sexta-feira, 22 de maio de 2026

Augusto Nunes - 'A toga e a lama'

 Ministros do STF viram verbetes na enciclopédia da corrupção


Foto: Montagem Revista Oeste/IA 

P arece mentira, mas houve não faz tanto tempo um Brasil em que a honradez era a regra, e quem se arriscava a engordar o volume de exceções não se expunha apenas às punições previstas em códigos legais: também sofria o afastamento imposto pelos honestos. Guardo na memória o caso do gerente de banco perdido de amor pela bela forasteira recém-chegada à Casa da Diná, bordel mais concorrido da região. O cinquentão apaixonado exagerou na gastança com a jovem amante, sem reduzir as despesas com a família numerosa. Acuado pelo endividamento excessivo, sucumbiu à má ideia: dar um desfalque. 

Nenhum cliente perdeu dinheiro. O prejuízo foi engolido sem barulho pela direção do banco, que revidou com a demissão por justíssima causa. Esse seria o menor dos castigos. Muito mais dolorosa foi a exclusão social. Além do emprego, ele perdeu os amigos. Todos emparedados pelo isolamento e pela vergonha, o gerente, sua mulher e os quatro filhos primeiro sumiram dos bailes no clube, depois das sessões de cinema, em seguida das festas de aniversário e finalmente das ruas. Numa madrugada, a família deixou a cidade para nunca mais voltar. Naquele tempo, corrupção era crime hediondo e sem perdão. Hoje, quem diria?, um Brasil virado do avesso contempla com passividade bovina a chegada da ladroagem endêmica ao Supremo Tribunal Federal. 

Até o último verão, o comando do Judiciário era o único entre os Três Poderes que ficara fora dos sucessivos escândalos descobertos no primeiro quarto deste século. No último verão, o maior crime financeiro da história derrubou a fortaleza moral. Foi reduzida a escombros no fim de 2025, quando os ministros José Antonio Dias Toffoli e Alexandre de Moraes viraram verbetes de uma inevitável Enciclopédia Nacional da Infâmia. Ambos anabolizados por premiações em dinheiro distribuídas pelo dono do falecido Banco Master, Toffoli e Moraes garantiram a vaga no porão da História, nadando de braçada no pântano administrado por Daniel Vorcaro. Acabaram afundando até o pescoço. 


Ministros do STF Alexandre de Moraes e José Antonio Dias Toffoli - Foto: Gustavo Moreno/STF 

Passados quase seis meses, a dupla, que até recentemente fazia bonito no grupo da alta classe média, foi transferida para a primeira divisão reservada aos multimilionários. As fortunas embolsadas tornaram dispensáveis os rendimentos arrecadados por ministros do STF. Mas Toffoli e Moraes seguem no emprego, vestindo sem sinais visíveis de constrangimento a toga emporcalhada pela lama da corrupção. Malandragem impune é a norma. Honesto virou sinônimo de otário. 

Toffoli embolsou mais de R$ 40 milhões com as negociatas costuradas no Tayayá, único resort do planeta que não precisa de hóspedes para atrair interessados em comprá-lo por muito mais do que vale. Moraes já pode viver como o diabo gosta, graças a um contrato que não precisou assinar e nem menciona seu nome. Bastaram os garranchos manuscritos por Vorcaro e Viviane Barci, advogada casada com o ministro, para validar o documento. O texto informa que o dono do Master pagará R$ 129 milhões para dispor dos serviços da doutora Viviane entre janeiro de 2024 e dezembro de 2026. As entrelinhas revelam o preço acertado para que o pronto-socorro do mais poderoso ministro ficasse permanentemente à disposição do banqueiro bandido.


Tayayá, único resort do planeta que não precisa de hóspedes para atrair interessados em comprá-lo por muito mais do que vale - Foto: Divulgação/Tayayá

Toffoli anda meio sumido. Talvez tenha aprendido que culpa rima com cautela. Talvez esteja aprendendo como é a vida de nababo que não precisa fingir que trabalha. Talvez acredite que já cumpriu seu dever no curto período em que foi dono do caso do Master — e fez o que pôde para destruir as pilhas de provas colhidas pela Polícia Federal. O importante é que o silêncio do ministro tem poupado a gramática e a ortografia (além dos integrantes do Pretório Excelso que conseguiriam a aprovação no Enem) das medonhas sessões de tortura que impõe à língua portuguesa, sobretudo quando desanda em improvisos.

O súbito surto de discrição também poupa a Constituição e os códigos legais dos socos e pontapés aplicados pelo líder do ranking dos ministros que mais envergonharam o Supremo. Se as circunstâncias exigirem obscenidades urgentes, Alexandre de Moraes tem procuração para agir em nome de Toffoli. Juntos, eles criaram há quase sete anos o mais torpe inquérito da história do STF. Juntos, proclamaram em 2022 a ditadura do Judiciário. Juntos, anexaram o Supremo ao escândalo do Master. É provável que só se separem na disputa da primazia indesejada: um deles será o primeiro integrante da Corte punido com o impeachment. 

Por enquanto, Moraes faz de conta que continua acumulando os cargos de detetive, delegado, promotor, juiz e Primeiro Carcereiro — soma de funções que o transformou no Comandante Supremo da Democracia à Brasileira. Com a arrogância e a crueldade que balizam seu comportamento desde 2019, segue administrando uma imaginária Vara Criminal especializada em prender, multar e atormentar os perseguidos favoritos, além de garantir a prosperidade dos fabricantes de tornozeleiras eletrônicas. 


Moraes faz de conta que continua acumulando os cargos de detetive, delegado, promotor, juiz e Primeiro Carcereiro — soma de funções que o transformou no Comandante Supremo da Democracia à Brasileira - Foto: Gustavo Moreno/STF


A insolência patológica é anabolizada pela cumplicidade de colegas. Até agora, o único punido pelo enriquecimento criminoso de Moraes é o perito criminal João Cláudio Nabas, acusado de ter quebrado o sigilo que protegia o contrato assinado por Vorcaro e Viviane Barci de Moraes. Alvo de uma operação de busca e apreensão executada pela Polícia Federal, Nabas está suspenso das funções que exercia. Nestes trêfegos trópicos, é criminoso quem revela que um ministro do Supremo ganhou o equivalente a várias Mega-Senas acumuladas para manter em liberdade um parceiro fora da lei. Inocente é o juiz de araque que tenta esconder a resposta que deu à pergunta formulada pelo chefe da quadrilha: 

“Conseguiu bloquear?”. Bloquear a prisão de Vorcaro, o interpelado não conseguiu. Livre, leve e solto, Moraes concentra-se agora na luta pelo bloqueio das investigações sobre o acerto criminoso em que se meteu. O Brasil decente tem na ponta da língua as duas palavras que celebrarão o triunfo da Justiça: “Perdeu, Mané”.


Augusto Nunes - Revista Oeste