A herança maldita de Lula se volta contra ele próprio. E é enorme em déficits e rombos do próprio governo e endividamentos de famílias e empresas. Quem vai tapar o buraco?
O Brasil foi dormir na noite deste domingo, 25 de outubro, sem futuro definido. Lula saiu vitorioso, mas Flávio Bolsonaro não reconheceu o resultado. Nem poderia. A sucessão de abuso de poder pelo governo federal na eleição, somada à manobra de Cristiano Zanin, ministro do Supremo Tribunal Federal, em prorrogar a eleição por mais duas horas, com uma canetada monocrática, é sem precedentes na vida nacional. A virada de Lula sobre Flávio não consegue ser explicada pela estatística. De uma vantagem em torno de 2 milhões de votos no 1º turno, Flávio Bolsonaro perdeu a eleição neste domingo com uma diferença de mais de 4 milhões de votos.
Lula teve um acréscimo superior a 10 milhões de votos. Os números eleitorais poderão ter alguma explicação na redução da abstenção — apenas parcial —, em alguma virada de opinião do eleitor e muito na compra descarada de votos de Lula com a série de medidas eleitoreiras que anunciou às vésperas da eleição e dias antes do 2º turno.
No Brasil, sem lei de Lula 3, distante da democracia, o ministro Gilmar Mendes, do STF, autorizou o governo a pagar um aumento do Bolsa Família na semana que antecedeu a votação deste domingo. Foi um atropelo da Justiça Eleitoral e da paridade de armas entre os candidatos, com desmesurado abuso de poder pelo presidente que concorria à reeleição. É a democracia que foi afrontada. De novo. Como já fora na perseguição que o bolsonarismo e a direita sofreram em 2022, quando da volta de Lula ao poder. Questões de legalidade eleitoral à parte, concentro-me aqui no futuro econômico do país sob Lula 4. Ou completa ausência de futuro.
O primeiro sinal foi dado ainda na noite de domingo. Na Bolsa de Nova York, a principal ETF ligada a ativos brasileiros, um fundo de investimento, despencou 19,63% nos primeiros momentos do anúncio da vitória de Lula. A mesma ETF havia crescido quase 2% na semana passada com a expectativa de vitória de Flávio. O comportamento dos investidores americanos é um sinal de crise à vista. Quem vai investir no país e quem vai pagar os sucessivos déficits do governo?
No Brasil dos brasileiros que trabalham e produzem, que viveram os últimos quatro anos aprisionados por uma política velha, perdulária e que lhes amedrontava diariamente com perseguição estatal, Lula continua um peso insuportável nas costas. Algo inimaginável até poucos meses atrás. Continuará a se ter um governo jogando a favor de si e contra a livre iniciativa.
Lula 3 pode ser definido em duas palavras: herança maldita. E quando me refiro a essa expressão que o próprio Lula usou lá atrás, em 2003, para injustamente definir o legado dos oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso, que ele sucedia, é porque o país só veio a experimentar tal herança muito tempo depois, com o desastre de Dilma Rousseff. Afastada do cargo em 2016, depois de 13 anos e meio de governos petistas, o ápice da incompetência e maldição petista sobre o país havia sido atingido. A herança maldita que Lula dizia ter herdado era mentira. A que Dilma deixou e a que ele deixará são reais.
Os crimes de responsabilidade fiscal e a mais brutal recessão econômica de nossa história de 10 anos atrás levaram a afilhada de Lula ao impeachment constitucional, que devolveu o Brasil aos brasileiros. Fato é que a “mulher sapiens” do “estoca vento” e que não enxerga as “nuvens” de dados cibernéticos praticamente moldou este terceiro mandato de Lula. E agora, Lula 4 herda de Lula 3 uma herança de degradação nas contas públicas e um mercado reticente em investir e acreditar no país. Neste 2026, depois de voltar ao poder e governar movido a bile, ódio e perseguição política, com um time de assessores mais afeiçoados a serviçais sem voz ativa e nenhuma perícia — o padrão do PT no governo —, Lula entrega para si algo ainda pior.
O descalabro fiscal “a la Dilma” vem acompanhado de um desarranjo institucional sem precedentes, fonte inesgotável de insegurança jurídica e descompasso com a Constituição, em que apenas ele, seu governo e seus aliados mais próximos ganharam. O Brasil, os brasileiros, todos os demais perderam. Inclusive o desavisado ou comprado eleitor de Lula nesta eleição.
Desde 2023, o país vem acumulando déficits primários que já somam mais de R$ 335 bilhões. Déficit primário é o quanto você gasta mais do que arrecada e sinaliza que está piorando a dívida do país como um todo. O déficit nominal, quando você também soma o quanto de juros o governo paga — e paga cada vez mais porque aumenta a dívida —, só em 2025 ultrapassou a marca de R$ 1 trilhão. Não por acaso, a relação dívida/PIB que Lula herdou como herança bendita de Bolsonaro, de 72%, atingiu o número astronômico da irresponsabilidade: 83%.
O governo atual não vê problema nisso, Lula trata o tema com desdém. José Sérgio Gabrielli, coordenador da campanha petista, chamou a crise fiscal de “fake news” e de que seria um “mito” que a alta da relação Dívida/PIB seja um problema. Declarações estúpidas ou de má-fé. Um governo que se endivida demais e despreza os mais básicos fundamentos da economia perde a confiança do mercado, que é quem financia o déficit do governo. Dinheiro não dá em árvore. É sempre alguém que aceita pagar por algo. Mas que já não está mais aceitando.
No fim de 2024, um primeiro sinal do descarrilamento entre o governo e a boa gestão. À época, o Tesouro chegou a não vender quase nenhum dos títulos da dívida que financiariam o rombo daquele ano por desconfiança da capacidade do governo de honrar contratos. Em junho deste ano, mais uma vez. Para rolar a dívida, o governo chegou a oferecer títulos de IPCA (a inflação oficial) mais 8,5% de rendimento líquido e não encontrou compradores.
Política e economia foram feitas para andarem juntas. Mas, quando a política ignora a matemática ou o significado das coisas, a conta não fecha. O governo insistiu no populismo e tentou vender a ideia de que dívida pública, rombo fiscal, e dificuldade em encontrar credores para a dívida pública seriam temas distantes da realidade cotidiana das pessoas. Erro de cálculo grosseiro. Economia é feita de gente. E gente respira, olha ao redor, faz contas e chega a conclusões.
Longe dos grandes números da macroeconomia, que dá a exata dimensão de terror das contas do governo, 82% das famílias brasileiras se viram endividadas. Quase 7 mil empresas recorreram à recuperação judicial ou extrajudicial porque não conseguiram lidar com o ambiente de juros altos e burocracia governamental. Da Brasília de Lula não vinha solução, vinha deboche: “se não tem picanha, come ovo”, disse o agora presidente derrotado. “O agro é fascista”, insistiu ele. São mais de 9,3 milhões de empresas negativadas com dívidas de R$ 244 bilhões. Parte disso tudo vem do agronegócio, o orgulho nacional que garante a balança comercial do país, mas é maltratado pelo presidente agora reeleito.
A crise no setor privado é endêmica e tem origem na Brasília lulopetista que piora a situação até no que só depende dela. As estatais voltaram a dar prejuízo astronômico. Até agosto desse ano, excluindo a Petrobras e a Eletrobras, as estatais geraram um rombo de R$ 24,3 bilhões. Só os Correios, estatal do primeiro escândalo petista do Mensalão, em 2005, têm um rombo acumulado de R$ 11,7 bilhões. E aí é que está a parte ainda mais preocupante da herança amaldiçoada pela política de baixo nível do atual governo. Lula 3 está se dando um governo abarrotado de gente incompetente, acomodada em cabides de emprego na máquina pública e uma república disfuncional, altamente partidarizada e corroída por interesses de compadrio, com cortes tomadas por juízes militantes que desfizeram o básico da democracia e da lei: a igualdade entre todos os brasileiros e a previsibilidade.
O retrocesso institucional no país é gigantesco. Basta ver a politização do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral, tomados por aliados de Lula e simpáticos à esquerda.
O descalabro institucional em que se transformou o país é de Lula. O custo eleitoral de quase R$ 300 bilhões das medidas eleitoreiras de Lula em campanha será do Lula, agora reeleito. Mas o custo Brasil, que piorou dramaticamente com o último governo até será a marca de Lula 4, mas terá de ser pago pelos brasileiros. Lula passará. O rombo econômico e o desmonte da república, despudorado de qualquer sentimento de ética e preservação da vida nacional, não!
Se a oposição não for bem-sucedida em seu justo questionamento sobre como estas eleições foram burladas pelo abuso de poder e intervencionismo do Supremo; ou se o novo Congresso eleito no início de outubro, majoritariamente conservador e de direita, não conseguir limitar um Lula 4, renovado em seu governo movido a bile, a resiliência brasileira será testada como nunca.
Adalberto Piotto - Revista Oeste


