Após invasão por mar e terra em Ceuta, grupo de imigrantes é reconduzido à fronteira por forças de segurança da Espanha - Foto: Reuters/Jon Nazca
P odemos agora chamar de “invasão”? Que outra palavra existe para descrever a incursão turbulenta de dezenas de milhares de homens jovens no território soberano de uma nação estrangeira? Nem o esquerdista mais piegas, com seu keffiyeh esfarrapado e sua camiseta com os dizeres “Refugees Welcome” (“Refugiados, sejam bem-vindos”), ousaria chamar de “busca de asilo” a invasão de uma nação independente por uma manada de baderneiros. Talvez esse seja o único lado positivo dos eventos extraordinários em Ceuta: a morte, finalmente, do eufemismo — já não se pode pintar como “benevolência” o abandono suicida das fronteiras do Ocidente. As cenas vindas do enclave espanhol no extremo norte da África são estarrecedoras. Estima-se que 49 mil pessoas — na maioria marroquinos, na maioria homens — tenham invadido sem cerimônia o território do Reino da Espanha.
É aproximadamente o mesmo número de pessoas que chegam de barco ilegalmente à Grã-Bretanha em um ano. Eles escalaram os portões da fronteira e atropelaram os encarregados de proteger as terras espanholas. Vídeos que viralizaram mostram homens dando socos no ar enquanto se espalham pelo território, visivelmente entusiasmados com a incursão num Estado soberano. Até a imprensa espanhola sente a morte do eufemismo. “Ceuta, invadida”, estampa a capa do ABC, jornal de referência, ao lado da imagem de milhares de homens desfilando pela praia.
a em massa de Ceuta conseguiu concentrar as atenções até da tragicamente apática classe dominante espanhola. Todos os partidos de Ceuta, de direita e esquerda, pediram a Madri que enviasse o exército para reforçar a fronteira com o Marrocos. O premiê espanhol Pedro Sánchez prometeu uma “resposta imediata”. Mas, ainda que os espanhóis consigam domar essa terrível crise que acomete seu Estado soberano, é preciso que as lições da catástrofe reverberem não só na Espanha, mas em toda a Europa. Pois a queda de Ceuta expõe a tensão letal do globalismo. Ela escancara a destruição caótica da soberania, da democracia e do nosso próprio modo de vida que o globalismo e seus acólitos de colarinho dourado provocaram.
A invasão de Ceuta despedaça as falsas narrativas da esquerda. Durante anos, os “progressistas” ludibriaram o público, insistindo que os homens que cruzam ilegalmente nossas fronteiras são “pessoas vulneráveis” em “busca de asilo”. Como o Big Brother, esperavam que ignorássemos as evidências diante dos nossos olhos e ouvidos e aceitássemos que esses insolentes da Eritreia ou do Afeganistão são grandes vítimas da miséria, carentes do nosso amor, do nosso cuidado e de abrigo em hotéis quatro estrelas. Ceuta desmonta essa mentira. O mundo inteiro pôde ver que praticamente não havia mulheres e crianças nessas hordas. O mundo inteiro sabe que o Marrocos não é devastado por guerra e fome. De agora em diante, toda menção ao termo “requerente de asilo” deve provocar um ceticismo sonoro e indignado.
A crise de Ceuta também confirma que a covardia moral do Estado moderno é como um pano vermelho para atores hostis. É inegável que a maluquice da concessão de asilo a imigrantes ilegais por parte de Pedro Sánchez encorajou esses marroquinos a desaguar numa benevolente Espanha. Em janeiro deste ano, Sánchez driblou o parlamento e editou um decreto real para regularizar praticamente todos os “imigrantes sem documentação” em território espanhol. Quase 1,2 milhão de ilegais se candidataram a esse status regularizado, que lhes daria o direito de residir e trabalhar na Espanha, desfrutar de acesso irrestrito à saúde e à educação do país.
O ato monárquico de Sánchez que deu à luz quase um milhão de “neoespanhóis” foi uma insanidade desastrosa. Ao liberar o acesso a direitos de residência e serviços públicos a estrangeiros que entraram ilegalmente no país, ele apagou a própria definição de “espanhol”. Qualquer um, de qualquer lugar, pode ter o que você tem — no fundo, essa foi a ordem autoritária que ele impôs ao povo da Espanha. E acendeu um enorme sinal verde para que forasteiros tentassem a sorte contra seu regime frouxo. O resultado: 50 mil norte-africanos aceitaram seu convite imbecil e irresponsável para fazer a Espanha de gato e sapato.
A crise de Ceuta é o fruto podre desse culto da morte chamado globalismo. Uma combinação tóxica de paralisia institucional e sequestro ideológico pelo delírio globalista fez com que nossos líderes abandonassem deliberadamente o primeiro dever do Estado: proteger seu território de agentes externos. O espírito de resignação diante da crise nas nossas fronteiras é estarrecedor e deprimente. Na Espanha, na Grã-Bretanha, na França, na Alemanha, ecoa o lamento: “não há nada que possamos fazer para deter a chegada diária de incontáveis homens de países estrangeiros”. O fatalismo é impressionante. Não há momento comparável na história, com exceção das guerras, em que Estados-nação tenham entregado seu território a agentes estrangeiros com tamanha subserviência.
Também na Grã-Bretanha, a soberania duramente conquistada da nossa nação foi sacrificada no altar do globalismo. Na última semana de julho, 1.487 pessoas, na maioria homens, chegaram ilegalmente em pequenos barcos. E o que está fazendo nosso novo primeiro-ministro, Andy Burnham? Comendo torresmo e falando pelos cotovelos sobre a banda The Smiths. Isso é doentio. Cada líder da história britânica, cada um dos nossos ancestrais, consideraria isso um desastre, uma calamidade que estrangula a dignidade da nação e a segurança do seu povo. E ainda assim nos dizem para encarar tudo como normal, ou pelo menos inevitável, inerente à vida num mundo globalizado. Resistir à apatia perigosa dos nossos governantes, à sua inércia letal quanto à integridade soberana da nação, é a missão mais urgente do nosso tempo.
Não se enganem: o abandono das nossas fronteiras pelos governantes é um ataque direto a nós. Eles estão essencialmente dizendo que não há nada no modo de vida espanhol ou no modo de vida britânico que valha a pena defender. Seu país, suas comunidades, sua história, sua cidadania, seu Estado de bem-estar social. Para eles, essas coisas são insignificantes de tal modo que nem vale a pena erguer uma cerca ao redor para protegê-las de invasores. O que as elites globalistas vendem como bondade para com os estrangeiros é, na verdade, um ataque selvagem aos direitos e à dignidade dos cidadãos. Chega. Parem os barcos. Fortifiquem as fronteiras. Salvem a nação desses niilistas em pele de altruístas.
Brendan O’Neill é repórter-chefe de política da Spiked e apresentador do podcast The Brendan O’Neill Show, também da Spiked. Seu novo livro, After the Pogrom: 7 October, Israel and the Crisis of Civilisation, foi lançado em 2024. Brendan está no Instagram: @burntoakboy