segunda-feira, 13 de julho de 2020

Presidente é reeleito na Polônia e fortalece política conservadora

VARSÓVIA (POLÔNIA)
O presidente polonês, Andrzej Duda, venceu a eleição deste domingo, mostram dados de 99,97% das urnas divulgados nesta segunda (13) pela comissão eleitoral. Duda, apoiado pelo partido do governo, o nacionalista Lei e Justiça (PiS), tinha 51,21% dos votos, contra 48,79% de Rafal Trzaskowski (pronuncia-se tshaskófski), prefeito de Varsóvia e candidato do liberal Plataforma Cívica.

Em jogo nesta eleição estava a facilidade que o partido governista terá para levar adiante as reformas estruturais de Estado e medidas conservadoras de restrição a direitos dos LGBT, que começou a implantar ao voltar ao poder, em 2015.
Andrzej Duda, presidente da Polônia e candidato à reeleição com o apoio do PiS (partido que detém o governo), faz pronunciamento depois de uma pesquisa sobre o pleito que acontece no país
Andrzej Duda, presidente da Polônia e candidato à reeleição com o apoio do PiS (partido que detém o governo), faz pronunciamento depois de uma pesquisa sobre o pleito que acontece no país - Kacper Pempel/Reuters
A Presidência é um cargo institucional em regimes parlamentaristas (cujo chefe de governo é o primeiro-ministro), mas na Polônia seu ocupante pode vetar leis e barrar indicações à Justiça.

Duda não deve ser obstáculo a iniciativas do governo, que já mudou o sistema de educação, restringiu a propriedade de terras por estrangeiros e aumentou o controle sobre a mídia pública.

Nos últimos anos, sua ação mais criticada tem sido a investida para elevar seu poder sobre o Judiciário, principalmente da Corte Constitucional (equivalente ao Supremo brasileiro).

Com um aliado na Presidência, o PiS ganha pista livre até pelo menos as próximas eleições parlamentares, em 2023. Esse caráter plebiscitário levou 68% dos mais de 30 milhões de eleitores às urnas, segundo a comissão eleitoral, um recorde no país, onde o voto não é obrigatório.
A maior taxa de comparecimento já registrada havia sido de 64,7%, no segundo turno de 1995, uma eleição também muito disputada, em que os poloneses foram dormir no domingo acreditando que Lech Walesa havia sido reeleito, mas acordaram na segunda com o social-democrata Aleksander Kwaśniewski como vencedor das urnas, com 51,7% dos votos.

Após o fechamento das zonas eleitorais, Duda comemorou em discurso “a vitória nas pesquisas” e reafirmou os temas sobre os quais construiu sua campanha: prometeu uma coalizão para “fortalecer os valores poloneses, valores como família, comunidade polonesa, história, tradição”.

Com a pesquisa boca de urna indicando uma vantagem apertada para seu adversário e atual presidente, o comício de Trzaskowski foi menos triunfante: “Estou absolutamente convencido de que nada nos derrotará, porque já vencemos, independentemente do resultado exato”.

O candidato da oposição —que entrou na corrida apenas em maio, depois que o primeiro turno foi cancelado pela pandemia de coronavírus— comemorou uma campanha “que trouxe esperança a uma Polônia aberta, sorridente, tolerante e europeia”.

O detalhamento da pesquisa deixa mais clara a divisão atual da Polônia: segundo o instituto Ipsos, que entrevistou os eleitores durante o domingo, Trzaskowski venceu nas grandes cidades e nas regiões oeste e norte, que não faziam parte da Polônia até o final da Segunda Guerra, enquanto o presidente venceu nas cidades menores das regiões leste e sul do país, de povoamento mais antigo e tradicional.

Nessas regiões, fala mais forte o discurso do líder do PiS, o ex-primeiro-ministro Jaroslaw Kaczyński, de que a oposição, mais próxima da União Europeia, quer “entregar a Polônia aos estrangeiros”.

Na pesquisa boca de urna,, Duda teve 77,3% dos votos dos menos escolarizados, e Trzaskowski levou 65,9% dos graduados no ensino superior. O candidato do governo também liderou entre os mais idosos: 61,7% dos que têm 60 anos ou mais o escolheram, enquanto 64,4% dos jovens de 18 a 29 anos e cerca de 55% dos que têm de 30 a 49 anos votaram na oposição.

Já na divisão por sexo a pesquisa não mostra uma vantagem expressiva do candidato da oposição, como esperavam analistas e militantes feministas. Trzaskowski aparece com 50,4% dos votos, contra 49,6% de Duda.
Na noite de domingo, analistas apontavam que a participação eleitoral aumentou em cidades menores, onde o PiS tem vantagem —durante a campanha, o governo prometeu caminhões de bombeiro às cidades de até 20 mil habitantes que tivessem maior comparecimento às urnas.
Nas menores cidades do sul e do leste também está a maioria da população mais pobre do país, beneficiada por programas sociais lançados pelo PiS, como um pagamento mensal do equivalente a R$ 650 por criança e o bloqueio do aumento da idade de aposentadoria.

Ao final da votação, Duda convidou seu opositor para visitá-lo no palácio na mesma noite, “para que o gesto simbólico de um aperto de mãos seja visto por todos os compatriotas e aplaque as emoções da campanha, que às vezes vão longe demais”.

Pelas redes sociais, Trzaskowski respondeu que a reunião era “uma boa ideia”, mas que “o momento mais apropriado parece ser depois que os resultados oficiais forem divulgados”.
Apesar do gesto de aproximação, analistas entrevistados pela mídia polonesa na manhã desta segunda não acreditam que ela se reflita na política polonesa.

Com informações de Ana Estela de Sousa Pinto, Folha de São Paulo