Delação de Paulo Henrique Costa ameaça ampliar o escândalo do Master e expor a engrenagem que uniu mercado financeiro e poder em Brasília
“D elação de Vorcaro ‘sobe no telhado’”, informou um jornal. “Colaboração premiada de ex-BRB pode sair primeiro”, acrescentou uma revista. “Acordo de executivo pode ser maior que o de Vorcaro”, complementou um site. Essas manchetes tomaram conta do noticiário nas últimas semanas e introduziram ao público um personagem até então discreto no escândalo do Master: Paulo Henrique Costa, preso em abril no âmbito da Operação Compliance Zero, acusado de ter recebido cerca de R$ 150 milhões em propinas para favorecer o empresário Daniel Vorcaro perante o Banco de Brasília (BRB), do qual era presidente desde 2019, ainda no governo de Ibaneis Rocha.
Foi sob a gestão de Costa que o BRB ampliou negócios, adquiriu carteiras bilionárias e aprofundou a relação com Vorcaro. A ofensiva transformou o banco estatal do Distrito Federal (DF) em um dos protagonistas mais agressivos do sistema financeiro nacional, elevando na mesma proporção o prestígio do executivo. O avanço da parceria, contudo, despertou desconfiança no mercado.
Homem do Master
Embora Costa tenha se tornado conhecido nacionalmente apenas depois de operações da Polícia Federal (PF), seu nome já circulava havia anos entre empresários, banqueiros e operadores do mercado financeiro de Brasília. Descrito por interlocutores como um executivo técnico, discreto e de trânsito fácil nos ambientes de poder da capital, ele ganhou protagonismo justamente no período em que o BRB aderiu ao slogan que Costa criou: “Disputar espaço contra as grandes instituições financeiras do país”. Foi nesse contexto que a relação com Vorcaro, que já existia timidamente, se aprofundou.
À frente do Master, o empresário buscava ampliar o alcance do banco privado por meio da compra de ativos, estruturação de fundos e aproximação com instituições públicas e agentes influentes do mercado. O BRB, então, virou uma peça importante de toda a estratégia.
Sob Costa, o BRB passou a adquirir carteiras bilionárias ligadas ao Master e avançou em operações que ampliaram a exposição do banco estatal ao grupo de Vorcaro. A simbiose entre o banco estatal e o Master atingiu o ápice em 2025, quando a estatal deu início à negociação para a compra de parte relevante da instituição comandada por Vorcaro. A operação foi apresentada ao mercado como uma solução privada para a crise enfrentada pelo Master e colocaria o BRB “em outro patamar no sistema financeiro”.
O negócio, no entanto, encontrou resistência desde o início. Integrantes do mercado questionavam a qualidade dos ativos ligados ao Master e demonstravam preocupação com o grau de exposição assumido pelo BRB. Nos bastidores, órgãos de controle acompanhavam tudo com cautela. A pressão aumentou à medida que investigações começaram a alcançar personagens centrais da relação entre os dois bancos. Relatórios internos, operações financeiras e a circulação de recursos entre empresas ligadas ao grupo despertaram o interesse de investigadores. O que inicialmente parecia apenas uma aposta ousada de expansão financeira começou a ganhar contornos criminais.
Conforme a investigação da PF, a relação entre BRB e Master extrapolava uma simples parceria financeira. Os investigadores sustentam que Vorcaro usou a estrutura do banco estatal para aliviar a situação do Master por meio da venda bilionária de carteiras de crédito problemáticas. A apuração aponta que o BRB adquiriu entre R$ 12 bilhões e R$ 13 bilhões em ativos ligados ao grupo de Vorcaro durante a gestão de Costa. Parte dessas carteiras apresentava baixa liquidez, dificuldade de recuperação ou indícios de inconsistência identificados ao longo de inúmeras auditorias.
Tamanho do rombo
À medida que a relação entre BRB e Master se aprofundava, cresciam também os questionamentos sobre os negócios firmados entre as duas instituições. Segundo a PF, quando essas inconsistências começaram a aparecer, Costa atuou para evitar que os prejuízos viessem à tona. Mensagens interceptadas pela investigação indicaram tentativas de substituir créditos problemáticos por outros ativos ligados ao Master, como fundos e imóveis, em uma estratégia que buscaria reduzir o impacto das perdas para o BRB e afastar questionamentos do Banco Central (BC).
A preocupação aumentou à medida que os investigadores passaram a dimensionar o alcance financeiro das operações. Os impactos deixaram de ser apenas uma preocupação teórica quando o próprio BRB passou a enfrentar dificuldades de capitalização. Em maio, a governadora Celina Leão confirmou que o banco necessitava de R$ 6,6 bilhões para não quebrar, e que o governo articulou mecanismos para viabilizar essa operação.
O valor servirá para evitar uma deterioração mais profunda da instituição que, por pertencer ao DF, poderia atingir diretamente servidores públicos (ativos ou aposentados), correntistas e até as contas da capital federal. A discussão deixou de envolver apenas o futuro do Master e passou a alcançar o destino do próprio banco estatal. Nesse período, a tentativa de compra do Master pelo BRB se transformou em mais um foco de controvérsia. Relatos divulgados pela imprensa indicam que o governo do DF atuou para destravar a operação mesmo diante de resistências do BC. Documentos revelados posteriormente mostraram movimentações envolvendo até mesmo o Tribunal de Contas da União.
A bomba da delação
Mais do que os valores envolvidos nas operações investigadas ou o tamanho potencial do rombo atribuído ao caso Master, o que hoje provoca apreensão em Brasília é o volume de informações acumuladas por Costa ao longo dos anos em que comandou o BRB. Diferentemente de Vorcaro, que atuava do lado privado da engrenagem, o ex-presidente do BRB participou diretamente de reuniões, negociações e decisões que ajudaram a aproximar as duas instituições. Investigadores acreditam que uma eventual colaboração premiada poderá ajudar a reconstruir o caminho percorrido por recursos financeiros e os ativos durante o período de maior proximidade entre BRB e Master.
Não por acaso, as notícias sobre uma possível delação de Costa ocupam espaço crescente no noticiário. A perda de força da colaboração de Vorcaro, em razão de inconsistências apontadas por investigadores e rejeição pela PF, elevou ainda mais o interesse sobre aquilo que o ex-presidente do BRB pode revelar. Se a ascensão de Costa acompanhou a transformação do BRB em protagonista do mercado financeiro, sua eventual delação poderá ajudar a explicar como essa trajetória terminou no centro de um dos maiores escândalos financeiros da história recente do Brasil. E, certamente, revelar quem mais participou dela.
Cristyan Costa - Revista Oeste