sexta-feira, 12 de maio de 2017

Lula confirmou ter procurado Duque para falar sobre conta na Suíça

Ricardo Brandt, Fausto Macedo, Bruno Ribeiro e Luiz Vassallo - O Estado de São Paulo

Ex-presidente negou ao juiz Sérgio Moro ter pedido para que ex-diretor da Petrobras fechasse conta, mas admitiu ter buscado réu da Lava Jato, após investigação ser deflagrada para falar sobre tema ligado à corrupção


Lula. Foto: Reprodução


O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva confirmou em juízo que procurou o ex-diretor da Petrobrás Renato de Souza Duque, cota do PT no esquema de corrupção na estatal, para saber sobre conta secreta na Suíça investigada pela Operação Lava Jato. O petista foi interrogado pela primeira vez pelo juiz federal Sérgio Moro, nesta quarta-feira, 10, como réu.
“Tinha muito boato que estava sendo roubado dinheiro que o Duque tinha conta no exterior. Eu falei para o Vaccari, se você conhece o Duque eu queria falar com ele”, contou Lula, ao narrar sua versão sobre encontro que teve com o ex-diretor, em um hangar no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, em julho de 2014.
Moro questionou Lula, em um momento do depoimento de quase 5 horas, sobre esse encontro com Duque, revelado por ele há duas semanas, em juízo. Segundo o ex-diretor da estatal condenado a 57 anos e 7 meses de prisão e candidato a delator, que Lula o procurou e disse que não poderia existir conta na Suíça.
Duque atribuiu ao ex-presidente a frase: “Olha, presta atenção no que vou te dizer. Se tiver alguma coisa não pode ter, entendeu? Não pode ter nada no teu nome entendeu?”.
“Foi numa sala em Congonhas. E eu fiz a pergunta simples: tem matérias nos jornais e denúncias que você tem dinheiro no exterior. Que tá pegando da Petrobrás e colocando no exterior. Você tem conta no exterior? Ele disse: ‘eu não tenho’. Eu falei: ‘acabou, se não tem, não mentiu pra mim, mentiu para ele mesmo’”, afirmou Lula.
A força-tarefa da Lava Jato considera haver indícios de obstrução de provas no relato feito por Duque, em juízo. A confirmação de Lula de que buscou o ex-diretor para saber sobre o tema – apesar de negar ter ordenado o fechamento da conta – reforça as suspeitas.
Contradição. O episódio do encontro com Duque foi também um dos temas de contradição no interrogatório de Lula, na avaliação de procuradores da Lava Jato.
Inicialmente, antes da declaração sobre o encontro, Lula havia dito ao juiz Sérgio Moro que só tomou conhecimento da relação de Vaccari com Duque quando foi denunciado pelo Ministério Público Federal.
“Não sei. Eu sei que tinha porque, na denúncia, aparece que eles tinham relação”.
Em outro momento, após relatar a reunião em que admitiu ter pedido a Vaccari para intermediar o contato com o ex-diretor da estatal, o ex-presidente foi questionado pelo juiz Sérgio Moro: “Salvo equívoco, eu perguntei há pouco se o senhor sabia que ele tinha uma relação e o senhor disse: ‘não’. Então o senhor tinha conhecimento de que tinha essa relação”.
“Eu pedi para o Vaccari e perguntei se ele tinha como trazer o Duque numa reunião e ele falou que tinha. Isso não implica que ele tenha relação. Implica que ele podia conhecer”.
Ao ser questionado novamente se sabia ou não da relação entre ambos, Lula voltou a negar. “Eu quero lembrar o seguinte. Relação de amizade é uma coisa e relação é outra. Eu posso sair daqui dizendo: ‘olha, eu conheci dr. Moro, eu tenho relação com ele’. E, na verdade não tenho”.
O juiz Sérgio Moro voltou a perguntar sobre o tipo de relação que o ex-tesoureiro do PT tinha com o diretor da Petrobrás.
“Não sei. O Vaccari está preso, você pode perguntar para o Vaccari. O Duque está preso, você pode perguntar ao Duque”, rebateu.
No âmbito dos esquemas da Petrobrás, João Vaccari Neto foi condenado sob acusação de que intermediava propinas ao PT dentro da estatal. De acordo com depoimento de Renato Duque, o ex-tesoureiro era o arrecadador de vantagens ilícitas para o partido no âmbito de contratos na petrolífera.
A denúncia do Ministério Público Federal sustenta que Lula recebeu R$ 3,7 milhões em benefício próprio – de um valor de R$ 87 milhões de corrupção – da empreiteira OAS, entre 2006 e 2012. As acusações contra Lula são relativas ao recebimento de vantagens ilícitas da empreiteira por meio do triplex 164-A no Edifício Solaris, no Guarujá (SP), e ao armazenamento de bens do acervo presidencial, mantido pela Granero de 2011 a 2016. O petista é acusado de lavagem de dinheiro e corrupção.
Comando. Duque relatou em juízo três encontros com Lula e disse que ele era o “comandante” do esquema na Petrobrás.
“Nessas três vezes ficou claro, muito claro prá mim, que ele tinha pleno conhecimento de tudo, tinha o comando.”
O bilionário esquema de cartel e corrupção instalado na estatal, desbaratado pela Lava Jato, desviou em dez anos, mais de R$ 40 bilhões para bancar PT, PMDB e PP, e outros partidos da base.
Condenado e candidato a delator, Duque foi ouvido por Moro no dia 5, a seu pedido. “Ficou claro para mim que ele conhecia tudo.”
Duque que já foi condenado e aguarda julgamento em segunda instância, é réu nesse processo ao lado do ex-ministro Antonio Palocci. Eles teriam recebido propinas dos contratos de sondas para exploração do pré-sal.

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