve cargo de conselheira por intermédio do BNDES, mas em outra empresa. 

Trata-se da Tupy S.A., de Joinville, Santa Catarina, do setor de metalurgia. Ela ficou na vaga de novembro de 2023 a abril de 2025. Anielle estava à mesa com Carlos Luppi, ex-ministro do Trabalho. Os rendimentos para cada um foram de cerca de R$ 55 mil por mês, segundo os relatórios de gestão de 2024.


Anielle Franco, ex-ministra da Igualdade Racial | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

 
Além disso, o governo do PT não distribuiu vagas garantidas pelo banco de desenvolvimento apenas aos aliados de alto escalão. O coronel Geraldo Corrêa de Lyra Junior nunca foi ministro e nem dirigiu departamento ou autarquia do governo federal, mas conseguiu se tornar membro do conselho da Companhia Paranaense de Energia. Embora seja das Forças Armadas, tampouco faz parte de algum batalhão de engenharia, o que seria gabarito para o emprego. A qualificação veio com o serviço de piloto da aeronave presidencial de 2003 a 2011. 

Na função, transportou e conversou com Lula por anos, tempo suficiente para se tornarem íntimos. Quando o petista encerrou o segundo mandato, em 2010, fez questão de despedir-se pessoalmente do militar, a quem condecorou poucos meses antes de deixar o Palácio do Planalto. A honraria do passado se torna um mimo, quando comparada à remuneração como conselheiro, de R$ 176 mil por mês, de acordo com o planejado para 2026. O mandato dele à frente do cargo está previsto para se encerrar em abril de 2027, mas pode ser renovado, basta o antigo passageiro se reeleger presidente do Brasil. 




Garantir os empregos em empresas privadas custa mais do que pagar os salários diretamente. As compras das ações das empresas aparecem na contabilidade como “Carteira de Renda Variável”, estimada em mais de R$ 100 bilhões pelo próprio BNDES. Lula encontrou um modo de não deixar os companheiros para trás e ainda camuflar a conta.

Artur Piva - Revista Oeste