sexta-feira, 22 de maio de 2026

'A semente baiana: o elevador, o cartão e a conta que o Brasil vai pagar', por Carlo Cauti

Num edifício da Faria Lima, um encontro casual ligou um operador político do PT baiano a um banqueiro ambicioso. O resultado foi o maior escândalo financeiro da história do país. E um rastro de dinheiro que leva direto o Palácio do Planalto


Augusto Lima, Jaques Wagner e Rui Costa - Foto: Montagem Revista Oeste/Reprodução

Numa tarde quente e chuvosa de janeiro de 2018, Augusto Lima, operador dos governos petistas da Bahia, saiu desapontado de uma reunião com o banco BMG. Ele procurava um parceiro para o Credcesta, um cartão de crédito consignado para servidores públicos e aposentados baianos que estava prestes a adquirir. Lima precisava de um banco para colocar a operação na rua. O BMG não topou. Entrando no elevador para sair do Pátio Victor Malzoni, icônico edifício da Avenida Faria Lima, coração financeiro de São Paulo, Lima reclamou com um investidor que o acompanhava. “Vamos parar no segundo andar, conheço alguém que poderia ter interesse”, foi a resposta. 

Naquele piso estava instalado o Banco Máxima, que abriu as portas imediatamente. Depois de uma reunião com a diretoria, o negócio foi fechado. O presidente do Máxima era um jovem mineiro muito ambicioso, recém-desembarcado na capital paulista: Daniel Vorcaro. Poucos meses depois, o Máxima se tornaria Master, compraria 50% do Credcesta, pagando o dobro do valor desembolsado por Lima e incluiria o baiano em seu quadro societário.

Por quase oito anos, o Credcesta foi um dos negócios mais lucrativos do Master. “Provavelmente era o único que dava dinheiro de verdade”, explica a Oeste um gestor de fundo próximo da trama e que prefere se manter anônimo.


Augusto Lima - Foto: Paulo Mocofaya/Agência ALBA

O ministro Fernando Haddad classificaria tudo isso, anos mais tarde, como “o maior escândalo da história financeira do país”. O que Haddad talvez não esperasse — ou preferisse não ter que admitir — é que a Polícia Federal conduziria as investigações para dentro do campo político que ele próprio representa.


Ebal, Empresa Baiana de Alimentos - Foto:Adenilson Nunes/AGECOM 

O que emergiu das quebras de sigilo, dos registros do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e dos documentos enviados pela Receita Federal à CPI do Crime Organizado é uma narrativa que começa nos supermercados estatais da Bahia, passa pelo cofre de consultores petistas e chega a uma reunião com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O fio condutor de tudo isso tem nome: Augusto Lima. Mas o tecido da história é mais largo, envolve dezenas de milhões de reais distribuídos a personalidades do campo petista a título de “consultorias”, e levanta questões que a investigação ainda tenta responder sobre a fronteira, cada vez mais turva, entre negócios privados e Poder de Estado.

Mungindo a vaca leiteira Para entender o escândalo do Master, é preciso voltar a 2007, quando o governo da Bahia criou o Credcesta. O produto surgiu como um cartão de benefícios destinado aos servidores públicos estaduais, inicialmente vinculado à rede de supermercados estatal Cesta do Povo, administrada pela Empresa Baiana de Alimentos (Ebal). Na prática, o cartão funcionava como um vale-alimentação: o servidor comprava produtos básicos — açúcar, óleo de cozinha, itens do cotidiano — com desconto automático na folha de pagamento.


Ebal, Empresa Baiana de Alimentos - Foto:Adenilson Nunes/AGECOM 

O risco de inadimplência quase zero tornava a carteira de recebíveis gerada pelo programa extraordinariamente atraente para investidores. Quem controlasse esse fluxo controlaria uma mina de ouro. Augusto Lima percebeu o potencial. Em 2018, na gestão do então governador Rui Costa, hoje ministro-chefe da Casa Civil de Lula, Lima arrematou a Ebal num processo de privatização conduzido pelo governo petista baiano. Na época, o senador Jaques Wagner (PT-BA), hoje líder do governo no Senado, estava à frente da Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado, posição que lhe dava influência direta sobre decisões de política industrial e concessões.  


Rui Costa, hoje ministro-chefe da Casa Civil de Lula - Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil 

A engrenagem que sustentaria a expansão meteórica do Master estava montada. Sobre essa base sólida e estável, o Master construiria uma estrutura de captação de CDBs com rentabilidade muito acima do mercado — o núcleo do esquema fraudulento que viria a desabar anos depois. 

Posteriormente, surgiram questionamentos sobre a qualidade desses créditos, sua origem e a forma como foram empacotados em operações financeiras revendidas a outras instituições. As investigações iniciadas com a liquidação do banco, em novembro de 2025, começaram a relacionar a engenharia financeira do Master aos consignados baianos. O nome de Augusto Lima passou a aparecer com frequência. Em março de 2026, ele foi citado entre os investigados convocados por comissões parlamentares para explicar relações financeiras e políticas do grupo de Daniel Vorcaro. 

Lima construiu relações políticas profundas na Bahia durante os governos Jaques Wagner, Rui Costa e Jerônimo Rodrigues. O Estado é governado pelo PT desde 2007. No mercado financeiro e nos círculos políticos de Salvador e Brasília, Lima era descrito como muito mais que um executivo do setor bancário. Aliados e adversários o identificavam como um operador com acesso privilegiado ao núcleo dos governos petistas da Bahia. O nome de Jaques Wagner aparece repetidamente nesse contexto. Senador, ex-governador baiano e uma das figuras mais influentes do PT nacional, Wagner admitiu conhecer Lima e Vorcaro. Em declarações públicas, afirmou que Lima o procurou para sugestões profissionais e minimizou o alcance da relação.


Jaques Wagner, Lula, Jerônimo Rodrigues e Rui Costa. Petistas sorridentes, enquanto a Bahia lida com uma série de problemas | Foto: Reprodução/Instagram 

“Augusto Lima é um fantasma. Todo mundo sabe que ele está atuando, mas ninguém admite que está lá. Parece invisível. Ninguém sabe exatamente onde atua, o que está fazendo e quem está favorecendo. Mas ele é onipresente”, explica um político baiano da oposição. Nos bastidores de Brasília, Lima era visto como alguém capaz de conectar interesses financeiros privados ao núcleo político petista. Foi justamente por meio dessa rede de relações que Vorcaro ampliou sua presença institucional. 


A chegada do Master ao coração de Brasília 

A aproximação entre Vorcaro e figuras centrais do governo Lula ganhou dimensão nacional quando vieram à tona informações sobre reuniões reservadas no Palácio do Planalto. Em dezembro de 2024, Vorcaro participou de um encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva que não constava na agenda oficial. A reunião acabou sendo revelada posteriormente por registros do Gabinete de Segurança Institucional obtidos via Lei de Acesso à Informação. Participaram do encontro, além de Lula, o então futuro presidente do Banco Central Gabriel Galípolo, o ex-ministro Guido Mantega, Lima e Vorcaro. 

Se a Bahia é o berço político do esquema, o Palácio do Planalto é onde ele buscou proteção. O episódio gerou forte reação política, mas o governo tentou minimizar o encontro. A ministra Gleisi Hoffmann afirmou que presidentes e executivos de bancos são recebidos regularmente por autoridades do Executivo. A oposição, porém, passou a questionar por que um banqueiro que mais tarde se tornaria alvo da maior investigação financeira do país havia sido recebido de maneira reservada pelo presidente da República. Ao longo das investigações, vieram à tona relatos de outras entradas de Daniel Vorcaro e de seu pai, Henrique Moura Vorcaro, em áreas do Palácio do Planalto sem registros transparentes nas agendas oficiais. 

O controle de acesso ao Planalto é considerado rígido e normalmente documentado. A revelação de encontros não publicizados alimentou suspeitas de que o empresário mantinha um canal privilegiado de interlocução com integrantes do governo federal. O caso ampliou a pressão sobre o governo Lula. Naquele momento, já começavam a surgir suspeitas sobre a saúde financeira do Master e sobre operações envolvendo o BRB, o Fundo Garantidor de Créditos e carteiras bilionárias de recebíveis. 



Executivos estão sendo pressionados a apoiar Guido Mantega - Foto: Antonia Cruz/Agência Brasil 


Guido Mantega: o elo econômico 

Entre os nomes ligados ao Banco Master, nenhum causou tanto impacto quanto o de Guido Mantega. Ex-ministro da Fazenda e um dos principais formuladores de políticas econômicas dos governos Lula e Dilma Rousseff, Mantega foi contratado como consultor do grupo de Daniel Vorcaro pela bagatela de R$ 1 milhão por mês em consultorias. Os pagamentos à sua empresa, a Pollaris Consultoria, podem ter alcançado, no mínimo, R$ 14 milhões. 

Sua atuação incluiria articulações relacionadas à tentativa de venda do Master ao BRB, vetada pelo Banco Central em setembro de 2025 e alvo de investigação por fraudes que levaram à quase falência do banco público de Brasília. Mantega negou irregularidades e afirmou que todas as consultorias foram legais e técnicas. Não adiantou, e o impacto político foi imediato. O caso tornou-se ainda mais delicado porque Mantega também participou do encontro reservado no Planalto com Lula e Vorcaro.


Ricardo Lewandowski e a ponte jurídica 

Outro nome que passou a ser associado ao escândalo foi o do exministro do STF Ricardo Lewandowski. Antes de assumir a pasta da Justiça no governo Lula, Lewandowski teria mantido relações profissionais indiretas com o universo empresarial de Daniel Vorcaro. O contrato entre o ministro e o banco foi assinado em 28 de agosto de 2023, com pagamentos mensais de R$ 250 mil e permaneceu em vigor por 21 meses após Lewandowski assumir o ministério, em janeiro de 2024. No total, a Lewandowski Advocacia recebeu cerca de R$ 6,1 milhões do Master, dos quais aproximadamente R$ 5,25 milhões foram pagos quando ele já ocupava cargo no governo. A indicação de Lewandowski para o banco foi confirmada pelo próprio senador Jaques Wagne.


Ricardo Lewandowski, ex-ministro da Justiça e Segurança Pública - Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil 

O filho do ministro, Enrique Lewandowski, atuou em processos relacionados a empresas investigadas por fraudes em consignados. Ricardo Lewandowski afirmou desconhecer detalhes específicos dos processos citados e sustentou que se afastou formalmente da advocacia ao ingressar no governo. Lewandowski foi indicado pessoalmente por Jaques Wagner para Augusto Lima. E o nome do exgovernador, embora não investigado, está se tornando cada vez mais central na trama do Master. Wagner admitiu conhecer Augusto Lima e Daniel Vorcaro. Em Brasília, ele se tornou um avalista informal do grupo.


De volta às sombras 

Lima formalizou sua saída do Master em maio de 2024, depois de assinar um acordo que previa a transferência a Daniel Vorcaro de suas 33 milhões de ações ordinárias, equivalentes a quase 19% do capital. Apesar disso, em janeiro de 2026, o nome de Lima ainda constava como diretor da instituição no sistema da Receita Federal. Em agosto de 2025, passou a controlar o Banco Pleno, concentrando ali os negócios de crédito consignado que desenvolveu durante sua passagem pelo Master. 

O desfecho, por ora, é conhecido: Lima foi detido em Salvador no âmbito da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal para apurar as fraudes do grupo Master. Solto após decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, permanece sob monitoramento eletrônico. A defesa argumentou que Lima “já havia se desligado definitivamente de todas as suas funções executivas no Banco Master em maio de 2024”. 

Os investigadores, no entanto, prosseguem examinando o papel que ele desempenhou na estruturação do esquema. Uma das frentes de investigação relacionadas a Lima envolve a BK Financeira, empresa sediada em Salvador que, segundo apurações, recebeu cerca de R$ 11 milhões do Banco Master para indicar novos convênios de empréstimos consignados. Uma das sócias da empresa é Bonnie Bonilha, nora do senador Jaques Wagner. A assessoria do senador nega qualquer intermediação ou favorecimento à empresa. Bonilha é casada com Eduardo Sodré, secretário de Meio Ambiente da Bahia e enteado do senador.


Eduardo Sodré, secretário do Meio Ambiente da Bahia - Foto: Reprodução/ba.gov 

A pergunta que a investigação ainda não respondeu é simples e incômoda: onde termina a coincidência e onde começa o favorecimento? O que os fatos estabelecem, por ora, é que o maior escândalo financeiro da história do Brasil foi irrigado, em parte fundamental, por decisões, contratos e relações cultivadas ao longo de 18 anos de governos petistas na Bahia e de três anos de governo Lula em Brasília. 

Tudo começou num elevador na Faria Lima, no segundo andar, numa tarde de chuva, entre um operador político do PT baiano e um banqueiro mineiro sem escrúpulos. Os CDBs superfaturados, os consultores petistas bem pagos, as visitas sem registro ao Planalto, os R$ 49 bilhões do FGC, a tornozeleira eletrônica, o carrinho de golfe em fuga. O restante ainda está sendo escrito.


Carlo Cauti - Revista Oeste