Konrad Adenauer tinha 73 anos em 1949, quando assumiu a chefia do governo da Alemanha Ocidental, e 87 ao deixar o cargo em 1963. Entre a posse e a renúncia, reconstruiu o país devastado pela Segunda Guerra Mundial. Nelson Mandela tinha 76 anos em 1994, quando assumiu a presidência da África do Sul, e 81 ao deixar o cargo em 1999. Nesse período, transformou a terra dividida e dilacerada pelo apartheid numa nação democrática.
Se tivessem nascido por aqui, os dois admiráveis até poderiam tentar enfeitar o peito com a faixa presidencial. Mas, até ontem, estariam proibidos de sonhar com a toga de ministro do Supremo Tribunal Federal. Num Brasil em que a juventude acaba só aos 29 anos e a velhice começa já aos 60, um magistrado tem de aposentar-se aos 70.
Nesta quarta-feira, a Câmara dos Deputados começou a revogar essa restrição injustificável. Aprovada em primeira votação, basta a segunda para que entre em vigor a proposta de emenda constitucional (PEC) que adia por cinco anos a hora da despedida. É uma homenagem à sabedoria, à sensatez e ao conhecimento. A imprensa poderia batizar de PEC da Maturidade o que resolveu apelidar de “PEC da Bengala”.
Além de prolongar a permanência no STF de septuagenários honrados, a decisão da Câmara vai impedir que Dilma Rousseff amplie a bancada dos ministros da defesa de culpados com a nomeação de bacharéis cinquentões que tratam a pontapés o Código Penal, a Constituição, a ética e a verdade. Luiz Inácio Adams e José Eduardo Cardozo, por exemplo.
O advogado-geral da União (50) e o ministro da Justiça (55) estão longe da bengala. Mas nunca estiveram tão perto de uma velha e boa bengalada no lombo. Como aprendeu José Dirceu, não há corretivo mais pedagógico para gente que perdeu a vergonha.
