sábado, 13 de maio de 2017

A minha garantia era Lula, diz Mônica sobre pagamento de campanha de Chávez

Julia Affonso, Luiz Vassallo, Fábio Fabrini e Fábio Serapião - O Estado de São Paulo

Apesar de acreditar que o petista poderia ajudar no recebimento de valores pelo trabalho de propaganda do ex-presidente da Venezuela, marqueteira disse que levou 'um cano histórico' porque o então presidente do país vizinho não pagou US$ 15 milhões


Lula. Foto: Nacho Doce/Reuters
O ex-presidente Luiz Inácio da Silva era ‘a garantia’ da empresária Mônica Moura, mulher do marqueteiro João Santana, para receber, em 2012, pagamentos relativos à campanha de reeleição do então presidente Hugo Chávez, na Venezuela. A informação foi relatada por Mônica ao Ministério Público Federal em delação premiada.
Ela contou que cobrou US$ 35 milhões pela campanha de Chávez, mas não recebeu o montante total. Segundo Mônica, a Odebrecht arcou com cerca de U$$ 7 milhões, a Andrade Gutierrez pagou U$$ 2 milhões, por meio de depósito na Suíça, na conta da Shellbill. Restou uma dívida de U$$ 15 milhões ‘nunca saldada’.
O valor que cabia à Andrade, segundo a delatora, era um montante de US$ 4 milhões. “Pagou, dos 4 milhões, só pagou 2. Eu cobrei bastante os outros 2, mas não chegou a se resolver.”
A campanha foi feita sem contrato, de acordo com a empresária. “A minha garantia era Lula, eu confiava muito em Lula, que ele ia resolver, a minha garantia assim de que, e o nosso próprio trabalho”, relatou.

Documento

Documento

Mônica Moura afirmou que cobrou os valores do então diretor-geral da Andrade na Venezuela, identificado como Claudio Luis.
“O da Andrade deu muito mais trabalho para receber. Demorou, eu tive vários encontros com esse sr, rapaz, no Brasil também”, contou.
“Ele vinha muito ao Brasil, então, às vezes, a gente se encontrava no prédio da Andrade lá em São Paulo, no escritório da Andrade Gutierrez, acho que é um prédio todo deles também que eles têm ali, para cobrar, porque o negócio não andava, os depósitos não chegavam. Ele ficava dizendo: ‘ah, temos dificuldade’. Tem uma época que eu me lembro que ele também queria fazer um contrato, o famoso contrato. Acabamos não fazendo um contrato. Eu sei que depois de algum tempo, demorou um pouco, demorou bastante, talvez foi depois da campanha já terminada, acho que foi, tenho tudo no extrato, ele pagou 2 milhões, pagou metade. Aqui entrou em parcelas de US$ 100 mil na minha conta.”
Mônica Moura relatou que procurou o diretor da empreiteira ‘várias vezes’, teve encontros, mas não recebeu o pagamento.
A empresário contou que chegou a ameaçar por falta de pagamento. “Eu já cheguei a ameaçar: ‘gente, se vocês não me pagarem, vou ter que conversar no Brasil. Quem me chamou para cá foi o presidente Lula’. Ele não era presidente na época, mas eu sempre chamei Lula assim. ‘Eu vou ter que chamar, vou ter que conversar com ele, porque não dá.’ ‘Não, a gente vai resolver, é só uma questão burocrática, a gente tem muita dificuldade de fazer este tipo de transferência, mas vamos fazer um contrato’”, disse.
Segundo Mônica Moura, a falta de pagamento fez o casal procurar Lula. “Várias vezes, mas não eu, o João”, disse.
“O João uma vez conversou com o Zé Dirceu, mas o Zé Dirceu saía fora, dizia: ‘não tenho nada a ver com financiamento, eu só fiz o, só fiz a intermediação. João conversava com Lula: ‘não, se acalme, vou conversar com presidente Chávez, isso vai ser resolvido’.”
A empresária disse ainda. “O que aconteceu: no ano seguinte, o Chávez morreu, tipo seis meses depois que ele tomou posse. Nós perdemos completamente qualquer chance de cobrar esse dinheiro, de receber esse dinheiro. A gente tomou um cano histórico. A gente tomou um cano de mais ou menos US$ 15 milhões.”
COM A PALAVRA, A DEFESA DE LULA
Nota
O ex-presidente Lula nunca tratou direta ou indiretamente do financiamento das campanhas eleitorais em que foi candidato ou apoiador.
Lula sempre considerou este assunto de competência dos tesoureiros do partido e das campanhas, que prestam contas à Justiça Eleitoral.
São mentirosas, portanto, as afirmações atribuídas ao Sr. João Santana e à Sra. Monica Moura, claramente vinculadas à negociação de benefícios penais na Operação Lava Jato.
Hoje está muito claro que citar o nome de Lula tornou-se condição obrigatória para que réus e até condenados obtenham os favores na promotoria no âmbito da Operação Lava Jato. Há pedido formal de investigação protocolado na Procuradoria Geral da República com base em denúncia veiculada por órgãos de imprensa.
Nenhum dos delatores, no entanto, apresentou qualquer prova das menções feitas a Lula. Todas as menções se referem a supostas conversas com terceiras pessoas, ao ouvir dizer ou a conclusões subjetivas.
Uma ação penal se decide na base de provas. E provas contra Lula não há, porque ele sempre atuou dentro da lei.
Cristiano Zanin Martins e Valeska Teixeira Martins
COM A PALAVRA, A ANDRADE GUTIERREZ
A Andrade Gutierrez informa que segue colaborando com as investigações em curso dentro do acordo de leniência firmado pela empresa com o Ministério Público Federal e reforça seu compromisso público de esclarecer e corrigir todos os fatos irregulares ocorridos no passado.

Nenhum comentário:

Postar um comentário