Técnico espanhol, para muitos o melhor de todos os tempos, deixa o Manchester City em busca de novos rumos
A comoção na despedida do técnico Bep Guardiola, de 55 anos, do Manchester City está ligada à importância dele na história do clube. A partida entre Brasil e Inglaterra, na Copa de 1970, ajuda a explicar essa longa evolução.
As duas seleções se enfrentavam na primeira fase. A Inglaterra era a atual campeã mundial. O jogo era tenso.
Pelé não encontrava espaços diante da marcação de Bobby Moore. Mesmo assim, segurava a defesa inglesa e ajudava a abrir brechas para Jairzinho avançar. Dois lances ficaram marcados naquela partida: o gol de Jairzinho, costurando a fechada defesa inglesa no segundo tempo, e a defesa do goleiro Gordon Banks, depois da cabeçada de Pelé para o chão, na etapa inicial.
Aquela é considerada a maior defesa da história do futebol. Mas, injustamente, outro momento grandioso ficou esquecido. Minutos depois, Félix, goleiro do Brasil, fez defesa quase tão difícil ao impedir, na pequena área a finalizasção de Francis Lee.
Naquele instante, pela primeira vez, o futebol brasileiro e o Manchester City se relacionavam diretamente.
Lee, loiro, era o atacante do City campeão inglês de 1967-68, até então a melhor geração da história do clube. O time contava ainda com os talentosos Colin Bell, Neil Young e Mike Summerbee, do meio para a frente.
Aqueles anos haviam sido os melhores da trajetória do City, considerado até então um clube de porte médio e sem tanta sorte.
Justamente na temporada de sua principal conquista, porém, o maior rival, o Manchester United, ganhava a Liga dos Campeões da Europa, hoje chamada Champions League.
O City passou então por décadas de declínio, rebaixamentos e instabilidade, até ser comprado pelo grupo de Abu Dhabi, em 2008.
A nova fase começou a render títulos em 2011, já com um elenco recheado de craques graças aos investimentos permanentes: o goleiro Joe Hart; o zagueiro belga Vincent Kompany; o lateral sérvio Aleksandar Kolarov; o habilidoso espanhol David Silva; o intempestivo atacante italiano Mario Balotelli; e o obcecado atacante argentino Carlos Tevez.
Naquele elenco estava a base dos quatro ou cinco anos seguintes, período em que o City voltou a conquistar o principal título nacional, em 2011-2012 e 2013-2014. O clube já se colocava entre os mais fortes do futebol na Inglaterra. Até então, acumulava 17 títulos em sua história.
A transformação com Guardiola
A dimensão da transformação pode ser medida pela era Guardiola. Desde a estreia do treinador, em 13 de agosto de 2016, até a despedida, marcada para o próximo domingo, 24, contra o Aston Villa, no Etihad Stadium, o City conquistou 20 títulos.
Em dez anos, três a mais do que em seus 146 anos anteriores. Entre eles está a Champions League de 2022-2023, vencida com uma equipe moldada por Guardiola, formada pelo goleiro Ederson; pelos defensores John Stones e Rúben Dias; pelos meio-campistas Rodri, Kevin De Bruyne, İlkay Gündoğan e Bernardo Silva; além dos atacantes Jack Grealish e Erling Haaland.
Mais do que montar grandes equipes, Guardiola deixou uma identidade. Nesse período, ele consolidou seu jogo posicional, sempre com flexibilidade para se adaptar às características da partida e do adversário.
A equipe se abria ao máximo, explorando a amplitude pelos lados do campo e obrigando o rival a se espalhar. Ao mesmo tempo, mantinha um posicionamento capaz de facilitar a recuperação da bola.
Os setores permaneciam próximos. Dessa aproximação surgia a chamada densidade funcional: vários jogadores do mesmo time perto da bola, oferecendo linhas de passe e pressão imediata. Seu objetivo foi, além das conquistas, deixar esse conceito, em forma de legado.
“Não me perguntem por que estou saindo”, disse Guardiola. “Não há motivo, mas lá no fundo sei que chegou a minha hora. Nada é eterno. Se fosse, eu estaria aqui. Eternos serão os sentimentos, as pessoas, as lembranças, o amor que tenho pelo meu Manchester City.”
Ao que parece, esse trabalho coletivo dependia também do ambiente fora do campo. Essa simbiose, alimentada por Guardiola, ajuda a explicar por que ele se tornou, para muitos, o maior treinador de todos os tempos. O técnico optou por utilizar a cláusula de rescisão prevista em seu contrato, válido até junho de 2027, e sair um ano antes. Traçará outros rumos como treinador. Porém, permanecerá ligado ao clube como embaixador global e consultor técnico do City Football Group.
Para o City difícil imaginar desfecho melhor: eternizar a relação com um profissional que deixou sua assinatura em campo. Como um artista assina uma obra de arte.