A opção por Alfredo Gaspar para compor a chapa de Flávio Bolsonaro tem um simbolismo poderoso
F inalmente chegou ao fim o suspense sobre a escolha do vice de Flávio Bolsonaro para a eleição presidencial deste ano. Dentre especulações sobre vantagens táticas do futuro indicado, sua capacidade de atrair votos e dialogar com determinados segmentos populacionais, a decisão do comitê de campanha acabou priorizando o valor simbólico do nome indicado. A opção pelo deputado Alfredo Gaspar para compor a chapa — um nome que, até então, não aparecia em nenhuma lista dos mais cotados — traz consigo um simbolismo poderoso. O que está em jogo não é a indicação de um nome de segunda linha, escolhido faute de mieux depois que PP, União Brasil e Republicanos recusaram formalizar o apoio esperado. O que está em jogo é a tentativa de reconduzir a candidatura bolsonarista para um caminho do qual a direita brasileira, viciada em pragmatismo nonsense e em dar ouvidos a marqueteiros eleitorais com cabeça de identitário de esquerda, quase já se havia afastado por completo: o de contar uma história.
Mas convém relembrar os fatos, sem os quais nenhum símbolo se sustenta. Gaspar é advogado, ex-promotor de Justiça em Alagoas, com mais de duas décadas de carreira dedicadas ao combate ao crime organizado, tendo coordenado o grupo estadual de enfrentamento a organizações criminosas e presidido o equivalente nacional. Foi duas vezes secretário de Segurança Pública em seu Estado. Peregrinou por três partidos — MDB, União Brasil e, agora, PL — numa trajetória que tem menos de ideológica e mais de errática, como costuma ser o destino de quem chega tarde às certezas.
Há, contudo, um fato que ofusca todos os outros, e é nele que a campanha decidiu apostar: Gaspar foi o relator da CPMI do INSS, a comissão que investigou o desvio bilionário de recursos de aposentados e pensionistas por meio de descontos associativos não autorizados nos contracheques — um escândalo que floresceu, cresceu e frutificou sob o terceiro governo Lula, assim como o Mensalão frutificara no primeiro, e o Petrolão, no segundo. E, dos três, foi esse o caso mais repugnante de saque petista ao patrimônio nacional, dada a especial vulnerabilidade das vítimas.
Cogitou-se, em algum momento das tratativas, indicar uma mulher para
a vaga de vice. A ideia não vingou, e ainda bem. Não, obviamente, porque
mulher alguma fosse capaz de ocupar o posto, mas porque a lógica
identitária que preside esse tipo de cogitação nada tem a ver com a
cosmovisão conservadora e de direita, que valoriza o mérito e o caráter
acima de características físicas que, da perspectiva política, são
inteiramente secundárias e contingenciais. Escolher Gaspar não por ser homem, mas por ter sido o homem que investigou o maior roubo aos
aposentados da história recente do país, é escolher pelo critério certo: o
do mérito, da história pessoal, da causa que se representa.
Uma campanha que se pretende de direita erra quando maquia decisões estratégicas com verniz identitário; e acerta, e muito, quando as fundamenta em fatos, biografia e substância. Mas a escolha de Gaspar supera a própria biografia e — como deve ser uma campanha política empolgante — adentra o terreno da alegoria. Porque o roubo ao aposentado brasileiro não foi um desvio administrativo, um erro de sistema, uma falha burocrática que qualquer governo, de qualquer matiz, pudesse cometer por acidente. Foi a expressão mais nua do que o lulopetismo sempre foi em sua essência: um projeto de poder que se alimenta do Estado como um parasita se alimenta do hospedeiro, sugando não a abstração distante do “orçamento público”, mas o dinheiro concreto, mensal, suado, que separava o aposentado humilde de passar fome.
As digitais do partido estão por toda parte — nos sindicatos e associações que prosperaram sob o guardachuva político do governo, na morosidade cúmplice de órgãos que deveriam fiscalizar e não fiscalizaram, na resistência que a própria CPMI encontrou para avançar. Não é acaso que o parecer do relator, pedindo o indiciamento de mais de 200 pessoas, tenha sido derrubado por 19 votos a 12: a máquina que rouba também sabe se blindar quando ameaçada.
Ora, se há um crime que sintetiza o que este governo fez ao brasileiro comum, é este. E se há uma figura que pode reivindicar, com alguma legitimidade, o papel de acusador público desse crime, é o homem que assinou o relatório. A campanha de Flávio Bolsonaro não escolheu Gaspar por mera afinidade eleitoral, por peso de legenda ou por aritmética de coligação — todas essas portas, aliás, estiveram fechadas. Escolheu-o porque, na ausência de alternativas mais vistosas, sobrou a alternativa mais honesta: colocar ao lado do candidato a Presidente um homem que passou meses debruçado sobre planilhas de roubo, ouvindo depoimentos de vítimas, tentando — ainda que sem êxito pleno, dadas as artimanhas do lulopetismo e seus aliados no Centrão — nomear os responsáveis.
Não se trata de ingenuidade quanto aos limites do gesto. Um vice de primeiro mandato, sem grande capital político acumulado, não muda sozinho o destino de uma eleição, e a necessidade prática dessa escolha — a segunda opção depois de negociações fracassadas com PP, União Brasil, Republicanos e Novo — é evidente e não deve ser escondida sob retórica. Mas o simbolismo, justamente por nascer de uma necessidade e não de um plano de marketing perfeitamente calculado, tem uma autenticidade que os gestos publicitários raramente possuem. Não foi desenhado por nenhum publicitário para “ressoar” com o eleitor idoso, tampouco obedeceu a qualquer cálculo de representatividade de gênero; ele apenas é o que é, porque o homem simplesmente fez o que fez.
Fachada da sede do Instituto Nacional do Seguro Social - Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil
O aposentado brasileiro talvez não saiba explicar em termos técnicos o que aconteceu com seu benefício. Mas sabe, com a certeza elementar de quem sente o próprio bolso mais leve, que algo lhe foi tirado, e que quem lhe tirou tinha nome, sobrenome e, quase sempre, algum tipo de proteção institucional. Ter na chapa de oposição um homem que investigou esse roubo até as raias do Palácio do Planalto — pois é isso que uma CPMI instalada sob um governo petista, mirando fraudes ocorridas sob esse mesmo governo, necessariamente faz — é oferecer a essas vítimas algo que a política raramente oferece: não apenas indignação retórica, mas um rosto conhecido, um nome que já demonstrou disposição de remexer no lodo.
À campanha de Flávio, obviamente, caberá saber explorar esse capital simbólico com a seriedade que ele merece, e não apenas como acessório de campanha a ser mencionado em um debate e depois esquecido. Porque o roubo ao INSS não foi um escândalo qualquer entre tantos que o noticiário digere e descarta em poucas semanas. Foi a revelação, em carne viva, de que o discurso da compaixão pelos pobres e pelos velhos, tão caro à retórica petista, convive sem o menor pudor com a extração sistemática da renda dos mais indefesos, quando a oportunidade se apresenta e a fiscalização adormece. Gaspar não precisa ser um grande orador nem um estrategista consumado para cumprir seu papel simbólico.
Basta que continue sendo, publicamente, o que já foi nos gabinetes da CPMI: a lembrança viva de que houve crime, de que houve vítimas, e de que alguém, finalmente, se dispôs a apontar o dedo./
Flávio Gordon - Revista Oeste