Lei de Gérson virou Carta Magna da malandragem
M eses antes da Copa da Suécia, Nelson Rodrigues escreveu que o problema do brasileiro era o complexo de vira-lata. Essa deformação impedia, por exemplo, que um nativo do País do Futebol enxergasse na seleção de 1958 o melhor time da história. Se estivesse vivo, o cronista genial ressalvaria que foi assim entre a derrota contra o Uruguai na final no Maracanã em 1950 e o primeiro triunfo na disputa da Taça Jules Rimet.
De lá para cá, o problema diagnosticado por Nelson foi substituído por outras disfunções bem mais graves. Há, por exemplo, o complexo do pobretão metido a besta: milhões de dependentes desinformados acreditam que subiram na vida ao receber a mesada do Bolsa Família, como um nobre arruinado que disfarça a decadência com um fraque puído nos fundilhos.
Há também a síndrome do comigo-ninguém-pode: seus portadores acham que basta recorrer ao jeitinho brasileiro para tapear gringos otários. E há a que afeta a imensidão de gente que se orienta pela Lei de Gérson: é preciso (e é possível) levar vantagem em tudo. Pausa para a informação: fui eu quem inventou essa expressão em meados de 1987, quando chefiava a sucursal do Jornal do Brasil em São Paulo. O país desgovernado por José Sarney lembrava um viveiro de vigaristas, do trombadinha que roubava a bolsa de uma septuagenária ao presidente da República que iludia a nação com planos econômicos imbecis.
Perdi a paciência ao ver mais uma vez o comercial da marca de cigarros Vila Rica. “Você, que sempre fumou, por que Vila Rica?”, perguntava a voz do locutor Gérson de Oliveira Nunes, o grande camisa 8 da seleção de 1970. “Por que pagar mais caro se Vila me dá tudo o que eu quero de um bom cigarro?”, dizia o craque. “Gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve vantagem você também.”
Telefonei para José Antonio Nascimento Britto, um dos donos do jornal sediado no Rio, e sugeri a publicação de um editorial sobre o que me parecia uma ode ao cinismo endêmico. Enquanto escrevia, ocorreu-me batizar de Lei de Gérson aquela apologia da safadeza lucrativa.
Nunca reivindiquei tal paternidade por dois motivos. Primeiro: por traduzirem a opinião do dono do jornal, editoriais não incluem a assinatura do autor, e sempre achei um tanto bizarro sair por aí jurando, sem provas materiais, que escrevera isto ou aquilo. Segundo motivo: a expressão logo se tornou popular, foi incorporada pela linguagem corrente e acabou associando um cracaço que sempre admirei à normalização da malandragem. Isso me deixou constrangido. Embora tardiamente, peço desculpas a Gérson. O criador dos mais esplêndidos lançamentos de longa distância vistos em campos de futebol apenas leu o que algum publicitário escreveu. Mas reafirmo a essência do editorial. Estava correto. E, para desconsolo do Brasil que pensa e presta, dispensa atualizações.
Nestes tempos estranhos, em que a Constituição é diariamente mandada às favas por ministros do Supremo encarregados de preservá-la, a Lei de Gérson foi promovida a Carta Magna das incontáveis tribos de espertalhões especializados em vantagens imorais, favores obscenos, propinas multimilionárias, ladroagens amazônicas e outros tipos de assassinato da honradez.
Uma delas é a dos Dependentes de Rouanet, formada por cantores, cineastas, atores e demais artistas que, deserdados por plateias pagantes, vivem de adjutórios federais tungados dos pagadores de impostos. A retribuição vem com a campanha eleitoral. Espalha-se por outras aldeias a nação dos Governistas Sempre, composta por políticos que, tão logo termina uma disputa nas urnas, declaram apoio ao vencedor oficial, seja ele quem for. Fora o abismo econômico e social que separa os favorecidos, não há diferenças notáveis entre o beneficiário do Bolsa Família que aumenta a mesada com filhos inexistentes e o dono de partido que pede mais um ministério a quem fingiu combater durante a campanha.
Ou entre o juiz de futebol que aceita subornos e um ministro do Supremo que vira multimilionário com a venda de proteção a banqueiros bandidos. Tampouco há fronteiras visíveis entre um presidente de escola de samba que compra jurados na Sapucaí e um presidente da República que se junta a parceiros do Judiciário para fazer o diabo no 2º turno da eleição. Ou entre uma Dilma Rousseff contemplada com cinco diferentes bolsasditadura e a companheirada do baixo clero distribuída por quase 65 mil cargos de confiança. São todos vigaristas de nascença. Todos passam a vida tentando levar vantagem em tudo. Todos são caso de polícia. Gente assim nem precisa perder a vergonha. Só se perde o que se tem.
Augusto Nunes - Revista Oeste


