segunda-feira, 29 de maio de 2017

Sofia Coppola vence como melhor diretora em Cannes: 'Queria explorar o universo das mulheres'

Luiz Carlos Merten - O Estado de São Paulo



CANNES - Havia a expectativa de que o júri presidido por Pedro Almodóvar atribuísse a Palma de Ouro para uma mulher.
Nestes 70 anos de Festival de Cannes, apenas uma mulher – Jane Campion – venceu o cobiçado prêmio, por O Piano. No final, Almodóvar e seu júri premiaram um homem com a Palma, o sueco Ruben Ostlund, por The Square.

Sofia Coppola
Sofia Coppola  Foto: EFE/EPA/JULIEN WARNAND

Mas o júri fez história, sim. Pela segunda vez em mais de 50 anos uma mulher, Sofia Coppola, ganhou o prêmio de mise-en-scène (direção). E foi por The Beguiled, remake de um clássico de Don Siegel com Clint Eastwood, no começo dos anos 1970.
Existe um olhar feminino no cinema? Siegel ajudou a erigir a imagem de Clint como macho, em filmes como Meu Nome É Coogan e o primeiro Dirty Harry. Em O Estranho Que Nós Amamos, título que The Beguiled recebeu no Brasil, Clint faz um soldado ferido que, durante a Guerra Civil nos EUA, se abriga num pensionato de mulheres.
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'The Square' leva Palma de Ouro em Cannes

Sua presença desperta desejos reprimidos. Siegel fez seu filme da perspectiva do homem. Sofia, das mulheres. Durante cerca de 40 minutos, ela conversou com o repórter no jardim do Hotel Residéal.
Estava feliz e, naquele momento, muito relaxada. Prêmio? “É melhor não ficar pensando muito nisso, para não me estressar.” Sofia desestressou tanto que foi embora. Não recebeu seu prêmio, mas inscreveu seu nome na história de Cannes.
Por que o remake de Siegel?
É um diretor que me interessa muito, por seus métodos de montagem. Estava revendo seus filmes e tombei sobre esse. Achei muito forte, perturbador. Estava procurando tema para um próximo filme. Minha produtora me sugeriu o remake. Nunca havia pensado em refazer um filme. Acho que, no fundo, temia ser influenciada pelo original. Mas nesse caso dei-me conta de que seria possível recontar a história numa perspectiva bem diversa. Siegel colocou ênfase no soldado. Eu queria explorar o universo das mulheres.
Acredita nessa divisão – olhar masculino e outro feminino no cinema?
Você é do ramo. Sabe tão bem como eu que existem mulheres com uma direção mais viril que a maioria dos homens. Kathryn Bigelow talvez seja o melhor exemplo. Também existem homens com uma sensibilidade particular para representar o feminino. O presidente do júri Almodóvar é outro exemplo. Não me sinto como uma mulher na direção, mas a verdade é que sou. Meus interesses apontam para determinados temas, só que, no set, tenho de comandar a equipe como qualquer diretor. Não posso ter nenhuma crise de mulherzinha – nunca tive. Mas meu filme é diferente do de (Don) Siegel, e isso se vê.
Na história, há uma amputação que vira representação simbólica da castração. Siegel filmava a cena de forma muito violenta. Sua amputação ocorre fora de quadro. Muita coisa no seu filme ocorre atrás de portas fechadas. Sua mise-en-scène é muito rica, essa história de abrir e fechar portas ao longo do filme. De onde vem?
Da história. Veja que o soldado irrompe nesse mundo de mulheres. Sua presença viril desperta desejos velados. Como macho, ele pode ser um caçador e as mulheres, suas presas. Mas ele está ferido, e também vira uma presa. A porta que se abre e fecha ilustra essa espécie de armadilha. A questão central de The Beguiled é – quem é a presa. Elas, ou ele?
Seus filmes têm visuais muito elaborados. Esse começa luminoso e vai ficando sombrio. Como chegou a esse conceito?
De novo, foi a história. Um dos grandes filmes do cinema é ...E o Vento Levou. Aquela visão romântica do Sul, das mulheres do Sul. E lá também a narrativa começa num clima de festa, antes que chegue a guerra. Aqui, já estamos na guerra, mas ela é mantida longe da escola. Com a chegada do soldado, o tom muda. E eu adoto aquilo que se chama de gótico sulista.
Você adora os detalhes. De onde vem isso?
Criei-me frequentando os sets de meu pai e ele é muito atento aos detalhes. Todos os grandes são. Não importa se o filme é de época ou contemporâneo. Os detalhes criam o clima, dão substância aos personagens.
Por falar neles, os atores. Por que Colin (Farrell)?
Porque precisava de um homem bonito, viril. Era muito interessante vê-lo interagir com todas aquelas atrizes – Nicole Kidman, Kisrten Dunst, Elle Fanning. Comecei por elas, na verdade.
Você é pop aqui em Cannes. A multidão grita seu nome.
Tem a ver com meu pai, que fez história nesse festival. Mas eu me casei com um francês, morei em Paris. Tudo isso cria a proximidade.
A crítica que a demoliu como atriz no Chefão 3 agora a elogia. Como é isso?
Nunca me senti atriz, e rapidamente compreendi que tentavam atingir meu pai. Acho que encontrei meu caminho com As Virgens Suicidas. Mesmo assim, a acolhida a Encontros e Desencontros me surpreendeu. Não esperava tanto, mas era um reconhecimento para o meu caminho.
Falamos tanto de seu pai. Qual seu filme preferido dele?
A Conversação, que ganhou a Palma de Ouro (em 1974).
E O Chefão?
Tive de rever o filme recentemente. Posso gostar mais de A Conversação, mas não existe lição de cinema narrativo melhor que a do primeiro Chefão.

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