O crescimento do império financeiro de Vorcaro amparou-se no fortalecimento de suas relações promíscuas com integrantes dos Três Poderes
O lado mais sombrio deste segundo quarto de século no Brasil começou a ser desenhado em 17 de novembro de 2025, quando vieram à tona os primeiros capítulos do que já se transformou no maior escândalo financeiro da história do país. Naquele dia, Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, foi preso no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, onde tentava embarcar para a Ilha de Malta, a bordo de um de seus jatos particulares. O sorriso estampado no rosto do banqueiro no momento da prisão escancarava a certeza da impunidade. A primeira temporada na cadeia durou 12 dias.
Foi então que a imensa maioria dos brasileiros soube da existência do hoje famoso executivo de 42 anos, porte atlético, pele bronzeada e farta cabeleira castanha. O mercado financeiro, políticos de diferentes partidos, magistrados e boa parte da alta sociedade, contudo, já conheciam havia muito tempo aquele mineiro bon-vivant, dono de mansões no Brasil e no exterior, que promovia festanças ornamentadas por belas mulheres, e excepcionalmente pródigo com amigos e parceiros de negociatas.
O Banco Master se tornou a menina dos olhos de milhares de investidores quando passou a oferecer Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com rentabilidade 30% acima da média do mercado. Era evidente que algo estava errado. Mesmo assim, prefeitos, secretários e gestores de fundos de previdência investiram pesado naquele dinheiro supostamente fácil, ignorando alertas feitos por técnicos e por Tribunais de Contas estaduais.
Entre 2021 e 2025, o patrimônio líquido do Master saltou de R$ 200 milhões para R$ 4,7 bilhões. A carteira de crédito avançou de R$ 1,4 bilhão para R$ 40 bilhões — um crescimento de quase 100% ao ano. Nas três últimas décadas, nenhum banco brasileiro conseguiu uma expansão dessa magnitude em tão pouco tempo. Numa reportagem publicada na Oeste em 19 de dezembro passado, Carlo Cauti lembrou que Vorcaro costumava reiterar que, no Brasil, ninguém prospera sem proteção política — e que não teria chegado onde chegou sem o apoio de figuras poderosas
O crescimento desse império financeiro amparou-se no fortalecimento de suas relações promíscuas com integrantes dos Três Poderes. Ele patrocinou promoções dos grupos Lide, comandado pelo ex-governador João Doria, Esfera, liderado por João Camargo, e o Grupo Voto, coordenado por Karim Miskulin. Também financiou eventos promovidos no Brasil e no exterior. Em abril de 2024, por exemplo, o Fórum Jurídico Brasil de Ideias, realizado em Londres, reuniu figurões, como os ministros do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Dias Toffoli, além do procurador-geral da República, Paulo Gonet.
Depois da descoberta do escândalo, outras revelações ampliaram as informações sobre o envolvimento de autoridades públicas e integrantes do Judiciário. Descobriu-se, por exemplo, o contrato de R$ 129 milhões assinado por Vorcaro e pela advogada Viviane Barci, mulher de Alexandre de Moraes. Dias antes da liquidação da instituição financeira, o ministro telefonou seis vezes para Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central.
A coluna de Augusto Nunes registra que, pela primeira vez na história deste país, ministros do STF se envolveram comprovadamente num caso escandaloso de corrupção. A ladroagem do Master também contaminou os dois campos políticos que polarizam a disputa presidencial deste ano.
Em 13 de maio, soube-se que o senador Flávio Bolsonaro conversou com Vorcaro sobre os R$ 61 milhões destinados a patrocinar um filme sobre a trajetória de Jair Bolsonaro. Até então, o candidato presidencial do PL negava qualquer relação com o banqueiro. Dias depois, noticiou-se o encontro entre ambos logo depois da soltura de Vorcaro.
Adalberto Piotto relata o encontro entre Lula e Vorcaro, omitido pela agenda oficial. Em dezembro de 2024, Lula aconselhou o banqueiro a não vender o Master ao BTG Pactual, argumentando que era iminente a mudança no comando do Banco Central. Em mensagem de WhatsApp, Vorcaro resumiu numa única palavra o que havia achado da reunião:
“Ótima”. O principal objetivo do banqueiro naquele momento era viabilizar a compra do Master pelo Banco de Brasília (BRB). Os bastidores dessa operação são detalhados na reportagem de Cristyan Costa.
As conexões entre o PT e o Master são bem mais antigas. Começaram na Bahia, quando o misterioso empresário Augusto Lima, que já conhecia o senador Jaques Wagner, virou sócio da instituição financeira.
Carlo Cauti reconstrói os bastidores dessa aproximação,
considerada o primeiro ato do escândalo. Com o tempo, as
articulações se estenderam a diferentes partidos e grupos políticos
(veja o gráfico abaixo). Previsivelmente, como mostra a reportagem de
Sarah Peres, o centrão não ficou de fora.
Corrupção endêmica
No primeiro quarto deste século, a Operação Lava Jato desarticulou o maior esquema de corrupção já revelado desde o descobrimento. Centenas de envolvidos foram denunciados, e dezenas de políticos, empresários e empreiteiros acabaram condenados. Durante aqueles poucos anos, os brasileiros acreditaram que a lei enfim passara a valer para todos. O cenário mudou quando as investigações bateram na porta do Supremo Tribunal Federal. Em mensagens internas da Odebrecht, Dias Toffoli era identificado pelo codinome “o amigo do amigo do meu pai”.
A partir dali, a operação passou a sofrer sucessivas derrotas no Judiciário. Foram anulados ou revistos acordos, condenações e multas. Agora, no fim de 2025, o nome de Toffoli reapareceu associado a um escândalo que mistura bancos, lobby e influência institucional.
Nesta quinta-feira, 21, a Justiça rejeitou uma proposta de delação premiada apresentada por Daniel Vorcaro por considerá-la insuficiente. O banqueiro está preso preventivamente desde 4 de março. No Congresso, parlamentares defendem publicamente a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). Nos bastidores, contudo, condenam por recear o potencial destrutivo das investigações — a poucos meses da eleição presidencial. Tal atitude pode gerar uma reação negativa do eleitorado: as urnas ameaçam rechaçar os que insistem em acobertar a corrupção. Chegou a hora de instaurar uma CPI com suficiente musculatura para investigar tudo e todos.
Branca Nunes - Revista Oeste
*Com reportagem de Uiliam Grizafis e Luana Viana